INTRODUÇÃO A INSPEÇÃO SANITÁRIA DE CARNES DE AVES
A inspeção sanitária é uma atividade essencial no contexto
da saúde pública, cujo objetivo principal é assegurar que produtos de origem
animal e vegetal, destinados ao consumo humano, estejam em condições
higiênico-sanitárias adequadas. Trata-se de um conjunto de procedimentos
técnicos e administrativos que visa garantir a inocuidade dos alimentos, a
proteção da saúde dos consumidores e a conformidade dos produtos com as
exigências legais.
Segundo Franco e Landgraf (2008), a inspeção sanitária
consiste em uma avaliação criteriosa dos alimentos, abarcando desde a análise
visual e sensorial até a execução de testes laboratoriais específicos para
identificar possíveis contaminantes físicos, químicos ou biológicos. Esses
procedimentos são aplicados em todas as fases da cadeia produtiva, incluindo
produção, processamento, armazenamento, transporte e comercialização.
No âmbito da produção animal, como no caso da carne de
aves, a inspeção sanitária tem a função de detectar alterações patológicas,
condições de bemestar animal inadequadas e riscos potenciais à saúde humana. De
acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2007), a carne é um meio
altamente suscetível à contaminação microbiana, exigindo controle rigoroso em
todas as etapas, desde a criação até o consumidor final.
A legislação brasileira, por meio do Regulamento da Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal (RIISPOA), define a inspeção sanitária como o conjunto de medidas higiênico-sanitárias e tecnológicas que devem ser aplicadas a estabelecimentos que manipulam produtos de origem animal, garantindo que eles sejam próprios para o consumo (Brasil, 2017). O RIISPOA estabelece normas que disciplinam a instalação, o funcionamento e o controle sanitário dos frigoríficos e abatedouros, além de determinar os procedimentos de inspeção ante-mortem (antes do abate) e post-mortem (após o abate).
A inspeção ante-mortem visa avaliar o estado de saúde dos
animais vivos, observando sinais clínicos de doenças transmissíveis ou outras
anormalidades que possam comprometer a qualidade da carne. Já a inspeção
post-mortem envolve a análise minuciosa das carcaças e vísceras, buscando
evidências de doenças, lesões ou contaminações que possam representar riscos à
saúde humana (Doyle et al., 2006).
A implementação eficaz da inspeção sanitária depende do trabalho de profissionais treinados, como médicos
veterinários, engenheiros de
alimentos e técnicos em inspeção, que aplicam protocolos padronizados de
avaliação e registro de não conformidades. Esses profissionais devem atuar de
maneira independente, seguindo critérios científicos e éticos que priorizem a
saúde pública acima de interesses econômicos (Jay, 2005).
Além da detecção de produtos impróprios para o consumo, a
inspeção sanitária também desempenha um papel preventivo, educando produtores,
processadores e comerciantes sobre práticas adequadas de higiene e segurança
alimentar. Dessa forma, a inspeção sanitária contribui não apenas para a
proteção do consumidor, mas também para a valorização dos produtos no mercado
nacional e internacional, reforçando a competitividade dos setores
agroindustrial e alimentício.
Com o aumento das exigências do mercado global por
alimentos seguros e de alta qualidade, a inspeção sanitária tornou-se ainda
mais relevante. Organizações internacionais, como a Organização Mundial do
Comércio (OMC) e a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação
(FAO), reforçam a importância da harmonização das normas sanitárias entre os
países, a fim de facilitar o comércio e proteger a saúde pública mundial
(FAO/OMS, 2009).
Em síntese, a inspeção sanitária é um instrumento
fundamental para assegurar a qualidade dos alimentos, proteger a saúde dos
consumidores, promover o bem-estar animal e fomentar a confiança nos produtos
de origem animal e vegetal. Sua prática contínua e eficaz é indispensável para
o funcionamento de sistemas alimentares sustentáveis e seguros em âmbito
nacional e internacional.
• BRASIL.
Decreto nº 9.013, de 29 de março de 2017. Regulamenta a inspeção industrial e
sanitária de produtos de origem animal (RIISPOA). Diário Oficial da União,
Brasília, DF, 30 mar. 2017.
• DOYLE,
M. P.; BEUCHAT, L. R.; MONTVILLE, T. J. Food
Microbiology: Fundamentals and Frontiers. 3. ed. Washington: ASM
Press, 2006.
• FAO/OMS.
Codex Alimentarius: Code of Hygienic
Practice for Meat. CAC/RCP 58-2005. Rome: Food and Agriculture Organization
of the United Nations/World Health Organization, 2009.
• FRANCO,
B. D. G. M.; LANDGRAF, M. Microbiologia
dos
Alimentos. 2.
ed. São Paulo: Atheneu, 2008.
• JAY,
J. M. Microbiologia de Alimentos. 6.
ed. Porto Alegre: Artmed, 2005.
• ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Food Safety and Foodborne Illness. Geneva: World Health Organization, 2007.
A produção de carne de aves, notadamente de frangos de
corte, ocupa posição de destaque no cenário agroindustrial mundial, devido à
crescente demanda por proteínas animais acessíveis e de alta qualidade. A
avicultura moderna é caracterizada pela aplicação intensiva de tecnologia,
genética e boas práticas de manejo, com o objetivo de assegurar eficiência
produtiva e qualidade sanitária. Nesse contexto, a definição dos principais
objetivos na produção de carne de aves é fundamental para garantir a sustentabilidade
do setor, a segurança alimentar e a proteção da saúde pública.
Segundo Silva e Silva (2018), o primeiro grande objetivo na produção de carne de aves é a obtenção de produtos seguros para o consumo humano. A segurança alimentar envolve a adoção de práticas sanitárias rigorosas durante toda a cadeia produtiva, desde a criação dos animais até o processamento da carne. Isso inclui a prevenção de doenças zoonóticas, o controle de contaminantes químicos e microbiológicos e a implementação de programas de biosseguridade nas granjas.
Outro objetivo central é a qualidade da carne, que abrange atributos físicos (cor, textura,
maciez), químicos (composição nutricional) e sensoriais (sabor e odor) que
influenciam a aceitação do produto pelo consumidor (Olivo et al., 2001). A
qualidade da carne está diretamente relacionada ao manejo préabate, ao
transporte, ao processamento e às condições de estresse a que as aves são
submetidas. O estresse pré-abate, por exemplo, pode causar defeitos como carne
PSE (pale, soft, exudative) ou DFD (dark, firm, dry), prejudicando o valor
comercial do produto.
A eficiência
produtiva constitui também um objetivo estratégico. Trata-se da maximização
da conversão alimentar, isto é, a capacidade das aves de transformar a ração
consumida em ganho de peso. De acordo com Havenstein et al. (2003), os avanços
genéticos e nutricionais permitiram reduções significativas na conversão
alimentar, o que representa menor custo de produção e maior sustentabilidade
ambiental, uma vez que há redução no uso de insumos e menor emissão de
resíduos.
O bem-estar animal emergiu nas últimas décadas como um objetivo de crescente importância, impulsionado tanto pela consciência ética quanto pelas exigências dos mercados consumidores (Mench, 2008). O atendimento às necessidades fisiológicas, comportamentais e sanitárias das aves é fundamental não apenas por questões morais, mas também porque
animais submetidos a condições de estresse apresentam
desempenho produtivo inferior e maior suscetibilidade a doenças, afetando a
qualidade da carne e a produtividade.
Ainda, o atendimento
às normas legais e regulatórias é um objetivo que permeia toda a produção
de carne de aves. No Brasil, o cumprimento do Regulamento de Inspeção
Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal (RIISPOA) e das Instruções
Normativas do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) é
obrigatório. No cenário internacional, a observância das normas do Codex
Alimentarius e dos requisitos sanitários de países importadores é essencial
para garantir a aceitação dos produtos no mercado externo (FAO/OMS, 2009).
Por fim, destaca-se como objetivo a sustentabilidade ambiental. A produção avícola busca adotar
práticas que reduzam o impacto ambiental, como o uso racional da água, o
tratamento adequado de resíduos e a mitigação de emissões de gases de efeito
estufa. A integração entre produtividade, proteção ambiental e responsabilidade
social é vista como fundamental para a perenidade da atividade (Medeiros et
al., 2020).
Portanto, a produção de carne de aves envolve uma abordagem
multifatorial, que integra segurança alimentar, qualidade do produto,
eficiência econômica, bem-estar animal, conformidade legal e sustentabilidade
ambiental. A harmonização desses objetivos é essencial para atender às
expectativas dos consumidores e às exigências do mercado globalizado,
garantindo a competitividade e a responsabilidade socioambiental do setor
avícola.
• FAO/OMS.
Codex Alimentarius: Code of Hygienic
Practice for Meat. CAC/RCP 58-2005. Rome: Food and Agriculture Organization
of the United Nations/World Health Organization, 2009.
• HAVENSTEIN,
G. B.; FERKET, P. R.; QURESHI, M. A. Growth, livability, and feed conversion of
1957 versus 2001 broilers when fed representative 1957 and 2001 broiler diets. Poultry Science, v. 82, n. 10, p.
1500-1508, 2003.
• MEDÉIROS,
B. B.; VILELA, R. S.; MARTINS, S. R. Avaliação do desempenho ambiental de
sistemas de produção de frangos de corte no Brasil. Revista Ambiente & Água, v. 15, n. 5, p. 1-17, 2020.
• MENCH,
J. A. Farm animal welfare in the USA: Farming practices, research, education,
regulation, and assurance programs. Applied
Animal Behaviour Science, v. 113, n. 4, p. 298-312, 2008.
• OLIVO, R.; SHIMOKOMAKI, M.; TERRA, N. N. Características físico-químicas da
carne de
frango industrializada no Brasil. Ciência
e Tecnologia de Alimentos, v. 21, n. 3, p. 337-341, 2001.
• SILVA,
E. N.; SILVA, C. J. da. Produção de
Frangos de Corte. 2. ed. Viçosa: Editora UFV, 2018.
A saúde pública é uma área fundamental que busca proteger e
promover o bem-estar coletivo, prevenindo doenças, prolongando a vida e
promovendo a saúde por meio de esforços organizados da sociedade. Dentro desse
escopo, as práticas relacionadas à produção, processamento e comercialização de
alimentos, especialmente carnes de origem animal como a de aves, possuem
impacto direto e significativo sobre a saúde das populações.
A segurança dos alimentos é uma das bases da saúde pública
moderna. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2007), doenças
transmitidas por alimentos (DTAs) representam um dos maiores riscos à saúde
pública global, afetando milhões de pessoas todos os anos. Produtos cárneos
contaminados, inadequadamente manipulados ou mal processados são veículos
comuns de agentes patogênicos, como Salmonella
spp., Campylobacter spp. e Escherichia coli patogênica, que podem
causar surtos de infecção alimentar de gravidade variável, desde desconfortos
gastrointestinais leves até doenças sistêmicas graves e morte.
Além dos riscos microbiológicos, existem também
preocupações com contaminantes químicos, como resíduos de medicamentos
veterinários, metais pesados e toxinas. De acordo com Doyle et al. (2006), a
presença de resíduos químicos acima dos limites permitidos pode acarretar
toxicidade crônica, reações alérgicas e a seleção de cepas bacterianas
resistentes a antibióticos, o que constitui uma ameaça crescente à saúde
pública mundial.
O impacto da resistência antimicrobiana (RAM) é
particularmente relevante. A Organização das Nações Unidas para Agricultura e
Alimentação (FAO, 2020) destaca que o uso indiscriminado de antimicrobianos na
produção animal, muitas vezes sem o devido controle, contribui para o
surgimento de bactérias resistentes, comprometendo a eficácia de tratamentos
médicos em humanos. A carne de aves, quando contaminada com cepas resistentes,
pode se tornar um importante vetor de disseminação desse problema.
Outra dimensão dos impactos na saúde pública refere-se às zoonoses, ou seja, doenças que podem ser transmitidas de animais para humanos. A carne de aves pode ser um elo crítico na transmissão de zoonoses bacterianas, virais e parasitárias. Exemplos incluem a transmissão de
influenza aviária,
salmonelose e campilobacteriose. A prevenção de zoonoses exige ações integradas
de vigilância epidemiológica, inspeção sanitária rigorosa e educação em saúde
(Brasil, 2010).
Do ponto de vista econômico e social, os impactos das
doenças transmitidas por alimentos também são expressivos. Estima-se que surtos
de infecções alimentares resultem em custos elevados para os sistemas de saúde,
perdas de produtividade no trabalho e danos à reputação dos setores produtivos.
Conforme apontado por Mead et al. (1999), os custos diretos e indiretos das
doenças transmitidas por alimentos podem chegar a bilhões de dólares
anualmente, refletindo o peso dessas enfermidades para a sociedade.
Adicionalmente, a percepção de risco pelos consumidores tem
impacto sobre a confiança no sistema alimentar. Escândalos envolvendo produtos
cárneos contaminados ou impróprios para o consumo, como os que ocorreram em
operações de fiscalização no Brasil, podem abalar a confiança pública e
prejudicar exportações, gerando consequências econômicas e sociais amplas
(Rocha, 2017).
Portanto, os impactos da produção e do consumo de carne de
aves na saúde pública são vastos e multifacetados, abrangendo aspectos
microbiológicos, químicos, epidemiológicos, econômicos e sociais. A
implementação de programas de inspeção sanitária rigorosos, o controle efetivo
do uso de medicamentos veterinários, a promoção de boas práticas agropecuárias
e a educação dos consumidores são medidas essenciais para minimizar esses
impactos e proteger a saúde das populações.
O conceito de "Uma Só Saúde" (One Health), que
reconhece a interconexão entre saúde humana, animal e ambiental, deve ser cada
vez mais incorporado às políticas públicas e práticas sanitárias para enfrentar
de forma eficaz os desafios contemporâneos que envolvem a produção de alimentos
de origem animal.
• BRASIL.
Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Manual Integrado de Vigilância, Prevenção e Controle de Doenças de
Transmissão Hídrica e Alimentar. Brasília: Ministério da Saúde, 2010.
• DOYLE,
M. P.; BEUCHAT, L. R.; MONTVILLE, T. J. Food
Microbiology: Fundamentals and Frontiers. 3. ed. Washington: ASM
Press, 2006.
• FAO.
The State of Food and Agriculture 2020:
Overcoming Water Challenges in Agriculture. Rome: Food and Agriculture
Organization of the United Nations, 2020.
• MEAD, P. S.; SLUTSKER, L.; DIETZ, V.; McCAIG, L. F.; BRESEE, J. S.;
SHAPIRO, C.;
GRIFFIN, P. M.; TAUXE, R. V. Food-related illness and death in the United
States. Emerging Infectious Diseases,
v. 5, n. 5, p. 607–625, 1999.
• ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Food Safety and Foodborne Illness. Geneva: World Health Organization, 2007.
• ROCHA,
F. P. Crise sanitária e confiança do consumidor: O caso das carnes no Brasil. Revista de Administração Pública, v. 51,
n. 5, p. 774– 792, 2017.
O Brasil possui um dos maiores sistemas de regulamentação
sanitária e de inspeção de produtos de origem animal do mundo, em razão da
importância econômica do agronegócio e da necessidade de proteger a saúde
pública. Entre os principais instrumentos normativos que regem a produção e o
controle sanitário da carne de aves no país, destacam-se o Regulamento da
Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal (RIISPOA), o
conjunto de normas emanadas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento
(MAPA) e as regulamentações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(ANVISA).
O Regulamento da
Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal (RIISPOA) é o
principal marco normativo brasileiro relacionado à inspeção de produtos de
origem animal. Foi inicialmente instituído pelo Decreto nº 30.691/1952 e, após
diversas atualizações, a sua versão vigente foi reformulada pelo Decreto nº
9.013, de 29 de março de 2017. O RIISPOA disciplina a inspeção e a fiscalização
industrial e sanitária de carnes, leite, pescado, ovos, mel e seus derivados
(Brasil, 2017).
Esse regulamento estabelece critérios para o funcionamento
de estabelecimentos industriais, define as condições de higiene e sanidade que
devem ser observadas e determina os procedimentos de inspeção antemortem e
post-mortem. Em relação às carnes de aves, o RIISPOA exige que os
estabelecimentos de abate e processamento sejam registrados junto ao Serviço de
Inspeção Federal (SIF) e que cumpram rigorosos requisitos de controle de
qualidade e segurança alimentar.
Além disso, o RIISPOA trata da condenação de carcaças e
vísceras quando forem identificadas doenças transmissíveis ao ser humano ou
condições que comprometam a qualidade do alimento. Também regula aspectos como
a rotulagem, o transporte e a exportação de produtos de origem animal,
alinhando-se às exigências internacionais para o comércio global de alimentos
(Brasil, 2017).
O Ministério da Agricultura,
Pecuária e Abastecimento (MAPA) é o órgão federal responsável
pela formulação e execução de políticas públicas voltadas para a promoção da
segurança alimentar, sanidade animal e vegetal, e pelo incentivo ao
agronegócio. No campo da inspeção de carnes de aves, o MAPA atua principalmente
por meio da Secretaria de Defesa Agropecuária (SDA).
O MAPA expede Instruções Normativas (INs) que detalham
procedimentos técnicos a serem seguidos por estabelecimentos produtores de
carne. Destacam-se normas como a Instrução Normativa nº 20/2017, que aprova os
critérios para avaliação de bem-estar animal no pré-abate, e a Instrução
Normativa nº 3/2000, que trata dos procedimentos para a inspeção industrial e
sanitária de aves (Brasil, 2000; Brasil, 2017).
Além disso, o MAPA é responsável pela implementação dos
Programas de Autocontrole (PACs), exigindo que os próprios estabelecimentos
mantenham planos documentados de controle e monitoramento de perigos, como
microbiológicos e químicos, integrados ao Sistema de Inspeção Federal. Tais
programas complementam a ação oficial de fiscalização, aumentando a
responsabilidade dos produtores sobre a qualidade dos alimentos.
Outro papel fundamental do MAPA é a certificação sanitária
para exportação, o que envolve o cumprimento de requisitos técnicos específicos
de países importadores, garantindo a aceitação dos produtos brasileiros nos
mercados internacionais.
A Agência Nacional
de Vigilância Sanitária (ANVISA) é uma autarquia vinculada ao Ministério da
Saúde, criada pela Lei nº 9.782/1999, cuja função principal é proteger e
promover a saúde da população, regulando produtos e serviços submetidos à
vigilância sanitária.
No que diz respeito à carne de aves, a atuação da ANVISA
complementa a do MAPA, especialmente na fase pós-abate, no transporte,
armazenamento e comercialização dos produtos em território nacional. A agência
é responsável pela regulamentação de padrões microbiológicos para alimentos
(Resolução RDC nº 331/2019) e pelo controle de resíduos de medicamentos
veterinários em produtos de origem animal (Resolução RDC nº 295/2019) (Brasil,
2019a; Brasil, 2019b).
A ANVISA também define critérios de rotulagem obrigatória de produtos alimentícios, como a indicação de alergênicos, a composição nutricional e a presença de aditivos. Outra frente importante é a fiscalização de estabelecimentos varejistas e de serviços de alimentação, como supermercados, restaurantes e açougues, visando assegurar que a carne
define critérios de rotulagem obrigatória
de produtos alimentícios, como a indicação de alergênicos, a composição
nutricional e a presença de aditivos. Outra frente importante é a fiscalização
de estabelecimentos varejistas e de serviços de alimentação, como
supermercados, restaurantes e açougues, visando assegurar que a carne de aves
chegue ao consumidor final em condições higiênico-sanitárias adequadas.
Por meio de parcerias com os estados e municípios, a ANVISA
coordena o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária (SNVS), assegurando a
descentralização e a capilaridade das ações de fiscalização.
O sistema normativo brasileiro que regula a produção de
carne de aves é amplo e integrado, visando proteger a saúde pública, garantir a
qualidade dos alimentos e fortalecer a competitividade do setor. A interação
entre o RIISPOA, as normas do MAPA e as regulamentações da ANVISA estabelece um
arcabouço sólido para assegurar que os produtos cheguem ao consumidor com
segurança e qualidade.
Entretanto, a eficácia desse sistema depende da correta
implementação das normas, da atuação diligente dos serviços oficiais de
inspeção e da responsabilidade dos produtores em adotar práticas rigorosas de
segurança alimentar em toda a cadeia produtiva.
• BRASIL.
Decreto nº 9.013, de 29 de março de 2017. Regulamenta a inspeção industrial e
sanitária de produtos de origem animal (RIISPOA). Diário Oficial da União,
Brasília, DF, 30 mar. 2017.
• BRASIL.
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Instrução Normativa nº 3,
de 17 de janeiro de 2000. Aprova o regulamento técnico de métodos de
insensibilização para o abate humanitário de animais de açougue. Diário Oficial
da União, Brasília, DF, 18 jan. 2000.
• BRASIL.
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Instrução Normativa nº 20,
de 21 de julho de 2017. Estabelece diretrizes sobre boas práticas de manejo no
pré-abate de aves. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 24 jul. 2017.
• BRASIL.
Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução RDC nº 331, de 23 de
dezembro de 2019. Estabelece padrões microbiológicos para alimentos. Diário
Oficial da União, Brasília, DF, 26 dez. 2019a.
• BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução RDC nº 295, de 24 de setembro de 2019. Dispõe sobre os limites máximos de resíduos de medicamentos veterinários em alimentos de origem animal. Diário Oficial da União,
Brasília,
DF, 25 set. 2019b.
A crescente globalização do comércio de alimentos e o
aumento das preocupações com a segurança alimentar evidenciaram a necessidade
de estabelecer padrões internacionais que assegurem a qualidade e a inocuidade
dos produtos comercializados entre os países. Nesse contexto, o Codex Alimentarius surge como o
principal referencial mundial para a regulamentação de alimentos, sendo
fundamental para orientar práticas de produção, processamento e inspeção
sanitária, inclusive na cadeia produtiva de carnes de aves.
O Codex Alimentarius
foi criado em 1963, como uma iniciativa conjunta da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO)
e da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Seu objetivo principal é proteger a saúde dos consumidores e assegurar práticas
leais no comércio de alimentos (FAO/OMS, 2009). O Codex reúne uma coleção de
normas, diretrizes, códigos de práticas e recomendações relativas à segurança,
qualidade e rotulagem de produtos alimentícios.
Em relação à produção de carnes de aves, o Codex estabelece
critérios abrangentes que vão desde a criação das aves até o processamento e a
comercialização da carne. Um dos documentos mais importantes nesse âmbito é o Código de Práticas de Higiene para Carne
(CAC/RCP 582005), que define procedimentos para garantir a higiene em todas as
etapas de produção, especialmente no abate e no processamento (Codex
Alimentarius, 2005).
O Código de Higiene para Carne enfatiza princípios como:
• A
responsabilidade primária do produtor e do processador pela segurança dos
produtos;
• A
necessidade de programas de boas práticas de produção e de higiene;
• A
implementação de sistemas de análise de perigos e pontos críticos de controle
(APPCC/HACCP);
• A
inspeção ante-mortem e post-mortem, focada em riscos relevantes à saúde
pública;
• A
capacitação contínua dos trabalhadores envolvidos na produção de carne.
A adoção do Sistema
APPCC (HACCP), fortemente recomendado pelo Codex, é considerada uma
ferramenta central para o controle preventivo de perigos físicos, químicos e
biológicos nos alimentos. De acordo com o Codex Alimentarius (2003), o HACCP
permite uma abordagem sistemática e cientificamente fundamentada para
identificar, avaliar e controlar riscos ao longo da cadeia produtiva.
Outro aspecto relevante é que as normas do Codex são utilizadas como referência
internacional pela Organização Mundial do Comércio (OMC) no âmbito do Acordo sobre a Aplicação de Medidas
Sanitárias e Fitossanitárias (SPS Agreement). Isso significa que, em
disputas comerciais entre países envolvendo questões sanitárias, as normas do
Codex são consideradas a principal base técnica para avaliação de conformidade
(OMC, 1995).
Embora a adesão ao Codex seja voluntária, sua influência
prática é enorme. Muitos países, ao elaborarem ou revisarem suas legislações
sanitárias e alimentares, adotam os padrões do Codex como referência para
garantir a equivalência internacional de seus produtos e facilitar o acesso aos
mercados externos. No Brasil, por exemplo, tanto o Regulamento de Inspeção
Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal (RIISPOA) quanto as
Instruções Normativas do Ministério da Agricultura são, em grande parte, harmonizados
com as diretrizes do Codex (Brasil, 2017).
Por fim, o Codex também desempenha um papel educativo,
promovendo capacitações e desenvolvendo materiais técnicos para apoiar países
em desenvolvimento na implementação de sistemas eficazes de segurança
alimentar. Esse esforço contribui para a redução das doenças transmitidas por
alimentos em escala global e para a elevação dos padrões de saúde pública.
Em síntese, o Codex Alimentarius é um instrumento essencial
para a promoção da segurança alimentar mundial. Ele proporciona uma base
científica comum para regulamentações nacionais, facilita o comércio
internacional de alimentos e protege a saúde dos consumidores, sendo de
importância estratégica para todos os países que produzem e exportam alimentos
de origem animal, como a carne de aves.
• BRASIL.
Decreto nº 9.013, de 29 de março de 2017. Regulamenta a inspeção industrial e
sanitária de produtos de origem animal (RIISPOA). Diário Oficial da União,
Brasília, DF, 30 mar. 2017.
• CODEX
ALIMENTARIUS. General Principles of Food
Hygiene: CXC 1-1969. Rome: FAO/WHO, 2003.
• CODEX
ALIMENTARIUS. Code of Hygienic Practice
for Meat: CAC/RCP 58-2005. Rome: FAO/WHO, 2005.
• FAO/OMS.
Understanding the Codex Alimentarius.
3. ed. Rome: Food and Agriculture Organization of the United Nations/World
Health Organization, 2009.
• ORGANIZAÇÃO
MUNDIAL DO COMÉRCIO (OMC). Acordo sobre a
Aplicação de Medidas Sanitárias e Fitossanitárias (SPS Agreement). Genebra:
Organização Mundial do Comércio, 1995.
Responsabilidades dos Órgãos Reguladores
A
segurança alimentar e a proteção da saúde pública são
pilares fundamentais para a estabilidade social e econômica de qualquer país.
Para garantir esses objetivos, os órgãos
reguladores desempenham um papel estratégico, estabelecendo normas,
fiscalizando a produção e comercialização de alimentos, e promovendo ações
corretivas em caso de risco sanitário. No Brasil, entre os principais órgãos
reguladores envolvidos na cadeia de produção e inspeção de carnes de aves estão
o Ministério da Agricultura, Pecuária e
Abastecimento (MAPA), a Agência
Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e os serviços estaduais e
municipais de inspeção.
O MAPA é o
principal responsável pela regulamentação e fiscalização dos produtos de origem
animal destinados ao comércio interestadual e internacional. Entre suas
responsabilidades estão:
• Elaboração e atualização de normas técnicas:
O MAPA edita regulamentos, portarias e instruções normativas que disciplinam
todas as etapas da produção animal, do abate ao processamento de carnes
(Brasil, 2017).
• Fiscalização sanitária em estabelecimentos
registrados: Por meio do Serviço de
Inspeção Federal (SIF), o MAPA realiza inspeções ante-mortem e post-mortem
em aves, verificando as condições de saúde dos animais, a higiene dos processos
e a qualidade final dos produtos.
• Certificação para exportação: O órgão
emite certificados sanitários internacionais, atestando que os produtos
brasileiros atendem às exigências sanitárias dos países importadores.
• Auditorias e Programas de Autocontrole
(PACs): Além da fiscalização direta, o MAPA exige que os estabelecimentos
mantenham programas internos de autocontrole, como o APPCC (Análise de Perigos
e Pontos Críticos de Controle), para reforçar a garantia da segurança dos
alimentos.
Essas ações têm como foco proteger a saúde dos
consumidores, manter a confiança nos produtos brasileiros e assegurar a
competitividade no mercado internacional.
A ANVISA,
vinculada ao Ministério da Saúde, regula e fiscaliza os produtos de origem
animal no âmbito do consumo interno, especialmente nas fases de comercialização
e manipulação de alimentos no varejo. Suas principais responsabilidades
incluem:
• Regulamentação de padrões de qualidade e segurança: A ANVISA define limites máximos de contaminantes, critérios microbiológicos e regras de rotulagem de
alimentos, como estabelecido na
Resolução RDC nº 331/2019 (Brasil, 2019a).
• Controle de resíduos químicos:
Fiscaliza a presença de resíduos de medicamentos veterinários e aditivos
alimentares nos produtos comercializados, com base em padrões estabelecidos em
normas específicas, como a RDC nº 295/2019 (Brasil, 2019b).
• Fiscalização em estabelecimentos varejistas:
Atua na inspeção de supermercados, açougues, restaurantes e outros pontos de
venda, em cooperação com as vigilâncias sanitárias estaduais e municipais.
• Coordenação do Sistema Nacional de
Vigilância Sanitária (SNVS): A ANVISA lidera o sistema integrado de
fiscalização, que visa garantir a padronização das ações sanitárias em todo o
território nacional.
Além dos órgãos federais, o Brasil conta com serviços
estaduais e municipais que exercem atividades complementares, especialmente no
âmbito do Sistema Brasileiro de Inspeção
de Produtos de Origem Animal (SISBIPOA). Esses serviços têm como principais
responsabilidades:
• Fiscalizar a produção e comercialização de
alimentos destinados ao mercado local ou regional.
• Emitir registros e selos de inspeção
estadual ou municipal, atestando a conformidade dos produtos com as normas
sanitárias.
• Atuar em parceria com o MAPA e a ANVISA
em programas de fiscalização, controle de zoonoses e educação sanitária.
A descentralização das atividades de inspeção permite maior
capilaridade e agilidade no controle sanitário dos alimentos comercializados em
diferentes regiões do país.
A atuação coordenada entre MAPA, ANVISA e os serviços
locais é fundamental para assegurar a eficiência do sistema de segurança
alimentar. A integração de informações, o compartilhamento de responsabilidades
e a harmonização dos padrões de fiscalização são essenciais para prevenir a
ocorrência de surtos de doenças transmitidas por alimentos e garantir a
rastreabilidade dos produtos de origem animal (FAO/OMS, 2009).
A ausência de articulação entre os órgãos reguladores pode
resultar em falhas de controle, aumento dos riscos sanitários e prejuízos para
a saúde pública e para a economia. Portanto, a efetividade da regulação
sanitária depende não apenas da existência de normas rigorosas, mas também da
capacidade institucional de monitorar, fiscalizar e agir de maneira coordenada.
Os órgãos reguladores
brasileiros têm responsabilidades
amplas e interdependentes na promoção da segurança alimentar, no controle de
riscos sanitários e na garantia da qualidade dos produtos de origem animal. Seu
trabalho é essencial para proteger a saúde pública, fortalecer o agronegócio e
garantir o direito dos consumidores a alimentos seguros e de qualidade.
• BRASIL.
Decreto nº 9.013, de 29 de março de 2017. Regulamenta a inspeção industrial e
sanitária de produtos de origem animal (RIISPOA). Diário Oficial da União,
Brasília, DF, 30 mar. 2017.
• BRASIL.
Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução RDC nº 331, de 23 de
dezembro de 2019. Estabelece padrões microbiológicos para alimentos. Diário
Oficial da União, Brasília, DF, 26 dez. 2019a.
• BRASIL.
Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução RDC nº 295, de 24 de
setembro de 2019. Dispõe sobre limites máximos de resíduos de medicamentos
veterinários em alimentos de origem animal. Diário Oficial da União, Brasília,
DF, 25 set. 2019b.
• FAO/OMS.
Understanding the Codex Alimentarius.
3. ed. Rome: Food and Agriculture Organization of the United Nations/World
Health Organization, 2009.
A produção de carne de aves, particularmente de frangos de
corte, envolve uma cadeia produtiva organizada e tecnificada que se inicia na
criação dos animais e se estende até o seu abate e processamento. Cada etapa
dessa cadeia influencia diretamente a qualidade do produto final e a segurança
alimentar, exigindo rigorosos controles sanitários e de manejo. O percurso
"do aviário ao abate" é, portanto, essencial para assegurar a
integridade da carne destinada ao consumo humano.
O ciclo produtivo do frango de corte começa com a criação
das aves em aviários. Estes ambientes são projetados para oferecer condições
adequadas de temperatura, umidade, ventilação, iluminação e espaço, fatores
determinantes para o desenvolvimento saudável dos animais (Sakomura et al.,
2014). A biosseguridade é uma prioridade absoluta: o controle do acesso de
pessoas, veículos e materiais ao aviário visa prevenir a entrada de agentes
patogênicos.
As práticas de manejo incluem a correta formulação da dieta alimentar, a administração de água de qualidade e o monitoramento constante do estado de saúde das aves. Qualquer falha no manejo nutricional ou sanitário pode comprometer o ganho de peso, a conversão alimentar e a qualidade da carcaça,
impactando negativamente a rentabilidade do sistema produtivo
(Oliveira & Silva, 2010).
O uso responsável de medicamentos veterinários, como
antibióticos e antiparasitários, também é crítico, devendo respeitar prazos de
carência para evitar resíduos na carne que possam afetar a saúde pública (MAPA,
2017).
O transporte das aves do aviário até o abatedouro é uma
etapa delicada, pois o estresse físico e psicológico pode causar perdas
econômicas e comprometer a qualidade da carne. Durante o manejo pré-transporte,
as aves são coletadas manualmente ou por sistemas mecanizados e acondicionadas
em caixas ou módulos de transporte, que devem garantir ventilação adequada e
minimizar o desconforto (Lima et al., 2015).
O tempo de jejum pré-abate (geralmente de 6 a 8 horas) é
necessário para reduzir o conteúdo gastrointestinal das aves, prevenindo
contaminações durante o processamento. Entretanto, o excesso de jejum ou o
transporte prolongado podem levar à desidratação e à perda de peso, afetando o
rendimento das carcaças (Olivo et al., 2001).
Normas como a Instrução Normativa nº 56/2008 do MAPA
estabelecem diretrizes sobre bem-estar animal no transporte, incluindo limites
de densidade por módulo, temperatura ambiente e tempo máximo de viagem (Brasil,
2008).
Ao chegar ao abatedouro, as aves são submetidas à inspeção ante-mortem, realizada por
médicos veterinários do Serviço de Inspeção Federal (SIF) ou equivalente
estadual/municipal. Essa inspeção consiste na observação das aves vivas,
identificando sinais de doenças, lesões, anormalidades ou qualquer condição que
torne a carne imprópria para o consumo (Brasil, 2017).
Aves que apresentem sinais de enfermidades infecciosas ou
condições incompatíveis com o abate são condenadas e separadas para descarte
apropriado, evitando riscos à saúde pública.
O processo de abate das aves envolve várias fases
padronizadas, todas reguladas por normas nacionais e internacionais de higiene
e bem-estar animal:
1. Atordoamento: As aves são submetidas ao
atordoamento, geralmente por choque elétrico em banho de água, para induzir a
perda da consciência antes da sangria.
2. Sangria: Consiste na seção das artérias
jugulares e carótidas, permitindo o desangramento eficiente, o que é
fundamental para a qualidade da carne e para a segurança alimentar.
3. Escaldagem e Depenagem: Após a sangria, as aves passam por tanques de
escaldagem para amolecer as penas, facilitando a
remoção mecânica na etapa seguinte.
4. Evisceração: Realiza-se a remoção das
vísceras, seguida de nova inspeção sanitária (inspeção post-mortem) para
avaliação de órgãos internos e carcaça.
5. Resfriamento: As carcaças são
resfriadas rapidamente, em tanques de imersão em água gelada ou por métodos a
ar frio, para inibir o crescimento microbiano.
6. Cortes e Embalagem: Após o
resfriamento, as carcaças podem ser vendidas inteiras ou cortadas em partes,
embaladas e armazenadas sob refrigeração ou congelamento.
O percurso "do aviário ao abate" é um processo
complexo e interdependente, no qual cada etapa deve ser rigorosamente
controlada para garantir a qualidade, a inocuidade e a rastreabilidade da carne
de aves. Práticas inadequadas em qualquer fase podem comprometer o produto
final, gerar perdas econômicas e colocar em risco a saúde dos consumidores.
A adoção de boas práticas de manejo, o cumprimento das normas de bemestar animal, o monitoramento sanitário e a realização de inspeções rigorosas são imprescindíveis para assegurar que a carne de aves chegue ao mercado com padrões elevados de segurança e qualidade.
• BRASIL.
Decreto nº 9.013, de 29 de março de 2017. Regulamenta a inspeção industrial e
sanitária de produtos de origem animal (RIISPOA). Diário Oficial da União,
Brasília, DF, 30 mar. 2017.
• BRASIL.
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Instrução Normativa nº 56,
de 6 de novembro de 2008. Estabelece procedimentos para o transporte de animais
destinados ao abate. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 7 nov. 2008.
• LIMA,
N. D. S.; GARCIA, R. G.; NÄÄS, I. A. Transporte de frangos de corte e seus
efeitos no bem-estar animal e na qualidade da carne.
Engenharia Agrícola,
v. 35, n. 6, p. 1155–1165, 2015.
• MAPA.
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Programa Nacional de
Controle de Resíduos e Contaminantes em Produtos de Origem Animal. Brasília:
MAPA, 2017.
• OLIVEIRA,
J. E.; SILVA, M. A. Manejo na avicultura de corte: boas práticas de criação. Revista Brasileira de Zootecnia, v. 39,
p. 305–311, 2010.
• OLIVO,
R.; SHIMOKOMAKI, M.; TERRA, N. N. Características físico-químicas da carne de
frango industrializada no Brasil. Ciência
e Tecnologia de Alimentos, v. 21, n. 3, p. 337–341, 2001.
FREITAS, E. R.; GONÇALVES, H. C. Nutrição de frangos de corte. Jaboticabal: FUNEP, 2014.
A criação de aves para produção de carne e ovos é uma
atividade diversificada que emprega diferentes sistemas de produção, cada um
com características específicas relacionadas ao manejo, ao bem-estar animal, à
produtividade e à qualidade do produto final. A escolha do sistema de criação
depende de fatores como objetivos econômicos, exigências de mercado, condições
ambientais, estrutura de produção e políticas públicas de bemestar animal.
Os principais sistemas de criação de aves podem ser
classificados em três grandes categorias: sistema
convencional intensivo, sistema
semiintensivo e sistema extensivo ou
caipira.
O sistema convencional
intensivo é o mais utilizado na produção industrial de carne de frango e
ovos comerciais, especialmente no Brasil e em outros grandes produtores
mundiais. Nesse sistema, as aves são alojadas em galpões fechados ou
parcialmente climatizados, onde variáveis como temperatura, umidade, ventilação
e iluminação são controladas para maximizar o desempenho produtivo (Sakomura et
al., 2014). As principais características desse sistema incluem:
• Alta
densidade de alojamento;
• Nutrição
balanceada e programada para o rápido ganho de peso ou alta produção de ovos;
• Aplicação
rigorosa de programas de vacinação e biosseguridade;
• Monitoramento
constante da saúde e do crescimento dos animais.
O sistema intensivo proporciona alta eficiência produtiva e
melhor conversão alimentar, mas é frequentemente criticado por questões
relacionadas ao bem-estar animal, como restrição de movimento e estímulos
comportamentais limitados (Mench, 2008).
O sistema
semi-intensivo representa uma alternativa intermediária entre o sistema
intensivo e o extensivo. As aves são mantidas em abrigos protegidos, mas com
acesso a áreas externas controladas, permitindo que expressem comportamentos
naturais, como ciscar e tomar banhos de areia (Oliveira & Silva, 2010).
Principais características do sistema semi-intensivo:
• Maior
espaço por ave em comparação ao sistema intensivo;
• Acesso
parcial a ambientes externos durante o dia;
• Nutrição
baseada em ração balanceada, podendo ser complementada com pasto ou resíduos
agrícolas;
• Menor densidade de alojamento e menor estresse
animal.
Esse sistema tem ganhado mercado, especialmente entre
consumidores que valorizam práticas de bem-estar animal e produtos
diferenciados, como ovos de galinhas livres (free-range).
O sistema extensivo,
popularmente conhecido como criação caipira,
é caracterizado por práticas tradicionais em que as aves têm livre acesso a
áreas abertas e vegetadas. É um sistema de baixa densidade populacional, onde
os animais podem expressar comportamentos naturais de forma ampla (ABCS, 2020).
Características principais do sistema extensivo:
• Aves
criadas soltas em piquetes, pastagens ou quintais;
• Nutrição
composta por alimentos naturais, resíduos agrícolas e suplementação de ração;
• Desenvolvimento
mais lento, resultando em carne com características organolépticas
diferenciadas (cor, textura, sabor);
• Maior
exposição a riscos sanitários, exigindo manejo rigoroso de biosseguridade.
Esse modelo é valorizado por consumidores que buscam
produtos artesanais ou orgânicos, e também é associado a atributos de
sustentabilidade e bemestar animal (Castellini et al., 2002).
As tendências de mercado têm impulsionado a adoção de
sistemas de criação que conciliem produtividade com responsabilidade
socioambiental. O aumento da demanda por carnes de aves oriundas de sistemas
com certificação de bem-estar animal e produção orgânica é um reflexo dessa
mudança no perfil do consumidor (Silva et al., 2018).
Além disso, há crescente interesse em sistemas que reduzam
o impacto ambiental, com a adoção de práticas de manejo sustentável, como o
aproveitamento de resíduos, uso racional de recursos naturais e diminuição da
emissão de gases de efeito estufa.
A diversidade de sistemas de criação de aves reflete a
multiplicidade de demandas do mercado e a necessidade de adaptar os métodos de
produção às exigências de eficiência, bem-estar animal e sustentabilidade. Seja
em sistemas intensivos, semi-intensivos ou extensivos, o sucesso da produção
avícola depende do manejo correto, da biosseguridade rigorosa e do respeito às
normas sanitárias e éticas.
• ABCS.
Associação Brasileira de Criadores de Suínos. Cartilha de Boas Práticas Agropecuárias – Avicultura Caipira.
Brasília: ABCS, 2020.
• CASTELLINI, C.; MUGNAI, C.; DAL BOSCO, A. Effect of organic production system on broiler carcass and meat quality. Meat Science, v.
60, n. 3, p. 219-225, 2002.
• MENCH,
J. A. Farm animal welfare in the USA: Farming practices, research, education,
regulation, and assurance programs. Applied
Animal Behaviour Science, v. 113, n. 4, p. 298-312, 2008.
• OLIVEIRA,
J. E.; SILVA, M. A. Manejo na avicultura de corte: boas práticas de criação. Revista Brasileira de Zootecnia, v. 39,
p. 305–311, 2010.
FREITAS, E. R.; GONÇALVES, H. C. Nutrição de frangos de corte. Jaboticabal: FUNEP, 2014.
• SILVA, C. A.;
FERNANDES, E. A.; MOREIRA, J.; TEIXEIRA, C. Avicultura e o mercado de produtos
diferenciados: uma análise de tendências. Revista
Ciência Animal Brasileira, v. 19, e-47435, 2018.
A qualidade da carne de aves é um resultado direto da
interação entre fatores genéticos, nutricionais, ambientais e de manejo ao
longo da vida dos animais. A maneira como as aves são criadas exerce profunda
influência sobre características físico-químicas, sensoriais e microbiológicas
da carne, impactando não apenas a aceitação do produto pelos consumidores, mas
também sua segurança e valor de mercado.
A qualidade da carne de aves é determinada por atributos
como textura, maciez, cor, suculência, sabor, composição nutricional e
segurança microbiológica. Cada etapa do processo produtivo, desde o ambiente de
criação até o manejo pré-abate, contribui para a formação desses atributos
(Olivo et al., 2001).
Entre os principais fatores de criação que influenciam a
qualidade da carne, destacam-se:
O ambiente físico em que as aves são criadas tem papel
central na qualidade final da carne. Temperaturas elevadas, alta densidade
populacional, deficiências na ventilação e umidade excessiva aumentam o
estresse térmico, reduzindo o ganho de peso e deteriorando a qualidade da carne
(QuinteiroFilho et al., 2010).
O estresse térmico crônico pode provocar alterações
metabólicas que resultam em carnes pálidas, moles e exsudativas (condição
conhecida como PSE – Pale, Soft, Exudative), diminuindo o rendimento e a
aceitação do produto.
A composição nutricional da dieta das aves influencia diretamente o perfil de ácidos graxos, a concentração de proteínas e a deposição de gordura na carne. Dietas balanceadas e enriquecidas com antioxidantes, como vitamina E e selênio, melhoram a
estabilidade oxidativa da
carne e prolongam sua vida útil (Sakomura et al., 2014).
Deficiências nutricionais podem comprometer a textura e a
suculência, além de aumentar a suscetibilidade da carne à rancidez durante o
armazenamento.
A seleção genética para rápido crescimento e alta conversão
alimentar, embora tenha trazido ganhos produtivos, também impactou
negativamente algumas características de qualidade da carne. A linhagem das
aves influencia a ocorrência de miopatias como a "Wooden Breast"
(peito amadeirado) e a "White Striping" (listras brancas na carne),
condições que comprometem a aparência e a textura (Soglia et al., 2016).
Linhas genéticas de crescimento moderado, utilizadas em
sistemas alternativos, tendem a produzir carnes com melhor qualidade sensorial
e menor incidência de defeitos.
A densidade de alojamento influencia significativamente a
qualidade da carne. Altas densidades limitam a movimentação das aves,
aumentando o estresse, a competição por recursos e a prevalência de problemas
locomotores (Mench, 2008).
Por outro lado, sistemas que oferecem maior espaço e acesso
a áreas externas favorecem o desenvolvimento muscular equilibrado, resultando
em carnes mais firmes e saborosas, além de melhorar a percepção do consumidor
em relação ao bem-estar animal.
As práticas de manejo no pré-abate, como o jejum, a
captura, o transporte e o tempo de espera no abatedouro, afetam diretamente a
qualidade da carne. Estresse intenso e prolongado eleva os níveis de glicólise
pós-morte, contribuindo para a formação de carne PSE ou, em casos de exaustão
severa, de carne DFD (Dark, Firm, Dry) (Olivo et al., 2001).
O manejo cuidadoso e a minimização do tempo de transporte
são, portanto, estratégias cruciais para preservar a qualidade da carne.
As condições de criação também têm impacto sobre a carga
microbiológica da carne. Ambientes inadequados de criação, com más práticas de
biosseguridade e sanitização, aumentam a exposição das aves a agentes
patogênicos como Salmonella spp. e Campylobacter spp., elevando o risco de
contaminação da carne e comprometendo a segurança alimentar (Doyle et al.,
2006).
A criação adequada das aves é fundamental para garantir a produção de carne de alta qualidade, segura e atrativa para os consumidores. A busca por práticas que integrem produtividade, bem-estar
criação adequada das aves é fundamental para garantir a
produção de carne de alta qualidade, segura e atrativa para os consumidores. A
busca por práticas que integrem produtividade, bem-estar animal e qualidade de
produto final é essencial para o sucesso da indústria avícola moderna.
Investir em condições ambientais controladas, programas
nutricionais de excelência, seleção genética equilibrada e práticas de manejo
humanizadas são estratégias indispensáveis para assegurar carnes de melhor
valor nutricional, sensorial e sanitário.
Referências Bibliográficas
Microbiology: Fundamentals and Frontiers. 3. ed. Washington: ASM
Press, 2006.
• MENCH,
J. A. Farm animal welfare in the USA: Farming practices, research, education,
regulation, and assurance programs. Applied
Animal Behaviour Science, v. 113, n. 4, p. 298-312, 2008.
• OLIVO,
R.; SHIMOKOMAKI, M.; TERRA, N. N. Características físico-químicas da carne de
frango industrializada no Brasil. Ciência
e Tecnologia de Alimentos, v. 21, n. 3, p. 337-341, 2001.
• QUINTEIRO-FILHO,
W. M.; RODRIGUES, M. V.; RIBEIRO, A.; FERREIRA, A. J. P.; CATELLI, E. Stress in
Broilers: Immunological and Performance Responses. World's Poultry Science Journal, v. 66, n. 4, p. 703–712, 2010.
FREITAS, E. R.; GONÇALVES, H. C. Nutrição de frangos de corte. Jaboticabal: FUNEP, 2014.
• SOGLIA, F.; BALDASSO, S.; BABINI, E.; PASTORELLI, G.; OLIVO, R.; CAVANI, C.; PETRACCI, M. Histology, Composition, and Quality Traits of Chicken Pectoralis major Muscle Affected by Wooden Breast Abnormality. Poultry Science, v. 95, n. 3, p. 651-659, 2016.
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