INTRODUÇÃO
À ANÁLISE DE RISCOS AMBIENTAIS
Módulo 2 — Identificação E Avaliação Dos Riscos
Aula 4 — Levantamento de perigos e
cenários acidentais
A identificação de perigos é uma das
etapas mais importantes da análise de riscos ambientais. É nesse momento que a
equipe procura compreender o que pode falhar, quais eventos podem acontecer e
de que maneira as consequências poderiam atingir pessoas, instalações e
recursos naturais.
Essa etapa não deve começar diretamente
pela classificação do risco. Antes de decidir se uma situação é baixa, moderada
ou grave, é necessário conhecer bem a atividade, os materiais utilizados, os
equipamentos, o ambiente e as possíveis formas de ocorrência de um acidente.
Em termos simples, o levantamento de
perigos busca responder a uma pergunta central: o que pode dar errado?
Conhecer a atividade antes de analisar
Uma análise de riscos será pouco confiável
quando realizada sem conhecimento suficiente sobre o processo. Por isso, o
primeiro passo é compreender como a atividade funciona em condições normais.
A equipe deve observar quais tarefas são
realizadas, quais produtos são utilizados, onde ficam armazenados, como são
transportados e quais equipamentos participam do processo. Também é importante
conhecer as etapas de limpeza, manutenção, abastecimento, carregamento e
descarregamento.
Em uma oficina mecânica, por exemplo, não
basta observar apenas o conserto dos veículos. É necessário verificar o
armazenamento de óleo usado, baterias, combustíveis, solventes, panos
contaminados e demais resíduos.
Em uma propriedade rural, a análise
precisa considerar o armazenamento, a preparação e a aplicação de produtos,
além da lavagem dos equipamentos e da destinação das embalagens.
Quanto mais clara for a compreensão do
processo, maior será a capacidade de identificar situações perigosas que
poderiam passar despercebidas.
O que deve ser considerado como perigo?
O perigo pode estar relacionado a uma
substância, equipamento, estrutura, condição ambiental ou atividade humana com
potencial de causar dano.
Alguns exemplos são:
Também precisam ser observadas situações
menos evidentes, como ausência de identificação, falhas de comunicação, falta
de treinamento, drenagem inadequada e dificuldade de acesso das equipes de
emergência.
O levantamento deve considerar tanto
falhas técnicas quanto erros operacionais. O termo de referência do Ibama para
estudos de análise de risco determina que a identificação de perigos contemple
as possíveis causas e efeitos dos eventos, incluindo operações, sistemas de
monitoramento e erro humano.
Onde buscar informações
A identificação de perigos não deve
depender apenas da memória ou da percepção de uma única pessoa. É importante
utilizar diferentes fontes de informação.
Entre as principais estão:
Os registros históricos merecem atenção
especial. Pequenos vazamentos, falhas repetidas e ocorrências que não causaram
danos podem indicar fragilidades ainda não corrigidas.
O Ibama recomenda que estudos de risco
utilizem dados sobre acidentes anteriores, modos de falha, equipamentos,
operações e erros humanos. Essas informações ajudam a definir quais vazamentos
e eventos precisam ser analisados.
A importância das fichas com dados de
segurança
Quando a atividade utiliza produtos
químicos, a Ficha com Dados de Segurança, conhecida como FDS, é uma fonte
essencial.
Ela reúne informações sobre:
A NR-26 estabelece que produtos químicos perigosos devem possuir classificação e rotulagem preventiva conforme o Sistema Globalmente Harmonizado. Também determina que as fichas com dados de segurança sejam disponibilizadas e que os trabalhadores recebam treinamento para compreender seus perigos, cuidados
NR-26 estabelece que produtos químicos
perigosos devem possuir classificação e rotulagem preventiva conforme o Sistema
Globalmente Harmonizado. Também determina que as fichas com dados de segurança
sejam disponibilizadas e que os trabalhadores recebam treinamento para
compreender seus perigos, cuidados preventivos e procedimentos de emergência.
Consultar a FDS ajuda a evitar avaliações
baseadas apenas na aparência do produto. Um líquido aparentemente inofensivo
pode ser inflamável, tóxico para organismos aquáticos ou reagir perigosamente
com outras substâncias.
Reconhecimento de campo
A visita ao local permite confirmar se os
documentos representam as condições reais da atividade.
Durante o reconhecimento, a equipe deve
observar:
Também é útil fotografar situações
relevantes, conversar com trabalhadores e registrar alterações que não aparecem
em plantas ou relatórios.
Muitas vezes, quem executa a tarefa
diariamente conhece problemas que não foram formalmente documentados. Um
operador pode informar que determinada válvula costuma travar, que um alarme
apresenta falhas ou que um transbordamento já ocorreu.
Por isso, a identificação de perigos
funciona melhor quando reúne diferentes experiências e pontos de vista.
Transformando perigos em cenários
acidentais
Identificar um perigo é apenas parte do
trabalho. Depois disso, é necessário imaginar como ele poderia produzir um
acidente.
Essa representação é chamada de cenário ou
hipótese acidental.
Um cenário descreve a sequência que liga a
fonte de perigo à consequência. Pode ser organizado da seguinte forma:
fonte de perigo → causa → evento →
propagação → receptor → consequência
Considere um tanque de óleo instalado
próximo a uma canaleta.
Outro exemplo pode ocorrer em um depósito
de solventes:
O cenário precisa ser descrito de maneira
clara. Expressões como “acidente químico” ou “problema ambiental” são muito
amplas e não ajudam a compreender o que realmente pode acontecer.
Causas que devem ser consideradas
Na construção dos cenários, é importante
pensar em diferentes grupos de causas.
As causas técnicas podem envolver:
As causas humanas ou operacionais podem
incluir:
Também devem ser analisados fatores
externos, como:
Considerar diferentes causas evita que a análise fique limitada a uma única explicação.
A técnica “E se?”
Uma ferramenta simples para levantar
cenários é a técnica conhecida como “E se?”, baseada na formulação de
perguntas.
A equipe pode perguntar:
Essas perguntas ajudam a visualizar
situações fora da rotina normal. Elas também estimulam a equipe a pensar em
falhas combinadas.
Por exemplo, um vazamento pode ser
pequeno, mas tornar-se grave se acontecer durante uma chuva intensa e próximo a
uma rede de drenagem.
A técnica “E se?” é adequada para análises introdutórias porque é simples e participativa. Entretanto, seus resultados dependem do conhecimento e da diversidade da equipe.
Uso de listas de verificação
Outra ferramenta útil é a lista de verificação. Ela reúne itens que precisam ser observados durante uma vistoria ou
ferramenta útil é a lista de
verificação. Ela reúne itens que precisam ser observados durante uma vistoria
ou reunião.
Uma lista pode incluir:
A lista reduz a possibilidade de esquecer
pontos importantes. Porém, ela não deve ser usada de forma automática.
Marcar que um item existe não é
suficiente. Uma bacia de contenção pode estar presente, mas ser pequena demais.
Um alarme pode estar instalado, mas não funcionar. Um procedimento pode estar
escrito, mas não ser conhecido pela equipe.
Por isso, a lista deve ser acompanhada de
observação e questionamento.
Identificação dos receptores
Todo cenário deve indicar o que pode ser
atingido.
Os receptores podem ser:
A localização desses receptores influencia
a gravidade do cenário. Um vazamento em uma área impermeabilizada pode
apresentar consequência limitada, enquanto o mesmo evento próximo a uma
nascente pode exigir prioridade elevada.
Por isso, a análise deve observar não
apenas a fonte do acidente, mas também os caminhos que o produto, a fumaça ou a
energia liberada podem percorrer.
Controles existentes
Depois de descrever o cenário, a equipe
deve registrar as medidas que já existem para evitar o evento ou diminuir seus
efeitos.
Entre elas podem estar:
O Ibama orienta que a análise registre os
meios e dispositivos de proteção e controle previstos, incluindo sistemas
automáticos, alarmes e válvulas de segurança.
Também é necessário avaliar se esses controles são realmente confiáveis. Um equipamento sem manutenção ou uma medida que depende apenas da atenção humana pode falhar justamente no
momento mais
crítico.
Registro dos resultados
O levantamento de perigos pode ser
registrado em uma planilha simples com os seguintes campos:
Exemplo:
Atividade:
abastecimento de tanque.
Perigo: combustível inflamável.
Causa: falha da mangueira ou enchimento excessivo.
Evento: vazamento.
Propagação: escoamento pelo piso e entrada na drenagem.
Receptores: solo, córrego e trabalhadores.
Consequências: contaminação e possibilidade de incêndio.
Controles: inspeção, contenção e extintor.
Recomendação: instalar bloqueio automático e proteger a drenagem.
Esse registro facilita a etapa seguinte,
quando os riscos serão classificados e as prioridades de tratamento serão
definidas.
Erros comuns no levantamento de perigos
Alguns erros podem comprometer a análise:
Outro erro comum é confundir perigo com
consequência. “Produto inflamável” representa um perigo. “Incêndio” é um
evento. “Queimaduras e fumaça” são consequências.
Separar esses elementos torna a análise
mais clara.
Considerações finais
O levantamento de perigos e a construção
de cenários acidentais ajudam a compreender como uma falha pode se transformar
em dano ambiental.
O processo começa pelo conhecimento da
atividade e pela coleta de informações. Depois, são identificadas as fontes de
perigo, as possíveis causas, os eventos, os caminhos de propagação, os
receptores e as consequências.
Ferramentas como a técnica “E se?”, as
listas de verificação, as FDS e as inspeções de campo tornam essa etapa mais
organizada. Ainda assim, elas precisam ser aplicadas com atenção e participação
de pessoas que conheçam o processo.
Uma boa análise não procura apenas
problemas evidentes. Ela também considera falhas pouco frequentes, mudanças nas
condições, fatores externos e situações em que várias barreiras podem falhar ao
mesmo tempo.
Identificar bem os
cenários é essencial,
pois todas as etapas seguintes da análise de riscos dependerão da qualidade
desse levantamento.
Referências bibliográficas
BRASIL. Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis. Termo de referência para Estudo
de Análise de Risco, Programa de Gerenciamento de Risco e Plano de Ação de
Emergência. Brasília, DF: Ibama, 2025.
BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Norma
Regulamentadora nº 26: Sinalização de Segurança. Brasília, DF: Ministério
do Trabalho e Emprego, 2022.
COMPANHIA AMBIENTAL DO ESTADO DE SÃO
PAULO. Manual de orientação para a elaboração de estudos de análise e
avaliação de riscos. São Paulo: CETESB, 1991.
Aula 5 — Análise Preliminar de Riscos
A Análise Preliminar de Riscos, conhecida
pela sigla APR, é uma ferramenta utilizada para reconhecer situações perigosas
antes que elas provoquem acidentes. Sua principal contribuição é organizar, de
forma clara, o raciocínio sobre o que pode dar errado, por que isso poderia
acontecer, quais seriam as consequências e o que deve ser feito para controlar
o risco.
Na área ambiental, também é comum
encontrar a expressão Análise Preliminar de Perigos, representada pela
sigla APP. Embora existam diferenças de nomenclatura entre documentos e
organizações, ambas são empregadas como técnicas qualitativas de identificação
e avaliação inicial de eventos indesejados.
A APR é especialmente útil nas primeiras
etapas de um estudo, quando ainda se procura formar uma visão ampla da
atividade. Ela pode ser aplicada em oficinas, indústrias, propriedades rurais,
depósitos, obras, sistemas de tratamento, transporte de produtos perigosos e
outras operações capazes de gerar danos ao meio ambiente.
Para que serve a APR?
A APR ajuda a antecipar problemas. Em vez
de esperar que um vazamento, incêndio ou contaminação aconteça, a equipe
analisa previamente as condições da atividade e identifica os cenários que
merecem atenção.
A ferramenta pode ser usada para:
A Norma Técnica P4.261 da CETESB apresenta a análise preliminar como parte do processo de formulação das hipóteses acidentais. A norma também destaca que o conhecimento dos riscos permite aperfeiçoar as medidas de
redução e gerenciamento dos acidentes tecnológicos.
A APR não oferece uma previsão exata do
futuro. Seu objetivo é construir uma visão organizada e tecnicamente
fundamentada das possibilidades de falha. Ela funciona como um ponto de partida
para decisões preventivas e, quando necessário, para análises mais
aprofundadas.
Conhecimento da atividade
Antes de preencher uma APR, é preciso
compreender a atividade que será analisada. Uma avaliação feita apenas com
informações genéricas tende a deixar perigos importantes de fora.
A equipe deve conhecer:
Uma atividade complexa pode ser dividida
em etapas menores. Em um posto de combustíveis, por exemplo, podem ser
analisados separadamente o recebimento do produto, o armazenamento nos tanques,
o abastecimento dos veículos, a drenagem da área e o gerenciamento dos
resíduos.
Essa divisão facilita a observação. Também
evita que a equipe trate toda a instalação como se apresentasse apenas um risco
geral.
Participação da equipe
A APR não deve ser elaborada somente por
uma pessoa afastada da realidade da operação. A participação de trabalhadores,
responsáveis pela manutenção, gestores, profissionais ambientais e pessoas que
conhecem o local melhora a qualidade dos resultados.
Quem executa diariamente uma atividade
costuma perceber sinais que não aparecem em manuais ou plantas. Um operador
pode saber que determinada válvula trava com frequência. Um trabalhador da
manutenção pode conhecer um trecho de tubulação sujeito a corrosão. Um morador
pode informar que uma área próxima costuma alagar durante chuvas intensas.
A diversidade da equipe também reduz avaliações baseadas apenas em uma opinião. Quanto mais pontos de vista forem considerados, maior será a possibilidade de reconhecer falhas técnicas, humanas, organizacionais e ambientais.
Estrutura básica de uma APR
A APR geralmente é registrada em uma
planilha. O modelo pode variar, mas costuma conter campos como:
Estudos ambientais elaborados para
processos de licenciamento utilizam estruturas semelhantes, relacionando
perigos, causas, modos de detecção, efeitos, frequência, severidade, nível de
risco e recomendações.
O preenchimento deve seguir uma sequência
lógica. Primeiro se identifica o que pode acontecer. Em seguida, são
registradas as causas, as consequências e as barreiras existentes. Por fim, o
risco é classificado e são propostas melhorias.
Identificação da atividade e do perigo
O primeiro campo deve indicar claramente a
etapa analisada. Expressões muito amplas, como “operação da empresa”,
dificultam a identificação dos riscos.
É melhor utilizar descrições específicas,
como:
Em seguida, deve ser identificado o perigo
ou evento indesejado. Alguns exemplos são:
O perigo precisa ser descrito de maneira objetiva. Termos como “problema ambiental” ou “situação perigosa” são vagos e pouco ajudam na definição das medidas de controle.
Levantamento das causas
Depois de identificar o evento, a equipe
deve perguntar: por que isso poderia acontecer?
Um vazamento de combustível, por exemplo,
pode ter diferentes causas:
As causas não devem ser limitadas aos
equipamentos. Também é necessário analisar treinamento, procedimentos,
comunicação, supervisão, planejamento e condições do local.
Registrar apenas “falha humana” é
insuficiente. É preciso detalhar qual ação ocorreu e porque ela foi possível. A
abertura da válvula errada pode estar relacionada à falta de identificação, ao
procedimento confuso, ao treinamento insuficiente ou ao excesso de tarefas.
A análise das causas ajuda a selecionar controles realmente adequados. Se o problema é corrosão, pode ser necessário substituir materiais e melhorar as inspeções. Se
existe dificuldade na
identificação, a sinalização e os procedimentos precisam ser revistos.
Identificação das consequências
As consequências representam os resultados
possíveis caso o evento aconteça.
Um vazamento pode provocar:
A análise deve considerar consequências
internas e externas. Um incêndio pode atingir trabalhadores, mas a fumaça
também pode alcançar residências. Um vazamento iniciado dentro de uma
instalação pode entrar na drenagem e chegar a um rio distante.
É importante evitar descrições muito genéricas. Em vez de registrar apenas “poluição”, a APR deve indicar o meio atingido e o tipo de dano esperado, como “contaminação do solo e do córrego próximo por óleo”.
Formas de detecção
Alguns modelos incluem um campo para
indicar como a falha seria percebida.
A detecção pode ocorrer por:
A existência de um meio de detecção pode
reduzir o tempo de resposta, mas não evita necessariamente o acidente. Um
alarme somente será útil se estiver funcionando, for percebido e provocar uma
ação rápida.
Por isso, deve-se verificar se o sistema é
confiável, se passa por testes e se as pessoas sabem como agir diante do
alerta.
Probabilidade e severidade
Após identificar causas e consequências, a
equipe pode classificar a probabilidade e a severidade.
A probabilidade representa a possibilidade
ou frequência de ocorrência. Pode ser classificada, por exemplo, como:
Para realizar essa avaliação, devem ser
considerados o histórico da atividade, as condições dos equipamentos, a
frequência da tarefa, a ocorrência de quase acidentes e a confiabilidade dos
controles.
A severidade indica a gravidade das
consequências. Uma escala simples pode utilizar as categorias:
Um vazamento pequeno, imediatamente contido em uma área impermeável, pode apresentar severidade menor. Já a ruptura de um tanque próximo a uma nascente
vazamento pequeno, imediatamente
contido em uma área impermeável, pode apresentar severidade menor. Já a ruptura
de um tanque próximo a uma nascente poderá ter consequências graves, mesmo que
a ocorrência seja considerada pouco provável.
A metodologia de Análise Preliminar de
Perigos é descrita em estudos ambientais como uma abordagem qualitativa que
levanta causas, consequências e frequências para determinar o nível de risco de
cada evento.
Classificação do risco
O nível de risco costuma ser obtido pela
combinação entre probabilidade e severidade. Essa combinação permite
estabelecer prioridades.
Os riscos podem ser classificados como:
A classificação não deve ser realizada
apenas para completar a planilha. Seu objetivo é orientar decisões.
Um risco baixo pode exigir manutenção dos
controles e acompanhamento. Um risco moderado pode demandar melhorias
planejadas. Riscos altos ou críticos normalmente exigem medidas mais imediatas,
revisão do processo ou até interrupção da atividade até que condições seguras
sejam estabelecidas.
Os critérios utilizados precisam estar
definidos previamente. Caso contrário, situações semelhantes podem receber
classificações diferentes conforme a opinião de quem preenche a APR.
Controles existentes
A APR também deve registrar as medidas que
já estão implantadas.
Os controles podem incluir:
Entretanto, não basta registrar que o
controle existe. É necessário verificar sua condição real.
Uma bacia de contenção pode estar rachada.
Um extintor pode estar vencido. Um procedimento pode estar desatualizado. Um
alarme pode nunca ter sido testado.
Assim, o controle deve ser avaliado quanto
à adequação, funcionamento, manutenção e capacidade de reduzir o risco.
Recomendações preventivas e mitigadoras
As recomendações devem ser específicas e
relacionadas às causas identificadas.
Medidas preventivas procuram evitar que o
evento aconteça. Entre elas estão:
As medidas mitigadoras reduzem as
consequências depois que o evento começa. Alguns exemplos são:
Uma recomendação como “tomar mais cuidado”
é inadequada porque não informa o que deve ser feito. É melhor escrever
“realizar inspeção mensal das mangueiras e substituí-las ao primeiro sinal de
desgaste”.
Exemplo simplificado de APR
Considere o armazenamento de tambores de
óleo em uma oficina.
Atividade:
armazenamento de óleo lubrificante usado.
Evento: vazamento de um
tambor.
Causas: corrosão, queda
durante a movimentação, fechamento inadequado ou colisão.
Detecção:
observação visual, presença de odor ou manchas no piso.
Consequências:
contaminação do solo, entrada de óleo na drenagem e risco de incêndio.
Probabilidade:
possível.
Severidade:
moderada ou grave, dependendo do volume e da proximidade de cursos d’água.
Controles existentes:
recipientes identificados, piso impermeável e material absorvente.
Recomendações:
instalar contenção com capacidade adequada, proteger a drenagem, inspecionar os
tambores e treinar os responsáveis pela movimentação.
Nesse exemplo, cada medida está
relacionada às causas ou às consequências encontradas.
Erros comuns na elaboração
Uma APR pode perder utilidade quando é
preenchida apenas como obrigação documental.
Entre os erros mais comuns estão:
Outro problema é elaborar a APR uma única
vez e nunca revisá-la. Mudanças em produtos, equipamentos, procedimentos,
entorno ou volume de produção podem criar novos riscos.
Atualização e acompanhamento
A APR deve ser revisada quando ocorrerem:
As medidas recomendadas também precisam
ser acompanhadas. Cada ação deve possuir responsável, prazo e forma de
verificação.
Sem esse acompanhamento, a APR se
transforma em um registro de problemas que nunca foram resolvidos.
Considerações finais
A Análise Preliminar de Riscos é uma
ferramenta simples, mas muito útil para antecipar acidentes ambientais. Ela
organiza informações sobre atividades, perigos, causas, consequências,
controles e medidas necessárias.
Sua qualidade depende do conhecimento da
atividade, da participação das pessoas e da clareza dos registros. Uma boa APR
não procura apenas preencher uma tabela. Ela deve ajudar a equipe a compreender
os riscos e a tomar decisões práticas.
Quando aplicada corretamente, a ferramenta
permite reconhecer fragilidades antes que elas provoquem danos. Dessa maneira,
contribui para proteger trabalhadores, comunidades, recursos naturais e a
própria continuidade das atividades.
Referências bibliográficas
COMPANHIA AMBIENTAL DO ESTADO DE SÃO
PAULO. Norma Técnica P4.261: risco de acidente de origem tecnológica —
método para decisão e termos de referência. 2. ed. São Paulo: CETESB, 2011.
COMPANHIA AMBIENTAL DO ESTADO DE SÃO
PAULO. Manual de orientação para a elaboração de estudos de análise e
avaliação de riscos. São Paulo: CETESB, 1991.
INSTITUTO ESTADUAL DE MEIO AMBIENTE E
RECURSOS HÍDRICOS. Análise de risco ambiental: Análise Preliminar de Perigos.
Vitória: Iema, 2013.
SUPERINTENDÊNCIA DE ADMINISTRAÇÃO DO MEIO
AMBIENTE. Estudo de análise de risco: atividade de extração e beneficiamento
de minério de ferro. João Pessoa: Sudema, 2015.
Aula 6 — Matriz de riscos e definição de
prioridades
Depois de identificar os perigos e
descrever os possíveis cenários acidentais, é necessário decidir quais
situações exigem maior atenção. Nem todos os riscos possuem a mesma
importância, e os recursos disponíveis para prevenção também são limitados. Por
isso, a equipe precisa estabelecer prioridades de maneira organizada.
A matriz de riscos é uma ferramenta que
ajuda nessa tarefa. Ela combina a possibilidade de um evento acontecer com a
gravidade de suas consequências. O resultado permite comparar cenários,
visualizar os riscos mais relevantes e orientar medidas de prevenção, controle
e preparação para emergências.
A matriz não fornece uma verdade absoluta. Ela representa uma
avaliação baseada nas informações disponíveis, nos critérios
adotados e no conhecimento da equipe. Ainda assim, quando utilizada de maneira
cuidadosa, facilita a tomada de decisões e evita que situações graves sejam
tratadas apenas com base em opiniões pessoais.
O que é uma matriz de riscos?
A matriz de riscos é uma representação que
relaciona dois elementos principais:
A combinação desses elementos gera um
nível de risco. Esse nível pode ser classificado como baixo, moderado, alto,
sério, crítico ou por outras denominações definidas pela metodologia adotada.
O Ibama estabelece, em sua metodologia
para Análise Preliminar de Perigos, que a avaliação deve considerar categorias
de frequência, severidade e uma matriz de classificação. O órgão também admite
o uso de outras metodologias, desde que sejam justificadas tecnicamente.
A matriz pode ser montada com três, quatro
ou cinco níveis em cada eixo. Uma estrutura com cinco níveis é bastante
utilizada porque permite diferenciar melhor os cenários, mas matrizes menores
também podem ser adequadas para atividades simples.
Avaliação da probabilidade
A probabilidade representa a chance de
determinado evento acontecer. Em algumas metodologias, utiliza-se o termo
frequência, especialmente quando existem registros históricos ou estimativas
sobre o número de ocorrências ao longo do tempo.
Uma escala qualitativa simples pode ser
organizada da seguinte forma:
1. Rara:
o evento somente ocorreria em circunstâncias excepcionais.
2. Improvável:
pode ocorrer, mas não é esperado durante a operação normal.
3. Possível:
há condições para que aconteça em algum momento.
4. Provável:
pode ocorrer algumas vezes durante a vida da atividade.
5. Frequente:
tende a acontecer repetidamente.
A definição da probabilidade deve
considerar evidências. Não basta afirmar que um acidente é improvável apenas
porque nunca aconteceu naquele estabelecimento.
Algumas perguntas ajudam na classificação:
Dados históricos são úteis, mas precisam
ser interpretados com cuidado. A ausência de registros pode significar que o
evento é raro, mas também pode indicar falhas na comunicação ou no registro de
ocorrências.
Avaliação da severidade
A severidade representa a dimensão das
consequências caso o cenário realmente aconteça.
Uma escala introdutória pode ser definida
assim:
1. Insignificante:
efeito pequeno, localizado e facilmente controlado.
2. Leve:
dano limitado, reversível e de curta duração.
3. Moderada:
consequência que exige recursos de controle e recuperação.
4. Grave:
danos ambientais ou sociais amplos, com recuperação difícil.
5. Catastrófica:
mortes, destruição extensa, contaminação de longa duração ou comprometimento de
grandes áreas.
Para classificar a severidade, é
necessário observar mais do que a quantidade de produto liberado. Também devem
ser consideradas sua toxicidade, inflamabilidade, capacidade de propagação e
persistência no ambiente.
Um vazamento relativamente pequeno pode
ter severidade elevada quando ocorre próximo a uma nascente, a uma escola ou a
uma área de grande importância ecológica. Da mesma forma, uma liberação de
grande volume pode ter consequências reduzidas quando é rapidamente contida em
uma estrutura adequada.
Entre os fatores que influenciam a
severidade estão:
Combinando probabilidade e consequência
Depois de classificar a probabilidade e a
severidade, os valores são cruzados na matriz.
Em uma metodologia simples, um evento
provável com consequência grave receberá classificação elevada. Já uma situação
rara, com consequência leve, poderá ser considerada de menor prioridade.
Um exemplo de interpretação seria:
Guias de gestão de riscos do Governo Federal utilizam matrizes de probabilidade e
de gestão de riscos do Governo
Federal utilizam matrizes de probabilidade e impacto para ordenar os riscos e
identificar aqueles que exigem maior atenção. A ferramenta permite relacionar
classificações qualitativas ou semiquantitativas e apresentar o resultado de
forma visual.
As cores são frequentemente utilizadas
para facilitar a leitura, como verde para riscos menores, amarelo para
moderados e vermelho para os mais elevados. No entanto, a cor não substitui a
descrição do cenário nem a justificativa da avaliação.
Exemplo de aplicação
Considere um depósito com tambores de óleo
próximo a uma canaleta de drenagem.
O cenário analisado é o vazamento de um
tambor, com possibilidade de o produto alcançar um córrego.
A equipe verifica que alguns recipientes
já apresentam sinais de corrosão e que pequenos vazamentos ocorreram
anteriormente. Por esse motivo, a probabilidade pode ser classificada como
possível ou provável.
Como a canaleta está ligada ao córrego e
não existe barreira de contenção, a consequência pode ser considerada grave. A
combinação provavelmente resultará em risco alto ou crítico, conforme a matriz
utilizada.
Nesse caso, as medidas prioritárias
poderiam incluir:
Depois da implantação dessas medidas, o
risco deve ser avaliado novamente.
Risco inerente e risco residual
O risco inerente é aquele existente antes
de considerar os controles implantados. Ele representa o nível de exposição
original do cenário.
O risco residual é o que permanece depois
da aplicação das medidas de prevenção e controle.
Imagine um tanque de combustível sem
contenção, sem sensores e próximo a uma rede de drenagem. Antes dos controles,
o risco de contaminação pode ser elevado.
Após a instalação de bacia de contenção,
alarme de nível, válvula de bloqueio e programa de inspeção, a probabilidade e
as consequências podem ser reduzidas. O risco que ainda permanece é chamado de
residual.
Documentos oficiais de gestão de riscos
definem o risco residual como aquele ao qual a organização continua exposta
após a implementação e a avaliação das medidas de controle.
É importante lembrar que o risco raramente desaparece por completo. Mesmo com controles, ainda pode haver falhas, condições inesperadas ou combinações de eventos não
previstas.
Aceitabilidade do risco
Depois da classificação, a organização
precisa decidir se o risco pode ser aceito, se necessita de redução ou se a
atividade deve ser modificada.
Essa decisão depende de critérios
técnicos, legais e institucionais. Também deve considerar a vulnerabilidade do
local e a possibilidade de consequências graves.
Um risco baixo pode ser aceito desde que
os controles sejam mantidos e monitorados. Um risco moderado normalmente exige
acompanhamento e melhorias planejadas. Riscos altos ou críticos demandam
tratamento prioritário.
Entretanto, um cenário de consequência
catastrófica não deve ser ignorado somente porque foi classificado como raro.
Eventos pouco frequentes podem exigir controles rigorosos quando envolvem
potencial de mortes, contaminação extensa ou danos irreversíveis.
A análise precisa considerar a combinação
completa. Avaliar apenas a probabilidade pode levar à subestimação de acidentes
de grande magnitude.
Priorização das medidas
A matriz permite ordenar os cenários, mas
também é necessário definir como os riscos serão tratados.
As ações podem seguir esta lógica:
Para cada medida, é recomendável
registrar:
A prioridade deve ser dada aos riscos mais
elevados, mas isso não significa abandonar os riscos menores. Pequenas
ocorrências frequentes podem acumular danos e indicar falhas no sistema.
Critérios complementares
A multiplicação entre probabilidade e
consequência nem sempre é suficiente para representar toda a complexidade
ambiental.
A equipe pode considerar outros critérios,
como:
Um vazamento em um piso impermeável e
outro próximo a um manguezal podem receber valores semelhantes de
probabilidade, mas as consequências ambientais serão muito diferentes.
Por isso, a classificação deve
ser
acompanhada por uma descrição clara e uma justificativa técnica.
Limitações da matriz
A matriz de riscos é útil, mas possui
limitações.
Uma delas é a subjetividade. Duas equipes
podem classificar o mesmo cenário de maneira diferente, especialmente quando
não existem dados históricos suficientes.
Outra limitação é a falsa sensação de
precisão. Um resultado numérico, como 12 ou 16, pode parecer exato, mesmo tendo
sido construído a partir de categorias qualitativas.
Também podem ocorrer distorções quando
diferentes combinações produzem o mesmo valor. Um evento frequente de
consequência leve pode receber pontuação semelhante à de um evento raro e
catastrófico, embora exijam estratégias de controle diferentes.
Estudos sobre matrizes de probabilidade e
consequência destacam que elas são formas de exibição e priorização, mas
precisam ser aplicadas com critérios coerentes e conhecimento das suas
limitações.
A matriz não substitui investigações
detalhadas, cálculos de dispersão, análises de vulnerabilidade ou outras
técnicas necessárias em atividades complexas.
Erros comuns
Alguns erros reduzem a qualidade da
classificação:
Outro erro comum é avaliar diretamente o
risco residual, sem primeiro compreender o risco inerente. Isso pode esconder a
verdadeira importância dos controles e dificultar a identificação de suas
falhas.
Revisão da avaliação
A classificação deve ser revista sempre
que houver mudanças relevantes, como:
O risco residual também precisa ser
acompanhado. Um controle eficiente hoje pode perder confiabilidade com o
desgaste, a falta de manutenção ou a mudança das condições de operação.
Considerações finais
A matriz de riscos é uma ferramenta de apoio à decisão. Ela combina a probabilidade de ocorrência com a
gravidade das
consequências, permitindo comparar cenários e definir prioridades.
Sua aplicação exige critérios claros,
informações confiáveis e participação de pessoas que conheçam a atividade. A
classificação não deve ser tratada como um cálculo automático, pois fatores
ambientais, sociais e operacionais podem alterar significativamente o
resultado.
Também é necessário diferenciar o risco
inerente, existente antes dos controles, do risco residual, que permanece
depois das medidas implantadas.
Mais importante do que atribuir uma cor ou
um número ao risco é utilizar o resultado para agir. A matriz cumpre sua função
quando ajuda a corrigir falhas, orientar investimentos, fortalecer controles e
evitar que perigos conhecidos se transformem em acidentes ambientais.
Referências bibliográficas
BRASIL. Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis. Instrução Normativa nº 22, de
19 de dezembro de 2025. Estabelece procedimentos e critérios relacionados à
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e Inovações. Metodologia de gestão de riscos do Ministério da Ciência,
Tecnologia e Inovações. Brasília, DF: MCTI, 2022.
BRASIL. Ministério das Comunicações. Guia
de gestão de riscos. Brasília, DF: Ministério das Comunicações, 2021.
BRASIL. Ministério das Cidades. Guia
rápido da metodologia de gestão de riscos e controles internos de processos
organizacionais. Brasília, DF: Ministério das Cidades, 2025.
COMPANHIA AMBIENTAL DO ESTADO DE SÃO
PAULO. Norma Técnica P4.261: risco de acidente de origem tecnológica —
método para decisão e termos de referência. 2. ed. São Paulo: CETESB, 2011.
COMPANHIA AMBIENTAL DO ESTADO DE SÃO PAULO. Manual de orientação para a elaboração de estudos de análise e avaliação de riscos. São Paulo: CETESB, 1991.
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