BÁSICO DE HIPNOSE CHARCOT
A histeria foi uma das mais debatidas e enigmáticas
condições médicas do século XIX, ocupando um lugar central no discurso clínico,
social e cultural da época. A doença, que inicialmente era associada a
explicações místicas e religiosas, foi gradualmente incorporada ao campo da
medicina e da neurologia, ganhando contornos científicos. No entanto, mesmo com
o avanço do saber médico, a histeria permaneceu envolta em estigmas,
especialmente ligados ao corpo e à subjetividade feminina.
O termo “histeria” tem origem no grego hystera, que significa útero. Desde a Antiguidade, acreditava-se
que certos distúrbios físicos e emocionais nas mulheres tinham origem em um
suposto deslocamento do útero dentro do corpo. Essa concepção influenciou
profundamente a visão médica durante séculos, sustentando a ideia de que a
histeria era uma doença essencialmente feminina, de natureza fisiológica e
associada à instabilidade emocional.
Durante o século XIX, com o surgimento da medicina moderna
e da neurologia como disciplinas científicas, houve uma tentativa de
ressignificar a histeria com base em critérios empíricos e observação clínica.
Nesse contexto, destaca-se a atuação de Jean-Martin
Charcot, neurologista francês que liderou o Hospital da Salpêtrière, em
Paris, e transformou a histeria em objeto de estudo sistemático. Charcot foi um
dos primeiros a propor que a histeria não era uma simulação, nem uma fraqueza
moral, mas uma condição neurológica real que poderia se manifestar por meio de
crises, paralisias, alterações sensoriais e comportamentos incomuns.
Charcot desenvolveu uma tipologia da histeria baseada em
observações clínicas e no uso da hipnose como ferramenta investigativa. Ele
acreditava que o cérebro das pacientes histéricas apresentava predisposições
funcionais que, sob certos estímulos, desencadeavam manifestações físicas e
motoras específicas. Embora não existisse comprovação anatômica dessas causas,
Charcot defendia que a histeria deveria ser estudada com o mesmo rigor que
outras doenças neurológicas, como a epilepsia ou a esclerose múltipla.
Além de Charcot, outros nomes importantes contribuíram para a discussão sobre a histeria no século XIX. O médico francês Hippolyte Bernheim, por exemplo, divergiu de Charcot ao propor que os fenômenos associados à histeria podiam ser explicados principalmente por sugestão e influência psíquica. Para Bernheim e os defensores da
chamada Escola de Nancy, a hipnose e os sintomas histéricos
não eram indícios de lesão cerebral, mas expressões do poder da imaginação e da
credulidade do paciente. Essa visão introduziu uma dimensão psicossocial
importante ao debate, aproximando a histeria de fatores subjetivos e culturais.
A virada conceitual mais marcante, porém, viria com Sigmund Freud, que estudou com Charcot
e depois desenvolveu sua própria abordagem teórica sobre a histeria. Freud foi
responsável por uma ruptura profunda: ao abandonar as hipóteses neurológicas e
fisiológicas, ele passou a interpretar os sintomas histéricos como manifestações
do inconsciente. Em obras como Estudos
sobre a Histeria (1895), escritas em colaboração com Josef Breuer, Freud
propôs que os sintomas físicos sem causa orgânica identificável eram expressões
simbólicas de conflitos psíquicos reprimidos. A histeria passou a ser entendida
como uma linguagem do inconsciente, na qual o corpo “fala” aquilo que a mente
não consegue elaborar.
Freud também rompeu com a ideia de que a histeria era
exclusivamente feminina. Embora a grande maioria dos casos clínicos descritos
envolvesse mulheres, ele reconhecia que homens também podiam desenvolver
sintomas histéricos, especialmente diante de traumas ou repressões emocionais
intensas. Essa perspectiva ampliou o escopo do diagnóstico e contribuiu para o
desenvolvimento da psicanálise como um campo teórico e terapêutico.
No entanto, mesmo com essas contribuições, a concepção de
histeria no século XIX continuava fortemente marcada por preconceitos de
gênero. A associação entre histeria e feminilidade era alimentada por
estereótipos sobre a fragilidade emocional da mulher, sua sexualidade reprimida
e sua suposta predisposição à instabilidade psíquica. Muitas pacientes
internadas em instituições psiquiátricas eram, na verdade, vítimas de abusos,
opressões ou incompreensões sociais que se convertiam em diagnósticos patologizantes.
Do ponto de vista cultural, a histeria tornou-se um símbolo
da modernidade e da crise dos modelos tradicionais de subjetividade. A figura
da mulher histérica, com seus gestos dramáticos e corpos convulsos, povoou a
literatura, o teatro, a fotografia médica e o imaginário coletivo da época. A
histeria, mais do que um simples diagnóstico, tornou-se um fenômeno cultural,
atravessado por disputas entre ciência, arte, moralidade e política.
Em síntese, a concepção de histeria no século XIX passou por um processo complexo de
transição: de uma noção arcaica e mística para uma
abordagem médica e, mais tarde, psicológica. Essa trajetória revela não apenas
as transformações no pensamento científico, mas também as tensões sociais e
culturais que moldaram a forma como o sofrimento psíquico era interpretado e
tratado. A histeria, nesse sentido, foi uma construção histórica que refletiu
os limites e as possibilidades do saber médico diante da subjetividade humana.
• Ellenberger,
H. F. (1970). The Discovery of the
Unconscious: The History and Evolution of Dynamic Psychiatry. Basic Books.
• Didi-Huberman,
G. (2003). Invention of Hysteria: Charcot
and the Photographic Iconography of the Salpêtrière. MIT Press.
• Freud,
S., & Breuer, J. (1895). Estudos
sobre a Histeria. Obras Completas de Sigmund Freud. Imago.
• Micale,
M. S. (1990). Approaching Hysteria:
Disease and Its Interpretations. Princeton University Press.
• Veith,
I. (1965). Hysteria: The History of a
Disease. University of Chicago Press.
Jean-Martin Charcot, neurologista francês do século XIX,
foi um dos principais responsáveis por introduzir a hipnose no campo da
medicina científica, afastando-a das associações com o esoterismo e o
magnetismo animal. Seu trabalho no Hospital da Salpêtrière, em Paris, conferiu
à hipnose um status clínico ao vinculá-la ao estudo das doenças neurológicas,
em especial à histeria. Um dos marcos mais relevantes de sua contribuição foi a
formulação de uma classificação dos estados hipnóticos em três fases distintas:
letargia, catalepsia e sonambulismo. Essa tipologia se tornou referência nos
estudos da época e influenciou profundamente o modo como a hipnose foi
compreendida por médicos, psicólogos e psicanalistas nas décadas seguintes.
A abordagem de Charcot à hipnose partia de uma concepção neurológica do fenômeno. Ele acreditava que a suscetibilidade hipnótica era uma condição associada a uma predisposição patológica do sistema nervoso, sobretudo em indivíduos histéricos. Para Charcot, a hipnose era uma manifestação de uma alteração funcional cerebral, não sendo possível em todos os indivíduos, mas apenas naqueles considerados “neuropatas”. Baseando-se em observações clínicas sistemáticas de pacientes hipnotizadas, especialmente mulheres com diagnóstico de histeria, Charcot identificou uma sequência de estados que se repetiam com
neurológica do fenômeno. Ele acreditava que a suscetibilidade hipnótica era uma
condição associada a uma predisposição patológica do sistema nervoso, sobretudo
em indivíduos histéricos. Para Charcot, a hipnose era uma manifestação de uma
alteração funcional cerebral, não sendo possível em todos os indivíduos, mas
apenas naqueles considerados “neuropatas”. Baseando-se em observações clínicas
sistemáticas de pacientes hipnotizadas, especialmente mulheres com diagnóstico
de histeria, Charcot identificou uma sequência de estados que se repetiam com
relativa regularidade durante a indução hipnótica, os quais denominou como
fases da hipnose.
O primeiro estado,
denominado letargia, era
caracterizado por um relaxamento profundo, semelhante a um torpor. Nessa fase,
a paciente apresentava diminuição acentuada da resposta a estímulos externos,
com fechamento dos olhos, hipotonia muscular e lentidão nos movimentos. Os
reflexos estavam presentes, mas a reatividade geral era reduzida. Charcot
interpretava a letargia como um estado de suspensão parcial da consciência,
próximo ao sono, em que a comunicação com o hipnotizador era limitada ou
inexistente.
O segundo estado
era o da catalepsia, o qual se
manifestava quando a paciente era exposta a um estímulo específico, como a
abertura das pálpebras. Na catalepsia, o corpo da paciente adquiria uma rigidez
muscular peculiar, com membros capazes de permanecer em posições inusitadas por
longos períodos, sem fadiga aparente. Esse fenômeno era conhecido como
“manutenção postural” e despertava grande curiosidade nos observadores. A
consciência do sujeito ainda era turva, mas a responsividade a comandos simples
aumentava. A catalepsia era interpretada por Charcot como uma suspensão
funcional do controle voluntário, com predominância de reflexos automáticos.
O terceiro e último estado era o do sonambulismo hipnótico, considerado o mais complexo e impressionante. Nesse estágio, a paciente apresentava uma aparente recuperação da motricidade e da capacidade de comunicação, mas sob um estado de consciência alterado. Era possível interagir com ela por meio de sugestões verbais, e muitas vezes ocorriam comportamentos automatizados, como responder perguntas, realizar tarefas simples ou reviver memórias antigas. Charcot acreditava que, nesse estado, o sujeito entrava em uma espécie de "segunda consciência", na qual a sugestão hipnótica podia produzir efeitos terapêuticos, mnêmicos ou comportamentais. O sonambulismo era
interpretado como o ponto máximo da dissociação mental
provocada pela hipnose.
A sequência dos três estados – letargia, catalepsia e
sonambulismo – era entendida como uma progressão linear, que poderia ser
induzida e revertida por meio de estímulos específicos, como a aplicação de
pressão em pontos musculares ou a manipulação dos olhos e membros. Charcot
sustentava que essa progressão ocorria de forma ordenada e obedecia a uma
lógica fisiológica que poderia ser replicada em diferentes pacientes
histéricos. Essa regularidade permitia, segundo ele, estudar a hipnose como uma
função neurológica alterada e previsível, passível de observação científica.
Entretanto, a teoria dos três estados de Charcot não foi
aceita sem críticas. A chamada Escola de
Nancy, liderada por Hippolyte Bernheim e Ambroise Liébeault, discordava da
ideia de que a hipnose era um fenômeno patológico exclusivo de histéricos. Para
esses autores, qualquer pessoa suficientemente sugestionável poderia ser
hipnotizada, independentemente de possuir uma condição neurológica. Eles
defendiam que a sugestão, e não a condição médica, era o elemento central do
fenômeno hipnótico. Essa divergência entre as escolas de Paris e Nancy marcou o
debate sobre a hipnose no final do século XIX, contribuindo para a ampliação de
sua compreensão e aplicação.
Apesar das controvérsias, o modelo de Charcot teve grande
influência no desenvolvimento da psicopatologia e na constituição das primeiras
ideias sobre dissociação mental. Além disso, seu impacto ultrapassou a
neurologia: a ideia de que a mente humana poderia se fragmentar em estados
conscientes distintos e acessíveis por meios específicos ressoou nas teorias
psicanalíticas de Sigmund Freud, que foi aluno de Charcot e tradutor de algumas
de suas obras.
Em síntese, a classificação dos estados hipnóticos proposta
por Charcot foi uma tentativa pioneira de sistematizar cientificamente o transe
hipnótico, vinculando-o ao funcionamento neurológico e aos sintomas histéricos.
Embora posteriormente superada por abordagens mais amplas e psicológicas, sua
tipologia foi fundamental para o reconhecimento da hipnose como objeto de
estudo legítimo na medicina e na psicologia moderna.
• Charcot,
J.-M. (1882). Leçons sur les maladies du
système nerveux faites à la Salpêtrière. Paris: Bureaux du Progrès Médical.
• Ellenberger, H. F. (1970). The Discovery of the Unconscious: The History and Evolution of Dynamic
Psychiatry. New York:
Basic Books.
• Gauld,
A. (1992). A History of Hypnotism.
Cambridge: Cambridge University Press.
• Didi-Huberman,
G. (2003). Invention of Hysteria: Charcot
and the Photographic Iconography of the Salpêtrière. MIT Press.
• Micale,
M. S. (1995). Beyond the Unconscious:
Essays of Henri F. Ellenberger in the History of Psychiatry. Princeton
University Press.
A hipnose, desde suas primeiras sistematizações científicas
no século XIX, foi objeto de intensos debates entre escolas médicas, teóricos
da mente e psicólogos. Entre os principais pontos de divergência esteve a
tentativa de compreender se a hipnose constituía um estado especial,
neurológica e biologicamente determinado — ou se, ao contrário, era fruto de
fatores psicológicos, sociais e culturais, especialmente da sugestionabilidade.
A crítica à naturalização da hipnose — ou seja, à ideia de que ela é uma resposta
automática, inerente a certos indivíduos — surgiu como contraponto à abordagem
neurologizante inaugurada por Jean-Martin Charcot e sua escola, especialmente
em Paris, no Hospital da Salpêtrière.
Charcot sustentava que a hipnose era um estado patológico,
ligado a condições neurológicas específicas, principalmente à histeria. Para
ele, a hipnose se manifestava em três estágios progressivos — letargia,
catalepsia e sonambulismo — que poderiam ser induzidos e reproduzidos
experimentalmente, sendo, portanto, considerados manifestações objetivas de uma
predisposição orgânica. Essa leitura conferia à hipnose uma dimensão
essencialista: apenas determinados indivíduos, “neuropatas” ou histéricos,
seriam naturalmente hipnotizáveis.
Entretanto, essa naturalização da hipnose foi fortemente
contestada por médicos e psicólogos ligados à chamada Escola de Nancy, como Hippolyte Bernheim e Ambroise Liébeault. Para
esses autores, a hipnose não era uma consequência de uma condição neurológica
anormal, mas um fenômeno psicológico universal, baseado na sugestão. A sugestionabilidade, definida como a
capacidade do indivíduo de aceitar e responder a ideias ou comandos
apresentados por outra pessoa, era vista por Bernheim como um traço humano
comum, não patológico, presente em maior ou menor grau em todos.
A crítica de Bernheim à concepção charcotiana da hipnose se baseava na observação de que qualquer pessoa — e não apenas histéricos — podia ser hipnotizada, desde que houvesse
confiança no hipnotizador, expectativa de
resultado e disposição para cooperar. Nesse sentido, a hipnose era compreendida
não como um estado orgânico raro, mas como um fenômeno relacional, influenciado por fatores emocionais, culturais
e sociais. Essa perspectiva inaugurou uma abordagem mais subjetiva da hipnose,
focada nos mecanismos psíquicos e nas dinâmicas intersubjetivas, e teve forte
impacto no desenvolvimento posterior da psicoterapia.
A noção de sugestionabilidade, no entanto, também foi alvo
de críticas posteriores, especialmente de pensadores que apontaram os riscos de
reduzir a hipnose à ideia de submissão passiva do sujeito. Autores como Pierre
Janet e, mais tarde, Milton Erickson, defenderam abordagens mais complexas, nas
quais o estado hipnótico não se explicava apenas pela aceitação de sugestões
externas, mas envolvia processos internos como dissociação, foco atencional
seletivo, modulação da consciência e ativação de conteúdos inconscientes.
Além disso, a crítica à sugestionabilidade também encontrou
respaldo em análises filosóficas e sociológicas. Michel Foucault, por exemplo,
ao discutir os regimes de saber e poder na medicina, chamou atenção para a
dimensão disciplinadora presente nas práticas hipnóticas do século XIX. Ao
transformar o paciente hipnotizado em objeto de demonstração clínica — como
ocorria nas aulas públicas da Salpêtrière — a medicina reiterava uma relação
hierárquica entre sujeito e autoridade médica. Nesse contexto, a sugestionabilidade
deixava de ser apenas um traço psicológico e passava a refletir uma forma de
submissão simbólica à autoridade institucional.
Do ponto de vista contemporâneo, a hipnose é compreendida como um estado de consciência modificado, com base em evidências neurofisiológicas que demonstram alterações na atividade cerebral durante o transe. No entanto, mesmo essas abordagens modernas reconhecem a importância de fatores subjetivos como motivação, expectativa, confiança e contexto cultural. Pesquisas atuais apontam que a resposta hipnótica depende tanto da disposição interna do indivíduo quanto das condições externas de aplicação, o que desfaz a ideia de um mecanismo automático ou natural.
Assim, a crítica à naturalização da hipnose e à concepção rígida de sugestionabilidade representou um avanço teórico importante, ao retirar o fenômeno do campo da neurologia pura e reinscrevê-lo no universo das relações humanas e das construções sociais. Em vez de ser visto como um estado
reservado a poucos, a hipnose passou a ser entendida como uma experiência
possível e variável, acessível à maioria das pessoas em graus diferentes e
dependente de múltiplos fatores contextuais.
Essa mudança de perspectiva contribuiu para a valorização
da autonomia do paciente, para o desenvolvimento de práticas terapêuticas mais
humanizadas e para a integração da hipnose ao campo da psicologia clínica e da
medicina baseada em evidências. Ao abandonar a visão determinista, a hipnose
pôde ser reinserida como recurso legítimo, ético e eficaz no cuidado à saúde
mental, ampliando suas possibilidades de aplicação e sua compreensão
científica.
• Bernheim,
H. (1888). Suggestive Therapeutics: A
Treatise on the Nature and Uses of Hypnotism. New York: G.P. Putnam’s Sons.
• Charcot,
J.-M. (1882). Leçons sur les maladies du
système nerveux. Paris: Bureaux du Progrès Médical.
• Ellenberger,
H. F. (1970). The Discovery of the
Unconscious: The History and Evolution of Dynamic Psychiatry. Basic Books.
• Foucault,
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Clássica. São Paulo: Perspectiva.
• Gauld,
A. (1992). A History of Hypnotism.
Cambridge: Cambridge University Press.
• Nash,
M. R., & Barnier, A. J. (Eds.). (2008). The
Oxford Handbook of Hypnosis: Theory, Research, and Practice. Oxford
University Press.
As Demonstrações Públicas de Hipnose por Charcot
No final do século XIX, Jean-Martin Charcot destacou-se
como um dos principais responsáveis pela institucionalização da hipnose no
campo médico-científico. Seu trabalho no Hospital da Salpêtrière, em Paris,
transformou práticas até então marginalizadas — como o magnetismo animal e o
transe hipnótico — em objetos legítimos de observação clínica e ensino
universitário. Uma das estratégias centrais utilizadas por Charcot para essa
legitimação foram as demonstrações
públicas de hipnose, que ganharam notoriedade internacional e influenciaram
tanto a medicina quanto a cultura popular da época.
Essas sessões, conhecidas como "as terças-feiras da Salpêtrière", reuniam uma plateia diversa, composta por médicos, estudantes, cientistas, artistas, jornalistas e membros da elite parisiense. Nas salas do hospital, Charcot apresentava pacientes diagnosticadas com histeria, submetendo-as a estados hipnóticos induzidos por técnicas específicas, como fixação do olhar, pressão muscular ou sugestões verbais. A estrutura dessas apresentações era
cuidadosamente
organizada: Charcot explicava as fases da hipnose, demonstrava sintomas
clínicos como convulsões, anestesias ou catalepsias, e interpretava os
comportamentos das pacientes à luz de suas teorias neurológicas.
O objetivo declarado dessas demonstrações era educacional e científico. Charcot via a
hipnose como uma ferramenta legítima para investigar o sistema nervoso e as
manifestações histéricas, e acreditava que a reprodução pública desses
fenômenos podia contribuir para sua aceitação entre os médicos. Ele argumentava
que os sintomas hipnóticos eram expressões reais de uma condição neurológica e
não simulações, e buscava demonstrar sua regularidade e previsibilidade. A
divisão tripartida dos estados hipnóticos — letargia, catalepsia e sonambulismo
— era frequentemente apresentada nessas sessões, com cada estágio ilustrado por
pacientes diferentes ou pela progressão de uma mesma paciente ao longo do
transe.
Contudo, as demonstrações públicas promovidas por Charcot
ultrapassaram os limites da prática médica convencional. Elas possuíam um caráter teatral e performático, que
despertava o fascínio tanto da comunidade científica quanto do público leigo. A
presença de fotógrafos e desenhistas contribuía para a documentação visual dos
eventos, resultando em obras como a Iconographie
Photographique de la Salpêtrière, uma série de registros fotográficos que
se tornaram ícones da medicina do período. Esses materiais representavam as
pacientes em posturas dramáticas e expressões intensas, reforçando a imagem da
histeria como um espetáculo corporal.
A recepção das demonstrações variava. Para muitos médicos e
estudantes, as sessões eram momentos privilegiados de aprendizado e contato
direto com fenômenos pouco compreendidos. Já para outros observadores, as
encenações hipnóticas geravam dúvidas sobre sua autenticidade e levantavam
questionamentos éticos. A Escola de
Nancy, liderada por Hippolyte Bernheim, foi uma das principais críticas
desse modelo. Bernheim considerava que os comportamentos das pacientes eram
fortemente influenciados pela sugestão do hipnotizador e pelo contexto da
demonstração, o que comprometia a validade científica dos fenômenos observados.
Para ele, a hipnose não era resultado de uma condição neurológica, mas de um
processo psicossocial que podia ocorrer em qualquer pessoa sugestionável.
Além do debate científico, as demonstrações públicas de Charcot suscitaram reflexões sobre gênero, poder e representação. As
pacientes da Salpêtrière eram, em sua maioria,
mulheres pobres, institucionalizadas e em situação de vulnerabilidade. Ao serem
expostas ao olhar clínico e ao julgamento público, seus corpos se tornavam
palco para a construção de discursos médicos sobre o feminino, a loucura e a
sexualidade. Críticos contemporâneos, como Georges Didi-Huberman, apontaram que
essas apresentações não apenas mostravam a histeria, mas produziam a histeria como um fenômeno visual e discursivo,
alimentado pelo desejo de controle e de interpretação do corpo feminino por
parte da medicina masculina.
Do ponto de vista histórico, as demonstrações de Charcot
desempenharam papel fundamental na transição
da hipnose de um campo marginal para o domínio científico. Elas ajudaram a
estabelecer uma linguagem médica para descrever os estados hipnóticos,
estimularam o interesse de pesquisadores e influenciaram diretamente pensadores
como Sigmund Freud, que assistiu às sessões durante sua estadia em Paris.
Embora hoje sejam vistas com reservas metodológicas e críticas éticas, essas
apresentações foram decisivas para que a hipnose fosse reconhecida como uma
experiência real e estudável, e não como uma prática supersticiosa ou meramente
teatral.
Em síntese, as demonstrações públicas de hipnose por
Charcot foram ao mesmo tempo práticas clínicas, rituais pedagógicos e eventos
performáticos. Elas ilustram um momento específico da história da medicina em
que o saber científico se constituía também por meio da visibilidade, da
autoridade e do espetáculo. Ao transformar a hipnose em um objeto de
demonstração pública, Charcot não apenas divulgou suas ideias, mas moldou a
própria forma como a hipnose seria percebida e debatida nas décadas seguintes.
• Charcot,
J.-M. (1882). Leçons sur les maladies du
système nerveux faites à la Salpêtrière. Paris: Bureaux du Progrès Médical.
• Didi-Huberman,
G. (2003). Invention of Hysteria: Charcot
and the Photographic Iconography of the Salpêtrière. MIT Press.
• Ellenberger,
H. F. (1970). The Discovery of the
Unconscious: The History and Evolution of Dynamic Psychiatry. Basic Books.
• Micale,
M. S. (1990). Approaching Hysteria:
Disease and Its Interpretations. Princeton University Press.
• Bernheim,
H. (1888). Suggestive Therapeutics.
New York: G.P. Putnam’s Sons.
A hipnose clínica, consolidada a partir da segunda metade do
século XIX, transformou-se progressivamente em uma prática terapêutica
fundamentada em protocolos técnicos e objetivos clínicos específicos. Desde os
primeiros estudos de Charcot, na Salpêtrière, até os desenvolvimentos
contemporâneos da hipnoterapia, o uso da sugestão
hipnótica se mostrou central no processo terapêutico. A sugestão, enquanto
mecanismo psicológico de influência sobre percepções, comportamentos ou
sensações, é o principal recurso da hipnose aplicada à prática clínica. Ao
longo do tempo, os procedimentos
clínicos de indução, aprofundamento e utilização do transe hipnótico foram
se tornando mais refinados, sistemáticos e adaptáveis às diferentes demandas
terapêuticas.
Nos modelos pioneiros de hipnose médica, como o proposto
por Jean-Martin Charcot, os procedimentos clínicos eram altamente estruturados.
O hipnotizador utilizava comandos diretos e estímulos físicos (como fixação do
olhar, passes com as mãos ou pressão em pontos musculares) para induzir o
paciente ao transe. Após a indução, Charcot observava manifestações típicas da
histeria, como convulsões, catalepsia e sonambulismo, interpretando-as como
reflexos neurológicos de uma condição patológica latente. Nesse contexto, a
sugestão era considerada menos um instrumento terapêutico e mais um meio de
investigar a fisiologia da mente e do corpo.
A partir da crítica da Escola de Nancy, especialmente com
Hippolyte Bernheim, o foco se deslocou da indução mecânica para a sugestão verbal como elemento central
da hipnose. Bernheim argumentava que o que realmente produzia os efeitos
hipnóticos não era o estado hipnótico em si, mas a aceitação da sugestão.
Assim, o tratamento hipnótico passou a ser estruturado com base em comandos
verbais que buscavam modificar percepções, promover analgesia, induzir
relaxamento ou alterar padrões de comportamento. A sugestão poderia ser dada
durante o transe (sugestão hipnótica) ou com efeitos posteriores (sugestão
pós-hipnótica), como por exemplo instruir o paciente a evitar determinados
comportamentos nocivos ao acordar.
Com o avanço da psicologia clínica no século XX, sobretudo por meio do trabalho de Milton H. Erickson, os procedimentos hipnóticos ganharam sofisticação e flexibilidade. Ao contrário da hipnose diretiva de seus antecessores, Erickson desenvolveu uma abordagem mais indireta, permissiva e adaptada à linguagem e ao repertório individual do paciente. Ele utilizava metáforas, histórias, ambiguidades linguísticas e sugestões embutidas para
os procedimentos hipnóticos ganharam sofisticação e
flexibilidade. Ao contrário da hipnose diretiva de seus antecessores, Erickson
desenvolveu uma abordagem mais indireta, permissiva e adaptada à linguagem e ao
repertório individual do paciente. Ele utilizava metáforas, histórias,
ambiguidades linguísticas e sugestões embutidas para facilitar o acesso ao
inconsciente. Seus procedimentos incluíam a hipnose conversacional, em que o paciente entrava em transe sem
perceber claramente a indução, o que favorecia a superação de resistências e a
internalização mais profunda das sugestões terapêuticas.
Independentemente do estilo utilizado, os procedimentos
clínicos em hipnose seguem uma estrutura básica que envolve quatro etapas
principais: preparação, indução,
aprofundamento e aplicação de sugestões. Na etapa de preparação, o
terapeuta estabelece rapport com o paciente, explica os objetivos da hipnose e
desmonta mitos ou medos associados à prática. A indução consiste na condução
inicial do paciente a um estado alterado de consciência, geralmente por meio de
técnicas como foco atencional, relaxamento progressivo ou visualização guiada.
O aprofundamento visa estabilizar e intensificar o transe, criando um estado de
maior receptividade às sugestões. Por fim, durante a aplicação, o terapeuta
utiliza sugestões formuladas de forma precisa e alinhadas às metas
terapêuticas, como alívio da dor, controle de ansiedade ou reestruturação de
crenças limitantes.
A sugestão hipnótica pode assumir formas variadas, desde sugestões sensoriais, que alteram a
percepção (como sentir calor, frio ou anestesia), até sugestões cognitivas e comportamentais, que estimulam novas formas
de pensar e agir. Sua eficácia depende de vários fatores: a qualidade do
vínculo terapêutico, a clareza das formulações, a motivação do paciente e sua
capacidade de imaginação e concentração. Além disso, a repetição e o reforço
das sugestões ao longo das sessões aumentam a durabilidade dos efeitos
terapêuticos.
Do ponto de vista clínico, a hipnose com sugestão tem sido aplicada com sucesso em diversas áreas da saúde. Na medicina, é usada para controle da dor crônica, anestesia em procedimentos cirúrgicos, tratamento de doenças dermatológicas e gestão de sintomas psicossomáticos. Na psicologia, é útil no tratamento de transtornos de ansiedade, fobias, traumas, dependências químicas e distúrbios alimentares. Já na odontologia, auxilia na redução da dor, do medo e na facilitação de procedimentos
invasivos. Em todas essas áreas,
a sugestão hipnótica funciona como um recurso facilitador da mudança, atuando
diretamente na comunicação com processos inconscientes do paciente.
É importante ressaltar que o uso clínico da hipnose deve
ser realizado por profissionais qualificados, dentro de contextos éticos e
fundamentados cientificamente. A prática deve sempre respeitar a autonomia do
paciente, ser baseada em objetivos terapêuticos claros e estar integrada a um
plano de tratamento mais amplo. Quando utilizada de forma criteriosa, a
sugestão hipnótica representa uma ferramenta eficaz, não invasiva e
profundamente transformadora.
• Bernheim,
H. (1888). Suggestive Therapeutics: A
Treatise on the Nature and Uses of Hypnotism. New York: G.P. Putnam’s Sons.
• Erickson,
M. H., Rossi, E. L., & Rossi, S. (1976). Hypnotic Realities: The Induction of Clinical Hypnosis and Forms of
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• Yapko,
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• Nash,
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Oxford Handbook of Hypnosis: Theory, Research, and Practice. Oxford
University Press.
• Hammond,
D. C. (Ed.). (1990). Handbook of Hypnotic
Suggestions and Metaphors. W. W. Norton & Company.
Jean-Martin Charcot foi uma das figuras centrais no
processo de institucionalização da hipnose e no estudo da histeria no final do
século XIX. Seu trabalho no Hospital da Salpêtrière, em Paris, contribuiu para
a legitimação científica da hipnose como objeto de investigação neurológica.
Contudo, apesar de sua notoriedade, Charcot não ficou imune às críticas de
colegas e discípulos, que divergiam de suas interpretações e métodos. Entre
seus principais críticos contemporâneos destacam-se Hippolyte Bernheim, da Escola de Nancy, e Sigmund Freud, seu ex-aluno e posteriormente fundador da
psicanálise. Ambos ofereceram críticas significativas que ajudaram a redefinir
os rumos da hipnose e da compreensão clínica da histeria.
A crítica de Hippolyte Bernheim concentrou-se, sobretudo, na forma como Charcot compreendia a hipnose como um fenômeno patológico. Para Charcot, apenas pacientes histéricos seriam hipnotizáveis, pois a hipnose resultaria de uma predisposição neurológica. Ele acreditava que o transe hipnótico era uma manifestação de uma condição cerebral
anormal e que seus estágios — letargia, catalepsia e
sonambulismo — eram sequências fixas e observáveis apenas em sujeitos com
distúrbios nervosos. Essa interpretação, fortemente biologizante, implicava que
a hipnose seria uma expressão da degenerescência do sistema nervoso.
Bernheim, por outro lado, via a hipnose de forma muito
diferente. Para ele, não se tratava de uma patologia, mas de um fenômeno
psicológico universal, baseado essencialmente na sugestão. Em suas experiências clínicas, Bernheim demonstrou que qualquer pessoa, independentemente de
sua saúde neurológica, poderia ser hipnotizada sob as condições adequadas. A
sugestibilidade, segundo ele, era uma característica natural do psiquismo
humano, não uma marca da histeria ou da doença. Assim, a hipnose deixava de ser
um sintoma clínico exclusivo de doentes e passava a ser uma técnica terapêutica
aplicável a um espectro mais amplo de pacientes.
A divergência entre Charcot e Bernheim deu origem à
conhecida polêmica entre as Escolas de
Paris e Nancy, que marcou profundamente a história da hipnose. Enquanto
Charcot buscava provar a natureza fisiológica e invariável dos estados
hipnóticos por meio de demonstrações públicas, Bernheim insistia no caráter
psicológico, individual e variável da experiência hipnótica. Essa tensão
refletia visões opostas sobre o funcionamento da mente e sobre a relação entre
corpo e psique. Para Bernheim, a hipnose era um produto da interação entre
sujeito e terapeuta, altamente influenciada pelo contexto, pela linguagem e
pelas expectativas, e não por alterações estruturais no cérebro.
Outro crítico importante de Charcot foi Sigmund Freud, que inicialmente foi seu
aluno e grande admirador. Freud estudou na Salpêtrière entre 1885 e 1886 e
ficou profundamente impressionado com as demonstrações clínicas de Charcot. Na
época, ele traduziu para o alemão algumas das obras de seu mestre e incorporou
a hipnose como técnica terapêutica em sua prática clínica. No entanto, à medida
que desenvolveu sua própria teoria do inconsciente, Freud passou a se afastar
das concepções neurológicas de Charcot.
A crítica de Freud a Charcot foi, sobretudo, conceitual. Freud considerava que a histeria não era provocada por lesões neurológicas, como Charcot supunha, mas por conflitos psíquicos inconscientes. Em sua obra Estudos sobre a Histeria (1895), escrita em coautoria com Josef Breuer, Freud propôs que os sintomas histéricos tinham origem em lembranças traumáticas reprimidas,
que os sintomas
histéricos tinham origem em lembranças traumáticas reprimidas, que se
manifestavam de forma simbólica no corpo. Para acessar essas lembranças e
promover a cura, Freud inicialmente utilizou a hipnose. Contudo, ele constatou
que muitos pacientes não conseguiam ser hipnotizados ou ofereciam resistência à
técnica. Isso o levou a desenvolver a técnica da associação livre, que se tornaria uma das marcas da psicanálise.
Freud também criticou a rigidez dos modelos clínicos de
Charcot. Enquanto Charcot via os estados hipnóticos como fases fixas e
repetíveis, Freud valorizava a singularidade da experiência subjetiva e a
complexidade do inconsciente. Ele argumentava que os sintomas não podiam ser
explicados apenas por mecanismos fisiológicos ou reflexos automáticos, mas
exigiam uma escuta interpretativa da história do sujeito. Assim, Freud deslocou
o foco da observação externa do corpo para a análise interna da mente.
Tanto Bernheim quanto Freud contribuíram para desconstruir o modelo médico-hipnotizador
autoritário, no qual o terapeuta impõe comandos ao paciente em estado
passivo. Em suas respectivas abordagens, a hipnose e a psicoterapia passaram a
ser vistas como práticas relacionais, nas quais a comunicação simbólica e a
subjetividade desempenham papel central. As críticas ao modelo charcotiano
permitiram que a hipnose evoluísse de um espetáculo clínico para uma técnica
terapêutica mais refinada e integrada às ciências psicológicas.
Em síntese, as críticas de Bernheim e Freud foram
fundamentais para o amadurecimento do pensamento clínico sobre a hipnose e a
histeria. Enquanto Bernheim questionou a naturalização e a patologização da
hipnose, Freud desafiou a ideia de que os sintomas histéricos tinham base
exclusivamente neurológica. Ambos contribuíram para uma virada conceitual na
qual a mente, a linguagem e o inconsciente passaram a ocupar o centro da
atenção clínica. Ainda que tenham seguido caminhos diferentes, suas críticas
ajudaram a expandir e complexificar o entendimento sobre os fenômenos que
Charcot, pioneiramente, havia introduzido no campo médico.
• Bernheim,
H. (1888). Suggestive Therapeutics: A
Treatise on the Nature and Uses of Hypnotism. New York: G.P. Putnam’s Sons.
• Charcot,
J.-M. (1882). Leçons sur les maladies du
système nerveux faites à la Salpêtrière. Paris: Bureaux du Progrès Médical.
• Freud, S., & Breuer, J. (1895). Estudos sobre a Histeria. Obras Completas
Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.
• Ellenberger,
H. F. (1970). The Discovery of the
Unconscious: The History and Evolution of Dynamic Psychiatry. New York:
Basic Books.
• Micale, M. S. (1990). Approaching Hysteria: Disease and Its Interpretations. Princeton University Press.
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