Módulo 3 — Procedimento básico, segurança e rotina de oficina (leve e médio)
Aula 1 — Pré-alinhamento: a etapa que salva retrabalho
Na
aula 1 do Módulo 3, a gente entra em uma etapa que, na prática, é a que mais
protege a oficina de retrabalho e protege o cliente de gastar dinheiro à toa: o
pré-alinhamento. Se existisse um “segredo” do alinhamento bem-feito, ele
estaria aqui. Não é na tela do equipamento, nem no relatório cheio de números
bonitos. É antes de qualquer ajuste, no momento em que você olha o carro com
atenção, faz perguntas simples, confere o que precisa ser conferido e decide se
dá para alinhar com segurança — ou se primeiro é necessário corrigir alguma
coisa.
Muita
gente quer pular essa etapa porque parece “perda de tempo”. O cliente está com
pressa, a oficina está cheia, e o alinhamento é visto como um serviço rápido.
Só que o pré-alinhamento funciona como a fundação de uma casa: se a base está
torta, você pode até pintar as paredes e colocar uma porta bonita, mas logo
aparecem trincas, a porta emperra e tudo vira problema. No alinhamento é igual.
Se você ajusta um carro com pneu ruim, roda empenada, calibragem errada, folga
em terminal ou bucha estourada, o carro até pode sair “melhor”, mas quase nunca
sai “resolvido”. E quando volta, volta com a frase que ninguém gosta de ouvir:
“Fiz alinhamento aí e não adiantou”.
O
pré-alinhamento começa por um ponto que parece simples demais, mas que resolve
muita coisa: pneus e pressão. Conferir calibragem não é detalhe; é
requisito. Pressão diferente entre pneus do mesmo eixo pode fazer o carro
puxar, pode mudar altura e pode alterar o comportamento da direção. Além disso,
olhar o estado do pneu — desgaste por dentro, por fora, serrilhado, bolhas,
cortes — é como ler um relatório do que o carro vem vivendo. E aqui entra uma
postura profissional importante: não é só “ver se tem borracha”. É observar e,
quando necessário, explicar. Às vezes o cliente está com pneu novo de um lado e
pneu bem mais gasto do outro, ou com medidas diferentes no mesmo eixo. Mesmo
que o alinhamento seja feito, o comportamento pode continuar estranho. Então o
pré-alinhamento também é um momento de orientar com honestidade.
Logo depois, a gente olha para as rodas e para o conjunto de rodagem. Uma roda empenada ou um pneu deformado pode enganar até quem tem experiência, porque o sintoma pode parecer alinhamento,
quando na verdade é vibração, deriva ou
instabilidade causada pelo conjunto girando irregular. Por isso, sempre que o
cliente fala em vibração, tremor no volante ou “carro dançando”, é bom acender
uma luz: pode ser balanceamento, roda, pneu, rolamento. O pré-alinhamento serve
justamente para separar o que é alinhamento do que é outra coisa — e isso evita
aquela situação chata de você alinhar, entregar, e o cliente voltar dizendo que
“continua vibrando”.
Depois
vem a parte que exige mais cuidado e atenção: a checagem de folgas e
condições da suspensão e direção. Aqui, a regra de ouro que acompanha todo
o curso volta com força total: não se alinha carro com folga. E não é
exagero. A folga transforma a geometria em algo “móvel”. É como tentar medir
uma régua que está dobrando enquanto você mede. Você ajusta o toe, por exemplo,
mas a folga em terminal ou pivô permite que a roda mude de posição quando o
carro freia, acelera ou passa em irregularidades. Resultado: o alinhamento
“correto” no elevador vira alinhamento “errado” na rua. Por isso, o
pré-alinhamento precisa incluir inspeção de terminais, pivôs, bandejas, buchas,
bieletas, rolamentos e o que mais fizer sentido conforme o veículo.
É
comum o iniciante ter receio de “reprovar” um carro para alinhamento,
principalmente quando o cliente quer rapidez. Mas essa aula trabalha uma ideia
muito importante: recusar alinhar um carro com problema não é “perder serviço”,
é evitar prejuízo — para o cliente e para a oficina. Na prática, o carro
que você alinha com folga é o carro que mais volta, e quando volta, volta com
tensão. O cliente se sente enganado, a oficina precisa justificar, e o tempo
gasto com retrabalho é muito maior do que o tempo que teria sido gasto fazendo
a inspeção e orientando corretamente desde o começo.
Outro
item que muita gente esquece é a altura do veículo e a condição de molas
e amortecedores. Um carro “caído” de um lado, com mola cansada, amortecedor
muito fraco ou altura irregular, pode ter ângulos fora do padrão e
comportamento estranho mesmo com convergência ajustada. Em veículos médios,
então, isso aparece bastante por conta do uso severo e da carga. A aula traz o
olhar de que alinhamento conversa com postura do veículo: se ele está
“desnivelado”, a geometria sofre. E, se a geometria sofre, o pneu e a
estabilidade pagam a conta.
Além da inspeção técnica, o pré-alinhamento também tem um lado humano: o atendimento e a comunicação. O cliente
não quer apenas que você “faça”; ele
quer entender por que vai fazer e o que foi encontrado. E a melhor forma de
explicar é com simplicidade e evidência. Em vez de dizer “tem folga no
terminal”, você pode mostrar o movimento e dizer: “Olha, aqui não era para
mexer desse jeito. Se eu alinhar agora, esse ajuste não vai durar porque a roda
vai mudar de posição em movimento.” Isso transforma uma negativa em confiança.
O cliente percebe que você não está empurrando serviço; está evitando que ele
pague duas vezes.
Um
ponto prático que a aula incentiva é ter um checklist de pré-alinhamento.
Checklist não é burocracia; é memória externa. Em dias corridos, a gente
esquece coisas. Um checklist simples ajuda o profissional a ser constante:
sempre checar pressão, condição de pneus, roda, folgas, altura, e registrar
observações. Esse registro também protege a oficina, porque, se o cliente
retorna ou questiona, você tem histórico do que foi visto e do que foi
orientado. E, no mundo real, isso faz diferença.
No
final, o pré-alinhamento é o momento em que você decide o caminho do serviço.
Se está tudo em ordem, você segue confiante para o alinhamento. Se há
impedimentos, você orienta, corrige o que precisa e só então alinha. É um jeito
de trabalhar que pode parecer “mais demorado” no começo, mas, com o tempo, vira
economia de tempo, melhora a qualidade e aumenta a confiança do cliente. E,
principalmente, forma um profissional que não depende de sorte. Depende de
método.
A missão desta aula é fazer o aluno sair com uma mentalidade bem clara: alinhamento bom começa antes do alinhamento. Começa com olhar atento, perguntas certas, inspeção honesta e comunicação clara. Quando essa etapa é bem feita, o relatório final deixa de ser apenas um papel e vira a prova de um serviço consistente e seguro.
Referências
bibliográficas
ANDRADE, Edson de. Manual de Mecânica Automotiva:
fundamentos, manutenção e diagnóstico. São Paulo: Érica, 2016.
BOSCH. Tecnologia Automotiva Bosch: sistemas e
componentes. 9. ed. São Paulo: Blucher, 2014.
SENAI. Manutenção de Sistemas de Suspensão e
Direção Automotiva. São Paulo: SENAI-SP Editora, 2018.
SENAI. Geometria de Rodas: alinhamento e
diagnósticos. São Paulo: SENAI-SP Editora, 2020.
SENAI. Manutenção de Rodas e Pneus: conceitos,
inspeção e procedimentos. São Paulo: SENAI-SP Editora, 2019.
Aula
2 — Alinhamento na prática: sequência e cuidados
Na aula 2 do Módulo 3, a gente sai da etapa de
preparação e entra no coração do
trabalho: o alinhamento na prática, com sequência, cuidado e aqueles
detalhes que fazem o serviço ficar realmente bom — bom de dirigir e bom de
durar. É aqui que o iniciante percebe que alinhar não é “apertar até ficar
verde”. É um processo que mistura técnica, atenção e método. E quando esse
método vira hábito, o profissional ganha confiança e a oficina reduz muito o
retrabalho.
A
primeira ideia desta aula é simples, mas poderosa: o alinhamento começa
antes de encostar a mão na regulagem. Se o pré-alinhamento já foi feito
direito, você chega nessa etapa com um carro “apto” e com menos surpresas.
Mesmo assim, ainda é preciso preparar o veículo para medir e ajustar de forma
confiável. Pense nisso como medir ingredientes antes de cozinhar: se você mede
errado, a receita não dá certo, por melhor que seja o fogão.
Por isso, a preparação costuma começar com ações que parecem pequenas, mas fazem diferença. Uma delas é garantir que o veículo esteja na condição correta para medição: pneus calibrados, veículo assentado, sem carga fora do comum (quando o procedimento exige), e com os componentes de alinhamento prontos para receber o equipamento. Em muitos sistemas, entra também a compensação das rodas, a fixação das garras/sensores e o cuidado para evitar qualquer folga ou montagem torta. É aquele tipo de capricho que o cliente não vê, mas que aparece no resultado.
Logo
em seguida vem um passo que é praticamente “sagrado” para evitar reclamação: centralizar
e travar o volante (quando aplicável) e respeitar o centro do sistema de
direção. O iniciante, muitas vezes, descobre isso do pior jeito: ajusta a
convergência, imprime o relatório todo bonito… e o cliente volta dizendo que o
volante ficou torto. Isso acontece porque, se você não garante o centro antes
de ajustar, é possível “chegar nos números” puxando mais de um lado do que do
outro. O carro até fica dentro do padrão, mas a direção fica descentralizada.
Então, nesta aula, a centralização aparece como uma atitude profissional: você
não está ajustando só ângulos; você está ajustando o carro para ele andar
reto e se sentir natural.
A partir daí, a aula trabalha uma sequência prática de raciocínio. Em muitos veículos, especialmente os leves mais comuns, o ajuste que mais aparece no dia a dia é o da convergência (toe), principalmente no eixo dianteiro. E aqui é importante lembrar a lógica do Módulo 2: toe fora é campeão de desgaste
irregular e sensação de direção estranha. Por isso, ao mexer no toe, o aluno
aprende duas coisas: primeiro, que ajustes são pequenos e exigem paciência;
segundo, que a regulagem deve ser feita de forma equilibrada, sem “forçar” um
lado para compensar outro problema. Quando existe um sintoma de puxar, por
exemplo, e o profissional tenta resolver isso “na marra” mexendo em toe, pode
até mascarar temporariamente — mas o carro perde estabilidade e os pneus pagam
a conta.
Outra
parte essencial é entender que o alinhamento não é só o eixo dianteiro. Muitos
carros e, principalmente, veículos que trabalham mais (frota, utilitários,
vans), podem ter influência forte do eixo traseiro, mesmo quando ele não
é ajustável. Um eixo traseiro fora de referência, com diferença de geometria,
pode “empurrar” o carro de lado, fazendo o motorista sentir que precisa
corrigir o volante o tempo todo. Às vezes, o volante fica torto não porque o
dianteiro está errado, mas porque o traseiro está direcionando o carro como se
fosse uma “seta” torta. Nesta aula, o aluno aprende a olhar o carro como um
conjunto: o dianteiro obedece a direção, mas o traseiro participa do caminho.
A
aula também trata de um ponto que costuma confundir iniciantes: quando mexer
em câmber e cáster. Em muitos veículos, esses ângulos têm ajuste limitado
ou inexistente sem componentes específicos. Então o aluno precisa desenvolver
um senso prático: se o câmber/cáster está fora, isso pode indicar desgaste,
peça empenada, altura irregular, impacto ou montagem incorreta. Ou seja, nem
sempre “dá para ajustar” ali mesmo. Às vezes o correto é melhorar o que é
possível dentro da tolerância e orientar o cliente sobre o que precisa ser
corrigido no conjunto. Isso é profissionalismo, não “desculpa”. Um bom
alinhamento não é o que promete milagre; é o que entrega o melhor resultado
possível com segurança e transparência.
Quando entramos em veículos médios, a conversa ganha mais um ingrediente: a influência da carga e do uso. Uma van que roda carregada, uma picape de trabalho, um utilitário de entrega… tudo isso pode apresentar comportamento diferente vazio e carregado. O alinhamento, nesses casos, não deve ser feito como se fosse um passeio de fim de semana. A aula orienta o aluno a considerar a realidade do veículo: como ele roda, em que tipo de piso, com que peso. Em algumas rotinas, vale até registrar a condição em que o alinhamento foi feito (“veículo vazio”, “veículo com carga
habitual”, etc.), porque isso ajuda a
explicar variações e a orientar o cliente de forma mais honesta.
Outra
competência importante que aparece aqui é a do controle de qualidade durante
o processo. O iniciante, às vezes, entra no modo automático: ajusta,
imprime, entrega. Só que um bom profissional faz pequenas conferências durante
o caminho. Ele observa se os valores estão mudando de forma coerente, se não há
algo “pulando” (o que pode indicar folga, sensor mal fixado, roda empenada), se
o volante continua centralizado e se não houve erro de montagem. É como fazer
uma prova de matemática: você não espera até o final para descobrir que errou o
sinal no começo; você checa o raciocínio enquanto resolve.
Nesta
aula também entra um aspecto que parece simples, mas evita problemas: cuidado
com travas, garras, pratos e segurança. Alinhamento envolve levantar carro,
manipular componentes, e muitas vezes trabalhar próximo a partes móveis.
Procedimento seguro não é frescura; é rotina profissional. Além disso, montagem
correta dos acessórios do alinhador influencia diretamente a leitura. Um sensor
mal fixado, por exemplo, pode gerar valores que não representam a realidade — e
isso derruba todo o serviço. Então o aluno aprende a respeitar a ferramenta e a
confiar mais no método do que na pressa.
Conforme o alinhamento vai sendo finalizado, a aula reforça a importância de não “correr para o relatório”. Antes de imprimir ou registrar o pós, o aluno deve garantir que tudo ficou consistente: volante centrado, valores dentro do recomendado, travas removidas corretamente, e direção com sensação natural. Esse cuidado prepara o terreno para a aula seguinte, que é a validação e entrega. Mas, já aqui, fica uma mensagem: o alinhamento bem-feito é aquele que não depende de sorte. Ele segue uma sequência, tem lógica, tem revisão e tem responsabilidade.
No fim, o objetivo desta aula é que o aluno se sinta capaz de executar o alinhamento como um procedimento completo, não como um “ajuste rápido”. Que ele entenda o porquê de cada etapa: preparar, centralizar, medir, ajustar com equilíbrio, observar o traseiro, respeitar limites de câmber/cáster, considerar carga em veículos médios e checar coerência. E quando ele aprende isso, acontece algo muito bom: o alinhamento deixa de ser um serviço que dá medo — e vira um serviço que dá orgulho de entregar.
Referências
bibliográficas
ANDRADE, Edson de. Manual de Mecânica Automotiva:
fundamentos, manutenção e diagnóstico. São Paulo: Érica, 2016.
BOSCH. Tecnologia Automotiva Bosch: sistemas e
componentes. 9. ed. São Paulo: Blucher, 2014.
SENAI. Manutenção de Sistemas de Suspensão e
Direção Automotiva. São Paulo: SENAI-SP Editora, 2018.
SENAI. Geometria de Rodas: alinhamento e
diagnósticos. São Paulo: SENAI-SP Editora, 2020.
SENAI. Segurança no Trabalho em Serviços
Automotivos. São Paulo: SENAI-SP Editora, 2017.
Aula
3 — Pós-alinhamento: validação, teste e entrega com confiança
Na
aula 3 do Módulo 3, a gente fecha o ciclo do alinhamento com a etapa que mais
transforma um “serviço feito” em um “serviço bem entregue”: o
pós-alinhamento. É aqui que o profissional confirma se o que foi ajustado
na oficina realmente aparece na rua, do jeito que o cliente percebe. E é também
aqui que nasce a confiança — porque, no fim, não é o relatório que convence o
motorista. É a sensação ao dirigir, a segurança e a clareza de que alguém
cuidou do carro com responsabilidade.
A
primeira ideia desta aula é simples e, ao mesmo tempo, muito poderosa: alinhamento
não termina quando o equipamento apita que está dentro do padrão. Aquilo é
apenas um dos sinais. O pós-alinhamento é o momento de “amarrar as pontas”:
conferir se não ficou nada pendente, validar o resultado com lógica e evitar
que um detalhe pequeno estrague a entrega. Sabe quando você termina uma tarefa,
mas revisa antes de enviar? É isso. Uma revisão bem feita evita retorno
desnecessário e ainda passa uma imagem de capricho profissional.
Um
dos pilares do pós-alinhamento é a leitura do relatório “antes e depois”. Não
como quem olha apenas se está verde, mas como quem entende a história. O
profissional aprende a perguntar: “O que estava fora e foi corrigido?”, “o
ajuste foi coerente?”, “houve um valor que quase não mudou e deveria?”, “há
algum ângulo fora do padrão que indica limitação de ajuste ou problema
mecânico?”. Essa leitura não é burocracia. Ela é a garantia de que você não
está entregando um carro com uma pendência silenciosa, daquelas que viram
reclamação depois. Às vezes, por exemplo, a convergência ficou perfeita, mas o
câmber permaneceu fora e isso precisa ser explicado, porque pode continuar
gerando desgaste. Quando a oficina comunica isso com clareza, o cliente entende
e não sente que “pagou e não resolveu”.
Depois do relatório, vem um detalhe que parece pequeno, mas que é campeão de retorno: volante centralizado. Para o cliente,
Para o cliente, volante torto é como sair do dentista com a
sensação de que “algo ficou errado”. Mesmo que tecnicamente o carro esteja
dentro do padrão, o volante torto incomoda e dá a impressão de serviço
malfeito. Por isso, no pós-alinhamento, vale conferir: carro em linha reta,
volante está realmente no centro? Se não estiver, é melhor corrigir antes de
entregar. É um ajuste rápido perto do custo de um retorno. E, mais do que isso,
é respeito pela experiência de quem vai dirigir.
O
próximo passo é o teste de rodagem, que pode ser curto, mas precisa ser
bem observado. Não é para sair acelerando ou inventando manobra. É para sentir
o básico com atenção: o carro mantém trajetória em linha reta? O volante pede
correção o tempo todo ou fica estável? O retorno do volante depois de uma curva
acontece de forma natural? Há alguma vibração estranha que o cliente poderia
confundir com alinhamento? Em oficina, esse teste não é “luxo”; é confirmação.
É nesse momento que você descobre, por exemplo, que um puxar persistiu porque a
causa não era alinhamento, ou que o pneu tem uma deriva, ou que o freio está
segurando. E descobrir isso antes do cliente é o que separa uma entrega
tranquila de uma conversa difícil.
Um
ponto interessante desta aula é que o pós-alinhamento também é um momento de escuta.
Muitas vezes, o profissional faz um teste rápido e percebe uma diferença grande
em relação ao que o cliente relatou. Isso ajuda na conversa: “Olha, agora ele
está indo reto e o volante está centrado; se você sentir puxar, pode estar
relacionado ao pneu ou ao tipo de pista.” Essa forma de orientar, de modo
simples, reduz ansiedade do cliente e evita que ele interprete comportamentos
normais como defeito. Ao mesmo tempo, se algo ainda não está bom, o
pós-alinhamento é o espaço para admitir com honestidade: “Ajustamos o que era
ajustável, mas há uma limitação aqui que precisa ser corrigida na
suspensão/estrutura.” Honestidade técnica, bem explicada, constrói muito mais
confiança do que prometer milagre.
Quando falamos de veículos médios, o pós-alinhamento ganha ainda mais importância por causa do uso severo. Uma van de entrega, uma picape de trabalho, um utilitário que roda carregado… tudo isso pode variar comportamento conforme carga e piso. Então, na entrega, faz diferença orientar o cliente: “Esse alinhamento foi feito com o veículo vazio; se você roda muito carregado, o comportamento pode mudar. O ideal é manter calibragem e fazer
revisões periódicas.” Não é para
complicar a vida do cliente, e sim para alinhar expectativa com realidade. O
cliente fica mais consciente e a oficina fica mais protegida.
A partir desse ponto, a aula entra em algo que costuma ser subestimado: a comunicação na entrega. O cliente não precisa de aula de física, mas precisa de uma explicação clara do que foi encontrado e do que foi feito. Uma entrega bem feita pode seguir um roteiro simples e humano: “O que você sentia”, “o que encontramos”, “o que ajustamos”, “o que recomendamos”. Por exemplo: “Você relatou que o carro puxava e estava com volante torto. Encontramos convergência fora e ajustamos. O volante ficou centralizado e no teste ele está andando reto. Observamos também desgaste por dentro no pneu, então recomendamos acompanhar e fazer rodízio na próxima revisão.” Esse tipo de fala organiza a experiência do cliente. Ele sai com sensação de cuidado, não apenas de pagamento.
Outro
ponto valioso é orientar hábitos que aumentam a vida útil do alinhamento e dos
pneus, sem parecer bronca. Coisas simples: manter calibragem, evitar impactos
fortes sempre que possível, fazer rodízio conforme recomendação, revisar
suspensão periodicamente, voltar para checagem se notar puxar ou desgaste
diferente. O cliente geralmente gosta quando a oficina dá uma orientação
prática e curta, porque isso mostra que o objetivo não é “vender serviço”, e
sim resolver o problema e evitar que ele volte cedo.
Nesta
aula, também aparece uma preocupação de oficina organizada: registro.
Guardar o relatório, anotar observações e registrar recomendações não é
frescura. Em caso de retorno, você consegue comparar e ver se houve mudança
real. Além disso, se o cliente volta meses depois, você tem histórico para
dizer: “Naquela época o câmber já estava no limite; agora saiu do limite, vamos
verificar suspensão.” Esse acompanhamento torna a oficina mais profissional e
evita discussões baseadas apenas em memória.
Por
fim, o pós-alinhamento tem um objetivo maior: garantir que o serviço entregue
seja seguro, confortável e coerente com o que foi prometido. Ele fecha o
ciclo com validação e cuidado. E quando o aluno aprende essa etapa, ele começa
a entender uma coisa muito importante: alinhamento é um serviço que mistura
técnica com experiência do cliente. Não basta estar correto; precisa parecer
correto, dirigir correto e ser explicado de forma clara.
A missão desta aula é fazer o aluno sair
com uma postura: revisar, validar e
comunicar. Conferir relatório com inteligência, checar volante, testar de forma
segura, observar sintomas residuais, orientar o cliente e registrar. Quem faz
isso com consistência não só reduz retrabalho, como também aumenta a confiança
do público. E, numa oficina, confiança é o que transforma um atendimento comum
em cliente fiel.
Referências
bibliográficas
ANDRADE, Edson de. Manual de Mecânica Automotiva:
fundamentos, manutenção e diagnóstico. São Paulo: Érica, 2016.
BOSCH. Tecnologia Automotiva Bosch: sistemas e
componentes. 9. ed. São Paulo: Blucher, 2014.
SENAI. Manutenção de Sistemas de Suspensão e
Direção Automotiva. São Paulo: SENAI-SP Editora, 2018.
SENAI. Geometria de Rodas: alinhamento e
diagnósticos. São Paulo: SENAI-SP Editora, 2020.
SENAI. Atendimento ao Cliente e Qualidade em
Serviços Automotivos. São Paulo: SENAI-SP Editora, 2016.
Estudo de caso do Módulo 3
Título: “O alinhamento perfeito… que virou retorno em 24
horas”
Era sexta-feira, fim de tarde. A oficina já estava
naquele ritmo de “fechar o dia”, quando entra o Seu Antônio, motorista
de uma van leve usada para entregas. Ele chega com pressa e uma frase
que todo mundo na oficina já ouviu:
— “Amigo, faz um alinhamento rapidinho? Amanhã cedo
eu tenho rota. O carro tá puxando e o pneu da frente tá gastando estranho.”
O aprendiz Bruno olha a agenda lotada, sente a pressão do horário e pensa: “É só alinhar e pronto.” E é exatamente aqui que o Módulo 3 entra com força: procedimento, segurança e rotina.
Cena
1 — O primeiro erro: pular o pré-alinhamento porque “é só um alinhamento”
Bruno coloca a van direto no alinhador, já
imaginando o relatório “antes/depois” e o serviço encerrado. O instrutor
pergunta:
— “Você já conferiu pneus, pressão e folgas?”
Bruno responde:
— “Depois eu vejo. Se estiver fora, a máquina mostra.”
Só que máquina mostra ângulo… não mostra todo o
resto.
Quando o instrutor insiste e eles fazem o básico,
descobrem:
Erro
comum #1: Pular o pré-alinhamento e
confiar que “o equipamento resolve”.
Como evitar: Checklist rápido obrigatório antes de alinhar:
✅ calibragem e condição do pneu
✅ roda/pneu com sinais de deformação
✅ folgas em direção/suspensão
✅ altura do veículo e condição básica do conjunto
Lição prática: o pré-alinhamento economiza tempo —
porque evita retorno.
Cena
2 — O segundo erro: alinhar carro com folga e “prometer que segura”
Mesmo vendo a folga, Bruno tenta “resolver” sem
complicar:
— “Dá pra alinhar assim e depois o senhor troca o terminal.”
O instrutor corta na hora:
— “Se alinhar com folga, você está vendendo um serviço que não se sustenta.”
Eles chamam o Seu Antônio e explicam com calma,
mostrando a folga:
— “Se a gente ajustar agora, a roda muda de posição em movimento. Vai parecer
bom hoje, mas amanhã o senhor volta com o mesmo problema.”
Seu Antônio resmunga, mas entende quando vê o
movimento da peça. Autoriza a correção do terminal.
Erro
comum #2: Fazer alinhamento com folga
para “não perder serviço”.
Como
evitar:
✅ regra de ouro: não se alinha carro com folga
✅ registrar e mostrar a evidência ao cliente
✅ alinhar só depois de corrigir o impedimento
Cena
3 — O terceiro erro: montar o equipamento “de qualquer jeito” e confiar na
leitura
Terminal trocado. Bruno volta ao alinhador. Agora,
com pressa, ele monta as garras rapidamente. O instrutor percebe um detalhe:
uma garra está mal assentada, levemente torta.
Bruno insiste:
— “Mas tá lendo, tá aparecendo número…”
O instrutor explica:
— “Se o sensor não está bem fixado, o número pode estar bonito… e errado.”
Eles refazem a montagem com calma, fazem a
compensação correta e só então seguem.
Erro
comum #3: Pressa na
montagem/compensação e confiar em leitura instável.
Como evitar:
✅ fixação correta das garras/sensores
✅ compensação de rodas conforme procedimento
✅ repetir leitura se houver variação “estranha” ou
incoerente
Cena
4 — O quarto erro: ajustar toe sem centralizar a direção (o campeão de retorno)
Bruno faz o ajuste de convergência (toe) e
fecha o serviço. Relatório ficou todo “verde”. Ele entrega a van.
Seu Antônio dá uma volta no quarteirão e volta,
irritado:
— “O volante ficou torto! Antes puxava, agora tá torto e eu tenho rota amanhã!”
Aconteceu o clássico: toe foi ajustado, mas sem
centralizar corretamente o volante/sistema.
O instrutor respira fundo (sem brigar) e chama
Bruno:
— “Lembra do Módulo 2? Não basta ficar verde. Tem que ficar reto no volante.”
Eles centralizam a direção, travam o volante,
refazem o ajuste de forma equilibrada e testam novamente.
Erro
comum #4: Ajustar toe “para ficar no
padrão” e esquecer o centro do volante.
Como evitar:
✅ centralizar e travar o volante (quando aplicável)
✅ ajustar toe respeitando simetria
✅ validar: carro em linha reta com volante no centro
Cena 5 — O
— O quinto erro: não fazer pós-alinhamento (e perder a chance de “pegar” o
problema antes do cliente)
Dessa vez, com o alinhamento corrigido, Bruno quer
entregar logo. O instrutor segura:
— “Agora é pós-alinhamento: relatório + test drive curto + entrega explicada.”
No teste, eles percebem algo sutil: em frenagem, há
uma leve tendência de puxar. Isso não é alinhamento — é pista de freio.
Eles retornam, checam rapidamente e encontram pinça
com movimento irregular (início de travamento). Não era o foco do serviço,
mas era algo que poderia virar reclamação “do alinhamento” amanhã.
Erro
comum #5: Entregar sem validar na rua
e sem fechar as pontas.
Como evitar:
✅ conferir relatório antes/depois com sentido
✅ test drive curto e seguro
✅ observar puxada em frenagem, vibração, retorno de
volante
✅ orientar o cliente sobre o que foi visto e o que
recomenda
Desfecho
— A entrega que vira confiança
Quando Seu Antônio volta para pegar a van, o
instrutor faz uma entrega simples e humana:
Seu Antônio, que estava estressado, muda o tom:
— “Agora eu entendi. Se vocês tivessem só alinhado, eu ia voltar bravo amanhã.”
Ele sai com a rota garantida e com confiança na oficina.
Erros
comuns do Módulo 3 (resumo prático)
1.
Pular pré-alinhamento
o
✅ checklist
obrigatório (pneu, pressão, folgas, altura, roda)
2.
Alinhar com folga
o
✅ corrigir
primeiro, alinhar depois (e mostrar ao cliente)
3.
Montar equipamento com pressa
o
✅ fixação e
compensação corretas, leitura estável
4.
Ajustar toe sem centralizar direção
o
✅ travar
volante e ajustar com equilíbrio
5.
Entregar sem pós-alinhamento
o ✅ relatório + test drive + explicação clara + recomendações
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