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Noções Básicas em Podologia

NOÇÕES BÁSICAS EM PODOLOGIA

 

MÓDULO 2 — Alterações Comuns nos Pés e Cuidados Preventivos

Aula 4 — Calosidades, fissuras, ressecamento e hiperqueratose

 

Os pés suportam o peso do corpo, recebem impacto ao caminhar e vivem em contato constante com calçados, meias, pisos e mudanças de temperatura. Por isso, é comum que a pele dessa região apresente áreas mais grossas, ressecadas ou sensíveis. Para quem está começando na podologia, é importante entender que essas alterações não devem ser vistas apenas como “pele feia” ou “pele sobrando”. Muitas vezes, elas são respostas do corpo a pressão, atrito, falta de hidratação, calçado inadequado ou alterações na forma de pisar.

A hiperqueratose é o espessamento da camada mais externa da pele. Em linguagem simples, é quando a pele engrossa para se proteger de uma agressão repetida. Quando uma região do pé sofre pressão todos os dias, como acontece na planta, nos dedos ou no calcanhar, o corpo cria uma espécie de “barreira” mais dura. Esse mecanismo pode ser protetor no início, mas, com o tempo, pode causar dor, desconforto, rachaduras e dificuldade para caminhar. O Manual MSD descreve calos e calosidades como áreas de hiperceratose que surgem em pontos de pressão ou atrito.

A calosidade costuma aparecer em áreas mais amplas, principalmente na planta dos pés e nos calcanhares. Ela pode ser amarelada, endurecida e menos sensível ao toque. Já o calo tende a ser mais localizado e, em alguns casos, doloroso, principalmente quando há um ponto central mais profundo pressionando a pele. Para o iniciante, o mais importante não é decorar nomes, mas perceber que tanto o calo quanto a calosidade indicam que algo está pressionando ou irritando aquela região.

Um erro comum é tentar remover a calosidade sem perguntar por que ela surgiu. Se o cliente usa um sapato apertado, pisa com sobrecarga em um ponto específico ou trabalha muitas horas em pé, a pele grossa tende a voltar. Por isso, a podologia precisa olhar além da área endurecida. É necessário observar o calçado, o formato dos dedos, a região de apoio, o tipo de atividade do cliente e a presença de dor. O cuidado correto não deve ser apenas retirar o excesso de pele, mas orientar formas de reduzir o atrito e a pressão.

As fissuras, conhecidas popularmente como rachaduras, aparecem com frequência nos calcanhares. Elas podem começar como linhas finas em uma pele ressecada e, quando não cuidadas, podem se aprofundar e

fissuras, conhecidas popularmente como rachaduras, aparecem com frequência nos calcanhares. Elas podem começar como linhas finas em uma pele ressecada e, quando não cuidadas, podem se aprofundar e causar dor. Em alguns casos, podem sangrar ou abrir caminho para infecções. O ressecamento intenso, o uso frequente de sandálias abertas, a falta de hidratação, o excesso de peso, a permanência prolongada em pé e o atrito constante estão entre os fatores que favorecem esse problema.

A pele ressecada perde elasticidade. Quando a pessoa pisa, a região do calcanhar sofre pressão e a pele endurecida pode se romper, formando fissuras. É por isso que hidratar os pés não é apenas um cuidado estético. A hidratação ajuda a manter a pele mais flexível, reduz o risco de rachaduras e melhora o conforto. A Sociedade Brasileira de Dermatologia orienta hidratação diária dos pés e esfoliação suave, evitando agressões excessivas à pele.

No entanto, é preciso ter equilíbrio. Lixar demais os pés ou tentar retirar pele grossa com lâminas, alicates ou objetos improvisados pode machucar. Muitas pessoas acreditam que quanto mais se lixa, melhor fica o pé, mas o efeito pode ser o contrário. A agressão repetida estimula a pele a engrossar novamente, além de aumentar o risco de cortes. O iniciante deve aprender que cuidado não é força; cuidado é técnica, limite e observação.

A orientação ao cliente deve ser simples e prática. Lavar os pés diariamente, secar bem, especialmente entre os dedos, hidratar as áreas ressecadas e usar calçados confortáveis são medidas básicas. A hidratação deve ser aplicada principalmente em regiões como calcanhares e planta dos pés, mas é melhor evitar excesso de creme entre os dedos, pois a umidade nessa região pode favorecer irritações e proliferação de fungos. A Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde recomenda manter a pele hidratada, mas sem passar creme entre os dedos ou ao redor das unhas em pessoas com diabetes.

O cuidado deve ser ainda maior quando o cliente tem diabetes. Uma fissura pequena, uma calosidade dolorida ou uma área de pele machucada pode parecer simples, mas pode evoluir mal se houver perda de sensibilidade, má circulação ou dificuldade de cicatrização. O Ministério da Saúde destaca que o cuidado com os pés da pessoa com diabetes envolve ações preventivas, educativas, exame periódico e avaliação das principais alterações encontradas nos pés.

A Sociedade Brasileira de Diabetes também alerta para alterações como calos,

rachaduras, micoses, bolhas e pequenos ferimentos, pois podem evoluir para infecções. Por isso, diante de uma pessoa com diabetes, o iniciante deve ter prudência redobrada. Não se deve cortar calos profundamente, manipular fissuras abertas ou agir como se fosse apenas um procedimento comum. O correto é observar, registrar, orientar e encaminhar quando houver dor, ferida, secreção, sangramento, vermelhidão importante ou suspeita de infecção.

Outro ponto essencial é o calçado. Um sapato apertado, duro, com costuras internas ou numeração inadequada pode causar pressão contínua. Sandálias abertas podem favorecer o ressecamento dos calcanhares. Sapatos muito largos também podem gerar atrito, porque o pé escorrega dentro deles. O cliente precisa entender que o cuidado feito no atendimento pode perder efeito se, no dia seguinte, ele volta a usar o mesmo calçado que causou o problema.

Na prática, o aluno deve observar a localização das calosidades. Se aparecem na lateral do dedão, pode haver pressão do calçado ou alteração no apoio. Se estão na planta, abaixo dos metatarsos, pode haver sobrecarga naquela região. Se surgem nos calcanhares, pode haver ressecamento, atrito e impacto. Essa leitura ajuda a orientar o cliente com mais clareza.

Também é importante diferenciar o que pode ser cuidado de forma preventiva daquilo que exige encaminhamento. Pele levemente ressecada, calosidade superficial sem dor intensa e pequenas áreas de aspereza podem receber orientações de hidratação, proteção e mudança de hábitos. Já fissuras profundas, sangramento, dor forte, secreção, vermelhidão, calor local, inchaço ou alteração de cor da pele exigem maior atenção e não devem ser manipulados por iniciantes.

A comunicação com o cliente deve ser acolhedora. Em vez de dizer “seu pé está muito feio” ou “isso está horrível”, o profissional pode explicar: “essa região está mais ressecada e precisa de hidratação regular” ou “essa calosidade parece estar relacionada à pressão do calçado”. A forma de falar faz diferença. Muitas pessoas já chegam constrangidas, e o atendimento deve promover cuidado, não vergonha.

O profissional também deve orientar contra práticas caseiras perigosas. Cortar calos com lâmina, usar produtos sem orientação, arrancar peles, furar bolhas ou aplicar receitas irritantes pode piorar o quadro. Quando o cliente entende o motivo do cuidado, tende a colaborar melhor. A educação é parte fundamental da podologia.

Em resumo, calosidades, fissuras, ressecamento e

hiperqueratose são alterações frequentes, mas não devem ser tratadas de modo automático. Elas contam uma história sobre pressão, atrito, hidratação, calçados, rotina e saúde geral. O aluno iniciante precisa aprender a observar antes de agir, orientar antes de prometer resultado e encaminhar sempre que houver sinal de risco.

O bom cuidado podológico não se resume a deixar o pé mais bonito ao final do atendimento. Ele busca conforto, prevenção e segurança. Quando o profissional entende a causa das alterações e orienta o cliente com responsabilidade, contribui para que o problema não volte com tanta facilidade e para que situações simples não evoluam para complicações.

Referências bibliográficas

BRASIL. Ministério da Saúde. Manual do Pé Diabético: estratégias para o cuidado com a doença crônica. Brasília: Ministério da Saúde, 2016.

BRASIL. Ministério da Saúde. Biblioteca Virtual em Saúde. Pé diabético. Brasília: Ministério da Saúde.

MANUAL MSD. Calos e calosidades: distúrbios dermatológicos. Versão para profissionais de saúde.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA. Saiba como manter os pés bonitos até nas estações frias. Rio de Janeiro: SBD.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES. Manual de cuidados com os pés para pessoas com diabetes. São Paulo: SBD.

 

Aula 5 — Alterações nas unhas: espessamento, encravamento e coloração

 

As unhas dos pés parecem simples, mas dizem muito sobre a rotina, os hábitos e até os riscos de saúde de uma pessoa. Elas sofrem pressão dos calçados, atrito das meias, pequenos traumas durante a caminhada, cortes inadequados e exposição a ambientes úmidos. Por isso, quando mudam de cor, engrossam, quebram, descolam ou causam dor, precisam ser observadas com cuidado.

Na podologia para iniciantes, o primeiro passo não é tentar “consertar” a unha de imediato. É observar. A unha pode estar alterada por pressão do sapato, pancadas repetidas, envelhecimento, corte incorreto, micose, inflamação ao redor da pele ou doenças que exigem avaliação profissional. O iniciante deve aprender a reconhecer sinais, orientar cuidados básicos e saber quando encaminhar, sem prometer diagnóstico ou cura.

A unha saudável costuma ter superfície relativamente lisa, cor uniforme e crescimento contínuo. Quando ela começa a ficar muito grossa, amarelada, quebradiça, opaca ou descolada, algo pode estar interferindo em sua estrutura. O Manual MSD descreve a onicomicose como infecção fúngica da lâmina ungueal, do leito ungueal ou de ambos, frequentemente associada

unha saudável costuma ter superfície relativamente lisa, cor uniforme e crescimento contínuo. Quando ela começa a ficar muito grossa, amarelada, quebradiça, opaca ou descolada, algo pode estar interferindo em sua estrutura. O Manual MSD descreve a onicomicose como infecção fúngica da lâmina ungueal, do leito ungueal ou de ambos, frequentemente associada a espessamento, coloração amarelada e acúmulo de resíduos abaixo da unha.

Mesmo assim, é importante reforçar: nem toda unha grossa é micose. Algumas unhas engrossam por trauma repetitivo, idade, pressão do calçado ou alterações no modo de pisar. Há pessoas que usam sapatos apertados por anos e desenvolvem unhas deformadas pela compressão constante. Outras praticam esportes, trabalham em pé ou batem o dedo repetidas vezes dentro do calçado. Por isso, a observação deve sempre vir acompanhada de perguntas sobre rotina, calçados, dor, tempo de alteração e histórico de saúde.

A coloração da unha também merece atenção. Unhas amareladas podem estar relacionadas a fungos, mas também a espessamento por trauma. Manchas escuras podem surgir após pancadas, mas, quando aparecem sem explicação, aumentam de tamanho ou formam faixas pigmentadas, devem ser avaliadas por profissional de saúde. Unhas esbranquiçadas, esverdeadas, muito opacas ou descoladas também não devem ser tratadas de forma automática. O papel do iniciante é perceber que houve alteração e orientar encaminhamento quando houver dúvida.

A unha encravada, chamada de onicocriptose, é uma das queixas mais comuns. Ela acontece quando uma borda da unha penetra ou comprime a pele ao redor, geralmente no dedão. A Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde explica que os sintomas podem incluir dor, inchaço, vermelhidão e, em alguns casos, saída de pus. Entre as causas estão sapatos apertados ou de bico fino, traumas esportivos, meias apertadas, excesso de suor, formato do dedo e corte errado das unhas, especialmente quando se arredondam os cantos.

O corte correto é uma das orientações mais importantes desta aula. Em geral, as unhas dos pés devem ser cortadas de forma mais reta, sem aprofundar os cantos. Cortar demais as laterais pode facilitar que a pele cubra a borda da unha ou que a unha cresça pressionando o tecido ao redor. O Manual MSD também relaciona o uso de calçado estreito e o corte curvado, com cantos muito curtos, ao surgimento ou piora da unha encravada.

Um erro frequente é o cliente pedir que o profissional “tire só o cantinho”. Quando

não há dor intensa, secreção, sangramento ou inflamação importante, pode haver orientação preventiva e acompanhamento adequado, conforme a formação do profissional. Mas, se houver pus, vermelhidão intensa, calor local, inchaço, dor forte ou dificuldade para caminhar, o atendimento não deve ser tratado como simples. A própria Biblioteca Virtual em Saúde alerta que a unha encravada pode se agravar e formar o chamado granuloma piogênico, popularmente conhecido como “carne esponjosa”, com dor, pus, calor, inchaço, sangramento e dificuldade para caminhar.

Outro quadro importante é a inflamação ao redor da unha, conhecida como paroníquia. Ela pode causar vermelhidão, calor, dor, edema e pus nas pregas ungueais. O Manual MSD destaca que, em pessoas com diabetes ou doença vascular periférica, a paroníquia nas unhas dos pés pode evoluir para infecção mais extensa e ameaçar o membro. Esse ponto é fundamental para o iniciante: em pessoas com diabetes, sinais de inflamação ao redor da unha não devem ser manipulados de forma improvisada.

A pessoa com diabetes exige cuidado especial porque pequenas lesões nos pés podem se tornar graves, principalmente quando há perda de sensibilidade ou dificuldade de cicatrização. A BVS Atenção Primária em Saúde, com base no Manual do Pé Diabético do Ministério da Saúde, orienta cortar as unhas em linha reta, evitar cutucar com objetos cortantes e encaminhar casos de unha encravada para avaliação da equipe de saúde. Também recomenda procurar atendimento diante de bolha, corte, arranhão ou ferida.

Por isso, diante de um cliente diabético com unha dolorida, inflamada, secreção ou ferida, o iniciante deve agir com prudência. A conduta segura é não aprofundar corte, não tentar retirar canto inflamado e não usar instrumentos de forma agressiva. O correto é explicar o motivo da cautela, registrar a observação na ficha e orientar avaliação em serviço de saúde ou com profissional habilitado.

Além do corte, a higiene diária ajuda a prevenir problemas. Os pés devem ser lavados e bem secos, principalmente entre os dedos. Meias úmidas, calçados fechados por muitas horas e suor excessivo favorecem um ambiente quente e úmido, o que pode contribuir para alterações na pele e nas unhas. A prevenção começa com hábitos simples: calçado adequado, troca de meias, secagem correta, não compartilhar instrumentos e não tentar resolver alterações com receitas caseiras.

Também é necessário orientar sobre o uso de instrumentos. Alicates, cortadores e

lixas devem ser de uso individual ou devidamente processados conforme normas de biossegurança. Compartilhar instrumentos pode aumentar o risco de contaminação. Cortar unhas com ferramentas enferrujadas, sem limpeza adequada ou usadas por várias pessoas é uma prática perigosa, especialmente quando há microlesões.

O aluno iniciante precisa entender que a unha não pode ser observada isoladamente. Uma unha encravada pode estar relacionada ao corte errado, mas também ao sapato apertado. Uma unha grossa pode estar associada a trauma repetitivo. Uma alteração de cor pode exigir avaliação dermatológica. Uma inflamação pequena pode ser mais preocupante em uma pessoa com diabetes. Tudo depende do conjunto.

Durante a avaliação, é importante perguntar quando a alteração começou, se houve pancada, se há dor, se sai secreção, se o cliente tem diabetes, problemas circulatórios ou dificuldade de cicatrização. Também deve-se observar os dois pés, comparar unhas, pele, dedos, calçado e sinais de pressão. Essa rotina simples ajuda a evitar decisões precipitadas.

A linguagem usada com o cliente deve ser clara e respeitosa. Em vez de afirmar “isso é micose” ou “isso está infeccionado”, o mais adequado para o iniciante é dizer: “há uma alteração na unha que precisa ser avaliada” ou “como existe dor e vermelhidão, é mais seguro encaminhar”. Essa postura evita diagnóstico indevido e reforça o compromisso com a segurança.

Em resumo, as alterações nas unhas exigem atenção, paciência e responsabilidade. Espessamento, encravamento e mudança de cor são sinais que precisam ser interpretados com cuidado, considerando hábitos, calçados, saúde geral e presença de dor ou inflamação. O bom atendimento podológico não se resume a cortar unhas; ele observa, orienta, previne riscos e sabe reconhecer quando não deve intervir.

Referências bibliográficas

BRASIL. Ministério da Saúde. Biblioteca Virtual em Saúde. Unha encravada: onicocriptose. Brasília: Ministério da Saúde.

BRASIL. Ministério da Saúde. Biblioteca Virtual em Saúde — Atenção Primária em Saúde. Quais orientações o Agente Comunitário de Saúde deve realizar sobre cuidados com pé diabético em visitas domiciliares? Brasília: Ministério da Saúde.

MANUAL MSD. Unha do dedo do pé encravada. Versão Saúde para a Família.

MANUAL MSD. Onicomicose. Versão para Profissionais de Saúde.

MANUAL MSD. Paroníquia aguda. Versão para Profissionais de Saúde.


Aula 6 — Pé diabético e grupos de risco

 

O cuidado com os pés ganha uma importância

ainda maior quando falamos de pessoas com diabetes e de outros grupos que apresentam maior risco de lesões, infecções ou dificuldade de cicatrização. Para quem está começando na podologia, esta aula é essencial porque ensina uma regra simples: nem todo pé deve ser atendido da mesma forma. Há situações em que a melhor conduta não é mexer, cortar ou tentar resolver no momento, mas observar com atenção, orientar e encaminhar.

O pé diabético não é apenas “o pé de uma pessoa com diabetes”. Ele representa um conjunto de alterações que podem envolver perda de sensibilidade, má circulação, deformidades, calosidades, fissuras, feridas e maior risco de infecção. O Ministério da Saúde destaca que o cuidado com os pés da pessoa com diabetes deve envolver ações preventivas, educativas, exame periódico e avaliação das principais alterações encontradas nos pés.

Um dos grandes perigos está na perda de sensibilidade. A pessoa pode machucar o pé e não perceber. Um sapato apertado, uma costura interna, uma unha mal cortada, uma bolha ou uma pequena rachadura podem evoluir sem dor intensa no início. Quando a lesão finalmente chama atenção, o problema pode estar mais avançado. Por isso, o profissional iniciante precisa valorizar perguntas simples: sente dormência? sente formigamento? já teve ferida nos pés? percebe dor ao caminhar? tem diabetes há quanto tempo?

A Sociedade Brasileira de Diabetes aponta que a úlcera do pé diabético é uma das principais complicações do diabetes, com incidência ao longo da vida estimada entre 19% e 34% em pessoas com a doença. A diretriz também destaca como fatores de risco a perda de sensibilidade, a doença arterial periférica, deformidades nos pés, histórico de úlcera e qualquer nível de amputação prévia em membros inferiores.

Isso mostra que o atendimento podológico precisa começar pela avaliação, e não pelo instrumento. Antes de qualquer procedimento, é necessário observar pele, unhas, espaços entre os dedos, calcanhares, planta dos pés, presença de calos, rachaduras, bolhas, feridas, vermelhidão, secreção, inchaço, odor, alteração de cor e sinais de dor. Em pessoas com diabetes, até alterações aparentemente pequenas devem ser vistas com prudência.

Um erro comum é tratar uma calosidade em pessoa diabética como se fosse apenas pele grossa. A calosidade pode indicar pressão excessiva em determinado ponto do pé. Se houver perda de sensibilidade, essa pressão pode continuar acontecendo sem que a pessoa perceba dor. Com o tempo, a pele pode

erro comum é tratar uma calosidade em pessoa diabética como se fosse apenas pele grossa. A calosidade pode indicar pressão excessiva em determinado ponto do pé. Se houver perda de sensibilidade, essa pressão pode continuar acontecendo sem que a pessoa perceba dor. Com o tempo, a pele pode romper e formar uma ferida. Por isso, a prevenção envolve não só cuidar da pele, mas também observar o calçado, o apoio plantar e os pontos de atrito.

Outro erro frequente é mexer em unha encravada com sinais de inflamação. Se há dor, vermelhidão, secreção, sangramento, pus ou inchaço, o caso exige cuidado maior. Em pessoas com diabetes, esse tipo de situação não deve ser tratado como simples. O iniciante deve registrar a alteração, explicar o risco e orientar avaliação com profissional habilitado ou serviço de saúde. A pressa do cliente não pode ser mais importante que a segurança.

A prevenção é o caminho mais seguro. A diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes resume a prevenção de úlceras em medidas como identificação do pé em risco, exame regular dos pés, orientação, uso de calçados adequados e tratamento dos fatores de risco. Para o aluno iniciante, isso significa compreender que a podologia tem um papel educativo muito importante: ensinar a pessoa a olhar para os próprios pés antes que o problema piore.

Os cuidados diários precisam ser simples e possíveis de cumprir. A pessoa deve observar os pés todos os dias, lavar e secar bem, especialmente entre os dedos, evitar andar descalça, usar calçados confortáveis, verificar se há objetos dentro do sapato antes de calçar, evitar cortar os cantos das unhas de forma profunda e não tentar retirar calos ou peles com lâminas em casa. A Cartilha Campanha Lava-Pés, apoiada pelo Ministério da Saúde, reforça ações educativas voltadas à promoção da saúde e ao cuidado com os pés diabéticos.

A hidratação também é importante, principalmente em pés ressecados e calcanhares com tendência a rachaduras. No entanto, deve-se evitar excesso de creme entre os dedos, porque a umidade nessa região pode favorecer irritações e fungos. O cuidado deve ser equilibrado: pele hidratada, mas espaços entre os dedos bem secos.

O calçado merece atenção especial. Sapatos apertados, duros, com bico fino, costuras internas ou solado inadequado podem causar bolhas, feridas, calosidades e pressão nas unhas. Em pessoas com risco moderado ou alto, a Sociedade Brasileira de Diabetes recomenda calçados terapêuticos ajustados ao formato do pé e com

espaço suficiente, para ajudar a reduzir pressão plantar e prevenir lesões.

Além das pessoas com diabetes, outros grupos também exigem cuidado maior. Idosos podem ter pele mais fina, unhas espessas, menor mobilidade, dificuldade para enxergar os próprios pés e maior risco de quedas. Pessoas com problemas circulatórios podem apresentar cicatrização mais lenta. Indivíduos com deformidades nos pés, dificuldade de locomoção, obesidade, neuropatias, histórico de feridas ou uso de calçados ocupacionais por muitas horas também merecem avaliação cuidadosa.

O profissional iniciante precisa aprender a identificar sinais de alerta. Ferida aberta, secreção, sangramento, pele muito vermelha, calor local, inchaço importante, dor intensa, alteração escura ou arroxeada nos dedos, mau cheiro associado a lesão, perda de sensibilidade, rachadura profunda ou bolha em pessoa diabética são situações que exigem encaminhamento. Nesses casos, não se deve “dar uma ajeitadinha” nem tentar resolver com procedimento simples.

A comunicação com o cliente deve ser clara e humana. Em vez de assustar, o profissional pode dizer: “Como você tem diabetes e há sinal de inflamação, o mais seguro é procurar avaliação de saúde antes de mexer”. Essa explicação mostra cuidado e ajuda o cliente a entender que a recusa do procedimento não é descaso, mas responsabilidade.

Também é importante registrar tudo na ficha de atendimento: presença de diabetes, queixa principal, sinais observados, orientação dada e encaminhamento recomendado. Mesmo quando nenhum procedimento é realizado, o registro é fundamental. Ele mostra que houve avaliação, cuidado e decisão técnica.

Nesta aula, o aluno deve compreender que cuidar de pés em grupos de risco exige menos impulso e mais observação. Em alguns atendimentos, o melhor resultado não será uma unha cortada ou uma calosidade reduzida, mas uma orientação correta que evita uma complicação. A podologia responsável não mede qualidade apenas pelo que faz com as mãos, mas também pelo que sabe evitar.

Em resumo, o pé diabético e os pés de pessoas em grupos de risco exigem prudência, escuta, avaliação e encaminhamento quando necessário. O iniciante deve aprender que pequenas alterações podem ter grande importância. A prevenção começa no olhar atento, na ficha bem preenchida, na orientação simples e na coragem profissional de não intervir quando houver risco.

Referências bibliográficas

BRASIL. Ministério da Saúde. Manual do Pé Diabético: estratégias para o cuidado com

do Pé Diabético: estratégias para o cuidado com a doença crônica. Brasília: Ministério da Saúde, 2016.

BRASIL. Ministério da Saúde. Cartilha Campanha Lava-Pés: cuidados com os pés diabéticos. Brasília: Ministério da Saúde, 2025.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES. Diagnóstico e prevenção de úlceras no pé diabético. Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, edição 2025.


Estudo de caso — Módulo 2

“O calcanhar rachado e a unha que incomodava”

 

Este estudo de caso é fictício, mas foi construído com base em situações comuns no atendimento inicial em podologia. Ele reúne os principais temas do Módulo 2: calosidades, fissuras, ressecamento, hiperqueratose, alterações nas unhas, unha encravada, pé diabético e grupos de risco.

Luciana, 47 anos, procurou atendimento porque estava incomodada com rachaduras nos calcanhares e com uma unha do dedão que “parecia querer encravar”. Ela trabalhava o dia inteiro em pé, usava sandálias abertas em casa e sapato fechado no serviço. Disse que lixava os calcanhares quase todos os dias, porque achava que assim a pele ficaria mais fina. Também contou que cortava os cantos das unhas bem arredondados para “não enganchar na meia”.

Logo na conversa inicial, apareceram dois erros muito comuns: o excesso de lixamento e o corte profundo dos cantos das unhas. A pele grossa dos pés nem sempre é apenas falta de cuidado; muitas vezes é uma resposta ao atrito e à pressão. O Manual MSD descreve calos e calosidades como áreas de hiperceratose que surgem em locais de pressão ou atrito, e destaca que a prevenção envolve mudanças como adequação dos calçados.

Ao avaliar os pés, observou-se hiperqueratose nos calcanhares, com fissuras finas, sem sangramento. A pele estava bastante ressecada, principalmente nas bordas. Na planta dos pés havia pontos de calosidade, mais evidentes na região anterior. Luciana explicou que, quando o calcanhar ficava “grosso”, ela usava lixa forte logo após o banho e às vezes retirava peles soltas com alicate.

Esse é outro erro frequente: tentar resolver o ressecamento com agressão. Lixar demais pode irritar a pele e estimular novo espessamento. Além disso, arrancar peles ou usar instrumentos cortantes em casa aumenta o risco de ferimentos. A conduta mais adequada seria orientar hidratação regular, redução do atrito, uso de calçados mais adequados e abandono de práticas agressivas.

Durante a avaliação da unha, percebeu-se que o hálux direito estava com a lateral levemente dolorida. Não havia pus nem

sangramento, mas existia vermelhidão discreta na borda. A unha estava cortada muito curta nos cantos. A Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde explica que a unha encravada ocorre quando uma borda da unha penetra na pele ao redor, podendo causar dor, inchaço, vermelhidão e até pus. Entre as causas, aparecem sapatos apertados, pressão sobre a unha e corte errado.

Nesse ponto, o erro seria “tirar o cantinho” sem orientar a causa. Luciana acreditava que cortar mais fundo resolveria o incômodo, mas era justamente esse hábito que favorecia o problema. A orientação correta seria explicar que as unhas dos pés devem ser cortadas de forma mais reta, respeitando os cantos, sem aprofundar as laterais. Também seria importante observar o calçado usado no trabalho, pois sapatos apertados podem pressionar a unha contra a pele.

Enquanto preenchia a ficha, a profissional perguntou sobre doenças, uso de medicamentos e histórico de feridas. Luciana respondeu que tinha diabetes tipo 2, mas que “estava controlada”. Esse dado mudou o nível de atenção. Mesmo sem ferida aberta, a presença de diabetes exige maior prudência. A Sociedade Brasileira de Diabetes destaca que a úlcera do pé diabético é uma complicação importante e que a prevenção passa pela identificação do pé em risco, exame regular, orientação, calçados adequados e tratamento de fatores de risco.

A profissional então decidiu não realizar nenhum procedimento agressivo. Não aprofundou o corte da unha, não removeu pele das fissuras e não usou instrumentos cortantes nas calosidades. Explicou que, por causa do diabetes, pequenas lesões poderiam trazer riscos maiores, especialmente se houvesse perda de sensibilidade ou dificuldade de cicatrização. Orientou Luciana a procurar avaliação de saúde caso surgissem dor intensa, secreção, sangramento, aumento da vermelhidão, ferida, calor local ou inchaço.

Luciana ficou surpresa, pois achava que o atendimento só seria útil se “tirasse tudo”. A profissional explicou que podologia não é apenas retirar pele ou cortar unha. Em muitos casos, o cuidado mais importante é prevenir que um incômodo simples se torne uma complicação. Também orientou cuidados diários: lavar os pés, secar bem entre os dedos, hidratar os calcanhares, evitar excesso de creme entre os dedos, não andar descalça e observar os pés todos os dias. A BVS Atenção Primária em Saúde recomenda higiene regular dos pés, secagem cuidadosa, especialmente entre os dedos, evitar andar descalço e observar os pés

complicação. Também orientou cuidados diários: lavar os pés, secar bem entre os dedos, hidratar os calcanhares, evitar excesso de creme entre os dedos, não andar descalça e observar os pés todos os dias. A BVS Atenção Primária em Saúde recomenda higiene regular dos pés, secagem cuidadosa, especialmente entre os dedos, evitar andar descalço e observar os pés com apoio de espelho quando necessário.

No final, Luciana recebeu uma orientação simples: trocar a lixa agressiva por cuidado contínuo, revisar os calçados do trabalho, não cortar os cantos das unhas, não arrancar peles e retornar para acompanhamento preventivo. Também foi orientada a manter acompanhamento de saúde por causa do diabetes e a não manipular sozinha qualquer fissura, bolha, ferida ou unha inflamada.

Erros comuns mostrados no caso

O primeiro erro foi tratar a pele grossa como sujeira ou descuido. Na verdade, calosidades e hiperqueratose geralmente indicam pressão, atrito ou sobrecarga.

O segundo erro foi lixar demais os calcanhares. O excesso de lixamento pode agredir a pele, aumentar o ressecamento e favorecer novas rachaduras.

O terceiro erro foi cortar os cantos das unhas muito profundamente. Esse hábito pode favorecer unha encravada, dor e inflamação.

O quarto erro foi tentar resolver tudo em casa com alicate, lixa forte e retirada de peles. Essas práticas aumentam o risco de cortes e infecções.

O quinto erro foi subestimar o diabetes. Mesmo quando a pessoa diz que está “controlada”, o atendimento nos pés precisa ser mais cuidadoso.

Como evitar esses erros

O atendimento deve começar com conversa, ficha e observação. Antes de qualquer procedimento, é preciso perguntar sobre diabetes, circulação, dor, dormência, feridas anteriores, calçados, hábitos de higiene e forma de cortar as unhas.

Calosidades devem ser vistas como sinais de pressão ou atrito. Por isso, além do cuidado local, é necessário orientar troca ou adaptação de calçados, hidratação e redução de agressões à pele.

As unhas devem ser cortadas com cuidado, evitando aprofundar as laterais. Quando houver dor forte, pus, sangramento, vermelhidão importante ou cliente com diabetes, o mais seguro é não manipular e encaminhar.

Em pessoas com diabetes, o cuidado deve ser preventivo e prudente. Pequenas fissuras, bolhas, calos, unhas doloridas e áreas avermelhadas precisam ser observadas com atenção. A conduta correta é orientar, registrar e encaminhar sempre que houver sinal de risco.

A principal lição do caso é que o bom

atendimento podológico não se mede pela quantidade de pele retirada ou pelo corte mais profundo da unha. Ele se mede pela segurança, pela orientação correta e pela capacidade de evitar complicações.

 

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