MÓDULO 3 —
Do documento à prática: plano de ação, gestão e monitoramento
Aula
1 — Plano de ação: tirando o PPP do “bonito” e levando para o “fazível”
Chega um
momento em que toda escola que está construindo ou revisando o PPP percebe uma
verdade simples: um PPP pode estar muito bem escrito e, ainda assim, não
mudar nada. Não porque a equipe não se importe, mas porque o cotidiano é
forte, as urgências aparecem, o tempo escorre, e aquilo que não vira rotina
acaba ficando para “depois”. É por isso que o plano de ação é tão importante no
módulo 3. Ele é a ponte entre o que a escola acredita e o que ela realmente
consegue sustentar. É ele que transforma intenção em prática e evita que o PPP
vire um documento bonito, mas distante.
Um bom
plano de ação não nasce do desejo de fazer tudo ao mesmo tempo. Ele nasce do
contrário: da coragem de escolher poucas prioridades e trabalhar com
consistência. Muitas escolas se frustram porque tentam colocar no PPP uma lista
enorme de melhorias — e aí nada se move, porque tudo é urgente. O plano de ação
ajuda a escola a dizer: “isso é importante, mas agora vamos começar por
aqui.” E começar por aqui significa recortar uma prioridade, definir metas
possíveis e organizar passos concretos para que aquilo aconteça.
Quando
falamos em metas, é comum cair em dois erros. O primeiro é a meta vaga demais,
do tipo “melhorar a aprendizagem”, “diminuir a indisciplina”, “aumentar a
participação das famílias”. Todo mundo concorda com isso, mas ninguém sabe
exatamente o que fazer amanhã. O segundo erro é a meta impossível, que nasce
mais de pressão do que de planejamento: “zerar evasão em dois meses”, “dobrar a
proficiência até o fim do bimestre”, “acabar com conflitos”. Um plano de ação
saudável evita os dois extremos. Ele trabalha com metas claras, mas humanas:
metas que tenham direção, que sejam acompanháveis e que respeitem o tempo real
da escola.
Uma forma
simples de tornar metas mais “pegáveis” é aproximá-las da prática. Em vez de
“melhorar leitura”, por exemplo, a escola pode se perguntar: o que, na nossa
rotina, vai mudar para que a leitura melhore? A resposta pode virar meta:
“garantir, em todas as turmas, dois momentos semanais de leitura orientada, com
registro e devolutiva quinzenal”. Perceba como isso muda o jogo: a meta deixa
de ser um resultado abstrato e vira uma ação estruturante, que a escola
controla e consegue acompanhar.
Mas metas sozinhas ainda não resolvem. O plano de ação
precisa traduzir cada meta em
ações com rosto e calendário. Isso significa definir o que será feito, por
quem, quando, como e com quais recursos. Parece
burocrático, mas, na verdade, é o que dá leveza ao trabalho. Quando as
responsabilidades ficam claras, a escola para de depender da memória e da boa
vontade de um ou dois. Ela cria uma organização que sustenta o projeto mesmo
quando o semestre aperta. E isso é essencial, porque na escola sempre aperta.
Aqui entra
uma ferramenta muito útil justamente por ser simples: o 5W2H. Ele não é um
“modelo empresarial” para engessar a educação; ele é apenas um jeito de
organizar ideias para que o plano não fique no ar. A lógica é responder
perguntas básicas: o que será feito, por que, onde, quando,
quem fará, como será feito e quanto custa (ou quais
recursos exige). Na prática, preencher um 5W2H força a equipe a sair do
genérico. Se alguém propõe “fazer projeto de convivência”, por exemplo, o 5W2H
ajuda a perguntar: “qual projeto?”, “com quais turmas?”, “em quais horários?”,
“quem conduz?”, “como será avaliado?”. E aí o plano começa a ganhar corpo.
Ao
construir um plano de ação, uma escola também precisa considerar o que costuma
quebrar planos: a falta de tempo, a rotatividade da equipe, as urgências
inesperadas e a sobrecarga emocional. Por isso, um plano bom é aquele que cabe
na vida real. Muitas vezes, vale mais escolher três ações pequenas e bem
acompanhadas do que dez ações grandes que não saem do papel. E vale muito
planejar ações que aproveitem espaços já existentes, como reuniões pedagógicas,
conselhos de classe, horários de formação, projetos em andamento. Em vez de
criar mais coisas, o plano pode reorganizar o que já existe com mais
intencionalidade.
Outra
questão importante é que o plano de ação precisa prever acompanhamento. Sem
acompanhamento, o plano vira promessa. E acompanhamento não precisa ser algo
pesado. Pode ser um check-in mensal de 20 minutos: “o que avançou?”, “o que
travou?”, “o que precisamos ajustar?”. O segredo é tratar o plano como um
organismo vivo. A escola planeja, testa, observa, ajusta. Isso é gestão
pedagógica de verdade: não é rigidez, é consistência com flexibilidade.
Um cuidado essencial nessa etapa é evitar que o plano de ação vire um documento “de cobrança” sobre professores e equipe. O plano existe para organizar e apoiar, não para vigiar. Quando ele é construído com participação e clareza, ele vira um aliado do trabalho docente: ajuda a distribuir responsabilidades, a
garantir
continuidade e a reduzir improviso. E improviso cansa muito. A escola que vive
apagando incêndio perde energia para ensinar. Já a escola que tem um plano
possível ganha respiro e consegue cuidar melhor do processo pedagógico.
Por fim, vale lembrar que o plano de ação do PPP não é a solução de todos os problemas. Ele é um começo organizado. Ele ajuda a escola a dar passos concretos e a construir uma cultura de compromisso com o que foi combinado. E, quando isso acontece, o PPP muda de status: deixa de ser “o documento que a rede pede” e vira “o projeto que a escola sustenta”. A partir daí, o PPP passa a orientar decisões com mais naturalidade, porque ele já está embutido na rotina e nos combinados. E esse é um dos sinais mais bonitos de maturidade escolar: quando a escola não precisa “lembrar do PPP”, porque ela já está vivendo o PPP.
Referências bibliográficas
BRASIL. Lei
de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB nº 9.394/1996. Brasília:
MEC.
BRASIL. Diretrizes
Curriculares Nacionais da Educação Básica. Brasília: MEC.
VEIGA,
Ilma Passos Alencastro. Projeto político-pedagógico da escola: uma
construção possível. Campinas: Papirus.
LIBÂNEO,
José Carlos. Organização e gestão da escola: teoria e prática. Goiânia:
Alternativa.
LUCK,
Heloísa. Gestão escolar e formação de gestores. Petrópolis: Vozes.
PARO,
Vitor Henrique. Gestão democrática da escola pública. São Paulo: Ática.
FREIRE,
Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa.
São Paulo: Paz e Terra.
Aula 2 — Gestão democrática e cultura de acompanhamento
Quando a
gente fala em PPP, é comum imaginar um documento que “orienta a escola”. Só
que, na realidade, nada orienta a escola sozinho. O que orienta a escola é o
jeito como ela decide, como ela conversa, como ela combina, como ela acompanha
e como ela corrige o rumo quando percebe que algo não está funcionando. É por
isso que está aula é tão importante: ela trata da gestão democrática e
da criação de uma cultura de acompanhamento — duas ideias que parecem
grandes, mas que, na prática, começam com coisas simples e consistentes.
Gestão democrática não é sinônimo de “todo mundo decide tudo” e nem de “reunião sem fim”. Gestão democrática é, antes de tudo, um compromisso com participação, transparência e corresponsabilidade. É a escola reconhecer que decisões importantes não podem depender apenas da vontade de uma pessoa ou do humor de um dia. E é reconhecer que as pessoas se comprometem muito mais com
aquilo que
ajudam a construir. Quando a equipe sente que a escola é um lugar onde sua voz
pode aparecer com respeito, ela tende a se engajar mais e a sustentar melhor os
combinados do PPP.
Na rotina
escolar, a gestão democrática aparece em perguntas bem concretas: Quem
participa das decisões pedagógicas? Como as decisões são registradas? Como a
equipe fica sabendo do que foi combinado? Como se garante continuidade quando
muda a gestão, quando muda professor, quando muda turma? Sem respostas
claras para isso, a escola vive de improviso. E improviso, além de cansar, gera
injustiça: um estudante recebe um tratamento, outro recebe outro; uma família é
acolhida, outra é ignorada; um professor tem apoio, outro se vira sozinho. A
escola precisa, portanto, criar um modo de funcionamento que seja consistente e
justo.
Um ponto
central dessa aula é entender que participação não acontece “por mágica”. Ela
precisa de estrutura. E uma das estruturas mais importantes é a forma como as
reuniões são conduzidas. Em muitas escolas, reunião virou sinônimo de desgaste:
pauta confusa, tempo estourado, muita reclamação, pouca decisão e nenhum
retorno. Quando isso acontece repetidamente, a equipe começa a evitar reuniões
— e aí a escola perde o espaço mais básico de construção coletiva.
Reunião
boa não é reunião “perfeita”; é reunião que respeita o tempo e produz
encaminhamentos claros. Uma reunião pedagógica bem-organizada costuma ter três
elementos simples: pauta objetiva, tempo combinado e registro
do que foi decidido. Parece pouco, mas isso muda tudo. Pauta objetiva
impede que a reunião vire um saco de assuntos soltos. Tempo combinado protege a
equipe da sensação de que a reunião “rouba” o dia. E registro garante que a
escola não dependa da memória de ninguém. Além disso, uma reunião precisa
sempre terminar com uma espécie de “pós-reunião”: quem vai fazer o quê, até
quando, e como a escola vai acompanhar.
Esse
registro e acompanhamento são o coração da cultura de acompanhamento.
Acompanhamento não é vigiar pessoas; é cuidar do projeto. É a escola conseguir
olhar para o que foi combinado e perguntar, com maturidade: “estamos
conseguindo fazer?”, “o que está funcionando?”, “o que travou e por quê?”, “o
que precisa ser ajustado?”. Quando a escola não acompanha, o PPP vira promessa.
Quando acompanha, o PPP vira prática. E acompanhar pode ser leve: às vezes, um
check-in de 15 minutos, feito com regularidade, vale mais do que um grande
encontro esporádico.
A cultura de
acompanhamento também depende de clareza de papéis. Em muitas escolas, tudo
cai no colo da coordenação pedagógica ou da direção, e isso gera sobrecarga e
frustração. O PPP fica “centralizado” e a equipe passa a sentir que “o PPP é
deles”. O que a escola precisa construir é um senso de corresponsabilidade:
coordenação organiza e dá suporte; direção garante condições e encaminhamentos;
professores planejam e executam; conselhos e colegiados acompanham; equipe de
apoio participa nos temas que atravessam a rotina; estudantes e famílias são
ouvidos em pontos estratégicos. Não é sobre dividir culpa; é sobre dividir
cuidado.
Quando
falamos em conselhos e colegiados, também é importante tirar o tema do ideal e
trazer para o possível. Conselho escolar, conselho de classe, reuniões por
área, grêmio (quando existe), comissões temáticas: esses espaços só funcionam
quando têm propósito claro. Um conselho de classe, por exemplo, pode ser apenas
um “momento de nota” ou pode ser um espaço formativo: olhar para evidências de
aprendizagem, identificar estudantes que precisam de apoio, planejar
intervenções, ajustar rotinas. O PPP se fortalece quando esses espaços deixam
de ser forma e passam a ser função.
Outro eixo
essencial da gestão democrática é a comunicação com as famílias. Há escolas que
vivem um ciclo desgastante: famílias só são chamadas quando há problema; a
escola se sente atacada; as famílias se sentem culpabilizadas; e o vínculo
enfraquece. O PPP pode ajudar a romper esse ciclo ao estabelecer uma postura e
uma rotina de comunicação: encontros com pauta clara, canais acessíveis,
linguagem respeitosa, devolutiva do que foi discutido e espaços de escuta.
Famílias não precisam “concordar com tudo” para serem parceiras; mas precisam
sentir que são tratadas com dignidade e que a escola não as procura apenas para
reclamar.
E aqui
entra um ponto que costuma passar despercebido: comunicação também é gestão.
Quando a escola comunica bem, ela reduz ruídos, conflitos e sensação de
injustiça. Quando não comunica, o vazio é preenchido por boatos e
interpretações. Às vezes, o que uma família chama de “falta de organização” é,
na verdade, falta de informação. E, do lado da escola, o que parece “família
ausente” pode ser família com dificuldades reais de tempo e acesso. Por isso,
comunicação no PPP precisa ser pensada como parte do projeto pedagógico, e não
como detalhe.
Uma cultura de acompanhamento se apoia, ainda, na ideia de devolutiva. Escutar sem devolver frustra.
Combinar sem retomar desmancha. Planejar sem revisar vira
enfeite. A escola que acompanha precisa criar pequenos rituais de devolutiva:
“na última reunião decidimos isso, avançamos nisso, isso aqui travou e vamos
ajustar assim”. Essa lógica cria continuidade e fortalece confiança. E
confiança é um combustível silencioso: quando existe, a equipe se arrisca mais,
tenta coisas novas e sustenta mudanças. Quando não existe, a escola entra no
modo “cada um por si”.
No fim das
contas, gestão democrática e cultura de acompanhamento têm menos a ver com
grandes discursos e mais a ver com hábitos institucionais. São hábitos que
dizem: aqui as pessoas são ouvidas; aqui as decisões são registradas; aqui
combinados são respeitados; aqui erros viram aprendizado e não humilhação; aqui
o PPP não é um papel de gaveta, mas um projeto que a gente revisita. Quando a
escola constrói esses hábitos, ela começa a respirar melhor. Os problemas não
desaparecem, mas a escola deixa de se sentir perdida. Ela passa a ter método,
direção e coerência — e isso, para a vida escolar, é quase um tipo de cuidado.
Referências bibliográficas
BRASIL. Lei
de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB nº 9.394/1996. Brasília:
MEC.
BRASIL. Diretrizes
Curriculares Nacionais da Educação Básica. Brasília: MEC.
PARO,
Vitor Henrique. Gestão democrática da escola pública. São Paulo: Ática.
LIBÂNEO,
José Carlos. Organização e gestão da escola: teoria e prática. Goiânia:
Alternativa.
LUCK,
Heloísa. Gestão escolar e formação de gestores. Petrópolis: Vozes.
VEIGA,
Ilma Passos Alencastro. Projeto político-pedagógico da escola: uma
construção possível. Campinas: Papirus.
FREIRE,
Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa.
São Paulo: Paz e Terra.
Aula 3 — Revisão do PPP e evidências: como saber se está
dando certo
Existe um momento bem comum na vida das escolas: a equipe faz um planejamento cheio de boas intenções, organiza ações, começa animada… e, de repente, o semestre engole tudo. Entram urgências, aparecem imprevistos, chegam demandas da rede, mudam turmas, faltam profissionais, a rotina acelera. Quando a gente percebe, aquilo que era prioridade ficou “para depois”. É exatamente por isso que a revisão do PPP e o uso de evidências são tão importantes. Eles funcionam como um lembrete gentil — e ao mesmo tempo firme — de que projeto pedagógico não é algo que se escreve e abandona. Projeto pedagógico é algo que se acompanha, se ajusta e se reafirma ao longo do
tempo.
Nesta
aula, o ponto de partida é entender que “dar certo” na escola não é uma ideia
única, nem um número mágico. Dar certo envolve aprendizagem, sim, mas envolve
também vínculo, permanência, convivência, participação e justiça. Às vezes, uma
escola melhora a frequência antes de melhorar as notas — e isso já é um avanço
enorme, porque sem presença não há processo. Em outros casos, o clima escolar
melhora e os conflitos diminuem, criando espaço para a aprendizagem florescer
com mais estabilidade. Por isso, quando falamos em evidências, não estamos
falando apenas de resultados. Estamos falando de sinais de caminho.
Evidências
são tudo aquilo que ajuda a escola a responder, com um pouco mais de segurança,
às perguntas: O que está funcionando? O que não está? Por quê? O que precisa
mudar? O problema é que, em muitas escolas, evidência vira sinônimo de
prova, nota e ranking. Isso empobrece a conversa. A aprendizagem é maior do que
a nota, e o trabalho pedagógico é maior do que um indicador isolado. Um PPP
vivo precisa de evidências mais amplas, que considerem tanto resultados quanto
processos.
Por isso,
é útil separar evidências em dois tipos: evidências de processo e evidências
de resultado. As de processo mostram se aquilo que a escola combinou está
de fato acontecendo: as rotinas foram implementadas? os planejamentos estão
sendo feitos? a devolutiva de avaliação está acontecendo? o acolhimento foi
organizado? as reuniões estão registrando encaminhamentos? Já as de resultado
mostram os efeitos ao longo do tempo: frequência melhorou? houve redução de
ocorrências? mais estudantes estão entregando atividades? houve avanço em
leitura, escrita, matemática? A grande sacada é que processo e resultado se
conversam. Se o processo não acontece, o resultado dificilmente aparece. E se o
resultado não aparece, talvez o processo precise ser ajustado — ou talvez o
tempo de maturação seja maior do que a escola imaginou.
Uma escola
que acompanha o PPP com maturidade evita dois extremos. Um extremo é a
ansiedade do “tem que mostrar resultado logo”, que leva a cobranças, apreços e,
às vezes, medidas punitivas disfarçadas de gestão. O outro extremo é o “deixa
como está”, em que a escola segue fazendo as mesmas coisas, mesmo quando
percebe que não estão funcionando. A revisão do PPP existe para encontrar o
meio-termo saudável: acompanhar com regularidade, interpretar evidências com
cuidado e ajustar o que for necessário sem perder o sentido do projeto.
E como a escola
escolhe boas evidências sem transformar isso em burocracia? Um caminho
simples é montar um painel enxuto, com poucos indicadores, mas bem
escolhidos. Em vez de tentar acompanhar tudo, a escola escolhe 5 a 8 evidências
que realmente dizem algo sobre as prioridades do PPP. Se a prioridade é
leitura, por exemplo, não faz sentido acompanhar apenas “nota de português”;
pode ser mais útil acompanhar fluência leitora, participação em rodas de
leitura, produção de texto ao longo do bimestre, empréstimo de livros,
frequência em atividades de leitura orientada. Se a prioridade é convivência,
além de ocorrências, vale acompanhar percepções: sensação de segurança,
respeito em sala, número de mediações realizadas, reincidência de conflitos,
presença de combinados visíveis e cumpridos. Um bom painel não é pesado; ele é
inteligente.
Também é
importante lembrar que algumas evidências são “silenciosas”, mas muito
reveladoras. A qualidade dos registros, por exemplo, é uma evidência. Se os
registros são sempre vagos, a escola não consegue enxergar padrões. Se os
registros melhoram, a escola começa a entender o que acontece e a agir com mais
consistência. Outro exemplo é a devolutiva aos estudantes: quando ela se torna
rotina, a aprendizagem tende a melhorar, porque o estudante passa a saber onde
está errando e como pode avançar. Essas coisas nem sempre aparecem em uma
planilha, mas aparecem na realidade — e o PPP precisa reconhecer isso.
A revisão
do PPP não precisa acontecer só no fim do ano. Na verdade, é melhor que ela
aconteça em ciclos curtos. Uma escola pode combinar revisões mensais rápidas
(para checar andamento das ações) e revisões bimestrais ou trimestrais mais
completas (para olhar resultados e ajustar rota). O importante é que exista um
momento institucionalizado para isso, porque, se não houver, o acompanhamento
sempre ficará “para quando der tempo” — e quase nunca dá tempo.
E um
detalhe que faz toda diferença: revisar o PPP não é procurar falhas para culpar
alguém. Revisar é perguntar: “O que ficou difícil de executar e por quê?” Às
vezes, a ação era boa, mas o calendário não ajudou. Às vezes, faltou recurso.
Às vezes, a equipe não teve formação suficiente. Às vezes, a ação foi grande
demais e precisa ser dividida em etapas menores. Uma revisão madura acolhe o
real e ajusta o plano, sem humilhar e sem desistir. O PPP não é uma prova de
que a escola é perfeita; é um compromisso de que a escola está em movimento.
Outro ponto importante é que evidências
precisam virar conversa pedagógica, e não
apenas relatório. Não adianta coletar dados e guardá-los. A escola precisa
criar momentos para olhar para essas evidências e interpretá-las juntos:
gestão, coordenação, professores e, quando possível, estudantes e famílias.
Isso fortalece a cultura de acompanhamento e amplia o sentimento de
corresponsabilidade. Quando a equipe discute evidências com respeito, ela
aprende com a própria prática. E isso é uma das formas mais potentes de
formação continuada: a escola se forma olhando para o que faz.
Por fim,
revisar o PPP também é uma forma de proteger a escola do “efeito moda”. Muitas
vezes, surgem propostas novas, programas, projetos externos, demandas
emergenciais. Uma escola com PPP vivo consegue olhar para essas novidades e
perguntar: “Isso conversa com nossas prioridades? Isso fortalece nosso projeto
ou nos dispersa?” A revisão regular mantém a escola conectada ao seu norte e
evita que ela perca energia com iniciativas que não se sustentam.
No
fechamento desta aula, vale guardar uma imagem simples: o PPP é como uma trilha
em uma caminhada longa. Você pode até ter um mapa lindo antes de sair, mas, no
caminho, você precisa olhar o terreno, ajustar o passo, conferir se está indo
na direção certa. As evidências são esses sinais de terreno. E a revisão é o
momento de recalcular a rota, sem drama e sem culpa. Quando a escola aprende a
fazer isso, o PPP deixa de ser um documento de gaveta e vira aquilo que ele
sempre deveria ser: um projeto vivo, acompanhado com cuidado, com humanidade e
com compromisso com a aprendizagem e com as pessoas.
Referências bibliográficas
BRASIL. Lei
de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB nº 9.394/1996. Brasília:
MEC.
BRASIL. Diretrizes
Curriculares Nacionais da Educação Básica. Brasília: MEC.
LUCKESI,
Cipriano Carlos. Avaliação da aprendizagem escolar: estudos e proposições.
São Paulo: Cortez.
HOFFMANN,
Jussara. Avaliar para promover: as setas do caminho. Porto Alegre:
Mediação.
LUCK,
Heloísa. Gestão escolar e formação de gestores. Petrópolis: Vozes.
LIBÂNEO,
José Carlos. Organização e gestão da escola: teoria e prática. Goiânia:
Alternativa.
VEIGA,
Ilma Passos Alencastro. Projeto político-pedagógico da escola: uma
construção possível. Campinas: Papirus.
PARO,
Vitor Henrique. Gestão democrática da escola pública. São Paulo: Ática.
FREIRE,
Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa.
São Paulo: Paz e Terra.
Estudo de caso envolvente — Módulo
caso envolvente — Módulo 3 (Plano de ação, gestão e monitoramento)
Tema: “O PPP que quase morreu… e depois virou rotina”
1) Cenário: a Escola Municipal Caminhos do Vale
A Escola Municipal Caminhos do Vale atende
Educação Infantil e Anos Iniciais. A equipe é dedicada, a comunidade é próxima,
mas o cotidiano anda pesado. Nos últimos meses, três coisas começaram a
aparecer com força:
A direção, com a coordenadora pedagógica Sílvia,
revisou o PPP no começo do ano. Ficou um documento bonito, com princípios
claros e boas intenções. Mas, na prática, parecia que a escola continuava
reagindo a incêndios.
Até que um episódio fez a equipe parar.
2) O episódio que virou ponto de virada
Numa terça-feira, no recreio, dois alunos brigaram
feio. Um deles empurrou o outro, que caiu e machucou o braço. A família chegou
desesperada. A direção registrou ocorrência, chamou responsáveis, fez
advertência. No dia seguinte, a mesma família voltou dizendo:
“Ontem vocês disseram uma coisa, hoje outra. Qual é
o procedimento da escola? O que acontece depois? Isso vai se repetir?”
Quando a coordenadora Sílvia tentou responder,
percebeu que a escola não tinha um fluxo claro e, pior: cada adulto estava
agindo do seu jeito. Não era má vontade. Era falta de sistema.
Na reunião pedagógica, ela disse:
“Gente, o nosso PPP está certo no papel. O que falta é o PPP virar plano,
rotina e acompanhamento.”
3) Onde a escola escorregava (erros comuns do Módulo 3)
Erro comum 1 — Plano de ação “bonito”, mas sem dono
No PPP havia ações como “fortalecer convivência” e
“melhorar a leitura”, mas ninguém sabia exatamente:
O que isso causa
Como evitar
Erro comum 2 — Querer fazer tudo ao mesmo tempo
A escola listou 12 prioridades. Era impossível dar
conta.
O que isso causa
Como evitar
Erro comum 3 — Reuniões longas que não geram decisão
A reunião pedagógica virava desabafo: muita fala,
pouca decisão. No final, ninguém sabia o que tinha ficado combinado.
O que isso causa
Como evitar
1.
pauta objetiva (3 itens no máximo),
2.
tempo definido,
3.
decisões registradas,
4.
encaminhamentos com responsáveis,
5. devolutiva na reunião seguinte.
Erro comum 4 — “Acompanhar” só no fim do semestre
A escola só olhava resultados quando já era tarde.
O que isso causa
Como evitar
Erro comum 5 — Evidência confundida com “nota” e
“ocorrência”
Para saber se estava melhorando, a escola olhava só:
O que isso causa
Como evitar
4) A solução prática: “PPP em movimento” (simples e
possível)
A escola decidiu fazer um pacto: durante 60 dias, o
PPP teria uma prioridade só: convivência no recreio e fila do almoço.
A Sílvia propôs um plano enxuto (sem inventar moda),
usando 3 ações:
Ação 1 — Rotina de prevenção (começo do recreio)
Ação 2 — Fluxo único de mediação (quando dá conflito)
Ação 3 — Devolutiva para famílias (com linguagem padrão)
E o mais importante: definiram um ritual de acompanhamento.
5) O ritual que segurou o plano (e evitou o “PPP de gaveta”)
Toda segunda-feira, 7h10, antes da entrada dos
alunos, 15 minutos:
Sem debate infinito. Sem culpa. Com objetivo.
6) O que mudou em 60 dias (sem milagre)
Os conflitos não desapareceram, mas:
A diretora Renata resumiu assim:
“Não foi magia. Foi rotina.”
7) Fechamento do caso: os erros do Módulo 3 e como evitar
(em uma página)
1.
Plano
sem dono → ação precisa de responsável e prazo.
2.
Muitas
prioridades → uma prioridade por ciclo.
3.
Reunião
que não decide → pauta, tempo, registro, encaminhamento.
4.
Acompanhamento
tardio → check-ins curtos e regulares.
5.
Evidência
pobre → processo + resultado, com indicadores simples.
Frase final que a escola colocou no PPP revisado:
“Se não cabe na nossa rotina, não cabe no nosso PPP.”
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