NOÇÕES DE REGRESSÃO E HIPNOSE
A regressão de memória é um conceito associado à ideia de
acessar lembranças do passado, muitas vezes relacionadas a eventos esquecidos
ou reprimidos, com o objetivo de elucidar aspectos ocultos da experiência
emocional de um indivíduo. Frequentemente utilizada em práticas como a
hipnoterapia e a psicoterapia dinâmica, a regressão de memória envolve a
evocação de vivências anteriores, por meio de técnicas que favorecem um estado
de consciência alterado, como a hipnose, visualizações guiadas ou relaxamento profundo.
Embora o conceito tenha aplicação prática e apelo popular, é também alvo de
debates e controvérsias na literatura científica, sobretudo no que diz respeito
à fidelidade das memórias evocadas.
Do ponto de vista psicológico, a memória não é um arquivo
fixo e imutável. Ao contrário, trata-se de um processo reconstrutivo, sujeito à
influência de emoções, crenças e sugestões externas. Bartlett (1932), em seus
estudos clássicos, demonstrou que a recordação é frequentemente moldada por
esquemas mentais, e que memórias podem ser distorcidas ou preenchidas com
elementos imaginários. Assim, o que se acessa durante uma regressão pode
refletir mais uma construção subjetiva do que um registro fiel dos fatos.
No contexto terapêutico, a regressão é empregada como
estratégia para explorar eventos marcantes da infância ou fases anteriores da
vida, com o intuito de compreender traumas, padrões emocionais recorrentes ou
comportamentos disfuncionais. Em ambientes clínicos, essa técnica pode ser útil
quando bem conduzida, pois permite que o paciente entre em contato com
conteúdos simbólicos relevantes para o seu processo de autoconhecimento e cura
emocional (Wolberg, 1948). No entanto, sua eficácia está mais relacionada à
função expressiva e integradora da experiência evocada do que à veracidade
objetiva da memória recuperada.
O uso da hipnose como facilitadora da regressão de memória
foi popularizado no século XIX e início do século XX. Freud, em seus primeiros
trabalhos com Breuer, empregava técnicas de hipnose para acessar lembranças
reprimidas de pacientes histéricos, acreditando que a catarse emocional obtida
pela recordação do trauma produzia alívio dos sintomas (Freud & Breuer,
1895). Contudo, o próprio Freud abandonaria a hipnose em favor da associação
livre, reconhecendo as limitações da técnica e os riscos de sugestão indevida.
Na hipnoterapia contemporânea, a regressão continua a ser
utilizada, mas com cautela crescente. Uma das preocupações mais relevantes diz
respeito à possibilidade de formação de falsas memórias — lembranças vívidas de
eventos que nunca ocorreram, mas que são vivenciadas como se fossem reais.
Estudos de Loftus (1997) mostram que a memória é altamente maleável, e que
perguntas sugestivas ou afirmações reiteradas podem levar a pessoa a criar
memórias fictícias, especialmente em estados de alta sugestionabilidade, como
na hipnose.
Devido a essas questões, entidades como a American
Psychological Association (APA) recomendam que a regressão de memória seja
aplicada apenas por profissionais capacitados e com uma compreensão crítica dos
limites dessa técnica. Em especial, o uso da regressão como ferramenta
investigativa, por exemplo em casos judiciais ou acusações de abuso, é
considerado inadequado, dada a ausência de confiabilidade científica das
lembranças recuperadas (APA, 1998).
Apesar das controvérsias, a regressão de memória, quando
bem utilizada e com objetivos terapêuticos claramente definidos, pode
desempenhar um papel relevante na exploração da vida psíquica. Seu valor está,
sobretudo, na capacidade de trazer à tona narrativas internas que ajudam o
indivíduo a resignificar sua história e a construir novos sentidos para sua
trajetória emocional.
Em suma, a regressão de memória é uma técnica de evocação
de experiências passadas, geralmente mediada por estados alterados de
consciência. Embora tenha potencial terapêutico, deve ser utilizada com
responsabilidade, dado o caráter construtivo e não literal da memória humana.
Sua eficácia está mais ligada à elaboração simbólica e afetiva do que à
precisão dos fatos lembrados.
• American
Psychological Association (APA). (1998). Final
report of the APA Working Group on Investigation of Memories of Childhood Abuse.
Washington, DC.
• Bartlett,
F. C. (1932). Remembering: A Study in
Experimental and Social Psychology. Cambridge: Cambridge University Press.
• Freud,
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Hysteria. Standard Edition, Vol. 2. London: Hogarth Press.
• Loftus,
E. F. (1997). Creating false memories. Scientific
American, 277(3), 70–75.
• Wolberg,
L. R. (1948). Medical Hypnosis: Its
Clinical Applications. New York: Grune & Stratton.
A regressão de memória é
regressão de memória é uma experiência psíquica que
envolve o retorno a momentos passados da vida, frequentemente associados a
emoções intensas, lembranças marcantes ou eventos traumáticos. Essa regressão
pode ocorrer de maneira induzida — geralmente com finalidades terapêuticas — ou
de forma espontânea, sem a mediação direta de técnicas ou profissionais. A
distinção entre regressão terapêutica e regressão espontânea é fundamental para
compreender os diferentes contextos e finalidades desse fenômeno psicológico,
bem como os riscos e benefícios que cada modalidade pode implicar.
A regressão terapêutica é uma técnica aplicada de forma
deliberada por profissionais da área da saúde mental, como psicólogos e
psicoterapeutas, com o intuito de acessar conteúdos emocionais relevantes,
promover a compreensão de padrões comportamentais e facilitar a elaboração de
traumas psíquicos. Geralmente, ela é realizada em ambiente controlado, por meio
de estados induzidos de relaxamento, hipnose, imaginação ativa ou outras
técnicas que permitam ao indivíduo acessar lembranças de fases anteriores da vida
(Wolberg, 1948; Brown & Fromm, 1986).
Essa forma de regressão é baseada na ideia de que
experiências precoces, especialmente aquelas emocionalmente significativas ou
mal resolvidas, continuam a influenciar a vida psíquica presente. O objetivo da
técnica não é apenas rememorar o evento, mas resignificá-lo com segurança
emocional e supervisão profissional. Em abordagens como a hipnoterapia
regressiva, por exemplo, o terapeuta conduz o paciente por meio de sugestões
verbais para reviver determinadas situações, com foco na compreensão simbólica
e na libertação de emoções reprimidas (Spiegel & Spiegel, 2004).
É importante ressaltar que a regressão terapêutica não
garante a recuperação de memórias exatas ou objetivamente verdadeiras. A
memória é um processo reconstrutivo, e o que emerge durante a sessão pode ser
uma combinação de recordações reais, elementos simbólicos e conteúdos
inconscientes (Loftus, 1997). Por isso, a função terapêutica da regressão está
mais relacionada à expressão emocional e à elaboração de sentidos do que à
veracidade literal das lembranças.
A regressão espontânea, por sua vez, ocorre de maneira involuntária, fora de um contexto terapêutico estruturado. Pode surgir durante momentos de forte emoção, em estados de transe espontâneo,
durante
momentos de forte emoção, em estados de transe espontâneo, durante sonhos
vívidos, meditação profunda ou até em experiências de quase morte. Em alguns
casos, indivíduos relatam sentir-se “transportados” para o passado, revivendo
mentalmente uma cena com riqueza sensorial e emocional, como se estivessem
novamente naquele tempo e lugar (Tart, 1975).
Essas experiências podem ser desencadeadas por estímulos
internos ou externos, como cheiros, sons, imagens ou situações que atuam como
gatilhos mnêmicos. A regressão espontânea pode ser positiva, proporcionando
insights ou reconexões com momentos significativos, mas também pode ser
angustiante, especialmente se associada a memórias traumáticas. Em alguns
casos, o indivíduo não compreende o que está vivenciando e pode sentir-se
desorientado ou confuso.
Diferente da regressão terapêutica, a espontânea não conta
com o suporte profissional para acolher, interpretar ou integrar a experiência.
Por isso, em situações de sofrimento psíquico intenso, a pessoa pode buscar
ajuda após o episódio, o que torna essencial o discernimento entre vivência
subjetiva e necessidade de intervenção clínica.
As diferenças entre regressão terapêutica e espontânea
podem ser agrupadas em quatro dimensões principais:
1. Intencionalidade: a regressão
terapêutica é planejada e conduzida com objetivos específicos dentro de um
processo psicoterapêutico; a espontânea ocorre de forma inesperada, sem
planejamento ou intervenção profissional.
2. Controle do ambiente: na regressão
terapêutica, o ambiente é seguro, ético e controlado pelo terapeuta; na
espontânea, não há estrutura de apoio, o que pode gerar confusão ou angústia.
3. Finalidade: a regressão terapêutica
visa à elaboração emocional e ao crescimento pessoal; a espontânea pode ser
interpretativa, simbólica ou simplesmente reativa, sem finalidade terapêutica
explícita.
4. Acompanhamento pós-experiência: após
uma regressão terapêutica, o conteúdo é discutido e integrado à narrativa
pessoal do paciente; na espontânea, a falta de acompanhamento pode dificultar a
elaboração da experiência.
A regressão terapêutica e a regressão espontânea compartilham o mesmo fenômeno básico — o retorno psíquico a experiências passadas — mas diferem amplamente em contexto, finalidade e condução. Enquanto a regressão terapêutica oferece um espaço seguro e orientado para o
autoconhecimento e a cura emocional, a regressão espontânea revela a
plasticidade da mente humana e a influência das emoções sobre o tempo
psicológico.
Ambas as formas de regressão devem ser compreendidas à luz
do funcionamento reconstrutivo da memória e da complexidade da psique. O
conhecimento dessas diferenças permite uma abordagem mais ética, informada e
cuidadosa, especialmente quando tais experiências são compartilhadas por
indivíduos em busca de orientação psicológica ou espiritual.
• Brown,
D., & Fromm, E. (1986). Hypnotherapy
and Hypnoanalysis. Hillsdale, NJ: Lawrence Erlbaum Associates.
• Loftus,
E. F. (1997). Creating false memories. Scientific
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• Spiegel,
H., & Spiegel, D. (2004). Trance and
Treatment: Clinical Uses of Hypnosis (2nd ed.). Washington, DC: American
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• Tart,
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New York: Dutton.
• Wolberg,
L. R. (1948). Medical Hypnosis: Its
Clinical Applications. New York: Grune & Stratton.
A regressão de memória, especialmente quando empregada com
fins terapêuticos ou de autoconhecimento, é uma técnica que desperta tanto
interesse quanto controvérsias. Utilizada com frequência na hipnoterapia e em
abordagens alternativas, essa prática visa resgatar lembranças passadas —
frequentemente de infância ou eventos traumáticos — com o intuito de promover
insights, alívio emocional ou reconstrução de narrativas pessoais. Apesar de
seus potenciais benefícios, o uso da regressão envolve riscos significativos e
demanda cuidados éticos rigorosos por parte dos profissionais que a aplicam.
O principal risco associado à regressão é a indução ou
reforço de falsas memórias. A
memória humana é um processo dinâmico, sujeito à reconstrução contínua e à
influência de crenças, expectativas e sugestões externas. Estudos realizados
por Loftus (1997) demonstram que, especialmente em estados de
sugestionabilidade aumentada — como ocorre sob hipnose ou em estados alterados
de consciência — indivíduos podem vir a "lembrar" de eventos que
nunca aconteceram, mas que são percebidos como reais devido à intensidade
emocional da experiência. Tais memórias falsas podem ter impactos graves na
vida do sujeito, gerando acusações injustas, conflitos familiares e distorções
na identidade pessoal.
Outro risco importante é o desencadeamento de crises emocionais intensas. Ao acessar
lembranças dolorosas ou traumas antigos sem o suporte adequado, o indivíduo
pode experienciar ansiedade, pânico, desorganização psíquica ou
retraumatização. Nesses casos, a regressão pode se tornar mais prejudicial do
que benéfica, especialmente se conduzida por pessoas não habilitadas para lidar
com conteúdos clínicos sensíveis (Spiegel & Spiegel, 2004). O risco se
intensifica em pacientes com transtornos de personalidade, quadros
dissociativos ou histórico de psicose, que podem reagir de forma imprevisível à
evocação de memórias intensamente carregadas de afeto.
Além disso, há o risco ético relacionado à transferência emocional. Em estados de
regressão profunda, o vínculo com o condutor da técnica pode se intensificar,
levando a uma idealização ou dependência emocional inadequada. O uso da
autoridade do profissional para sugerir ideias, interpretações ou narrativas
sem base empírica pode configurar manipulação ou violação da autonomia do
sujeito.
Diante desses riscos, diversos cuidados éticos devem ser
adotados para assegurar que a prática da regressão seja segura, responsável e
respeitosa. O primeiro deles é a formação
técnica e teórica adequada. A regressão não deve ser conduzida por
indivíduos sem formação em psicologia, psiquiatria ou áreas afins, nem por
terapeutas alternativos sem capacitação reconhecida. Mesmo profissionais da
saúde mental devem buscar formação complementar específica em hipnose ou
regressão terapêutica antes de empregar essa abordagem.
Outro cuidado fundamental é o consentimento informado. O paciente ou cliente deve ser claramente
informado sobre o que é a regressão, quais são suas limitações, os possíveis
riscos e o que pode emergir durante a experiência. Deve-se evitar a promessa de
“cura”, acesso garantido a memórias ocultas ou resolução de traumas com poucas
sessões. O processo precisa ser apresentado como uma ferramenta auxiliar,
integrada a uma abordagem mais ampla de cuidado psicológico.
A ética da neutralidade interpretativa também deve ser observada. O condutor da regressão não deve sugerir interpretações prontas sobre o conteúdo evocado pelo cliente, nem validar memórias questionáveis como fatos objetivos. É preciso respeitar a ambiguidade das lembranças e favorecer a elaboração simbólica, sem induzir narrativas específicas que podem moldar artificialmente a percepção do
indivíduo sobre seu passado.
A supervisão
profissional contínua é outro elemento de importância. Profissionais que
utilizam regressão em sua prática devem manter-se atualizados com a literatura
científica, submeter-se à supervisão clínica e integrar sua atuação aos
princípios deontológicos da psicologia ou da medicina. Quando aplicada fora
desses parâmetros, a regressão corre o risco de ser usada de maneira abusiva,
charlatanesca ou psicologicamente insegura.
Por fim, deve-se evitar o uso da regressão com fins
investigativos, especialmente em contextos judiciais. A American Psychological Association (APA) e outras entidades
científicas internacionais alertam que memórias recuperadas sob hipnose ou
regressão não devem ser tomadas como provas jurídicas, dada a possibilidade de
contaminação por sugestões, construções imaginativas e distorções emocionais
(APA, 1998).
A regressão de memória é uma ferramenta potencialmente
útil, mas também delicada, que exige preparo técnico, responsabilidade ética e
compromisso com o bem-estar psíquico do indivíduo. Seus riscos — como a criação
de falsas memórias, a retraumatização e a manipulação emocional — não podem ser
negligenciados. Por isso, sua prática deve ser restrita a contextos adequados,
guiada por profissionais capacitados e sempre orientada por princípios éticos
claros, como o respeito à autonomia, ao consentimento informado e à integridade
da experiência subjetiva do sujeito.
• American
Psychological Association (APA). (1998). Final
report of the APA Working Group on Investigation of Memories of Childhood Abuse.
Washington, DC.
• Loftus,
E. F. (1997). Creating false memories. Scientific
American, 277(3), 70–75.
• Spiegel,
H., & Spiegel, D. (2004). Trance and
Treatment: Clinical Uses of Hypnosis (2nd ed.). Washington, DC: American
Psychiatric Publishing.
• Wolberg,
L. R. (1948). Medical Hypnosis: Its
Clinical Applications. New York: Grune & Stratton.
A memória humana não funciona como um gravador que armazena informações de maneira literal e imutável. Ao contrário, ela é um processo ativo, seletivo e interpretativo, profundamente influenciado por emoções, contextos culturais e narrativas pessoais. A reconstrução narrativa da memória refere-se à maneira como os indivíduos organizam, interpretam e recontam suas experiências passadas, formando
histórias que atribuem sentido à sua trajetória
de vida. Essa reconstrução é essencial não apenas para lembrar, mas também para
construir a identidade, justificar escolhas e lidar com conflitos internos.
O psicólogo britânico Frederic Bartlett foi um dos
primeiros a demonstrar, em estudos experimentais clássicos, que a memória é
fundamentalmente reconstrutiva. Em sua obra Remembering:
A Study in Experimental and Social Psychology (1932), Bartlett mostrou que,
ao recordar histórias desconhecidas, os participantes não reproduziam o
conteúdo de forma exata, mas o alteravam segundo seus próprios esquemas
mentais, preenchendo lacunas e ajustando elementos estranhos à sua cultura e expectativas.
Esse fenômeno tornou-se conhecido como a “teoria dos esquemas”, segundo a qual
a mente interpreta novas informações com base em estruturas já existentes.
Com base nessa perspectiva, lembrar é menos uma reprodução fiel do passado e mais uma reconstrução orientada por objetivos presentes. A memória, portanto, é dinâmica: muda conforme o contexto, os afetos envolvidos e as narrativas que o sujeito constrói sobre si. Isso tem implicações importantes tanto para a psicologia clínica quanto para a compreensão da identidade pessoal. Segundo Neisser (1981), “recordar é reconstruir o passado com base no presente”.
A reconstrução narrativa da memória está profundamente
ligada à identidade. Ao organizar eventos passados em forma de histórias, os
indivíduos atribuem coerência às suas experiências e constroem uma noção de
continuidade no tempo. Jerome Bruner (1990), um dos principais defensores da
abordagem narrativa da mente, argumenta que os seres humanos interpretam suas
vidas por meio de narrativas, e que a memória funciona como o "fio"
que costura os episódios da existência em um enredo significativo.
Na psicologia, essa ideia deu origem à chamada “psicologia
narrativa”, que considera que o modo como uma pessoa conta sua história de vida
influencia diretamente sua saúde mental, suas decisões e sua visão de mundo. As
narrativas podem ser modificadas com o tempo, não apenas pelo esquecimento ou
pelo surgimento de novos eventos, mas também por mudanças no modo como o
indivíduo se vê ou deseja se ver. Assim, recontar a própria história pode ser
uma forma de cura, reinvenção ou elaboração de traumas.
Em contextos terapêuticos, como a psicoterapia narrativa, o foco é ajudar o paciente a
revisar suas histórias pessoais, identificar padrões
limitantes e ressignificar eventos dolorosos. O terapeuta atua como coautor,
oferecendo novas possibilidades de interpretação, sem impor verdades objetivas,
mas promovendo uma reconstrução mais funcional e saudável da memória (White
& Epston, 1990).
A memória autobiográfica é o tipo de memória mais
diretamente envolvida na reconstrução narrativa. Trata-se da recordação de
experiências pessoais situadas no tempo e no espaço, geralmente marcadas por um
conteúdo emocional relevante. Estudos demonstram que a memória autobiográfica é
sensível à forma como a pessoa se sente no presente, e que elementos esquecidos
ou reinterpretados podem ressurgir conforme novas fases da vida ou
transformações emocionais.
Além disso, a memória autobiográfica não é uniforme: ela
pode ser fragmentada, seletiva, e até mesmo contraditória. Essa imperfeição não
a invalida; ao contrário, ela reflete a complexidade da subjetividade humana.
Como aponta Conway e Pleydell-Pearce (2000), a memória autobiográfica é
estruturada em níveis hierárquicos — desde episódios específicos até temas de
vida — e funciona como um sistema de orientação e sentido.
Compreender que a memória é construída narrativamente tem
implicações éticas relevantes, especialmente em contextos como a regressão de
memória, a investigação de abusos, ou os testemunhos em processos judiciais. A
crença ingênua de que toda lembrança é factual pode levar à validação de
memórias falsas ou distorcidas. Pesquisadores como Elizabeth Loftus (1997)
alertam para a facilidade com que sugestões externas, especialmente em estados
de alta sugestionabilidade, podem gerar “falsas memórias” com forte carga
emocional, mas sem correspondência com a realidade objetiva.
Por isso, tanto na prática clínica quanto na vida
cotidiana, é essencial reconhecer a memória como fenômeno interpretativo,
influenciado por linguagem, cultura e emoção. Em vez de buscar uma “verdade
absoluta” sobre o passado, é mais produtivo investigar os significados que a
pessoa atribui aos seus relatos, as funções que essas memórias cumprem e as
possibilidades de ressignificação e crescimento pessoal que elas oferecem.
A memória não é um arquivo imutável do passado, mas uma narrativa em constante reconstrução, moldada por fatores emocionais, culturais e existenciais. Essa natureza narrativa da memória permite que o
memória não é um arquivo imutável do passado, mas uma narrativa em constante reconstrução, moldada por fatores emocionais, culturais e existenciais. Essa natureza narrativa da memória permite que o ser humano ressignifique experiências, reconstrua identidades e elabore subjetivamente os eventos que marcaram sua vida. Ao compreender a memória sob essa ótica, ampliam-se as possibilidades de compreensão da psique humana e de atuação ética e cuidadosa em contextos terapêuticos e sociais.
• Bartlett,
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in Natural Contexts. San Francisco: Freeman.
• White,
M., & Epston, D. (1990). Narrative
Means to Therapeutic Ends. New York: Norton.
A distinção entre imaginação guiada e rememoração real é
tema de grande relevância nos campos da psicologia cognitiva, da neurociência e
da prática terapêutica. Ambos os fenômenos envolvem a evocação de cenas
mentais, mas diferem em sua origem, função e confiabilidade. A imaginação
guiada é uma técnica deliberada de visualização mental, amplamente utilizada em
intervenções psicoterapêuticas e de desenvolvimento pessoal. Já a rememoração
real refere-se à recuperação espontânea ou induzida de experiências passadas
armazenadas na memória autobiográfica. Apesar de distintas, ambas compartilham
características estruturais e funcionais que frequentemente confundem os
limites entre ficção interna e lembrança real.
A imaginação guiada é um processo intencional de construção mental de imagens, sensações ou situações, geralmente conduzido por um facilitador ou por roteiros verbais. Essa prática é usada para promover relaxamento, autoconhecimento, resolução de conflitos internos ou preparação para desafios futuros. De acordo com Singer (2006), a imaginação guiada é uma forma ativa de pensamento simbólico, que permite explorar possibilidades,
simular eventos e acessar conteúdos emocionais de maneira segura.
A técnica é frequentemente empregada em abordagens como a terapia cognitivo-comportamental, a hipnoterapia e a psicologia transpessoal. No processo terapêutico, a imaginação guiada pode ser usada para ajudar o indivíduo a reinterpretar eventos, fortalecer recursos internos e acessar estados mentais alternativos, como o perdão ou a autoestima (Naparstek, 2004). O cérebro responde a essas imagens com ativações semelhantes às que ocorrem durante experiências reais, especialmente em áreas ligadas à percepção sensorial e à emoção, como o córtex visual e o sistema límbico (Kosslyn et al., 2001).
A rememoração real, por sua vez, é o ato de recuperar
informações armazenadas na memória de longo prazo, especialmente na memória
autobiográfica. Trata-se da revivência de episódios pessoais situados no tempo
e no espaço, geralmente associados a uma sensação de autenticidade e
familiaridade. No entanto, a memória humana não é literal nem imune a
distorções. Pesquisas demonstram que ao lembrar, o sujeito não apenas recupera
dados, mas os reconstrói, preenchendo lacunas com base em crenças, emoções
atuais e contexto cultural (Bartlett, 1932; Neisser, 1981).
Um dos principais desafios da rememoração real é sua
vulnerabilidade à influência de sugestões externas e à contaminação pela
imaginação. Estudos clássicos de Loftus e Pickrell (1995) mostraram que é
possível implantar falsas memórias em indivíduos por meio de sugestões sutis,
especialmente quando combinadas com imagens vívidas ou narrativas plausíveis.
Assim, uma lembrança tida como verdadeira pode ter origem parcial ou
integralmente na imaginação.
Do ponto de vista neuropsicológico, há uma sobreposição
significativa entre as redes neurais ativadas durante a imaginação e a
recordação. Regiões como o hipocampo, o córtex pré-frontal medial e o córtex
parietal posterior são recrutadas em ambas as situações, refletindo o uso de
processos comuns de construção e simulação mental (Schacter et al., 2007). Isso
ajuda a explicar por que uma imagem gerada pela imaginação guiada pode parecer
tão real quanto uma memória verdadeira.
No entanto, há também diferenças sutis. A rememoração tende a envolver mais detalhes contextuais e sensoriais integrados, além de provocar uma sensação mais robusta de familiaridade e de “ter vivido” o evento. A imaginação guiada, embora
vívida, carece dessa marca temporal e espacial que
caracteriza a memória episódica genuína (Tulving, 1983). Além disso, as
memórias reais são, em geral, mais resistentes à modificação intencional, ao
passo que os cenários imaginários são mais facilmente manipuláveis e adaptáveis
à vontade do sujeito.
A proximidade entre imaginação guiada e rememoração real
exige cuidado especial em contextos terapêuticos. Técnicas de regressão ou
visualização de eventos passados, se mal conduzidas, podem gerar confusão entre
o que foi vivido e o que foi imaginado. Isso pode levar à criação de falsas
memórias com implicações emocionais intensas e, em alguns casos, consequências
sociais e legais (Lynn et al., 2008).
Por essa razão, profissionais que utilizam imaginação
guiada devem esclarecer ao paciente que as imagens evocadas não constituem
necessariamente lembranças verídicas, mas representações simbólicas ou
construções subjetivas. O foco terapêutico deve ser o significado e o impacto
emocional da experiência, e não a verificação factual de seu conteúdo. Como
observa Singer (2006), “o valor terapêutico da imaginação não está em sua
veracidade, mas em sua capacidade de organizar e expressar afetos profundos”.
Imaginação guiada e rememoração real são processos
distintos, mas frequentemente entrelaçados na experiência humana. Ambos
envolvem a construção de imagens mentais e podem produzir efeitos emocionais
intensos. No entanto, a memória real tende a ser menos maleável e mais
carregada de elementos contextuais específicos. Já a imaginação guiada é
intencional, simbólica e flexível, servindo como ferramenta para transformação
psíquica e elaboração emocional. Compreender os limites e as interseções entre
esses dois fenômenos é essencial para um uso ético, informado e eficaz no campo
terapêutico e no desenvolvimento pessoal.
• Bartlett,
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• Tulving,
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Oxford: Oxford University Press.
O acesso ao passado subjetivo — isto é, à recordação das
experiências pessoais vividas e sentidas ao longo da vida — é um dos pilares da
psicologia clínica e das práticas terapêuticas que visam à elaboração de
traumas, à compreensão de padrões emocionais e à construção da identidade. No
entanto, esse processo está sujeito a importantes limitações de ordem
cognitiva, afetiva e simbólica. A memória, como processo psicológico ativo, não
é uma reprodução fiel do passado, mas sim uma reconstrução influenciada por
fatores emocionais, sociais e linguísticos. Assim, o passado subjetivo, embora
acessível de modo parcial, nunca é inteiramente recuperável de forma objetiva
ou integral.
Diferente de uma gravação exata dos eventos vividos, a
memória humana é fundamentalmente reconstrutiva. Desde os estudos pioneiros de
Bartlett (1932), sabe-se que ao recordar um acontecimento, o sujeito não o
revive tal como foi, mas o reinterpreta segundo esquemas mentais presentes,
expectativas, emoções e o contexto social em que está inserido. A memória
autobiográfica, nesse sentido, é seletiva e narrativa, sendo moldada
continuamente por novas experiências e pela necessidade de coerência interna da
identidade.
Essa característica torna o passado subjetivo algo mutável
e, muitas vezes, impreciso. Neisser (1981) destaca que “a memória é moldada
mais pelo presente do que pelo passado”, indicando que a lembrança é
influenciada pelos afetos e objetivos atuais do indivíduo. Assim, não se acessa
o passado como ele foi, mas como ele é percebido e significante no momento do
ato de lembrar.
Outro limite importante no acesso ao passado subjetivo é a mediação da linguagem. Toda rememoração
envolve a tradução da experiência
vivida em narrativas verbais ou imagens mentais. Isso significa que há sempre
um esforço de representação e simbolização, e que aspectos não verbalizados —
como sensações corporais ou estados emocionais profundos — podem escapar à
consciência narrativa (Bruner, 1990). Além disso, o modo como cada cultura
ensina a contar histórias e valoriza determinados tipos de memórias influencia
fortemente aquilo que é lembrado, esquecido ou distorcido.
O sociólogo Maurice Halbwachs (1990) propôs o conceito de
“memória coletiva” para enfatizar que a lembrança individual está ancorada em
quadros sociais de referência. Dessa forma, o passado subjetivo não é acessado
de forma isolada, mas em diálogo constante com os discursos culturais,
familiares e históricos que moldam a visão de mundo do sujeito.
O acesso ao passado subjetivo também é limitado por
mecanismos psíquicos de defesa. Muitas experiências dolorosas, traumáticas ou
conflitivas podem ser reprimidas, dissociadas ou distorcidas como forma de
autoproteção. Freud (1915), ao discutir os mecanismos de repressão, já apontava
que conteúdos inconscientes não são acessados livremente pela consciência, mas
requerem condições específicas para emergirem — como o ambiente terapêutico, a
associação livre ou a linguagem simbólica.
Mesmo em estados alterados de consciência, como na hipnose ou em técnicas de regressão, o acesso ao passado está sujeito às mesmas limitações: a reconstrução do conteúdo, a sugestibilidade e a interferência de fantasias inconscientes. Loftus (1997) mostrou que memórias falsas podem ser criadas com facilidade por meio de sugestões externas, o que compromete a confiabilidade da lembrança, mesmo quando esta é vívida e emocionalmente carregada.
Outro fator que limita o acesso ao passado subjetivo é a
própria natureza do tempo na vida psíquica. O tempo interno não segue a
linearidade do tempo cronológico; ele é marcado por repetições simbólicas,
condensações afetivas e ressignificações constantes. Lacan (1985) afirma que o
sujeito não se constitui em um tempo histórico linear, mas em um tempo lógico,
no qual o passado é reinterpretado continuamente a partir de novas posições
subjetivas.
Isso implica que mesmo quando um sujeito “acessa” uma memória antiga, ele o faz a partir de um novo lugar psíquico. O passado, nesse caso, é sempre um passado atualizado, relido, transformado. Essa
plasticidade é
tanto um limite quanto uma potência: impede a recuperação literal dos fatos,
mas permite a ressignificação e a integração subjetiva do vivido.
O acesso ao passado subjetivo é uma atividade mental
essencial para a construção da identidade, a elaboração psíquica e a
constituição da narrativa de vida. No entanto, esse acesso é limitado pela
natureza reconstrutiva da memória, pela influência da linguagem e da cultura,
pelos mecanismos de defesa e pela estrutura temporal da subjetividade. O
passado, tal como é recordado, é sempre uma versão interpretada e atualizada —
não um espelho fiel dos acontecimentos, mas uma expressão simbólica de como
esses eventos foram vivenciados, processados e transformados ao longo do tempo.
Reconhecer esses limites não invalida o valor terapêutico da rememoração, mas orienta seu uso responsável e ético, especialmente em contextos clínicos e de desenvolvimento pessoal. A lembrança é, acima de tudo, um ato de criação subjetiva, que revela não apenas o que aconteceu, mas quem o sujeito é no presente.
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