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ENSINO DAS LUTAS NA ESCOLA: FUNDAMENTOS, PRÁTICAS E BNCC
Módulo 3 — Lutas e
BNCC
Aula 1 — As lutas como unidade temática da Educação
Física
Durante muito
tempo, falar em Educação Física escolar significou, para muitos estudantes,
pensar quase imediatamente em futebol, voleibol, basquetebol ou handebol. Os
esportes possuem importância educacional, mas representam apenas uma parte do
amplo conjunto de práticas corporais que podem ser estudadas na escola.
A Base Nacional
Comum Curricular (BNCC) amplia essa perspectiva ao organizar a Educação Física
do Ensino Fundamental em diferentes unidades temáticas. Entre elas estão as lutas,
reconhecidas como conhecimento que integra a cultura corporal e que, portanto,
pode e deve receber tratamento pedagógico no currículo escolar.
Essa inclusão é
importante porque ajuda a superar uma visão limitada da Educação Física. Na
escola, o estudante não precisa apenas praticar modalidades esportivas
tradicionais. Ele também pode conhecer diferentes maneiras pelas quais grupos
sociais produzem movimentos, jogos, danças, lutas e outras práticas corporais.
O que significa
dizer que as lutas são uma unidade temática?
Uma unidade
temática funciona como uma forma de organizar conhecimentos que serão
desenvolvidos durante o percurso escolar. Portanto, quando a BNCC apresenta as
lutas dessa maneira, não está sugerindo uma atividade ocasional ou uma
demonstração isolada.
Existe um
conjunto de conhecimentos que pode ser progressivamente desenvolvido.
O estudante pode
experimentar movimentos, compreender regras, elaborar estratégias, conhecer
aspectos históricos e culturais, discutir segurança, analisar preconceitos e
perceber diferenças entre manifestações de luta.
Uma revisão
recente da literatura sobre o ensino desse conteúdo destaca justamente que as
aulas não devem ficar restritas ao desenvolvimento de gestos técnicos e regras.
Aspectos históricos, culturais e filosóficos, inclusão, igualdade de gênero,
atividades lúdicas e discussão sobre as diferenças entre luta e briga também
aparecem como possibilidades importantes.
Isso significa
que ensinar lutas na escola não é sinônimo de ensinar estudantes a combater.
O objeto de
estudo é muito mais amplo.
Onde as lutas
aparecem na BNCC?
A organização
proposta pela BNCC apresenta uma progressão ao longo do Ensino Fundamental.
Nos 3º, 4º e 5º anos, aparecem como objetos de conhecimento as lutas do contexto comunitário e regional e as lutas de matriz indígena e africana.
Essa organização permite aproximar inicialmente os estudantes das manifestações
presentes em seu contexto e, ao mesmo tempo, valorizar conhecimentos
relacionados à diversidade cultural brasileira.
Nos 6º e 7º
anos, a BNCC apresenta as lutas do Brasil como objeto de
conhecimento.
Nos 8º e 9º
anos, a abordagem se amplia para as lutas do mundo, possibilitando
conhecer manifestações de diferentes origens e analisar suas características,
estratégias e transformações. Materiais pedagógicos produzidos com base na BNCC
para essa etapa incluem, por exemplo, diferenças entre luta e briga, classificação
das lutas por distâncias, inclusão e experiências com modalidades específicas.
Percebe-se,
portanto, uma lógica de ampliação do repertório: parte-se de contextos mais
próximos e de matrizes importantes para a formação cultural brasileira e
avança-se para práticas nacionais e mundiais.
Nos anos iniciais:
conhecer, experimentar e respeitar
Para estudantes
mais novos, a abordagem não precisa começar por técnicas sofisticadas.
É possível
apresentar diferentes manifestações utilizando histórias, imagens, pesquisas,
jogos de oposição e atividades corporais adaptadas. O objetivo é permitir que
as crianças descubram que existem diferentes maneiras de lutar e que essas
práticas possuem regras, histórias e significados.
A própria BNCC
destaca que os estudantes dos anos iniciais chegam à escola trazendo
experiências pessoais e sociais variadas. O documento orienta que esses
conhecimentos sejam reconhecidos e problematizados, ampliando progressivamente
as experiências das crianças com as práticas corporais.
Isso permite
partir de perguntas simples:
— Quais lutas
vocês conhecem?
— Onde vocês
ouviram falar delas?
— Uma luta e uma
briga são a mesma coisa?
— Existem regras
em uma luta?
— Como podemos
participar sem machucar o colega?
Essas perguntas
ajudam o professor a identificar o que os estudantes já sabem antes de
apresentar novos conhecimentos.
Lutas do contexto
comunitário e regional
A BNCC abre
espaço para que a escola considere também a realidade na qual está inserida.
Isso é importante
porque as práticas corporais não estão distribuídas de maneira idêntica pelo
país. Determinada manifestação pode ter forte presença em uma região e ser
pouco conhecida em outra.
O professor pode
investigar práticas existentes no município ou na região, conversar com a
comunidade, levantar conhecimentos dos estudantes e pesquisar manifestações
culturalmente relevantes.
Essa abordagem
evita transformar o currículo em uma lista distante da realidade.
Ao mesmo tempo,
trabalhar o contexto local não significa limitar os estudantes ao que já
conhecem. A função da escola também é ampliar repertórios.
Primeiro, o
estudante reconhece experiências próximas. Depois, entra em contato com
práticas que talvez nunca tenha conhecido.
Matrizes indígenas
e africanas
A presença das
lutas de matrizes indígena e africana nos anos iniciais oferece uma
oportunidade importante para trabalhar diversidade cultural.
Isso exige
cuidado.
Não existe uma
única “luta indígena”, assim como não existe uma cultura indígena homogênea.
Existem diferentes povos, histórias e práticas. Da mesma forma, as referências
africanas precisam ser apresentadas evitando tratar um continente extremamente
diverso como se possuísse uma única cultura.
O professor pode
selecionar manifestações específicas, identificar sua origem e explicar seu
contexto de maneira adequada à faixa etária.
Esse trabalho
permite relacionar experiência corporal e conhecimento cultural. Em vez de
apenas reproduzir movimentos, o estudante começa a compreender que determinadas
práticas possuem história e significado para os grupos que as desenvolveram.
A literatura
recente sobre lutas na escola reforça justamente a necessidade de valorizar
aspectos históricos e culturais, evitando reduzir o conteúdo ao aprendizado
técnico.
Nos 6º e 7º anos:
lutas do Brasil
Ao chegar aos
anos finais, o repertório pode ser ampliado.
Para o 6º e 7º
anos, a BNCC apresenta explicitamente as lutas do Brasil.
Aqui existe uma
oportunidade interessante para discutir o que significa uma luta brasileira.
Algumas práticas
surgiram ou desenvolveram características próprias no território brasileiro.
Outras chegaram ao país vindas de diferentes lugares e passaram a fazer parte
de nossa cultura esportiva e corporal.
O professor pode
trabalhar essa questão por meio de pesquisas, mapas, vídeos, jogos e
experiências corporais adaptadas.
Também pode
discutir características como regras, rituais, vestimentas, espaços de prática
e formas de organização.
Assim, conhecer
uma luta deixa de significar apenas reconhecer seu nome.
Nos 8º e 9º anos:
ampliando o olhar para o mundo
Nos últimos anos
do Ensino Fundamental, os estudantes já possuem condições de realizar análises
mais amplas.
A abordagem das lutas do mundo permite conhecer práticas desenvolvidas em diferentes contextos e perceber como elas circularam entre
países e culturas.
Também é possível
discutir processos de transformação.
Uma prática pode
possuir origem tradicional e, ao longo do tempo, transformar-se em esporte
competitivo. Podem surgir federações, campeonatos, regulamentos e categorias. A
televisão e as redes sociais também podem modificar a maneira como determinada
luta é conhecida pelo público.
Uma unidade
didática desenvolvida especificamente para atender às habilidades relacionadas
às lutas do mundo na BNCC, por exemplo, incluiu conteúdos como diferenças entre
luta e briga, classificação por distância, inclusão e festival de lutas. Isso
mostra como o currículo pode ser transformado em experiências pedagógicas
variadas, sem ficar preso exclusivamente ao treinamento técnico.
A BNCC não é uma
lista de golpes
Um erro possível
é interpretar a presença das lutas no currículo como obrigação de ensinar
técnicas completas de várias modalidades.
Não é esse o
sentido.
O professor pode
trabalhar princípios, estratégias, conhecimentos históricos, experiências
corporais e atitudes.
Uma aula sobre
distância pode utilizar jogos de toque. Uma aula sobre equilíbrio pode
trabalhar desafios controlados em duplas. Uma aula sobre cultura pode envolver
pesquisa. Uma discussão sobre violência pode partir da diferença entre luta e
briga.
Experiências
pedagógicas documentadas mostram que é possível organizar objetivos de
aprendizagem relacionados às competências e habilidades da BNCC sem depender
exclusivamente de professores especializados em artes marciais.
Essa perspectiva
é particularmente importante para professores que tiveram pouco contato com
lutas durante sua formação.
Da habilidade para
a atividade
Um dos principais
desafios para o professor iniciante é olhar uma habilidade curricular e pensar:
“Como transformo
isso em uma aula?”
A resposta começa
pelo objetivo de aprendizagem.
Se a intenção é
desenvolver estratégias básicas, por exemplo, não basta pedir aos estudantes
que memorizem conceitos. É necessário criar um problema que exija estratégia.
Pode ser um jogo
no qual cada estudante precisa proteger um objeto enquanto tenta conquistar o
objeto do adversário.
Depois da
primeira tentativa, o professor pergunta:
— Qual estratégia
funcionou?
— O que vocês
mudariam?
Os estudantes
jogam novamente.
Nesse caso, a
experiência corporal foi criada para responder ao objetivo curricular.
Se o objetivo é compreender características culturais, outra estratégia pode ser mais adequada: pesquisa, roda
der características culturais, outra estratégia pode ser mais adequada:
pesquisa, roda de conversa, análise de imagens, produção de cartazes ou
comparação entre diferentes manifestações.
A habilidade orienta o que aprender; o professor organiza como aprender.
Experimentar não é
apenas executar
Na Educação
Física, experimentar uma prática corporal possui grande importância.
Entretanto, experimentar não significa apenas repetir movimentos.
Um estudante pode
participar de uma atividade, observar o que aconteceu, conversar sobre sua
estratégia e modificar sua ação na tentativa seguinte.
Esse processo
envolve corpo e pensamento.
Por isso, uma
sequência de lutas pode combinar momentos de prática e reflexão.
Depois de um jogo
de oposição, por exemplo, o professor pode perguntar:
— Quem conseguiu
resolver o problema sem utilizar muita força?
— O que mudou
quando vocês aumentaram a distância?
— Qual regra foi
mais importante para a segurança?
Essas perguntas
ajudam a transformar experiência em aprendizagem.
Lutas e diversidade
A presença das
lutas no currículo também permite discutir quem tradicionalmente participa
dessas práticas.
Alguns estudantes
podem chegar à aula acreditando que luta é “coisa de menino” ou que pessoas
menores e menos fortes não possuem condições de participar.
Essas ideias
precisam ser problematizadas.
A revisão da
literatura sobre o ensino das lutas identifica inclusão e igualdade de gênero
entre os temas relevantes para o tratamento pedagógico desse conteúdo.
Na prática, isso
significa organizar atividades nas quais força não seja o único elemento
valorizado.
Estratégia,
percepção, velocidade, equilíbrio, tomada de decisão, respeito às regras e
capacidade de adaptar-se também precisam ser reconhecidos.
A escola deve
ampliar possibilidades de participação, e não reproduzir exclusões.
Luta não é
violência
Outra barreira
importante é a associação automática entre luta e violência.
Pesquisas
brasileiras continuam identificando essa relação como uma das dificuldades para
inserir o conteúdo nas aulas de Educação Física, ao lado de problemas de
formação docente e de infraestrutura.
Essa dificuldade
pode transformar-se em conteúdo pedagógico.
O professor pode
discutir com os estudantes o papel das regras, do consentimento, dos limites e
da segurança. Pode comparar uma situação esportiva organizada com uma agressão
ocorrida fora daquele contexto.
Ao fazer isso, a escola não está apenas defendendo a presença das lutas. Está
fazer isso, a
escola não está apenas defendendo a presença das lutas. Está ajudando os
estudantes a desenvolver uma compreensão mais crítica do fenômeno.
O professor como
mediador
A BNCC orienta
aprendizagens, mas não substitui o planejamento docente.
É o professor
quem conhece sua turma, o espaço disponível, os materiais, as características
da comunidade e os conhecimentos que os estudantes já possuem.
Por isso, duas
escolas podem trabalhar a mesma habilidade de maneiras diferentes.
Uma pode
desenvolver uma sequência sobre capoeira. Outra pode começar pelas
manifestações existentes em sua região. Uma terceira pode utilizar jogos de
oposição para depois apresentar diferentes modalidades.
Essa
flexibilidade é importante porque o ensino precisa dialogar com a realidade
escolar.
Ao mesmo tempo, a
literatura alerta que a presença das lutas no documento curricular, por si só,
não garante que elas sejam efetivamente ensinadas. Há desafios relacionados à
formação, aos materiais disponíveis e à própria organização pedagógica.
O currículo abre
a possibilidade. O trabalho pedagógico transforma essa possibilidade em
aprendizagem.
Conclusão
Reconhecer as
lutas como unidade temática da Educação Física significa compreender que elas
constituem um conhecimento escolar, e não apenas uma atividade extracurricular
ou um treinamento realizado em academias.
A BNCC organiza
esse conteúdo de forma progressiva ao longo do Ensino Fundamental, começando
por manifestações do contexto comunitário e regional e de matrizes indígena e
africana e ampliando posteriormente o repertório para lutas brasileiras e do
mundo.
Essa organização
oferece ao professor inúmeras possibilidades.
É possível
experimentar jogos de oposição, investigar histórias, comparar manifestações,
elaborar estratégias, discutir segurança, analisar preconceitos e refletir
sobre as diferenças entre luta e violência.
O ponto central é
compreender que a BNCC não pede apenas que o estudante faça movimentos; ela
oferece espaço para que ele conheça, experimente, analise e atribua significado
às práticas corporais.
Assim, ensinar
lutas na escola deixa de significar simplesmente responder à pergunta “qual
modalidade vamos praticar?” e passa a envolver uma questão educacional mais
ampla:
o que nossos
estudantes podem aprender sobre o corpo, a cultura, o outro e a sociedade por
meio das lutas?
É essa pergunta
que transforma um conteúdo corporal em conhecimento escolar.
Referências
bibliográficas
ARAÚJO
JÚNIOR,
Adenilson Targino; OLIVEIRA, Francisco Lopes; MACEDO, Jullya Barros; DIAS,
Bruna Esteffany de Souza; CANDIDO, Walber Augusto Costa. Como são ensinados
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GOMES, Mariana
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Aula 2 — Como
transformar habilidades da BNCC em atividades
Um dos desafios
mais comuns no planejamento de Educação Física é transformar aquilo que está
escrito no currículo em uma experiência que realmente faça sentido para os
estudantes. No caso das lutas, esse desafio pode parecer ainda maior. O
professor lê expressões como “experimentar”, “utilizar estratégias”,
“identificar características” e “problematizar preconceitos”, mas ainda precisa
responder a uma pergunta prática: o que os alunos farão durante a aula para
desenvolver essas aprendizagens?
A BNCC oferece
objetivos e habilidades, mas não determina uma única atividade para
alcançá-los. Isso dá ao professor espaço para considerar idade, conhecimentos
prévios, realidade da escola, materiais disponíveis e características da turma.
Para o 6º e 7º
anos, por exemplo, a BNCC prevê experimentar e recriar lutas do Brasil
valorizando a segurança; planejar estratégias básicas respeitando o colega como
oponente; identificar códigos, rituais e elementos técnico-táticos; e
problematizar preconceitos e estereótipos relacionados às lutas.
O trabalho do
professor consiste justamente em criar situações nas quais essas aprendizagens
possam acontecer.
Começar pela
aprendizagem, e não pela atividade
É comum o
planejamento começar assim:
“Hoje vou fazer o
jogo da fita.”
Uma alternativa
mais consistente seria perguntar primeiro:
“O que quero que
meus estudantes aprendam?”
Se o objetivo for
compreender ataque e defesa, o jogo da fita pode ser adequado. Se o objetivo
for estudar a história da capoeira, talvez uma pesquisa acompanhada de
experiências corporais seja mais interessante. Se a intenção for discutir
preconceitos, uma situação-problema seguida de debate pode funcionar melhor.
Essa mudança é
importante porque evita transformar o currículo em uma coleção de brincadeiras
sem conexão entre si.
A BNCC pode
funcionar como referência para definir a aprendizagem, enquanto o professor
seleciona a estratégia pedagógica mais adequada. Estudos sobre sua utilização
no ensino das lutas indicam justamente que o documento pode auxiliar
professores a explorar esse conteúdo e a pensar possibilidades pedagógicas para
suas aulas.
O que significa
“experimentar”?
A palavra experimentar
aparece frequentemente nas habilidades da Educação Física. Entretanto,
experimentar não significa simplesmente realizar um movimento uma vez.
A experiência
precisa permitir que o estudante perceba o próprio corpo, compreenda o problema
apresentado e tenha oportunidade de modificar sua ação.
Imagine uma
atividade em que cada aluno possui uma fita presa à cintura. Em duplas, cada
participante tenta retirar a fita do adversário enquanto protege a própria.
Na primeira
rodada, muitos estudantes provavelmente avançarão diretamente.
Depois, o
professor pergunta:
— Quem conseguiu
proteger a fita?
— O que vocês
fizeram?
— Foi melhor
atacar rapidamente ou esperar?
Os estudantes
apresentam suas respostas e jogam novamente.
Agora existe uma
segunda experiência construída a partir da reflexão sobre a primeira.
Esse movimento
entre fazer, pensar e fazer novamente é pedagogicamente mais rico do que
simplesmente repetir a atividade.
Uma experiência
desenvolvida com 313 estudantes do Ensino Fundamental mostrou possibilidades de
organizar o ensino das lutas colocando o aluno em posição ativa no processo de
aprendizagem, com espaço para criatividade, reflexão e maior responsabilidade sobre
aquilo que aprende.
Transformando
“utilizar estratégias” em uma aula
A habilidade
EF67EF15 estabelece que os estudantes devem planejar e utilizar estratégias
básicas das lutas do Brasil, respeitando o colega como oponente.
Como transformar
isso em prática?
Uma possibilidade
é apresentar um problema.
O professor delimita uma pequena
professor
delimita uma pequena área e coloca um objeto dentro dela. Um estudante deve
proteger o objeto enquanto o outro tenta tocá-lo. Não é permitido empurrar,
agarrar ou utilizar golpes.
Na primeira
tentativa, os estudantes jogam livremente.
Depois, recebem
alguns minutos para conversar sobre estratégias.
O defensor pode
perguntar:
“É melhor ficar
parado perto do objeto ou movimentar-me?”
O atacante pode
pensar:
“É melhor avançar
diretamente ou tentar fazer o adversário deslocar-se primeiro?”
Em seguida,
ocorre uma nova rodada.
A aprendizagem
não está apenas em conseguir tocar o objeto. Está em planejar uma solução,
experimentá-la e avaliar o resultado.
Experiências
escolares com lutas têm mostrado justamente o potencial das situações-problema
para articular o “saber fazer” às razões pelas quais determinadas ações são
realizadas.
Uma habilidade pode
gerar várias atividades
Não existe
necessariamente uma atividade correta para cada habilidade.
A mesma
aprendizagem pode ser desenvolvida de diferentes maneiras.
Se o objetivo é
elaborar estratégias, podem ser utilizados jogos de proteção de alvo, conquista
de objetos, equilíbrio ou território. Se a intenção é reconhecer aspectos
culturais, podem aparecer pesquisa, vídeos, rodas de conversa, produção de
cartazes ou investigação das manifestações existentes na comunidade.
Essa
flexibilidade é importante porque escolas possuem realidades diferentes.
Uma escola pode
contar com quadra e muitos materiais. Outra dispõe apenas de um pequeno pátio.
Uma turma possui vinte estudantes; outra, quarenta.
A habilidade
permanece como referência, mas a atividade pode ser adaptada.
Da habilidade
cultural para a investigação
Nem todas as
habilidades relacionadas às lutas precisam ser desenvolvidas principalmente por
meio de oposição corporal.
A EF67EF16, por
exemplo, estabelece a identificação de características das lutas do Brasil,
incluindo códigos, rituais, elementos técnico-táticos, indumentárias,
materiais, instalações e instituições.
Nesse caso, uma
investigação pode ser muito produtiva.
O professor pode
dividir a turma em grupos e apresentar diferentes manifestações. Cada grupo
pesquisa algumas perguntas:
Onde essa luta
surgiu ou se desenvolveu?
Existem rituais
ou formas próprias de cumprimento?
Quais materiais
são utilizados?
Existe vestimenta
característica?
Como funcionam
algumas de suas regras?
Depois, os
estudantes compartilham suas descobertas.
O objetivo não é transformar a aula de
objetivo não é
transformar a aula de Educação Física em uma aula exclusivamente teórica. Na
sequência, algumas informações pesquisadas podem ser relacionadas às
experiências corporais.
Dessa maneira, conhecer
e fazer deixam de ser momentos isolados.
Trabalhando
preconceitos por meio de situações-problema
A BNCC também
determina que os estudantes problematizem preconceitos e estereótipos
relacionados às lutas, propondo alternativas fundamentadas em solidariedade,
justiça, equidade e respeito.
Para desenvolver
essa aprendizagem, o professor pode apresentar situações próximas da realidade
dos estudantes.
Por exemplo:
“Durante uma
aula, um aluno afirma que determinada atividade de luta não deveria ser
realizada pelas meninas porque exige força. Como a turma responderia a essa
afirmação?”
A partir daí,
surgem diferentes argumentos.
O professor pode
perguntar:
— Força é o único
elemento importante nas lutas?
— Estratégia pode
fazer diferença?
— Todas as
modalidades exigem as mesmas capacidades?
— Por que algumas
pessoas ainda associam determinadas práticas somente aos homens?
A discussão pode
ser complementada por pesquisas e experiências práticas.
Uma revisão
recente sobre o ensino das lutas na escola destaca que o conteúdo não deve
ficar limitado aos gestos técnicos e às regras. Aspectos históricos e
culturais, inclusão, igualdade de gênero, vivências lúdicas e debates sobre
luta e briga também fazem parte das possibilidades educacionais.
Da habilidade
“segurança” para uma rotina prática
Segurança não
precisa aparecer somente como uma explicação feita pelo professor antes da
atividade.
Ela pode
tornar-se uma aprendizagem construída pelos próprios estudantes.
Antes de um jogo
de oposição, por exemplo, o professor pergunta:
— Quais riscos
existem nesta atividade?
Os alunos
observam o espaço.
Talvez percebam
que existe uma mochila próxima à área de prática, que as duplas estão muito
próximas ou que determinada regra precisa ser mais clara.
Depois, outra
pergunta:
— O que podemos
fazer para reduzir esses riscos?
Os próprios
estudantes podem sugerir afastar objetos, aumentar a distância entre as duplas
ou estabelecer um sinal de interrupção.
Essa abordagem
está diretamente relacionada à EF67EF14, que prevê a experimentação das lutas
valorizando a própria segurança e integridade física e também a dos demais.
O estudante deixa de ser apenas alguém que recebe a ordem “tenha cuidado” e passa a compreender por que determinado cuidado é
necessário.
Luta e briga também
podem virar atividade
Para estudantes
mais novos, a própria BNCC prevê identificar características das lutas do
contexto comunitário e regional e de matrizes indígena e africana, reconhecendo
diferenças entre lutas e brigas e entre lutas e outras práticas corporais.
Uma atividade
simples pode começar com pequenas situações fictícias.
Situação A: duas pessoas participam de uma competição com regras, árbitro e sinal de
interrupção.
Situação B: duas pessoas discutem no recreio e começam a agredir uma à outra.
O professor
pergunta:
— As duas
situações são lutas?
A partir das
respostas, a turma pode construir critérios.
Na luta existem
regras? Existe consentimento? Há limites? O objetivo é ferir o outro? Existe
possibilidade de interrupção?
Depois, os
estudantes podem observar modalidades ou participar de jogos de oposição e
verificar se os critérios construídos continuam fazendo sentido.
Assim, uma
habilidade aparentemente conceitual também pode envolver experiência corporal.
O jogo precisa ter
intenção pedagógica
Jogos são
excelentes recursos para trabalhar lutas, mas utilizar um jogo não garante
automaticamente aprendizagem.
Imagine duas
aulas utilizando exatamente o mesmo jogo da fita.
Na primeira, o
professor apenas organiza as duplas, inicia a disputa e declara os vencedores.
Na segunda,
pergunta quais estratégias foram utilizadas, modifica o tamanho do espaço,
altera a posição da fita e pede que os estudantes comparem os resultados.
O jogo é o mesmo,
mas a experiência educacional é diferente.
No segundo caso,
existe investigação.
Estudos sobre o
ensino das lutas apontam justamente a importância de vivências lúdicas
associadas à reflexão, aos conhecimentos culturais e à participação ativa dos
estudantes.
Modificar regras
também ensina
Uma estratégia
bastante útil consiste em alterar uma variável da atividade e observar o que
acontece.
No jogo de
proteção de alvo, por exemplo, o professor pode primeiro utilizar uma área
pequena.
Depois, aumenta o
espaço.
Pergunta:
— O que mudou?
Os estudantes
talvez respondam que ficou mais difícil proteger o alvo ou que a velocidade
passou a ser mais importante.
Em seguida, o
professor reduz novamente o espaço.
Agora aproximação
e posicionamento corporal ganham maior relevância.
Sem explicar
longamente cada conceito, o professor cria condições para que os estudantes percebam
relações entre espaço e estratégia.
Essa lógica pode ser utilizada com tempo, tamanho
lógica pode
ser utilizada com tempo, tamanho do alvo, quantidade de participantes e formas
de deslocamento.
Perguntas fazem
parte da aula
Em uma proposta
mais ativa, o professor não precisa oferecer imediatamente todas as respostas.
Perguntas bem
construídas podem orientar a aprendizagem.
Depois de uma
atividade, ele pode perguntar:
— Por que sua
primeira estratégia não funcionou?
— O que você
mudou na segunda tentativa?
— Qual foi a
função da distância?
— Como você
protegeu o alvo?
— Foi necessário
utilizar força?
— Qual regra
garantiu maior segurança?
Essas perguntas
fazem o estudante olhar novamente para aquilo que acabou de fazer.
O relato de
experiência baseado no ensino centrado no aprendiz identificou criatividade,
empatia, reflexividade e maior responsabilidade pelo próprio aprendizado entre
os aspectos desenvolvidos durante uma proposta escolar com lutas.
Uma sequência
simples: experimentar, refletir e reconstruir
Uma forma prática
de transformar habilidades curriculares em aulas é utilizar três momentos.
Primeiro:
experimentar.
O professor
apresenta uma situação corporal simples. Os estudantes tentam resolver o
problema com os conhecimentos que possuem.
Segundo: refletir.
A turma conversa
sobre aquilo que aconteceu. Quais estratégias funcionaram? Quais dificuldades
apareceram? As regras foram suficientes? Houve segurança?
Terceiro:
reconstruir.
A atividade é
realizada novamente, mas agora os estudantes utilizam aquilo que descobriram.
Esse ciclo pode
repetir-se várias vezes.
Em vez de
simplesmente executar dez atividades diferentes em uma aula, às vezes é mais
produtivo desenvolver duas ou três situações e permitir que os estudantes
compreendam profundamente aquilo que estão fazendo.
Nem toda aula
precisa ensinar uma modalidade
Outro equívoco é
imaginar que cada aula precisa necessariamente receber o nome de uma arte
marcial.
“Aula de judô.”
“Aula de karatê.”
“Aula de
capoeira.”
Essas
manifestações podem e devem aparecer quando forem adequadas aos objetivos.
Entretanto, algumas aulas podem trabalhar princípios compartilhados por
diferentes lutas.
Uma sequência
pode abordar distância, equilíbrio, ataque e defesa, regras ou estratégias por
meio de jogos de oposição.
Essa possibilidade é especialmente relevante diante de um desafio ainda identificado nas pesquisas brasileiras: muitos professores relatam dificuldades relacionadas à formação específica, à associação das lutas com violência e à disponibilidade de
referências pedagógicas.
O professor deve
estudar aquilo que ensina e reconhecer os próprios limites, mas não precisa
transformar a escola em uma academia especializada para trabalhar
pedagogicamente esse conteúdo.
Como saber se a
atividade funcionou?
A resposta não
deve depender apenas de perguntar quem venceu.
Se o objetivo era
desenvolver estratégia, o professor pode observar se os estudantes conseguem
explicar suas escolhas.
Se era segurança,
pode verificar se reconhecem riscos e cumprem os procedimentos combinados.
Se era conhecer
aspectos culturais, pode solicitar que expliquem características da
manifestação estudada.
Se era
problematizar preconceitos, pode analisar os argumentos apresentados durante
uma situação-problema.
Portanto, objetivo,
atividade e avaliação precisam conversar entre si.
Se o objetivo é
compreender estratégia, não faz sentido avaliar apenas execução técnica. Se o
objetivo é conhecer diversidade cultural, não basta medir desempenho físico.
Um exemplo de
planejamento
Imagine que o
professor escolha trabalhar a habilidade EF67EF15, relacionada às estratégias
básicas das lutas do Brasil.
O objetivo da
aula poderia ser: compreender como distância e antecipação interferem na
escolha de uma estratégia de ataque e defesa.
A atividade seria
um jogo de conquista de fita.
Na primeira
rodada, os estudantes jogariam livremente dentro das regras.
Depois, haveria
uma conversa breve sobre estratégias.
Na segunda
rodada, o professor pediria que cada estudante escolhesse conscientemente uma
estratégia antes de começar.
No encerramento,
cada dupla explicaria o que tentou fazer e se a estratégia funcionou.
Perceba a
sequência:
habilidade →
objetivo → atividade → reflexão → avaliação.
Essa lógica ajuda a evitar aulas formadas por atividades desconectadas.
Conclusão
Transformar
habilidades da BNCC em atividades não significa procurar uma brincadeira pronta
para cada código curricular. O trabalho pedagógico é mais interessante quando o
professor identifica qual aprendizagem está sendo proposta e depois cria
uma situação adequada para que ela aconteça.
As lutas oferecem
muitas possibilidades para isso.
Estratégias podem
ser desenvolvidas por jogos de oposição. Segurança pode ser trabalhada por
análise de riscos e construção de regras. Aspectos culturais podem aparecer em
pesquisas e experiências corporais. Preconceitos podem ser discutidos por
situações-problema.
O mais importante é manter uma ligação clara entre aquilo que
mais importante
é manter uma ligação clara entre aquilo que se pretende ensinar e aquilo que os
estudantes realmente fazem durante a aula.
Uma sequência
simples pode orientar o professor iniciante: experimentar, observar,
discutir e experimentar novamente.
Quando isso acontece, a BNCC deixa de ser apenas um documento consultado durante o planejamento e passa a orientar experiências concretas de aprendizagem.
Referências
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Gelcemar Oliveira. Ensino das lutas na Educação Física escolar: um relato de
experiência fundamentado no ensino centrado no aprendiz. Revista Prática
Docente, v. 5, n. 2, 2020.
Aula 3 — Inclusão,
diversidade e participação nas aulas de lutas
Uma aula de lutas
realmente educativa não pode ser planejada apenas para quem é mais forte,
rápido, experiente ou confortável com o contato corporal. A escola reúne
estudantes com diferentes corpos, histórias, habilidades, interesses,
experiências culturais e maneiras de aprender. Essa diversidade precisa fazer
parte do planejamento.
No ensino das lutas, algumas diferenças ficam bastante visíveis. Um estudante pode ter experiência em judô ou capoeira, enquanto outro nunca participou de uma atividade de oposição. Alguns gostam
do contato corporal; outros sentem receio.
Há estudantes com deficiência que podem precisar de adaptações, assim como
alunos que evitam participar por vergonha, insegurança ou medo de se machucar.
A BNCC oferece
uma orientação importante nesse sentido. Para o 6º e 7º anos, a habilidade
EF67EF17 prevê problematizar preconceitos e estereótipos relacionados às lutas
e demais práticas corporais e propor alternativas para superá-los com base na solidariedade,
justiça, equidade e respeito.
Assim, inclusão
não é um assunto separado das lutas. Ela faz parte da própria maneira de
ensinar esse conteúdo.
Participar não
significa fazer tudo da mesma maneira
Uma das primeiras
ideias que precisam ser compreendidas é que inclusão não significa obrigar
todos os estudantes a realizar exatamente a mesma tarefa, nas mesmas condições
e com o mesmo nível de dificuldade.
Imagine um jogo
em que cada participante precisa retirar uma fita presa à cintura do colega.
Para alguns estudantes, essa atividade pode funcionar perfeitamente. Para
outros, o espaço pode ser pequeno demais, o tempo insuficiente ou a velocidade
do adversário tornar o desafio praticamente impossível.
Uma resposta
pouco inclusiva seria simplesmente afirmar:
— A regra é igual
para todos.
Tratar todos de
maneira idêntica nem sempre produz igualdade de oportunidades.
Em algumas
situações, será necessário ampliar o espaço, aumentar o tamanho do alvo,
reduzir a velocidade, alterar a duração, reorganizar as duplas ou modificar o
objetivo.
A própria
discussão educacional sobre inclusão destaca que adaptações podem envolver
materiais, objetos, conteúdos e atividades. O objetivo é criar condições
efetivas de acesso, permanência e participação.
Portanto, adaptar
não significa facilitar indiscriminadamente. Significa ajustar o desafio para
que o estudante tenha possibilidade real de aprender.
O problema da
seleção dos “mais habilidosos”
Nas aulas de
Educação Física, é relativamente fácil perceber quem corre mais rápido, possui
maior força ou apresenta experiência anterior.
O problema surge
quando essas características determinam quem participa mais.
Imagine uma
atividade em equipes na qual os próprios estudantes escolhem os participantes.
Frequentemente, aqueles considerados mais habilidosos são escolhidos primeiro.
Os últimos começam a receber uma mensagem implícita: “vocês são menos capazes”.
Nas lutas, essa
situação pode tornar-se ainda mais delicada porque algumas atividades envolvem
oposição direta.
O professor
precisa evitar uma organização que produza constantemente vencedores e
perdedores previsíveis.
Uma alternativa é
diversificar os problemas apresentados. Em uma atividade, velocidade pode ser
importante. Em outra, equilíbrio. Em uma terceira, estratégia e antecipação. Em
outra, capacidade de observar e explicar aquilo que aconteceu.
Dessa maneira,
diferentes estudantes encontram oportunidades para demonstrar conhecimentos.
“Luta é coisa de
menino?”
Entre os
estereótipos mais comuns relacionados às lutas está a ideia de que essas
práticas seriam naturalmente masculinas.
Essa percepção
pode aparecer de maneira direta:
— Menina não sabe
lutar.
Ou de maneira
mais sutil, quando os próprios estudantes formam grupos separados e algumas
meninas evitam participar porque acreditam que serão julgadas.
Uma pesquisa
realizada com estudantes do 7º ano analisou justamente a relação das meninas
com os saberes das lutas. Entre os fatores que dificultaram sua participação
apareceram a masculinização e o machismo associados às lutas, o medo de se
machucar e a vergonha de se expor.
Esses resultados
mostram por que simplesmente dizer “todos podem participar” não resolve o
problema.
O professor
precisa observar como a turma está participando.
Quem ocupa mais
espaço? Quem evita as atividades? Quem é constantemente escolhido como
adversário? Quem quase nunca é convidado? Existem comentários que ridicularizam
determinados estudantes?
Essas perguntas
ajudam a perceber exclusões que nem sempre são evidentes.
Transformando o
preconceito em conteúdo
Quando um
comentário preconceituoso aparece, existe uma oportunidade pedagógica.
Suponha que um
estudante diga:
— Não quero lutar
com ela porque vou ganhar fácil.
Em vez de apenas
repreender o comentário, o professor pode perguntar:
— Por que você
acredita nisso?
Provavelmente
aparecerão ideias relacionadas a força, gênero ou experiência.
A próxima
pergunta pode ser:
— Força é o único
elemento importante em uma luta?
Depois, a turma
realiza uma atividade em que velocidade, distância e estratégia tenham maior
importância do que força.
Ao final, o
professor retoma a discussão.
Agora os
estudantes possuem uma experiência concreta para analisar.
Essa forma de
intervenção aproxima-se da habilidade EF67EF17 da BNCC, que não pede apenas
identificar preconceitos, mas problematizá-los e buscar formas de superação
fundamentadas em solidariedade, justiça, equidade e respeito.
Incluir estudantes
com deficiência
A participação de
estudantes com deficiência também precisa ser considerada desde o planejamento,
e não apenas quando a atividade já começou.
Não existe uma
única adaptação que funcione para todas as pessoas. A necessidade depende do
estudante, da atividade, do ambiente e dos objetivos.
Um estudante com
baixa visão, por exemplo, pode necessitar de marcações com maior contraste,
orientação espacial mais clara ou modificações no material. Um estudante com
deficiência física pode precisar de alterações no espaço, nas regras ou nas
formas de deslocamento.
Um guia
brasileiro desenvolvido especificamente para Educação Física escolar inclusiva
destaca justamente a necessidade de tornar as práticas acessíveis aos
estudantes com deficiência.
Há também
experiências documentadas de planejamento sistemático na Educação Física
envolvendo estudantes com baixa visão, com estratégias construídas juntamente
com a equipe escolar para favorecer sua participação efetiva.
O ponto central é
evitar decidir antecipadamente que alguém “não consegue”.
Antes disso, a
pergunta deveria ser:
O que precisa ser
modificado para que esse estudante possa participar com segurança e
significado?
Adaptar sem retirar
o desafio
Uma adaptação
inadequada pode produzir outro problema: retirar completamente o desafio.
Imagine que um
estudante tenha dificuldade de deslocamento e, por isso, o professor
simplesmente determine que todos os adversários devem deixá-lo vencer.
Essa situação não
representa inclusão.
O estudante
percebe rapidamente que o resultado foi artificial e deixa de experimentar um
problema real.
Uma alternativa
seria modificar a regra. O participante pode proteger uma área menor, utilizar
um alvo em posição diferente ou receber outro objetivo compatível com suas
possibilidades.
Assim, continua
existindo oposição e necessidade de estratégia.
Uma proposta de
Educação Física inclusiva deve procurar preservar a experiência de
aprendizagem, modificando as condições quando necessário. Guias e relatos
pedagógicos brasileiros reforçam a importância de metodologias que garantam
participação dos estudantes, em vez de simplesmente mantê-los presentes
fisicamente na aula.
Formar duplas
também é uma decisão pedagógica
Em atividades de
oposição, a escolha das duplas influencia diretamente a experiência.
Colocar sempre estudantes de tamanho semelhante pode funcionar em algumas situações, mas não precisa virar uma regra absoluta. Dependendo do jogo, diferenças corporais podem
até gerar problemas estratégicos interessantes.
O professor deve
observar, principalmente, segurança, experiência e capacidade de controle dos
participantes.
Também é
importante evitar que os próprios alunos façam todas as escolhas. Quando isso
ocorre repetidamente, estudantes com menor popularidade ou habilidade podem
ficar isolados.
Uma possibilidade
é variar os critérios.
Em determinada
rodada, o professor organiza as duplas. Em outra, realiza sorteio.
Posteriormente, troca os participantes para que experimentem adversários
diferentes.
A diversidade de
parceiros também amplia a aprendizagem. Uma estratégia que funciona contra
determinado oponente pode não funcionar contra outro.
O medo também
precisa ser respeitado
Nem toda recusa
em participar significa falta de interesse.
Um estudante pode
ter medo de cair, sofrer algum golpe ou passar vergonha diante dos colegas.
Esse receio não
deve ser ridicularizado.
No estudo sobre a
participação das meninas nas aulas de lutas, o medo de se machucar e a vergonha
de se expor apareceram justamente como fatores que dificultavam sua
mobilização.
Para estudantes
iniciantes, uma progressão cuidadosa pode ajudar.
Primeiro, jogos
sem contato direto. Depois, atividades de toque controlado. Em seguida,
desafios de oposição com maior proximidade, desde que a turma demonstre
condições para isso.
Essa progressão
permite construir confiança.
Obrigar
imediatamente um estudante inseguro a participar de uma atividade intensa pode
produzir o efeito contrário: aumentar a resistência ao conteúdo.
Diferentes maneiras
de participar
Uma aula
inclusiva também pode oferecer diferentes papéis.
Enquanto algumas
duplas participam de um jogo de oposição, outros estudantes podem observar
estratégias, registrar regras ou analisar aspectos relacionados à segurança.
Depois, os papéis
são trocados.
Isso não
significa transformar determinados estudantes permanentemente em espectadores.
A intenção é ampliar as formas de envolvimento e permitir que todos
experimentem diferentes dimensões da aprendizagem.
Um aluno que
observa pode perceber algo que não havia notado enquanto jogava.
Pode dizer:
— Toda vez que
ele avançava muito rápido, deixava o próprio alvo desprotegido.
Essa observação
demonstra compreensão estratégica.
Portanto,
aprender lutas não significa apenas executar movimentos.
Diversidade
cultural também é inclusão
Inclusão não se
limita às diferenças físicas.
O repertório cultural apresentado durante as aulas
também pode incluir ou excluir.
Se o curso
apresenta somente modalidades esportivas internacionalmente conhecidas, os
estudantes podem desenvolver uma visão bastante limitada das lutas.
A BNCC amplia
esse repertório ao trabalhar, ao longo do Ensino Fundamental, manifestações do
contexto comunitário e regional, matrizes indígenas e africanas, lutas
brasileiras e lutas do mundo.
Essa diversidade
permite mostrar que diferentes grupos sociais construíram formas próprias de
utilizar e compreender o corpo.
O professor
precisa, entretanto, evitar caricaturas.
Uma manifestação
indígena não deve ser apresentada simplesmente como curiosidade “exótica”. Da
mesma maneira, práticas relacionadas às matrizes africanas não devem ser
retiradas de seus contextos históricos.
Valorizar
diversidade significa reconhecer diferentes conhecimentos como parte legítima
do currículo.
A linguagem do
professor também inclui ou exclui
Frases
aparentemente inocentes podem reforçar estereótipos.
“Preciso de dois
meninos fortes.”
“Essa atividade é
mais fácil para as meninas.”
“Você é pequeno
demais para lutar com ele.”
“Quem tem medo
fica olhando.”
Essas falas
produzem expectativas sobre aquilo que cada estudante supostamente consegue
fazer.
Uma alternativa é
utilizar linguagem relacionada ao desafio:
“Preciso de dois
voluntários.”
“Vamos
experimentar estratégias diferentes.”
“Vamos adaptar
esta regra.”
“Qual solução
funciona melhor para vocês?”
A mudança parece pequena, mas ajuda a construir uma aula na qual os estudantes não sejam definidos previamente por gênero, tamanho corporal ou habilidade.
Competir sem
excluir
Competição não
precisa desaparecer das aulas de lutas.
O problema
aparece quando ela se torna o único sentido da experiência.
Se todas as
atividades terminam destacando apenas quem venceu, estudantes que acumulam
derrotas podem começar a acreditar que não possuem capacidade para aprender.
O professor pode
ampliar os critérios de reconhecimento.
Quem encontrou
uma estratégia diferente?
Quem demonstrou
maior evolução?
Quem conseguiu
controlar melhor seus movimentos?
Quem respeitou as
regras mesmo quando estava prestes a perder?
Quem ajudou o
colega a compreender a atividade?
Assim, vencer
continua sendo possível, mas deixa de ser a única forma de sucesso.
Equidade não é
oferecer menos
A palavra equidade,
presente na habilidade EF67EF17, é especialmente importante.
No contexto da aula, equidade significa reconhecer que estudantes diferentes
podem precisar de
condições diferentes para acessar uma aprendizagem.
Imagine dois
alunos tentando proteger um alvo. Um possui grande experiência em artes
marciais e o outro está participando pela primeira vez.
Aplicar
exatamente as mesmas condições pode tornar o desafio pouco significativo para
ambos: fácil demais para um e difícil demais para outro.
O professor pode
alterar o tamanho do alvo, o espaço ou alguma regra.
Os dois continuam
aprendendo o mesmo princípio, mas em níveis adequados às suas necessidades.
Isso não
representa privilégio.
Representa uma
maneira de preservar o desafio pedagógico.
Inclusão precisa
envolver a escola
Existem situações
em que o professor de Educação Física não conseguirá construir sozinho todas as
adaptações necessárias.
Nesses casos, o
diálogo com a equipe pedagógica, profissionais especializados, família e,
principalmente, com o próprio estudante pode ajudar a identificar estratégias
mais adequadas.
Orientações
educacionais sobre inclusão destacam justamente a importância da colaboração
entre docentes, gestores, profissionais especializados, estudantes e demais
integrantes da comunidade escolar.
Uma experiência
divulgada no portal de implementação da BNCC também mostra um projeto de
Educação Física voltado à inclusão e ao combate ao preconceito e à exclusão de
pessoas com deficiência, envolvendo escola e comunidade.
Portanto,
inclusão não depende apenas de uma atividade adaptada. Ela envolve uma cultura
escolar de participação e respeito.
Uma pergunta útil
para o professor
Ao preparar uma
aula de lutas, uma pergunta simples pode ajudar bastante:
Quem poderá ficar
de fora desta atividade e por quê?
Talvez a resposta
revele que o espaço favorece apenas estudantes rápidos.
Talvez o contato
físico seja intenso demais para iniciantes.
Talvez as regras
beneficiem quem possui experiência anterior.
Talvez um
estudante com deficiência encontre uma barreira que poderia ser eliminada com
pequena adaptação.
Pensar nessas
possibilidades antes da aula permite agir preventivamente.
Uma Educação
Física inclusiva não é aquela na qual todos fazem exatamente a mesma coisa. É
aquela que procura garantir que todos tenham oportunidades significativas de
aprender.
Conclusão
Ensinar lutas em
uma perspectiva inclusiva significa reconhecer que a turma é diversa e
transformar essa diversidade em parte do processo educativo.
Alguns estudantes terão facilidade com determinados desafios; outros precisarão de mais tempo.
Alguns estudantes
terão facilidade com determinados desafios; outros precisarão de mais tempo.
Alguns gostarão imediatamente das atividades de oposição; outros precisarão
construir confiança. Em determinadas situações, regras, materiais, espaços e
formas de participação terão de ser adaptados.
Isso não reduz a
qualidade da aula.
Pelo contrário,
torna o ensino mais coerente com a própria BNCC, que propõe problematizar
preconceitos e estereótipos e buscar alternativas fundamentadas em
solidariedade, justiça, equidade e respeito.
O objetivo não
deve ser descobrir quem possui o corpo “ideal” para lutar.
A escola pode
ensinar exatamente o contrário: não existe uma única maneira de participar,
aprender ou solucionar um problema corporal.
Quando o
professor organiza desafios acessíveis, enfrenta estereótipos, respeita
diferenças e mantém expectativas reais de aprendizagem para todos, as lutas
deixam de selecionar os mais habilidosos e passam a cumprir uma função
verdadeiramente educacional.
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Estudo
de Caso — Módulo 3
Quando
“todos podem participar” não foi suficiente
A professora
Camila estava trabalhando o conteúdo de lutas com uma turma do 7º ano. Depois
das primeiras aulas sobre jogos de oposição, distância, regras e segurança,
decidiu planejar uma sequência diretamente relacionada às habilidades previstas
na BNCC.
No planejamento, registrou três objetivos: desenvolver estratégias básicas de oposição, garantir participação de todos e discutir
preconceitos associados às lutas.
A proposta estava
alinhada à BNCC. Para o 6º e 7º anos, o documento prevê experimentar lutas do
Brasil valorizando a segurança, planejar estratégias respeitando o colega como
oponente e problematizar preconceitos e estereótipos com base na solidariedade,
justiça, equidade e respeito.
No papel, parecia
um excelente planejamento.
Na prática,
entretanto, Camila descobriria que escrever “atividade inclusiva” no plano não
significa que todos estarão realmente incluídos.
A primeira
atividade
A professora
organizou um jogo simples. Cada estudante recebeu uma fita para colocar na
lateral da cintura. Em duplas, o objetivo era retirar a fita do adversário
enquanto protegia a própria.
As regras eram
claras: não empurrar, agarrar roupas, derrubar ou utilizar golpes.
Camila pediu:
— Formem duplas
livremente.
Em poucos
segundos, os grupos estavam praticamente organizados.
Foi então que ela
percebeu algo.
Grande parte dos
meninos havia escolhido outros meninos. Algumas meninas ficaram juntas. Dois
estudantes que já praticavam artes marciais imediatamente formaram uma dupla.
Daniel, que apresentava dificuldade de locomoção, permaneceu esperando.
Camila
aproximou-se e perguntou:
— Você ainda não
escolheu ninguém?
— Ninguém me
chamou.
A professora
resolveu rapidamente:
— Então você fica
com o Felipe.
A atividade
começou.
Tecnicamente,
Daniel estava participando.
Pedagogicamente,
porém, o problema ainda não estava resolvido.
Primeiro erro:
confundir presença com inclusão
Felipe era rápido
e possuía experiência anterior em judô. Em quase todas as rodadas, retirava a
fita de Daniel em poucos segundos.
Depois da quarta
derrota consecutiva, Daniel praticamente deixou de tentar.
Camila percebeu a
situação e disse:
— Felipe, deixa
ele ganhar uma.
Daniel respondeu
imediatamente:
— Não precisa.
A professora
percebeu que havia cometido outro erro.
Deixar alguém
vencer propositalmente não significava incluí-lo. Daniel não queria receber um
resultado como favor. Queria ter uma oportunidade real de solucionar o desafio.
Camila
interrompeu a dupla e modificou as condições.
Aumentou o
tamanho da fita de Felipe e diminuiu um pouco a área que Daniel precisava
proteger. Também alterou o objetivo: Daniel deveria proteger sua fita durante
vinte segundos, enquanto Felipe precisava conquistá-la antes do término do
tempo.
Agora ambos
tinham um problema real para resolver.
Daniel começou a observar os deslocamentos do adversário.
Em uma rodada, conseguiu proteger a
fita até o final.
Comemorou.
Não porque Felipe
havia permitido.
Mas porque sua
estratégia havia funcionado.
A experiência
ajudou Camila a compreender que equidade não significa produzir resultados
artificialmente iguais. Significa organizar condições para que diferentes
estudantes tenham possibilidades significativas de aprender. A própria BNCC
associa equidade ao reconhecimento da diversidade dos estudantes e à
necessidade de garantir oportunidades de aprendizagem para todos.
“Menina contra
menino não vale”
Na atividade
seguinte, Camila decidiu formar as duplas.
Quando colocou
Mariana e Gustavo juntos, ouviu imediatamente:
— Professora,
menina contra menino não vale.
Camila perguntou:
— Por quê?
— Porque menino é
mais forte.
Mariana
respondeu:
— E quem disse
que luta é só força?
A turma começou a
rir e comentar.
Camila
inicialmente pensou em encerrar rapidamente a discussão:
— Chega. Aqui
todo mundo é igual.
Mas percebeu que
aquela resposta desperdiçaria uma excelente oportunidade pedagógica.
A BNCC não
orienta apenas evitar preconceitos. A habilidade EF67EF17 determina que eles
sejam problematizados, buscando alternativas para sua superação.
Então Camila
perguntou:
— Vamos descobrir
se força é realmente o único elemento importante?
Mudando o problema
A professora
modificou o jogo.
Agora cada
participante precisava tocar suavemente uma das duas fitas presas nos ombros do
adversário. Não era permitido agarrar ou bloquear fisicamente o colega.
A nova situação
valorizava deslocamento, velocidade, distância, antecipação e estratégia.
Gustavo avançou
rapidamente.
Mariana recuou,
mudou de direção e tocou seu alvo.
Na rodada
seguinte, Gustavo percebeu o problema e passou a esperar mais antes de atacar.
A aula ganhou
outro sentido.
A pergunta deixou
de ser:
“Quem é mais
forte?”
E passou a ser:
“Qual estratégia
funciona melhor nesta situação?”
Esse tipo de
intervenção é especialmente importante porque pesquisas sobre lutas na Educação
Física escolar identificam barreiras concretas à participação feminina. Um
estudo realizado com uma turma do 7º ano encontrou entre elas a masculinização
e o machismo associados às lutas, além do medo de se machucar e da vergonha de
se expor.
Segundo erro: dizer
que “todos são iguais”
Depois da
atividade, Camila retomou sua própria frase:
— Antes eu disse
que aqui todo mundo era igual. Pensando melhor, vocês acham que somos realmente
todos iguais?
Os
estudantes
ficaram confusos.
Ela continuou:
— Temos o mesmo
tamanho? A mesma velocidade? A mesma experiência? Gostamos das mesmas coisas?
— Não.
— Então talvez o
importante não seja fingir que todas as diferenças desapareceram. O que
precisamos garantir?
Mariana
respondeu:
— Que todo mundo
consiga participar.
A professora
completou:
— E aprender.
A conversa ajudou
a turma a perceber uma diferença importante entre igualdade e equidade.
Reconhecer
diferenças não significa considerar alguém inferior. Significa evitar que
características corporais, experiência anterior, gênero ou outras condições
sejam transformadas em justificativas para excluir.
Quando a
experiência anterior virou vantagem permanente
Na aula seguinte,
Camila propôs um desafio de equilíbrio.
Em duplas, os
estudantes deveriam permanecer frente a frente, com contato controlado pelas
mãos. O objetivo era fazer o adversário deslocar um dos pés, sem derrubá-lo.
Rafael, que
praticava judô havia três anos, começou a vencer sucessivamente.
Os colegas
ficaram impressionados.
Camila pediu que
demonstrasse como fazia.
Até aquele
momento, parecia uma excelente estratégia: valorizar o conhecimento prévio do
estudante.
O problema
apareceu quando Rafael começou a corrigir os colegas:
— Você está
fazendo errado.
— Sua base está
ruim.
— Assim você
nunca vai ganhar.
Pouco a pouco,
ele deixou de ser colega e passou a agir como se fosse responsável pela aula.
Alguns estudantes
começaram a simplesmente imitá-lo.
A professora
percebeu outro erro.
Valorizar
experiências anteriores não significa permitir que um único conhecimento se
transforme no padrão obrigatório para toda a turma.
Ela mudou a
pergunta:
— Rafael
encontrou uma solução. Existem outras?
A turma voltou a
experimentar.
Um estudante
descobriu que poderia modificar a direção da pressão. Outro percebeu que uma
base muito aberta dificultava sua movimentação.
Rafael continuou
contribuindo, mas sua experiência passou a ser uma referência entre outras,
e não a única resposta possível.
Terceiro erro:
transformar habilidade em superioridade
Estudantes com
experiência anterior podem contribuir muito nas aulas, mas também precisam
continuar sendo alunos.
Colocá-los
permanentemente como demonstradores ou “ajudantes do professor” pode reforçar
hierarquias e limitar suas próprias possibilidades de aprendizagem.
A escola não
precisa ignorar conhecimentos prévios. Pelo contrário, pode utilizá-los como
ponto de partida.
Entretanto,
também precisa apresentar novos problemas.
Uma pesquisa
sobre o ensino de lutas a partir de situações-problema e jogos mostrou que os
estudantes chegam às aulas trazendo uma ampla bagagem cultural sobre o tema.
Essa experiência prévia pode integrar a construção pedagógica sem transformar a
aula simplesmente na reprodução de conhecimentos já existentes.
“Eu prefiro ficar
olhando”
Outra situação
apareceu com Júlia.
Durante as
atividades de oposição, ela frequentemente encontrava uma justificativa para
permanecer afastada.
— Professora,
posso marcar os pontos?
Camila
inicialmente aceitou. Afinal, Júlia continuava participando de alguma maneira.
Depois de três
aulas, entretanto, percebeu que a estudante sempre assumia funções de
observação.
Chamou-a
discretamente.
— Você não está
gostando das atividades?
Júlia hesitou
antes de responder:
— Eu gosto, mas
tenho medo de cair. E todo mundo fica olhando.
A resposta mudou
a interpretação da professora.
Não era preguiça.
Era insegurança.
O medo de se
machucar e a vergonha de se expor também aparecem na literatura como barreiras
à participação de estudantes nas atividades de lutas.
Camila decidiu
não a obrigar a entrar imediatamente em uma atividade de maior contato.
Construindo uma
progressão
Na aula seguinte,
Júlia participou inicialmente de um jogo de proteção de objetos praticamente
sem contato corporal.
Depois
experimentou uma atividade de toque controlado nos ombros.
Na terceira
etapa, participou de um jogo de equilíbrio com uma colega com quem se sentia
confortável.
A professora
aumentou gradualmente a complexidade.
Depois de algumas
aulas, Júlia já participava das atividades com maior segurança.
Camila percebeu
que respeitar o medo não significava abandonar a aprendizagem.
Significava criar
um caminho para que a estudante pudesse avançar.
Quando a BNCC virou
apenas um código no planejamento
Ao revisar seu
plano, Camila percebeu outro problema.
Havia registrado:
“EF67EF17 —
preconceitos e estereótipos”.
Mas,
inicialmente, sua atividade não fazia nada para desenvolver essa aprendizagem.
O código estava
no planejamento, mas não estava efetivamente na aula.
A partir dessa
constatação, decidiu transformar os acontecimentos reais da turma em situações
de aprendizagem.
A frase “menina
não luta” virou discussão sobre gênero.
A dificuldade de
Daniel permitiu conversar sobre equidade.
A experiência de
Rafael gerou uma reflexão sobre diferentes formas de aprender.
O medo de Júlia
ajudou a discutir respeito às diferenças.
A habilidade
curricular finalmente deixou de ser apenas uma anotação burocrática.
Uma atividade final
Para encerrar a
sequência, Camila organizou pequenos grupos e apresentou uma situação fictícia:
“Uma escola
realizará um festival de jogos de oposição. A turma possui estudantes com
diferentes níveis de experiência, características corporais e formas de
participação. Como organizar as atividades para que todos possam participar com
segurança e aprender?”
Cada grupo
deveria elaborar uma proposta.
As respostas
foram interessantes.
Um grupo sugeriu
oferecer diferentes níveis de dificuldade.
Outro propôs
variar as duplas.
Um terceiro
sugeriu modificar o tamanho dos alvos conforme a atividade.
Uma estudante
escreveu:
— Não pode deixar
sempre os melhores escolherem os times.
Daniel
acrescentou:
— E adaptar não
significa deixar alguém ganhar.
Camila percebeu
que a turma havia começado a compreender inclusão como um problema pedagógico
concreto.
A literatura
sobre Educação Física escolar mostra que estratégias inclusivas precisam ser
planejadas intencionalmente e relacionadas às condições concretas da turma, e
não tratadas apenas como um princípio abstrato.
O que mudou no
planejamento da professora?
Nas aulas
seguintes, Camila passou a utilizar algumas perguntas antes de selecionar
qualquer atividade.
Quem pode encontrar
dificuldades para participar?
A atividade
favorece excessivamente força, velocidade ou experiência anterior?
Existe
possibilidade de adaptação sem eliminar o desafio?
As duplas estão
organizadas de maneira segura?
Os estudantes estão
realmente participando ou alguns permanecem constantemente como espectadores?
Há estereótipos
interferindo nas escolhas e relações da turma?
Essas perguntas
tornaram o planejamento mais cuidadoso.
Pesquisas com professores mostram que adaptações de materiais, espaços e regras e a utilização de jogos de oposição estão entre as estratégias efetivamente empregadas para viabilizar o ensino das lutas na escola.
Erros comuns
identificados no caso e como evitá-los
Acreditar que
permitir a presença significa incluir. O estudante pode
estar na quadra e continuar excluído da aprendizagem. É necessário observar se
ele realmente consegue enfrentar o problema proposto.
Mandar um colega “deixar o outro ganhar”. Isso elimina o desafio e pode constranger o estudante. É preferível modificar espaço, alvo, tempo, regras ou objetivos para equilibrar as possibilidades
desafio e pode
constranger o estudante. É preferível modificar espaço, alvo, tempo, regras ou
objetivos para equilibrar as possibilidades de participação.
Repetir que “todos
são iguais”. Os estudantes possuem diferenças reais. A
perspectiva de equidade reconhece essas diferenças e procura impedir que se
transformem em barreiras para a aprendizagem.
Ignorar comentários
sobre gênero. Frases como “luta é coisa de menino” não devem ser
naturalizadas. Podem ser transformadas em situações de reflexão e experiências
que questionem o estereótipo.
Valorizar apenas
força e vitória. As atividades podem reconhecer
estratégia, controle corporal, percepção, equilíbrio, tomada de decisão,
respeito e evolução individual.
Deixar estudantes
experientes dominarem a aula. Seus
conhecimentos podem enriquecer a experiência, mas não devem ser apresentados
como única maneira correta de solucionar todos os problemas.
Obrigar
imediatamente quem demonstra medo. Uma progressão
de atividades, começando por situações de menor contato, pode favorecer
confiança e participação.
Permitir que alguns
estudantes sejam sempre observadores. Observar também
produz aprendizagem, mas os papéis precisam variar. O objetivo é ampliar a
participação, e não criar espectadores permanentes.
Colocar o código da
BNCC no planejamento sem relacioná-lo à atividade. A habilidade deve orientar aquilo que o estudante realmente
experimentará, discutirá e aprenderá.
Para refletir
No início da
sequência, Camila acreditava que sua aula seria inclusiva porque havia dito:
— Aqui todos
podem participar.
No final,
compreendeu que essa frase era apenas o começo.
Uma aula
inclusiva precisa ser construída nas escolhas feitas pelo professor: na
formação das duplas, nas regras, no tamanho do espaço, na dificuldade do
desafio, nas adaptações, nas perguntas realizadas e na maneira como reage aos
preconceitos que aparecem.
A BNCC é bastante
clara ao estabelecer, para essa etapa, a problematização dos preconceitos e
estereótipos e a construção de alternativas baseadas em solidariedade,
justiça, equidade e respeito.
O maior
aprendizado da turma, portanto, não foi descobrir quem lutava melhor.
Foi perceber que participar
não significa fazer exatamente a mesma coisa que todos os outros, mas ter
condições reais de enfrentar desafios, aprender, progredir e ser respeitado
durante o processo.
Quando essa compreensão chega à aula, as diferenças deixam de ser vistas como obstáculos e passam a fazer parte da própria
experiência educativa.
Referências
bibliográficas
ALMEIDA, Maycon
Ornelas; RUFINO, Luiz Gustavo Bonatto; LAZZAROTTI FILHO, Ari; BACKES, Ana
Flávia; RODRIGUES, Heitor de Andrade. A prática pedagógica com as lutas na
Educação Física: um retrato da formação e da realidade de ensino de professores
do Ensino Médio do Distrito Federal. Revista Brasileira de Ciências do
Esporte, v. 44, 2022.
BRASIL.
Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: Educação é a Base.
Brasília: MEC, 2018.
LOPES, Raphael
Gregory Bazílio; KERR, Tiemi Okimura. O ensino das lutas na Educação Física
escolar: uma experiência no Ensino Fundamental. Motrivivência,
Florianópolis, v. 27, n. 45, 2015.
PEREIRA, Álex
Sousa; OLIVEIRA, Marcelo Alberto de; PRODÓCIMO, Elaine. O ensino de
lutas/artes marciais como uma prática de educação libertadora: entremeando
círculos de cultura, situações-problema e jogos. Revista Brasileira de
Ciências do Esporte, v. 46, 2024.
RAFAEL, Leandro
Soares Assunção; FERNANDES, Gyna de Ávila. “É preciso ver?”: práticas de
ensino inclusivas na Educação Física escolar. Motrivivência, Florianópolis,
2021.
SO, Marcos Roberto; MARTINS, Mariana Zuaneti; BETTI, Mauro. As relações das meninas com os saberes das lutas nas aulas de Educação Física. Motrivivência, Florianópolis, v. 30, n. 56, 2018.
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