Apostila 2 — Curso Ensino das Lutas na Escola Fundamentos Práticas e BNCC

ENSINO DAS LUTAS NA ESCOLA: FUNDAMENTOS, PRÁTICAS E BNCC

 

Módulo 2 — Princípios Pedagógicos e Práticas de Lutas 

Aula 1 — Jogos de oposição como estratégia de iniciação

 

Ensinar lutas para uma turma iniciante não significa começar por socos, chutes, quedas ou técnicas complexas. No ambiente escolar, existe uma alternativa mais simples e pedagógica: os jogos de oposição.

Esses jogos colocam dois ou mais participantes diante de um desafio em que existe oposição de interesses. Um estudante tenta alcançar determinado objetivo enquanto o outro procura impedir sua ação e, ao mesmo tempo, atingir o próprio objetivo. Tudo acontece dentro de regras previamente estabelecidas.

A proposta permite trabalhar princípios presentes nas lutas — como ataque, defesa, distância, equilíbrio, deslocamento, antecipação e estratégia — sem transformar a aula em treinamento especializado de uma modalidade.

Pesquisas realizadas no contexto escolar apontam os jogos de oposição como recurso relevante para introduzir o conteúdo das lutas de maneira lúdica e acessível. Uma experiência com turmas do 6º ano, por exemplo, identificou que esses jogos possibilitaram introduzir elementos e movimentos de diferentes lutas, ao mesmo tempo em que favoreceram reflexões sobre atitudes e valores.

O que são jogos de oposição?

Em termos simples, um jogo de oposição apresenta um problema corporal que precisa ser resolvido diante da ação de outra pessoa.

Imagine dois estudantes segurando uma bola. Cada um tenta conquistar a posse do objeto sem utilizar movimentos bruscos ou perigosos. Os participantes precisam perceber a força utilizada pelo colega, modificar sua posição e decidir quando agir.

Em outra atividade, dois alunos possuem fitas presas à cintura. Cada participante tenta retirar a fita do colega enquanto protege a própria.

Apesar de não reproduzirem necessariamente uma modalidade específica, essas situações apresentam características das lutas. Existe um adversário, um objetivo, regras, tomada de decisão e interação constante entre ataque e defesa.

A literatura da área considera justamente os jogos de oposição uma possibilidade para trabalhar lutas de maneira lúdica e pedagogicamente orientada. Revisões sobre o tema apontam que essa estratégia pode contribuir para enfrentar dificuldades frequentemente mencionadas pelos professores, como falta de experiência específica com modalidades de luta, preconceitos relacionados ao conteúdo e limitações de estrutura e materiais.

Por que

começar pelo jogo?

Para quem está iniciando, aprender por meio de jogos possui uma vantagem importante: o estudante pode descobrir soluções antes de receber respostas prontas.

Suponha que o objetivo seja tocar o joelho do colega sem deixar que o próprio joelho seja tocado. Depois de algumas tentativas, os estudantes começam naturalmente a modificar suas ações.

Um deles mantém maior distância. Outro utiliza movimentos rápidos de aproximação e afastamento. Um terceiro espera o adversário atacar para responder.

Nesse momento aparecem conhecimentos importantes: distância, tempo de reação, proteção, ataque, defesa e antecipação.

O professor não precisou começar explicando detalhadamente cada conceito. O próprio problema apresentado pelo jogo criou uma necessidade de aprendizagem.

Estudos sobre jogos de oposição destacam justamente seu potencial como estratégia de iniciação às lutas, permitindo trabalhar situações-problema, ludicidade e princípios do confronto dentro de condições pedagógicas adaptadas à escola.

Ataque e defesa acontecem juntos

Uma característica interessante das lutas é que ataque e defesa estão constantemente relacionados.

Quando um estudante tenta retirar a fita presa à cintura do adversário, por exemplo, precisa aproximar-se para atacar. Ao fazer isso, porém, pode deixar sua própria fita mais exposta.

Ele precisa tomar uma decisão: atacar agora ou esperar?

Essa pergunta simples apresenta um princípio fundamental das lutas. Toda ação modifica a situação e pode criar oportunidades tanto para quem ataca quanto para quem defende.

Por isso, o professor pode evitar atividades nas quais os alunos apenas repetem movimentos mecanicamente. O jogo deve apresentar algum grau de incerteza.

Se o estudante sabe exatamente o que o colega fará, existe pouca necessidade de tomar decisões. Quando ambos possuem possibilidades de ação, surge o problema estratégico.

Jogos de conquista de objeto

Uma categoria bastante acessível para iniciação envolve a conquista ou proteção de objetos.

Um exemplo é o jogo da fita. Cada participante coloca uma fita de tecido presa lateralmente à cintura. O objetivo é retirar a fita do adversário e proteger a própria.

Antes de começar, algumas regras precisam ser estabelecidas: não empurrar, não agarrar roupas ou partes do corpo, não atingir o rosto e interromper imediatamente a atividade ao sinal do professor.

Apesar da simplicidade, o jogo permite explorar vários conceitos.

O estudante precisa observar o

adversário, proteger um alvo, movimentar-se e escolher o momento de atacar. Depois de algumas rodadas, o professor pode perguntar:

— O que funcionou melhor?

As respostas podem revelar diferentes estratégias.

“Esperei ele chegar perto.”

“Protegi a fita com meu corpo.”

“Fingi que ia para um lado e fui para o outro.”

A discussão ajuda os estudantes a perceber que não estavam simplesmente correndo para pegar uma fita. Estavam elaborando estratégias de oposição.

Jogos de conquista de espaço

Outra possibilidade envolve espaço ou território.

O professor pode delimitar pequenos círculos ou áreas no chão. Em vez de simplesmente determinar que um participante deve “empurrar o outro para fora”, o que pode aumentar desnecessariamente a intensidade física, é possível criar versões mais controladas.

Por exemplo, cada estudante precisa proteger uma pequena área enquanto o adversário tenta tocar determinado ponto dentro dela. Outra possibilidade é utilizar objetos que precisam ser protegidos ou conquistados.

O objetivo é trabalhar posicionamento, deslocamento e percepção espacial.

O professor pode modificar o tamanho do espaço e perguntar aos estudantes o que mudou.

Em uma área pequena, aproximar-se pode ser inevitável. Em uma área maior, deslocamento e velocidade podem assumir maior importância.

A própria modificação do jogo torna-se, portanto, uma ferramenta didática.

Jogos de equilíbrio e desequilíbrio

Equilíbrio e desequilíbrio aparecem em diferentes manifestações de luta e também podem ser trabalhados de maneira introdutória.

Uma atividade simples pode ser realizada com os estudantes posicionados frente a frente, mantendo contato controlado pelas mãos. O objetivo não precisa ser derrubar o colega. Pode ser apenas fazê-lo deslocar um dos pés da posição inicial.

Essa pequena alteração é importante.

Para um iniciante, especialmente em ambiente escolar, não há necessidade de começar tentando projetar alguém ao chão. O princípio do desequilíbrio pode ser compreendido por meio de desafios muito mais simples.

O estudante percebe que força não é a única possibilidade. Alterar a direção da pressão, modificar a base corporal ou aproveitar o movimento do colega pode produzir resultados diferentes.

Assim, o jogo favorece a descoberta.

Jogos de toque e esquiva

Também é possível trabalhar atividades nas quais o objetivo consiste em tocar determinados alvos permitidos no corpo do adversário.

O professor pode determinar, por exemplo, que somente os ombros

sejam utilizados como alvo. Os participantes precisam tentar tocar suavemente o ombro do colega enquanto protegem os próprios.

Não há golpes.

O objetivo é explorar aproximação, afastamento, esquiva, velocidade de reação e proteção.

O professor deve definir previamente quais regiões podem ser tocadas e deixar claro que tocar não significa golpear.

Essa distinção é essencial. Quanto mais claro for o objetivo, menor a possibilidade de o jogo transformar-se em uma disputa de força.

O problema vem antes da técnica

Uma das maiores contribuições dos jogos de oposição está na possibilidade de apresentar problemas que exigem soluções.

Em vez de começar dizendo:

“Façam este movimento.”

O professor pode perguntar:

“Como vocês podem proteger esse espaço sem agarrar o adversário?”

Depois da primeira tentativa, outra pergunta:

“O que vocês fariam diferente?”

Os estudantes experimentam, erram, observam e tentam novamente.

Essa abordagem não significa que o professor nunca possa ensinar movimentos ou conceitos. Significa apenas que a técnica deixa de aparecer como um gesto isolado e passa a responder a uma necessidade surgida na situação.

Experiências pedagógicas com jogos de oposição mostram que estratégias baseadas na dinâmica e nas regras dos jogos podem favorecer a introdução de elementos presentes em diferentes lutas.

O papel das regras

Em um jogo de oposição, as regras não servem apenas para determinar quem ganhou.

Elas organizam a aprendizagem.

Se o professor determina que não é permitido agarrar, os estudantes precisam descobrir outras maneiras de solucionar o problema. Se modifica o espaço, novas estratégias aparecem. Se altera o alvo, ataque e defesa também precisam mudar.

Assim, mudar uma regra significa mudar o problema apresentado aos alunos.

As regras também são fundamentais para garantir segurança. Uma experiência recente realizada com estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental utilizou jogos de oposição e práticas inspiradas em diferentes manifestações de luta, priorizando contato controlado e segurança. O relato apontou melhora na participação e na compreensão conceitual das lutas pelos estudantes.

Segurança vem antes da competição

Uma atividade deixa de cumprir sua finalidade pedagógica quando vencer passa a ser mais importante do que preservar o colega.

Antes de iniciar qualquer jogo de oposição, o professor deve explicar claramente as ações permitidas e proibidas. Também precisa estabelecer um sinal de interrupção

conhecido por todos.

Se alguém sentir dor ou desconforto, a atividade deve ser interrompida.

A intensidade precisa ser compatível com a idade e com a experiência dos participantes. Jogos que envolvem quedas, projeções, estrangulamentos, golpes ou outras técnicas potencialmente perigosas não devem ser improvisados.

A própria BNCC relaciona diretamente o ensino das lutas à segurança. Para o 6º e 7º anos, por exemplo, a habilidade EF67EF14 estabelece a experimentação das lutas do Brasil valorizando a própria segurança e integridade física e também a dos demais. A habilidade EF67EF15 acrescenta o planejamento e a utilização de estratégias básicas respeitando o colega como oponente.

Do simples para o complexo

Para iniciantes, uma boa sequência pode começar com pouca oposição e avançar gradualmente.

Primeiro, podem aparecer atividades de proteção de objetos e conquista de espaços. Depois, jogos de toque e esquiva. Posteriormente, conforme a turma demonstra compreensão das regras e capacidade de controlar os movimentos, podem ser introduzidas situações com maior interação.

Essa progressão permite ao professor observar como os estudantes respondem.

Se a turma ainda transforma qualquer desafio em uma disputa de força, provavelmente não é o momento de aumentar a complexidade ou o contato físico.

Progredir não significa tornar a atividade mais agressiva. Significa aumentar gradualmente a quantidade de problemas que os estudantes precisam resolver.

Nem todo mundo precisa jogar da mesma maneira

As turmas escolares são diversas. Existem estudantes mais rápidos, mais fortes, mais tímidos, mais experientes e outros que nunca participaram de uma atividade semelhante.

Por isso, o mesmo jogo pode precisar de adaptações.

Um estudante desconfortável com contato corporal pode inicialmente participar de uma atividade de conquista de objeto. Outro pode realizar uma tarefa com espaço maior. Também é possível modificar duração, quantidade de participantes e objetivos.

A adaptação não diminui o valor pedagógico da atividade.

Pelo contrário, permite que mais estudantes tenham condições reais de aprender.

O professor também deve evitar organizar permanentemente as atividades de maneira que apenas os mais fortes ou habilidosos obtenham sucesso. Estratégia, percepção, controle corporal e tomada de decisão precisam ser valorizados.

Conversar depois de jogar

Uma parte importante da aprendizagem acontece depois da experiência corporal.

Após algumas rodadas, o professor

pode reunir rapidamente a turma e perguntar:

— Qual estratégia funcionou?

— O que dificultou o ataque?

— O que aconteceu quando vocês ficaram muito próximos?

— Foi necessário usar muita força?

— Como vocês protegeram o próprio alvo?

Essas perguntas ajudam os estudantes a transformar experiência em conhecimento.

Uma pesquisa desenvolvida com turmas do 6º ano identificou que os jogos de oposição favoreceram reflexões dos estudantes em rodas de conversa e outras atividades, além da introdução de elementos relacionados a diferentes lutas.

Portanto, jogar e conversar não são momentos separados. Ambos fazem parte da aula.

O professor não precisa transformar a escola em academia

Uma dificuldade frequente entre professores é acreditar que somente alguém especializado em uma modalidade pode abordar lutas.

Os jogos de oposição ajudam justamente a ampliar as possibilidades pedagógicas.

Uma proposta didática publicada recentemente destaca que jogos de luta podem contribuir para enfrentar inseguranças docentes relacionadas às lacunas de formação específica. Isso não elimina a necessidade de estudo e planejamento, mas mostra que o ensino escolar pode partir de princípios gerais das lutas, sem depender exclusivamente da reprodução de técnicas especializadas.

O professor precisa conhecer aquilo que propõe, compreender seus riscos e reconhecer seus próprios limites.

Quando não domina uma técnica potencialmente perigosa, não deve improvisá-la.

No ambiente escolar, muitas aprendizagens importantes podem acontecer com atividades simples, materiais acessíveis e regras bem construídas.

Conclusão

Os jogos de oposição oferecem uma porta de entrada interessante para o ensino das lutas porque transformam seus princípios em problemas acessíveis aos estudantes.

Proteger um objeto, conquistar um espaço, tocar um alvo, manter o equilíbrio ou evitar uma aproximação podem parecer tarefas simples. Entretanto, dentro delas aparecem elementos importantes das lutas: ataque, defesa, distância, equilíbrio, antecipação, tomada de decisão e estratégia.

Pesquisas brasileiras têm apontado justamente o potencial dos jogos como recurso para tematizar as lutas na Educação Física escolar, especialmente por sua ludicidade e capacidade de adaptar o conteúdo ao contexto educacional.

Para o professor iniciante, uma ideia pode orientar todo o planejamento: o objetivo não é descobrir quem consegue vencer o colega, mas criar situações nas quais ambos possam aprender com a oposição.

Quando regras, segurança, desafio e reflexão caminham juntos, o jogo deixa de ser apenas uma brincadeira e se transforma em uma estratégia pedagógica para compreender as lutas.

Referências bibliográficas

AMARAL, João Pedro de Jesus Lima; SANTOS, Vinicius da Silva; SOUZA, Suzana Alves Nogueira. Lutas de oposição no contexto da Educação Física escolar: um relato de experiência. inCORPOrAÇÃO, v. 4, n. 1, 2026.

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: Educação é a Base. Brasília: MEC, 2018.

COSTA, João Augusto Galvão Rosa; TERRA, Dinah Vasconcellos. A Educação Física nos anos finais do Ensino Fundamental: desafios, experiências e possibilidades para o ensino das lutas na escola. Educação, Ciência e Cultura, v. 25, n. 2, 2020.

PEREIRA, Marcos Paulo Vaz de Campos; MARINHO, Alcyane; FOLLE, Alexandra; MOTA, Íris Dantas da; FARIAS, Gelcemar Oliveira. Jogo como estratégia de ensino: tematizando a prática de lutas na escola. Retratos da Escola, v. 14, n. 28, 2020.

RABELO, Ana Carolina Correia da Silva; ANTUNEZ, Bruno Fernandes. Não sou “faixa-preta”, e agora? Uma proposta didática sistematizada para as lutas no Ensino Fundamental. Corpoconsciência, v. 29, 2025.

SANTOS, Sérgio Luiz Carlos dos; NUNES, Jacqueline da Silva. Jogos de oposição: inovação pedagógica para o ensino das lutas na Educação Física escolar. Horizontes — Revista de Educação, v. 9, n. 16, 2020.

SOARES, Mariana de Souza; CÂMARA, Helder Cavalcante. Os jogos de oposição como alternativa pedagógica para o conteúdo lutas. REDFOCO, v. 10, n. 1, 2023.


Aula 2 — Distâncias, movimentos e princípios das lutas

 

Quando observamos diferentes lutas, percebemos rapidamente que elas não acontecem todas da mesma maneira. Em algumas, os participantes permanecem muito próximos e utilizam agarramentos, controles e desequilíbrios. Em outras, precisam manter certa distância para tocar ou atingir um alvo. Há ainda práticas em que a relação entre os oponentes ocorre por meio de implementos.

Compreender essas diferenças é especialmente útil na escola porque permite ensinar princípios das lutas antes de aprofundar modalidades específicas. O professor não precisa apresentar dezenas de técnicas isoladas. Pode organizar experiências nas quais os estudantes compreendam distância, equilíbrio, deslocamento, ataque, defesa, percepção do adversário e tomada de decisão.

A literatura brasileira sobre pedagogia das lutas apresenta justamente a classificação pela distância como uma possibilidade para

sistematizar esse conteúdo. Estudos descrevem três grandes situações — curta, média e longa distância — que ajudam o professor a identificar características comuns entre diferentes práticas.

O que significa distância nas lutas?

Distância não significa simplesmente medir quantos centímetros existem entre duas pessoas. Nas lutas, ela está relacionada às possibilidades de ação disponíveis em determinado momento.

Imagine dois estudantes posicionados a vários passos um do outro. Nessa situação, um participante dificilmente conseguirá tocar o colega diretamente com a mão. Para isso, precisará aproximar-se.

Se ambos estão muito próximos, o problema muda. Agora podem aparecer ações de contato corporal, controle de espaço e equilíbrio.

A distância, portanto, influencia aquilo que cada participante pode fazer.

Por isso, aprender a lutar também envolve perceber quando se aproximar, quando se afastar e como modificar a própria posição em relação ao oponente. Mesmo em atividades escolares bastante simples, essa percepção pode ser trabalhada sem necessidade de golpes ou técnicas complexas.

Curta distância

Nas classificações utilizadas pela literatura pedagógica das lutas, a curta distância está relacionada principalmente às situações de contato corporal mais próximo, nas quais podem aparecer agarramentos e ações destinadas a controlar, desequilibrar ou imobilizar o adversário. O judô é frequentemente apresentado como exemplo desse grupo.

Na escola, entretanto, trabalhar curta distância não significa necessariamente ensinar projeções ou quedas.

É possível explorar o princípio por meio de atividades muito mais simples.

Dois estudantes podem ficar frente a frente com as palmas das mãos em contato. O desafio consiste em provocar um pequeno desequilíbrio no colega, fazendo com que ele movimente um dos pés, sem empurrões bruscos e sem derrubá-lo.

Depois de algumas tentativas, normalmente aparece uma descoberta importante: força não é a única solução.

A posição dos pés, a direção da pressão, o momento escolhido para agir e a reação do adversário influenciam bastante o resultado.

O professor pode então perguntar:

— O que aconteceu quando vocês colocaram os pés muito próximos?

— Foi necessário utilizar muita força?

— O que mudou quando o colega modificou sua posição?

Dessa forma, equilíbrio e desequilíbrio deixam de ser conceitos abstratos e passam a ser percebidos corporalmente.

Média distância

Nas lutas classificadas pedagogicamente como de média

distância, predominam situações nas quais o participante procura tocar ou atingir determinado alvo no adversário sem permanecer constantemente agarrado a ele. Karatê e outras modalidades baseadas em ações de toque ou percussão são exemplos frequentemente utilizados na literatura.

Na escola, essa lógica pode ser trabalhada sem executar golpes.

Um jogo simples consiste em determinar que cada participante tente tocar suavemente o ombro do colega enquanto protege os próprios ombros.

Rapidamente aparecem questões interessantes.

Se o estudante ficar longe demais, não consegue alcançar o alvo. Se chegar muito perto sem cuidado, facilita a ação do adversário.

Surge então uma distância que precisa ser constantemente ajustada.

Os estudantes começam a avançar, recuar, mudar de direção e observar os movimentos do colega. Alguns percebem que podem simular uma aproximação para provocar uma reação e somente depois tentar alcançar o objetivo.

Nesse momento, estão experimentando conceitos importantes das lutas sem precisar reproduzir uma modalidade específica.

Longa distância

A longa distância, dentro dessa classificação, está associada a práticas nas quais a interação entre os oponentes ocorre por meio de algum implemento. A esgrima é um dos exemplos utilizados na literatura para explicar essa categoria.

No contexto escolar, é indispensável adaptar qualquer experiência dessa natureza.

Não se deve improvisar utilizando objetos rígidos, pontiagudos ou capazes de causar lesões. Dependendo dos objetivos, materiais leves e seguros podem representar simbolicamente a lógica da atividade.

Também é possível trabalhar o princípio sem realizar qualquer combate. O professor pode criar jogos de alcance nos quais os estudantes utilizem materiais apropriados para compreender como um implemento modifica a distância entre os participantes.

A questão pedagógica pode ser:

— Se o alcance aumentou, o que aconteceu com a distância considerada segura?

Os estudantes percebem que a presença de um objeto modifica as possibilidades de ataque e defesa.

A classificação não é uma regra absoluta

A divisão entre curta, média e longa distância é útil para ensinar, mas não deve ser interpretada como uma classificação rígida capaz de explicar todas as características de todas as lutas.

Uma mesma modalidade pode apresentar situações diferentes ao longo de sua prática.

A própria literatura chama atenção para esse limite: classificar pelas distâncias ajuda a reunir e compreender

diferentes práticas, mas pode simplificar características específicas de cada modalidade.

Por isso, essa classificação funciona melhor como ferramenta pedagógica.

Para o estudante iniciante, ela ajuda a responder perguntas como: os participantes precisam estar próximos? Existe agarramento? O objetivo envolve tocar um alvo? Há algum implemento entre os oponentes?

Depois dessa compreensão inicial, cada manifestação pode ser estudada com maior profundidade.

Os princípios comuns às lutas

Apesar da enorme diversidade existente entre modalidades e manifestações culturais, pesquisadores identificaram características que aparecem de maneira recorrente nas situações de luta.

Entre elas estão contato proposital, fusão entre ataque e defesa, imprevisibilidade, existência de oponente ou alvo e presença de regras. Esses elementos são apresentados na literatura como princípios condicionais das lutas.

Conhecer esses princípios ajuda a entender por que determinadas atividades podem ser utilizadas pedagogicamente para introduzir as lutas.

Não é necessário que um jogo seja uma reprodução completa de judô, karatê ou outra modalidade. Ele pode apresentar problemas de oposição que permitam compreender princípios comuns a diferentes práticas.

Ataque e defesa não vivem separados

Em algumas atividades tradicionais de ensino, primeiro se aprende um ataque e depois uma defesa. Nas situações reais de oposição, porém, essa separação nem sempre acontece de maneira tão clara.

Enquanto um participante procura atacar, também precisa preocupar-se com a possibilidade de ser atacado.

Imagine novamente o jogo em que cada estudante tenta tocar o ombro do adversário.

Ao avançar rapidamente para tocar o colega, o participante também pode deixar seu próprio ombro desprotegido.

Isso significa que uma mesma decisão apresenta consequências ofensivas e defensivas.

Essa característica é chamada na literatura de fusão ataque/defesa e aparece entre os princípios comuns das lutas.

Pedagogicamente, isso é muito rico porque obriga o estudante a pensar além do próprio movimento.

Ele precisa considerar também aquilo que o outro pode fazer.

A imprevisibilidade transforma movimento em estratégia

Se o professor determinar exatamente tudo o que acontecerá — “você avança, ele recua; depois você toca e ele bloqueia” — existe uma sequência motora, mas pouca tomada de decisão.

Nas lutas, o adversário possui intenção própria.

Ele pode aproximar-se quando você esperava que recuasse. Pode

defender de maneira diferente ou mudar rapidamente sua estratégia.

Essa imprevisibilidade também é considerada um princípio característico das lutas.

Na escola, o professor pode explorá-la progressivamente.

Primeiro, os estudantes experimentam movimentos simples. Depois, recebem maior liberdade para decidir quando atacar, defender ou deslocar-se.

Quanto maior a autonomia do oponente, maior a necessidade de observar, interpretar e decidir.

Deslocamento: mover-se com uma finalidade

Deslocar-se durante uma luta não significa simplesmente correr de um lado para outro.

Cada movimento modifica a relação com o adversário.

Avançar pode permitir alcançar um alvo. Recuar pode dificultar o ataque do oponente. Um movimento lateral pode criar uma nova possibilidade de ação.

Por isso, o deslocamento deve estar relacionado à estratégia.

Uma atividade simples pode demonstrar esse princípio. Em duplas, um estudante tenta manter determinada distância do colega enquanto este procura aproximar-se. Depois, os papéis são invertidos.

Não existe golpe, queda ou agarramento.

Mesmo assim, os estudantes começam a perceber velocidade, direção, espaço e antecipação.

O professor pode perguntar:

— Foi mais fácil aproximar-se em linha reta?

— O que aconteceu quando o colega mudou de direção?

— Quem controlava a distância?

Essas perguntas ajudam a transformar movimento em conhecimento.

Equilíbrio e base corporal

Equilíbrio é outro elemento importante.

A maneira como os pés estão posicionados interfere na capacidade de deslocar-se, resistir a uma ação e modificar rapidamente a direção do movimento.

Uma base excessivamente fechada pode dificultar a estabilidade. Uma posição exageradamente ampla também pode limitar o deslocamento.

O interessante é permitir que os estudantes descubram essas relações.

Em vez de fornecer imediatamente uma posição considerada ideal, o professor pode propor pequenas experiências e perguntar:

— Em qual posição você se sentiu mais estável?

— Qual permitiu movimentar-se mais rapidamente?

O estudante começa a compreender o próprio corpo por meio da comparação entre diferentes situações.

Oponente e alvo

Nas lutas existe sempre uma relação com alguém que interfere diretamente na ação.

O oponente não é um objeto parado.

Ele observa, reage e tenta alcançar seu próprio objetivo.

Essa característica modifica completamente a atividade.

Tocar um cone é diferente de tentar tocar um alvo protegido por outra pessoa. No segundo caso, o alvo muda

de tentar tocar um alvo protegido por outra pessoa. No segundo caso, o alvo muda de posição, afasta-se e cria estratégias.

Por isso, a presença de oponente/alvo também aparece entre os princípios condicionais utilizados para caracterizar as lutas.

Na escola, essa ideia permite criar inúmeras situações-problema sem necessidade de técnicas complexas.

As regras dão sentido à oposição

Se dois estudantes recebem apenas a orientação “tentem vencer”, dificilmente haverá uma experiência pedagógica adequada.

É necessário definir como o objetivo pode ser alcançado.

As regras determinam ações permitidas, ações proibidas, espaço, duração, formas de pontuação e condições de interrupção.

Elas também modificam estratégias.

Se o professor aumenta o espaço, os deslocamentos podem ganhar importância. Se reduz o tamanho do alvo, a precisão passa a ser mais exigida. Se proíbe determinado tipo de contato, os estudantes precisam encontrar outra solução.

Assim, regras não servem apenas para controlar comportamento. Elas ajudam a construir o próprio problema que será resolvido.

A presença de regras é justamente um dos princípios utilizados pela literatura para diferenciar as lutas de outras situações de oposição corporal.

Estratégia antes da força

Quando as atividades são bem-organizadas, os estudantes começam a perceber que força física é apenas uma das variáveis possíveis — e muitas vezes nem é a principal.

Distância, velocidade, equilíbrio, percepção e antecipação podem modificar completamente uma situação.

Um estudante menor pode evitar uma aproximação utilizando deslocamentos. Outro pode esperar o adversário agir para encontrar uma oportunidade. Um terceiro pode modificar rapidamente a direção.

Esse tipo de experiência ajuda a tornar a aula mais inclusiva porque amplia as possibilidades de sucesso.

O objetivo deixa de ser descobrir quem é “mais forte” e passa a ser compreender quem encontrou uma estratégia adequada para determinado problema.

Relação com a BNCC

Essa abordagem possui relação direta com aquilo que a BNCC estabelece para o ensino das lutas.

Para o 6º e 7º anos, por exemplo, a habilidade EF67EF15 determina que os estudantes planejem e utilizem estratégias básicas das lutas do Brasil, respeitando o colega como oponente. A habilidade EF67EF16 prevê identificar características dessas práticas, incluindo seus elementos técnico-táticos.

Isso reforça que o ensino escolar não deve limitar-se à repetição de movimentos.

O estudante precisa

experimentar, pensar, comparar estratégias e compreender a lógica das situações de oposição.

Pesquisas realizadas no Ensino Fundamental mostram que princípios das lutas e classificações relacionadas ao contato e à distância podem ser trabalhados por meio de jogos, criando possibilidades concretas para abordar o conteúdo na escola.

O papel do professor

O professor não precisa oferecer todas as respostas antes da experiência.

Sua função também é criar boas perguntas.

Depois de uma atividade, pode questionar:

— Por que vocês se aproximaram?

— Quando perceberam que era melhor recuar?

— Como protegeram o alvo?

— O que aconteceu quando perderam o equilíbrio?

— Qual estratégia funcionou melhor e por quê?

Essa maneira de ensinar valoriza a participação do estudante e transforma a prática corporal em objeto de reflexão. Estudos sobre metodologia da Educação Física escolar destacam justamente princípios como interação, problematização, diversidade de experiências, autonomia e articulação das dimensões conceitual, procedimental e atitudinal.

Conclusão

Compreender as lutas pelas distâncias e por seus princípios comuns ajuda o estudante a enxergar algo que não é tão evidente quando observamos apenas golpes e técnicas.

Por trás dos movimentos existem problemas que precisam ser resolvidos.

A curta distância apresenta desafios relacionados ao contato, controle e equilíbrio. A média distância exige administrar aproximação, afastamento, toque e proteção. A longa distância modifica a relação entre os participantes pela utilização de implementos. Essa classificação é uma ferramenta pedagógica e não uma divisão absoluta das modalidades.

Em todas essas situações aparecem elementos como oponente, regras, imprevisibilidade e relação constante entre ataque e defesa.

Para o professor iniciante, essa perspectiva possui uma vantagem importante: antes de ensinar uma coleção de técnicas, é possível ensinar os estudantes a compreender a lógica das lutas.

Quando eles percebem distância, equilíbrio, deslocamento, tempo e estratégia, deixam de apenas reproduzir movimentos. Começam a entender por que determinadas ações fazem sentido diante de um oponente — e essa compreensão constitui uma base importante para avançar no estudo das diferentes manifestações de luta.

Referências bibliográficas

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: Educação é a Base. Brasília: MEC, 2018.

GOMES, Mariana Simões Pimentel; MORATO, Márcio Pereira; DUARTE, Edison;

ALMEIDA, José Júlio Gavião de. Ensino das lutas: dos princípios condicionais aos grupos situacionais. Movimento, Porto Alegre, v. 16, n. 2, 2010.

LOPES, Raphael Gregory Bazílio; KERR, Tiemi Okimura. O ensino das lutas na Educação Física escolar: uma experiência no Ensino Fundamental. Motrivivência, Florianópolis, v. 27, n. 45, 2015.

NASCIMENTO, Paulo Rogério Barbosa. Organização e trato pedagógico do conteúdo de lutas na Educação Física escolar. Motrivivência, Florianópolis, n. 31, 2008.

RUFINO, Luiz Gustavo Bonatto; DARIDO, Suraya Cristina. Pedagogia do esporte e das lutas: em busca de aproximações. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, São Paulo, v. 26, n. 2, 2012.

RUFINO, Luiz Gustavo Bonatto; DARIDO, Suraya Cristina. O ensino das lutas nas aulas de Educação Física: análise da prática pedagógica à luz de especialistas. Revista da Educação Física/UEM, Maringá, v. 26, n. 4, 2015.

LIMA, George Almeida; FABIANI, Débora Jaqueline Farias. Reflexões sobre o ensino das lutas na escola a partir das dimensões do conteúdo: uma revisão integrativa. Motrivivência, Florianópolis, v. 35, 2023.


Aula 3 — Segurança, regras e organização das atividades

 

Ensinar lutas na escola exige planejamento cuidadoso. Mesmo uma atividade aparentemente simples pode gerar situações de risco quando o espaço não é adequado, as regras não estão claras ou os estudantes entendem o desafio como uma oportunidade para demonstrar força.

Por isso, a segurança não deve aparecer apenas depois que um problema acontece. Ela precisa estar presente antes, durante e depois da atividade, fazendo parte do próprio processo de aprendizagem.

A BNCC reforça essa perspectiva. Para os 6º e 7º anos, a habilidade EF67EF14 determina que os estudantes experimentem e recriem diferentes lutas do Brasil valorizando a própria segurança e integridade física e também a dos demais. A habilidade EF67EF15 acrescenta a utilização de estratégias básicas respeitando o colega como oponente.

Isso mostra que segurança, respeito e aprendizagem das lutas não são aspectos separados. Na escola, devem caminhar juntos.

Segurança começa no planejamento

Antes de pensar no primeiro movimento da aula, o professor precisa observar onde e como a atividade será realizada.

O piso é adequado? Existem buracos, paredes, colunas ou objetos próximos? Há espaço suficiente para o número de participantes? Os materiais oferecem algum risco? A atividade é compatível com a idade e a experiência da turma?

Essas perguntas

parecem simples, mas evitam muitos problemas.

Em uma turma numerosa, por exemplo, colocar todos os estudantes simultaneamente em atividades de oposição pode dificultar a supervisão. Uma alternativa é organizar pequenos grupos ou estações, permitindo que parte da turma realize a atividade enquanto os demais observam, registram estratégias ou cumprem outras tarefas relacionadas à aula.

Experiências pedagógicas com lutas de oposição destacam justamente a necessidade de priorizar contato controlado e condições seguras durante as vivências.

Portanto, não existe uma atividade segura independentemente do contexto. O professor precisa analisar turma, espaço, materiais e objetivo pedagógico antes de decidir como aplicá-la.

Conhecer a turma faz diferença

Duas turmas da mesma idade podem responder de maneiras completamente diferentes a uma atividade.

Uma pode compreender rapidamente que o objetivo é solucionar um problema corporal dentro de regras. Outra pode transformar qualquer desafio em competição intensa.

Por isso, o professor precisa conhecer seus estudantes.

Se a turma ainda apresenta dificuldades para controlar a intensidade do contato, atividades com maior proximidade corporal devem ser introduzidas com cautela. Nesse momento, jogos de proteção de objetos, conquista de espaços ou toques controlados podem ser alternativas mais adequadas.

A progressão deve acompanhar a capacidade dos estudantes de respeitar regras e cuidar do colega.

A experiência relatada por Amaral, Santos e Souza, realizada com estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental, utilizou jogos de oposição e práticas inspiradas em manifestações como capoeira e huka-huka, priorizando segurança e contato controlado. Os autores observaram avanços na participação e na compreensão das lutas.

Isso reforça uma ideia importante: aumentar a complexidade não significa aumentar o risco.

Regras precisam ser claras

Imagine que o professor diga apenas:

— Tentem pegar a fita do colega.

Para um estudante, isso pode significar utilizar velocidade. Para outro, agarrar a roupa. Um terceiro pode interpretar que empurrar também é permitido.

Quando as regras não estão claras, cada participante cria sua própria versão da atividade.

Antes de iniciar, portanto, é necessário explicar o objetivo e definir os limites.

No jogo da fita, por exemplo, pode ser permitido retirar apenas a fita presa lateralmente à cintura. Empurrar, agarrar o corpo, puxar roupas, atingir o rosto ou derrubar o colega ficam

proibidos.

Também deve existir um sinal inequívoco de interrupção.

Quando o professor diz “parou” ou utiliza um sinal combinado, qualquer ação deve terminar imediatamente. O estudante precisa compreender que continuar depois do sinal não representa vantagem competitiva, mas descumprimento de uma regra de segurança.

Propostas metodológicas envolvendo jogos de oposição recomendam justamente delimitação do espaço, períodos controlados de atividade, sinais de início e término e definição prévia das regras de segurança.

Os alunos precisam entender por que as regras existem

Uma regra é mais facilmente respeitada quando o estudante compreende sua finalidade.

Em vez de simplesmente dizer “não pode empurrar”, o professor pode perguntar:

— O que poderia acontecer se permitíssemos empurrões fortes neste jogo?

Os próprios estudantes provavelmente identificarão problemas: alguém pode cair, atingir outro grupo ou perder o controle do movimento.

A regra ganha sentido.

Também é possível realizar uma atividade curta e posteriormente perguntar quais regras seriam necessárias para torná-la mais segura. O professor continua responsável pela decisão final, mas os estudantes participam da reflexão.

Essa estratégia ajuda a mostrar que regras não existem para diminuir a diversão. Elas tornam possível uma situação de oposição na qual todos possam participar com limites conhecidos.

Contato controlado

O contato corporal pode aparecer em diferentes lutas, mas isso não significa que toda atividade escolar precise apresentar contato intenso.

Existe uma grande diferença entre contato corporal e violência.

Um estudante pode colocar as mãos sobre as palmas do colega em um jogo de equilíbrio sem utilizar força excessiva. Pode tentar tocar suavemente determinado alvo. Pode proteger um objeto ou espaço diante da aproximação do oponente.

O importante é que a intensidade seja compatível com o objetivo.

Um erro frequente é permitir que o jogo aumente progressivamente de intensidade até que os estudantes passem a utilizar força desnecessária. O professor precisa observar essa mudança.

Quando o controle diminui, a atividade deve ser interrompida, reorganizada ou simplificada.

O relato de experiência publicado em 2026 sobre lutas de oposição na escola ressalta justamente a utilização de práticas com segurança e contato controlado, mostrando que é possível proporcionar experiências significativas sem transformar a aula em combate livre.

Organizando o espaço

O espaço

influencia diretamente a segurança.

Antes da aula, o professor deve verificar obstáculos e condições do piso. Objetos que possam provocar cortes, tropeços ou colisões precisam ser retirados ou isolados.

Também é importante estabelecer limites visíveis.

Cones, linhas da quadra ou outros marcadores podem mostrar claramente onde cada atividade acontece. Quando várias duplas trabalham simultaneamente, deve existir distância suficiente entre elas.

Esse cuidado evita que um estudante concentrado no próprio adversário colida com outra dupla.

Nos jogos de oposição, a delimitação de espaços seguros é apresentada como uma medida preventiva importante. Também são recomendados períodos relativamente curtos de atividade e sinais definidos de início e término.

O professor precisa ainda considerar o número de alunos. Um exercício que funciona perfeitamente com dez participantes pode precisar ser reorganizado para uma turma com trinta ou quarenta.

Materiais simples também precisam ser avaliados

Uma atividade escolar não precisa utilizar equipamentos sofisticados, mas qualquer material deve ser analisado antes de ser empregado.

Fitas, bolas, cordas, cones e outros objetos podem servir para criar excelentes jogos de oposição. Entretanto, o professor precisa verificar se apresentam partes cortantes, superfícies rígidas ou outras características capazes de produzir acidentes.

Nas atividades inspiradas em práticas com implementos, esse cuidado deve ser ainda maior.

Não é adequado improvisar utilizando bastões rígidos, objetos pontiagudos ou materiais inadequados apenas porque se deseja reproduzir determinada luta.

Se o recurso necessário não estiver disponível com condições adequadas de segurança, a atividade deve ser adaptada ou substituída.

O objetivo escolar é compreender princípios e experiências corporais, não reproduzir a qualquer custo uma modalidade.

Acessórios pessoais também merecem atenção

Relógios, pulseiras, brincos grandes, colares e outros acessórios podem oferecer riscos quando existe contato corporal.

Em determinadas atividades, um simples puxão involuntário pode causar lesões.

Por isso, o professor deve avaliar previamente quais objetos precisam ser retirados antes da prática e estabelecer esse procedimento como parte da rotina da aula. Recomendações metodológicas para jogos de oposição incluem justamente a retirada de objetos pessoais que possam provocar ferimentos.

O importante é transformar essa verificação em hábito, e não a realizar

apenas quando alguém se machuca.

Organizando as duplas

Formar duplas aleatoriamente nem sempre é a melhor opção.

Dependendo da atividade, diferenças muito grandes de tamanho corporal, experiência, força ou capacidade de controlar os movimentos podem aumentar dificuldades e riscos.

Isso não significa que todos os participantes precisem possuir exatamente as mesmas características. Significa que o professor deve utilizar critérios pedagógicos.

Também é recomendável variar as parcerias ao longo da sequência, evitando rótulos como “forte”, “fraco”, “bom” ou “ruim”.

O professor pode ainda adaptar objetivos conforme as características da dupla. Em determinados casos, uma atividade pode utilizar alvos maiores, espaços diferentes ou períodos menores.

O objetivo é permitir uma oposição desafiadora, mas controlável.

Começar simples é uma escolha pedagógica

Existe uma tentação de acreditar que uma aula de lutas somente será interessante se apresentar movimentos impressionantes.

Na escola, muitas vezes acontece justamente o contrário.

Uma atividade simples e bem-organizada pode produzir mais aprendizagem do que uma técnica complexa aplicada sem condições adequadas.

Para iniciantes, desafios de proteção de objetos, conquista de espaço, equilíbrio e toque controlado permitem desenvolver conceitos fundamentais com menor complexidade.

Conforme os estudantes demonstram compreensão das regras e capacidade de controlar suas ações, novos desafios podem ser acrescentados.

Pesquisas recentes continuam apontando os jogos de luta como alternativa para sistematizar esse conteúdo no Ensino Fundamental, inclusive diante das inseguranças de professores que não possuem formação especializada em modalidades específicas.

Não improvisar técnicas perigosas

Um professor não precisa ser faixa-preta para ensinar princípios introdutórios das lutas. Isso, porém, não significa que qualquer técnica possa ser improvisada.

Quedas, projeções, estrangulamentos, chaves articulares, golpes em regiões vulneráveis e outras ações potencialmente perigosas exigem conhecimentos específicos e condições apropriadas.

Se o professor não domina determinada técnica ou não dispõe de ambiente adequado para desenvolvê-la com segurança, a decisão pedagógica correta é não improvisar.

Isso não empobrece a aula.

É possível trabalhar distância, equilíbrio, ataque, defesa, estratégias, história, regras e cultura por meio de atividades adaptadas.

As dificuldades relacionadas à formação docente

aparecem de maneira recorrente nas pesquisas sobre lutas na Educação Física escolar. Em estudo realizado com professores, todos os entrevistados relataram considerar insuficiente sua formação acadêmica para sentirem segurança na aplicação desse conteúdo.

Reconhecer limites profissionais, portanto, também faz parte de uma prática responsável.

O professor precisa observar, não apenas comandar

Depois que a atividade começa, o trabalho do professor continua.

É preciso observar a intensidade dos movimentos, o cumprimento das regras, as condições emocionais dos participantes e possíveis sinais de desconforto.

Um estudante pode não dizer diretamente que está com medo, mas começar a evitar o colega ou afastar-se repetidamente. Outro pode aumentar a força porque está frustrado com o resultado.

Essas situações exigem intervenção.

Às vezes, basta conversar. Em outros momentos, será necessário trocar as duplas, modificar uma regra ou interromper completamente a atividade.

Experiências de ensino das lutas baseadas em abordagens centradas no estudante destacam a importância de considerar as respostas dos alunos durante o próprio processo de ensino e aprendizagem.

O planejamento orienta a aula, mas não substitui a observação.

Vencer não pode valer mais do que a segurança

Imagine que um estudante consiga retirar a fita do adversário, mas para isso o empurre deliberadamente.

Ele alcançou o objetivo?

Do ponto de vista pedagógico, não.

Se a regra proibia empurrar, a ação não pode ser considerada válida simplesmente porque produziu o resultado desejado.

Esse tipo de situação ajuda a ensinar uma ideia fundamental: nas lutas, a maneira como o objetivo é alcançado importa tanto quanto o resultado.

O professor deve evitar mensagens como “vale tudo para ganhar” ou elogios que valorizem exclusivamente força e superioridade.

A BNCC oferece uma orientação bastante clara nesse sentido ao relacionar a experimentação das lutas à integridade física e o desenvolvimento de estratégias ao respeito pelo colega como oponente.

Segurança também se ensina

Uma boa sequência didática deve fazer com que os estudantes assumam progressivamente responsabilidade pela segurança.

No início, o professor estabelece praticamente todos os procedimentos. Com o tempo, os próprios alunos começam a reconhecê-los.

Antes de uma atividade, o professor pode perguntar:

— O espaço está seguro?

— Quais ações não podem acontecer?

— Qual é o sinal de parada?

— O que fazemos se alguém sentir

dor?

Quando os estudantes conseguem responder e aplicar essas orientações, demonstram uma aprendizagem importante.

A segurança deixa de ser uma lista de ordens do professor e passa a constituir um conhecimento compartilhado pela turma.

Quando interromper uma atividade

Uma atividade deve ser interrompida sempre que houver perda das condições necessárias para sua realização segura.

Isso inclui força excessiva, desrespeito repetido às regras, alterações no espaço, comportamento agressivo ou qualquer situação que aumente desnecessariamente o risco.

Interromper não significa fracassar.

O professor pode reunir rapidamente a turma, identificar o problema e perguntar:

— O que precisa mudar para continuarmos?

Talvez seja necessário diminuir o espaço, trocar as duplas, modificar uma regra ou simplesmente reforçar um combinado.

Depois, a atividade pode ser retomada em condições melhores.

Essa intervenção mostra aos estudantes que segurança não é negociável.

Uma rotina simples de segurança

Para professores iniciantes, estabelecer uma pequena rotina pode facilitar bastante o trabalho.

Antes da prática, verificar espaço, materiais, acessórios e organização dos grupos.

Na explicação, apresentar objetivo, ações permitidas, ações proibidas e sinal de interrupção.

Durante a atividade, observar intensidade, deslocamentos, comportamento e cumprimento das regras.

Depois, conversar brevemente sobre o que funcionou e o que precisa ser modificado.

Esse ciclo transforma segurança em parte permanente da metodologia.

Conclusão

Ensinar lutas com segurança não significa eliminar todo desafio ou contato corporal. Significa organizar experiências nas quais o desafio seja compatível com a idade, o espaço, a experiência e as características dos estudantes.

As regras precisam ser claras, o ambiente deve ser previamente analisado e a intensidade das ações precisa permanecer sob controle. O professor também deve reconhecer seus próprios limites e evitar improvisar técnicas potencialmente perigosas.

A BNCC reforça esse entendimento ao colocar a segurança e a integridade física dos participantes entre as aprendizagens relacionadas às lutas.

Mais do que evitar acidentes, existe aqui uma aprendizagem educacional importante: cada estudante precisa compreender que suas ações interferem diretamente na segurança do outro.

Quando o aluno controla a intensidade, respeita o sinal de parada e reconhece os limites estabelecidos, não está apenas obedecendo a uma regra. Está

aprendendo responsabilidade.

É justamente essa combinação entre desafio, regras, respeito e cuidado que permite transformar uma atividade de oposição em uma experiência verdadeiramente educativa.

Referências bibliográficas

AMARAL, João Pedro de Jesus Lima; SANTOS, Vinicius da Silva; SOUZA, Suzana Alves Nogueira. Lutas de oposição no contexto da Educação Física escolar: um relato de experiência. inCORPOrAÇÃO, v. 4, n. 1, 2026.

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: Educação é a Base. Brasília: MEC, 2018.

LIMA, George Almeida. Ensino das lutas na escola: um estudo com professores de Educação Física da cidade de Campos Sales — CE. Temas em Educação Física Escolar, v. 6, n. 1, 2021.

OLIVEIRA, Gustavo Brito de; GARCIA, Anderson F.; SANTOS, Gisele F. L.; FERRI, Augusto Medalha; SILVA, Jonathan Correia da; NOGUEIRA, Matheus Zurlo; SOUZA, Vitor Hugo N. Jogos de oposição como instrumento mediador no ensino das lutas nas aulas de Educação Física. Congresso Nacional de Formação de Professores de Educação Física, Londrina, 2023.

RABELO, Ana Carolina Correia da Silva; ANTUNEZ, Bruno Fernandes. Não sou “faixa-preta”, e agora? Uma proposta didática sistematizada para as lutas no Ensino Fundamental. Corpoconsciência, v. 29, 2025.

SILVA, Jaqueline da; CARDOSO, Allana Alexandre; PEREIRA, Marcos Paulo Vaz de Campos; FARIAS, Gelcemar Oliveira. Ensino das lutas na Educação Física escolar: um relato de experiência fundamentado no ensino centrado no aprendiz. Revista Prática Docente, v. 5, n. 2, 2020.


Estudo de Caso — Módulo 2

Quando a competição ficou mais importante que a aprendizagem

 

A professora Marina havia terminado com uma turma do 7º ano uma introdução sobre o significado das lutas. Os estudantes já sabiam diferenciar luta de briga e compreendiam que o colega deveria ser tratado como oponente, e não como inimigo.

Chegara o momento de avançar para as experiências práticas.

Marina queria trabalhar três conteúdos do módulo: jogos de oposição, distância entre os participantes e segurança. A ideia parecia simples, mas uma aula mostrou como pequenos erros de planejamento podem transformar rapidamente uma atividade educativa em uma situação problemática.

A preocupação com esses aspectos encontra respaldo na própria BNCC. Para o 6º e 7º anos, a habilidade EF67EF14 prevê experimentar diferentes lutas do Brasil valorizando a própria segurança e integridade física e a dos demais; a EF67EF15 acrescenta a utilização de estratégias básicas

respeitando o colega como oponente.

O primeiro desafio

Marina organizou a turma em duplas e entregou uma fita de tecido para cada estudante. A fita deveria ser presa lateralmente à cintura.

A regra apresentada foi curta:

— Cada um deve tentar retirar a fita do colega. Quem conseguir primeiro vence.

Assim que a atividade começou, surgiram os primeiros problemas.

Alguns estudantes perceberam que poderiam usar velocidade e mudanças de direção. Outros, porém, entenderam que qualquer recurso seria válido para vencer. Começaram a segurar braços, puxar camisetas e bloquear fisicamente os colegas.

Em uma das duplas, Gabriel empurrou Rafael para conseguir alcançar sua fita. Rafael perdeu o equilíbrio e quase caiu sobre outra dupla.

Marina interrompeu a aula imediatamente.

Ninguém havia se machucado, mas ficou evidente que alguma coisa estava errada.

O primeiro erro: explicar o objetivo sem explicar os limites

A professora havia informado o que os estudantes deveriam fazer, mas não havia esclarecido como poderiam fazer.

“Retirar a fita” era o objetivo, porém faltavam regras para organizar a oposição.

Marina reuniu a turma.

— O Gabriel conseguiu pegar a fita. Então ele venceu?

Alguns responderam que sim.

Outros discordaram:

— Mas ele empurrou.

A professora aproveitou a situação:

— Então precisamos decidir uma coisa: basta alcançar o objetivo ou também importa a maneira como fazemos isso?

A discussão mudou completamente a atividade.

A turma estabeleceu novas regras: seria permitido apenas tocar e retirar a fita; agarrar o corpo ou as roupas, empurrar, derrubar ou bloquear o colega utilizando força não seria permitido. Ao sinal da professora, todos deveriam parar imediatamente.

Agora existiam objetivo e limites de ação.

A situação mostrou uma característica fundamental dos jogos de oposição: as regras não são detalhes adicionais. Elas determinam as possibilidades de ação e ajudam a organizar o próprio problema que os estudantes precisam resolver. Pesquisas sobre o ensino das lutas mostram justamente a adaptação de regras, materiais e espaços e a utilização de jogos de luta como estratégias adotadas por professores no contexto escolar.

O segundo erro: colocar todas as duplas no mesmo espaço

Depois de estabelecer as novas regras, Marina reiniciou o jogo.

Dessa vez, os estudantes controlaram melhor o contato. Entretanto, apareceu outro problema.

A quadra tinha espaço, mas as vinte duplas estavam jogando simultaneamente. Como todos se

movimentavam para proteger e conquistar as fitas, alguns estudantes começaram a entrar no espaço das duplas vizinhas.

Marina percebeu que estava tentando observar quarenta alunos ao mesmo tempo.

Decidiu interromper novamente.

Dividiu a quadra em áreas menores e organizou rodízios. Enquanto algumas duplas participavam, outros estudantes observavam e tinham uma tarefa: identificar uma estratégia utilizada pelos colegas.

Essa pequena mudança melhorou bastante a aula.

Agora Marina conseguia observar com maior atenção e os estudantes que estavam fora da disputa continuavam envolvidos na aprendizagem.

A falta de infraestrutura e de materiais aparece frequentemente nas pesquisas como dificuldade para o ensino das lutas. Entretanto, estudos também mostram que professores recorrem à adaptação de espaços, materiais e regras como estratégia para viabilizar esse conteúdo.

“Professora, ele só ganhou porque é maior”

Na terceira rodada surgiu uma nova situação.

Lucas e Henrique foram colocados juntos. Lucas era consideravelmente maior e mais forte. Em poucos segundos, conseguiu retirar a fita do colega.

Na segunda tentativa, aconteceu novamente.

Henrique reclamou:

— Não adianta. Ele é muito maior.

Lucas respondeu:

— Luta é assim. Quem é mais forte ganha.

Marina percebeu outro problema em sua organização: havia formado as duplas aleatoriamente sem considerar as características da tarefa.

Em vez de simplesmente trocar os estudantes, decidiu utilizar a situação como aprendizagem.

Perguntou à turma:

— Força é a única maneira de vencer esse jogo?

A maioria respondeu que não.

Alguns estudantes haviam conseguido bons resultados utilizando velocidade, distância, mudança de direção e antecipação.

A professora então modificou a atividade. A área de jogo aumentou um pouco, favorecendo deslocamentos, e as duplas foram reorganizadas.

Henrique passou a enfrentar um colega de características corporais mais próximas às suas. Na nova rodada, percebeu que poderia esperar o adversário aproximar-se para depois mudar rapidamente de direção.

Ele não venceu todas as disputas, mas conseguiu experimentar estratégias que antes praticamente não tinham oportunidade de aparecer.

Descobrindo a importância da distância

Na atividade seguinte, Marina colocou dois estudantes frente a frente. Cada participante deveria tentar tocar suavemente o ombro do colega enquanto protegia os próprios ombros.

Golpes não eram permitidos. O objetivo era apenas tocar.

Na primeira rodada, quase

primeira rodada, quase todos avançaram imediatamente.

Depois, Marina perguntou:

— O que acontece quando vocês chegam perto demais?

Uma estudante respondeu:

— Fica mais fácil tocar, mas também fica mais fácil ser tocado.

Essa resposta abriu caminho para trabalhar um dos princípios fundamentais das lutas: a distância modifica as possibilidades de ataque e defesa.

A professora repetiu o jogo, mas agora pediu que os estudantes prestassem atenção especificamente à aproximação e ao afastamento.

O comportamento mudou.

Alguns começaram a recuar quando percebiam o ataque. Outros faziam pequenas aproximações para provocar a reação do adversário. Alguns descobriram que avançar o tempo inteiro não era necessariamente uma boa estratégia.

Marina percebeu que poderia ensinar muito sem apresentar uma sequência pronta de golpes.

A literatura sobre o ensino das lutas defende justamente sua transformação didático-pedagógica para atender às características da população escolar e aos objetivos da Educação Física, em vez de simplesmente reproduzir os modelos tradicionais de academias ou clubes.

Quando o jogo começou a ficar agressivo

No final da aula, a professora propôs uma atividade de equilíbrio.

Em duplas, os estudantes permaneceriam frente a frente, com contato controlado pelas mãos. O objetivo era fazer o colega movimentar um dos pés da posição inicial.

A regra principal era clara: ninguém deveria ser derrubado.

No início, a atividade funcionou bem. Depois de algumas tentativas, entretanto, duas duplas começaram a aumentar progressivamente a intensidade.

Os estudantes passaram a empurrar com mais força.

Marina poderia ter esperado algum acidente para intervir. Em vez disso, parou imediatamente.

— Observem o que aconteceu. Qual era o objetivo?

— Fazer o colega mexer o pé.

— Era derrubar?

— Não.

— Então por que começamos a usar tanta força?

Um estudante respondeu:

— Porque todo mundo queria ganhar.

A professora percebeu que aquele era talvez o aprendizado mais importante da aula.

Vencer não pode mudar as regras

Marina explicou que, em uma atividade de oposição, o desejo de vencer pode aumentar a intensidade das ações. Por isso, controle também faz parte da aprendizagem.

A turma retomou a atividade, agora com uma orientação diferente:

— Tentem alcançar o objetivo utilizando a menor quantidade de força necessária.

A mudança produziu um resultado interessante.

Alguns estudantes começaram a observar melhor a posição dos pés do adversário. Outros

estudantes começaram a observar melhor a posição dos pés do adversário. Outros perceberam que alterar a direção da pressão era mais eficiente do que simplesmente aumentar a força.

O desafio deixou de ser “quem empurra mais” e passou a ser “quem compreende melhor o problema”.

A BNCC associa explicitamente o ensino das lutas à valorização da segurança e da integridade física de todos e ao respeito ao colega como oponente. Portanto, cumprir regras e controlar as próprias ações não é algo externo ao conteúdo: faz parte daquilo que o estudante deve aprender.

O medo de não ser especialista

Depois da aula, Marina conversou com outro professor.

— Acho que meu problema é não ser especialista em nenhuma luta. Talvez eu não devesse ensinar esse conteúdo.

O colega respondeu:

— Mas hoje você não ensinou uma modalidade específica. Trabalhou oposição, distância, equilíbrio, regras e estratégias.

A conversa levou Marina a pesquisar mais sobre o assunto.

Descobriu que sua insegurança não era incomum. Uma revisão de 38 estudos brasileiros identificou justamente a insegurança docente como um dos fatores importantes para a baixa inserção das lutas nas aulas de Educação Física.

Em outra pesquisa, realizada com professores do Ensino Médio do Distrito Federal, entre aqueles que trabalhavam lutas apareceram como estratégias importantes a adaptação de regras, materiais e espaços e os jogos de luta.

Marina compreendeu então uma diferença fundamental.

Não possuir graduação em uma arte marcial não significa que o professor deva improvisar técnicas que não conhece. Também não significa que precise excluir completamente as lutas de seu planejamento.

É possível trabalhar pedagogicamente princípios introdutórios, jogos, estratégias, história e cultura, desde que o professor estude o conteúdo, planeje adequadamente e reconheça os limites de sua própria formação.

Uma aula diferente

Na semana seguinte, Marina organizou a quadra antes de os estudantes chegarem.

As áreas estavam delimitadas. As regras principais foram retomadas. As atividades começaram por desafios com menor contato e avançaram progressivamente.

Antes de cada jogo, três perguntas eram respondidas:

Qual é o objetivo?

O que é permitido?

O que não é permitido?

Uma quarta pergunta foi acrescentada:

Qual é o sinal para parar?

Durante as atividades, a professora não ficou apenas dizendo quem havia vencido. Circulou entre os grupos e fez perguntas.

— Por que você recuou?

— Como conseguiu proteger seu

alvo?

— Você precisou utilizar muita força?

— O que mudou quando aumentamos o espaço?

As respostas mostraram que os estudantes estavam começando a compreender os princípios estudados.

No encerramento, Marina perguntou:

— O que foi mais importante hoje: ser forte ou saber tomar decisões?

Gabriel, o estudante que havia empurrado o colega na primeira aula, respondeu:

— Depende do jogo. Às vezes, se você usar força demais, até atrapalha.

A resposta mostrou que alguma coisa havia mudado.

Principais erros do caso e como evitá-los

Explicar apenas o objetivo do jogo. Dizer “pegue a fita” ou “tire o colega do espaço” não é suficiente. Antes da atividade, devem ficar claros objetivo, ações permitidas, ações proibidas e sinal de interrupção.

Colocar todos para jogar simultaneamente sem avaliar o espaço. Turmas grandes podem exigir rodízios, estações ou áreas delimitadas. A organização deve permitir supervisão adequada.

Formar duplas sem considerar a atividade. Diferenças corporais, experiência, controle dos movimentos e segurança precisam ser considerados. As parcerias podem variar conforme o objetivo pedagógico.

Transformar equilíbrio em disputa de força. Para iniciantes, é possível trabalhar desequilíbrio sem derrubar o colega. Fazer o adversário deslocar um pé, por exemplo, já permite compreender o princípio.

Permitir que a intensidade aumente sem intervenção. Se os estudantes começarem a utilizar força excessiva, o professor deve interromper e reorganizar imediatamente a atividade.

Valorizar apenas o vencedor. É importante observar também tomada de decisão, respeito às regras, controle corporal, estratégias e evolução individual.

Começar por técnicas complexas. Jogos de oposição permitem compreender princípios como distância, ataque, defesa e equilíbrio antes de avançar para conteúdos mais específicos.

Improvisar técnicas que o professor não domina. Reconhecer limites profissionais é uma medida de segurança. A literatura mostra que insegurança e formação insuficiente são dificuldades recorrentes entre professores que trabalham com esse conteúdo.

Reproduzir uma academia dentro da escola. A finalidade da Educação Física escolar é educacional. Pesquisas destacam a necessidade de transformar didaticamente as lutas de acordo com objetivos escolares e características dos estudantes.

Para refletir

A experiência de Marina mostrou que uma atividade de luta não se torna educativa simplesmente porque foi colocada dentro da escola.

O que transforma um

jogo de oposição em aprendizagem é a maneira como ele é planejado, acompanhado e discutido.

Uma fita presa à cintura pode ensinar ataque e defesa. Um pequeno espaço delimitado pode ensinar posicionamento. Um jogo de toque pode ensinar distância. Uma atividade com as mãos pode permitir compreender equilíbrio e desequilíbrio.

Mas existe uma condição fundamental: a segurança precisa estar acima da vitória.

Quando os estudantes entendem que devem solucionar um problema sem ultrapassar os limites estabelecidos, começam a compreender algo essencial sobre as lutas. O desafio não consiste simplesmente em superar o outro, mas em encontrar estratégias dentro de regras que preservem ambos os participantes.

Essa perspectiva está alinhada à BNCC, que associa a aprendizagem das lutas à segurança, à integridade física, à estratégia e ao respeito pelo oponente.

Assim, uma boa aula não termina necessariamente quando alguém vence. Ela termina quando os estudantes conseguem explicar o que fizeram, por que fizeram e como poderiam resolver o mesmo desafio de maneira mais eficiente e segura.

Referências bibliográficas

ALMEIDA, Maycon Ornelas; RUFINO, Luiz Gustavo Bonatto; LAZZAROTTI FILHO, Ari; BACKES, Ana Flávia; RODRIGUES, Heitor de Andrade. A prática pedagógica com as lutas na Educação Física: um retrato da formação e da realidade de ensino de professores do Ensino Médio do Distrito Federal. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, 2024.

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: Educação é a Base. Brasília: MEC, 2018.

FERREIRA, Carla da Silva; CARDOSO, Nicole Marceli Nunes. O ensino das lutas na Educação Física escolar: um estado do conhecimento de estudos brasileiros. Journal of Physical Education, v. 34, 2023.

PEREIRA, Marcos Paulo Vaz de Campos; MARINHO, Alcyane; GALATTI, Larissa Rafaela; SCAGLIA, Alcides José; FARIAS, Gelcemar Oliveira. Lutas na escola: estratégias de ensino de professores de Educação Física. Journal of Physical Education, v. 32, 2021.

RUFINO, Luiz Gustavo Bonatto; DARIDO, Suraya Cristina. O ensino das lutas nas aulas de Educação Física: análise da prática pedagógica à luz de especialistas. Revista da Educação Física/UEM, Maringá, v. 26, n. 4, 2015.

Voltar