Portal IDEA
ENSINO DAS LUTAS NA ESCOLA: FUNDAMENTOS, PRÁTICAS E BNCC
Módulo 2 —
Princípios Pedagógicos e Práticas de Lutas
Aula 1 — Jogos de oposição como estratégia de
iniciação
Ensinar lutas
para uma turma iniciante não significa começar por socos, chutes, quedas ou
técnicas complexas. No ambiente escolar, existe uma alternativa mais simples e
pedagógica: os jogos de oposição.
Esses jogos
colocam dois ou mais participantes diante de um desafio em que existe oposição
de interesses. Um estudante tenta alcançar determinado objetivo enquanto o
outro procura impedir sua ação e, ao mesmo tempo, atingir o próprio objetivo.
Tudo acontece dentro de regras previamente estabelecidas.
A proposta
permite trabalhar princípios presentes nas lutas — como ataque, defesa,
distância, equilíbrio, deslocamento, antecipação e estratégia — sem transformar
a aula em treinamento especializado de uma modalidade.
Pesquisas
realizadas no contexto escolar apontam os jogos de oposição como recurso
relevante para introduzir o conteúdo das lutas de maneira lúdica e acessível.
Uma experiência com turmas do 6º ano, por exemplo, identificou que esses jogos
possibilitaram introduzir elementos e movimentos de diferentes lutas, ao mesmo
tempo em que favoreceram reflexões sobre atitudes e valores.
O que são jogos de
oposição?
Em termos
simples, um jogo de oposição apresenta um problema corporal que precisa ser
resolvido diante da ação de outra pessoa.
Imagine dois
estudantes segurando uma bola. Cada um tenta conquistar a posse do objeto sem
utilizar movimentos bruscos ou perigosos. Os participantes precisam perceber a
força utilizada pelo colega, modificar sua posição e decidir quando agir.
Em outra
atividade, dois alunos possuem fitas presas à cintura. Cada participante tenta
retirar a fita do colega enquanto protege a própria.
Apesar de não
reproduzirem necessariamente uma modalidade específica, essas situações
apresentam características das lutas. Existe um adversário, um objetivo,
regras, tomada de decisão e interação constante entre ataque e defesa.
A literatura da
área considera justamente os jogos de oposição uma possibilidade para trabalhar
lutas de maneira lúdica e pedagogicamente orientada. Revisões sobre o tema
apontam que essa estratégia pode contribuir para enfrentar dificuldades
frequentemente mencionadas pelos professores, como falta de experiência
específica com modalidades de luta, preconceitos relacionados ao conteúdo e
limitações de estrutura e materiais.
Por que
começar
pelo jogo?
Para quem está
iniciando, aprender por meio de jogos possui uma vantagem importante: o
estudante pode descobrir soluções antes de receber respostas prontas.
Suponha que o
objetivo seja tocar o joelho do colega sem deixar que o próprio joelho seja
tocado. Depois de algumas tentativas, os estudantes começam naturalmente a
modificar suas ações.
Um deles mantém
maior distância. Outro utiliza movimentos rápidos de aproximação e afastamento.
Um terceiro espera o adversário atacar para responder.
Nesse momento
aparecem conhecimentos importantes: distância, tempo de reação, proteção,
ataque, defesa e antecipação.
O professor não
precisou começar explicando detalhadamente cada conceito. O próprio problema
apresentado pelo jogo criou uma necessidade de aprendizagem.
Estudos sobre
jogos de oposição destacam justamente seu potencial como estratégia de
iniciação às lutas, permitindo trabalhar situações-problema, ludicidade e
princípios do confronto dentro de condições pedagógicas adaptadas à escola.
Ataque e defesa
acontecem juntos
Uma
característica interessante das lutas é que ataque e defesa estão
constantemente relacionados.
Quando um
estudante tenta retirar a fita presa à cintura do adversário, por exemplo,
precisa aproximar-se para atacar. Ao fazer isso, porém, pode deixar sua própria
fita mais exposta.
Ele precisa tomar
uma decisão: atacar agora ou esperar?
Essa pergunta
simples apresenta um princípio fundamental das lutas. Toda ação modifica a
situação e pode criar oportunidades tanto para quem ataca quanto para quem
defende.
Por isso, o
professor pode evitar atividades nas quais os alunos apenas repetem movimentos
mecanicamente. O jogo deve apresentar algum grau de incerteza.
Se o estudante
sabe exatamente o que o colega fará, existe pouca necessidade de tomar
decisões. Quando ambos possuem possibilidades de ação, surge o problema
estratégico.
Jogos de conquista
de objeto
Uma categoria
bastante acessível para iniciação envolve a conquista ou proteção de objetos.
Um exemplo é o jogo
da fita. Cada participante coloca uma fita de tecido presa lateralmente à
cintura. O objetivo é retirar a fita do adversário e proteger a própria.
Antes de começar,
algumas regras precisam ser estabelecidas: não empurrar, não agarrar roupas ou
partes do corpo, não atingir o rosto e interromper imediatamente a atividade ao
sinal do professor.
Apesar da
simplicidade, o jogo permite explorar vários conceitos.
O estudante precisa observar o
adversário, proteger um alvo, movimentar-se e escolher o
momento de atacar. Depois de algumas rodadas, o professor pode perguntar:
— O que funcionou
melhor?
As respostas
podem revelar diferentes estratégias.
“Esperei ele
chegar perto.”
“Protegi a fita
com meu corpo.”
“Fingi que ia
para um lado e fui para o outro.”
A discussão ajuda
os estudantes a perceber que não estavam simplesmente correndo para pegar uma
fita. Estavam elaborando estratégias de oposição.
Jogos de conquista
de espaço
Outra
possibilidade envolve espaço ou território.
O professor pode
delimitar pequenos círculos ou áreas no chão. Em vez de simplesmente determinar
que um participante deve “empurrar o outro para fora”, o que pode aumentar
desnecessariamente a intensidade física, é possível criar versões mais
controladas.
Por exemplo, cada
estudante precisa proteger uma pequena área enquanto o adversário tenta tocar
determinado ponto dentro dela. Outra possibilidade é utilizar objetos que
precisam ser protegidos ou conquistados.
O objetivo é
trabalhar posicionamento, deslocamento e percepção espacial.
O professor pode
modificar o tamanho do espaço e perguntar aos estudantes o que mudou.
Em uma área
pequena, aproximar-se pode ser inevitável. Em uma área maior, deslocamento e
velocidade podem assumir maior importância.
A própria
modificação do jogo torna-se, portanto, uma ferramenta didática.
Jogos de equilíbrio
e desequilíbrio
Equilíbrio e
desequilíbrio aparecem em diferentes manifestações de luta e também podem ser
trabalhados de maneira introdutória.
Uma atividade
simples pode ser realizada com os estudantes posicionados frente a frente,
mantendo contato controlado pelas mãos. O objetivo não precisa ser derrubar o
colega. Pode ser apenas fazê-lo deslocar um dos pés da posição inicial.
Essa pequena
alteração é importante.
Para um
iniciante, especialmente em ambiente escolar, não há necessidade de começar
tentando projetar alguém ao chão. O princípio do desequilíbrio pode ser
compreendido por meio de desafios muito mais simples.
O estudante
percebe que força não é a única possibilidade. Alterar a direção da pressão,
modificar a base corporal ou aproveitar o movimento do colega pode produzir
resultados diferentes.
Assim, o jogo
favorece a descoberta.
Jogos de toque e
esquiva
Também é possível
trabalhar atividades nas quais o objetivo consiste em tocar determinados alvos
permitidos no corpo do adversário.
O professor pode determinar, por exemplo, que somente os ombros
sejam utilizados como alvo. Os
participantes precisam tentar tocar suavemente o ombro do colega enquanto
protegem os próprios.
Não há golpes.
O objetivo é
explorar aproximação, afastamento, esquiva, velocidade de reação e proteção.
O professor deve
definir previamente quais regiões podem ser tocadas e deixar claro que tocar
não significa golpear.
Essa distinção é
essencial. Quanto mais claro for o objetivo, menor a possibilidade de o jogo
transformar-se em uma disputa de força.
O problema vem
antes da técnica
Uma das maiores
contribuições dos jogos de oposição está na possibilidade de apresentar
problemas que exigem soluções.
Em vez de começar
dizendo:
“Façam este
movimento.”
O professor pode
perguntar:
“Como vocês podem
proteger esse espaço sem agarrar o adversário?”
Depois da
primeira tentativa, outra pergunta:
“O que vocês
fariam diferente?”
Os estudantes
experimentam, erram, observam e tentam novamente.
Essa abordagem
não significa que o professor nunca possa ensinar movimentos ou conceitos.
Significa apenas que a técnica deixa de aparecer como um gesto isolado e passa
a responder a uma necessidade surgida na situação.
Experiências
pedagógicas com jogos de oposição mostram que estratégias baseadas na dinâmica
e nas regras dos jogos podem favorecer a introdução de elementos presentes em
diferentes lutas.
O papel das regras
Em um jogo de
oposição, as regras não servem apenas para determinar quem ganhou.
Elas organizam a
aprendizagem.
Se o professor
determina que não é permitido agarrar, os estudantes precisam descobrir outras
maneiras de solucionar o problema. Se modifica o espaço, novas estratégias
aparecem. Se altera o alvo, ataque e defesa também precisam mudar.
Assim, mudar uma
regra significa mudar o problema apresentado aos alunos.
As regras também
são fundamentais para garantir segurança. Uma experiência recente realizada com
estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental utilizou jogos de oposição e
práticas inspiradas em diferentes manifestações de luta, priorizando contato controlado
e segurança. O relato apontou melhora na participação e na compreensão
conceitual das lutas pelos estudantes.
Segurança vem antes
da competição
Uma atividade
deixa de cumprir sua finalidade pedagógica quando vencer passa a ser mais
importante do que preservar o colega.
Antes de iniciar qualquer jogo de oposição, o professor deve explicar claramente as ações permitidas e proibidas. Também precisa estabelecer um sinal de interrupção
conhecido por todos.
Se alguém sentir
dor ou desconforto, a atividade deve ser interrompida.
A intensidade
precisa ser compatível com a idade e com a experiência dos participantes. Jogos
que envolvem quedas, projeções, estrangulamentos, golpes ou outras técnicas
potencialmente perigosas não devem ser improvisados.
A própria BNCC
relaciona diretamente o ensino das lutas à segurança. Para o 6º e 7º anos, por
exemplo, a habilidade EF67EF14 estabelece a experimentação das lutas do Brasil
valorizando a própria segurança e integridade física e também a dos demais. A
habilidade EF67EF15 acrescenta o planejamento e a utilização de estratégias
básicas respeitando o colega como oponente.
Do simples para o
complexo
Para iniciantes,
uma boa sequência pode começar com pouca oposição e avançar gradualmente.
Primeiro, podem
aparecer atividades de proteção de objetos e conquista de espaços. Depois,
jogos de toque e esquiva. Posteriormente, conforme a turma demonstra
compreensão das regras e capacidade de controlar os movimentos, podem ser
introduzidas situações com maior interação.
Essa progressão
permite ao professor observar como os estudantes respondem.
Se a turma ainda
transforma qualquer desafio em uma disputa de força, provavelmente não é o
momento de aumentar a complexidade ou o contato físico.
Progredir não
significa tornar a atividade mais agressiva. Significa aumentar gradualmente a
quantidade de problemas que os estudantes precisam resolver.
Nem todo mundo
precisa jogar da mesma maneira
As turmas
escolares são diversas. Existem estudantes mais rápidos, mais fortes, mais
tímidos, mais experientes e outros que nunca participaram de uma atividade
semelhante.
Por isso, o mesmo
jogo pode precisar de adaptações.
Um estudante
desconfortável com contato corporal pode inicialmente participar de uma
atividade de conquista de objeto. Outro pode realizar uma tarefa com espaço
maior. Também é possível modificar duração, quantidade de participantes e
objetivos.
A adaptação não
diminui o valor pedagógico da atividade.
Pelo contrário,
permite que mais estudantes tenham condições reais de aprender.
O professor
também deve evitar organizar permanentemente as atividades de maneira que
apenas os mais fortes ou habilidosos obtenham sucesso. Estratégia, percepção,
controle corporal e tomada de decisão precisam ser valorizados.
Conversar depois de
jogar
Uma parte
importante da aprendizagem acontece depois da experiência corporal.
Após algumas rodadas, o professor
pode reunir rapidamente a turma e perguntar:
— Qual estratégia
funcionou?
— O que
dificultou o ataque?
— O que aconteceu
quando vocês ficaram muito próximos?
— Foi necessário
usar muita força?
— Como vocês
protegeram o próprio alvo?
Essas perguntas
ajudam os estudantes a transformar experiência em conhecimento.
Uma pesquisa
desenvolvida com turmas do 6º ano identificou que os jogos de oposição
favoreceram reflexões dos estudantes em rodas de conversa e outras atividades,
além da introdução de elementos relacionados a diferentes lutas.
Portanto, jogar e
conversar não são momentos separados. Ambos fazem parte da aula.
O professor não
precisa transformar a escola em academia
Uma dificuldade
frequente entre professores é acreditar que somente alguém especializado em uma
modalidade pode abordar lutas.
Os jogos de
oposição ajudam justamente a ampliar as possibilidades pedagógicas.
Uma proposta
didática publicada recentemente destaca que jogos de luta podem contribuir para
enfrentar inseguranças docentes relacionadas às lacunas de formação específica.
Isso não elimina a necessidade de estudo e planejamento, mas mostra que o
ensino escolar pode partir de princípios gerais das lutas, sem depender
exclusivamente da reprodução de técnicas especializadas.
O professor
precisa conhecer aquilo que propõe, compreender seus riscos e reconhecer seus
próprios limites.
Quando não domina
uma técnica potencialmente perigosa, não deve improvisá-la.
No ambiente
escolar, muitas aprendizagens importantes podem acontecer com atividades
simples, materiais acessíveis e regras bem construídas.
Conclusão
Os jogos de
oposição oferecem uma porta de entrada interessante para o ensino das lutas
porque transformam seus princípios em problemas acessíveis aos estudantes.
Proteger um
objeto, conquistar um espaço, tocar um alvo, manter o equilíbrio ou evitar uma
aproximação podem parecer tarefas simples. Entretanto, dentro delas aparecem
elementos importantes das lutas: ataque, defesa, distância, equilíbrio,
antecipação, tomada de decisão e estratégia.
Pesquisas
brasileiras têm apontado justamente o potencial dos jogos como recurso para
tematizar as lutas na Educação Física escolar, especialmente por sua ludicidade
e capacidade de adaptar o conteúdo ao contexto educacional.
Para o professor
iniciante, uma ideia pode orientar todo o planejamento: o objetivo não é
descobrir quem consegue vencer o colega, mas criar situações nas quais ambos
possam aprender com a oposição.
Quando regras,
segurança, desafio e reflexão caminham juntos, o jogo deixa de ser apenas uma
brincadeira e se transforma em uma estratégia pedagógica para compreender as
lutas.
Referências
bibliográficas
AMARAL, João
Pedro de Jesus Lima; SANTOS, Vinicius da Silva; SOUZA, Suzana Alves Nogueira. Lutas
de oposição no contexto da Educação Física escolar: um relato de experiência.
inCORPOrAÇÃO, v. 4, n. 1, 2026.
BRASIL.
Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: Educação é a Base.
Brasília: MEC, 2018.
COSTA, João
Augusto Galvão Rosa; TERRA, Dinah Vasconcellos. A Educação Física nos anos
finais do Ensino Fundamental: desafios, experiências e possibilidades para o
ensino das lutas na escola. Educação, Ciência e Cultura, v. 25, n. 2, 2020.
PEREIRA, Marcos
Paulo Vaz de Campos; MARINHO, Alcyane; FOLLE, Alexandra; MOTA, Íris Dantas da;
FARIAS, Gelcemar Oliveira. Jogo como estratégia de ensino: tematizando a
prática de lutas na escola. Retratos da Escola, v. 14, n. 28, 2020.
RABELO, Ana
Carolina Correia da Silva; ANTUNEZ, Bruno Fernandes. Não sou “faixa-preta”,
e agora? Uma proposta didática sistematizada para as lutas no Ensino
Fundamental. Corpoconsciência, v. 29, 2025.
SANTOS, Sérgio
Luiz Carlos dos; NUNES, Jacqueline da Silva. Jogos de oposição: inovação
pedagógica para o ensino das lutas na Educação Física escolar. Horizontes —
Revista de Educação, v. 9, n. 16, 2020.
SOARES, Mariana
de Souza; CÂMARA, Helder Cavalcante. Os jogos de oposição como alternativa
pedagógica para o conteúdo lutas. REDFOCO, v. 10, n. 1, 2023.
Aula 2 —
Distâncias, movimentos e princípios das lutas
Quando observamos
diferentes lutas, percebemos rapidamente que elas não acontecem todas da mesma
maneira. Em algumas, os participantes permanecem muito próximos e utilizam
agarramentos, controles e desequilíbrios. Em outras, precisam manter certa
distância para tocar ou atingir um alvo. Há ainda práticas em que a relação
entre os oponentes ocorre por meio de implementos.
Compreender essas
diferenças é especialmente útil na escola porque permite ensinar princípios
das lutas antes de aprofundar modalidades específicas. O professor não
precisa apresentar dezenas de técnicas isoladas. Pode organizar experiências
nas quais os estudantes compreendam distância, equilíbrio, deslocamento,
ataque, defesa, percepção do adversário e tomada de decisão.
A literatura brasileira sobre pedagogia das lutas apresenta justamente a classificação pela distância como uma possibilidade para
sistematizar esse conteúdo. Estudos
descrevem três grandes situações — curta, média e longa distância — que ajudam
o professor a identificar características comuns entre diferentes práticas.
O que significa
distância nas lutas?
Distância não
significa simplesmente medir quantos centímetros existem entre duas pessoas.
Nas lutas, ela está relacionada às possibilidades de ação disponíveis em
determinado momento.
Imagine dois
estudantes posicionados a vários passos um do outro. Nessa situação, um
participante dificilmente conseguirá tocar o colega diretamente com a mão. Para
isso, precisará aproximar-se.
Se ambos estão
muito próximos, o problema muda. Agora podem aparecer ações de contato
corporal, controle de espaço e equilíbrio.
A distância,
portanto, influencia aquilo que cada participante pode fazer.
Por isso,
aprender a lutar também envolve perceber quando se aproximar, quando se afastar
e como modificar a própria posição em relação ao oponente. Mesmo em atividades
escolares bastante simples, essa percepção pode ser trabalhada sem necessidade
de golpes ou técnicas complexas.
Curta distância
Nas
classificações utilizadas pela literatura pedagógica das lutas, a curta
distância está relacionada principalmente às situações de contato corporal
mais próximo, nas quais podem aparecer agarramentos e ações destinadas a
controlar, desequilibrar ou imobilizar o adversário. O judô é frequentemente
apresentado como exemplo desse grupo.
Na escola,
entretanto, trabalhar curta distância não significa necessariamente ensinar
projeções ou quedas.
É possível
explorar o princípio por meio de atividades muito mais simples.
Dois estudantes
podem ficar frente a frente com as palmas das mãos em contato. O desafio
consiste em provocar um pequeno desequilíbrio no colega, fazendo com que ele
movimente um dos pés, sem empurrões bruscos e sem derrubá-lo.
Depois de algumas
tentativas, normalmente aparece uma descoberta importante: força não é a única
solução.
A posição dos
pés, a direção da pressão, o momento escolhido para agir e a reação do
adversário influenciam bastante o resultado.
O professor pode
então perguntar:
— O que aconteceu
quando vocês colocaram os pés muito próximos?
— Foi necessário
utilizar muita força?
— O que mudou
quando o colega modificou sua posição?
Dessa forma,
equilíbrio e desequilíbrio deixam de ser conceitos abstratos e passam a ser
percebidos corporalmente.
Média distância
Nas lutas classificadas pedagogicamente como de média
distância, predominam
situações nas quais o participante procura tocar ou atingir determinado alvo no
adversário sem permanecer constantemente agarrado a ele. Karatê e outras
modalidades baseadas em ações de toque ou percussão são exemplos frequentemente
utilizados na literatura.
Na escola, essa
lógica pode ser trabalhada sem executar golpes.
Um jogo simples
consiste em determinar que cada participante tente tocar suavemente o ombro do
colega enquanto protege os próprios ombros.
Rapidamente
aparecem questões interessantes.
Se o estudante
ficar longe demais, não consegue alcançar o alvo. Se chegar muito perto sem
cuidado, facilita a ação do adversário.
Surge então uma
distância que precisa ser constantemente ajustada.
Os estudantes
começam a avançar, recuar, mudar de direção e observar os movimentos do colega.
Alguns percebem que podem simular uma aproximação para provocar uma reação e
somente depois tentar alcançar o objetivo.
Nesse momento, estão experimentando conceitos importantes das lutas sem precisar reproduzir uma modalidade específica.
Longa distância
A longa
distância, dentro dessa classificação, está associada a práticas nas quais
a interação entre os oponentes ocorre por meio de algum implemento. A esgrima é
um dos exemplos utilizados na literatura para explicar essa categoria.
No contexto
escolar, é indispensável adaptar qualquer experiência dessa natureza.
Não se deve
improvisar utilizando objetos rígidos, pontiagudos ou capazes de causar lesões.
Dependendo dos objetivos, materiais leves e seguros podem representar
simbolicamente a lógica da atividade.
Também é possível
trabalhar o princípio sem realizar qualquer combate. O professor pode criar
jogos de alcance nos quais os estudantes utilizem materiais apropriados para
compreender como um implemento modifica a distância entre os participantes.
A questão
pedagógica pode ser:
— Se o alcance
aumentou, o que aconteceu com a distância considerada segura?
Os estudantes
percebem que a presença de um objeto modifica as possibilidades de ataque e
defesa.
A classificação não
é uma regra absoluta
A divisão entre
curta, média e longa distância é útil para ensinar, mas não deve ser
interpretada como uma classificação rígida capaz de explicar todas as
características de todas as lutas.
Uma mesma
modalidade pode apresentar situações diferentes ao longo de sua prática.
A própria literatura chama atenção para esse limite: classificar pelas distâncias ajuda a reunir e compreender
diferentes práticas, mas pode simplificar características
específicas de cada modalidade.
Por isso, essa
classificação funciona melhor como ferramenta pedagógica.
Para o estudante
iniciante, ela ajuda a responder perguntas como: os participantes precisam
estar próximos? Existe agarramento? O objetivo envolve tocar um alvo? Há algum
implemento entre os oponentes?
Depois dessa
compreensão inicial, cada manifestação pode ser estudada com maior
profundidade.
Os princípios
comuns às lutas
Apesar da enorme
diversidade existente entre modalidades e manifestações culturais,
pesquisadores identificaram características que aparecem de maneira recorrente
nas situações de luta.
Entre elas estão contato
proposital, fusão entre ataque e defesa, imprevisibilidade, existência de
oponente ou alvo e presença de regras. Esses elementos são apresentados na
literatura como princípios condicionais das lutas.
Conhecer esses
princípios ajuda a entender por que determinadas atividades podem ser
utilizadas pedagogicamente para introduzir as lutas.
Não é necessário
que um jogo seja uma reprodução completa de judô, karatê ou outra modalidade.
Ele pode apresentar problemas de oposição que permitam compreender princípios
comuns a diferentes práticas.
Ataque e defesa não
vivem separados
Em algumas
atividades tradicionais de ensino, primeiro se aprende um ataque e depois uma
defesa. Nas situações reais de oposição, porém, essa separação nem sempre
acontece de maneira tão clara.
Enquanto um
participante procura atacar, também precisa preocupar-se com a possibilidade de
ser atacado.
Imagine novamente
o jogo em que cada estudante tenta tocar o ombro do adversário.
Ao avançar
rapidamente para tocar o colega, o participante também pode deixar seu próprio
ombro desprotegido.
Isso significa
que uma mesma decisão apresenta consequências ofensivas e defensivas.
Essa
característica é chamada na literatura de fusão ataque/defesa e aparece
entre os princípios comuns das lutas.
Pedagogicamente,
isso é muito rico porque obriga o estudante a pensar além do próprio movimento.
Ele precisa
considerar também aquilo que o outro pode fazer.
A imprevisibilidade
transforma movimento em estratégia
Se o professor
determinar exatamente tudo o que acontecerá — “você avança, ele recua; depois
você toca e ele bloqueia” — existe uma sequência motora, mas pouca tomada de
decisão.
Nas lutas, o
adversário possui intenção própria.
Ele pode aproximar-se quando você esperava que recuasse. Pode
defender de maneira
diferente ou mudar rapidamente sua estratégia.
Essa imprevisibilidade
também é considerada um princípio característico das lutas.
Na escola, o
professor pode explorá-la progressivamente.
Primeiro, os
estudantes experimentam movimentos simples. Depois, recebem maior liberdade
para decidir quando atacar, defender ou deslocar-se.
Quanto maior a
autonomia do oponente, maior a necessidade de observar, interpretar e decidir.
Deslocamento:
mover-se com uma finalidade
Deslocar-se
durante uma luta não significa simplesmente correr de um lado para outro.
Cada movimento
modifica a relação com o adversário.
Avançar pode
permitir alcançar um alvo. Recuar pode dificultar o ataque do oponente. Um
movimento lateral pode criar uma nova possibilidade de ação.
Por isso, o
deslocamento deve estar relacionado à estratégia.
Uma atividade
simples pode demonstrar esse princípio. Em duplas, um estudante tenta manter
determinada distância do colega enquanto este procura aproximar-se. Depois, os
papéis são invertidos.
Não existe golpe,
queda ou agarramento.
Mesmo assim, os
estudantes começam a perceber velocidade, direção, espaço e antecipação.
O professor pode
perguntar:
— Foi mais fácil
aproximar-se em linha reta?
— O que aconteceu
quando o colega mudou de direção?
— Quem controlava
a distância?
Essas perguntas ajudam a transformar movimento em conhecimento.
Equilíbrio e base
corporal
Equilíbrio é
outro elemento importante.
A maneira como os
pés estão posicionados interfere na capacidade de deslocar-se, resistir a uma
ação e modificar rapidamente a direção do movimento.
Uma base
excessivamente fechada pode dificultar a estabilidade. Uma posição
exageradamente ampla também pode limitar o deslocamento.
O interessante é
permitir que os estudantes descubram essas relações.
Em vez de
fornecer imediatamente uma posição considerada ideal, o professor pode propor
pequenas experiências e perguntar:
— Em qual posição
você se sentiu mais estável?
— Qual permitiu
movimentar-se mais rapidamente?
O estudante
começa a compreender o próprio corpo por meio da comparação entre diferentes
situações.
Oponente e alvo
Nas lutas existe
sempre uma relação com alguém que interfere diretamente na ação.
O oponente não é
um objeto parado.
Ele observa,
reage e tenta alcançar seu próprio objetivo.
Essa
característica modifica completamente a atividade.
Tocar um cone é diferente de tentar tocar um alvo protegido por outra pessoa. No segundo caso, o alvo muda
de tentar tocar um alvo protegido por outra pessoa. No segundo caso,
o alvo muda de posição, afasta-se e cria estratégias.
Por isso, a
presença de oponente/alvo também aparece entre os princípios
condicionais utilizados para caracterizar as lutas.
Na escola, essa
ideia permite criar inúmeras situações-problema sem necessidade de técnicas
complexas.
As regras dão
sentido à oposição
Se dois
estudantes recebem apenas a orientação “tentem vencer”, dificilmente haverá uma
experiência pedagógica adequada.
É necessário
definir como o objetivo pode ser alcançado.
As regras
determinam ações permitidas, ações proibidas, espaço, duração, formas de
pontuação e condições de interrupção.
Elas também
modificam estratégias.
Se o professor
aumenta o espaço, os deslocamentos podem ganhar importância. Se reduz o tamanho
do alvo, a precisão passa a ser mais exigida. Se proíbe determinado tipo de
contato, os estudantes precisam encontrar outra solução.
Assim, regras não
servem apenas para controlar comportamento. Elas ajudam a construir o próprio
problema que será resolvido.
A presença de
regras é justamente um dos princípios utilizados pela literatura para
diferenciar as lutas de outras situações de oposição corporal.
Estratégia antes da
força
Quando as
atividades são bem-organizadas, os estudantes começam a perceber que força
física é apenas uma das variáveis possíveis — e muitas vezes nem é a principal.
Distância,
velocidade, equilíbrio, percepção e antecipação podem modificar completamente
uma situação.
Um estudante
menor pode evitar uma aproximação utilizando deslocamentos. Outro pode esperar
o adversário agir para encontrar uma oportunidade. Um terceiro pode modificar
rapidamente a direção.
Esse tipo de
experiência ajuda a tornar a aula mais inclusiva porque amplia as
possibilidades de sucesso.
O objetivo deixa
de ser descobrir quem é “mais forte” e passa a ser compreender quem
encontrou uma estratégia adequada para determinado problema.
Relação com a BNCC
Essa abordagem
possui relação direta com aquilo que a BNCC estabelece para o ensino das lutas.
Para o 6º e 7º
anos, por exemplo, a habilidade EF67EF15 determina que os estudantes planejem e
utilizem estratégias básicas das lutas do Brasil, respeitando o colega como
oponente. A habilidade EF67EF16 prevê identificar características dessas
práticas, incluindo seus elementos técnico-táticos.
Isso reforça que
o ensino escolar não deve limitar-se à repetição de movimentos.
O estudante precisa
experimentar, pensar, comparar estratégias e compreender a lógica das
situações de oposição.
Pesquisas
realizadas no Ensino Fundamental mostram que princípios das lutas e
classificações relacionadas ao contato e à distância podem ser trabalhados por
meio de jogos, criando possibilidades concretas para abordar o conteúdo na
escola.
O papel do
professor
O professor não
precisa oferecer todas as respostas antes da experiência.
Sua função também
é criar boas perguntas.
Depois de uma
atividade, pode questionar:
— Por que vocês
se aproximaram?
— Quando
perceberam que era melhor recuar?
— Como protegeram
o alvo?
— O que aconteceu
quando perderam o equilíbrio?
— Qual estratégia
funcionou melhor e por quê?
Essa maneira de
ensinar valoriza a participação do estudante e transforma a prática corporal em
objeto de reflexão. Estudos sobre metodologia da Educação Física escolar
destacam justamente princípios como interação, problematização, diversidade de
experiências, autonomia e articulação das dimensões conceitual, procedimental e
atitudinal.
Conclusão
Compreender as
lutas pelas distâncias e por seus princípios comuns ajuda o estudante a
enxergar algo que não é tão evidente quando observamos apenas golpes e
técnicas.
Por trás dos
movimentos existem problemas que precisam ser resolvidos.
A curta distância
apresenta desafios relacionados ao contato, controle e equilíbrio. A média
distância exige administrar aproximação, afastamento, toque e proteção. A longa
distância modifica a relação entre os participantes pela utilização de
implementos. Essa classificação é uma ferramenta pedagógica e não uma divisão
absoluta das modalidades.
Em todas essas
situações aparecem elementos como oponente, regras, imprevisibilidade e relação
constante entre ataque e defesa.
Para o professor
iniciante, essa perspectiva possui uma vantagem importante: antes de ensinar
uma coleção de técnicas, é possível ensinar os estudantes a compreender a
lógica das lutas.
Quando eles percebem distância, equilíbrio, deslocamento, tempo e estratégia, deixam de apenas reproduzir movimentos. Começam a entender por que determinadas ações fazem sentido diante de um oponente — e essa compreensão constitui uma base importante para avançar no estudo das diferentes manifestações de luta.
Referências
bibliográficas
BRASIL.
Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: Educação é a Base.
Brasília: MEC, 2018.
GOMES, Mariana Simões Pimentel; MORATO, Márcio Pereira; DUARTE, Edison;
ALMEIDA, José Júlio
Gavião de. Ensino das lutas: dos princípios condicionais aos grupos
situacionais. Movimento, Porto Alegre, v. 16, n. 2, 2010.
LOPES, Raphael
Gregory Bazílio; KERR, Tiemi Okimura. O ensino das lutas na Educação Física
escolar: uma experiência no Ensino Fundamental. Motrivivência,
Florianópolis, v. 27, n. 45, 2015.
NASCIMENTO, Paulo
Rogério Barbosa. Organização e trato pedagógico do conteúdo de lutas na
Educação Física escolar. Motrivivência, Florianópolis, n. 31, 2008.
RUFINO, Luiz
Gustavo Bonatto; DARIDO, Suraya Cristina. Pedagogia do esporte e das lutas:
em busca de aproximações. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte,
São Paulo, v. 26, n. 2, 2012.
RUFINO, Luiz
Gustavo Bonatto; DARIDO, Suraya Cristina. O ensino das lutas nas aulas de
Educação Física: análise da prática pedagógica à luz de especialistas.
Revista da Educação Física/UEM, Maringá, v. 26, n. 4, 2015.
LIMA, George
Almeida; FABIANI, Débora Jaqueline Farias. Reflexões sobre o ensino das
lutas na escola a partir das dimensões do conteúdo: uma revisão integrativa.
Motrivivência, Florianópolis, v. 35, 2023.
Aula 3 — Segurança,
regras e organização das atividades
Ensinar lutas na
escola exige planejamento cuidadoso. Mesmo uma atividade aparentemente simples
pode gerar situações de risco quando o espaço não é adequado, as regras não
estão claras ou os estudantes entendem o desafio como uma oportunidade para
demonstrar força.
Por isso, a
segurança não deve aparecer apenas depois que um problema acontece. Ela precisa
estar presente antes, durante e depois da atividade, fazendo parte do
próprio processo de aprendizagem.
A BNCC reforça
essa perspectiva. Para os 6º e 7º anos, a habilidade EF67EF14 determina que os
estudantes experimentem e recriem diferentes lutas do Brasil valorizando a
própria segurança e integridade física e também a dos demais. A habilidade
EF67EF15 acrescenta a utilização de estratégias básicas respeitando o colega
como oponente.
Isso mostra que
segurança, respeito e aprendizagem das lutas não são aspectos separados. Na
escola, devem caminhar juntos.
Segurança começa no
planejamento
Antes de pensar
no primeiro movimento da aula, o professor precisa observar onde e como a
atividade será realizada.
O piso é
adequado? Existem buracos, paredes, colunas ou objetos próximos? Há espaço
suficiente para o número de participantes? Os materiais oferecem algum risco? A
atividade é compatível com a idade e a experiência da turma?
Essas perguntas
parecem simples, mas evitam muitos problemas.
Em uma turma
numerosa, por exemplo, colocar todos os estudantes simultaneamente em
atividades de oposição pode dificultar a supervisão. Uma alternativa é
organizar pequenos grupos ou estações, permitindo que parte da turma realize a
atividade enquanto os demais observam, registram estratégias ou cumprem outras
tarefas relacionadas à aula.
Experiências
pedagógicas com lutas de oposição destacam justamente a necessidade de
priorizar contato controlado e condições seguras durante as vivências.
Portanto, não
existe uma atividade segura independentemente do contexto. O professor precisa
analisar turma, espaço, materiais e objetivo pedagógico antes de decidir
como aplicá-la.
Conhecer a turma
faz diferença
Duas turmas da
mesma idade podem responder de maneiras completamente diferentes a uma
atividade.
Uma pode
compreender rapidamente que o objetivo é solucionar um problema corporal dentro
de regras. Outra pode transformar qualquer desafio em competição intensa.
Por isso, o
professor precisa conhecer seus estudantes.
Se a turma ainda
apresenta dificuldades para controlar a intensidade do contato, atividades com
maior proximidade corporal devem ser introduzidas com cautela. Nesse momento,
jogos de proteção de objetos, conquista de espaços ou toques controlados podem
ser alternativas mais adequadas.
A progressão deve
acompanhar a capacidade dos estudantes de respeitar regras e cuidar do colega.
A experiência
relatada por Amaral, Santos e Souza, realizada com estudantes dos anos finais
do Ensino Fundamental, utilizou jogos de oposição e práticas inspiradas em
manifestações como capoeira e huka-huka, priorizando segurança e contato
controlado. Os autores observaram avanços na participação e na compreensão das
lutas.
Isso reforça uma
ideia importante: aumentar a complexidade não significa aumentar o risco.
Regras precisam ser
claras
Imagine que o
professor diga apenas:
— Tentem pegar a
fita do colega.
Para um
estudante, isso pode significar utilizar velocidade. Para outro, agarrar a
roupa. Um terceiro pode interpretar que empurrar também é permitido.
Quando as regras
não estão claras, cada participante cria sua própria versão da atividade.
Antes de iniciar,
portanto, é necessário explicar o objetivo e definir os limites.
No jogo da fita, por exemplo, pode ser permitido retirar apenas a fita presa lateralmente à cintura. Empurrar, agarrar o corpo, puxar roupas, atingir o rosto ou derrubar o colega ficam
proibidos.
Também deve
existir um sinal inequívoco de interrupção.
Quando o
professor diz “parou” ou utiliza um sinal combinado, qualquer ação deve
terminar imediatamente. O estudante precisa compreender que continuar depois do
sinal não representa vantagem competitiva, mas descumprimento de uma regra de
segurança.
Propostas
metodológicas envolvendo jogos de oposição recomendam justamente delimitação do
espaço, períodos controlados de atividade, sinais de início e término e
definição prévia das regras de segurança.
Os alunos precisam
entender por que as regras existem
Uma regra é mais
facilmente respeitada quando o estudante compreende sua finalidade.
Em vez de
simplesmente dizer “não pode empurrar”, o professor pode perguntar:
— O que poderia
acontecer se permitíssemos empurrões fortes neste jogo?
Os próprios
estudantes provavelmente identificarão problemas: alguém pode cair, atingir
outro grupo ou perder o controle do movimento.
A regra ganha
sentido.
Também é possível
realizar uma atividade curta e posteriormente perguntar quais regras seriam
necessárias para torná-la mais segura. O professor continua responsável pela
decisão final, mas os estudantes participam da reflexão.
Essa estratégia
ajuda a mostrar que regras não existem para diminuir a diversão. Elas tornam
possível uma situação de oposição na qual todos possam participar com limites
conhecidos.
Contato controlado
O contato
corporal pode aparecer em diferentes lutas, mas isso não significa que toda
atividade escolar precise apresentar contato intenso.
Existe uma grande
diferença entre contato corporal e violência.
Um estudante pode
colocar as mãos sobre as palmas do colega em um jogo de equilíbrio sem utilizar
força excessiva. Pode tentar tocar suavemente determinado alvo. Pode proteger
um objeto ou espaço diante da aproximação do oponente.
O importante é
que a intensidade seja compatível com o objetivo.
Um erro frequente
é permitir que o jogo aumente progressivamente de intensidade até que os
estudantes passem a utilizar força desnecessária. O professor precisa observar
essa mudança.
Quando o controle
diminui, a atividade deve ser interrompida, reorganizada ou simplificada.
O relato de
experiência publicado em 2026 sobre lutas de oposição na escola ressalta
justamente a utilização de práticas com segurança e contato controlado,
mostrando que é possível proporcionar experiências significativas sem
transformar a aula em combate livre.
Organizando o
espaço
O espaço
influencia diretamente a segurança.
Antes da aula, o
professor deve verificar obstáculos e condições do piso. Objetos que possam
provocar cortes, tropeços ou colisões precisam ser retirados ou isolados.
Também é
importante estabelecer limites visíveis.
Cones, linhas da
quadra ou outros marcadores podem mostrar claramente onde cada atividade
acontece. Quando várias duplas trabalham simultaneamente, deve existir
distância suficiente entre elas.
Esse cuidado
evita que um estudante concentrado no próprio adversário colida com outra
dupla.
Nos jogos de
oposição, a delimitação de espaços seguros é apresentada como uma medida
preventiva importante. Também são recomendados períodos relativamente curtos de
atividade e sinais definidos de início e término.
O professor precisa ainda considerar o número de alunos. Um exercício que funciona perfeitamente com dez participantes pode precisar ser reorganizado para uma turma com trinta ou quarenta.
Materiais simples
também precisam ser avaliados
Uma atividade
escolar não precisa utilizar equipamentos sofisticados, mas qualquer material
deve ser analisado antes de ser empregado.
Fitas, bolas,
cordas, cones e outros objetos podem servir para criar excelentes jogos de
oposição. Entretanto, o professor precisa verificar se apresentam partes
cortantes, superfícies rígidas ou outras características capazes de produzir
acidentes.
Nas atividades
inspiradas em práticas com implementos, esse cuidado deve ser ainda maior.
Não é adequado
improvisar utilizando bastões rígidos, objetos pontiagudos ou materiais
inadequados apenas porque se deseja reproduzir determinada luta.
Se o recurso
necessário não estiver disponível com condições adequadas de segurança, a
atividade deve ser adaptada ou substituída.
O objetivo
escolar é compreender princípios e experiências corporais, não reproduzir a
qualquer custo uma modalidade.
Acessórios pessoais
também merecem atenção
Relógios,
pulseiras, brincos grandes, colares e outros acessórios podem oferecer riscos
quando existe contato corporal.
Em determinadas
atividades, um simples puxão involuntário pode causar lesões.
Por isso, o
professor deve avaliar previamente quais objetos precisam ser retirados antes
da prática e estabelecer esse procedimento como parte da rotina da aula.
Recomendações metodológicas para jogos de oposição incluem justamente a
retirada de objetos pessoais que possam provocar ferimentos.
O importante é transformar essa verificação em hábito, e não a realizar
apenas quando alguém
se machuca.
Organizando as
duplas
Formar duplas
aleatoriamente nem sempre é a melhor opção.
Dependendo da
atividade, diferenças muito grandes de tamanho corporal, experiência, força ou
capacidade de controlar os movimentos podem aumentar dificuldades e riscos.
Isso não
significa que todos os participantes precisem possuir exatamente as mesmas
características. Significa que o professor deve utilizar critérios pedagógicos.
Também é
recomendável variar as parcerias ao longo da sequência, evitando rótulos como
“forte”, “fraco”, “bom” ou “ruim”.
O professor pode
ainda adaptar objetivos conforme as características da dupla. Em determinados
casos, uma atividade pode utilizar alvos maiores, espaços diferentes ou
períodos menores.
O objetivo é
permitir uma oposição desafiadora, mas controlável.
Começar simples é
uma escolha pedagógica
Existe uma
tentação de acreditar que uma aula de lutas somente será interessante se
apresentar movimentos impressionantes.
Na escola, muitas
vezes acontece justamente o contrário.
Uma atividade
simples e bem-organizada pode produzir mais aprendizagem do que uma técnica
complexa aplicada sem condições adequadas.
Para iniciantes,
desafios de proteção de objetos, conquista de espaço, equilíbrio e toque
controlado permitem desenvolver conceitos fundamentais com menor complexidade.
Conforme os
estudantes demonstram compreensão das regras e capacidade de controlar suas
ações, novos desafios podem ser acrescentados.
Pesquisas
recentes continuam apontando os jogos de luta como alternativa para
sistematizar esse conteúdo no Ensino Fundamental, inclusive diante das
inseguranças de professores que não possuem formação especializada em
modalidades específicas.
Não improvisar
técnicas perigosas
Um professor não
precisa ser faixa-preta para ensinar princípios introdutórios das lutas. Isso,
porém, não significa que qualquer técnica possa ser improvisada.
Quedas,
projeções, estrangulamentos, chaves articulares, golpes em regiões vulneráveis
e outras ações potencialmente perigosas exigem conhecimentos específicos e
condições apropriadas.
Se o professor
não domina determinada técnica ou não dispõe de ambiente adequado para
desenvolvê-la com segurança, a decisão pedagógica correta é não improvisar.
Isso não
empobrece a aula.
É possível
trabalhar distância, equilíbrio, ataque, defesa, estratégias, história, regras
e cultura por meio de atividades adaptadas.
As dificuldades relacionadas à formação docente
aparecem de maneira recorrente nas pesquisas
sobre lutas na Educação Física escolar. Em estudo realizado com professores,
todos os entrevistados relataram considerar insuficiente sua formação acadêmica
para sentirem segurança na aplicação desse conteúdo.
Reconhecer
limites profissionais, portanto, também faz parte de uma prática responsável.
O professor precisa
observar, não apenas comandar
Depois que a
atividade começa, o trabalho do professor continua.
É preciso
observar a intensidade dos movimentos, o cumprimento das regras, as condições
emocionais dos participantes e possíveis sinais de desconforto.
Um estudante pode
não dizer diretamente que está com medo, mas começar a evitar o colega ou
afastar-se repetidamente. Outro pode aumentar a força porque está frustrado com
o resultado.
Essas situações
exigem intervenção.
Às vezes, basta
conversar. Em outros momentos, será necessário trocar as duplas, modificar uma
regra ou interromper completamente a atividade.
Experiências de
ensino das lutas baseadas em abordagens centradas no estudante destacam a
importância de considerar as respostas dos alunos durante o próprio processo de
ensino e aprendizagem.
O planejamento
orienta a aula, mas não substitui a observação.
Vencer não pode
valer mais do que a segurança
Imagine que um
estudante consiga retirar a fita do adversário, mas para isso o empurre
deliberadamente.
Ele alcançou o
objetivo?
Do ponto de vista
pedagógico, não.
Se a regra
proibia empurrar, a ação não pode ser considerada válida simplesmente porque
produziu o resultado desejado.
Esse tipo de
situação ajuda a ensinar uma ideia fundamental: nas lutas, a maneira como o
objetivo é alcançado importa tanto quanto o resultado.
O professor deve
evitar mensagens como “vale tudo para ganhar” ou elogios que valorizem
exclusivamente força e superioridade.
A BNCC oferece
uma orientação bastante clara nesse sentido ao relacionar a experimentação das
lutas à integridade física e o desenvolvimento de estratégias ao respeito pelo
colega como oponente.
Segurança também se
ensina
Uma boa sequência
didática deve fazer com que os estudantes assumam progressivamente
responsabilidade pela segurança.
No início, o
professor estabelece praticamente todos os procedimentos. Com o tempo, os
próprios alunos começam a reconhecê-los.
Antes de uma
atividade, o professor pode perguntar:
— O espaço está
seguro?
— Quais ações não
podem acontecer?
— Qual é o sinal
de parada?
— O que fazemos se alguém sentir
dor?
Quando os
estudantes conseguem responder e aplicar essas orientações, demonstram uma
aprendizagem importante.
A segurança deixa
de ser uma lista de ordens do professor e passa a constituir um conhecimento
compartilhado pela turma.
Quando interromper
uma atividade
Uma atividade
deve ser interrompida sempre que houver perda das condições necessárias para
sua realização segura.
Isso inclui força
excessiva, desrespeito repetido às regras, alterações no espaço, comportamento
agressivo ou qualquer situação que aumente desnecessariamente o risco.
Interromper não
significa fracassar.
O professor pode
reunir rapidamente a turma, identificar o problema e perguntar:
— O que precisa
mudar para continuarmos?
Talvez seja
necessário diminuir o espaço, trocar as duplas, modificar uma regra ou
simplesmente reforçar um combinado.
Depois, a
atividade pode ser retomada em condições melhores.
Essa intervenção
mostra aos estudantes que segurança não é negociável.
Uma rotina simples
de segurança
Para professores
iniciantes, estabelecer uma pequena rotina pode facilitar bastante o trabalho.
Antes da prática,
verificar espaço, materiais, acessórios e organização dos grupos.
Na explicação,
apresentar objetivo, ações permitidas, ações proibidas e sinal de interrupção.
Durante a
atividade, observar intensidade, deslocamentos, comportamento e cumprimento das
regras.
Depois, conversar
brevemente sobre o que funcionou e o que precisa ser modificado.
Esse ciclo
transforma segurança em parte permanente da metodologia.
Conclusão
Ensinar lutas com
segurança não significa eliminar todo desafio ou contato corporal. Significa
organizar experiências nas quais o desafio seja compatível com a idade, o
espaço, a experiência e as características dos estudantes.
As regras
precisam ser claras, o ambiente deve ser previamente analisado e a intensidade
das ações precisa permanecer sob controle. O professor também deve reconhecer
seus próprios limites e evitar improvisar técnicas potencialmente perigosas.
A BNCC reforça
esse entendimento ao colocar a segurança e a integridade física dos
participantes entre as aprendizagens relacionadas às lutas.
Mais do que
evitar acidentes, existe aqui uma aprendizagem educacional importante: cada
estudante precisa compreender que suas ações interferem diretamente na
segurança do outro.
Quando o aluno controla a intensidade, respeita o sinal de parada e reconhece os limites estabelecidos, não está apenas obedecendo a uma regra. Está
aprendendo
responsabilidade.
É justamente essa combinação entre desafio, regras, respeito e cuidado que permite transformar uma atividade de oposição em uma experiência verdadeiramente educativa.
Referências
bibliográficas
AMARAL, João
Pedro de Jesus Lima; SANTOS, Vinicius da Silva; SOUZA, Suzana Alves Nogueira. Lutas
de oposição no contexto da Educação Física escolar: um relato de experiência.
inCORPOrAÇÃO, v. 4, n. 1, 2026.
BRASIL.
Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: Educação é a Base.
Brasília: MEC, 2018.
LIMA, George
Almeida. Ensino das lutas na escola: um estudo com professores de Educação
Física da cidade de Campos Sales — CE. Temas em Educação Física Escolar, v.
6, n. 1, 2021.
OLIVEIRA, Gustavo
Brito de; GARCIA, Anderson F.; SANTOS, Gisele F. L.; FERRI, Augusto Medalha;
SILVA, Jonathan Correia da; NOGUEIRA, Matheus Zurlo; SOUZA, Vitor Hugo N. Jogos
de oposição como instrumento mediador no ensino das lutas nas aulas de Educação
Física. Congresso Nacional de Formação de Professores de Educação Física,
Londrina, 2023.
RABELO, Ana
Carolina Correia da Silva; ANTUNEZ, Bruno Fernandes. Não sou “faixa-preta”,
e agora? Uma proposta didática sistematizada para as lutas no Ensino
Fundamental. Corpoconsciência, v. 29, 2025.
SILVA, Jaqueline
da; CARDOSO, Allana Alexandre; PEREIRA, Marcos Paulo Vaz de Campos; FARIAS,
Gelcemar Oliveira. Ensino das lutas na Educação Física escolar: um relato de
experiência fundamentado no ensino centrado no aprendiz. Revista Prática
Docente, v. 5, n. 2, 2020.
Estudo
de Caso — Módulo 2
Quando
a competição ficou mais importante que a aprendizagem
A professora
Marina havia terminado com uma turma do 7º ano uma introdução sobre o
significado das lutas. Os estudantes já sabiam diferenciar luta de briga e
compreendiam que o colega deveria ser tratado como oponente, e não como
inimigo.
Chegara o momento
de avançar para as experiências práticas.
Marina queria
trabalhar três conteúdos do módulo: jogos de oposição, distância entre os
participantes e segurança. A ideia parecia simples, mas uma aula mostrou
como pequenos erros de planejamento podem transformar rapidamente uma atividade
educativa em uma situação problemática.
A preocupação com esses aspectos encontra respaldo na própria BNCC. Para o 6º e 7º anos, a habilidade EF67EF14 prevê experimentar diferentes lutas do Brasil valorizando a própria segurança e integridade física e a dos demais; a EF67EF15 acrescenta a utilização de estratégias básicas
respeitando o colega como oponente.
O primeiro desafio
Marina organizou
a turma em duplas e entregou uma fita de tecido para cada estudante. A fita
deveria ser presa lateralmente à cintura.
A regra
apresentada foi curta:
— Cada um deve
tentar retirar a fita do colega. Quem conseguir primeiro vence.
Assim que a
atividade começou, surgiram os primeiros problemas.
Alguns estudantes
perceberam que poderiam usar velocidade e mudanças de direção. Outros, porém,
entenderam que qualquer recurso seria válido para vencer. Começaram a segurar
braços, puxar camisetas e bloquear fisicamente os colegas.
Em uma das
duplas, Gabriel empurrou Rafael para conseguir alcançar sua fita. Rafael perdeu
o equilíbrio e quase caiu sobre outra dupla.
Marina
interrompeu a aula imediatamente.
Ninguém havia se
machucado, mas ficou evidente que alguma coisa estava errada.
O primeiro erro:
explicar o objetivo sem explicar os limites
A professora
havia informado o que os estudantes deveriam fazer, mas não havia
esclarecido como poderiam fazer.
“Retirar a fita”
era o objetivo, porém faltavam regras para organizar a oposição.
Marina reuniu a
turma.
— O Gabriel
conseguiu pegar a fita. Então ele venceu?
Alguns
responderam que sim.
Outros
discordaram:
— Mas ele
empurrou.
A professora
aproveitou a situação:
— Então
precisamos decidir uma coisa: basta alcançar o objetivo ou também importa a
maneira como fazemos isso?
A discussão mudou
completamente a atividade.
A turma
estabeleceu novas regras: seria permitido apenas tocar e retirar a fita;
agarrar o corpo ou as roupas, empurrar, derrubar ou bloquear o colega
utilizando força não seria permitido. Ao sinal da professora, todos deveriam
parar imediatamente.
Agora existiam objetivo
e limites de ação.
A situação
mostrou uma característica fundamental dos jogos de oposição: as regras não são
detalhes adicionais. Elas determinam as possibilidades de ação e ajudam a
organizar o próprio problema que os estudantes precisam resolver. Pesquisas
sobre o ensino das lutas mostram justamente a adaptação de regras, materiais e
espaços e a utilização de jogos de luta como estratégias adotadas por
professores no contexto escolar.
O segundo erro:
colocar todas as duplas no mesmo espaço
Depois de
estabelecer as novas regras, Marina reiniciou o jogo.
Dessa vez, os
estudantes controlaram melhor o contato. Entretanto, apareceu outro problema.
A quadra tinha espaço, mas as vinte duplas estavam jogando simultaneamente. Como todos se
movimentavam para proteger e conquistar as fitas, alguns estudantes começaram a
entrar no espaço das duplas vizinhas.
Marina percebeu
que estava tentando observar quarenta alunos ao mesmo tempo.
Decidiu
interromper novamente.
Dividiu a quadra
em áreas menores e organizou rodízios. Enquanto algumas duplas participavam,
outros estudantes observavam e tinham uma tarefa: identificar uma estratégia
utilizada pelos colegas.
Essa pequena
mudança melhorou bastante a aula.
Agora Marina
conseguia observar com maior atenção e os estudantes que estavam fora da
disputa continuavam envolvidos na aprendizagem.
A falta de
infraestrutura e de materiais aparece frequentemente nas pesquisas como
dificuldade para o ensino das lutas. Entretanto, estudos também mostram que
professores recorrem à adaptação de espaços, materiais e regras como estratégia
para viabilizar esse conteúdo.
“Professora, ele só
ganhou porque é maior”
Na terceira
rodada surgiu uma nova situação.
Lucas e Henrique
foram colocados juntos. Lucas era consideravelmente maior e mais forte. Em
poucos segundos, conseguiu retirar a fita do colega.
Na segunda
tentativa, aconteceu novamente.
Henrique
reclamou:
— Não adianta.
Ele é muito maior.
Lucas respondeu:
— Luta é assim.
Quem é mais forte ganha.
Marina percebeu
outro problema em sua organização: havia formado as duplas aleatoriamente sem
considerar as características da tarefa.
Em vez de
simplesmente trocar os estudantes, decidiu utilizar a situação como
aprendizagem.
Perguntou à
turma:
— Força é a única
maneira de vencer esse jogo?
A maioria
respondeu que não.
Alguns estudantes
haviam conseguido bons resultados utilizando velocidade, distância, mudança de
direção e antecipação.
A professora
então modificou a atividade. A área de jogo aumentou um pouco, favorecendo
deslocamentos, e as duplas foram reorganizadas.
Henrique passou a
enfrentar um colega de características corporais mais próximas às suas. Na nova
rodada, percebeu que poderia esperar o adversário aproximar-se para depois
mudar rapidamente de direção.
Ele não venceu
todas as disputas, mas conseguiu experimentar estratégias que antes
praticamente não tinham oportunidade de aparecer.
Descobrindo a
importância da distância
Na atividade
seguinte, Marina colocou dois estudantes frente a frente. Cada participante
deveria tentar tocar suavemente o ombro do colega enquanto protegia os próprios
ombros.
Golpes não eram
permitidos. O objetivo era apenas tocar.
Na primeira rodada, quase
primeira
rodada, quase todos avançaram imediatamente.
Depois, Marina
perguntou:
— O que acontece
quando vocês chegam perto demais?
Uma estudante
respondeu:
— Fica mais fácil
tocar, mas também fica mais fácil ser tocado.
Essa resposta
abriu caminho para trabalhar um dos princípios fundamentais das lutas: a
distância modifica as possibilidades de ataque e defesa.
A professora
repetiu o jogo, mas agora pediu que os estudantes prestassem atenção
especificamente à aproximação e ao afastamento.
O comportamento
mudou.
Alguns começaram
a recuar quando percebiam o ataque. Outros faziam pequenas aproximações para
provocar a reação do adversário. Alguns descobriram que avançar o tempo inteiro
não era necessariamente uma boa estratégia.
Marina percebeu
que poderia ensinar muito sem apresentar uma sequência pronta de golpes.
A literatura
sobre o ensino das lutas defende justamente sua transformação
didático-pedagógica para atender às características da população escolar e aos
objetivos da Educação Física, em vez de simplesmente reproduzir os modelos
tradicionais de academias ou clubes.
Quando o jogo
começou a ficar agressivo
No final da aula,
a professora propôs uma atividade de equilíbrio.
Em duplas, os
estudantes permaneceriam frente a frente, com contato controlado pelas mãos. O
objetivo era fazer o colega movimentar um dos pés da posição inicial.
A regra principal
era clara: ninguém deveria ser derrubado.
No início, a
atividade funcionou bem. Depois de algumas tentativas, entretanto, duas duplas
começaram a aumentar progressivamente a intensidade.
Os estudantes
passaram a empurrar com mais força.
Marina poderia
ter esperado algum acidente para intervir. Em vez disso, parou imediatamente.
— Observem o que
aconteceu. Qual era o objetivo?
— Fazer o colega
mexer o pé.
— Era derrubar?
— Não.
— Então por que
começamos a usar tanta força?
Um estudante
respondeu:
— Porque todo
mundo queria ganhar.
A professora
percebeu que aquele era talvez o aprendizado mais importante da aula.
Vencer não pode
mudar as regras
Marina explicou
que, em uma atividade de oposição, o desejo de vencer pode aumentar a
intensidade das ações. Por isso, controle também faz parte da aprendizagem.
A turma retomou a
atividade, agora com uma orientação diferente:
— Tentem alcançar
o objetivo utilizando a menor quantidade de força necessária.
A mudança
produziu um resultado interessante.
Alguns estudantes começaram a observar melhor a posição dos pés do adversário. Outros
estudantes
começaram a observar melhor a posição dos pés do adversário. Outros perceberam
que alterar a direção da pressão era mais eficiente do que simplesmente
aumentar a força.
O desafio deixou
de ser “quem empurra mais” e passou a ser “quem compreende melhor o problema”.
A BNCC associa explicitamente o ensino das lutas à valorização da segurança e da integridade física de todos e ao respeito ao colega como oponente. Portanto, cumprir regras e controlar as próprias ações não é algo externo ao conteúdo: faz parte daquilo que o estudante deve aprender.
O medo de não ser
especialista
Depois da aula,
Marina conversou com outro professor.
— Acho que meu
problema é não ser especialista em nenhuma luta. Talvez eu não devesse ensinar
esse conteúdo.
O colega
respondeu:
— Mas hoje você
não ensinou uma modalidade específica. Trabalhou oposição, distância,
equilíbrio, regras e estratégias.
A conversa levou
Marina a pesquisar mais sobre o assunto.
Descobriu que sua
insegurança não era incomum. Uma revisão de 38 estudos brasileiros identificou
justamente a insegurança docente como um dos fatores importantes para a baixa
inserção das lutas nas aulas de Educação Física.
Em outra
pesquisa, realizada com professores do Ensino Médio do Distrito Federal, entre
aqueles que trabalhavam lutas apareceram como estratégias importantes a adaptação
de regras, materiais e espaços e os jogos de luta.
Marina
compreendeu então uma diferença fundamental.
Não possuir
graduação em uma arte marcial não significa que o professor deva improvisar
técnicas que não conhece. Também não significa que precise excluir
completamente as lutas de seu planejamento.
É possível
trabalhar pedagogicamente princípios introdutórios, jogos, estratégias,
história e cultura, desde que o professor estude o conteúdo, planeje
adequadamente e reconheça os limites de sua própria formação.
Uma aula diferente
Na semana
seguinte, Marina organizou a quadra antes de os estudantes chegarem.
As áreas estavam
delimitadas. As regras principais foram retomadas. As atividades começaram por
desafios com menor contato e avançaram progressivamente.
Antes de cada
jogo, três perguntas eram respondidas:
Qual é o objetivo?
O que é permitido?
O que não é
permitido?
Uma quarta
pergunta foi acrescentada:
Qual é o sinal para
parar?
Durante as
atividades, a professora não ficou apenas dizendo quem havia vencido. Circulou
entre os grupos e fez perguntas.
— Por que você
recuou?
— Como conseguiu proteger seu
alvo?
— Você precisou
utilizar muita força?
— O que mudou
quando aumentamos o espaço?
As respostas
mostraram que os estudantes estavam começando a compreender os princípios
estudados.
No encerramento,
Marina perguntou:
— O que foi mais
importante hoje: ser forte ou saber tomar decisões?
Gabriel, o
estudante que havia empurrado o colega na primeira aula, respondeu:
— Depende do
jogo. Às vezes, se você usar força demais, até atrapalha.
A resposta
mostrou que alguma coisa havia mudado.
Principais erros do
caso e como evitá-los
Explicar apenas o
objetivo do jogo. Dizer “pegue a fita” ou “tire o
colega do espaço” não é suficiente. Antes da atividade, devem ficar claros
objetivo, ações permitidas, ações proibidas e sinal de interrupção.
Colocar todos para
jogar simultaneamente sem avaliar o espaço. Turmas grandes
podem exigir rodízios, estações ou áreas delimitadas. A organização deve
permitir supervisão adequada.
Formar duplas sem
considerar a atividade. Diferenças corporais, experiência,
controle dos movimentos e segurança precisam ser considerados. As parcerias
podem variar conforme o objetivo pedagógico.
Transformar
equilíbrio em disputa de força. Para iniciantes,
é possível trabalhar desequilíbrio sem derrubar o colega. Fazer o adversário
deslocar um pé, por exemplo, já permite compreender o princípio.
Permitir que a
intensidade aumente sem intervenção. Se os estudantes
começarem a utilizar força excessiva, o professor deve interromper e
reorganizar imediatamente a atividade.
Valorizar apenas o
vencedor. É importante observar também tomada de decisão,
respeito às regras, controle corporal, estratégias e evolução individual.
Começar por
técnicas complexas. Jogos de oposição permitem
compreender princípios como distância, ataque, defesa e equilíbrio antes de
avançar para conteúdos mais específicos.
Improvisar técnicas
que o professor não domina. Reconhecer limites profissionais é
uma medida de segurança. A literatura mostra que insegurança e formação
insuficiente são dificuldades recorrentes entre professores que trabalham com
esse conteúdo.
Reproduzir uma
academia dentro da escola. A finalidade da Educação Física
escolar é educacional. Pesquisas destacam a necessidade de transformar
didaticamente as lutas de acordo com objetivos escolares e características dos
estudantes.
Para refletir
A experiência de
Marina mostrou que uma atividade de luta não se torna educativa simplesmente
porque foi colocada dentro da escola.
O que transforma um
jogo de oposição em aprendizagem é a maneira como ele é planejado,
acompanhado e discutido.
Uma fita presa à
cintura pode ensinar ataque e defesa. Um pequeno espaço delimitado pode ensinar
posicionamento. Um jogo de toque pode ensinar distância. Uma atividade com as
mãos pode permitir compreender equilíbrio e desequilíbrio.
Mas existe uma
condição fundamental: a segurança precisa estar acima da vitória.
Quando os
estudantes entendem que devem solucionar um problema sem ultrapassar os limites
estabelecidos, começam a compreender algo essencial sobre as lutas. O desafio
não consiste simplesmente em superar o outro, mas em encontrar estratégias
dentro de regras que preservem ambos os participantes.
Essa perspectiva
está alinhada à BNCC, que associa a aprendizagem das lutas à segurança, à
integridade física, à estratégia e ao respeito pelo oponente.
Assim, uma boa aula não termina necessariamente quando alguém vence. Ela termina quando os estudantes conseguem explicar o que fizeram, por que fizeram e como poderiam resolver o mesmo desafio de maneira mais eficiente e segura.
Referências
bibliográficas
ALMEIDA, Maycon
Ornelas; RUFINO, Luiz Gustavo Bonatto; LAZZAROTTI FILHO, Ari; BACKES, Ana
Flávia; RODRIGUES, Heitor de Andrade. A prática pedagógica com as lutas na
Educação Física: um retrato da formação e da realidade de ensino de professores
do Ensino Médio do Distrito Federal. Revista Brasileira de Ciências do
Esporte, 2024.
BRASIL.
Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: Educação é a Base.
Brasília: MEC, 2018.
FERREIRA, Carla
da Silva; CARDOSO, Nicole Marceli Nunes. O ensino das lutas na Educação
Física escolar: um estado do conhecimento de estudos brasileiros. Journal
of Physical Education, v. 34, 2023.
PEREIRA, Marcos
Paulo Vaz de Campos; MARINHO, Alcyane; GALATTI, Larissa Rafaela; SCAGLIA,
Alcides José; FARIAS, Gelcemar Oliveira. Lutas na escola: estratégias de
ensino de professores de Educação Física. Journal of Physical Education, v.
32, 2021.
RUFINO, Luiz Gustavo Bonatto; DARIDO, Suraya Cristina. O ensino das lutas nas aulas de Educação Física: análise da prática pedagógica à luz de especialistas. Revista da Educação Física/UEM, Maringá, v. 26, n. 4, 2015.
Quer acesso gratuito a mais materiais como este?
Acesse materiais, apostilas e vídeos em mais de 3000 cursos, tudo isso gratuitamente!
Matricule-se AgoraQuer acesso gratuito a mais materiais como este?
Acesse materiais, apostilas e vídeos em mais de 3000 cursos, tudo isso gratuitamente!
Matricule-se Agora