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INTRODUÇÃO
À ATUAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL EM UNIDADES DE PRONTO ATENDIMENTO (UPA)
Módulo 3 — Ética, Situações Complexas e
Prática Profissional
Aula 1 — Ética, sigilo e respeito ao
usuário
Trabalhar em uma Unidade de Pronto
Atendimento significa lidar diariamente com pessoas em momentos de fragilidade.
Dor, medo, ansiedade, conflitos familiares, violência e incertezas podem fazer
parte da experiência de quem procura uma UPA. Nesse ambiente, o assistente
social pode ter acesso a informações bastante particulares sobre a vida dos
usuários. Por isso, conhecimento técnico não basta: a atuação profissional
precisa estar sustentada por princípios éticos.
A ética no Serviço Social não se resume a
ser educado ou tratar bem as pessoas. Ela orienta escolhas, estabelece
responsabilidades e ajuda o profissional a decidir como agir diante de
situações complexas. O Código de Ética Profissional do/a Assistente Social
constitui uma das principais referências para essa atuação, juntamente com a
Lei nº 8.662/1993, que regulamenta a profissão.
Ética aparece nas pequenas decisões
Quando pensamos em ética profissional, é
comum imaginar situações excepcionais. Na realidade, ela está presente em
decisões muito simples do cotidiano.
Onde realizar uma conversa com o usuário?
Quais perguntas são realmente necessárias? Quem precisa conhecer determinada
informação? Como registrar uma situação delicada? Como falar sobre uma pessoa
sem utilizar expressões preconceituosas? Até que ponto uma informação deve ser
compartilhada com a equipe?
Todas essas perguntas envolvem
responsabilidade profissional.
Imagine uma mulher atendida na UPA que,
durante uma conversa, relata sofrer violência dentro de casa. Enquanto ela
fala, familiares e outros usuários circulam pelo ambiente. O conteúdo dessa
conversa não pode ser tratado como uma informação qualquer. A maneira como o
atendimento é organizado pode proteger a usuária ou aumentar sua exposição.
O Código de Ética estabelece que o sigilo
deve proteger o usuário em relação àquilo que chega ao conhecimento do
assistente social em decorrência do exercício profissional.
Respeitar o usuário é reconhecer sua
dignidade
O atendimento ético começa pela maneira
como enxergamos a pessoa.
Um usuário não deve ser reduzido à condição que o levou até a UPA. Ele não é simplesmente “o morador de rua”, “a vítima”, “o dependente”, “o idoso abandonado” ou “a família problemática”. Essas expressões podem transformar situações complexas em rótulos e
reforçar
julgamentos.
A pessoa atendida possui uma história,
valores, vínculos, dificuldades, escolhas e direitos. Mesmo quando o
profissional discorda de determinadas decisões, precisa evitar transformar sua
visão pessoal em critério para julgar o usuário.
O Código de Ética do Serviço Social possui
princípios relacionados à liberdade, aos direitos humanos, à cidadania, à
justiça social e ao exercício profissional sem discriminação. O CFESS também
possui normas específicas contra práticas discriminatórias no exercício
profissional.
Isso tem consequências muito concretas.
Uma pessoa em situação de rua merece o mesmo respeito dispensado a qualquer
outro usuário. Uma família pobre não pode ser automaticamente considerada
negligente. Uma pessoa que retorna diversas vezes à UPA não deve ser tratada
como alguém que “não quer se cuidar” antes que sua situação seja devidamente
compreendida.
Autonomia também faz parte do cuidado
Respeitar o usuário significa reconhecer
que ele participa das decisões que dizem respeito à própria vida.
No cotidiano da saúde, pode existir uma
tendência a pensar que o profissional sempre sabe aquilo que é melhor para a
pessoa. O conhecimento técnico é fundamental, mas não elimina automaticamente a
autonomia do usuário.
As normas relativas aos direitos das
pessoas usuárias dos serviços de saúde asseguram aspectos como privacidade,
individualidade, integridade e confidencialidade das informações pessoais.
Considere um adulto consciente que não
deseja compartilhar determinada informação pessoal com um familiar. O fato de
alguém ser seu parente não significa, por si só, que tenha acesso irrestrito a
tudo aquilo que foi relatado durante um atendimento profissional.
Existem situações em que a legislação estabelece procedimentos específicos de proteção ou comunicação. Por isso, autonomia e confidencialidade precisam ser analisadas de acordo com cada situação concreta. A regra não deve ser esconder tudo nem contar tudo, mas agir de maneira tecnicamente fundamentada e eticamente responsável.
O que é sigilo profissional?
Sigilo profissional significa proteger as
informações às quais o assistente social teve acesso em razão de seu trabalho.
O Código de Ética é bastante claro ao
determinar que o sigilo protege o usuário em tudo aquilo que o profissional
conhece em decorrência de sua atividade. Também estabelece que, no trabalho
multidisciplinar, somente devem ser fornecidas informações dentro dos
limites do estritamente necessário.
Esse princípio é particularmente
importante dentro de uma UPA, onde diferentes profissionais trabalham
simultaneamente e precisam trocar informações.
Trabalho em equipe não significa
circulação irrestrita de dados.
Imagine que durante o atendimento uma
pessoa relate conflitos familiares antigos que não possuem relação direta com a
situação que está sendo discutida pela equipe. O simples fato de a informação
ter sido revelada ao assistente social não significa que ela precise constar de
toda comunicação profissional.
Antes de compartilhar algo, é importante
perguntar: essa informação é realmente necessária para o atendimento?
Essa pergunta simples ajuda a proteger o
usuário sem prejudicar o trabalho multiprofissional.
Sigilo não significa isolamento
profissional
Também seria equivocado interpretar o
sigilo como uma proibição absoluta de comunicação entre profissionais.
Uma UPA depende do trabalho em equipe.
Determinadas informações podem ser necessárias para que outros profissionais
compreendam riscos, necessidades ou providências relacionadas ao atendimento.
O cuidado está na proporcionalidade.
Se determinada informação precisa ser
compartilhada, deve-se considerar sua finalidade, quem realmente precisa
conhecê-la e qual quantidade de informação é necessária. O Código de Ética
estabelece justamente esse limite no trabalho multidisciplinar.
O próprio CFESS continua produzindo
orientações sobre situações concretas envolvendo sigilo. Em 2026, por exemplo,
publicou nota técnica sobre sua preservação em atendimentos envolvendo pessoas
com deficiência acompanhadas por profissionais de apoio, acompanhantes ou
outros mediadores necessários à comunicação.
Isso demonstra que proteger o sigilo não
significa impedir apoios necessários ao atendimento. Significa organizar essas
situações preservando, tanto quanto possível, a privacidade e os direitos da
pessoa.
E quando existe uma situação grave?
Uma dúvida frequente entre iniciantes é
imaginar que o sigilo profissional nunca possa ser rompido.
O Código de Ética estabelece que a quebra
do sigilo somente é admissível em situações cuja gravidade possa trazer
prejuízo aos interesses do usuário, de terceiros ou da coletividade. Mesmo
nessas circunstâncias, a revelação deve ficar restrita ao estritamente
necessário quanto ao conteúdo e às pessoas que precisam tomar conhecimento.
Isso exige muita responsabilidade.
Imagine uma situação em que apareçam informações relacionadas a risco grave. A decisão
profissional não pode ser
baseada simplesmente no medo de “quebrar o sigilo”, nem na ideia de que
qualquer suspeita autoriza divulgar tudo para qualquer pessoa.
É necessário considerar a gravidade, a
legislação aplicável, as normas profissionais e os procedimentos
institucionais.
Em situações envolvendo crianças,
adolescentes, pessoas idosas, violência e outras circunstâncias protegidas por
legislação específica, também podem existir deveres legais próprios. O
profissional precisa conhecer essas normas e agir de maneira fundamentada.
Privacidade também depende do espaço de
atendimento
Não adianta falar em sigilo se o
atendimento ocorre em condições nas quais qualquer pessoa consegue ouvir a
conversa.
Em 2025, o CFESS publicou a Resolução nº
1.114, atualizando as normas relativas às condições éticas e técnicas para o
exercício profissional. A norma está atualmente em vigor e substituiu a antiga
Resolução nº 493/2006.
Esse tema possui importância especial em
uma UPA porque espaço físico e privacidade nem sempre são fáceis de conciliar.
O ambiente pode estar cheio, existir circulação constante de trabalhadores e
familiares e haver pressão por rapidez.
Ainda assim, uma conversa sobre violência,
abandono, conflitos familiares ou outras questões sensíveis não deveriam
ocorrer, sempre que houver condições de evitá-lo, diante de pessoas que não
precisam ter acesso àquelas informações.
Garantir condições adequadas para o
atendimento não é apenas uma questão de conforto. Está diretamente relacionado
à qualidade e à segurança da intervenção profissional.
Cuidado com corredores, mensagens e
documentos
Uma das violações de privacidade mais
simples de evitar é a conversa inadequada em espaços comuns.
Comentar casos no corredor, no elevador,
na recepção ou em grupos de mensagens sem necessidade profissional pode expor
usuários. Mesmo sem mencionar o nome, a combinação de detalhes pode permitir a
identificação de determinada pessoa.
O mesmo cuidado deve existir com
documentos.
Em março de 2026, o CFESS alertou
publicamente para riscos éticos e legais relacionados à divulgação de
documentos profissionais na internet após receber informações sobre materiais
que aparentemente continham dados pessoais e sensíveis de usuários. O Conselho
chamou atenção tanto para o sigilo profissional quanto para a proteção de
dados.
O ambiente digital, portanto, não diminui a responsabilidade ética. Fotografar documentos, armazená-los de maneira inadequada ou compartilhar
informações por canais não autorizados pode produzir
exposição tão grave quanto uma conversa realizada em local público.
Registrar fatos sem transformar opiniões
em fatos
A ética também aparece na maneira de
escrever.
Compare estas duas frases:
“Família irresponsável e desinteressada.”
“Durante o atendimento, não foi localizado
familiar disponível para acompanhar o usuário.”
A primeira contém julgamento. A segunda
registra uma informação concreta.
Essa diferença é fundamental.
O prontuário e os documentos profissionais
não devem funcionar como espaço para opiniões pessoais, ironias ou julgamentos
morais. O registro precisa ser objetivo, pertinente e compatível com a
finalidade profissional.
Também não é necessário registrar todos os
detalhes revelados pelo usuário. O princípio continua sendo o mesmo: inserir
aquilo que possui pertinência para a intervenção e proteger informações que não
precisam circular.
Trabalho em equipe exige respeito entre
profissões
A ética profissional também orienta as
relações com os demais trabalhadores.
Uma UPA reúne profissionais de diferentes
áreas. Em determinados momentos podem existir divergências sobre
encaminhamentos, responsabilidades ou interpretação das necessidades do
usuário.
Discordar faz parte do trabalho.
Desrespeitar competências profissionais, não.
A Lei nº 8.662/1993 define competências e
atribuições próprias do assistente social, enquanto o Código de Ética protege
sua autonomia no exercício profissional.
Isso significa que o profissional não deve
aceitar automaticamente uma tarefa incompatível com suas atribuições apenas
porque outro integrante da equipe a solicitou. Também não deve invadir
competências pertencentes a outras profissões.
O objetivo do trabalho multiprofissional é
reunir conhecimentos diferentes em benefício do usuário, e não criar uma
disputa sobre qual profissão possui maior importância.
Um exemplo para pensar eticamente
Imagine uma adolescente atendida na UPA
após uma lesão. Durante uma conversa reservada, ela relata uma situação
delicada envolvendo violência. Pouco depois, um familiar procura o Serviço
Social e exige saber exatamente o que ela contou.
O que fazer?
Uma resposta inadequada seria revelar
imediatamente todas as informações porque “é da família”. Outra seria prometer
previamente à adolescente que absolutamente nada será comunicado em nenhuma
circunstância.
A postura profissional exige análise mais
cuidadosa.
É preciso considerar idade, natureza da situação,
preciso considerar idade, natureza da
situação, risco existente, legislação de proteção, regras de sigilo, protocolos
institucionais e quais informações eventualmente precisam ser compartilhadas
para garantir proteção.
O caso mostra por que ética não pode ser
reduzida a uma lista de respostas prontas.
A pergunta deixa de ser simplesmente “conto
ou não conto?” e passa a ser: “qual conduta protege direitos, respeita
as normas profissionais e responde adequadamente à situação concreta?”
Ética também significa reconhecer os
próprios limites
Um profissional ético não é aquele que
promete resolver todos os problemas apresentados.
É aquele que conhece suas competências,
reconhece limites, procura atualização quando necessário e evita oferecer
respostas para questões que não domina.
Os Parâmetros para Atuação de Assistentes
Sociais na Saúde foram desenvolvidos pelo CFESS justamente para oferecer
referências à intervenção profissional nesse campo. O próprio Conselho destaca
que esses parâmetros não devem funcionar como roteiro rígido, pois a prática
precisa ser analisada de forma contextualizada, considerando os aspectos
sociais e políticos que interferem na saúde dos usuários e nas condições de
trabalho.
Essa capacidade de refletir antes de agir
é especialmente necessária em ambientes de urgência, nos quais existe pressão
por respostas rápidas.
Para concluir
Ética, sigilo e respeito ao usuário não
são assuntos separados do cotidiano da UPA. Eles aparecem na conversa realizada
em uma sala, no registro inserido no prontuário, na informação compartilhada
com outro profissional, na maneira como uma família é tratada e até nas
palavras escolhidas para descrever determinada situação.
O assistente social pode ter acesso a
aspectos profundamente pessoais da vida dos usuários. Essa proximidade traz
responsabilidade. O Código de Ética determina que o sigilo profissional proteja
aquilo que chega ao conhecimento do profissional durante sua atuação e
estabelece limites inclusive para o compartilhamento de informações no trabalho
multidisciplinar.
Para quem está começando a estudar o tema,
uma orientação simples pode acompanhar toda esta aula: antes de perguntar,
registrar ou compartilhar uma informação, é importante saber por que ela é
necessária e como sua utilização afeta a pessoa atendida.
Essa postura ajuda a transformar
princípios éticos em atitudes concretas e contribui para uma atuação
profissional mais responsável, respeitosa e humana.
Referências
bibliográficas
BRASIL. Constituição da República
Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.
BRASIL. Lei nº 8.662, de 7 de junho de
1993. Dispõe sobre a profissão de Assistente Social e dá outras
providências. Brasília, DF, 1993.
BRASIL. Ministério da Saúde. Carta dos
Direitos dos Usuários da Saúde. 3. ed. Brasília, DF: Ministério da Saúde,
2011.
CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL. Código
de Ética Profissional do/a Assistente Social. 10. ed. Brasília, DF: CFESS.
CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL. Parâmetros
para a Atuação de Assistentes Sociais na Saúde. Brasília, DF: CFESS.
CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL. Resolução
CFESS nº 1.114, de 4 de setembro de 2025. Dispõe sobre as condições éticas
e técnicas para o exercício profissional da(o) Assistente Social. Brasília, DF:
CFESS, 2025.
CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL. Nota
técnica sobre sigilo profissional em atendimentos envolvendo pessoas com
deficiência junto com profissional de apoio ou acompanhante. Brasília, DF:
CFESS, 2026.
Aula 2 — Trabalho multiprofissional e
comunicação na urgência
Uma Unidade de Pronto Atendimento é um
ambiente em que diferentes profissionais precisam tomar decisões, compartilhar
informações e responder às necessidades dos usuários em pouco tempo. Médicos,
profissionais de enfermagem, assistentes sociais e outros trabalhadores podem
participar de diferentes momentos do cuidado. Por isso, saber trabalhar em
equipe é tão importante quanto dominar os conhecimentos específicos de cada
profissão.
As normas que organizam as UPAs determinam
que essas unidades disponham de equipe assistencial multiprofissional,
dimensionada de acordo com as necessidades do atendimento e observando as
regulamentações dos respectivos conselhos profissionais. A própria estrutura da
UPA, portanto, pressupõe atuação conjunta.
Entretanto, trabalhar junto não significa
fazer tudo junto. Uma equipe funciona melhor quando existe comunicação,
respeito e clareza sobre as responsabilidades de cada profissional.
Por que a UPA exige trabalho
multiprofissional?
Uma pessoa que procura uma UPA pode
apresentar necessidades bastante diferentes ao mesmo tempo. O problema que
motivou a procura pelo serviço pode ser clínico, mas durante o atendimento
também podem surgir questões familiares, sociais ou relacionadas à continuidade
do cuidado.
Imagine um homem de 74 anos atendido após uma queda. A equipe clínica avalia suas condições físicas e realiza os procedimentos
necessários. Durante a permanência na unidade, entretanto,
percebe-se que ele vive sozinho e demonstra dificuldade para explicar como
realiza os cuidados cotidianos.
A situação não deixa de ser clínica, mas
passa a apresentar outras dimensões.
É justamente por isso que diferentes
saberes podem ser necessários. O objetivo não é fazer com que todos os
profissionais realizem as mesmas tarefas, mas permitir que cada um contribua
dentro de sua formação e de suas competências.
O Ministério da Saúde define a UPA como um
serviço de complexidade intermediária, integrado à Atenção Básica, à atenção
hospitalar, à atenção domiciliar e ao SAMU 192. Além de trabalhar internamente
de maneira multiprofissional, a unidade precisa manter articulação com outros
componentes da rede.
Multiprofissionalidade e
interdisciplinaridade
Esses dois conceitos aparecem com
frequência na área da saúde e podem parecer semelhantes.
De forma introdutória, o trabalho
multiprofissional ocorre quando profissionais de diferentes áreas
participam da assistência, cada qual oferecendo conhecimentos e intervenções
relacionados à sua formação.
Já a perspectiva interdisciplinar
procura favorecer maior diálogo entre esses conhecimentos. Em vez de cada
profissional observar apenas uma pequena parte da situação sem conversar com os
demais, existe troca de informações e construção compartilhada da compreensão
do caso, preservando as competências específicas.
Isso não elimina as diferenças
profissionais.
Um assistente social não se transforma em
enfermeiro por participar de uma discussão conjunta. Da mesma forma, um médico
não passa a executar atribuições privativas do Serviço Social porque
determinada situação possui uma dimensão social.
A interdisciplinaridade aproxima os
saberes, mas não apaga suas fronteiras.
O lugar do Serviço Social na equipe
O assistente social possui competências
profissionais definidas pela Lei nº 8.662/1993. Entre elas estão elaborar e
avaliar políticas sociais, encaminhar providências, prestar orientação social e
orientar indivíduos e grupos na identificação e utilização de recursos para
atendimento e defesa de direitos. A legislação também estabelece atribuições
privativas relacionadas especificamente à matéria de Serviço Social.
Na saúde, os Parâmetros para a Atuação
de Assistentes Sociais na Saúde, elaborados pelo CFESS, constituem
importante referência para a intervenção profissional e para a compreensão das
competências e atribuições nesse campo.
Isso
ajuda a evitar uma imagem equivocada
bastante comum: a de que o assistente social é o profissional responsável por
qualquer situação que pareça “social”.
Uma pessoa estar sem acompanhante não significa automaticamente que o caso pertence ao Serviço Social. Uma dificuldade administrativa também não deve ser transferida automaticamente para esse profissional. É necessário compreender a natureza da demanda e verificar qual setor ou profissão possui competência para respondê-la.
Identificar uma necessidade não significa
assumir sua execução
Este é um aprendizado especialmente
importante para quem está começando.
Um assistente social pode perceber que
determinado usuário apresenta sinais de piora clínica. Isso não significa que
deva realizar uma avaliação médica. Sua responsabilidade será comunicar a
situação aos profissionais competentes.
Da mesma maneira, um enfermeiro pode
perceber durante o atendimento que determinada pessoa relata uma dificuldade
social relevante. Ele não precisa assumir a intervenção própria do Serviço
Social; poderá comunicar a necessidade quando houver pertinência.
Portanto, uma boa equipe não funciona
segundo a lógica:
“Isso não é problema meu.”
Mas também não deve funcionar segundo:
“Todos podem fazer tudo.”
A postura mais adequada seria:
“Reconheço essa necessidade e sei qual
profissional ou serviço precisa participar da resposta.”
Essa diferença fortalece o trabalho em
equipe sem ultrapassar limites profissionais.
Comunicação é parte do cuidado
Uma equipe pode reunir excelentes
profissionais e ainda assim oferecer atendimento fragmentado se eles não
conseguirem se comunicar adequadamente.
Na urgência, esse problema pode ser ainda
mais grave porque decisões precisam ser tomadas com rapidez. Uma informação
importante que não chega ao profissional responsável pode atrasar uma
intervenção ou prejudicar a continuidade do cuidado.
A Rede de Atenção às Urgências é
organizada justamente com a perspectiva de atuação integrada e articulada entre
seus diferentes componentes. O Ministério da Saúde destaca que essa integração
é necessária para oferecer assistência qualificada.
Dentro da própria UPA, essa lógica também
é fundamental.
Comunicar bem não significa falar muito.
Significa transmitir a informação correta, pertinente e necessária, para
a pessoa que precisa conhecê-la.
Uma comunicação objetiva evita ruídos
Considere duas formas de apresentar a
mesma situação durante uma discussão de equipe.
Na primeira, alguém
afirma:
“Essa família é muito complicada e ninguém
quer cuidar do paciente.”
Na segunda:
“O usuário informou morar sozinho. Foram
realizados contatos com dois familiares indicados por ele, mas nenhum informou
disponibilidade para acompanhá-lo neste momento.”
A segunda comunicação é mais útil porque
apresenta fatos concretos em vez de julgamentos.
Expressões como “família desestruturada”,
“paciente difícil”, “mãe irresponsável” ou “usuário problemático” podem
esconder preconceitos e pouco contribuem para que a equipe compreenda aquilo
que efetivamente está acontecendo.
Uma comunicação profissional deve procurar
separar fato, interpretação e opinião.
Essa postura também facilita decisões.
Quando a equipe conhece os elementos concretos de uma situação, consegue
discutir responsabilidades e possibilidades com maior clareza.
Compartilhar somente o que é necessário
Trabalho multiprofissional envolve troca
de informações, mas não autoriza a divulgação irrestrita da vida do usuário.
Durante um atendimento social podem surgir
informações sobre renda, relações familiares, violência, moradia, conflitos ou
outras questões pessoais. Nem todos esses dados precisam ser conhecidos por
toda a equipe.
O profissional precisa avaliar quais
informações possuem relação com o atendimento e são necessárias para a atuação
dos demais trabalhadores.
Por exemplo, se determinada informação
familiar interfere diretamente na segurança ou na continuidade do cuidado, pode
existir razão profissional para comunicá-la dentro dos limites éticos
aplicáveis. Por outro lado, detalhes íntimos sem relevância para a intervenção
não precisam circular apenas porque foram conhecidos durante o atendimento.
A comunicação em equipe precisa caminhar junto com o respeito ao sigilo e à privacidade.
Discussão de casos
A discussão de casos pode ser uma
ferramenta valiosa para equipes que lidam com situações complexas.
Imagine uma pessoa idosa atendida
repetidamente na UPA, com dificuldades de continuidade do acompanhamento e
sinais de fragilidade em sua rede de apoio. Observar apenas cada passagem
isoladamente pode impedir a equipe de perceber o conjunto da situação.
Uma discussão profissional permite reunir
diferentes informações e perspectivas.
O médico pode apresentar elementos relacionados às condições clínicas. A enfermagem pode trazer observações realizadas durante a assistência. O Serviço Social pode contribuir com elementos pertinentes à dimensão social identificada. Outros
profissionais podem
acrescentar conhecimentos de suas respectivas áreas.
O objetivo não é descobrir quem possui a
“melhor interpretação”, mas construir uma compreensão mais completa do caso e
definir responsabilidades.
Quando a equipe pede algo que não pertence
ao Serviço Social
Nem toda solicitação feita por outro
profissional precisa ser executada automaticamente.
Imagine que alguém diga:
“Chama o Serviço Social para convencer a
família a levar o paciente embora.”
A frase já apresenta um problema.
Convencer uma família a tomar determinada decisão não define, por si só, uma
atribuição profissional do assistente social.
O primeiro passo é compreender a situação.
Existe uma questão social que precisa ser
avaliada? A família recebeu informações adequadas? Há dificuldade relacionada à
rede de apoio? Existe conflito? A questão pertence a outro setor? Há
necessidade de intervenção conjunta?
O assistente social pode dialogar com a
equipe, esclarecer suas competências e participar da construção de alternativas
quando houver demanda pertinente ao Serviço Social.
A Lei nº 8.662/1993 é importante
justamente porque estabelece competências e atribuições profissionais,
fornecendo referências para esses limites.
Autonomia profissional não significa
isolamento
Defender as próprias atribuições não
significa trabalhar de maneira isolada.
Às vezes, o profissional pode cair no
extremo oposto e responder a qualquer solicitação dizendo simplesmente que
determinada questão “não é do Serviço Social”.
Mesmo quando uma atividade não pertence à
profissão, pode ser necessário dialogar com a equipe para esclarecer por que
ela não é atribuição do assistente social e ajudar a identificar o fluxo
adequado.
O trabalho interdisciplinar exige
capacidade de conversar sobre responsabilidades.
Isso contribui para que a equipe deixe de depender de hábitos institucionais e passe a compreender melhor o papel de cada profissão.
Conflitos fazem parte do trabalho em
equipe
Diferenças de opinião são inevitáveis.
Em uma UPA, a pressão por leitos, a
necessidade de agilizar atendimentos, o volume de usuários e a complexidade das
situações podem produzir tensões. Profissionais podem discordar sobre
prioridades, encaminhamentos ou responsabilidades.
O problema não é existir divergência. O
problema aparece quando a divergência se transforma em desrespeito, disputa
pessoal ou tentativa de impor determinada conduta sem considerar as
competências profissionais.
Uma comunicação madura
procura retornar ao
problema concreto:
Qual é a necessidade do usuário?
Qual é a responsabilidade da instituição?
Qual profissional possui competência para
cada ação?
Que informações ainda faltam?
Existe algum serviço da rede que precisa
participar?
Essas perguntas deslocam a discussão das
relações pessoais para a construção de uma resposta profissional.
A comunicação também acontece com a rede
externa
O trabalho em equipe não termina nas
paredes da UPA.
A regulamentação das unidades determina
articulação com Atenção Básica, SAMU 192, Atenção Domiciliar, Atenção
Hospitalar e outros serviços por meio de fluxos de referência e
contrarreferência.
Assim, determinados casos exigem
comunicação com profissionais que nem sequer trabalham na mesma instituição.
Essa comunicação precisa ser igualmente
clara. Encaminhar um usuário sem explicar adequadamente a necessidade pode
fazer com que ele chegue ao próximo serviço sem que exista compreensão do
motivo da referência.
Ao mesmo tempo, devem ser compartilhadas
apenas as informações pertinentes à continuidade do atendimento, respeitando as
regras profissionais de sigilo e proteção do usuário.
Um exemplo prático
Imagine Roberto, 62 anos, atendido na UPA
após apresentar uma piora de uma condição crônica. Depois da estabilização, a
equipe percebe que ele retornou várias vezes ao serviço nos últimos meses.
Um profissional comenta:
“Ele não segue as orientações.”
Durante o atendimento social, porém,
aparecem outros elementos. Roberto relata que tem dificuldade para chegar ao
serviço onde realiza acompanhamento e que depende de trabalhos ocasionais para
sobreviver. Quando consegue trabalho, teme perder a diária caso falte.
A informação não elimina a
responsabilidade de Roberto sobre seus cuidados, mas modifica a compreensão da
situação.
Em vez de simplesmente classificá-lo como
alguém que “não adere”, a equipe passa a perceber obstáculos concretos que
podem estar interferindo na continuidade do tratamento.
O Serviço Social não resolverá sozinho
todas essas dificuldades. Entretanto, poderá contribuir dentro de suas
competências para analisar a situação, orientar e identificar possibilidades de
articulação quando pertinentes.
Esse exemplo mostra a importância de
reunir diferentes olhares antes de transformar uma interpretação em conclusão.
Trabalhar em equipe também é saber pedir
ajuda
Nenhum profissional domina todos os
assuntos.
Diante de uma situação que ultrapassa seus conhecimentos, buscar
orientação ou participação de outro profissional não
demonstra incompetência. Pelo contrário, pode representar uma atitude
responsável.
Na urgência, essa postura é
particularmente importante porque improvisações podem produzir consequências
sérias.
O profissional precisa reconhecer quando
possui elementos suficientes para agir, quando precisa discutir a situação com
a equipe e quando necessita consultar normas, protocolos ou outros serviços.
A própria organização da UPA pressupõe
equipe multiprofissional e articulação com a rede justamente porque nenhuma
profissão consegue responder isoladamente à diversidade das necessidades
encontradas nesse ambiente.
Para concluir
O trabalho multiprofissional em uma UPA
não significa simplesmente reunir diferentes profissões no mesmo prédio. Ele
exige comunicação, reconhecimento das competências, compartilhamento
responsável de informações e capacidade de construir respostas conjuntas.
Para o Serviço Social, trabalhar em equipe
significa contribuir com o conhecimento próprio da profissão sem assumir
tarefas que não lhe pertencem e sem se afastar das necessidades que exigem
diálogo com outros trabalhadores.
A Lei nº 8.662/1993 estabelece
competências e atribuições específicas do assistente social, enquanto os
Parâmetros do CFESS para atuação na saúde oferecem referências para compreender
essa intervenção no contexto dos serviços de saúde.
Para o iniciante, talvez a ideia mais importante seja esta: trabalho em equipe não apaga fronteiras profissionais; ele cria pontes entre elas. Uma equipe funciona melhor quando seus integrantes sabem o que lhes cabe, reconhecem aquilo que pertence aos demais e conseguem conversar de maneira clara e respeitosa tendo as necessidades e os direitos do usuário como referência.
Referências bibliográficas
BRASIL. Lei nº 8.662, de 7 de junho de
1993. Dispõe sobre a profissão de Assistente Social e dá outras
providências. Brasília, DF, 1993.
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria
nº 10, de 3 de janeiro de 2017. Redefine as diretrizes de modelo
assistencial e financiamento de UPA 24h de Pronto Atendimento como componente
da Rede de Atenção às Urgências, no âmbito do Sistema Único de Saúde. Brasília,
DF: Ministério da Saúde, 2017.
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria
de Consolidação nº 3, de 28 de setembro de 2017. Consolidação das normas
sobre as redes do Sistema Único de Saúde. Brasília, DF: Ministério da Saúde,
2017.
BRASIL. Ministério da Saúde. Rede de Atenção às Urgências e
Emergências. Brasília, DF: Ministério da Saúde.
BRASIL. Ministério da Saúde. UPA 24h –
Unidade de Pronto Atendimento. Brasília, DF: Ministério da Saúde.
CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL. Parâmetros
para a Atuação de Assistentes Sociais na Saúde. Brasília, DF: CFESS.
Aula 3 — Construindo uma atuação
responsável diante de situações complexas
O cotidiano de uma Unidade de Pronto
Atendimento coloca os profissionais diante de situações que nem sempre
apresentam respostas simples. Uma pessoa pode chegar por causa de um problema
clínico e, durante o atendimento, revelar violência, ausência de apoio
familiar, dificuldade para continuar o tratamento ou outras condições sociais
relevantes. Em casos assim, agir rapidamente continua sendo importante, mas
rapidez não pode significar improvisação.
A UPA integra a Rede de Atenção às
Urgências e Emergências e funciona como serviço de complexidade intermediária,
articulado à Atenção Básica, ao SAMU 192, à atenção hospitalar e à atenção
domiciliar. O Ministério da Saúde destaca que os diferentes componentes dessa
rede precisam atuar de maneira integrada e coordenada.
Para o Serviço Social, isso significa que
uma atuação responsável não depende apenas de conhecer técnicas ou saber para
onde encaminhar alguém. É necessário compreender a situação, identificar
direitos e necessidades, reconhecer os limites da própria intervenção e
dialogar com profissionais e serviços que possam participar da resposta.
Antes de agir, é preciso compreender
Em ambientes de urgência existe uma
pressão natural para encontrar soluções rápidas. Quando aparece um problema
social, pode surgir a expectativa de que o assistente social imediatamente
“resolva o caso”.
Mas situações complexas raramente
funcionam dessa maneira.
Imagine uma pessoa idosa atendida após uma
queda. Clinicamente, ela apresenta condições de deixar a UPA, mas informa que
mora sozinha e demonstra dificuldade para organizar os cuidados necessários em
casa.
Uma resposta precipitada poderia ser
procurar imediatamente algum familiar. Outra seria concluir que existe
abandono. Uma terceira seria simplesmente encaminhar o usuário para outro
serviço.
Nenhuma dessas decisões deveria ser tomada
antes de compreender melhor a realidade.
É necessário saber, por exemplo, se essa pessoa possui autonomia, quem integra sua rede de apoio, se já recebe acompanhamento, quais dificuldades concretas apresenta e se existe alguma situação de risco. A intervenção começa pela análise, e
não pela solução
previamente escolhida.
Os Parâmetros para a Atuação de
Assistentes Sociais na Saúde, do CFESS, foram desenvolvidos como referência
para a intervenção profissional e não como um roteiro rígido. O próprio
Conselho ressalta que a prática precisa ser contextualizada, considerando as
condições sociais e políticas que interferem na saúde e no trabalho
profissional.
Identificar qual é realmente a demanda
Em uma situação complexa, a pergunta “o
que aconteceu?” é importante, mas geralmente não é suficiente.
Também precisamos perguntar:
Qual é a necessidade apresentada?
Existe risco imediato?
Quais direitos estão envolvidos?
O que cabe à UPA?
O que pertence às competências do Serviço
Social?
Quais outros profissionais precisam
participar?
Existe necessidade de articulação com
outro serviço?
Essas perguntas ajudam a organizar o
raciocínio profissional.
Um usuário pode pedir algo que não
corresponde exatamente à necessidade principal. Da mesma maneira, outro
profissional pode encaminhar determinada situação ao Serviço Social por
acreditar que qualquer questão familiar ou social pertence automaticamente ao
assistente social.
A Lei nº 8.662/1993 estabelece
competências e atribuições específicas da profissão. Entre as competências
estão orientação social, encaminhamento de providências, planejamento e
avaliação de políticas sociais e realização de estudos socioeconômicos para determinadas
finalidades. A legislação também estabelece atividades privativas relacionadas
especificamente à matéria de Serviço Social.
Portanto, analisar a demanda também
significa verificar quem possui competência para fazer o quê.
Evitar respostas automáticas
Um dos maiores riscos em situações
complexas é transformar experiências diferentes em respostas padronizadas.
Pessoa em situação de rua: encaminhar para
determinado serviço.
Pessoa idosa sem acompanhante: localizar a
família.
Usuário em dificuldade econômica:
encaminhar para a assistência social.
Pessoa que retorna frequentemente à UPA:
considerar que “não segue o tratamento”.
Essas associações podem parecer práticas,
mas simplificam excessivamente a realidade.
Considere dois usuários que vivem
sozinhos. O primeiro possui autonomia, mantém contato frequente com amigos e
familiares e organiza normalmente sua rotina. O segundo apresenta dificuldades
importantes para cuidar de si e não possui uma rede de apoio identificada.
A informação “mora sozinho” é a mesma, mas as situações são completamente
diferentes.
O mesmo acontece com pobreza, desemprego,
situação de rua ou conflitos familiares. Nenhuma dessas condições produz
automaticamente uma única intervenção profissional.
A resposta precisa nascer da análise do
caso concreto.
Trabalhar com fatos, não com rótulos
Uma atuação responsável também depende da
linguagem utilizada.
Expressões como “família desestruturada”,
“paciente problemático”, “mãe negligente” ou “usuário que não adere” podem
parecer descrições, mas frequentemente carregam interpretações e julgamentos.
É preferível trabalhar com informações
concretas.
Em vez de registrar que “a família
abandonou o paciente”, por exemplo, pode ser mais adequado registrar quais
familiares foram identificados, quais contatos foram realizados e quais
informações foram fornecidas.
Isso não significa ignorar situações de
abandono ou violência quando realmente existem. Significa que conclusões
importantes precisam ser fundamentadas.
Essa postura também melhora a comunicação
entre os profissionais. Uma equipe consegue tomar decisões melhores quando
recebe informações objetivas em vez de avaliações morais sobre usuários e
famílias.
Situações de violência exigem atenção
especial
Entre as situações complexas encontradas
nos serviços de urgência estão aquelas relacionadas à violência. O Ministério
da Saúde reconhece violências e acidentes entre os problemas relevantes
presentes no cenário das urgências e emergências.
Imagine uma mulher que chega à UPA
apresentando uma lesão. Durante uma conversa, relata que foi agredida pelo
companheiro e demonstra medo de voltar para casa.
Nesse momento, não seria adequado
pressioná-la, culpabilizá-la ou fazer promessas impossíveis. Também não é
correto tratar a questão como um problema que o Serviço Social deve solucionar
isoladamente.
A situação pode exigir atendimento
clínico, proteção, atuação de diferentes profissionais, observância da
legislação pertinente e articulação com serviços da rede.
Cada caso precisa ser analisado segundo
suas particularidades. Situações envolvendo crianças, adolescentes, pessoas
idosas e outros públicos também podem estar submetidas a normas específicas de
proteção.
O fundamental é compreender que situações
complexas exigem respostas fundamentadas, não improvisadas.
Alta clínica não significa necessariamente
encerramento de todas as necessidades
Essa distinção é particularmente
importante em uma UPA.
Uma pessoa pode apresentar condições clínicas para deixar a unidade e, ao
mesmo tempo, possuir necessidades sociais
que precisam ser consideradas dentro das competências institucionais e
profissionais.
Isso não significa que o assistente social
tenha poder para determinar sozinho uma alta clínica ou que a UPA deva manter
indefinidamente uma pessoa por causa de um problema social.
Significa que as diferentes dimensões
precisam ser comunicadas.
A regulamentação das UPAs estabelece que
essas unidades devem prestar atendimento resolutivo e qualificado, estabilizar
pacientes, realizar avaliação inicial e definir a necessidade de encaminhamento
para serviços de maior complexidade. Também determina sua articulação com outros
pontos da rede por fluxos de referência e contrarreferência.
Portanto, a continuidade do cuidado
depende da compreensão dos limites de cada serviço e das necessidades
identificadas.
A articulação com a rede precisa ter
finalidade
Quando uma necessidade ultrapassa a
capacidade de resposta da UPA, pode ser necessário acionar outro serviço. Mas
articulação não significa procurar aleatoriamente alguma instituição disposta a
“assumir o caso”.
A pergunta correta é:
Qual serviço possui competência para
responder a esta necessidade?
Esse raciocínio evita encaminhamentos
desnecessários.
A própria Rede de Atenção às Urgências foi
organizada para articular diferentes pontos assistenciais e estabelecer fluxos
e referências adequadas. Ela reúne Atenção Básica, SAMU 192, UPA 24h, unidades
hospitalares, atenção domiciliar e outros componentes.
No campo social, o mesmo princípio é útil:
conhecer a rede significa entender a finalidade de seus diferentes serviços.
Um bom encaminhamento não acontece porque
determinado telefone está em uma lista. Ele acontece porque existe
correspondência entre a necessidade identificada e aquilo que o serviço
acionado efetivamente pode oferecer.
Conhecer o território muda a qualidade da
intervenção
O funcionamento das redes varia entre
municípios e regiões. Por isso, o profissional precisa conhecer a realidade
onde atua.
Quais serviços existem? Quais são seus
horários? Quem pode acessá-los? Como ocorre o encaminhamento? Existem fluxos
pactuados? Quem deve ser contatado em uma situação específica?
Esse conhecimento não é adquirido uma
única vez.
Redes mudam. Serviços podem ser
reorganizados, fluxos podem ser alterados e novas normas podem surgir. Por
isso, atualização profissional faz parte da qualidade da intervenção.
Conhecer o território também ajuda a evitar promessas que não
podem ser cumpridas. Não é adequado dizer ao usuário que determinado serviço “resolverá seu problema” quando não se conhece sua competência ou suas condições de acesso.
Decidir em equipe não significa diluir
responsabilidades
Situações complexas frequentemente exigem
discussão entre diferentes profissionais.
A regulamentação federal determina que as
UPAs possuam equipe assistencial multiprofissional compatível com suas
necessidades.
Isso permite reunir diferentes
conhecimentos diante de uma mesma situação. Entretanto, a decisão compartilhada
não elimina as responsabilidades específicas.
Se existe uma questão clínica, ela deve
ser avaliada pelos profissionais habilitados para isso. Se existe uma demanda
pertinente ao Serviço Social, o assistente social contribui dentro de suas
competências. Se outra área precisa participar, ela deve ser acionada.
Uma equipe madura consegue dizer:
“Precisamos construir essa resposta
juntos, mas cada profissional responderá pelo que lhe compete.”
Essa lógica protege tanto os usuários
quanto os trabalhadores.
Reconhecer limites também é uma forma de
responsabilidade
Nem sempre haverá uma solução satisfatória
e imediata.
Pode faltar determinado serviço no
território. A rede familiar pode não estar disponível. Um equipamento público
pode possuir limitações. O próprio usuário pode fazer uma escolha diferente
daquela que os profissionais considerariam ideal.
Essas situações podem produzir frustração,
mas o assistente social não deve prometer aquilo que não consegue garantir.
Reconhecer limites não significa ser
indiferente.
Significa explicar possibilidades reais,
orientar adequadamente, registrar as providências pertinentes e buscar
alternativas dentro das competências profissionais e institucionais.
Também significa reconhecer quando é
necessário consultar uma norma, discutir com a equipe, procurar supervisão ou
buscar orientação profissional. Ninguém precisa conhecer imediatamente a
resposta para todas as situações.
Planejamento também existe na urgência
A palavra “planejamento” pode parecer
incompatível com um ambiente em que tudo acontece rapidamente. Entretanto,
quanto mais complexo é o serviço, maior a necessidade de organizar respostas
previamente.
Fluxos para situações recorrentes,
conhecimento da rede, formas de comunicação, registros adequados e definição de
responsabilidades reduzem improvisações.
A Lei nº 8.662/1993 inclui diferentes atividades de planejamento, elaboração, execução e avaliação no
conjunto das
competências e atribuições profissionais do Serviço Social.
O planejamento também pode nascer da
observação do cotidiano.
Se uma equipe percebe que determinado tipo
de demanda aparece repetidamente e sempre produz dúvidas ou conflitos, talvez
não seja suficiente resolver cada caso isoladamente. Pode ser necessário
discutir o fluxo institucional, estabelecer interlocução com outros serviços ou
rever procedimentos.
Assim, situações individuais também podem
revelar problemas na própria organização do atendimento.
Educação permanente faz parte do trabalho
Leis, normas, políticas públicas e
serviços mudam. A realidade social também muda.
Por isso, uma atuação responsável exige
atualização.
Os Parâmetros do CFESS constituem uma
referência importante para o trabalho na saúde, mas o próprio Conselho ressalta
que eles não devem engessar o exercício profissional. A intervenção precisa ser
contextualizada e analisada diante das condições concretas de trabalho e da
realidade dos usuários.
Isso significa estudar legislação,
acompanhar normas profissionais, conhecer protocolos institucionais, participar
de discussões de equipe e atualizar o conhecimento sobre a rede.
Educação permanente não deve ser entendida
como reconhecimento de incompetência. É justamente o contrário: profissionais
responsáveis sabem que nenhuma formação inicial consegue antecipar todas as
situações que aparecerão ao longo da prática.
Um caso para reunir os conhecimentos
Imagine Sebastião, 73 anos, atendido na
UPA após uma queda. Depois da avaliação e do tratamento, apresenta condições
clínicas para continuidade dos cuidados fora da unidade.
Durante o atendimento, entretanto, relata
morar sozinho. Afirma que uma filha vive em outro município, mas pede que ela
não seja chamada porque “não quer incomodar ninguém”. Também informa que está
com dificuldade para caminhar e que nas últimas semanas tem dependido de um
vizinho para comprar alimentos.
Qual seria a resposta correta?
A pergunta é propositalmente difícil
porque não existe informação suficiente para uma solução automática.
Seria necessário compreender melhor a
autonomia de Sebastião, suas condições atuais, sua rede de apoio, suas escolhas
e as necessidades identificadas pela equipe. Também seria preciso distinguir
aquilo que pertence à decisão clínica, aquilo que constitui demanda para o
Serviço Social e aquilo que eventualmente exige participação de outros
serviços.
Telefonar imediatamente para a filha sem analisar
imediatamente para a filha sem
analisar a situação pode desconsiderar a autonomia do usuário. Simplesmente
mandá-lo para casa porque recebeu alta clínica também pode ignorar elementos
importantes. Encaminhá-lo automaticamente para algum serviço social, sem
conhecer a necessidade, pode apenas transferir o problema.
O caminho responsável começa pela análise
da situação.
Esse é justamente o principal aprendizado
desta aula.
Para concluir
Situações complexas fazem parte do
cotidiano das UPAs porque as pessoas não chegam aos serviços de saúde separadas
de suas histórias, relações familiares e condições de vida. Ao mesmo tempo, a
UPA possui finalidade e limites próprios dentro da Rede de Atenção às
Urgências. O Ministério da Saúde a define como serviço de complexidade
intermediária integrado aos demais pontos da rede.
Para o Serviço Social, construir uma
atuação responsável significa evitar respostas automáticas, compreender a
demanda, identificar direitos, respeitar a autonomia, reconhecer competências
profissionais e articular serviços quando necessário.
Talvez a principal habilidade diante de
uma situação difícil seja aprender a não começar pela solução. Primeiro
é preciso compreender o problema. Depois, identificar responsabilidades e
possibilidades. Somente então é possível construir uma intervenção tecnicamente
fundamentada, ética e compatível com a realidade.
Também é importante reafirmar que este curso possui finalidade introdutória. Conhecer os processos de análise e intervenção não habilita o estudante a exercer a profissão. A Lei nº 8.662/1993 estabelece formação específica e registro no CRESS para o exercício profissional de Assistente Social.
Referências bibliográficas
BRASIL. Constituição da República
Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.
BRASIL. Lei nº 8.080, de 19 de setembro
de 1990. Dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação
da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes.
Brasília, DF, 1990.
BRASIL. Lei nº 8.662, de 7 de junho de
1993. Dispõe sobre a profissão de Assistente Social e dá outras
providências. Brasília, DF, 1993.
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria
de Consolidação nº 3, de 28 de setembro de 2017. Consolidação das normas
sobre as redes do Sistema Único de Saúde. Brasília, DF: Ministério da Saúde,
2017.
BRASIL. Ministério da Saúde. Rede de
Atenção às Urgências e Emergências. Brasília, DF: Ministério da Saúde.
BRASIL. Ministério da
Saúde. UPA 24h –
Unidade de Pronto Atendimento. Brasília, DF: Ministério da Saúde.
CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL. Código
de Ética Profissional do/a Assistente Social. Brasília, DF: CFESS.
CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL. Parâmetros para a Atuação de Assistentes Sociais na Saúde. Brasília, DF: CFESS.
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