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INTRODUÇÃO
À ATUAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL EM UNIDADES DE PRONTO ATENDIMENTO (UPA)
Módulo 1 — A Upa, o Sus e o Lugar do
Serviço Social
Aula 1 — Compreendendo o SUS e a Rede de
Atenção às Urgências
Para compreender a atuação do Serviço
Social em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), é importante começar pelo
cenário mais amplo no qual essa unidade está inserida. A UPA não funciona de
maneira isolada: ela faz parte do Sistema Único de Saúde (SUS) e, mais
especificamente, de uma rede organizada para atender situações de urgência e
emergência. Entender essa estrutura ajuda a perceber por que o cuidado em saúde
depende da comunicação entre serviços, profissionais e diferentes políticas
públicas.
O SUS e o direito à saúde
O Sistema Único de Saúde representa uma
mudança importante na maneira como o Brasil compreende a saúde pública. A
Constituição Federal de 1988 estabeleceu a saúde como direito de todos e dever
do Estado. A partir dessa concepção, o acesso aos serviços públicos de saúde
deixou de estar relacionado apenas à condição de trabalhador ou à contribuição
previdenciária e passou a ser reconhecido como um direito de cidadania.
Atualmente, o SUS reúne uma extensa rede
de ações e serviços. Ela inclui desde promoção da saúde e prevenção de doenças
até consultas, vacinação, exames, atendimento de urgência e emergência,
assistência hospitalar, procedimentos especializados e tratamentos de alta
complexidade. O Ministério da Saúde destaca que o sistema busca garantir acesso
universal, integral e gratuito à população.
Essa amplitude é especialmente importante
para quem pretende compreender o trabalho realizado nas UPAs. Uma pessoa que
procura atendimento de urgência não deixa sua realidade social do lado de fora
da unidade. Ela chega com uma história, condições de moradia, relações
familiares, situação econômica, vínculos comunitários, dificuldades e direitos.
Por isso, cuidar da saúde significa olhar para a pessoa de forma mais ampla do
que simplesmente identificar uma doença ou tratar um sintoma.
Universalidade, integralidade e equidade
Três princípios ajudam a compreender a
lógica do SUS: universalidade, integralidade e equidade.
A universalidade significa reconhecer que a saúde é direito de todas as pessoas. O acesso aos serviços públicos de saúde não deve depender de ocupação profissional, condição econômica ou outras características pessoais e sociais. Na prática, quando alguém necessita do SUS, sua condição de cidadão fundamenta esse
direito.
A integralidade amplia esse entendimento.
Ela propõe que a pessoa seja considerada em suas diferentes necessidades e que
promoção, prevenção, tratamento e reabilitação estejam articulados. O
Ministério da Saúde também relaciona a integralidade à necessidade de
integração entre a saúde e outras políticas públicas que repercutem na
qualidade de vida.
Essa ideia é muito importante para
compreender posteriormente a presença do Serviço Social no campo da saúde.
Imagine uma pessoa idosa que chega a uma UPA após sofrer uma queda. O
atendimento imediato pode identificar e tratar uma lesão, mas durante a permanência
na unidade a equipe descobre que ela mora sozinha, apresenta dificuldades para
realizar atividades cotidianas e não possui uma rede familiar próxima. O
problema de saúde continua sendo fundamental, mas claramente não é a única
questão presente naquela situação.
Já a equidade parte do reconhecimento de
que as pessoas apresentam necessidades diferentes. Garantir o direito à saúde,
portanto, não significa simplesmente oferecer exatamente a mesma resposta para
todos, mas considerar desigualdades e necessidades específicas. O Ministério da
Saúde relaciona a equidade à justiça social e ao reconhecimento de condições de
vida, como habitação, trabalho, renda e acesso à educação, que podem afetar
diretamente a saúde.
Isso ajuda a compreender por que aspectos
sociais precisam ser considerados no cuidado. Uma pessoa com recursos
financeiros, apoio familiar e condições adequadas de moradia pode ter
possibilidades diferentes de continuidade do tratamento quando comparada a
outra pessoa que enfrenta insegurança alimentar, situação de rua, ausência de
vínculos familiares ou dificuldades para chegar aos serviços de saúde.
Saúde não é apenas ausência de doença
Um dos aprendizados importantes para quem
começa a estudar o SUS é abandonar uma compreensão excessivamente limitada de
saúde. Doença e tratamento são componentes fundamentais da assistência, mas as
condições em que as pessoas nascem, crescem, vivem e trabalham também
interferem em sua saúde.
Moradia, renda, alimentação, educação,
trabalho, transporte, ambiente, relações familiares e acesso aos serviços
públicos são exemplos de elementos que podem repercutir sobre as condições de
vida e saúde. O próprio Ministério da Saúde reconhece que diferentes condições
sociais produzem desigualdades e precisam ser consideradas na promoção da
equidade.
Pense, por exemplo, em duas pessoas que recebem a mesma
por exemplo, em duas pessoas que
recebem a mesma orientação para continuar o acompanhamento em outro serviço. A
primeira possui transporte, endereço fixo, apoio familiar e facilidade para
compreender e organizar as próximas etapas. A segunda vive em situação de
extrema vulnerabilidade e não possui qualquer rede de apoio. A orientação pode
ser tecnicamente igual, mas as possibilidades concretas de realizá-la são muito
diferentes.
Esse olhar é particularmente relevante
para o Serviço Social porque permite compreender que determinadas necessidades
apresentadas pelos usuários estão relacionadas às condições sociais em que
vivem. Entretanto, reconhecer uma necessidade não significa que um único
profissional deva resolvê-la sozinho. A lógica do SUS pressupõe justamente
articulação.
O SUS funciona como uma rede
Para quem observa o sistema pela primeira
vez, pode parecer que UBS, SAMU, UPA e hospital são estruturas independentes.
Na realidade, esses serviços precisam funcionar de maneira articulada.
As Redes de Atenção à Saúde procuram
organizar os diferentes pontos do SUS para que o usuário tenha acesso ao
cuidado adequado às suas necessidades. Nessa organização, cada serviço possui
determinada função, e a comunicação entre os pontos da rede contribui para a
continuidade do cuidado.
A Atenção Primária à Saúde ocupa uma
posição especialmente importante. Ela é considerada o primeiro nível de atenção
e a principal porta de entrada do SUS, envolvendo promoção e proteção da saúde,
prevenção de agravos, diagnóstico, tratamento, reabilitação, redução de danos e
manutenção da saúde. Também exerce papel de comunicação e coordenação dentro da
rede.
Isso significa que nem toda necessidade de
saúde exige uma UPA ou hospital. Cada serviço possui uma finalidade, e
organizar adequadamente esses fluxos permite utilizar os recursos de maneira
mais coerente e oferecer continuidade ao atendimento.
A Rede de Atenção às Urgências
Dentro dessa organização existe a Rede
de Atenção às Urgências e Emergências (RUE). Seu objetivo é organizar a
assistência às situações de urgência e emergência de forma coordenada entre os
diferentes pontos de atenção, estabelecendo fluxos e referências adequados.
Essa rede reúne diferentes componentes, entre eles Atenção Básica, SAMU 192, salas de estabilização, UPA 24h, unidades hospitalares, atenção domiciliar e ações de promoção, prevenção e vigilância em saúde. Para funcionar adequadamente, esses componentes precisam atuar de forma
integrada.
A lógica fica mais fácil de entender com
uma situação cotidiana. Uma pessoa pode sofrer um acidente grave em uma via
pública e receber atendimento inicial do SAMU. Dependendo de suas condições,
será encaminhada para o serviço adequado. Em outra situação, alguém pode
procurar diretamente uma UPA com um quadro agudo. Após avaliação e
estabilização, poderá retornar para casa com orientações ou, caso necessite de
cuidados de maior complexidade, ser encaminhado a uma unidade hospitalar.
O SAMU 192 integra essa rede como
componente móvel de atendimento pré-hospitalar. O serviço funciona 24 horas e
busca chegar precocemente às pessoas em situações de urgência, prestando
orientações e, quando necessário, enviando equipes e veículos apropriados.
Onde entra a UPA?
A UPA 24h é um componente da atenção às
urgências e funciona continuamente, todos os dias da semana. Segundo o
Ministério da Saúde, atende condições clínicas graves e não graves, além de
realizar o primeiro atendimento de casos cirúrgicos e traumáticos. Pode
estabilizar pacientes, realizar avaliação diagnóstica inicial e, quando
necessário, encaminhá-los para unidades de referência.
Um ponto essencial é perceber que a UPA
ocupa uma posição intermediária na rede. Ela se integra à Atenção
Básica, ao SAMU 192, à atenção hospitalar e à atenção domiciliar. Portanto, não
deve ser compreendida simplesmente como um “pequeno hospital” nem como
substituta da Unidade Básica de Saúde.
Essa organização também explica por que a
continuidade do cuidado é tão importante. O usuário pode entrar na rede por
determinado ponto e precisar posteriormente de outro. O desafio não é apenas
atendê-lo naquele momento, mas fazer com que os diferentes componentes consigam
se comunicar e oferecer respostas compatíveis com suas necessidades.
Urgência, cuidado e realidade social
O ambiente de urgência possui uma
característica particular: muitas decisões precisam acontecer rapidamente.
Pessoas chegam assustadas, com dor, acompanhadas ou sozinhas, e algumas
situações envolvem risco importante. Nesse contexto, a prioridade assistencial
imediata é evidente.
Mas rapidez não significa enxergar apenas
a condição clínica.
Durante um atendimento podem surgir situações de violência, abandono, fragilidade familiar, ausência de documentos, situação de rua, dificuldades socioeconômicas ou problemas relacionados à continuidade do cuidado. Algumas dessas questões poderão demandar atuação de diferentes profissionais e
articulação com outros serviços.
É justamente nesse ponto que o conceito de
integralidade ganha sentido concreto. Não se trata de transformar a UPA em
responsável por resolver todos os problemas sociais apresentados por uma
pessoa. Trata-se de reconhecer que saúde, condições de vida e direitos
frequentemente estão relacionados e que o atendimento precisa identificar
corretamente aquilo que cabe à unidade e aquilo que necessita de articulação
com outros pontos da rede.
Um exemplo para compreender a rede
Imagine uma mulher que chega à UPA após
uma crise relacionada a uma doença crônica. A equipe controla o quadro e
identifica que ela necessita de acompanhamento posterior. Se todo o cuidado
terminasse na porta da UPA, haveria risco de ela retornar repetidamente ao
serviço de urgência sem acompanhamento adequado.
A lógica de rede procura justamente
superar essa fragmentação. Dependendo do caso, a continuidade poderá envolver a
Atenção Primária ou outro serviço adequado às necessidades identificadas. A
Atenção Primária possui papel relevante na coordenação do cuidado e na
comunicação entre diferentes pontos do SUS.
Agora acrescente outro elemento: durante o
atendimento, a mulher informa que perdeu recentemente sua fonte de renda e está
encontrando dificuldades para manter condições básicas de vida. A situação
passa a apresentar dimensões que não são exclusivamente clínicas.
É nesse tipo de realidade que, ao longo
deste curso, começaremos a compreender melhor a contribuição do Serviço Social
e do trabalho multiprofissional.
Uma visão integrada do cuidado
Compreender o SUS e a Rede de Atenção às
Urgências é o primeiro passo para estudar a atuação do Serviço Social na UPA.
Antes de perguntar “o que o assistente social faz?”, precisamos entender onde
esse profissional está inserido, com quem trabalha e quais necessidades chegam
até o serviço.
A UPA atende situações que exigem
respostas rápidas, mas integra uma rede muito maior. O usuário que chega à
unidade possui uma história anterior ao atendimento e continuará tendo
necessidades depois de sair dela. Essa percepção ajuda a substituir uma visão
fragmentada por uma compreensão mais humana e integrada do cuidado.
Para o iniciante, a ideia central desta aula pode ser resumida assim: ninguém cuida sozinho e nenhum serviço responde sozinho por todas as necessidades de saúde de uma população. A força de uma rede está justamente na capacidade de reconhecer responsabilidades, estabelecer conexões e colocar o
usuário no centro do cuidado.
Referências bibliográficas
BRASIL. Constituição da República
Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.
BRASIL. Lei nº 8.080, de 19 de setembro
de 1990. Dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação
da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes.
Brasília, DF, 1990.
BRASIL. Ministério da Saúde. Sistema
Único de Saúde (SUS): princípios e organização. Brasília, DF: Ministério da
Saúde.
BRASIL. Ministério da Saúde. Atenção
Primária à Saúde. Brasília, DF: Ministério da Saúde.
BRASIL. Ministério da Saúde. Rede de
Atenção às Urgências e Emergências. Brasília, DF: Ministério da Saúde.
BRASIL. Ministério da Saúde. Redes de
Atenção à Saúde e Atenção Primária à Saúde. Brasília, DF: Ministério da
Saúde.
BRASIL. Ministério da Saúde. UPA 24h –
Unidade de Pronto Atendimento. Brasília, DF: Ministério da Saúde.
BRASIL. Ministério da Saúde. SAMU 192 –
Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. Brasília, DF: Ministério da
Saúde.
Aula 2 — Como funciona uma Unidade de
Pronto Atendimento
A Unidade de Pronto Atendimento, conhecida
como UPA 24h, ocupa um lugar estratégico no Sistema Único de Saúde. Para
quem começa a estudar a atuação do Serviço Social nesse ambiente, entender seu
funcionamento é fundamental. A UPA não é simplesmente um local para consultas
rápidas, tampouco funciona como um hospital completo. Ela integra a Rede de
Atenção às Urgências e possui responsabilidades específicas dentro dessa
organização.
A legislação do Ministério da Saúde define
a UPA 24h como estabelecimento de saúde de complexidade intermediária,
articulado com a Atenção Básica, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência
(SAMU 192), a Atenção Domiciliar e a Atenção Hospitalar. Essa posição ajuda a
compreender uma característica essencial da unidade: ela precisa tanto receber
usuários quanto se comunicar com outros serviços para garantir a continuidade
da assistência.
Uma unidade que funciona o tempo todo
Uma das características mais conhecidas da
UPA é o funcionamento ininterrupto. As normas do Ministério da Saúde
estabelecem atendimento 24 horas por dia, todos os dias da semana,
inclusive feriados e pontos facultativos. Também determinam a existência de
equipe assistencial multiprofissional compatível com as necessidades de
atendimento.
Essa disponibilidade permanente é importante porque situações de urgência não obedecem ao horário comercial. Uma pessoa pode sofrer uma
queda durante a madrugada, apresentar piora repentina de
uma doença no domingo ou desenvolver sintomas agudos durante um feriado. A rede
precisa estar preparada para responder a essas situações.
Entretanto, funcionamento permanente não
significa que a UPA substitua todos os demais serviços do SUS. Cada componente
da rede possui uma finalidade. A UPA está inserida principalmente na atenção às
urgências e precisa manter articulação com outros pontos para que o usuário
seja direcionado de acordo com suas necessidades.
O que acontece quando uma pessoa chega à
UPA?
A experiência de cada usuário varia
conforme sua condição de saúde, a estrutura local e os protocolos adotados, mas
existem elementos essenciais na organização do atendimento.
Ao procurar a unidade, o usuário deve ser
acolhido e sua situação precisa ser avaliada. As normas federais estabelecem acolhimento
e classificação de risco entre as diretrizes das UPAs. Também determinam
que a unidade acolha pacientes e familiares que busquem atendimento em
situações de urgência e emergência.
A partir daí, é importante diferenciar
dois conceitos que às vezes são tratados como se significassem a mesma coisa: acolhimento
e classificação de risco.
O acolhimento está relacionado à forma
como a pessoa é recebida e considerada pelo serviço. A regulamentação das UPAs
associa o acolhimento à escuta qualificada, ao respeito às especificidades do
paciente, à responsabilização e à busca de resolutividade. Portanto, acolher
não significa apenas realizar um cadastro ou indicar onde a pessoa deve
esperar.
Imagine uma mulher que chega à unidade
acompanhando o marido, que passou mal repentinamente. Enquanto ele recebe
assistência, ela está assustada, não sabe exatamente o que está acontecendo e
tem dificuldade para fornecer algumas informações. Um atendimento humanizado
precisa considerar também essa dimensão da experiência, ainda que as
responsabilidades de cada profissional sejam diferentes.
Classificação de risco não significa ordem
de chegada
Em uma unidade de urgência, atender
simplesmente pela ordem de chegada poderia colocar pessoas em risco. Uma pessoa
que chegou depois pode apresentar uma condição muito mais grave do que alguém
que está aguardando há mais tempo.
Por isso existe a classificação de risco. A regulamentação federal a define como uma ferramenta de apoio à decisão clínica baseada em protocolo, destinada a identificar a gravidade do paciente e possibilitar atendimento em tempo oportuno e seguro
conforme o
potencial de risco. A norma estabelece que essa classificação deve ser
realizada por médicos ou enfermeiros capacitados.
Esse detalhe é particularmente importante
em um curso sobre Serviço Social. O assistente social pode integrar o trabalho
multiprofissional existente na unidade, mas classificação clínica de risco
não é uma atribuição do Serviço Social. Reconhecer os limites de cada
profissão faz parte de uma atuação responsável.
Assim, se uma pessoa aparentemente
tranquila apresenta sinais de uma condição potencialmente grave, poderá receber
prioridade em relação a outra que chegou anteriormente, mas apresenta menor
risco naquele momento. Não se trata de privilégio, e sim de uma organização
assistencial baseada na gravidade.
O que a UPA deve ser capaz de fazer?
A UPA precisa oferecer uma resposta
inicial qualificada aos quadros que chegam ao serviço. A regulamentação prevê
atendimento a pacientes com condições agudas ou agudizadas de natureza clínica
e primeiro atendimento aos casos cirúrgicos e traumáticos. Também contempla
estabilização, investigação diagnóstica inicial e definição da conduta
necessária.
Na prática, diferentes caminhos podem
surgir.
Um paciente pode ser avaliado, tratado e
receber condições para deixar a unidade com as orientações pertinentes. Outro
pode precisar permanecer em observação. Em uma situação de maior complexidade,
pode ser necessário estabilizá-lo e providenciar seu encaminhamento para um
serviço de referência.
Essa dinâmica ajuda a compreender por que
a UPA ocupa uma posição intermediária na rede. Sua função não termina
necessariamente em si mesma.
Referência, encaminhamento e continuidade
do cuidado
Suponha que um homem chegue à UPA
apresentando uma condição que exige recursos hospitalares não disponíveis
naquele estabelecimento. Depois da avaliação e das medidas necessárias para sua
estabilização, ele poderá precisar ser encaminhado para um serviço capaz de
oferecer o atendimento adequado.
A própria regulamentação determina que as
UPAs estejam articuladas com Atenção Básica, SAMU 192, Atenção Domiciliar,
Atenção Hospitalar e serviços de apoio diagnóstico e terapêutico por meio de
fluxos de referência e contrarreferência.
Esse funcionamento em rede também evita uma ideia equivocada: a de que todo problema apresentado na UPA precisa ser resolvido integralmente dentro dela. Em determinados casos, a melhor resposta será justamente identificar a necessidade, realizar aquilo que compete à unidade e
articular a continuidade do cuidado em outro ponto da rede.
Para o Serviço Social, essa compreensão
será especialmente importante. Muitas demandas sociais encontradas durante um
atendimento também ultrapassam os limites físicos e institucionais da UPA e
podem exigir diálogo com outros serviços e políticas públicas.
Uma equipe formada por diferentes
profissionais
O cotidiano de uma UPA exige participação
de profissionais com diferentes formações. A legislação federal determina a
existência de equipe assistencial multiprofissional, dimensionada de
acordo com as necessidades de atendimento e em conformidade com as normas
aplicáveis e as regulamentações dos respectivos conselhos profissionais.
O princípio fundamental aqui é a
complementaridade.
Trabalho multiprofissional não significa
que todos os profissionais realizem as mesmas atividades. Cada área possui
competências, responsabilidades e limites próprios. Médicos, enfermeiros e
outros trabalhadores podem observar diferentes dimensões de uma mesma situação,
e a comunicação entre eles pode contribuir para um atendimento mais integral.
É nesse cenário que também precisamos
compreender o Serviço Social. Quando presente na organização do serviço, sua
contribuição está relacionada às competências profissionais próprias do
assistente social. Isso não transforma esse profissional em responsável por
qualquer problema que envolva família, pobreza ou comportamento do usuário. Da
mesma forma, não autoriza outros integrantes da equipe a transferirem
automaticamente para o Serviço Social responsabilidades que pertencem a outras
áreas.
O usuário não chega sozinho: sua realidade
também entra na UPA
Uma UPA possui forte dinâmica clínica, mas
quem procura atendimento é uma pessoa inserida em determinada realidade social.
Imagine um homem idoso atendido após uma
queda. Depois dos cuidados iniciais, a equipe percebe que ele mora sozinho e
tem dificuldade de locomoção. Ou pense em uma mulher atendida por uma lesão
que, durante a conversa, apresenta sinais de possível violência doméstica. Em
outra situação, uma pessoa em situação de rua pode chegar à unidade sem
documentos ou sem qualquer referência familiar.
Esses exemplos mostram que um problema
aparentemente restrito à saúde física pode revelar outras necessidades.
Isso não significa que todas essas situações sejam automaticamente responsabilidade exclusiva do assistente social. O primeiro passo é justamente compreender qual é a necessidade apresentada, quais
direitos estão envolvidos, quais profissionais possuem
competência para intervir e quais serviços precisam ser articulados.
Esse raciocínio evita dois extremos. O
primeiro é ignorar a dimensão social e considerar que basta tratar o problema
clínico. O segundo é imaginar que o Serviço Social deve resolver sozinho
qualquer dificuldade que apareça durante o atendimento.
A família também faz parte do contexto
As normas de funcionamento das UPAs
mencionam expressamente o acolhimento de pacientes e seus familiares em
situações de urgência e emergência.
Esse aspecto merece atenção porque uma
urgência frequentemente modifica, ainda que temporariamente, toda a dinâmica
familiar. Enquanto o usuário recebe atendimento, familiares podem estar
assustados, sem informações suficientes ou tentando reorganizar responsabilidades.
Em outros casos, a própria família pode
fazer parte da questão que precisa ser compreendida. Podem existir vínculos
rompidos, conflitos, abandono, violência ou ausência de alguém capaz de
oferecer apoio.
Por isso, não devemos idealizar a família
como se ela estivesse sempre disponível e preparada para assumir cuidados.
Também não devemos tratá-la antecipadamente como problemática. Cada situação
precisa ser compreendida dentro de seu contexto.
Segurança, agilidade e humanização
Uma UPA precisa responder rapidamente às
urgências sem transformar o atendimento em uma sequência impessoal de
procedimentos. A regulamentação associa seu funcionamento a elementos como
acolhimento, classificação de risco, equipe multiprofissional e segurança do
paciente.
Humanizar não significa tornar o
atendimento mais lento ou abandonar critérios técnicos. Significa reconhecer
que eficiência e respeito podem caminhar juntos.
Uma explicação compreensível, uma escuta
adequada, o cuidado com informações pessoais e o respeito às particularidades
do usuário também fazem diferença na experiência de quem procura atendimento.
Onde o Serviço Social começa a aparecer?
Depois de compreender o funcionamento
geral da UPA, torna-se mais fácil perceber onde o Serviço Social poderá
participar dessa realidade.
Durante o atendimento podem aparecer
questões relacionadas a direitos, vínculos familiares, condições de vida,
violência, ausência de rede de apoio e dificuldades de acesso a outros
serviços. Algumas dessas situações podem constituir demandas para o Serviço
Social, sempre respeitando suas competências e atribuições profissionais.
Mas há uma ideia que precisa
acompanhar o
aluno desde agora: o assistente social não trabalha isoladamente da dinâmica
da UPA. Para que sua intervenção faça sentido, precisa compreender a
finalidade da unidade, seus fluxos, os limites institucionais, o funcionamento
da rede e as responsabilidades dos demais profissionais.
Da mesma maneira, uma pessoa que conclui
este curso livre passa a conhecer melhor essa atuação, mas não adquire
habilitação para exercê-la. O objetivo aqui é compreender o funcionamento
profissional e institucional, e não substituir a formação exigida para o
exercício do Serviço Social.
Para concluir
A UPA é um ambiente dinâmico, no qual
tempo, organização e capacidade de decisão são particularmente importantes. Ela
funciona ininterruptamente, integra a Rede de Atenção às Urgências, realiza
acolhimento e classificação de risco e precisa articular-se com outros serviços
para oferecer respostas adequadas às necessidades dos usuários.
Para quem começa a estudar o Serviço
Social nesse espaço, o aprendizado mais importante desta aula é perceber que a
UPA funciona como parte de uma rede e por meio do trabalho de diferentes
profissionais. Nem toda necessidade termina dentro da unidade e nenhum
profissional responde sozinho por todas as dimensões do atendimento.
Na próxima etapa, compreender o que
caracteriza o Serviço Social no campo da saúde permitirá identificar com maior
precisão qual é a contribuição do assistente social nesse ambiente e,
igualmente importante, quais são os limites de sua atuação.
Referências bibliográficas
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria
nº 10, de 3 de janeiro de 2017. Redefine as diretrizes de modelo
assistencial e financiamento de UPA 24h de Pronto Atendimento como componente
da Rede de Atenção às Urgências, no âmbito do Sistema Único de Saúde. Brasília,
DF: Ministério da Saúde, 2017.
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria
de Consolidação nº 3, de 28 de setembro de 2017. Consolidação das normas
sobre as redes do Sistema Único de Saúde. Brasília, DF: Ministério da Saúde,
2017.
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria
GM/MS nº 1.997, de 24 de novembro de 2023. Altera as Portarias de
Consolidação GM/MS nº 3 e nº 6 para tratar da habilitação, homologação e
financiamento dos serviços da Rede de Atenção às Urgências e Emergências.
Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2023.
BRASIL. Ministério da Saúde. UPA 24h –
Unidade de Pronto Atendimento. Brasília, DF: Ministério da Saúde.
BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Humanização –
HumanizaSUS. Brasília, DF: Ministério da Saúde.
Aula 3 — Introdução ao Serviço Social no
contexto da saúde
Quando uma pessoa chega a uma Unidade de
Pronto Atendimento, a primeira preocupação costuma estar relacionada ao
problema de saúde que motivou a procura pelo serviço. Dor intensa, falta de ar,
febre, acidentes, crises de doenças preexistentes e outras situações exigem
respostas rápidas da equipe. Entretanto, enquanto o atendimento acontece, podem
aparecer necessidades que não são exclusivamente clínicas. É justamente nesse
ponto que começamos a compreender a presença do Serviço Social no campo da
saúde.
Uma pessoa atendida pode estar sem apoio
familiar, enfrentar dificuldades para acessar serviços públicos, vivenciar uma
situação de violência ou apresentar condições sociais que interferem na
continuidade do cuidado. Essas situações não diminuem a importância do
atendimento clínico. Pelo contrário: mostram que a saúde está relacionada às
condições concretas de vida.
Para entender o trabalho do assistente social nesse cenário, porém, é necessário abandonar duas ideias equivocadas. A primeira é pensar que o Serviço Social existe apenas para atender pessoas em situação de pobreza. A segunda é imaginar que qualquer problema familiar ou social dentro da UPA deve automaticamente ser encaminhado ao assistente social. A atuação profissional é mais ampla e possui competências, atribuições, princípios éticos e limites próprios.
Serviço Social e Assistência Social não
são a mesma coisa
Uma confusão comum entre iniciantes é
utilizar as expressões Serviço Social e Assistência Social como
sinônimos. Embora estejam relacionadas em determinadas situações, elas
representam conceitos diferentes.
O Serviço Social é uma profissão de nível
superior regulamentada pela Lei nº 8.662/1993. A legislação estabelece quem
pode exercer a profissão, define competências e atribuições privativas e
determina que o exercício profissional requer registro prévio no Conselho
Regional de Serviço Social (CRESS) da área de atuação. A própria designação
profissional de Assistente Social é reservada às pessoas legalmente
habilitadas.
Já a Assistência Social é uma política
pública. Portanto, o assistente social pode trabalhar na política de
assistência social, mas também está presente em diversos outros espaços, como
saúde, educação, previdência, sistema sociojurídico, organizações e diferentes
políticas sociais.
Essa diferença é especialmente importante neste curso porque estamos
diferença é especialmente importante
neste curso porque estamos estudando o Serviço Social dentro da política de
saúde, particularmente no contexto das Unidades de Pronto Atendimento.
Quem é o assistente social?
O assistente social é um profissional que
possui formação superior em Serviço Social e, para exercer regularmente a
profissão, deve atender aos requisitos legais e possuir registro no CRESS
competente. A Lei nº 8.662/1993 estabelece competências como elaborar e avaliar
políticas sociais, encaminhar providências, prestar orientação social, orientar
indivíduos e grupos na identificação de recursos e na defesa de seus direitos e
realizar estudos socioeconômicos para determinadas finalidades.
Existem também atribuições privativas,
ou seja, atividades que a legislação reserva aos assistentes sociais. Entre
elas estão determinadas atividades de planejamento, coordenação e supervisão em
matéria de Serviço Social, além da realização de vistorias, perícias técnicas,
laudos, informações e pareceres sobre matéria de Serviço Social.
Para quem realiza um curso introdutório,
essa distinção é fundamental. É perfeitamente possível estudar e compreender o
que um assistente social faz. Isso, entretanto, não autoriza uma pessoa sem
a formação e o registro exigidos a executar atividades profissionais reservadas
à categoria.
O objetivo desta formação é justamente
proporcionar conhecimento sobre a área sem confundir aprendizagem introdutória
com habilitação profissional.
Por que existe Serviço Social na área da
saúde?
Uma resposta simples seria dizer que os
problemas de saúde acontecem dentro de uma realidade social. Essa ideia, porém,
merece ser aprofundada.
Imagine dois pacientes que receberam
atendimento semelhante e precisam continuar o acompanhamento depois de deixar a
unidade. O primeiro possui residência adequada, transporte, apoio familiar e
facilidade para acessar outros serviços. O segundo está desempregado, vive em
condições precárias de moradia e não possui uma rede familiar capaz de
ajudá-lo.
Do ponto de vista exclusivamente clínico,
determinadas orientações podem ser semelhantes. Quando observamos as condições
concretas de vida, entretanto, percebemos que as possibilidades de continuidade
do cuidado podem ser muito diferentes.
Os Parâmetros para a Atuação de Assistentes Sociais na Saúde, elaborados pelo CFESS, foram desenvolvidos justamente como referência para a intervenção profissional nesse campo. O documento relaciona a atuação às
competências profissionais e destaca a
necessidade de compreender as expressões da questão social que repercutem sobre
a saúde da população.
Isso significa que o assistente social não
olha apenas para aquilo que aconteceu dentro da unidade. Ele precisa
compreender a situação apresentada em sua relação com direitos, condições de
vida, vínculos sociais, políticas públicas e possibilidades concretas de acesso
à rede.
O que pode aparecer no cotidiano da UPA?
A UPA é um serviço de funcionamento
contínuo e integra a Rede de Atenção às Urgências. Por sua própria natureza,
recebe pessoas em situações muito diferentes, algumas delas marcadas por grande
vulnerabilidade.
Durante o atendimento podem aparecer, por
exemplo, dificuldades relacionadas à ausência de apoio familiar, violência,
situação de rua, abandono, fragilidade de vínculos, dificuldade de acesso a
serviços públicos ou necessidade de orientação sobre direitos.
Imagine uma mulher que chega à UPA após
sofrer uma lesão. Durante o atendimento, surgem informações que levantam a
possibilidade de violência doméstica. A necessidade inicial continua sendo de
saúde, mas existe agora uma situação que pode exigir atenção de diferentes
profissionais e articulação com a rede de proteção.
Em outro exemplo, um idoso recebe
atendimento e apresenta melhora suficiente para deixar a unidade, mas a equipe
identifica dificuldades importantes relacionadas à sua rede de apoio.
Novamente, existe uma dimensão social que precisa ser compreendida.
Essas situações ajudam a perceber por que
o trabalho em saúde não pode ser reduzido à doença. Ao mesmo tempo, é preciso
evitar a conclusão de que o assistente social será o único responsável por
resolver todas essas questões.
Acolher não significa resolver tudo
sozinho
Uma das habilidades importantes no
trabalho profissional é saber identificar o que realmente está sendo
apresentado.
Às vezes, aquilo que aparece inicialmente
como um pedido simples esconde uma situação mais complexa. Em outras ocasiões,
uma demanda direcionada ao Serviço Social pode, na verdade, pertencer às
responsabilidades de outro profissional ou da própria instituição.
Por isso, é necessário compreender a
diferença entre demanda, necessidade e competência profissional.
Uma família pode procurar o assistente social pedindo determinada providência. O fato de o pedido ter sido feito não significa automaticamente que aquela providência seja atribuição do Serviço Social. O profissional precisa analisar a
situação, orientar quando pertinente
e identificar os recursos e serviços adequados.
Os parâmetros do CFESS para a saúde não
pretendem funcionar como um manual rígido para todas as situações. O próprio
Conselho destaca que a prática precisa ser contextualizada e considerar os
aspectos sociais e políticos que interferem na saúde dos usuários e nas
condições do exercício profissional.
Isso é especialmente importante em uma
UPA, onde a pressão por respostas rápidas pode favorecer encaminhamentos
automáticos. Uma atuação responsável exige compreender o problema antes de
decidir qual intervenção é adequada.
Orientação e acesso aos direitos
A orientação social aparece expressamente
entre as competências previstas na legislação profissional. A Lei nº 8.662/1993
também inclui a orientação de indivíduos e grupos para identificar recursos e
utilizá-los no atendimento e na defesa de seus direitos.
Na saúde, essa dimensão pode aparecer de
diferentes maneiras. Um usuário pode desconhecer os serviços disponíveis no
território, uma família pode ter dificuldades para compreender determinados
caminhos institucionais ou uma situação pode exigir articulação com outros
equipamentos públicos.
É importante perceber que orientar não
significa simplesmente entregar um endereço ou telefone.
Uma orientação útil precisa considerar a
necessidade concreta apresentada. Dizer a alguém “procure determinado serviço”
sem verificar se aquele serviço realmente atende à situação, por exemplo, pode
produzir apenas mais uma peregrinação pela rede.
Por isso, conhecer os serviços existentes,
suas responsabilidades e seus fluxos é parte importante da qualidade da
intervenção.
O trabalho com usuários e famílias
A presença da família é frequente no
cotidiano das unidades de urgência. Familiares acompanham usuários, fornecem
informações, recebem orientações e, muitas vezes, participam das decisões e da
organização dos cuidados posteriores.
Entretanto, não existe um único modelo de
família.
Há pessoas que contam com uma ampla rede
de apoio e outras que vivem praticamente sozinhas. Existem famílias com
vínculos fortes, famílias separadas geograficamente, relações rompidas e
situações marcadas por conflitos ou violência.
Por isso, uma atuação profissional
cuidadosa evita julgamentos precipitados.
Dizer que determinada família é “desestruturada”, “negligente” ou “problemática” sem compreender sua realidade pode esconder situações sociais muito mais complexas. O trabalho profissional
precisa buscar informações relevantes, reconhecer direitos e analisar as
condições concretas existentes.
Serviço Social não é favor nem caridade
Outro ponto importante para o iniciante é
superar uma visão assistencialista da profissão.
O Serviço Social não deve ser entendido
simplesmente como prática de caridade ou concessão de favores. Sua atuação
profissional está vinculada a competências legalmente definidas, políticas
sociais, direitos e princípios éticos.
Essa diferença muda inclusive a maneira de
enxergar o usuário. Em vez de alguém que precisa “receber ajuda” por bondade de
determinada pessoa ou instituição, temos um sujeito de direitos inserido
em uma realidade social concreta.
O Código de Ética Profissional do/a
Assistente Social estabelece princípios relacionados à liberdade, cidadania,
democracia, justiça social, direitos humanos, qualidade dos serviços prestados
e exercício profissional sem discriminação.
Isso significa que respeito, dignidade e
ausência de discriminação não são apenas características desejáveis de um
atendimento gentil. São elementos relacionados à própria orientação ética da
profissão.
Trabalho multiprofissional: atuar junto
sem perder as responsabilidades
Uma UPA envolve diferentes profissionais.
Essa diversidade permite observar a situação do usuário a partir de
conhecimentos complementares.
Entretanto, trabalhar em equipe não
significa que todos possam realizar todas as atividades.
O assistente social precisa reconhecer as
competências de médicos, enfermeiros, psicólogos e demais trabalhadores, assim
como os outros profissionais precisam respeitar aquilo que pertence ao campo do
Serviço Social.
Um bom exemplo é a classificação clínica
de risco. Embora o assistente social possa identificar necessidades sociais
importantes durante sua atuação, isso não transforma a classificação clínica de
risco em atribuição do Serviço Social.
Da mesma maneira, uma necessidade social
não deve ser ignorada simplesmente porque o usuário chegou à unidade por uma
questão clínica.
O trabalho multiprofissional funciona
melhor quando cada área consegue contribuir com seu conhecimento específico e,
ao mesmo tempo, dialogar com as demais.
Ética e cuidado com as informações
Quem procura uma UPA frequentemente relata
informações bastante pessoais: conflitos familiares, situações econômicas,
violência, condições de moradia e outras experiências delicadas.
Por isso, o cuidado com as informações é
indispensável.
O Código de Ética possui
Código de Ética possui disposições
específicas sobre o sigilo profissional, e o CFESS continua produzindo
orientações sobre sua preservação nas diferentes situações de atendimento.
No cotidiano, isso significa evitar
exposições desnecessárias, conversas sobre situações particulares em locais
inadequados e compartilhamento indiscriminado de informações.
Mesmo no trabalho em equipe, nem toda
informação precisa circular para todas as pessoas. O compartilhamento deve
estar relacionado às necessidades do atendimento e respeitar as normas éticas e
legais aplicáveis.
Conhecer os próprios limites também é
competência
Existe uma ideia especialmente importante
para quem começa a estudar o trabalho do Serviço Social: ser competente não
significa tentar resolver tudo.
Reconhecer limites institucionais e
profissionais é parte de uma atuação responsável.
Às vezes, será necessário articular outro
serviço. Em outras situações, outro profissional da própria equipe terá
competência mais adequada para responder à necessidade identificada. Também
haverá problemas sociais que ultrapassam completamente a capacidade de
resolução de uma UPA.
A Lei nº 8.662/1993 ajuda a estabelecer
essas fronteiras ao definir competências e atribuições privativas da profissão.
O CFESS, por sua vez, possui responsabilidade legal de orientar, disciplinar,
normatizar e fiscalizar o exercício profissional em conjunto com os Conselhos
Regionais.
Conhecer esses limites protege o usuário,
os profissionais e a própria qualidade do serviço.
Um exemplo para reunir os conhecimentos
Imagine que Ana, 38 anos, procure a UPA
depois de passar mal no trabalho. Durante o atendimento, conta que está
enfrentando dificuldades financeiras, tem dois filhos pequenos e teme perder o
emprego porque já precisou faltar outras vezes.
Seria inadequado concluir imediatamente
que todos esses problemas são responsabilidade do Serviço Social. Também seria
inadequado ignorá-los simplesmente porque a entrada de Ana na unidade ocorreu
por um problema clínico.
A primeira pergunta precisa ser: qual é
a necessidade concreta apresentada?
A partir daí, diferentes profissionais
poderão contribuir dentro de suas competências. Havendo uma demanda pertinente
ao Serviço Social, a intervenção poderá envolver escuta, análise da situação,
orientação e identificação de recursos ou direitos relacionados ao caso,
conforme as competências profissionais e os limites da instituição.
Esse exemplo simples demonstra uma característica
importante da profissão: antes de procurar uma solução pronta, é
necessário compreender a realidade apresentada.
Para concluir
A atuação do Serviço Social na saúde parte
da compreensão de que as necessidades das pessoas não podem ser analisadas de
maneira completamente separada de suas condições de vida. Direitos, renda,
moradia, trabalho, vínculos familiares, violência, acesso aos serviços e outras
dimensões podem repercutir diretamente na experiência de saúde e na capacidade
de continuidade do cuidado.
Na UPA, essa realidade aparece em um
ambiente marcado pela urgência e pela necessidade de decisões rápidas. Por
isso, o assistente social precisa unir conhecimento técnico, análise crítica,
responsabilidade ética e capacidade de trabalhar em rede.
O ponto central desta aula é compreender
que o Serviço Social não existe para “resolver problemas sociais” de maneira
genérica, mas desenvolve uma intervenção profissional fundamentada em
competências, atribuições, princípios éticos e direitos. Os Parâmetros do CFESS
para a área da saúde foram construídos justamente para oferecer referências a
essa intervenção.
E permanece uma distinção indispensável para este curso: estudar essas atividades permite ao aluno conhecer e compreender a atuação do assistente social, mas não o habilita a exercer a profissão. A legislação brasileira exige formação específica e registro profissional para esse exercício.
Referências bibliográficas
BRASIL. Constituição da República
Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.
BRASIL. Lei nº 8.080, de 19 de setembro
de 1990. Dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação
da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes.
Brasília, DF, 1990.
BRASIL. Lei nº 8.662, de 7 de junho de
1993. Dispõe sobre a profissão de Assistente Social e dá outras
providências. Brasília, DF, 1993.
CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL. Código
de Ética Profissional do/a Assistente Social. 10. ed. Brasília, DF: CFESS.
CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL. Parâmetros
para a Atuação de Assistentes Sociais na Saúde. Brasília, DF: CFESS.
BRASIL. Ministério da Saúde. Rede de
Atenção às Urgências e Emergências. Brasília, DF: Ministério da Saúde.
BRASIL. Ministério da Saúde. UPA 24h – Unidade de Pronto Atendimento. Brasília, DF: Ministério da Saúde.
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