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Tiflologia Básico e Introdutório

TIFLOLOGIA BÁSICO E INTRODUTÓRIO

 


MÓDULO 3 – Braille, Soroban e recursos pedagógicos acessíveis

Aula 1 – Introdução ao Sistema Braille

 

O Sistema Braille é uma das maiores conquistas da história da acessibilidade. Mais do que um conjunto de pontos em relevo, ele representa leitura, escrita, autonomia, participação social e acesso ao conhecimento para muitas pessoas cegas. Quando falamos em Braille, não estamos falando apenas de uma técnica, mas de uma forma de garantir que a pessoa com deficiência visual possa registrar ideias, estudar, comunicar-se, organizar sua rotina e participar da vida cultural, educacional e profissional.

O Braille é um sistema de leitura e escrita tátil, criado para ser percebido pelo toque. Ele utiliza combinações de pontos em relevo, organizados em uma estrutura chamada cela Braille. Por meio dessas combinações, é possível representar letras, números, sinais de pontuação, símbolos matemáticos, musicais, químicos e outras formas de escrita. O Instituto Benjamin Constant apresenta o Braille como um sistema de escrita e leitura tátil para pessoas cegas, criado pelo francês Louis Braille.

É importante compreender, logo no início, que Braille não é um idioma. Essa confusão é bastante comum. O Braille é um sistema de escrita. Assim como podemos escrever a língua portuguesa com letras impressas, também podemos representá-la em Braille. O mesmo vale para outras línguas. Portanto, a pessoa não “fala Braille”; ela lê e escreve em Braille. Essa distinção é importante porque ajuda a valorizar o sistema sem tratá-lo como algo misterioso ou distante da linguagem comum.

A origem do Braille está ligada à vida de Louis Braille, um jovem francês que perdeu a visão ainda criança. A criação do sistema, no século XIX, marcou uma mudança profunda na educação das pessoas cegas. Antes dele, muitos métodos de leitura em relevo eram lentos, difíceis e pouco práticos. O Braille trouxe uma possibilidade mais eficiente, porque permitiu não apenas a leitura, mas também a escrita. Essa diferença foi decisiva: a pessoa cega deixava de ser apenas receptora de informações e passava a poder registrar suas próprias ideias.

Ao longo do tempo, o Braille se tornou um recurso fundamental para a alfabetização e para a independência de muitas pessoas cegas. Ele possibilita o contato direto com a escrita, com a ortografia, com a pontuação, com a estrutura das palavras e com a organização do texto. Quando uma pessoa lê apenas por áudio, ela pode compreender o

longo do tempo, o Braille se tornou um recurso fundamental para a alfabetização e para a independência de muitas pessoas cegas. Ele possibilita o contato direto com a escrita, com a ortografia, com a pontuação, com a estrutura das palavras e com a organização do texto. Quando uma pessoa lê apenas por áudio, ela pode compreender o conteúdo, mas nem sempre tem acesso direto à forma escrita das palavras. O Braille permite essa relação tátil com a escrita, favorecendo a alfabetização, a revisão de textos, o estudo de línguas, a leitura de partituras, a matemática e outras áreas do conhecimento.

No Brasil, o Sistema Braille possui importância histórica e legal. A Lei nº 4.169, de 1962, oficializou as convenções Braille para uso na escrita e leitura das pessoas cegas e também o Código de Contrações e Abreviaturas Braille. Isso demonstra que o Braille não é apenas um recurso pedagógico, mas também um instrumento reconhecido oficialmente para garantir comunicação, educação e acesso à informação.

A estrutura do Braille é simples em sua base, mas muito rica em possibilidades. A cela Braille é formada por seis pontos, distribuídos em duas colunas e três linhas. A partir da combinação desses pontos, formam-se os sinais que representam letras, números e símbolos. Para quem está começando, pode parecer difícil imaginar como apenas seis pontos conseguem representar tantas informações. Porém, com estudo e prática, percebe-se que o sistema possui lógica, organização e grande capacidade de adaptação.

O aprendizado do Braille exige tempo, prática e acompanhamento adequado. Assim como a alfabetização em tinta não acontece de um dia para o outro, a leitura tátil também precisa ser desenvolvida gradualmente. A pessoa aprende a reconhecer os pontos pelo tato, a associar combinações a letras e sinais, a compreender palavras, frases e textos. Com o tempo, a leitura se torna mais fluida. Em crianças cegas, o contato precoce com materiais táteis, livros em Braille e experiências de leitura pode favorecer muito o processo de alfabetização.

Ao mesmo tempo, é preciso evitar uma ideia equivocada: nem toda pessoa cega lê Braille. Algumas pessoas não tiveram acesso ao ensino do sistema na infância. Outras perderam a visão na vida adulta e podem ter mais dificuldade para desenvolver a leitura tátil. Há também pessoas que utilizam mais tecnologias digitais, leitores de tela, áudios ou outros recursos. Isso não diminui a importância do Braille. Apenas mostra que as pessoas com

deficiência visual são diversas e que os recursos de acessibilidade devem ser pensados conforme as necessidades, histórias e preferências de cada uma.

Também é importante lembrar que o Braille continua relevante mesmo em uma época marcada por celulares, computadores, leitores de tela e inteligência artificial. As tecnologias ampliaram muito o acesso à informação, mas não substituem completamente a leitura e a escrita tátil. Uma pessoa que lê Braille pode consultar etiquetas, organizar objetos, ler anotações, estudar símbolos específicos, revisar a escrita de palavras e acessar informações de modo silencioso e direto. O Braille e a tecnologia não precisam competir; eles podem se complementar.

Na vida cotidiana, o Braille aparece em diferentes lugares: embalagens de medicamentos, elevadores, placas de identificação, cardápios acessíveis, livros, materiais escolares, etiquetas, documentos, sinalizações e objetos de uso pessoal. Quando bem utilizado, ele amplia a autonomia. Uma etiqueta em Braille em um medicamento, por exemplo, pode ajudar a pessoa cega a identificar um produto com mais segurança. Uma placa em Braille em uma porta pode facilitar a localização de um ambiente. Um livro em Braille permite contato direto com a leitura.

No ambiente escolar, o Braille tem valor especial. Para muitos estudantes cegos, ele é a base da alfabetização. Por meio dele, o aluno pode ler textos, escrever respostas, estudar gramática, compreender a pontuação e acompanhar diferentes componentes curriculares. O Ministério da Educação disponibiliza a “Grafia Braille para a Língua Portuguesa”, documento normatizador e de consulta destinado especialmente a professores, transcritores, revisores e usuários do Sistema Braille. Esse tipo de documento é importante porque organiza regras, símbolos e orientações, contribuindo para que o uso do Braille seja padronizado e confiável.

É preciso compreender que ensinar Braille exige responsabilidade. Um curso introdutório pode apresentar sua história, sua importância, sua estrutura básica e seus usos sociais, mas não forma automaticamente profissionais especializados em transcrição, revisão ou ensino aprofundado do sistema. A aprendizagem técnica do Braille, especialmente para fins profissionais, requer estudo específico, prática orientada, conhecimento das normas oficiais e, muitas vezes, acompanhamento de profissionais experientes.

Mesmo assim, todos que trabalham ou convivem com pessoas com deficiência visual podem se beneficiar de

uma compreensão básica sobre o Braille. Professores, cuidadores, atendentes, familiares, colegas de trabalho e profissionais de apoio não precisam dominar todo o sistema para reconhecer sua importância. Saber que o Braille é uma forma legítima de leitura e escrita já ajuda a combater preconceitos. Entender que ele não é ultrapassado também é essencial. Muitas vezes, a falta de conhecimento leva pessoas a dizerem que “hoje ninguém mais precisa de Braille porque existe áudio”. Essa afirmação é limitada, pois confunde acesso à informação com alfabetização plena.

O áudio é um recurso valioso, mas ouvir um texto não é a mesma coisa que ler e escrever. A leitura em Braille permite contato direto com letras, acentos, pontuação, parágrafos e organização textual. Para estudantes, isso pode fazer grande diferença no desenvolvimento da escrita. Para adultos, pode representar independência em tarefas simples e importantes. Por isso, a valorização do Braille deve caminhar junto com a valorização das tecnologias assistivas, e não ser substituída por elas.

Outro aspecto importante é o respeito às escolhas da pessoa com deficiência visual. Algumas pessoas preferem materiais em Braille. Outras preferem arquivos digitais acessíveis. Outras utilizam áudio, ampliação ou recursos combinados. A inclusão não consiste em impor um recurso, mas em oferecer possibilidades. O Braille deve estar disponível para quem dele necessita ou deseja utilizá-lo. A ausência de materiais em Braille pode ser uma barreira, mas a imposição do Braille a quem prefere outro recurso também pode desconsiderar a autonomia da pessoa.

A produção de materiais em Braille também exige qualidade. Não basta colocar pontos em relevo de qualquer forma. É necessário seguir normas, revisar o conteúdo, cuidar da diagramação, considerar a finalidade do material e garantir que a leitura seja possível. Um texto mal transcrito, com erros ou sem organização, pode dificultar o acesso em vez de facilitar. Por isso, a atuação de transcritores e revisores qualificados é tão importante.

O Braille também possui uma dimensão simbólica. Ele representa o direito de ler com as mãos, de acessar o mundo pela experiência tátil, de participar da cultura escrita. Para muitas pessoas cegas, o primeiro contato com um livro em Braille é um momento marcante, porque permite perceber que a leitura não pertence apenas a quem enxerga. O livro, a palavra, a escrita e o conhecimento também podem estar ao alcance dos dedos.

Na perspectiva da

Tiflologia, estudar o Braille é compreender um dos recursos mais significativos para a autonomia das pessoas cegas. Porém, é preciso estudá-lo sem romantização e sem reducionismo. O Braille não resolve sozinho todas as barreiras de acessibilidade, mas é uma ferramenta poderosa. Ele não é usado por todas as pessoas cegas, mas deve estar disponível para aquelas que dele se beneficiam. Ele não substitui tecnologias digitais, mas continua sendo essencial para a alfabetização, a escrita e a independência em muitas situações.

Ao iniciar o estudo do Sistema Braille, o aluno deve guardar uma ideia central: acessibilidade não é oferecer uma única solução para todos. É reconhecer diferentes formas de acesso à informação. Algumas pessoas leem com os olhos, outras com os dedos, outras escutam por meio de leitores de tela, outras combinam vários recursos. O respeito à diversidade começa quando entendemos que a leitura e a escrita podem acontecer por caminhos diferentes.

Assim, o Braille deve ser visto como um instrumento de cidadania. Ele amplia possibilidades, fortalece a autonomia e reafirma o direito das pessoas cegas à educação, à cultura, ao trabalho e à vida social. Estudar sua história e sua importância é reconhecer que a inclusão também passa pela escrita, pela leitura e pelo acesso digno ao conhecimento. Em cada ponto em relevo, existe mais do que um sinal gráfico: existe uma porta aberta para a participação.

Referências bibliográficas

BRASIL. Lei nº 4.169, de 4 de dezembro de 1962. Oficializa as convenções Braille para uso na escrita e leitura dos cegos e o Código de Contrações e Abreviaturas Braille. Brasília: Presidência da República, 1962.

BRASIL. Ministério da Educação. Grafia Braille para a Língua Portuguesa. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial.

BRASIL. Ministério da Educação. Atendimento Educacional Especializado: deficiência visual. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial, 2007.

INSTITUTO BENJAMIN CONSTANT. O Sistema Braille. Rio de Janeiro: Instituto Benjamin Constant.

LEMOS, Edison Ribeiro; CERQUEIRA, Jonir Bechara. O Sistema Braille no Brasil. Revista Benjamin Constant. Rio de Janeiro: Instituto Benjamin Constant.

SASSAKI, Romeu Kazumi. Inclusão: acessibilidade no lazer, trabalho e educação. São Paulo: Revista Nacional de Reabilitação.


Aula 2 – Soroban e raciocínio matemático para pessoas com deficiência visual

 

A Matemática faz parte da vida cotidiana de todas as pessoas. Ela está

Matemática faz parte da vida cotidiana de todas as pessoas. Ela está presente quando contamos dinheiro, calculamos tempo, organizamos compras, medimos espaços, repartimos quantidades, analisamos informações e resolvemos problemas simples ou complexos. Para pessoas com deficiência visual, o acesso à Matemática também é um direito, mas muitas vezes esse acesso depende de recursos adequados, mediação pedagógica cuidadosa e compreensão de que aprender Matemática não é apenas enxergar números no papel ou no quadro.

Nesse contexto, o Soroban ocupa um lugar muito importante. Ele é um instrumento de cálculo manual, semelhante a um ábaco, composto por contas móveis organizadas em hastes. No Brasil, ganhou destaque como recurso pedagógico para pessoas cegas ou com baixa visão, especialmente porque permite representar números e realizar operações matemáticas por meio do tato, do movimento e do raciocínio. O Ministério da Educação, por meio de material didático-pedagógico sobre o tema, apresenta o Soroban como um contador mecânico japonês adaptado pelo brasileiro Joaquim Lima de Moraes para uso por pessoas com deficiência visual.

Para compreender sua importância, é preciso lembrar que a Matemática, muitas vezes, é ensinada de forma muito visual. O professor escreve no quadro, organiza contas no papel, aponta colunas, usa gráficos, desenhos e símbolos. Para quem enxerga, esses elementos podem parecer naturais. Para um estudante cego, porém, é necessário que as informações matemáticas sejam apresentadas por outros caminhos. O Soroban ajuda justamente nessa passagem: ele transforma parte do cálculo em uma experiência tátil, organizada e manipulável.

O Soroban não deve ser confundido com uma calculadora eletrônica. A calculadora executa operações automaticamente depois que a pessoa digita os números. O Soroban, por outro lado, exige raciocínio, memória, coordenação, domínio do sistema de representação e compreensão das operações. Por isso, seu uso pode favorecer não apenas o resultado de uma conta, mas também o desenvolvimento do pensamento matemático. A Portaria MEC nº 1.010, de 2006, instituiu o Soroban como recurso educativo específico imprescindível para a execução de cálculos matemáticos por alunos com deficiência visual, destacando que sua manipulação depende do raciocínio, do domínio e da destreza do usuário, diferentemente da calculadora eletrônica.

Essa diferença é fundamental. Quando uma pessoa utiliza o Soroban, ela não apenas aperta teclas e recebe uma

resposta. Ela acompanha o processo. Move contas, organiza valores, compreende agrupamentos, identifica posições, realiza trocas e percebe relações entre unidades, dezenas, centenas e demais ordens numéricas. O cálculo passa a ter corpo, movimento e estrutura. Para o estudante com deficiência visual, isso pode ser muito significativo, porque permite trabalhar conceitos matemáticos por uma via acessível ao tato.

O Soroban também contribui para a compreensão do sistema de numeração decimal. Em muitos casos, crianças aprendem procedimentos matemáticos de forma mecânica, repetindo expressões como “vai um”, “empresta”, “desce o número” ou “corta aqui”. Essas expressões podem até ajudar na memorização de técnicas, mas nem sempre explicam o que está acontecendo matematicamente. O Soroban, quando bem ensinado, ajuda o aluno a perceber que os números estão organizados em posições e que as operações envolvem transformações entre essas posições. Assim, o estudante pode compreender melhor o sentido das trocas, dos agrupamentos e das decomposições.

Para pessoas cegas, essa concretização é especialmente importante. A escrita matemática em papel comum, quando não adaptada, pode ser inacessível. As colunas de uma adição, a disposição de uma divisão, a organização de uma multiplicação ou a leitura de números longos podem se tornar difíceis sem recursos adequados. O Soroban oferece uma estrutura estável, na qual cada haste representa uma ordem, e cada conta movimentada tem valor dentro daquela posição. O estudante não depende da visão para acompanhar a organização espacial da conta; ele pode percebê-la pelo tato e pela manipulação.

Isso não significa que o Soroban seja simples ou automático. Pelo contrário, seu aprendizado exige tempo, orientação e prática. O aluno precisa compreender a estrutura do instrumento, aprender a registrar números, movimentar as contas corretamente, desenvolver agilidade tátil, memorizar procedimentos e relacionar cada movimento ao significado matemático da operação. Por essa razão, o ensino do Soroban deve ser feito com responsabilidade, preferencialmente por profissionais preparados ou com apoio de materiais didáticos confiáveis.

O manual do MEC sobre técnicas operatórias para pessoas com deficiência visual foi produzido para subsidiar sistemas educacionais na oferta do atendimento educacional especializado complementar aos alunos com deficiência visual. Esse material apresenta a correta manipulação do Soroban, sua utilidade como recurso

pedagógico específico e técnicas para a execução de cálculos matemáticos. Em um curso básico e introdutório, o objetivo não é formar especialistas no ensino do Soroban, mas permitir que o aluno compreenda sua função, sua importância e seus limites.

Também é importante falar do chamado pré-Soroban. Antes de aprender diretamente as técnicas operatórias, muitos estudantes precisam desenvolver noções anteriores: lateralidade, coordenação motora fina, percepção tátil, organização espacial, noção de quantidade, sequência, classificação, correspondência, comparação e agrupamento. O material “A construção do conceito de número e o pré-Soroban”, vinculado ao MEC, apresenta justamente a necessidade de sistematizar o pré-Soroban e produzir materiais teóricos e práticos sobre o uso desse recurso na educação de pessoas com deficiência visual.

Esse cuidado mostra que aprender Soroban não é apenas decorar movimentos. Antes de operar, o aluno precisa construir conceitos. Se uma criança ainda não compreende quantidade, ordem, posição, agrupamento e relação entre partes e todo, o instrumento pode virar apenas uma sequência mecânica de gestos. A função pedagógica do Soroban é muito mais rica quando ele se conecta à compreensão matemática. O objetivo não é movimentar contas por repetição, mas usar o instrumento para pensar.

No ensino de Matemática, muitas dificuldades atribuídas ao aluno com deficiência visual podem, na verdade, estar ligadas à falta de recursos acessíveis. Quando o estudante não acompanha uma conta no quadro, não identifica uma figura geométrica ou não consegue organizar números em colunas no papel, não significa que ele seja incapaz de aprender Matemática. Significa que a forma de apresentação pode estar inadequada. O Soroban, junto com outros recursos, ajuda a remover parte dessa barreira.

É essencial lembrar que o Soroban não é o único recurso para o ensino de Matemática a pessoas com deficiência visual. Ele pode ser combinado com materiais em relevo, figuras táteis, sólidos geométricos, objetos concretos, gráficos adaptados, Braille, tecnologias assistivas, áudio, softwares acessíveis e explicações verbais bem organizadas. Cada conteúdo matemático pode exigir uma estratégia diferente. O Soroban é especialmente relevante para cálculos e compreensão numérica, mas a Matemática é ampla e envolve também geometria, medidas, estatística, funções, raciocínio lógico e resolução de problemas.

Outro ponto importante é que o Soroban favorece a autonomia. Um

estudante que domina o instrumento pode realizar cálculos sem depender exclusivamente de outra pessoa para escrever, organizar ou resolver operações. Essa autonomia é importante na escola, mas também em outras situações da vida. Calcular troco, conferir valores, resolver exercícios, participar de avaliações e desenvolver confiança no próprio raciocínio são experiências que fortalecem a independência.

A autonomia, entretanto, não deve ser confundida com abandono. O estudante com deficiência visual tem direito a apoio, mediação e recursos adequados. Não basta entregar o Soroban e esperar que ele aprenda sozinho. É preciso ensinar, acompanhar, corrigir, incentivar e respeitar o tempo de aprendizagem. A inclusão matemática exige planejamento e compromisso pedagógico. O instrumento, por si só, não garante aprendizagem; quem garante melhores condições é o uso adequado do recurso dentro de uma prática educativa bem orientada.

Na escola inclusiva, o Soroban também ajuda a repensar a própria maneira de ensinar Matemática. Muitas vezes, o ensino tradicional privilegia a cópia, a visão e a repetição de procedimentos. Quando o professor precisa ensinar um estudante cego, ele é levado a explicar melhor o que antes apenas mostrava. Precisa verbalizar raciocínios, organizar etapas, apresentar materiais concretos e valorizar diferentes formas de representação. Essa mudança pode beneficiar todos os alunos, não apenas aqueles com deficiência visual.

É comum que alguns educadores tenham receio de ensinar Matemática a alunos cegos por acreditarem que a disciplina depende muito da visão. De fato, muitos conteúdos matemáticos são apresentados visualmente, mas isso não significa que sejam inacessíveis. O que se precisa é de adaptação adequada, recursos pedagógicos e formação docente. A Matemática não pertence apenas aos olhos. Ela pode ser tocada, escutada, manipulada, descrita, representada em relevo e construída por meio de experiências concretas.

O Soroban é um bom exemplo dessa possibilidade. Nele, o estudante não vê os algarismos escritos da forma tradicional, mas compreende posições, valores e operações por meio de uma organização tátil. Essa experiência mostra que aprender não depende de um único canal sensorial. Pessoas aprendem por diferentes caminhos, e a função da educação inclusiva é ampliar esses caminhos, não os reduzir.

Também é importante evitar a ideia de que todo aluno com deficiência visual aprenderá da mesma forma ou no mesmo ritmo. Alguns terão grande

facilidade com o Soroban. Outros precisarão de mais tempo. Alguns poderão preferir recursos tecnológicos em determinadas situações. Outros utilizarão o Soroban como principal instrumento de cálculo. O professor deve observar, dialogar e planejar, sem impor uma solução única para todos. Inclusão não é padronizar recursos, mas oferecer condições adequadas a cada estudante.

No caso de alunos com baixa visão, o Soroban também pode ser útil, dependendo da necessidade. Alguns estudantes com baixa visão conseguem realizar cálculos ampliando materiais ou usando recursos ópticos. Outros podem se beneficiar da manipulação tátil, especialmente quando há cansaço visual, dificuldade de organização espacial ou baixa eficiência na leitura de números pequenos. Mais uma vez, o caminho mais adequado é compreender a necessidade individual, e não decidir com base em suposições.

No contexto das avaliações, o uso do Soroban também merece atenção. Se o estudante aprendeu Matemática com esse recurso e depende dele para realizar cálculos com autonomia, impedir seu uso pode gerar desigualdade. O parecer técnico citado em material do MEC assegura às pessoas com deficiência visual o direito ao uso do Soroban em concursos públicos, vestibulares e outros processos seletivos e de avaliação de desempenho em todo o território nacional. Essa informação reforça que o Soroban não é um “facilitador indevido”, mas um recurso de acessibilidade.

A ideia de vantagem precisa ser enfrentada com clareza. Quando uma pessoa cega utiliza o Soroban em uma avaliação, ela não está recebendo privilégio. Está usando um recurso que lhe permite executar cálculos em condições mais justas. Da mesma forma que uma pessoa que enxerga organiza cálculos no papel, a pessoa com deficiência visual pode necessitar de um instrumento adequado à sua forma de acesso. A justiça educacional não está em oferecer exatamente os mesmos meios para todos, mas em garantir condições equivalentes de participação.

O estudo do Soroban também nos ensina algo importante sobre o valor do tato na aprendizagem. Em uma sociedade fortemente visual, muitas vezes o tato é pouco valorizado como caminho de conhecimento. Para pessoas cegas, porém, a percepção tátil pode ser uma via fundamental de acesso a formas, texturas, posições, símbolos e estruturas. O Soroban valoriza essa dimensão tátil e mostra que o corpo também participa do raciocínio. As mãos não apenas movimentam contas; elas ajudam a organizar o pensamento matemático.

Em um curso

introdutório de Tiflologia, não se espera que o aluno saia dominando técnicas operatórias do Soroban. Essa aprendizagem exige formação específica e prática continuada. O que se espera é que ele compreenda por que o Soroban é importante, em que situações pode ser utilizado, quais ideias pedagógicas estão por trás dele e por que seu uso deve ser respeitado. Esse conhecimento básico já ajuda a combater preconceitos e evitar erros comuns, como pensar que o estudante cego deve usar apenas calculadora ou que não pode aprender Matemática de forma aprofundada.

A relação entre Soroban e raciocínio matemático é, portanto, muito mais ampla do que a execução de contas. O instrumento favorece concentração, memória, coordenação, organização espacial, compreensão do valor posicional, percepção de quantidade e construção de estratégias. Quando bem utilizado, pode ajudar o estudante a entender a lógica das operações e não apenas chegar ao resultado final. Isso faz dele um recurso pedagógico de grande valor.

Também é necessário reconhecer que o Soroban carrega uma dimensão histórica e social. Sua adaptação para pessoas com deficiência visual no Brasil mostra como recursos simples, quando pensados de forma inclusiva, podem transformar oportunidades educacionais. Um instrumento antigo, reorganizado para o acesso tátil, tornou-se ferramenta de autonomia e aprendizagem. Essa história revela que a inclusão não depende apenas de tecnologias modernas, mas também de criatividade, estudo e compromisso com a educação.

Por fim, estudar o Soroban é compreender que a Matemática deve ser acessível. Nenhum estudante deve ser afastado do pensamento matemático porque não enxerga o quadro, não acompanha uma conta no papel ou não acessa materiais visuais. Quando a escola oferece recursos adequados, o estudante com deficiência visual pode desenvolver raciocínio, resolver problemas, compreender conceitos e participar das mesmas aprendizagens propostas aos demais.

O Soroban, nesse sentido, é mais do que um instrumento de cálculo. Ele representa a possibilidade de pensar com as mãos, organizar números pelo tato e construir conhecimento por caminhos diferentes daqueles tradicionalmente usados por pessoas que enxergam. Ele nos lembra que a inclusão verdadeira não simplifica o conteúdo nem reduz expectativas. Ao contrário, oferece meios para que cada pessoa alcance o conhecimento com dignidade, autonomia e respeito.

Referências bibliográficas

BRASIL. Ministério da Educação. Soroban: manual de

técnicas operatórias para pessoas com deficiência visual. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial, 2009.

BRASIL. Ministério da Educação. A construção do conceito de número e o pré-Soroban. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial.

BRASIL. Ministério da Educação. Portaria MEC nº 1.010, de 10 de maio de 2006. Institui o Soroban como recurso educativo específico para a execução de cálculos matemáticos por alunos com deficiência visual. Brasília: Ministério da Educação, 2006.

BRASIL. Ministério da Educação. Portaria nº 657, de 7 de março de 2002. Institui a Comissão Brasileira de Estudo e Pesquisa do Soroban. Brasília: Ministério da Educação, 2002.

BRASIL. Ministério da Educação. Atendimento Educacional Especializado: deficiência visual. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial, 2007.

INSTITUTO BENJAMIN CONSTANT. Técnicas de cálculo e didática do Soroban. Rio de Janeiro: Instituto Benjamin Constant.

BRAGA, Jéssica. O ensino de Matemática para pessoas com deficiência visual. Revista Benjamin Constant. Rio de Janeiro: Instituto Benjamin Constant, 2023.

 

Aula 3 – Produção e adaptação de materiais acessíveis

 

Produzir e adaptar materiais acessíveis é uma das práticas mais importantes para garantir a participação de pessoas cegas, com baixa visão ou surdo-cegueira em ambientes educacionais, profissionais e sociais. Muitas vezes, o conteúdo existe, o professor explica, a instituição oferece o curso, mas o material não chega de forma adequada a todos. Quando isso acontece, a dificuldade não está na capacidade da pessoa com deficiência visual, mas na barreira criada pelo formato do material.

Um texto impresso com letras pequenas pode ser lido com facilidade por muitos alunos, mas pode se tornar inacessível para uma pessoa com baixa visão. Uma apostila escaneada como imagem pode parecer um arquivo digital comum, mas pode ser totalmente inútil para quem utiliza leitor de tela. Um gráfico sem descrição pode transmitir informações importantes para quem enxerga, mas deixar uma pessoa cega sem acesso aos dados. Uma atividade baseada apenas em imagens pode excluir quem precisa de descrição, relevo, áudio ou outro recurso. Por isso, adaptar materiais não é um detalhe complementar: é parte essencial da inclusão.

A Lei Brasileira de Inclusão compreende a acessibilidade como condição para que a pessoa com deficiência utilize espaços, mobiliários, equipamentos, transportes, informação,

comunicação e tecnologias com segurança e autonomia. Essa definição é importante porque mostra que a acessibilidade não se limita à estrutura física. Ela também envolve a forma como a informação é apresentada, compartilhada e compreendida. Um material educacional inacessível pode ser uma barreira tão grave quanto uma escada sem alternativa de acesso.

No campo da deficiência visual, a produção de materiais acessíveis exige uma pergunta inicial muito simples: de que maneira essa pessoa acessa melhor a informação? Algumas pessoas com baixa visão preferem fonte ampliada. Outras precisam de contraste adequado. Algumas utilizam leitor de tela. Outras usam Braille. Algumas preferem áudio. Outras combinam vários recursos, dependendo da situação. Não existe um único formato que resolva tudo para todos. A acessibilidade verdadeira começa quando se reconhece essa diversidade.

Por isso, é importante evitar uma ideia equivocada: adaptar não significa simplificar o conteúdo de forma indevida. Um estudante cego ou com baixa visão não precisa receber um conteúdo mais pobre, menor ou menos exigente apenas por ter deficiência visual. O que ele precisa é acessar o mesmo conhecimento por caminhos adequados. A adaptação deve alterar o meio de acesso, e não reduzir a expectativa de aprendizagem. Quando uma imagem é descrita, quando um texto é ampliado ou quando uma figura é transformada em relevo, o objetivo é permitir que a pessoa compreenda o conteúdo, não diminuir sua complexidade.

O Ministério da Educação, ao tratar do Atendimento Educacional Especializado para deficiência visual, reforça a importância de olhar para além da cegueira ou de qualquer impedimento visual, considerando recursos, estratégias e possibilidades de aprendizagem. Esse olhar é fundamental porque impede que o aluno seja visto apenas por sua limitação sensorial. O foco passa a ser a construção de condições para que ele aprenda, participe e desenvolva autonomia.

No caso de pessoas com baixa visão, os materiais ampliados costumam ter grande importância. No entanto, ampliar não significa apenas aumentar a letra sem critério. É preciso pensar no tamanho da fonte, no tipo de letra, no espaçamento, no contraste, na organização da página, na qualidade da impressão e na iluminação do ambiente. Um texto ampliado, mas com fonte muito decorativa, excesso de cores, fundo escuro mal utilizado ou baixa nitidez, pode continuar sendo difícil de ler. A ampliação deve favorecer a leitura, e não apenas aumentar o

tamanho da fonte, no tipo de letra, no espaçamento, no contraste, na organização da página, na qualidade da impressão e na iluminação do ambiente. Um texto ampliado, mas com fonte muito decorativa, excesso de cores, fundo escuro mal utilizado ou baixa nitidez, pode continuar sendo difícil de ler. A ampliação deve favorecer a leitura, e não apenas aumentar o tamanho do papel.

O contraste é outro elemento essencial. Muitas pessoas com baixa visão têm dificuldade para ler textos com pouca diferença entre a cor da letra e a cor do fundo. Letras cinza claro em fundo branco, textos coloridos sobre imagens e páginas visualmente poluídas podem dificultar bastante a leitura. Em geral, materiais com bom contraste, organização limpa e informações bem distribuídas são mais acessíveis. Isso não significa que todo material precise ser visualmente pobre ou sem identidade gráfica, mas que a estética não deve prejudicar a compreensão.

A iluminação também influencia. Um material pode estar bem ampliado, mas ser usado em um ambiente com luz inadequada. Algumas pessoas com baixa visão precisam de mais luminosidade; outras têm sensibilidade à claridade intensa. Por isso, quando possível, é importante conversar com a pessoa para saber o que funciona melhor. A adaptação não deve ser feita apenas com base em suposições, mas a partir da escuta e da observação.

Para pessoas cegas, os materiais podem envolver Braille, áudio, descrição textual, objetos concretos, recursos táteis, maquetes, mapas em relevo e arquivos digitais acessíveis. O Instituto Benjamin Constant informa que produz materiais didáticos e paradidáticos voltados à educação e ao lazer de pessoas cegas e com baixa visão, incluindo livros em Braille, audiolivros e materiais didáticos bidimensionais e tridimensionais. Essa diversidade de formatos mostra que o acesso ao conhecimento pode acontecer por diferentes caminhos.

O Braille é um recurso fundamental para muitas pessoas cegas, especialmente no processo de alfabetização, leitura, escrita, organização textual e acesso direto à linguagem escrita. Entretanto, nem toda pessoa cega lê Braille, seja por trajetória pessoal, idade em que perdeu a visão, acesso anterior à formação ou preferência por outros recursos. Por isso, ao produzir material acessível, não se deve presumir que o Braille será sempre a única solução. Ele é indispensável para muitos, mas deve ser pensado em diálogo com outras possibilidades.

Os materiais táteis também têm grande valor. Eles permitem

representar formas, relevos, contornos, mapas, figuras geométricas, gráficos, objetos e relações espaciais. Para uma pessoa cega, tocar uma representação em relevo pode ser mais significativo do que apenas ouvir uma descrição verbal, especialmente em conteúdos que envolvem formas, posições e dimensões. No entanto, o material tátil precisa ser bem planejado. Um relevo confuso, cheio de detalhes pequenos ou sem organização pode dificultar a compreensão em vez de ajudar.

A produção de materiais táteis exige escolhas. Nem todos os detalhes de uma imagem visual precisam ser reproduzidos em relevo. O mais importante é selecionar os elementos essenciais para o objetivo pedagógico. Em uma aula de geografia, um mapa tátil deve destacar as informações que o aluno precisa compreender: limites, regiões, direção, localização, rotas ou elementos principais. Em uma aula de geometria, a figura em relevo deve permitir perceber forma, lados, ângulos e relações espaciais. O excesso de informação pode tornar o material confuso ao tato.

Objetos concretos também são recursos importantes, principalmente em aulas introdutórias, ciências, matemática, artes, geografia e atividades de vida diária. Muitas vezes, antes de representar algo em relevo, é útil permitir que o aluno explore o objeto real ou uma miniatura. Uma criança cega que toca uma fruta, uma folha, uma embalagem, uma moeda, um sólido geométrico ou uma maquete pode construir referências mais ricas do que teria apenas com uma explicação verbal. O concreto ajuda a dar sentido à representação.

A descrição textual é outro recurso essencial. Imagens, fotografias, gráficos, tabelas, esquemas e ilustrações precisam ser descritos quando carregam informação importante. A descrição não deve ser feita de qualquer maneira. Ela precisa ser clara, objetiva e adequada ao contexto. Uma imagem decorativa pode receber uma descrição breve. Uma imagem didática, por outro lado, exige descrição mais cuidadosa. Se um gráfico apresenta dados, é necessário explicar os eixos, os valores e a tendência principal. Se uma fotografia ilustra uma situação social, é preciso descrever os elementos relevantes para a compreensão.

No ambiente digital, a acessibilidade exige atenção especial. Um arquivo em PDF pode ser acessível ou inacessível, dependendo de como foi criado. Um PDF gerado a partir de texto selecionável pode ser lido por leitores de tela. Já um PDF escaneado como imagem, sem reconhecimento de texto, pode impedir completamente a leitura.

Esse erro é muito comum em apostilas, certificados, comunicados, atividades e livros digitalizados. Para quem enxerga, o arquivo parece normal. Para quem usa leitor de tela, pode ser apenas uma imagem silenciosa.

O Modelo de Acessibilidade em Governo Eletrônico, conhecido como eMAG, orienta que a validação manual de acessibilidade seja feita com tecnologias assistivas, como leitores de tela, e destaca cuidados como navegação por teclado, contraste e textos alternativos para imagens. Embora tenha sido criado para orientar ambientes digitais do governo, seus princípios ajudam qualquer instituição que produza conteúdo digital, inclusive escolas, cursos livres, plataformas educacionais e empresas.

Um material digital acessível precisa ter estrutura. Títulos devem ser organizados corretamente. Links devem ser compreensíveis. Imagens relevantes precisam ter texto alternativo ou descrição. Tabelas devem ser construídas de forma que possam ser lidas em ordem lógica. Campos de formulário precisam ter identificação. Botões devem ter nomes claros. O conteúdo deve poder ser acessado por teclado, não apenas por mouse. Esses cuidados fazem diferença para pessoas que utilizam leitores de tela, ampliadores, comandos de voz ou outras tecnologias assistivas.

Também é necessário cuidado com imagens que contêm texto. Muitas instituições divulgam cartazes, avisos, cronogramas e comunicados apenas como imagem. Para uma pessoa cega, isso pode significar ausência total de informação, caso não haja descrição ou transcrição. Se uma imagem traz data, horário, local, regras ou orientações, essas informações precisam aparecer também em texto acessível. Uma postagem bonita, mas inacessível, pode excluir exatamente quem deveria receber a mensagem.

As tabelas também merecem atenção. Quando bem organizadas, ajudam a apresentar informações de forma clara. Quando mal feitas, podem dificultar o acesso por leitores de tela. Tabelas muito complexas, com células mescladas, excesso de colunas ou informações sem cabeçalhos claros podem gerar confusão. Em materiais acessíveis, é importante avaliar se a tabela é realmente necessária e, quando for, construí-la de forma simples, lógica e compreensível. Em alguns casos, uma explicação em parágrafos pode ser mais acessível do que uma tabela visualmente complexa.

Os gráficos precisam ser acompanhados de descrição dos dados principais. Não basta inserir o gráfico e esperar que todos o compreendam. Para uma pessoa cega, o gráfico precisa ser

traduzido em informação textual, tátil ou sonora. Para uma pessoa com baixa visão, pode ser necessário ampliar, melhorar contraste, usar padrões diferentes e evitar depender apenas de cores muito próximas. Quando um gráfico mostra aumento, queda, comparação ou proporção, esses elementos devem ser explicitados.

As cores, aliás, devem ser usadas com cuidado. Um material que diz “responda às perguntas em vermelho” ou “observe a área verde do mapa” pode criar barreiras para pessoas com baixa visão, daltonismo ou dificuldade de diferenciação cromática. A cor pode ser usada, mas não deve ser o único meio de transmitir informação. Sempre que a cor tiver função informativa, é recomendável associá-la a texto, padrão, legenda ou descrição.

No caso de videoaulas, a acessibilidade envolve a fala do professor, a descrição dos elementos visuais e a disponibilização de materiais complementares em formatos acessíveis. Se o professor mostra um slide e não verbaliza seu conteúdo, parte da aula se perde. Se resolve uma conta no quadro sem explicar as etapas, o aluno cego pode não acompanhar. Se apresenta uma imagem sem descrição, a informação visual não chega. A boa videoaula acessível é aquela em que a fala conduz o aluno pelo conteúdo, mesmo quando há elementos visuais na tela.

A adaptação de materiais também exige planejamento. O ideal é que a acessibilidade seja pensada desde o início, e não apenas depois que o aluno encontra dificuldade. Quando uma apostila já nasce bem estruturada, com texto selecionável, imagens descritas, fontes legíveis e organização clara, ela atende melhor a todos. Quando o material é produzido sem acessibilidade e precisa ser corrigido às pressas, o processo se torna mais difícil, demorado e sujeito a falhas.

Outro aspecto importante é o diálogo com a pessoa que utilizará o material. Às vezes, uma equipe produz um recurso acreditando que ele será útil, mas não pergunta ao estudante ou usuário se aquele formato realmente funciona. A pessoa com deficiência visual deve participar das decisões sempre que possível. Ela pode informar se prefere arquivo digital, áudio, Braille, fonte ampliada, contraste específico, material tátil ou combinação de recursos. A escuta evita desperdício de tempo e melhora a qualidade da adaptação.

No ambiente escolar, a produção de materiais acessíveis não deve ser responsabilidade isolada de uma única pessoa. Professores, coordenação pedagógica, Atendimento Educacional Especializado, equipe técnica, família e o

próprio estudante podem colaborar. O professor conhece o conteúdo. O profissional especializado pode orientar recursos e estratégias. A coordenação organiza fluxos. A família pode informar experiências anteriores. O estudante pode dizer o que funciona melhor. A inclusão se fortalece quando existe trabalho em rede.

Em cursos livres e plataformas digitais, esse cuidado também é essencial. Uma instituição que oferece cursos on-line precisa pensar em apostilas acessíveis, avaliações compatíveis com leitores de tela, botões identificados, navegação clara, descrição de imagens e suporte preparado. A acessibilidade não deve ser tratada como favor ou exceção, mas como parte da qualidade do serviço educacional. Um curso que se propõe a ensinar precisa garantir que seus materiais possam ser acessados por diferentes pessoas.

É importante lembrar que a tecnologia assistiva amplia possibilidades, mas não resolve sozinha todos os problemas. Um leitor de tela não consegue interpretar adequadamente uma imagem sem descrição. Um ampliador de tela não corrige um material visualmente confuso. Um aplicativo de leitura pode falhar diante de um PDF escaneado com baixa qualidade. Por isso, não basta dizer que a pessoa com deficiência visual deve usar tecnologia. O material também precisa ser preparado para funcionar com essa tecnologia.

A produção de materiais acessíveis exige também cuidado com a linguagem. Textos muito confusos, mal organizados, com excesso de termos técnicos sem explicação ou estrutura desordenada podem dificultar a aprendizagem. A acessibilidade não é apenas visual ou tecnológica; ela também é comunicacional. Uma linguagem clara, com frases bem construídas e sequência lógica, ajuda todos os estudantes, especialmente aqueles que dependem de leitura por áudio ou leitor de tela.

No entanto, linguagem clara não significa linguagem empobrecida. É possível escrever de forma didática sem retirar a profundidade do conteúdo. O objetivo é facilitar o acesso à compreensão, não reduzir o valor do conhecimento. Um bom material acessível combina rigor, clareza, organização e respeito ao público.

Também é necessário considerar o tempo. Materiais acessíveis podem demandar preparação prévia, principalmente quando envolvem Braille, relevo, audiodescrição, adaptação de gráficos ou revisão técnica. Por isso, entregar o conteúdo no último momento pode prejudicar o estudante com deficiência visual. O planejamento antecipado é uma forma de respeito. Quando o material chega a

tempo, o aluno pode estudar com autonomia, revisar, tirar dúvidas e participar em igualdade de condições.

Um erro comum é pensar que adaptar material é uma tarefa puramente técnica. Na verdade, ela também envolve sensibilidade pedagógica. É preciso compreender o objetivo daquela aula, o que o aluno precisa aprender, quais informações são essenciais e qual recurso permite melhor acesso. Nem toda imagem precisa virar relevo. Nem todo texto precisa virar áudio. Nem todo conteúdo precisa ser transformado em Braille. A adaptação adequada depende do conteúdo, da pessoa e do contexto.

Por exemplo, em uma aula sobre formas geométricas, um recurso tátil pode ser indispensável. Em uma aula sobre interpretação de texto, um arquivo digital acessível pode ser suficiente. Em uma aula sobre obras de arte, pode ser necessária descrição mais detalhada. Em uma aula de mapas, talvez seja útil combinar descrição, relevo e orientação espacial. A qualidade da adaptação está em escolher o recurso certo para a necessidade certa.

A produção de materiais acessíveis também combate a exclusão silenciosa. Muitas vezes, a pessoa com deficiência visual está presente na sala, matriculada no curso ou cadastrada na plataforma, mas não consegue estudar com autonomia porque os materiais não foram pensados para ela. Essa exclusão pode não aparecer de forma evidente, mas afeta a aprendizagem, a autoestima e a permanência. Quando o material é acessível, a mensagem transmitida é outra: você foi considerado, sua participação importa, este conteúdo também é seu.

Por fim, adaptar materiais acessíveis é uma prática de justiça educacional. Não se trata de facilitar indevidamente, oferecer vantagem ou diminuir exigências. Trata-se de remover barreiras para que a pessoa tenha condições reais de aprender. Uma apostila em formato acessível, uma imagem descrita, um gráfico explicado, um texto ampliado ou um recurso tátil bem produzido não fazem o trabalho pelo aluno. Apenas permitem que ele acesse o conhecimento e demonstre suas capacidades.

A Tiflologia nos ensina que a inclusão de pessoas com deficiência visual depende de recursos, atitudes e planejamento. Produzir materiais acessíveis é uma forma concreta de transformar esse princípio em prática. Quando a informação deixa de depender exclusivamente da visão, mais pessoas podem aprender, participar e construir autonomia. E quando o conhecimento se torna acessível, a educação cumpre melhor sua função: abrir caminhos, em vez de criar barreiras.

Referências bibliográficas

BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência. Brasília: Presidência da República, 2015.

BRASIL. Ministério da Educação. Atendimento Educacional Especializado: deficiência visual. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial, 2007.

BRASIL. Ministério da Educação. Recursos pedagógicos adaptados. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial.

BRASIL. Ministério da Educação. Recursos pedagógicos acessíveis e comunicação aumentativa e alternativa. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial, Universidade Federal do Ceará, 2010.

BRASIL. Governo Federal. Modelo de Acessibilidade em Governo Eletrônico — eMAG. Brasília: Governo Federal.

INSTITUTO BENJAMIN CONSTANT. Materiais especializados. Rio de Janeiro: Instituto Benjamin Constant.

INSTITUTO BENJAMIN CONSTANT. Materiais didáticos grafotáteis e ampliados. Rio de Janeiro: Instituto Benjamin Constant.

SASSAKI, Romeu Kazumi. Inclusão: acessibilidade no lazer, trabalho e educação. São Paulo: Revista Nacional de Reabilitação.


Estudo de caso – Módulo 3

“A prova que não media conhecimento: media acessibilidade”

 

Lucas era aluno do 6º ano e tinha cegueira desde a infância. Era curioso, participativo e gostava muito de Matemática. Desde pequeno, havia aprendido a usar o Sistema Braille para leitura e escrita e também estava iniciando o uso do Soroban para realizar cálculos. Na escola, sua professora de apoio já havia orientado a equipe sobre a importância de preparar materiais com antecedência, especialmente quando as aulas envolvessem imagens, gráficos, tabelas, mapas, operações matemáticas ou textos extensos.

No início do bimestre, a turma começou a estudar operações com números naturais, leitura de gráficos simples e interpretação de problemas matemáticos. A professora regente, Ana, explicava bem o conteúdo oralmente, mas ainda organizava suas aulas de maneira muito visual. Escrevia contas no quadro, circulava números com caneta colorida, desenhava gráficos e dizia frases como: “observem esta coluna”, “vejam a parte marcada em azul” ou “copiem o esquema da lousa”. Lucas prestava atenção, mas nem sempre conseguia acompanhar todos os detalhes, porque parte das informações não era verbalizada.

A escola sabia que Lucas usava Braille, mas muitos professores ainda não entendiam bem o que isso significava. Alguns imaginavam que bastava entregar qualquer texto

transcrito para que tudo estivesse resolvido. Outros pensavam que, como ele também usava leitor de tela no celular, talvez o Braille já não fosse tão necessário. Essa dúvida era comum, mas perigosa. O Braille é um sistema de leitura e escrita tátil para pessoas cegas e representa uma via importante de acesso à linguagem escrita, à alfabetização, à organização textual e à autonomia.

Na semana da avaliação, a professora preparou uma prova com dez questões. Havia problemas escritos, operações armadas, um gráfico de barras, uma tabela simples e duas figuras geométricas. Como estava sem tempo, enviou o arquivo para a secretaria apenas no dia anterior. A secretaria imprimiu uma versão comum para a turma e pediu que uma funcionária “lesse a prova” para Lucas. A intenção era ajudar, mas o resultado foi um grande problema.

No dia da prova, Lucas recebeu apenas a leitura oral das questões. Nas operações, a funcionária lia os números rapidamente, mas não conseguia representar bem a disposição em colunas. No gráfico, disse apenas: “tem uma barra maior e outras menores”. Na questão de geometria, explicou: “a figura é tipo um retângulo com uma parte cortada”. Lucas, que sabia resolver boa parte do conteúdo, começou a ficar ansioso. Ele não tinha o gráfico em relevo, não tinha a descrição organizada, não estava com o Soroban autorizado sobre a carteira e não recebeu tempo suficiente para acompanhar as informações de forma acessível.

Ao final da avaliação, sua nota foi baixa. A professora, surpresa, comentou na sala dos professores: “Achei que ele tivesse entendido, mas talvez Matemática seja difícil demais para ele”. A professora de apoio ouviu a frase e percebeu o equívoco. A prova não havia medido apenas o conhecimento matemático de Lucas. Ela havia medido também a falta de acessibilidade da avaliação. O estudante não errou porque não sabia; errou porque as informações não chegaram a ele de forma adequada.

Esse é um erro muito comum: confundir dificuldade de acesso com dificuldade de aprendizagem. Uma pessoa cega pode compreender operações, gráficos, tabelas e figuras, desde que esses conteúdos sejam apresentados por recursos acessíveis. O Atendimento Educacional Especializado para deficiência visual deve considerar recursos e estratégias que favoreçam a aprendizagem e a participação do aluno, e não apenas sua presença física na sala.

Depois da avaliação, a coordenação reuniu a professora regente, a professora de apoio e a família de Lucas. A mãe explicou que

ele estudava melhor quando recebia textos em Braille ou arquivos digitais acessíveis com antecedência. Também contou que ele estava aprendendo Soroban e que esse recurso o ajudava a organizar cálculos. A professora de apoio reforçou que o Soroban é um recurso pedagógico específico para pessoas com deficiência visual, utilizado para execução de cálculos, e que sua manipulação depende de raciocínio, domínio e destreza do usuário, não sendo equivalente a uma calculadora eletrônica.

A partir desse diálogo, a escola reconheceu vários erros. O primeiro foi deixar a adaptação para a última hora. Materiais em Braille, gráficos táteis, descrições bem elaboradas e provas acessíveis precisam de planejamento. Não se adapta uma avaliação complexa minutos antes da aplicação. O segundo erro foi acreditar que leitura oral substituiria todos os recursos. A leitura em voz alta pode ajudar em algumas situações, mas não substitui sempre o Braille, o Soroban, o material tátil ou o arquivo digital acessível. O terceiro erro foi impedir, ainda que sem intenção, que Lucas usasse os recursos com os quais vinha aprendendo.

Na semana seguinte, a professora refez parte da avaliação com apoio da equipe. As questões foram reorganizadas. Os textos foram transcritos em formato acessível. O gráfico foi descrito de forma objetiva, indicando título, eixos, categorias e valores principais. As figuras geométricas foram preparadas em relevo, com contornos mais claros e sem excesso de detalhes. As operações puderam ser realizadas com o Soroban. Lucas recebeu tempo adequado e pôde demonstrar o que sabia.

O resultado foi muito diferente. Ele ainda teve dúvidas em algumas questões, como qualquer estudante poderia ter, mas conseguiu compreender os enunciados, organizar os cálculos e interpretar os dados. A nova avaliação mostrou que o problema anterior não estava em sua capacidade matemática, mas na forma como a prova havia sido apresentada.

Erros comuns apresentados no caso e como evitá-los

1. Achar que Braille é dispensável porque existem tecnologias digitais

Esse é um erro frequente. Leitores de tela, áudio e aplicativos são recursos muito importantes, mas não substituem completamente a leitura e a escrita tátil. O Braille permite contato direto com a ortografia, pontuação, organização textual, símbolos e estrutura da escrita.

Como evitar:
Oferecer diferentes formatos acessíveis, respeitando a preferência e a necessidade do estudante. Braille, áudio, arquivos digitais e materiais táteis

podem se complementar.

2. Preparar materiais acessíveis apenas na última hora

A acessibilidade exige tempo. Gráficos em relevo, textos em Braille, descrições de imagens, tabelas acessíveis e provas adaptadas precisam ser planejados com antecedência.

Como evitar:
Organizar um fluxo entre professor regente, profissional de apoio, coordenação e setor responsável pela adaptação. O professor deve enviar avaliações e materiais com tempo suficiente para revisão e adequação.

3. Pensar que leitura oral resolve tudo

Ler uma prova em voz alta pode ser útil, mas não resolve todas as situações. Em conteúdos de Matemática, gráficos, tabelas, mapas e figuras, a organização espacial e tátil muitas vezes é essencial.

Como evitar:
Usar leitura oral apenas quando ela for suficiente. Em outros casos, combinar descrição, material tátil, Braille, Soroban, arquivos acessíveis e tempo adequado.

4. Retirar o Soroban por desconhecimento

Algumas escolas confundem Soroban com calculadora ou pensam que ele dá vantagem indevida. Na realidade, o Soroban é um instrumento de cálculo que exige raciocínio e manipulação consciente, sendo historicamente utilizado por estudantes cegos no Brasil.

Como evitar:
Permitir o uso do Soroban quando ele faz parte do processo de aprendizagem do estudante. O recurso não faz a atividade pelo aluno; apenas oferece um meio acessível para realizar cálculos.

5. Produzir materiais táteis confusos

Nem toda imagem deve ser transformada em relevo do mesmo jeito. Materiais táteis com muitos detalhes pequenos, excesso de linhas ou informações desnecessárias podem confundir.

Como evitar:
Selecionar os elementos essenciais da imagem. Um bom material tátil deve ser simples, organizado e coerente com o objetivo da aula.

6. Adaptar reduzindo o conteúdo

Outro erro comum é retirar questões, simplificar demais ou oferecer uma atividade mais fácil ao aluno com deficiência visual. Isso pode parecer cuidado, mas reduz as expectativas de aprendizagem.

Como evitar:
Adaptar o acesso, não empobrecer o conteúdo. O aluno deve ter condições de estudar o mesmo tema, com recursos adequados à sua forma de aprendizagem.

7. Confundir dificuldade de acesso com incapacidade

A baixa nota de Lucas foi interpretada inicialmente como dificuldade em Matemática, quando, na verdade, a avaliação não estava acessível.

Como evitar:
Antes de concluir que o aluno “não aprendeu”, é necessário perguntar: o material estava acessível? A explicação foi suficiente? O estudante pôde usar

seus recursos? A avaliação media conhecimento ou media barreiras?

O que a escola aprendeu

Depois do ocorrido, a professora Ana mudou sua forma de planejar. Ao preparar uma aula com imagem, passou a pensar: “essa imagem precisa de descrição?”. Ao elaborar uma atividade com gráfico, perguntava: “quais dados precisam ser comunicados em texto ou relevo?”. Ao montar uma prova de Matemática, verificava se Lucas teria acesso à estrutura das operações e aos recursos necessários para resolver os problemas.

A coordenação também criou um procedimento simples: qualquer avaliação com imagens, tabelas, gráficos, mapas ou operações deveria ser enviada com antecedência para adaptação. A escola começou a consultar Lucas sobre os formatos mais adequados e passou a conversar mais com a família e com a professora de apoio. A mudança não resolveu todos os desafios de uma vez, mas criou uma cultura mais cuidadosa.

A turma também aprendeu. Em trabalhos em grupo, os colegas passaram a descrever melhor imagens e gráficos, em vez de dizer apenas “está aqui” ou “é esse desenho”. Quando havia atividade com cartazes, incluíam texto acessível. Quando Lucas usava o Soroban, os colegas deixaram de perguntar se aquilo era “cola” e passaram a entender que era um recurso de acessibilidade.

O caso de Lucas mostra que o Módulo 3 não trata apenas de Braille, Soroban e materiais acessíveis como recursos isolados. Ele trata do direito ao conhecimento. O Braille permite acesso direto à leitura e à escrita. O Soroban possibilita cálculos por meio de raciocínio e tato. Os materiais acessíveis transformam imagens, textos, gráficos e atividades em conteúdos que podem ser compreendidos por diferentes caminhos. O Instituto Benjamin Constant, por exemplo, atua na produção de livros em Braille, audiolivros e materiais didáticos bidimensionais e tridimensionais voltados a estudantes cegos e com baixa visão, mostrando a importância da diversidade de formatos.

Lição principal do módulo

A principal lição deste estudo de caso é que acessibilidade não pode ser improviso. Quando a escola deixa para adaptar depois, o aluno é colocado em desvantagem. Quando a prova não oferece recursos adequados, ela não avalia de forma justa. Quando o Soroban é proibido por desconhecimento, o estudante perde um instrumento legítimo de raciocínio matemático. Quando o Braille é tratado como dispensável, o acesso à escrita pode ser enfraquecido.

Lucas não precisava de uma prova mais fácil. Precisava de uma prova acessível.

Não precisava que alguém fizesse os cálculos por ele. Precisava usar o Soroban. Não precisava que retirassem gráficos e figuras do conteúdo. Precisava que essas informações fossem descritas, adaptadas ou representadas em relevo.

A inclusão verdadeira não reduz o conhecimento oferecido ao estudante com deficiência visual. Ela amplia os caminhos para que esse estudante chegue ao conhecimento. Esse é o sentido mais importante do Módulo 3: Braille, Soroban e materiais acessíveis não são favores, privilégios ou detalhes técnicos. São recursos que tornam a aprendizagem possível, digna e justa.

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