Apostila 3 — Curso Básico de Sexologia

BÁSICO DE SEXOLOGIA

 

Módulo 3 – Desejo, Dificuldades Sexuais e Cuidado Profissional 

Aula 1 – Desejo, excitação e fatores que influenciam a sexualidade

 

O desejo sexual faz parte da experiência humana, mas não funciona como um mecanismo que permanece igual durante toda a vida. Assim como o humor, o apetite ou a disposição física, ele pode variar conforme diferentes situações. Trabalho, estudos, preocupações financeiras, qualidade do sono, saúde física, emoções e até a dinâmica dos relacionamentos influenciam a forma como cada pessoa vivencia sua sexualidade. Por isso, oscilações no desejo são comuns e, na maioria das vezes, fazem parte das mudanças naturais da vida. O Ministério da Saúde destaca que a saúde sexual envolve bem-estar físico, mental, emocional e social, além da possibilidade de viver a sexualidade de maneira saudável, segura e respeitosa.

Para compreender melhor esse processo, é importante diferenciar alguns conceitos. O desejo sexual corresponde ao interesse ou à motivação para a atividade sexual. Já a excitação refere-se às respostas físicas e emocionais desencadeadas por diferentes estímulos, como pensamentos, lembranças, fantasias, toque, carinho ou outras formas de interação. Embora estejam relacionados, desejo e excitação não são exatamente a mesma coisa. Em algumas situações, uma pessoa pode sentir desejo antes da excitação; em outras, a excitação pode surgir gradualmente durante momentos de intimidade. Essas diferenças fazem parte da diversidade da resposta sexual humana.

Durante muitos anos, acreditou-se que todas as pessoas vivenciavam a resposta sexual da mesma maneira. Atualmente, a ciência reconhece que não existe um único padrão considerado normal. Algumas pessoas experimentam desejo de forma mais espontânea, enquanto outras percebem o interesse sexual surgir principalmente em contextos de proximidade emocional, segurança e confiança. Essa compreensão ajuda a reduzir comparações e expectativas irreais, mostrando que a sexualidade é influenciada pela história de vida e pelas características individuais.

As emoções exercem papel fundamental nesse processo. Situações de estresse, ansiedade, tristeza, excesso de responsabilidades ou conflitos familiares podem diminuir temporariamente o interesse pela atividade sexual. Da mesma forma, momentos de tranquilidade, autoestima fortalecida e relacionamentos saudáveis costumam favorecer uma vivência mais positiva da sexualidade. Isso ocorre porque cérebro e corpo funcionam de

maneira integrada, e fatores emocionais interferem diretamente na resposta sexual. O próprio Ministério da Saúde reconhece que fatores como ansiedade, depressão, conflitos com o parceiro e crenças negativas sobre sexualidade podem influenciar o desejo sexual.

A saúde física também influencia o desejo e a excitação. Algumas doenças crônicas, alterações hormonais, dores persistentes, distúrbios do sono e determinados medicamentos podem modificar a resposta sexual. Isso não significa que a pessoa perderá definitivamente sua capacidade de viver a sexualidade, mas indica que o organismo responde às condições gerais de saúde. Por esse motivo, quando mudanças persistentes causam sofrimento ou comprometem a qualidade de vida, é importante procurar avaliação profissional em vez de recorrer ao autodiagnóstico ou à automedicação.

Outro aspecto frequentemente ignorado é a influência da qualidade do relacionamento. Confiança, respeito, comunicação e demonstrações de afeto criam um ambiente emocional favorável para a intimidade. Em contrapartida, conflitos constantes, falta de diálogo, ressentimentos e insegurança podem reduzir o interesse sexual. Assim, muitas dificuldades não estão relacionadas apenas ao funcionamento do corpo, mas também à forma como o casal se comunica e enfrenta os desafios do cotidiano. A Organização Pan-Americana da Saúde destaca que a saúde sexual envolve relações respeitosas, seguras e livres de coerção, nas quais a comunicação e os direitos das pessoas são valorizados.

Também é importante compreender que diferentes fases da vida trazem mudanças naturais. Adolescência, gestação, pós-parto, climatério, menopausa, andropausa e envelhecimento podem provocar alterações hormonais e emocionais capazes de influenciar o desejo e a resposta sexual. Essas transformações não representam, por si só, uma doença. Em muitos casos, fazem parte do processo natural de desenvolvimento e podem ser vividas de forma saudável com informação, acompanhamento adequado e diálogo entre os parceiros. O Ministério da Saúde ressalta que a sexualidade continua sendo importante em todas as etapas da vida, inclusive na velhice, sendo influenciada pela saúde geral, pelos medicamentos, pela saúde mental e pela qualidade dos relacionamentos.

Infelizmente, muitas pessoas acreditam que existe um desempenho sexual considerado ideal. Comparações com relatos encontrados nas redes sociais, filmes ou conteúdos da internet podem criar expectativas irreais e aumentar a ansiedade.

Quando a preocupação com o desempenho se torna excessiva, a espontaneidade tende a diminuir, favorecendo inseguranças e dificuldades que poderiam ser evitadas. A sexualidade humana não deve ser medida por padrões rígidos, mas compreendida como uma experiência individual, construída a partir das características e necessidades de cada pessoa.

Outro equívoco frequente é interpretar qualquer redução temporária do desejo como sinal de uma disfunção sexual. A maioria das pessoas experimenta períodos de maior ou menor interesse sexual ao longo da vida. A diferença está no impacto dessas mudanças. Quando a alteração é persistente, provoca sofrimento significativo ou interfere na qualidade de vida e nos relacionamentos, torna-se importante procurar profissionais habilitados para realizar uma avaliação completa, considerando fatores físicos, emocionais e relacionais.

Ao compreender como desejo, excitação e emoções interagem, torna-se mais fácil abandonar mitos e desenvolver uma visão mais saudável sobre a sexualidade. O conhecimento científico mostra que não existe uma única forma de viver a intimidade. Cada pessoa possui seu próprio ritmo, suas experiências e suas necessidades. Respeitar essa diversidade, cuidar da saúde física e emocional e manter uma comunicação aberta nos relacionamentos são atitudes que contribuem para uma vivência mais equilibrada, responsável e satisfatória da sexualidade.

Referências bibliográficas

BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva. Brasília: Ministério da Saúde, 2013.

BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde Sexual e Reprodutiva. Brasília: Ministério da Saúde.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Definindo Saúde Sexual: Relatório de Consulta Técnica sobre Saúde Sexual. Genebra: OMS.

ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE (OPAS). Saúde Sexual e Reprodutiva. Brasília: OPAS.

KAPLAN, Helen Singer. Manual Ilustrado de Terapia Sexual. São Paulo: Manole.

MASTERS, William H.; JOHNSON, Virginia E. A Resposta Sexual Humana. São Paulo: Manole.


Aula 2 – Introdução às dificuldades e disfunções sexuais

 

A sexualidade faz parte da saúde integral e, como qualquer outro aspecto do organismo, pode sofrer alterações ao longo da vida. Em determinados momentos, é comum que uma pessoa apresente mudanças no desejo, na excitação ou na satisfação sexual em decorrência do estresse, do cansaço, de preocupações, de problemas de saúde ou de transformações naturais do corpo. Essas situações, quando são passageiras, normalmente não indicam a

presença de uma doença. O cuidado está em observar quando as dificuldades se tornam frequentes, persistentes e começam a causar sofrimento ou prejudicar a qualidade de vida e os relacionamentos. O Ministério da Saúde destaca que as dificuldades sexuais merecem atenção quando deixam de ser episódios ocasionais e passam a interferir de forma significativa no bem-estar da pessoa.

É importante diferenciar uma dificuldade sexual ocasional de uma disfunção sexual. Uma dificuldade pode surgir em momentos específicos, como durante um período de ansiedade, excesso de trabalho, conflitos no relacionamento ou alterações temporárias da saúde. Já as disfunções sexuais costumam apresentar caráter persistente ou recorrente e provocam sofrimento significativo, exigindo uma avaliação profissional cuidadosa para identificar suas causas e indicar a melhor forma de acompanhamento.

As disfunções sexuais podem afetar diferentes fases da resposta sexual. Algumas pessoas apresentam redução ou ausência do desejo sexual; outras enfrentam dificuldades relacionadas à excitação, ao orgasmo, à ereção, à ejaculação ou sentem dor durante a atividade sexual. Essas manifestações podem ocorrer em homens e mulheres e não devem ser motivo de vergonha. Assim como acontece com outros problemas de saúde, buscar orientação profissional é uma atitude de cuidado e responsabilidade.

Durante muito tempo, acreditou-se que essas dificuldades eram causadas exclusivamente por fatores emocionais. Hoje se sabe que a sexualidade resulta da interação entre aspectos físicos, psicológicos, relacionais e sociais. Alterações hormonais, doenças crônicas, uso de determinados medicamentos, ansiedade, depressão, baixa autoestima, conflitos conjugais e experiências traumáticas são alguns exemplos de fatores que podem influenciar a função sexual. Em muitos casos, mais de um desses elementos está presente ao mesmo tempo, tornando necessária uma avaliação ampla e individualizada.

Outro aspecto importante é compreender que nem toda redução do desejo sexual representa uma disfunção. Mudanças no interesse pela atividade sexual podem ocorrer durante diferentes fases da vida, como gravidez, pós-parto, climatério, menopausa, envelhecimento ou períodos de intenso desgaste físico e emocional. O contexto em que a pessoa vive precisa sempre ser considerado antes de qualquer conclusão. A Organização Pan-Americana da Saúde reforça que a saúde sexual envolve bem-estar físico, mental e social, sendo influenciada por diversos

fatores que vão além do funcionamento biológico.

Infelizmente, muitas pessoas deixam de procurar ajuda por vergonha ou medo de julgamento. Algumas acreditam que suas dificuldades fazem parte do envelhecimento e não possuem tratamento. Outras recorrem a informações encontradas na internet ou utilizam medicamentos sem orientação profissional, o que pode mascarar sintomas ou até causar problemas de saúde. O autodiagnóstico e a automedicação representam riscos importantes, pois diferentes condições podem apresentar sintomas semelhantes, mas necessitar de abordagens completamente diferentes.

A avaliação das dificuldades sexuais deve considerar a pessoa de forma integral. Durante o atendimento, o profissional pode investigar o histórico de saúde, o uso de medicamentos, doenças existentes, hábitos de vida, aspectos emocionais, qualidade do relacionamento e características da dificuldade apresentada. Em alguns casos, exames complementares podem ser necessários para esclarecer possíveis causas físicas. Em outros, o acompanhamento psicológico ou terapêutico pode contribuir significativamente para a melhora da qualidade de vida. Essa visão interdisciplinar permite compreender que a sexualidade não depende apenas do corpo, mas também da maneira como a pessoa vivencia suas emoções e seus relacionamentos.

Outro ponto que merece destaque é a influência da ansiedade de desempenho. Muitas pessoas passam a observar excessivamente seu próprio desempenho durante a intimidade, preocupando-se em corresponder a padrões irreais divulgados pela mídia ou pelas redes sociais. Essa preocupação excessiva aumenta a tensão emocional e pode dificultar ainda mais a resposta sexual, criando um ciclo de insegurança. Romper esse ciclo exige informação confiável, diálogo com o parceiro e, quando necessário, acompanhamento profissional.

Também é importante compreender que procurar ajuda não significa que exista um problema grave. Assim como ocorre em outras áreas da saúde, quanto mais cedo uma dificuldade é identificada, maiores são as possibilidades de tratamento e melhora. A saúde sexual faz parte da saúde geral e merece a mesma atenção dedicada aos demais aspectos do bem-estar físico e emocional. O Ministério da Saúde ressalta que o diagnóstico adequado das disfunções sexuais é fundamental porque essas condições podem interferir significativamente na qualidade de vida das pessoas e de seus relacionamentos.

Concluir que todas as dificuldades sexuais têm a mesma causa é um erro

comum. Cada pessoa possui uma história, um contexto e necessidades específicas. Por isso, compreender a sexualidade de forma ampla, respeitando suas dimensões biológicas, emocionais e sociais, contribui para reduzir preconceitos e favorece o acesso a um cuidado mais humanizado. Conhecimento, diálogo e orientação profissional são ferramentas essenciais para promover uma vida sexual saudável e uma melhor qualidade de vida.

Referências bibliográficas

ABDO, Carmita Helena Najjar; FLEURY, Heloisa Jane. Aspectos Diagnósticos e Terapêuticos das Disfunções Sexuais. São Paulo: Segmento Farma.

BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva. Brasília: Ministério da Saúde, 2013.

BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem. Brasília: Ministério da Saúde.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Considerações e Ações Fundamentais para Alcançar o Acesso Universal à Saúde Sexual e Reprodutiva. Genebra: OMS.

ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE (OPAS). Saúde Sexual e Reprodutiva. Brasília: OPAS.

KAPLAN, Helen Singer. Manual Ilustrado de Terapia Sexual. São Paulo: Manole.

 

Aula 3 – Atuação profissional, acolhimento e encaminhamento

 

A sexualidade faz parte da saúde integral e pode influenciar o bem-estar físico, emocional, psicológico e social das pessoas. Por esse motivo, o cuidado nessa área exige uma abordagem acolhedora, ética e baseada em evidências científicas. Mais do que oferecer respostas prontas, os profissionais que atuam com temas relacionados à sexualidade devem criar um ambiente seguro para que dúvidas, medos e dificuldades possam ser discutidos sem constrangimentos ou julgamentos. A Organização Mundial da Saúde define a saúde sexual como um estado de bem-estar físico, mental e social relacionado à sexualidade, que depende de relações respeitosas e do acesso a cuidados adequados.

Um dos princípios mais importantes da atuação profissional é a escuta qualificada. Muitas pessoas encontram dificuldade para falar sobre sexualidade por receio de serem criticadas ou incompreendidas. Por isso, o acolhimento deve ser marcado pelo respeito à individualidade, à privacidade e à confidencialidade. Ouvir atentamente, permitir que a pessoa exponha suas dúvidas e evitar julgamentos favorecem a construção de uma relação de confiança, elemento essencial para um atendimento humanizado.

Também é importante compreender que a sexualidade envolve diferentes dimensões da vida humana. Alterações relacionadas ao desejo, à

excitação, à dor durante as relações, às infecções sexualmente transmissíveis ou aos conflitos nos relacionamentos podem apresentar causas físicas, emocionais, psicológicas e sociais ao mesmo tempo. Dessa forma, dificilmente um único profissional conseguirá atender sozinho todas as necessidades apresentadas por uma pessoa. A atuação interdisciplinar torna-se, portanto, uma das principais características do cuidado em saúde sexual.

Na prática, diferentes profissionais podem contribuir para a promoção da saúde sexual. Médicos realizam avaliações clínicas, diagnósticos e tratamentos quando necessários. Psicólogos auxiliam em questões emocionais, comportamentais e relacionais. Enfermeiros desenvolvem ações educativas, prevenção, orientação e acompanhamento em saúde. Fisioterapeutas especializados em saúde pélvica podem atuar em algumas condições relacionadas ao assoalho pélvico e à função sexual. Além desses profissionais, educadores, assistentes sociais e outros especialistas também podem participar do cuidado, sempre dentro de suas competências.

Outro aspecto fundamental é reconhecer os limites da própria atuação. Um curso introdutório de sexologia oferece conhecimentos importantes para compreender conceitos básicos e promover educação em saúde, mas não habilita automaticamente alguém a realizar diagnósticos clínicos, prescrever medicamentos ou conduzir tratamentos especializados. Saber identificar situações que exigem encaminhamento para profissionais qualificados é uma atitude ética e demonstra responsabilidade com a segurança da pessoa atendida.

O encaminhamento torna-se necessário sempre que surgem sinais que exigem avaliação especializada. Dificuldades persistentes relacionadas ao desejo, à ereção, à excitação, ao orgasmo ou à dor durante as relações, além de suspeitas de infecções sexualmente transmissíveis, violência sexual, sofrimento emocional intenso ou alterações importantes da saúde física, são exemplos de situações que merecem investigação profissional. Quanto mais cedo essas condições forem identificadas, maiores são as possibilidades de tratamento e melhora da qualidade de vida.

A comunicação também exerce papel decisivo no atendimento. Utilizar uma linguagem clara, acessível e respeitosa facilita a compreensão das orientações e fortalece a autonomia da pessoa para participar das decisões relacionadas à própria saúde. Explicações excessivamente técnicas ou o uso de termos que provoquem constrangimento podem dificultar o diálogo e reduzir

também exerce papel decisivo no atendimento. Utilizar uma linguagem clara, acessível e respeitosa facilita a compreensão das orientações e fortalece a autonomia da pessoa para participar das decisões relacionadas à própria saúde. Explicações excessivamente técnicas ou o uso de termos que provoquem constrangimento podem dificultar o diálogo e reduzir a confiança no atendimento.

Outro princípio indispensável é o respeito à diversidade humana. Pessoas possuem histórias de vida, valores, culturas, crenças e experiências diferentes. Um atendimento humanizado considera essas particularidades sem discriminação, oferecendo informações baseadas em evidências científicas e respeitando os direitos de cada indivíduo. A OPAS e a OMS reforçam que a promoção da saúde sexual depende do respeito aos direitos humanos, da não discriminação e da garantia de acesso igualitário aos serviços de saúde.

A educação em saúde representa outra importante atribuição dos profissionais. Orientar sobre prevenção das infecções sexualmente transmissíveis, métodos contraceptivos, consentimento, autocuidado, comunicação nos relacionamentos e hábitos saudáveis contribui para reduzir desinformação e fortalecer a autonomia das pessoas. Estudos mostram que a educação em sexualidade baseada em evidências melhora o conhecimento, favorece escolhas responsáveis e não estimula comportamentos de risco, como ainda sugerem alguns mitos.

Por fim, a atuação profissional em sexologia deve estar sempre fundamentada na ética, no conhecimento científico e no respeito à dignidade humana. O profissional não deve impor opiniões pessoais nem permitir que crenças individuais interfiram na qualidade do atendimento. Seu papel é oferecer informações confiáveis, acolher as necessidades apresentadas, reconhecer seus limites de atuação e encaminhar a pessoa para outros profissionais sempre que isso for necessário.

Ao concluir este módulo, torna-se evidente que promover saúde sexual vai muito além do tratamento de doenças. Significa acolher pessoas, respeitar suas diferenças, incentivar o autocuidado, fortalecer a comunicação e trabalhar de forma integrada para oferecer um atendimento completo, humanizado e centrado nas necessidades de cada indivíduo.

Referências bibliográficas

ABDO, Carmita Helena Najjar. Sexologia Clínica: Abordagem Diagnóstica e Terapêutica. São Paulo: Roca.

BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva. Brasília: Ministério da Saúde, 2013.

BRASIL. Ministério da Saúde.

Cuidando de Adolescentes: Orientações Básicas para a Saúde. Brasília: Ministério da Saúde.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Considerações e Ações Fundamentais para Alcançar o Acesso Universal à Saúde Sexual e Reprodutiva no Contexto da Atenção Primária à Saúde. Genebra: OMS.

ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE (OPAS). Saúde Sexual e Reprodutiva. Brasília: OPAS.

UNESCO. Orientação Técnica Internacional sobre Educação em Sexualidade: uma abordagem baseada em evidências. Paris: UNESCO.

 

Estudo de Caso – Módulo 3

O silêncio que adiou a solução

 

Marcelo, de 41 anos, era casado havia doze anos e sempre teve uma boa relação com a esposa, Patrícia. Nos últimos meses, porém, começou a perceber uma redução no desejo sexual e, em algumas ocasiões, dificuldade para manter a ereção. Inicialmente, acreditou que tudo fosse consequência do excesso de trabalho e decidiu ignorar o problema.

Com o passar do tempo, a situação tornou-se mais frequente. Em vez de conversar com a esposa ou procurar ajuda, Marcelo passou a evitar momentos de intimidade por vergonha. Patrícia, sem compreender o que estava acontecendo, interpretou esse afastamento como falta de interesse no relacionamento. Aos poucos, surgiram discussões, insegurança e distanciamento emocional.

Na tentativa de resolver a situação rapidamente, Marcelo começou a pesquisar na internet. Encontrou vídeos e anúncios que prometiam resultados imediatos por meio de suplementos e medicamentos vendidos sem orientação médica. Convencido pelas propagandas, iniciou o uso desses produtos por conta própria, sem realizar qualquer avaliação clínica.

Mesmo após algumas semanas, nenhuma melhora significativa aconteceu. Além disso, Marcelo começou a apresentar dores de cabeça e aumento da pressão arterial. Somente depois de insistência da esposa decidiu procurar uma unidade de saúde.

Durante a consulta, o profissional realizou uma escuta acolhedora, permitindo que Marcelo falasse livremente sobre suas dificuldades, sem julgamentos. A avaliação mostrou que o problema não estava relacionado apenas à função sexual. Marcelo apresentava hipertensão arterial ainda não diagnosticada, elevados níveis de estresse, noites mal dormidas e ansiedade relacionada ao desempenho sexual. O profissional explicou que alterações na resposta sexual podem estar associadas a fatores físicos, emocionais e relacionais, sendo necessária uma investigação completa antes de qualquer tratamento. O Ministério da Saúde orienta que dificuldades sexuais

persistentes sejam avaliadas de forma integral e, quando necessário, acompanhadas por uma equipe multiprofissional.

Além da avaliação médica, Marcelo foi encaminhado para acompanhamento psicológico, recebeu orientações sobre hábitos de vida saudáveis e iniciou o tratamento da hipertensão. O casal também participou de algumas sessões de orientação voltadas para melhorar a comunicação e reduzir a ansiedade gerada pelas expectativas em relação ao desempenho sexual.

Após alguns meses, Marcelo percebeu melhora não apenas na vida sexual, mas também na qualidade do sono, na disposição física e no relacionamento com Patrícia. O casal compreendeu que a dificuldade enfrentada não era motivo de vergonha, mas uma condição de saúde que precisava ser tratada de forma responsável.

Erros cometidos no caso

  • Ignorar os primeiros sinais de uma dificuldade persistente.
  • Acreditar que o problema desapareceria sozinho.
  • Evitar conversar com a parceira por vergonha.
  • Buscar informações apenas em anúncios e redes sociais.
  • Utilizar medicamentos e suplementos sem orientação profissional.
  • Pensar que toda dificuldade sexual possui apenas uma causa física ou apenas emocional.

Como evitar esses erros

O primeiro passo é compreender que alterações persistentes na função sexual merecem atenção da mesma forma que qualquer outro problema de saúde. Procurar ajuda precocemente aumenta as possibilidades de identificar a causa e iniciar o tratamento adequado.

Também é fundamental abandonar o autodiagnóstico. Mudanças no desejo, na excitação ou na ereção podem estar relacionadas a doenças crônicas, alterações hormonais, uso de medicamentos, ansiedade, depressão, conflitos no relacionamento ou à combinação desses fatores. Apenas uma avaliação profissional consegue identificar corretamente a origem da dificuldade.

Outro aprendizado importante é valorizar o diálogo. Conversar com o parceiro ou parceira reduz interpretações equivocadas e fortalece a confiança durante o enfrentamento do problema. Em muitos casos, a comunicação torna-se parte essencial do processo de cuidado.

Também é importante reconhecer os limites da atuação de cada profissional. Algumas situações podem ser resolvidas na atenção básica com orientações e acompanhamento, enquanto outras exigem encaminhamento para médicos especialistas, psicólogos, fisioterapeutas pélvicos ou outros profissionais capacitados. A abordagem interdisciplinar é recomendada porque as dificuldades

sexuais frequentemente envolvem múltiplos fatores.

Lições aprendidas

A saúde sexual faz parte da saúde integral e merece ser tratada com naturalidade, respeito e responsabilidade. Vergonha, silêncio e automedicação costumam atrasar o diagnóstico e dificultar a resolução dos problemas.

Quando a pessoa encontra um atendimento acolhedor, baseado na escuta qualificada e em evidências científicas, torna-se mais fácil compreender a origem das dificuldades e construir um plano de cuidado adequado. O conhecimento, a comunicação e o encaminhamento oportuno são ferramentas fundamentais para promover qualidade de vida, fortalecer os relacionamentos e garantir uma vivência da sexualidade mais saudável e segura.

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