NOÇÕES
BÁSICAS EM TRADE MARKETING
MÓDULO
1 — Fundamentos do Trade Marketing
Aula 1 — O que é Trade Marketing e por que
ele existe?
Quando uma pessoa entra em um
supermercado, em uma farmácia, em uma loja de conveniência ou até mesmo em uma
loja virtual, ela encontra muito mais do que produtos à venda. Ela encontra
marcas disputando atenção, espaços organizados de determinada maneira,
promoções em destaque, embalagens pensadas para chamar o olhar, cartazes,
displays, preços, ofertas combinadas e vendedores ou promotores tentando
facilitar a decisão de compra. Tudo isso não acontece por acaso. Por trás dessa
organização existe planejamento, negociação e estratégia. É nesse contexto que
aparece o Trade Marketing.
De forma simples, o Trade Marketing pode
ser entendido como a área que aproxima a indústria dos canais de venda. Em
outras palavras, ele ajuda a transformar a estratégia de uma marca em ações
concretas dentro do ponto de venda. Não basta uma empresa fabricar um bom
produto, divulgar esse produto em propagandas e esperar que o consumidor o
escolha naturalmente. Para que a venda aconteça, o produto precisa estar
disponível, bem exposto, com preço visível, em um local adequado e dentro de
uma proposta que faça sentido para o varejista e para o comprador.
Imagine, por exemplo, uma marca de café
que deseja aumentar suas vendas. Ela pode investir em comerciais, redes sociais
e embalagens bonitas. No entanto, se o produto estiver escondido na última
prateleira, sem preço, com pouco estoque ou longe dos principais concorrentes,
as chances de venda diminuem. Por outro lado, se esse mesmo café estiver bem-posicionado,
com uma comunicação clara, próximo de produtos complementares e com uma
promoção adequada, ele terá mais chance de ser percebido e escolhido. O Trade
Marketing atua justamente nessa passagem entre a intenção da marca e a
experiência real de compra.
É importante compreender que o Trade Marketing não substitui o marketing tradicional nem a área de vendas. Ele funciona como uma ponte entre esses dois mundos. O marketing pensa na marca, no consumidor, no posicionamento e na comunicação. A área comercial negocia com clientes, distribuidores, atacadistas e varejistas. O Trade Marketing observa como tudo isso se concretiza no canal de venda. Ele pergunta: o produto está chegando corretamente às lojas? Está sendo exposto da melhor forma? A promoção está funcionando? O varejista está
interessado em vender esse item? O
consumidor consegue entender a oferta?
Por isso, uma das primeiras ideias que o
aluno precisa guardar é que o Trade Marketing trabalha com parceria. A
indústria depende do varejo para chegar ao consumidor. O varejo, por sua vez,
precisa de produtos que tenham giro, margem, qualidade e boa aceitação. O
consumidor deseja encontrar o que procura com facilidade, confiança e bom
custo-benefício. Quando essas três partes se encontram de maneira equilibrada,
a venda tem mais possibilidade de acontecer.
No passado, muitas empresas concentravam
seus esforços principalmente na propaganda voltada ao consumidor final. A
lógica era simples: divulgar bastante o produto para que o consumidor
procurasse por ele na loja. Essa estratégia continua importante, mas hoje já se
sabe que muitas decisões são tomadas no próprio ponto de venda. O consumidor
pode entrar na loja pensando em comprar uma marca e sair com outra. Pode ser
influenciado por uma promoção, por uma exposição mais atrativa, por uma
embalagem mais visível, por uma degustação ou até pela ausência do produto que
pretendia comprar inicialmente.
Esse comportamento mostra por que o ponto
de venda é tão importante. Ele não é apenas o lugar onde o produto é entregue
ao consumidor. Ele também é um espaço de comunicação, comparação e decisão. A
gôndola de um supermercado, por exemplo, funciona como uma espécie de “campo de
disputa” entre marcas. Ali, produtos semelhantes competem por atenção. A altura
da prateleira, a quantidade de frentes expostas, a organização por categoria,
os materiais promocionais e o preço podem influenciar diretamente a escolha.
Para quem está começando, pode parecer que
Trade Marketing é apenas colocar cartazes, organizar prateleiras ou criar
promoções. Esses elementos fazem parte da área, mas ela vai além disso. O Trade
Marketing envolve análise de canais, estudo do comportamento do comprador,
planejamento de campanhas, negociação de espaços, acompanhamento de
indicadores, treinamento de equipes, controle de estoque, prevenção de ruptura
e avaliação dos resultados. É uma área prática, mas também estratégica.
Um exemplo simples ajuda a entender melhor. Suponha que uma empresa de produtos de limpeza lance um novo desinfetante. A equipe de marketing criou o nome, a embalagem e a campanha de divulgação. A equipe de vendas negociou com redes de supermercados para colocar o produto nas lojas. Mas ainda falta uma pergunta essencial: como esse produto será
apresentado ao comprador no momento da compra? Ele ficará junto dos outros
desinfetantes? Terá uma ilha promocional? Haverá uma oferta de lançamento? O
promotor vai conferir se o produto está nas prateleiras? A comunicação
explicará o diferencial do produto? Essas decisões fazem parte do trabalho de
Trade Marketing.
Também é necessário entender a diferença
entre consumidor e comprador, muitas vezes chamado de shopper. O consumidor é
quem usa o produto. O shopper é quem realiza a compra. Em alguns casos, são a
mesma pessoa. Em outros, não. Uma mãe pode comprar o achocolatado para o filho.
Um filho pode comprar remédio para os pais. Uma empresa pode comprar café para
os funcionários. Essa diferença é importante porque a comunicação no ponto de
venda precisa conversar com quem decide a compra naquele momento.
O Trade Marketing existe porque vender
ficou mais complexo. Há mais marcas, mais canais, mais formatos de loja e
consumidores mais informados. Além do varejo físico, existem lojas online,
aplicativos, marketplaces, redes sociais e programas de fidelidade. O comprador
compara preços, lê avaliações, recebe cupons e pode mudar de decisão
rapidamente. Nesse cenário, não basta estar presente; é preciso estar presente
de forma inteligente.
Outro ponto importante é que cada canal de
venda tem sua própria lógica. Uma ação pensada para supermercado pode não
funcionar da mesma forma em uma farmácia. Um produto vendido em atacarejo pode
exigir embalagem maior, preço competitivo e exposição de volume. Já em uma loja
de conveniência, talvez o mais importante seja a praticidade, o impulso de
compra e a visibilidade rápida. No e-commerce, a foto, a descrição, as
avaliações e o destaque na busca podem cumprir um papel semelhante ao da
gôndola física.
Por isso, o Trade Marketing precisa
adaptar a estratégia da marca à realidade de cada canal. Essa adaptação exige
sensibilidade comercial. Não adianta propor uma ação bonita se ela não cabe no
espaço da loja, se atrapalha a operação do varejista ou se não gera resultado.
Da mesma forma, não adianta fazer uma promoção agressiva se a loja não tiver
estoque suficiente para atender à demanda. A boa ação de Trade Marketing
precisa ser pensada do começo ao fim.
Um dos conceitos mais importantes para essa área é a execução. Execução significa colocar o plano em prática corretamente. Muitas empresas criam campanhas interessantes, mas falham no momento de executar. O material promocional não chega à loja, o produto não é
reposto, o preço anunciado está diferente do preço no caixa, o promotor não
recebeu orientação adequada ou o espaço negociado não foi respeitado. Quando
isso acontece, a estratégia perde força.
A execução correta depende de organização,
acompanhamento e comunicação entre as partes. O Trade Marketing precisa
conversar com vendas, logística, varejo, promotores e, em alguns casos, com
agências externas. Precisa também observar o que está acontecendo no campo.
Relatórios, fotos, visitas e indicadores ajudam a identificar se a ação está
funcionando ou se precisa ser corrigida.
Ao mesmo tempo, é preciso lembrar que o
Trade Marketing não deve ser visto apenas como uma área de “empurrar produto”
para o varejo. Seu papel é construir valor para todos os envolvidos. Para a
indústria, ele pode aumentar vendas, fortalecer a marca e melhorar a presença
nos canais. Para o varejista, pode gerar melhor giro de estoque, maior
rentabilidade e uma loja mais organizada. Para o consumidor, pode facilitar a
escolha e melhorar a experiência de compra.
Quando bem aplicado, o Trade Marketing
ajuda a responder perguntas práticas: qual produto deve receber mais destaque?
Em qual loja a ação deve acontecer? Qual promoção faz sentido para determinado
público? Como evitar falta de produto? Como melhorar a exposição? Como medir se
a campanha deu resultado? Essas perguntas mostram que a área tem uma função
muito ligada à realidade do mercado.
É comum que iniciantes confundam Trade
Marketing com merchandising. O merchandising no ponto de venda está relacionado
às técnicas de exposição, comunicação visual e estímulo à compra dentro da
loja. Já o Trade Marketing é mais amplo. Ele pode utilizar o merchandising como
uma de suas ferramentas, mas também envolve planejamento por canal, negociação
comercial, análise de dados, ações promocionais, acompanhamento de sell-in e
sell-out, relacionamento com o varejo e gestão da execução.
Também é comum confundir Trade Marketing
com vendas. A área de vendas tem foco direto na negociação comercial, no
atendimento aos clientes e no cumprimento de metas de venda. O Trade Marketing
apoia essa área criando estratégias para que o produto tenha melhor desempenho
nos canais. Ele ajuda vendas a chegar ao varejista com argumentos, materiais,
campanhas e informações mais consistentes. Portanto, as duas áreas precisam
trabalhar juntas.
Na prática, o profissional de Trade Marketing precisa desenvolver uma visão ampla. Ele deve olhar para a marca, para o
produto, para o varejo, para o comprador e para os resultados. Precisa
entender que uma loja não é apenas um espaço físico, mas um ambiente de
decisão. Precisa perceber que uma promoção mal planejada pode até vender mais
por alguns dias, mas prejudicar margem, gerar falta de estoque ou acostumar o
consumidor a comprar apenas com desconto.
Por isso, o Trade Marketing exige
equilíbrio. É preciso vender, mas também preservar a marca. É preciso agradar o
varejista, mas sem perder a estratégia da empresa. É preciso atrair o
consumidor, mas sem criar ações confusas ou enganosas. Uma boa ação é aquela
que tem objetivo claro, execução viável e resultado mensurável.
Para o aluno iniciante, o melhor caminho é
começar observando o cotidiano. Ao entrar em uma loja, observe quais produtos
aparecem primeiro. Veja quais marcas ocupam mais espaço. Repare se os preços
estão visíveis. Observe se há cartazes, displays, degustações ou ofertas.
Compare a organização de uma categoria em diferentes lojas. Aos poucos, ficará
mais fácil perceber que o ponto de venda comunica muitas coisas, mesmo sem
palavras.
Também é interessante observar como as
marcas disputam datas especiais. Na Páscoa, ovos de chocolate ganham áreas de
grande circulação. No Dia das Mães, cosméticos, perfumes, roupas e
eletrodomésticos recebem destaque. Na volta às aulas, papelarias, supermercados
e lojas online reorganizam seus espaços para vender mochilas, cadernos e
materiais escolares. Essas movimentações mostram o Trade Marketing funcionando
de forma planejada e sazonal.
Ao final desta primeira aula, é importante
compreender que o Trade Marketing existe porque a venda não acontece apenas
pela existência do produto. Ela depende de presença, exposição,
disponibilidade, comunicação, relacionamento com o canal e entendimento do
comprador. A marca precisa estar onde o consumidor compra, mas também precisa
estar bem apresentada, bem-posicionada e bem executada.
Portanto, Trade Marketing é uma área
essencial para transformar estratégia em venda real. Ele aproxima a indústria
do varejo, fortalece a presença dos produtos nos canais e ajuda o consumidor a
tomar decisões de compra com mais facilidade. Para quem está começando, essa
compreensão inicial é fundamental: antes de pensar em grandes campanhas, é
preciso entender o caminho do produto até o ponto de venda e o comportamento de
quem compra.
Mais do que decorar conceitos, o estudante deve aprender a olhar o mercado com atenção. Cada prateleira, cada
promoção,
cada cartaz e cada falta de produto conta uma história sobre planejamento,
negociação e execução. O Trade Marketing ensina justamente a ler essa história
e a agir sobre ela de maneira estratégica.
Referências bibliográficas
ALVAREZ, Francisco Javier S. Mendizabal. Trade
Marketing: a conquista do consumidor no ponto de venda. São Paulo: Saraiva,
2008.
BLESSA, Regina. Merchandising no ponto
de venda. São Paulo: Atlas, 2010.
COBRA, Marcos. Administração de
marketing no Brasil. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009.
KOTLER, Philip; KELLER, Kevin Lane. Administração
de marketing. São Paulo: Pearson, 2012.
LAS CASAS, Alexandre Luzzi. Marketing:
conceitos, exercícios, casos. São Paulo: Atlas, 2019.
PARENTE, Juracy; BARKI, Edgard. Varejo
no Brasil: gestão e estratégia. São Paulo: Atlas, 2014.
Aula 2 — Canais de venda e comportamento
do shopper
Quando falamos em Trade Marketing, é comum
pensar logo em prateleiras, promoções, materiais de ponto de venda e ações
dentro das lojas. Tudo isso realmente faz parte da área, mas antes de decidir
como um produto será exposto ou divulgado, é preciso entender uma questão
essencial: onde ele será vendido e quem realmente toma a decisão de compra. É
por isso que esta aula trata dos canais de venda e do comportamento do shopper.
O canal de venda é o caminho pelo qual o
produto chega até o comprador. Esse caminho pode ser curto, quando a empresa
vende diretamente ao consumidor, ou mais longo, quando passa por
distribuidores, atacadistas, representantes, varejistas e plataformas digitais.
Cada canal tem suas próprias características, exigências, vantagens e
limitações. Uma estratégia que funciona bem em um supermercado pode não
funcionar da mesma forma em uma farmácia, em uma loja de conveniência ou em um
marketplace.
Para compreender melhor, imagine uma marca
de biscoitos. Em um supermercado, ela pode disputar espaço em uma gôndola com
muitas marcas concorrentes. Em uma loja de conveniência, talvez o produto seja
comprado por impulso, junto com uma bebida. Em um atacarejo, o consumidor pode
procurar embalagens maiores e preços mais vantajosos. Em uma loja online, a
decisão pode depender da foto, da descrição, das avaliações e do valor do
frete. O produto é o mesmo, mas o contexto de compra muda completamente.
Essa diferença mostra por que o Trade Marketing precisa conhecer bem os canais. Não basta definir uma campanha bonita e tentar aplicá-la igualmente em todos os lugares. O profissional da área precisa
perceber como cada canal funciona, que tipo de comprador frequenta
aquele ambiente, qual é o papel daquele ponto de venda na rotina do consumidor
e quais ações podem gerar melhores resultados.
Entre os canais mais conhecidos estão os
supermercados, hipermercados, atacarejos, farmácias, lojas de conveniência,
mercearias, distribuidores, atacadistas, lojas especializadas, e-commerces,
aplicativos e marketplaces. Cada um desses formatos exige uma forma diferente
de pensar a venda. Em alguns, o preço é o principal atrativo. Em outros, a
praticidade, a variedade, a confiança ou a experiência de compra têm mais peso.
Os supermercados, por exemplo, costumam
trabalhar com grande variedade de produtos e alta frequência de compra. Muitas
pessoas vão ao supermercado para abastecer a casa, comparar marcas, aproveitar
promoções e comprar itens de rotina. Nesse ambiente, a exposição na gôndola, a
organização por categoria, as pontas promocionais e os tabloides de ofertas
podem influenciar bastante a decisão do shopper.
Já os atacarejos combinam características
do atacado e do varejo. Neles, é comum encontrar embalagens maiores, preços
mais competitivos e compras em maior volume. Muitas famílias, pequenos
comerciantes e consumidores atentos ao preço procuram esse canal para
economizar. Uma ação de Trade Marketing nesse tipo de loja precisa considerar
volume, giro, estoque e comunicação objetiva. O comprador geralmente quer
entender rapidamente a vantagem da compra.
As farmácias possuem outra dinâmica. Além
de medicamentos, vendem cosméticos, produtos de higiene, suplementos, itens
infantis e produtos de conveniência. Nesse canal, a confiança, a orientação, a
organização e a percepção de cuidado podem ter grande importância. Um produto
de dermocosmético, por exemplo, pode precisar de explicações mais claras,
amostras, treinamento da equipe de loja e materiais que transmitam segurança.
As lojas de conveniência, por sua vez,
trabalham muito com compras rápidas e de impulso. O consumidor entra, escolhe e
sai em pouco tempo. Muitas vezes, procura algo para consumo imediato, como
bebidas, salgadinhos, doces, café, sanduíches ou produtos emergenciais. Nesse
tipo de canal, a visibilidade e a praticidade são fundamentais. O produto
precisa ser percebido rapidamente, pois o shopper não costuma passar muito
tempo comparando opções.
As mercearias e pequenos varejos de bairro também merecem atenção. Apesar de muitas vezes terem menos espaço e menor estrutura, possuem
proximidade com a comunidade e relação direta com os
clientes. O dono da loja conhece os hábitos de compra da região, sabe quais
produtos giram mais e pode influenciar a escolha do comprador. Nesse caso, o
relacionamento comercial e a adequação do mix de produtos são muito
importantes.
No ambiente digital, a lógica também muda.
Em um e-commerce ou marketplace, o produto não disputa uma prateleira física,
mas disputa atenção em uma tela. A foto, o título, a descrição, o preço, o
prazo de entrega, as avaliações, o destaque nos resultados de busca e os
anúncios internos passam a cumprir papel semelhante ao da exposição no ponto de
venda. Se o produto não aparece bem ou não transmite confiança, pode ser
ignorado com facilidade.
Essa diversidade de canais mostra que o
Trade Marketing precisa ser flexível. O profissional da área deve observar não
apenas onde o produto está, mas como o shopper se comporta naquele local. E
aqui aparece uma diferença muito importante: consumidor e shopper não são
sempre a mesma pessoa.
O consumidor é quem usa ou consome o
produto. O shopper é quem realiza a compra. Em alguns casos, as duas figuras
coincidem. Uma pessoa compra um sabonete para uso próprio; nesse caso, ela é
shopper e consumidora ao mesmo tempo. Mas isso nem sempre acontece. Uma mãe
pode comprar o cereal que o filho consome. Um filho pode comprar medicamentos
ou produtos de higiene para os pais. Uma empresa pode comprar café para seus
funcionários. Uma pessoa pode comprar um perfume para presentear outra.
Essa diferença é fundamental para o Trade
Marketing porque a comunicação no ponto de venda precisa conversar com quem
está decidindo a compra. O consumidor final pode desejar sabor, conforto,
beleza ou desempenho. O shopper pode estar mais atento ao preço, à confiança na
marca, ao tamanho da embalagem, à facilidade de encontrar o produto ou à
recomendação de alguém. Quando a empresa entende essa diferença, consegue criar
ações mais eficientes.
Vamos imaginar um produto infantil, como
um achocolatado. A criança pode ser a consumidora e influenciar a compra pelo
sabor, personagem da embalagem ou propaganda que viu. Mas o adulto é quem
geralmente decide se compra ou não, observando preço, valor nutricional, marca,
tamanho da embalagem e confiança no produto. Uma boa estratégia de Trade
Marketing precisa considerar essas duas visões: o desejo da criança e a decisão
do adulto.
O mesmo acontece com produtos para animais de estimação. O cachorro ou gato é o
consumidor, mas o tutor é o shopper. Nesse
caso, a decisão pode envolver preço, qualidade, recomendação veterinária,
tamanho da embalagem, ingredientes e percepção de cuidado. A exposição do
produto, a comunicação da embalagem e os materiais informativos precisam
conversar com quem compra, mesmo que o produto seja destinado ao animal.
Para entender o shopper, é necessário
observar sua jornada de compra. Essa jornada envolve os passos que a pessoa
percorre antes, durante e depois da compra. Em alguns casos, ela começa com uma
necessidade clara: acabou o arroz em casa, é preciso comprar mais. Em outros,
nasce de um desejo: a pessoa viu um produto novo e ficou curiosa. Também pode
ser motivada por urgência, promoção, indicação ou hábito.
Antes da compra, o shopper pode pesquisar
preços, conversar com outras pessoas, ver avaliações online, lembrar de uma
propaganda ou planejar uma lista. Durante a compra, ele compara marcas, observa
preços, procura o produto, avalia embalagens, percebe promoções e decide.
Depois da compra, ele usa o produto, forma uma opinião e pode comprar novamente
ou trocar de marca.
No ponto de venda físico, muitos fatores
influenciam essa jornada. A localização do produto, a facilidade de circulação,
a organização da categoria, a clareza dos preços, a presença de ofertas e a
disponibilidade em estoque podem facilitar ou dificultar a compra. Um produto
excelente pode vender pouco se estiver mal localizado, sem preço visível ou em
falta. Por outro lado, um produto bem apresentado pode chamar a atenção até de
quem não pretendia comprá-lo.
No ambiente digital, a jornada também
precisa ser bem cuidada. O shopper pode abandonar uma compra se a página demora
a carregar, se a foto é ruim, se a descrição é confusa, se o frete é alto ou se
não encontra avaliações confiáveis. Assim como uma loja física precisa ser
organizada, uma loja online também precisa facilitar a decisão.
Uma expressão cada vez mais usada nesse
contexto é omnichannel. Ela se refere à integração entre diferentes canais de
venda e relacionamento. O consumidor pode pesquisar um produto no celular,
comparar preços no site, ver avaliações em uma plataforma, visitar a loja
física e finalizar a compra pelo aplicativo. Ou pode comprar online e retirar
na loja. Para o Trade Marketing, isso significa que o ponto de venda não é mais
apenas um lugar físico. Ele pode estar na prateleira, na tela do celular, no
aplicativo, no marketplace e nas redes sociais.
Essa integração exige
coerência. Se uma
campanha anuncia determinado produto no aplicativo, mas o consumidor não o
encontra na loja, a experiência fica ruim. Se o preço divulgado em um canal é
muito diferente do outro sem explicação, pode surgir desconfiança. Se a marca
promete praticidade, mas o processo de compra é difícil, a mensagem perde
força. O Trade Marketing precisa ajudar a alinhar comunicação, disponibilidade
e execução nos diferentes canais.
Outro ponto importante é o papel do mix de
produtos. O mix é o conjunto de produtos oferecidos em determinado canal ou
loja. Nem todo ponto de venda precisa vender todos os produtos de uma marca.
Uma farmácia pequena talvez precise de um mix mais enxuto e adequado ao público
local. Um hipermercado pode trabalhar com mais variedade. Uma loja de
conveniência deve priorizar itens de giro rápido e consumo imediato. Escolher o
mix correto evita excesso de estoque, falta de produtos importantes e
desperdício de espaço.
Para fazer boas escolhas, o Trade
Marketing precisa considerar o perfil do canal, o comportamento do shopper e os
objetivos da marca. Uma loja próxima a escolas pode vender melhor produtos
infantis, lanches rápidos e bebidas individuais. Uma loja próxima a escritórios
pode ter bom desempenho com café, snacks, produtos prontos e itens de
conveniência. Uma loja em região residencial pode precisar de produtos de
abastecimento doméstico. Cada realidade pede uma leitura diferente.
Também é preciso observar as ocasiões de
consumo. O mesmo produto pode ser comprado por motivos diferentes. Uma barra de
chocolate pode ser comprada como sobremesa, presente, lanche rápido ou compra
por impulso. Uma bebida pode ser comprada para consumo individual, festa,
reunião familiar ou revenda. Quando a empresa entende a ocasião, consegue
posicionar melhor o produto, criar combos e organizar ações mais adequadas.
As datas sazonais também influenciam os
canais e o comportamento do shopper. Páscoa, Natal, Dia das Mães, Dia dos
Namorados, Black Friday, volta às aulas e festas juninas mudam a forma como as
pessoas compram. O varejo reorganiza espaços, as marcas criam campanhas e os
consumidores passam a buscar produtos específicos. O Trade Marketing precisa se
antecipar a essas datas, planejando estoque, materiais, promoções e exposição.
Um erro comum é olhar apenas para a venda realizada ao varejista e esquecer a venda ao consumidor final. Em Trade Marketing, costuma-se falar em sell-in e sell-out. O sell-in é a venda da indústria para o
canal de venda, como distribuidor, atacado ou varejo. O
sell-out é a venda do varejo para o consumidor final. Uma empresa pode vender
bastante para uma rede de lojas, mas se o produto não sair para o consumidor, o
estoque fica parado e o varejista pode deixar de comprar novamente.
Por isso, entender o shopper é tão
importante. O objetivo não é apenas colocar o produto dentro da loja, mas fazer
com que ele gire. Produto parado ocupa espaço, imobiliza dinheiro e pode gerar
perdas. Produto que gira bem interessa ao varejista, fortalece a marca e
melhora o relacionamento comercial. O Trade Marketing deve pensar nesse ciclo
completo.
Também é importante perceber que o shopper
nem sempre age de forma totalmente racional. Muitas decisões são influenciadas
por emoções, hábitos, lembranças, confiança na marca, pressa, aparência da
embalagem, recomendação de outras pessoas e sensação de oportunidade. Uma
promoção bem apresentada pode gerar a impressão de vantagem. Uma embalagem
familiar pode transmitir segurança. Um produto colocado em local estratégico
pode despertar uma necessidade que não estava planejada.
Isso não significa manipular o consumidor,
mas facilitar sua decisão de forma clara e adequada. O bom Trade Marketing
respeita o shopper. Ele organiza a informação, melhora a exposição, evita
confusão e ajuda o comprador a encontrar o que precisa. A venda deve acontecer
porque a proposta faz sentido, não porque o consumidor foi enganado.
Para os iniciantes, uma boa forma de
aprender é observar lojas reais. Ao visitar um supermercado, uma farmácia ou
uma loja de conveniência, vale prestar atenção em algumas perguntas: quais
produtos estão na entrada? Quais marcas ficam na altura dos olhos? Onde estão
as promoções? O preço está claro? Há produtos em falta? A loja facilita a
comparação? Quais itens parecem estar ali para compra planejada e quais parecem
estimular compra por impulso?
Esse exercício mostra que os canais de
venda são ambientes vivos. Eles mudam conforme o público, a região, a época do
ano, o tamanho da loja e a estratégia comercial. O Trade Marketing precisa
acompanhar essas mudanças e ajustar suas ações. Uma estratégia eficiente hoje
pode precisar ser revista amanhã se o comportamento do shopper mudar, se surgir
um concorrente forte ou se o canal adotar novas formas de venda.
Ao final desta aula, o aluno deve compreender que o canal de venda não é apenas o lugar onde o produto fica disponível. Ele influencia a forma como o shopper percebe,
compara e decide.
Cada canal possui uma lógica própria, e cada shopper chega ao momento da compra
com necessidades, expectativas e comportamentos diferentes.
Portanto, conhecer canais de venda e
comportamento do shopper é uma base essencial para qualquer ação de Trade
Marketing. Antes de pensar em promoção, display, desconto ou campanha, é
preciso perguntar: quem compra este produto? Onde compra? Por que compra? Como
decide? O que valoriza? Que dificuldades encontra? A partir dessas respostas, a
estratégia deixa de ser improvisada e passa a ser construída com mais
inteligência.
O Trade Marketing começa quando a empresa
entende que vender bem não depende apenas de ter um bom produto, mas de colocar
esse produto no canal certo, da forma certa, para o shopper certo. Esse olhar
torna a atuação mais prática, mais estratégica e mais próxima da realidade do
mercado.
Referências bibliográficas
ALVAREZ, Francisco Javier S. Mendizabal. Trade
Marketing: a conquista do consumidor no ponto de venda. São Paulo: Saraiva,
2008.
BLESSA, Regina. Merchandising no ponto
de venda. São Paulo: Atlas, 2010.
COBRA, Marcos. Administração de
marketing no Brasil. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009.
KOTLER, Philip; KELLER, Kevin Lane. Administração
de marketing. São Paulo: Pearson, 2012.
LAS CASAS, Alexandre Luzzi. Marketing
de varejo. São Paulo: Atlas, 2013.
PARENTE, Juracy; BARKI, Edgard. Varejo
no Brasil: gestão e estratégia. São Paulo: Atlas, 2014.
Aula 3 — O papel do Trade Marketing dentro
da empresa
O Trade Marketing ocupa um espaço muito
importante dentro das empresas porque ajuda a transformar ideias, campanhas e
metas comerciais em ações concretas nos canais de venda. Muitas vezes, uma
marca tem um bom produto, uma campanha de divulgação bem planejada e uma equipe
de vendas empenhada, mas ainda assim encontra dificuldade para fazer o produto
chegar ao consumidor da maneira correta. Isso acontece porque existe uma
distância entre planejar uma estratégia e executá-la no ponto de venda. O Trade
Marketing atua justamente nessa ligação.
Para entender melhor, imagine uma empresa que fabrica produtos de higiene pessoal e decide lançar uma nova linha de sabonetes. A área de marketing pode definir o posicionamento da marca, escolher o público-alvo, criar a embalagem, desenvolver a comunicação e pensar nos diferenciais do produto. A equipe de vendas pode negociar com supermercados, farmácias e atacadistas para que essa linha esteja disponível nas lojas. Mas ainda falta uma
etapa essencial: garantir que o produto seja bem apresentado,
esteja no canal adequado, tenha visibilidade, esteja abastecido e seja
percebido pelo shopper no momento da compra. É aí que entra o Trade Marketing.
Dentro da empresa, o Trade Marketing
funciona como uma ponte entre marketing, vendas, logística, varejo e
consumidor. Ele precisa entender a proposta da marca, conhecer os objetivos
comerciais, observar o comportamento do comprador e adaptar as ações à realidade
dos canais de venda. Seu trabalho não se resume a criar cartazes, displays ou
promoções. Esses recursos são importantes, mas fazem parte de um conjunto maior
de decisões.
Uma das principais funções do Trade
Marketing é apoiar a área comercial. Vendas trabalha diretamente com os
clientes da empresa, como distribuidores, atacadistas, redes varejistas,
farmácias, supermercados e pequenos lojistas. No entanto, para vender bem, a
equipe comercial precisa de argumentos, materiais, informações e ações que
tornem a negociação mais forte. O Trade Marketing contribui oferecendo planos
por canal, campanhas promocionais, materiais de apoio, dados de desempenho e
propostas que ajudem o varejista a perceber valor no produto.
Por exemplo, quando um vendedor negocia
com uma rede de supermercados, ele não está oferecendo apenas caixas de
mercadoria. Ele pode apresentar uma campanha de lançamento, uma proposta de
exposição em ponta de gôndola, materiais de comunicação, degustação,
treinamento para promotores e uma previsão de resultado. Essa abordagem mostra
ao varejista que a empresa não quer apenas vender para ele, mas também ajudá-lo
a vender para o consumidor final.
Essa diferença é muito importante. Em
Trade Marketing, não basta pensar no sell-in, ou seja, na venda da indústria
para o canal. Também é necessário pensar no sell-out, que é a venda do varejo
para o consumidor. Se uma empresa vende muito para uma loja, mas o produto fica
parado no estoque, a relação comercial pode ser prejudicada. O varejista pode
reduzir novos pedidos, reclamar da baixa saída ou dar mais espaço para
concorrentes. Por isso, o Trade Marketing se preocupa com o giro do produto no
ponto de venda.
Outra função essencial da área é adaptar a estratégia da marca a cada canal. Uma campanha criada para supermercado pode precisar de ajustes para funcionar em farmácias. Uma ação pensada para atacarejo talvez não sirva para loja de conveniência. O e-commerce exige outro tipo de cuidado, como foto, descrição, avaliação, destaque nos
função essencial da área é adaptar a
estratégia da marca a cada canal. Uma campanha criada para supermercado pode
precisar de ajustes para funcionar em farmácias. Uma ação pensada para
atacarejo talvez não sirva para loja de conveniência. O e-commerce exige outro
tipo de cuidado, como foto, descrição, avaliação, destaque nos resultados de
busca e disponibilidade em estoque. O Trade Marketing observa essas diferenças
e ajuda a empresa a não tratar todos os canais da mesma forma.
Essa adaptação evita desperdícios. Uma
empresa pode investir em materiais caros que não cabem na loja, criar promoções
inadequadas ao público daquele canal ou oferecer um mix de produtos que não
corresponde à realidade do ponto de venda. Quando o Trade Marketing participa
do planejamento, as ações tendem a ser mais próximas da prática e menos
baseadas apenas em suposições.
O Trade Marketing também tem um papel
importante na organização do calendário promocional. Muitas categorias de
produtos são influenciadas por datas comemorativas, estações do ano e períodos
de maior consumo. Páscoa, Natal, Dia das Mães, Dia dos Namorados, Black Friday,
volta às aulas, verão e festas juninas são exemplos de momentos em que o
comportamento de compra muda. A área precisa planejar com antecedência quais
produtos serão destacados, quais canais serão priorizados, quais materiais
serão produzidos e como a equipe de vendas será orientada.
Planejar com antecedência é fundamental
porque a execução depende de várias etapas. O produto precisa estar disponível,
a negociação com o varejo deve acontecer no tempo certo, os materiais precisam
ser produzidos e entregues, os promotores precisam ser treinados e os
resultados devem ser acompanhados. Quando uma ação é feita de forma
improvisada, aumentam as chances de falhas: falta de estoque, material
atrasado, preço incorreto, exposição ruim ou comunicação confusa.
Dentro da empresa, o Trade Marketing
também se relaciona com a logística. Essa relação é importante porque uma ação
promocional pode aumentar a demanda por determinado produto. Se a empresa faz
uma campanha, mas não garante abastecimento suficiente, o consumidor pode
chegar à loja e não encontrar o item. Essa falta de produto é chamada de
ruptura. A ruptura é um dos grandes problemas do ponto de venda, pois
representa perda de venda para a indústria, para o varejista e frustração para
o consumidor.
Por isso, o Trade Marketing precisa acompanhar não apenas a comunicação e a exposição, mas também a
disponibilidade. Uma promoção só funciona bem quando o produto está presente,
com preço correto, em quantidade adequada e em condições de compra. Uma campanha
bonita não compensa uma prateleira vazia.
Outra área com a qual o Trade Marketing
costuma trabalhar é a inteligência comercial. A análise de dados ajuda a
entender quais produtos vendem mais, quais lojas têm melhor desempenho, quais
regiões apresentam oportunidades, quais canais precisam de atenção e quais
ações geram maior retorno. Mesmo em empresas pequenas, é possível acompanhar
informações simples, como volume vendido, estoque, frequência de reposição,
quantidade de lojas atendidas e desempenho de promoções.
Com esses dados, a empresa deixa de tomar
decisões apenas por impressão. Em vez de dizer “acho que essa promoção
funcionou”, o Trade Marketing pode observar os números e perguntar: houve
aumento de vendas? O produto girou no varejo? O estoque foi suficiente? A
margem foi preservada? O consumidor comprou novamente depois da ação? Essas
perguntas ajudam a melhorar as próximas campanhas.
O profissional de Trade Marketing também
precisa olhar para a concorrência. No ponto de venda, as marcas estão lado a
lado. O consumidor compara preço, embalagem, espaço, promoção, tamanho,
benefício e confiança. Se uma marca concorrente ocupa mais espaço na gôndola,
oferece uma promoção mais clara ou apresenta melhor visibilidade, pode ganhar
vantagem. Observar a concorrência não significa copiar tudo o que ela faz, mas
compreender o ambiente em que a marca está competindo.
A relação com promotores de vendas também
faz parte da rotina de Trade Marketing. O promotor é muitas vezes os olhos da
empresa no ponto de venda. Ele verifica se o produto está exposto, se há
ruptura, se o preço está correto, se o material promocional foi instalado, se a
gôndola está organizada e se os concorrentes estão realizando alguma ação. As
informações trazidas pelo promotor ajudam a corrigir problemas rapidamente.
Entretanto, para que o promotor atue bem,
ele precisa receber orientação clara. Não basta enviar uma pessoa para a loja
sem explicar o objetivo da ação, o padrão de exposição, a forma correta de
registrar informações e os cuidados com o relacionamento no ponto de venda. O
Trade Marketing deve criar check-lists, materiais de orientação e treinamentos
simples para garantir que a execução siga o planejamento.
Um erro comum em empresas iniciantes é acreditar que a execução no ponto de venda acontece automaticamente. A
empresas iniciantes é
acreditar que a execução no ponto de venda acontece automaticamente. A empresa
negocia com o varejo, envia o produto e imagina que tudo será feito conforme o
combinado. Na prática, nem sempre isso acontece. A loja pode estar sem espaço,
o produto pode ser colocado em local inadequado, o preço pode não aparecer, o
material pode não ser utilizado ou o estoque pode ficar no depósito. Por isso,
acompanhar a execução é tão importante quanto planejar.
O Trade Marketing também contribui para
melhorar a experiência do shopper. Quando uma categoria está bem-organizada,
com informações claras e produtos disponíveis, o comprador decide com mais
facilidade. Uma boa exposição pode reduzir dúvidas, destacar benefícios e
tornar a compra mais prática. Isso é importante porque o consumidor atual tem
muitas opções e pouco tempo. Se ele encontra dificuldade, pode trocar de marca,
desistir da compra ou procurar outro canal.
Dentro da empresa, a área também precisa
ter sensibilidade para equilibrar interesses. O marketing pode querer valorizar
a imagem da marca. Vendas pode querer fechar acordos e bater metas. O varejista
pode querer margem, giro e apoio promocional. A logística pode ter limites de
entrega. O financeiro pode controlar investimentos. O consumidor quer uma boa
oferta e uma experiência simples. O Trade Marketing precisa dialogar com todos
esses pontos, buscando soluções viáveis e coerentes.
Esse equilíbrio aparece, por exemplo, na
definição de uma promoção. Uma promoção muito agressiva pode aumentar o volume
de vendas no curto prazo, mas reduzir a margem e enfraquecer a percepção de
valor da marca. Uma promoção muito discreta pode não chamar atenção. Uma ação
muito complexa pode confundir o shopper. Uma campanha sem estoque suficiente
pode gerar frustração. O Trade Marketing precisa analisar essas possibilidades
antes de colocar a ação em prática.
Além disso, a área ajuda a construir
relacionamento com o varejo. Quando a indústria apresenta propostas bem
planejadas, respeita o funcionamento da loja e entrega resultados, o varejista
passa a enxergá-la como parceira. Esse relacionamento pode abrir portas para
melhores espaços, campanhas conjuntas, lançamentos, ações sazonais e maior
presença da marca no canal.
É importante lembrar que o varejista também tem seus próprios objetivos. Ele não quer apenas receber produtos; ele quer vender, atender bem seus clientes, organizar sua loja, controlar estoque e obter rentabilidade. Quando o Trade
Marketing entende essa realidade, consegue
propor ações que fazem sentido para os dois lados. Uma boa parceria não
beneficia apenas a indústria, mas também melhora o desempenho do ponto de
venda.
No caso de empresas menores, o Trade
Marketing pode não existir como departamento formal, mas suas funções continuam
sendo necessárias. Um pequeno fabricante, por exemplo, precisa pensar onde
vender, como expor, que material usar, como negociar com lojistas, como
acompanhar estoque e como medir resultado. Mesmo sem uma equipe grande, o
raciocínio de Trade Marketing pode ajudar a vender melhor.
Para o iniciante, é útil pensar no Trade
Marketing como uma área prática, mas não improvisada. Ela está muito próxima do
dia a dia das lojas, dos vendedores, dos promotores e dos consumidores, mas
precisa de planejamento e método. Observar, planejar, executar, acompanhar e
corrigir são etapas básicas desse trabalho.
Uma ação simples pode mostrar isso.
Imagine uma marca de sucos que deseja vender mais em lojas de bairro. Primeiro,
ela observa o canal e percebe que muitos consumidores compram bebidas geladas
para consumo imediato. Depois, escolhe os produtos mais adequados para esse
perfil. Em seguida, negocia com os lojistas a exposição próxima ao balcão ou à
geladeira. Também cria um pequeno material de comunicação e acompanha se o
produto está abastecido. Ao final, verifica se as vendas aumentaram. Esse
processo é Trade Marketing aplicado de maneira simples.
Em empresas maiores, esse trabalho pode
envolver softwares, relatórios detalhados, equipes de campo, grandes redes
varejistas e campanhas nacionais. Em empresas menores, pode envolver visitas
presenciais, planilhas simples e negociação direta com os lojistas. A lógica,
porém, é a mesma: fazer o produto chegar melhor ao shopper e gerar resultado
para a marca e para o canal.
O Trade Marketing também ajuda a empresa a
aprender com seus erros. Uma campanha que não funcionou não deve ser vista
apenas como fracasso. Ela pode revelar problemas de preço, exposição, canal,
comunicação, estoque ou entendimento do público. Ao analisar essas falhas, a
empresa melhora suas próximas ações. Essa capacidade de aprender com a prática
é uma das características mais importantes da área.
Por isso, o profissional de Trade Marketing precisa ter olhar atento e postura colaborativa. Ele deve escutar vendedores, promotores, lojistas e consumidores. Deve observar a loja com cuidado, entender dados, propor melhorias e acompanhar resultados.
isso, o profissional de Trade
Marketing precisa ter olhar atento e postura colaborativa. Ele deve escutar
vendedores, promotores, lojistas e consumidores. Deve observar a loja com
cuidado, entender dados, propor melhorias e acompanhar resultados. Também
precisa ter criatividade para pensar ações atrativas, mas com responsabilidade
para avaliar se elas são viáveis e sustentáveis.
Ao final desta aula, o aluno deve
compreender que o Trade Marketing tem um papel central dentro da empresa porque
conecta planejamento e realidade. Ele aproxima a marca dos canais de venda,
apoia a equipe comercial, melhora a execução no ponto de venda, contribui para
o relacionamento com o varejo e ajuda a transformar produtos em escolhas reais
para o shopper.
Mais do que uma área de apoio, o Trade Marketing é uma área estratégica. Ele mostra que vender não depende apenas de produzir, divulgar ou negociar. Depende também de executar bem, entender os canais, respeitar o comportamento do comprador e acompanhar os resultados. Quando essa integração acontece, a empresa deixa de agir de forma isolada e passa a construir uma presença mais forte, organizada e eficiente no mercado.
Referências bibliográficas
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Marketing: a conquista do consumidor no ponto de venda. São Paulo: Saraiva,
2008.
BLESSA, Regina. Merchandising no ponto
de venda. São Paulo: Atlas, 2010.
COBRA, Marcos. Administração de
marketing no Brasil. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009.
KOTLER, Philip; KELLER, Kevin Lane. Administração
de marketing. São Paulo: Pearson, 2012.
LAS CASAS, Alexandre Luzzi. Marketing
de varejo. São Paulo: Atlas, 2013.
PARENTE, Juracy; BARKI, Edgard. Varejo
no Brasil: gestão e estratégia. São Paulo: Atlas, 2014.
Estudo de Caso — Módulo 1
O lançamento da BioSabor no varejo: quando
um bom produto não basta
A BioSabor era uma pequena indústria de
alimentos naturais que havia desenvolvido uma linha de barras de cereais
integrais. O produto tinha boa qualidade, embalagem bonita e uma proposta
interessante: ingredientes simples, sem excesso de açúcar e com sabores
voltados para o público que buscava praticidade no dia a dia. A empresa
acreditava que o lançamento seria um sucesso, principalmente porque o mercado
de alimentos saudáveis estava crescendo e havia muitos consumidores
interessados nesse tipo de produto.
Animada com a novidade, a equipe de marketing preparou uma campanha nas redes sociais, destacando os benefícios da barra de cereal e seu
com a novidade, a equipe de
marketing preparou uma campanha nas redes sociais, destacando os benefícios da
barra de cereal e seu apelo saudável. A equipe comercial, por sua vez,
conseguiu negociar a entrada do produto em supermercados, farmácias e lojas de
conveniência. Em poucas semanas, a BioSabor já estava presente em diversos
pontos de venda.
No entanto, depois do primeiro mês, os
resultados ficaram abaixo do esperado. As vendas não acompanharam o entusiasmo
inicial da empresa. Alguns varejistas começaram a reclamar que o produto não
girava bem. Em algumas lojas, as barras estavam em prateleiras pouco visíveis;
em outras, ficavam misturadas com produtos muito diferentes, como doces
infantis e salgadinhos. Em certos pontos, o preço não estava claro. Em outros,
os vendedores nem sabiam explicar o diferencial da marca.
A diretoria da BioSabor ficou frustrada. A
primeira reação foi culpar o preço. Alguns defendiam que a solução seria fazer
uma grande promoção com desconto. Outros acreditavam que o problema estava na
embalagem. Mas, ao analisar melhor a situação, a empresa percebeu que havia
cometido erros comuns de Trade Marketing: não conheceu bem os canais de venda,
não estudou o comportamento do shopper e não planejou adequadamente a execução
no ponto de venda.
O primeiro erro foi tratar todos os canais
da mesma forma. A empresa enviou o mesmo produto, com a mesma comunicação e a
mesma abordagem para supermercados, farmácias e lojas de conveniência. Só que
cada canal tinha uma lógica diferente. No supermercado, o comprador comparava
marcas, preços, sabores e quantidades. Na farmácia, o produto poderia funcionar
melhor associado à ideia de cuidado, saúde e bem-estar. Na loja de
conveniência, a compra era mais rápida e impulsiva, geralmente feita por
pessoas com pouco tempo.
Ao ignorar essas diferenças, a BioSabor
perdeu oportunidades. No supermercado, o produto precisava estar próximo de
itens saudáveis, como granolas, castanhas, produtos integrais e snacks
naturais. Na farmácia, poderia estar em uma área ligada a qualidade de vida,
suplementação leve ou alimentação prática. Na loja de conveniência, precisava
de exposição mais direta, próxima ao caixa ou às bebidas, favorecendo a compra
por impulso.
O segundo erro foi confundir consumidor com shopper. A empresa pensou apenas no consumidor final, ou seja, na pessoa que iria comer a barra de cereal. Porém, não observou com atenção quem comprava o produto em cada situação. Em alguns casos, o shopper
era uma mãe comprando
lanche para o filho levar à escola. Em outros, era um trabalhador procurando
algo rápido para comer entre uma reunião e outra. Também havia pessoas
comprando para deixar na bolsa, no carro ou no escritório.
Como a BioSabor não entendeu essas
diferenças, sua comunicação ficou genérica. A embalagem dizia apenas “barra
integral saudável”, mas não deixava claro em quais momentos o produto poderia
ser consumido. Faltavam mensagens simples, como “lanche prático para a rotina”,
“ideal para levar na bolsa” ou “opção rápida para o intervalo”. O produto tinha
valor, mas esse valor não estava sendo comunicado de forma clara para quem
decidia a compra.
O terceiro erro foi acreditar que estar
presente na loja era suficiente. A equipe comemorou quando conseguiu vender
para os varejistas, mas não acompanhou como o produto estava sendo apresentado
ao consumidor. Em Trade Marketing, vender para o canal é apenas uma parte do
processo. O produto também precisa vender dentro do canal. Se ele fica mal
exposto, sem preço, com pouca visibilidade ou em uma categoria inadequada, sua
chance de ser escolhido diminui.
Esse erro ficou evidente quando um
promotor visitou algumas lojas e encontrou situações muito diferentes. Em um
supermercado, as barras estavam na prateleira mais baixa, quase escondidas. Em
uma farmácia, estavam perto de chocolates e balas, o que enfraquecia a proposta
saudável da marca. Em uma loja de conveniência, o produto estava longe do caixa
e não era percebido por quem fazia compras rápidas. Ou seja, o problema não era
apenas o produto; era a execução.
O quarto erro foi não preparar o varejista
e a equipe de campo. Muitos funcionários das lojas não conheciam a BioSabor e
não sabiam explicar seu diferencial. Alguns achavam que era apenas mais uma
barra de cereal comum. Outros não sabiam se o produto era voltado para dieta,
esporte, lanche infantil ou alimentação prática. Essa falta de clareza
dificultava a venda, principalmente em canais onde a orientação do atendente
poderia influenciar a decisão do comprador.
Para corrigir a situação, a empresa
decidiu reorganizar sua estratégia. Primeiro, separou os canais de venda e
definiu um objetivo para cada um. Nos supermercados, a meta era ganhar
visibilidade dentro da categoria de alimentos saudáveis. Nas farmácias, a
proposta era associar o produto ao cuidado com a rotina e bem-estar. Nas lojas
de conveniência, o foco passou a ser a compra rápida e prática.
Depois, a BioSabor revisou sua
comunicação
no ponto de venda. Criou pequenos materiais com mensagens mais claras, sem
exageros e sem promessas milagrosas. Em vez de falar apenas de ingredientes,
passou a mostrar ocasiões de consumo: “para o intervalo do trabalho”, “para
levar na mochila”, “para um lanche rápido fora de casa”. Essa mudança ajudou o
shopper a entender melhor quando e por que comprar o produto.
A empresa também criou um check-list
simples de execução. O promotor deveria verificar se o produto estava
disponível, se o preço estava visível, se a exposição estava correta, se havia
estoque suficiente, se o material de comunicação estava aplicado e se o produto
estava próximo de categorias coerentes. Esse acompanhamento permitiu
identificar falhas rapidamente e conversar com os varejistas para corrigir
problemas.
Outra ação importante foi treinar a equipe
comercial. Os vendedores passaram a apresentar o produto não apenas como uma
novidade, mas como uma solução para diferentes perfis de loja. Para o
supermercado, destacavam variedade e organização de categoria. Para a farmácia,
reforçavam bem-estar e conveniência. Para a loja de conveniência, apresentavam
o potencial de venda por impulso. Com isso, a negociação ficou mais alinhada à
realidade de cada canal.
A BioSabor também aprendeu a acompanhar o
sell-out, e não apenas o sell-in. Antes, a empresa comemorava quando conseguia
vender grandes quantidades para o varejista. Depois, passou a observar se o
produto realmente saía para o consumidor final. Essa mudança foi essencial,
pois mostrou que uma venda inicial alta não garantia sucesso se o produto
ficasse parado no estoque da loja.
Com as correções, os resultados começaram
a melhorar gradualmente. O produto passou a ser mais bem encontrado, melhor
compreendido e melhor apresentado. A empresa percebeu que o Trade Marketing não
era apenas uma etapa operacional, mas uma forma de pensar a relação entre
marca, canal e shopper.
Erros comuns observados no caso
O primeiro erro foi não estudar o canal
de venda antes da ação. Cada canal tem uma lógica própria, e repetir a
mesma estratégia em todos eles podem enfraquecer o resultado.
O segundo erro foi não compreender quem
era o shopper. A empresa pensou no consumidor final, mas esqueceu de
analisar quem realmente fazia a compra e em qual situação.
O terceiro erro foi confundir presença
com boa execução. Estar na loja não significa estar bem-posicionado, bem
comunicado ou disponível para compra.
O quarto erro foi não orientar
varejistas, vendedores e promotores. Quando a equipe não entende o produto,
a comunicação com o comprador fica fraca.
O quinto erro foi olhar apenas para o sell-in. Vender para o varejo é importante, mas o produto precisa girar no ponto de venda para que a parceria seja sustentável.
Como evitar esses erros
Para evitar esses problemas, a empresa
deve começar estudando os canais onde pretende atuar. Antes de lançar uma ação,
é necessário perguntar: esse canal combina com o produto? Qual é o perfil do
shopper? Como ele compra? O que valoriza? Onde o produto deve ficar exposto?
Também é importante adaptar a comunicação.
Uma boa mensagem precisa ser simples, verdadeira e adequada ao momento de
compra. O shopper deve entender rapidamente o benefício do produto e porque ele
faz sentido para sua necessidade.
Outro cuidado essencial é acompanhar a
execução. O Trade Marketing não termina quando o produto chega à loja. É
preciso verificar exposição, preço, estoque, materiais, concorrência e
organização da categoria. Um check-list simples já pode evitar muitos erros.
A empresa também deve treinar sua equipe.
Vendedores, promotores e parceiros de varejo precisam entender o produto, o
público, o canal e o objetivo da ação. Quanto mais clara for a orientação,
maior a chance de execução correta.
Por fim, é necessário medir resultados. A
empresa deve observar não apenas quanto vendeu para o varejo, mas quanto o
varejo vendeu para o consumidor final. Esse olhar ajuda a corrigir estratégias
e construir relações comerciais mais saudáveis.
Reflexão final
O caso da BioSabor mostra que um bom
produto não se vende sozinho. Para chegar ao consumidor, ele precisa passar por
canais bem escolhidos, comunicação clara, exposição adequada e acompanhamento
constante. O Trade Marketing existe justamente para organizar esse caminho.
A principal lição do módulo 1 é que antes de pensar em grandes campanhas, descontos ou materiais chamativos, a empresa precisa entender três perguntas básicas: onde o produto será vendido, quem compra e como a decisão acontece no ponto de venda. Quando essas respostas são bem trabalhadas, a marca deixa de depender do improviso e passa a construir uma presença mais inteligente no mercado.
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