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Noções Básicas de Lesões Bucais na Infância

 NOÇÕES BÁSICAS DE LESÕES BUCAIS NA INFÂNCIA

 

MÓDULO 2 — Infecções, inflamações e padrões que enganam

 

Aula 4 — Estomatites: quando a boca vira “termômetro” do corpo

 

           Em muitos atendimentos com crianças, a queixa começa pequena e bem comum: “apareceu uma feridinha na boca”. Só que, na infância, a boca raramente é “só boca”. Ela participa da alimentação, da hidratação, do sono, da fala e do conforto. Quando dói, a criança muda completamente o comportamento: fica mais irritada, recusa comida, evita água, chora mais, dorme pior. É por isso que, nesta aula, a ideia principal é olhar para estomatites com um pensamento mais amplo: às vezes a lesão na boca é o sinal visível de algo maior acontecendo no corpo.

           Estomatite é um termo guarda-chuva. Na prática, é como dizer “inflamação na boca”. Pode ser causada por vírus, fungos, trauma, irritação química, queda da imunidade, entre outros fatores. Para iniciantes, isso pode assustar, porque parece amplo demais. Mas aqui vem uma boa notícia: você não precisa “adivinhar” tudo de cara. O que você precisa é aprender a separar duas situações com segurança: uma lesão mais localizada e estável (em que a criança está bem no geral) e um quadro de estomatite mais disseminado, com sinais sistêmicos (em que a criança está doente, com risco de complicações como desidratação).

           Uma forma bem didática de pensar é usar a analogia do “painel do carro”. A boca pode ser aquela luz que acende no painel: ela chama atenção. Às vezes é algo simples — como uma irritação local, uma afta, um machucado. Mas, às vezes, é uma luz que avisa que o motor está aquecendo: febre, mal-estar, infecção viral, baixa ingestão de líquidos. Em pediatria, ignorar o “motor” e olhar só a “luz” pode ser perigoso, porque a criança pode piorar rápido não pela ferida em si, mas pelo que ela provoca: dor intensa, recusa de líquidos, perda do sono, queda do estado geral.

           Por isso, quando a criança chega com “feridas na boca”, a primeira pergunta não é “o que é isso?”. A primeira pergunta é: como essa criança está? Está ativa ou prostrada? Está aceitando água? Está urinando normalmente? Teve febre? Está babando porque não consegue engolir? Essas perguntas parecem simples, mas elas mudam toda a conduta. Uma criança com uma lesão pequena e isolada pode estar brincando, comendo quase normal, com pequenas queixas. Já uma criança com estomatite mais intensa, muitas vezes, chega abatida, com olhos mais “cansados”, choro

Está ativa ou prostrada? Está aceitando água? Está urinando normalmente? Teve febre? Está babando porque não consegue engolir? Essas perguntas parecem simples, mas elas mudam toda a conduta. Uma criança com uma lesão pequena e isolada pode estar brincando, comendo quase normal, com pequenas queixas. Já uma criança com estomatite mais intensa, muitas vezes, chega abatida, com olhos mais “cansados”, choro fraco, recusa alimentar e irritação. Às vezes a mãe diz: “Ela não é assim, está diferente”. Esse “diferente” precisa ser levado a sério.

           Ao observar a boca, existem alguns padrões que ajudam a identificar quando a estomatite tem cara de quadro mais amplo. Um deles é a quantidade de lesões: quando há muitas lesões espalhadas (lábio, bochecha por dentro, gengiva, língua, céu da boca), isso sugere algo além de um machucado pontual. Outro sinal importante é a gengiva muito inflamada, vermelha, brilhante, dolorosa, às vezes sangrando ao toque. A gengiva pode ser um ótimo “termômetro”: quando ela está muito comprometida, geralmente o quadro é mais intenso e mais sistêmico. Também vale notar a presença de salivação aumentada (a criança baba porque engolir dói) e a dor ao tentar abrir a boca.

           Aqui, um cuidado essencial: famílias frequentemente tentam ajudar com receitas caseiras ou soluções irritantes, como limão, bicarbonato em excesso, substâncias muito fortes ou “esfregar” a lesão. Isso costuma piorar a inflamação e aumentar a dor. A orientação humanizada não precisa brigar com a família; ela precisa acolher e direcionar. Em vez de “não faça isso”, funciona melhor: “Entendo a intenção de aliviar, mas a mucosa está sensível. Vamos usar cuidados mais suaves para não machucar mais.” Essa postura mantém a família como aliada — e, em saúde infantil, isso é metade do sucesso.

           Outra parte fundamental desta aula é lembrar que estomatite não é apenas um diagnóstico; é também um problema funcional. A pergunta prática é: o que essa criança consegue fazer hoje? Consegue beber? Consegue se alimentar minimamente? Consegue dormir? Muitas vezes, o foco do cuidado inicial é garantir conforto e hidratação, porque sem isso a criança entra num ciclo ruim: dói → não bebe → desidrata → piora → dói mais. Orientações simples, como oferecer líquidos em pequenas quantidades várias vezes ao dia, preferir alimentos macios e menos irritantes, manter higiene bucal delicada e observar sinais de desidratação, ajudam muito. E é importante dizer isso de forma

essa criança consegue fazer hoje? Consegue beber? Consegue se alimentar minimamente? Consegue dormir? Muitas vezes, o foco do cuidado inicial é garantir conforto e hidratação, porque sem isso a criança entra num ciclo ruim: dói → não bebe → desidrata → piora → dói mais. Orientações simples, como oferecer líquidos em pequenas quantidades várias vezes ao dia, preferir alimentos macios e menos irritantes, manter higiene bucal delicada e observar sinais de desidratação, ajudam muito. E é importante dizer isso de forma concreta: “Não precisa tomar um copo inteiro; pode ser colheradas e goles pequenos, mas frequentes”.

           Nesta aula, também é essencial treinar o olhar para os sinais de alerta. Nem toda estomatite é urgente, mas algumas situações pedem avaliação rápida porque podem evoluir com risco. Entre as bandeiras vermelhas estão: recusa persistente de líquidos, sinais de desidratação (pouca urina, sonolência, choro sem lágrima, boca muito seca), prostração importante, febre que não cede, dificuldade de engolir ou respirar, e dor intensa que impede a criança de funcionar. Em muitos casos, não é “a ferida” que define a urgência, e sim o impacto dela no corpo da criança.

           Um detalhe que ajuda iniciantes a ganhar segurança é aprender a registrar o quadro de um jeito organizado e útil. Em vez de escrever “estomatite”, você descreve: número de lesões (uma/poucas/muitas), locais afetados, aspecto geral (úlceras dolorosas, placas, gengiva inflamada), presença de febre, aceitação de líquidos e evolução (melhorando, igual, piorando). Esse registro facilita o raciocínio, ajuda no acompanhamento e melhora a comunicação com outros profissionais. E, na prática, quando você consegue descrever bem, você também consegue orientar melhor.

           No fim, a mensagem desta aula é quase um “jeito de pensar” que você vai carregar para o resto do curso: a boca pode ser a porta de entrada para perceber o estado geral da criança. Quando você olha para estomatite, você está olhando para dor, hidratação, nutrição e bem-estar. Você está olhando para uma criança inteira — não apenas para uma lesão. E é esse olhar ampliado, humano e criterioso que transforma um atendimento comum em um cuidado seguro e realmente pediátrico.

Referências bibliográficas

American Academy of Pediatric Dentistry. Reference Manual: Oral Health Policies and Clinical Practice Guidelines. Chicago: AAPD, 2023.

Brasil. Ministério da Saúde. Atenção Integrada às Doenças Prevalentes na

Infância (AIDPI): Manual para Profissionais de Saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2017.

Brasil. Ministério da Saúde. Saúde Bucal na Atenção Básica. Brasília: Ministério da Saúde, 2018.

McDonald, R. E.; Avery, D. R.; Dean, J. A. Odontopediatria para Crianças e Adolescentes. 9ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016.

Neville, B. W.; Damm, D. D.; Allen, C. M.; Chi, A. C. Patologia Oral e Maxilofacial. 4ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016.

Scully, C. Oral and Maxillofacial Medicine: The Basis of Diagnosis and Treatment. 3rd ed. Edinburgh: Churchill Livingstone Elsevier, 2013.


Aula 5 – Lesões virais na infância: o que costuma aparecer (e como orientar)

 

           Quando as lesões na boca são causadas por vírus, a sensação da família costuma ser a mesma: “Foi de um dia para o outro”. E, em muitos casos, isso é verdade. Infecções virais podem se instalar rápido, trazer febre, mal-estar, irritação e, de repente, a criança que ontem comia normalmente hoje chora só de encostar a colher na boca. Para quem está começando, esse tipo de quadro pode parecer confuso, porque nem sempre há uma “ferida única” bem definida. Em vez disso, há um conjunto de sinais: boca sensível, várias lesões pequenas, gengiva inflamada, às vezes dor de garganta, e mudanças importantes no comportamento.

           O primeiro ponto desta aula é entender que, em lesões virais, o mais importante não é decorar nomes, e sim reconhecer padrões. Vírus tendem a produzir quadros que se espalham mais pela mucosa e que vêm acompanhados de sintomas gerais. Muitas vezes a criança apresenta febre ou teve febre nos primeiros dias, fica mais abatida, dorme mal, perde o apetite e bebe menos água. A boca vira um lugar “proibido”: ela evita mastigar, evita escovar, e pode até babar mais porque engolir incomoda.

           Uma característica muito típica de quadros virais é que as lesões podem aparecer em “ondas”: hoje surgem algumas, amanhã aparecem outras, e a inflamação parece se movimentar pela boca. Algumas lesões começam como áreas avermelhadas e sensíveis e evoluem para pequenas úlceras (feridinhas) dolorosas. Em outros casos, podem surgir pequenas bolhinhas que se rompem, deixando a mucosa machucada e ardendo. A família, naturalmente, descreve do jeito que consegue: “bolinhas”, “machucados”, “caroços”, “pelinhas soltas”.

Seu papel é transformar essa descrição em algo organizado: quantas lesões são, onde estão e como isso está afetando a criança.

           Outro aspecto importante é que,

em lesões virais, a boca raramente é o único local do corpo “conversando”. Às vezes há dor de garganta, nariz escorrendo, tosse leve, gânglios no pescoço, ou até lesões em outras áreas, como mãos e pés (em algumas viroses). Você não precisa procurar sinais em todo o corpo como se fosse uma investigação policial, mas vale sempre perguntar: “Teve febre?”, “Tem algo na pele?”, “Tem dor de garganta?”, “Alguém em casa ou na escola está com sintomas parecidos?”. Essas perguntas ajudam a entender o contexto e, principalmente, a orientar a família de forma mais segura.

           Nesta aula, também é essencial aprender a não cair em dois extremos muito comuns: o extremo do pânico e o extremo da minimização. O pânico aparece quando a família (ou o profissional iniciante) pensa imediatamente em algo grave, e a conversa vira uma tempestade de possibilidades. Já a minimização aparece quando alguém diz “é só virose”, como se isso significasse “não precisa cuidar”. Só que virose na boca, em criança, pode ter um impacto enorme, porque machuca e atrapalha o básico: hidratar e se alimentar. Então o tom certo é um meio-termo bem humano: reconhecer que, sim, muitos quadros virais são autolimitados e melhoram com o tempo, mas que o cuidado nesse período é muito importante, e alguns sinais exigem avaliação rápida.

           Orientar famílias, aqui, é quase um trabalho de tradução. Você explica que o vírus costuma seguir seu curso, mas que o objetivo é manter a criança confortável e hidratada. E é importante ser bem concreto, porque frases genéricas não ajudam quem está cansado e preocupado. Em vez de “dê bastante líquido”, é melhor orientar: “Ofereça pequenas quantidades várias vezes ao dia.

Pode ser água, soro de hidratação, sucos menos ácidos e geladinhos. Se ela não toma no copo, ofereça na colher, em goles bem pequenos.” Em vez de “coma alimentos leves”, você sugere exemplos: “iogurte, purê, sopas mornas, banana, alimentos macios”. A família precisa sair do atendimento sabendo o que fazer naquela mesma tarde.

           Outra orientação prática que costuma fazer diferença é sobre o que evitar. Alimentos muito ácidos (como algumas frutas cítricas), muito salgados, muito quentes ou muito crocantes podem piorar a dor. E, do lado dos “remédios caseiros”, o ideal é evitar substâncias que irritam a mucosa, como limão, álcool, água oxigenada e soluções fortes. A boca inflamada é como uma pele queimada: se você esfrega, ela arde mais. A forma mais acolhedora de dizer isso é:

prática que costuma fazer diferença é sobre o que evitar. Alimentos muito ácidos (como algumas frutas cítricas), muito salgados, muito quentes ou muito crocantes podem piorar a dor. E, do lado dos “remédios caseiros”, o ideal é evitar substâncias que irritam a mucosa, como limão, álcool, água oxigenada e soluções fortes. A boca inflamada é como uma pele queimada: se você esfrega, ela arde mais. A forma mais acolhedora de dizer isso é: “Eu entendo a tentativa de ajudar, mas agora a mucosa está sensível; quanto mais suave, melhor para cicatrizar”.

           Para quem está começando, um grande ganho de segurança é aprender a reconhecer quando o problema não é apenas a lesão, mas a repercussão no corpo. Em quadros virais, a preocupação principal muitas vezes é a desidratação. Criança com dor na boca recusa líquidos, e aí o ciclo piora rápido. Por isso, sinais como pouca urina, choro sem lágrima, sonolência, boca muito seca, prostração e recusa persistente de líquidos são bandeiras vermelhas. E a orientação precisa ser clara: “Se ela não consegue beber e está fazendo pouca urina, é melhor procurar atendimento no mesmo dia”. Não é para assustar — é para proteger.

           Outra pergunta muito útil, que às vezes é esquecida, é: “Ela está escovando os dentes?” Em lesões virais dolorosas, a higiene costuma cair. A criança não deixa escovar e a família evita insistir. Só que a falta de higiene pode agravar a inflamação e aumentar o desconforto. A orientação aqui é delicada: não é para forçar e machucar, mas para manter o possível com suavidade.

Escova macia, movimentos leves e, quando necessário, limpeza cuidadosa com gaze umedecida podem ser alternativas temporárias. O importante é mostrar à família que “não escovar por dias” pode piorar a sensação de boca suja e dolorida.

           Por fim, esta aula reforça uma postura profissional que vale para todo o curso: em lesões virais, acompanhar evolução é parte do cuidado. Você orienta a família a observar se está melhorando aos poucos, se a febre cedeu, se a criança voltou a beber água, se as lesões estão diminuindo. Quando há melhora progressiva, isso traz tranquilidade. Quando há piora, persistência de febre, dor intensa que impede a criança de funcionar ou qualquer sinal de alerta, o encaminhamento é o caminho seguro.

           No fim das contas, orientar lesões virais na infância é um exercício de humanidade aplicada: você não precisa transformar a consulta num dicionário de doenças, mas precisa

oferecer um mapa simples e confiável. Um mapa que diga: “Isso costuma acontecer, é comum, vai passar — e aqui está como cuidar; e aqui está quando procurar ajuda”. Quando você consegue fazer isso, a família sai mais segura, a criança sofre menos e você constrói, aos poucos, a confiança clínica que todo iniciante precisa.

Referências bibliográficas

American Academy of Pediatric Dentistry. Reference Manual: Oral Health Policies and Clinical Practice Guidelines. Chicago: AAPD, 2023.

Brasil. Ministério da Saúde. Atenção Integrada às Doenças Prevalentes na Infância (AIDPI): Manual para Profissionais de Saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2017.

Brasil. Ministério da Saúde. Saúde Bucal na Atenção Básica. Brasília: Ministério da Saúde, 2018.

McDonald, R. E.; Avery, D. R.; Dean, J. A. Odontopediatria para Crianças e Adolescentes. 9ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016.

Neville, B. W.; Damm, D. D.; Allen, C. M.; Chi, A. C. Patologia Oral e Maxilofacial. 4ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016.

Scully, C. Oral and Maxillofacial Medicine: The Basis of Diagnosis and Treatment. 3rd ed. Edinburgh: Churchill Livingstone Elsevier, 2013.


Aula 6 – Placa branca, língua “diferente”, manchas e pigmentações: o que olhar primeiro

 

           Em algum momento, quase todo profissional que atende crianças vai ouvir frases como: “A língua dele está branca”, “Apareceu uma mancha”, “Tem uma parte escura aqui do nada” ou “Parece que a língua está estranha”. E, para a família, isso geralmente vem carregado de medo — porque a boca é visível, chama atenção e, quando muda, parece sempre mais grave do que realmente é. Para quem está começando, essa é uma aula valiosa porque ela ensina um jeito simples e seguro de pensar: antes de tentar dar nome, a gente organiza o olhar. E organizar o olhar, aqui, é separar o que provavelmente é superficial e passageiro do que merece avaliação mais cuidadosa.

           O primeiro passo é entender que “branco” na boca pode significar coisas bem diferentes. Às vezes é apenas um acúmulo de saburra na língua, um resíduo de leite (em bebês), uma higiene que ficou mais difícil naquela semana, ou até uma desidratação leve que deixou a saliva mais espessa. Em outras vezes, pode ser uma placa de candidíase, pode ser uma área inflamada com aparência esbranquiçada, ou um tecido machucado por trauma. Por isso, um recurso didático muito útil é começar com uma pergunta prática: isso é raspável ou não é? Não precisa ser um “teste agressivo”, nem algo feito

com força. Com uma gaze umedecida e muito cuidado, você observa se parte daquela placa sai com facilidade. Quando sai, isso sugere algo mais superficial. Quando não sai, não significa automaticamente gravidade, mas acende a luz de “vamos olhar melhor e acompanhar”.

           Essa pergunta do “raspável” funciona como uma primeira triagem, mas ela não anda sozinha. Ela precisa caminhar junto com o contexto: a idade da criança, a presença de dor, o tempo de evolução e se há sintomas gerais. Um bebê com placas brancas que interferem na mamada, por exemplo, traz um cenário diferente de uma criança maior com uma placa localizada que apareceu do nada e não muda ao longo dos dias. Em crianças, o tempo e a evolução dizem muito: aquilo está diminuindo? está espalhando? está igual há semanas? está crescendo? Essas respostas ajudam a decidir se basta orientar e acompanhar ou se é melhor encaminhar para avaliação.

           A língua merece um capítulo à parte, porque ela varia muito de pessoa para pessoa — e isso confunde iniciantes. A língua pode ter fissuras, pode ter saburra, pode apresentar áreas com aspecto diferente depois de uma febre, depois de uma virose, ou após mudança alimentar. Algumas variações são benignas e fazem parte da diversidade normal. O problema começa quando a alteração vem com sinais que incomodam: dor, ardência persistente, sangramento, feridas que não cicatrizam, aumento de volume, endurecimento, ou dificuldade para comer e falar. O recado aqui é simples e importante: a língua pode ser “diferente” e ainda assim normal, mas quando ela é “diferente” e a criança está sofrendo, isso merece atenção.

           Outra situação comum é a família apontar “manchas” na boca ou no lábio. Às vezes é algo que sempre existiu e só foi notado agora — principalmente em crianças mais agitadas, em que ninguém consegue olhar com calma todo dia. Outras vezes é um hematoma de mordida ou queda, especialmente em lábio e bochecha, que aparece roxo e muda de cor conforme os dias passam, como qualquer “roxo” no corpo. A mudança de cor com o tempo é um sinal tranquilizador de trauma em resolução.

Já manchas que surgem e aumentam sem história de trauma, ou que sangram, ou que vêm acompanhadas de dor e aumento de volume pedem um olhar mais atento e, muitas vezes, encaminhamento.

           E aqui entra um ponto muito didático: cor e forma contam história. Um roxo ou azulado após uma mordida costuma ser um hematoma ou bolha de sangue. Um branco difuso e superficial

pode ser saburra, resíduo ou placa. Um vermelho vivo pode indicar inflamação, atrito ou irritação. O que ajuda o iniciante não é decorar uma lista enorme de diagnósticos, mas aprender a perguntar: “isso começou quando?”, “mudou de tamanho?”, “muda de cor?”, “dói?”, “a criança está bem ou está prostrada?”. Essas perguntas diminuem o risco de erro e aumentam o cuidado seguro.

           Um erro comum em consultório e em triagens é tentar resolver tudo com uma única explicação rápida. “É só sujeira”, “é só sapinho”, “é só roxo”. Às vezes é, sim — mas quando você fala “é só”, a família pode sentir que você está minimizando, e você mesmo pode deixar passar um detalhe importante. Uma forma mais humana e profissional de conduzir é: “Pela aparência e pelo contexto, isso parece algo superficial e comum. Mesmo assim, vamos observar a evolução e eu vou te orientar o que precisa ser acompanhado”. Isso acolhe a ansiedade e, ao mesmo tempo, cria um plano.

           Plano, aqui, significa coisas bem práticas. Se a questão é saburra ou acúmulo superficial, orientar higiene adequada, hidratação e observar melhora em poucos dias costuma ser suficiente. Se a criança está com dificuldade para escovar por dor (por exemplo, após uma virose), orientar limpeza delicada com escova macia ou gaze umedecida pode ajudar a recuperar conforto aos poucos. Se há suspeita de candidíase em bebê, o encaminhamento e a condução devem ser feitos por profissional habilitado, mas você já pode orientar sobre higiene de itens como chupeta e mamadeira e reforçar a importância de acompanhamento.

           Também é importante ter clareza sobre quando não “dá para acompanhar em casa”. Algumas situações pedem avaliação: placas ou manchas que não mudam por semanas, lesões que aumentam de tamanho, áreas endurecidas ao toque, sangramentos sem motivo claro, dor persistente importante e qualquer lesão associada a febre persistente e piora do estado geral. Em crianças, a regra da evolução ajuda muito: o que é simples tende a melhorar com o tempo; o que não melhora precisa ser reavaliado.

           Outro cuidado que vale ouro nesta aula é com a comunicação. Muitas famílias chegam querendo um nome. “O que é isso?” E, quando você ainda está no começo, pode bater aquela pressão interna de precisar responder com certeza. Mas a resposta mais segura nem sempre é um rótulo; muitas vezes é uma explicação clara do raciocínio: “Pelo aspecto e pelo fato de ser raspável, isso sugere algo superficial. Vamos fazer

higiene suave, manter hidratação e observar por alguns dias. Se não melhorar, se espalhar, se doer mais ou se vier febre, precisamos avaliar novamente.” Isso é didático, humano e seguro.

           No final, o que está aula ensina é um jeito de navegar pela incerteza sem se perder. Placas, manchas e “língua diferente” aparecem o tempo todo. Algumas são normais, outras são passageiras, outras pedem avaliação. O seu diferencial como profissional iniciante não está em saber tudo de memória, mas em ter um método simples: olhar com calma, perguntar bem, descrever com clareza e acompanhar a evolução. E, quando algo foge do esperado, encaminhar com segurança. Esse é o caminho mais curto para cuidar bem — e para que a família sinta que está em boas mãos.

Referências bibliográficas

American Academy of Pediatric Dentistry. Reference Manual: Oral Health Policies and Clinical Practice Guidelines. Chicago: AAPD, 2023.

Brasil. Ministério da Saúde. Saúde Bucal na Atenção Básica. Brasília: Ministério da Saúde, 2018.

McDonald, R. E.; Avery, D. R.; Dean, J. A. Odontopediatria para Crianças e Adolescentes. 9ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016.

Neville, B. W.; Damm, D. D.; Allen, C. M.; Chi, A. C. Patologia Oral e Maxilofacial. 4ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016.

Scully, C. Oral and Maxillofacial Medicine: The Basis of Diagnosis and Treatment. 3rd ed. Edinburgh: Churchill Livingstone Elsevier, 2013.

Regezi, J. A.; Sciubba, J. J.; Jordan, R. C. K. Patologia Oral: Correlações Clínico-Patológicas. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.

 

Estudo de caso envolvente — Módulo 2

 

Tema: “Parece só uma virose…” — quando a boca entrega o que o corpo está vivendo.
Foco do módulo 2: estomatites e lesões virais, placas brancas/manchas/língua “diferente”, e triagem segura (o que acompanhar x o que encaminhar).

Cena 1 — A mensagem que chega tarde demais

Você está em um atendimento/triagem quando recebe a mãe do Rafa, 2 anos e 3 meses. Ela entra cansada, com a criança no colo, olhos meio fechados, corpo mole.

— “Ele tá com a boca toda machucada. Ontem eu achei que era só sapinho, mas hoje ele não quer nem água.”

Rafa está irritado, com saliva escorrendo no queixo, e chora quando tenta engolir.

Erro comum #1: “É só boca” (olhar a lesão e esquecer o estado geral)
Em estomatite, muitas vezes o risco não é a lesão em si — é o que ela provoca: dor + recusa de líquidos + desidratação.

Como evitar (regra de ouro): antes de “dar nome”, responda mentalmente:

  • ele está bebendo
  • líquidos?
  • está urinando?
  • está alerta ou prostrado?
  • teve febre?
    Se a criança não bebe e está “diferente”, a prioridade muda.

Cena 2 — A história que foi “pulada”

Você pergunta rapidamente o que aconteceu. A mãe resume:
— “Começou anteontem. Ele teve febre. Hoje amanheceu pior.”

Você olha a boca e vê áreas esbranquiçadas e pensa: “candidíase”.

Você quase encerra ali, mas decide fazer as perguntas completas:

  • Febre? Sim, no primeiro dia, e voltou hoje.
  • Quantas lesões? Muitas.
  • Onde? Lábios, bochecha por dentro e gengiva.
  • A gengiva? “Tá vermelha e sangra quando tento limpar.”
  • Ele mama/bebe água? Quase nada.
  • Urinou hoje? “Só uma vez e bem pouco.”

Erro comum #2: anamnese curta demais (perder as pistas-chave)
Sem as perguntas certas, você pode cair no diagnóstico errado e, pior, perder urgência.

Como evitar: use um mini roteiro fixo (sempre igual):

1.     quando começou e como evoluiu?

2.     febre/mal-estar?

3.     come/bebe? urina?

4.     quantas lesões e onde?

5.     outras lesões na pele (mãos/pés)? contato com doentes?

6.     uso recente de antibiótico/inalador? (pode favorecer candidíase)

Cena 3 — O “branco” que engana

Ao examinar com calma, você percebe que o “branco” não é uma placa uniforme como leite talhado. Na verdade, são pequenas úlceras com centro claro e borda avermelhada, espalhadas, e a gengiva está muito inflamada. Em alguns pontos, há “pelinhas” que parecem restos de tecido.

Isso não tem cara de “sujeira” e nem de candidíase simples.

Erro comum #3: “Se está branco, é sapinho”
O branco pode ser: saburra, resíduo, placa fúngica, ou centro de ferida/necrose superficial em estomatite.

Como evitar (triagem simples):

  • Placa (geralmente mais homogênea, pode ser raspável) → pensa em candidíase, sobretudo em bebês e pós-antibiótico.
  • Ferida/úlcera (dói, tem borda vermelha, pode ser múltipla) + febre/mal-estar → pensa em quadro viral/estomatite.

Cena 4 — A pergunta que muda o caso: “e fora da boca?”

Você pergunta:
— “Apareceu algo nas mãos ou nos pés?”

A mãe lembra:
— “Ontem vi umas bolinhas no pé… achei que era alergia do chinelo.”

Você observa: pequenas lesões nas plantas dos pés e algumas na mão. Isso reforça um padrão viral compatível com síndrome mão-pé-boca (um exemplo comum de virose com lesões orais). Mas atenção: o que define a urgência agora não é o nome, e sim o estado de hidratação.

Erro comum #4: ficar preso ao rótulo e esquecer conduta
No módulo 2, você aprende que o “nome” ajuda, mas o

cuidado pediátrico é guiado por risco e evolução.

Como evitar: conduza por prioridades:

1.     hidratação e dor

2.     sinais de alerta

3.     orientação prática

4.     acompanhamento/encaminhamento

Cena 5 — O erro que muitas famílias cometem (e o profissional precisa “desarmar”)

A mãe confessa:
— “Eu passei limão com bicarbonato porque minha avó dizia que seca a ferida…”

A criança chora só de encostar algo na boca.

Erro comum #5: usar substâncias irritantes e piorar a mucosa
Ácidos e soluções fortes podem aumentar a dor, atrasar cicatrização e piorar a recusa alimentar.

Como evitar (fala acolhedora, sem bronca):

“Eu entendo a intenção de ajudar, mas agora a mucosa está muito sensível. Vamos usar cuidados mais suaves para aliviar e ajudar a cicatrizar.”

Cena 6 — A virada: triagem segura e encaminhamento correto

Você identifica sinais preocupantes:

  • recusa importante de líquidos
  • pouca urina
  • prostração
  • dor ao engolir e baba aumentada
  • múltiplas lesões

Você orienta e encaminha para avaliação no mesmo dia (serviço médico/UPA, conforme protocolo local), explicando que a prioridade é prevenir/tratar desidratação e controlar a dor.

Erro comum #6: “esperar mais 2 ou 3 dias para ver” com criança desidratando
Em estomatite viral intensa, a janela de piora pode ser rápida.

Como evitar: memorize as bandeiras vermelhas:

  • não aceita líquidos / baba por não conseguir engolir
  • pouca urina, sonolência, choro sem lágrima
  • febre persistente com prostração
  • lesões extensas com dor incapacitante

Cena 7 — O “plot twist” da língua estranha e a mancha que assusta

Dois dias depois, em retorno, a mãe diz:
— “A língua está estranha e apareceu uma mancha escura na bochecha. Será que é algo grave?”

Você examina:

  • língua com saburra e áreas avermelhadas sensíveis (após dias sem escovação adequada pela dor)
  • mancha arroxeada na bochecha, compatível com mordida acidental (a criança está mordendo a mucosa por desconforto)

Erro comum #7: interpretar tudo como ‘doença nova’
Durante viroses, surgem efeitos secundários: higiene piora, mordidas acidentais aumentam, mucosa fica sensível.

Como evitar (método do módulo 2):

  • perguntar tempo e evolução (“surgiu quando?” “cresceu?”)
  • avaliar se é raspável (placa)
  • diferenciar trauma (roxo que muda) de lesões atípicas (crescem, sangram, endurecem)

O que este caso ensina (conectando com as aulas 4, 5 e 6)

1) Aula 4 — “A boca vira termômetro do corpo”

  • foco inicial em estado geral e hidratação
  • estomatite é mais do que “ferida”: é risco funcional (beber/comer/dormir)

2) Aula 5 — Lesões virais: padrão e orientação

  • múltiplas lesões + febre/mal-estar sugerem virose
  • orientação prática: líquidos em pequenas quantidades, alimentos macios, evitar irritantes
  • observar evolução e sinais de alarme

3) Aula 6 — Placas/manchas/língua “diferente”

  • “branco” não significa automaticamente candidíase
  • método: raspável ou não, dor, tempo, evolução
  • manchas roxas pós-mordida/trauma tendem a mudar de cor e melhorar

Checklist final — Erros comuns e como evitar (para usar como atividade)

1.     Olhar só a lesão → sempre avaliar hidratação, urina, febre, prostração.

2.     Anamnese curta → use roteiro fixo de 6 perguntas.

3.     “Branco = sapinho” → diferencie placa x úlcera e considere contexto.

4.     Rótulo acima da conduta → priorize risco (desidratação/dor) e evolução.

5.     Orientações vagas → dê exemplos concretos (como oferecer líquidos, o que evitar).

6.     Aguardar demais com sinais de alerta → encaminhar no mesmo dia quando necessário.

7.     Interpretar tudo como novo problema → considerar higiene reduzida e mordidas/trauma secundário.

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