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INTRODUÇÃO
À PSICOLOGIA CLÍNICA
Módulo
3 — Demandas psicológicas, encaminhamentos e prática ética
Aula
1 — Ansiedade, depressão, luto e dificuldades relacionais
A Psicologia Clínica recebe pessoas com histórias e
necessidades muito diferentes. Algumas procuram atendimento por causa de
ansiedade, tristeza persistente ou dificuldades nos relacionamentos. Outras
estão enfrentando uma perda, uma mudança importante ou uma situação que
ultrapassou suas formas habituais de enfrentamento.
Essas experiências não devem ser analisadas apenas
por meio de listas de sintomas. O psicólogo procura compreender quando o
sofrimento começou, como se manifesta, quais situações o agravam, que prejuízos
provoca e quais recursos a pessoa possui. Também considera aspectos familiares,
sociais, culturais, econômicos e físicos.
A saúde mental não depende somente de características individuais. Condições de moradia, trabalho, renda, acesso a direitos, apoio social, violência e discriminação também influenciam a forma como as pessoas vivem e enfrentam suas dificuldades.
Compreendendo
a ansiedade
A ansiedade é uma resposta humana relacionada à
antecipação de ameaças, desafios ou situações desconhecidas. Em intensidade
moderada, pode ajudar a pessoa a preparar-se para uma prova, uma entrevista de
emprego ou uma conversa importante.
O problema surge quando a ansiedade se torna
intensa, frequente ou difícil de controlar, causando sofrimento e interferindo
na rotina. Ela pode aparecer por meio de preocupação excessiva, irritabilidade,
tensão muscular, dificuldade de concentração, alterações do sono, palpitações,
sensação de falta de ar e medo de que algo ruim aconteça.
Também podem ocorrer comportamentos de evitação. A
pessoa deixa de frequentar lugares, falar com outras pessoas, utilizar
transportes, participar de reuniões ou realizar atividades que considera
importantes. A evitação costuma provocar alívio imediato, mas pode fortalecer o
medo ao longo do tempo.
A Organização Mundial da Saúde destaca que os
transtornos de ansiedade resultam da interação entre fatores psicológicos,
sociais e biológicos. Experiências adversas, perdas importantes, situações de
violência e problemas de saúde podem aumentar a vulnerabilidade, mas não
explicam isoladamente todos os casos.
Ansiedade
comum e sofrimento clínico
Sentir ansiedade antes de um acontecimento importante não significa necessariamente apresentar um transtorno. O psicólogo precisa observar a duração, a intensidade, a
frequência e os prejuízos
provocados.
Imagine um estudante que sente nervosismo antes de
apresentar um trabalho, mas consegue realizá-lo e recupera-se depois. Essa
reação pode fazer parte da experiência normal de enfrentar uma situação
desafiadora.
Outro estudante pode passar dias sem dormir,
apresentar crises intensas, faltar às aulas e pensar em abandonar o curso para
não precisar falar diante da turma. Nesse caso, a ansiedade está produzindo
prejuízos importantes e merece avaliação cuidadosa.
O diagnóstico não deve ser estabelecido com base em
uma única reação. Além disso, sintomas como palpitações, tontura e falta de ar
podem estar relacionados a outras condições. Quando necessário, o psicólogo
deve orientar a busca por avaliação médica, sem abandonar o acompanhamento
psicológico.
O
cuidado psicológico na ansiedade
O atendimento pode ajudar a pessoa a identificar
situações desencadeadoras, compreender pensamentos associados ao medo e
desenvolver formas mais adequadas de enfrentamento.
Em alguns casos, o trabalho inclui o enfrentamento
gradual de situações evitadas. Isso não significa obrigar a pessoa a enfrentar
seu maior medo de uma vez. As etapas precisam ser planejadas, explicadas e
ajustadas às suas condições.
Intervenções psicológicas, especialmente aquelas
fundamentadas em princípios cognitivo-comportamentais, apresentam evidências
importantes para o tratamento de diferentes transtornos de ansiedade.
Estratégias de manejo do estresse e, conforme avaliação profissional,
tratamento medicamentoso também pode fazer parte do cuidado.
Compreendendo
a depressão
A depressão não é simplesmente tristeza, desânimo
passageiro ou falta de força de vontade. Trata-se de uma condição de saúde
mental que pode afetar pensamentos, emoções, comportamento, sono, alimentação,
relações e capacidade de realizar atividades.
Entre suas manifestações estão o humor deprimido, a
perda de interesse ou prazer, o cansaço, as alterações do sono e do apetite, a
dificuldade de concentração, a culpa excessiva, a desesperança e os pensamentos
relacionados à morte.
A pessoa não precisa apresentar todos esses sinais.
A forma e a intensidade variam conforme o caso. Para caracterizar um quadro
depressivo, é necessário considerar a permanência dos sintomas, sua combinação
e os prejuízos produzidos.
Tristeza
não é sempre depressão
A tristeza é uma emoção humana e pode aparecer
diante de perdas, frustrações ou mudanças. Ela não deve ser tratada
automaticamente como doença.
Uma pessoa que perdeu o emprego pode sentir
tristeza, insegurança e desânimo. Essas reações são compreensíveis diante da
situação. Contudo, se o sofrimento persistir, ocorrer perda generalizada de
interesse, isolamento intenso, abandono dos cuidados pessoais ou pensamentos
sobre morrer, torna-se necessária uma avaliação mais ampla.
Evitar diagnósticos precipitados não significa
minimizar o sofrimento. O psicólogo precisa acolher a experiência e, ao mesmo
tempo, observar sinais que indiquem maior gravidade.
A depressão pode acontecer com qualquer pessoa e resulta de uma interação complexa entre fatores sociais, psicológicos e biológicos. Eventos difíceis, como desemprego, perdas e experiências traumáticas, podem contribuir para seu surgimento, mas cada caso precisa ser compreendido individualmente.
A
culpa e a ideia de fraqueza
Pessoas com depressão frequentemente escutam frases
como “você precisa reagir”, “pense positivo” ou “há pessoas em situação pior”.
Embora possam ser ditas com boa intenção, essas falas tendem a aumentar a culpa
e a sensação de incompreensão.
O sofrimento não desaparece apenas porque a pessoa
reconhece aspectos positivos da própria vida. Ela pode amar a família, ter boas
condições materiais e, ainda assim, apresentar depressão.
O psicólogo não deve reduzir o atendimento a frases
motivacionais. Seu trabalho envolve compreender a experiência, avaliar riscos,
acompanhar os prejuízos, fortalecer recursos e planejar intervenções
apropriadas. Dependendo da gravidade, pode ser necessária a atuação conjunta
com psiquiatras, médicos e outros profissionais.
Compreendendo
o luto
O luto é uma resposta à perda de uma pessoa, de uma
relação, de uma condição de vida ou de algo que possuía grande significado.
Embora seja frequentemente associado à morte, também pode ocorrer após
separações, mudanças de cidade, perda do emprego, adoecimento ou redução da
autonomia.
Cada pessoa vive o luto de maneira particular. Podem
surgir tristeza, raiva, culpa, alívio, saudade, dificuldade de concentração,
alterações do sono e sensação de que a vida perdeu temporariamente sua
organização.
Não existe uma única sequência obrigatória de
etapas. As emoções podem alternar-se, desaparecer por algum tempo e reaparecer
em datas, lugares ou acontecimentos ligados à perda. Estudos contemporâneos
compreendem o luto como um processo dinâmico de construção de significado após
o rompimento de um vínculo importante.
O
luto não deve ser apressado
Frases como “você
precisa superar”, “seja forte” ou
“está na hora de seguir em frente” podem aumentar a solidão da pessoa enlutada.
O objetivo do acompanhamento não é apagar lembranças nem exigir o abandono do
vínculo emocional.
A psicoterapia pode oferecer espaço para expressar
emoções, reorganizar a rotina, compreender mudanças na identidade e construir
novas formas de manter simbolicamente a ligação com quem morreu.
A pessoa pode recordar momentos, preservar valores
aprendidos, participar de rituais ou encontrar maneiras pessoais de reconhecer
a importância do vínculo. Os rituais de despedida podem contribuir para marcar
a perda e favorecer sua elaboração dentro de determinado contexto cultural.
O psicólogo também precisa observar a rede de apoio.
Familiares e amigos podem oferecer companhia e ajuda prática, mas nem sempre
conseguem acolher a dor. Em alguns casos, evitam falar sobre a perda por medo
de provocar sofrimento, fazendo com que a pessoa se sinta ainda mais isolada. O
apoio social possui papel relevante na experiência do luto.
Quando
o luto exige maior atenção
A intensidade da dor, sozinha, não determina que o
luto seja patológico. Algumas perdas são profundamente desorganizadoras e podem
produzir sofrimento prolongado.
Entretanto, é necessário observar situações em que a
pessoa permanece incapaz de realizar atividades básicas, apresenta isolamento
extremo, uso prejudicial de substâncias, depressão intensa ou pensamentos de
morte.
A avaliação precisa considerar o tempo decorrido, as
circunstâncias da perda, a cultura, a relação existente e as condições atuais.
O cuidado deve concentrar-se na pessoa como um todo, e não apenas em fazê-la
deixar de sentir saudade. Pesquisas brasileiras sobre psicoterapia no luto
ressaltam a importância de acolher a história, os vínculos e os significados
particulares da experiência.
Dificuldades
relacionais
Relacionamentos familiares, amorosos, profissionais
e sociais podem ser fontes de apoio, mas também de sofrimento. Algumas pessoas
procuram a clínica por causa de brigas constantes, ciúme, medo de abandono,
dificuldade para confiar ou incapacidade de expressar necessidades.
Os problemas relacionais raramente são explicados
por uma única atitude. Muitas vezes, as pessoas ficam presas em ciclos de
interação.
Em um casal, por exemplo, uma pessoa pode cobrar proximidade porque sente medo de ser abandonada. A outra se afasta porque interpreta a cobrança como controle. Quanto maior o afastamento, maior se torna a cobrança;
um casal, por exemplo, uma pessoa pode cobrar
proximidade porque sente medo de ser abandonada. A outra se afasta porque
interpreta a cobrança como controle. Quanto maior o afastamento, maior se torna
a cobrança; quanto maior a cobrança, maior o afastamento.
O trabalho clínico pode ajudar a reconhecer esse
padrão, compreender as emoções envolvidas e desenvolver formas mais claras de
comunicação. Entretanto, o psicólogo não deve decidir quem está certo nem
assumir automaticamente o papel de juiz.
Comunicação
e estabelecimento de limites
Muitos conflitos relacionais estão ligados à
dificuldade de comunicar sentimentos e necessidades. Algumas pessoas evitam
falar para não desagradar. Outras expressam frustração por meio de acusações,
ameaças ou silêncio prolongado.
Estabelecer limites não significa rejeitar o outro.
Significa comunicar o que é aceitável, reconhecer responsabilidades e proteger
necessidades pessoais.
Uma pessoa pode dizer:
“Quando você lê minhas mensagens sem autorização,
sinto que minha privacidade não é respeitada. Preciso que isso não volte a
acontecer.”
A comunicação direta não garante que o outro
aceitará o limite, mas permite que a necessidade seja apresentada com clareza.
Na clínica, o psicólogo pode ajudar a pessoa a
diferenciar aquilo que está sob seu controle daquilo que depende do
comportamento alheio. Ela pode expressar uma necessidade e decidir como reagirá
caso o limite não seja respeitado, mas não consegue controlar completamente as
escolhas do outro.
Conflito
não é o mesmo que violência
Nem toda discussão caracteriza violência.
Divergências fazem parte dos relacionamentos e podem ser resolvidas por meio de
diálogo, negociação e reconhecimento de responsabilidades.
A violência envolve agressões, ameaças, coerção,
humilhação, controle, perseguição ou restrição da autonomia. Nessas situações,
tratar o problema apenas como falha de comunicação pode responsabilizar
igualmente quem agride e quem está sendo agredido.
O psicólogo precisa avaliar riscos e priorizar a
segurança. Dependendo do caso, pode ser necessário orientar sobre serviços de
proteção, saúde, assistência social ou justiça. A terapia de casal pode não ser
adequada quando existe violência ativa, medo ou controle grave, pois a
liberdade necessária para falar pode estar comprometida.
Evitando
diagnósticos precipitados
Ansiedade, depressão, luto e dificuldades relacionais podem aparecer juntas. Uma pessoa enlutada pode sentir ansiedade. Um conflito familiar
prolongado pode contribuir para sintomas depressivos.
Alguém com depressão pode afastar-se de amigos e interpretar esse afastamento
como rejeição.
Isso não significa que toda relação difícil provoque
depressão nem que toda pessoa ansiosa apresente um transtorno. O psicólogo
precisa integrar as informações sem transformar qualquer sofrimento em
diagnóstico.
Uma avaliação responsável considera:
As hipóteses devem permanecer abertas à revisão.
Quando necessário, o cuidado pode envolver outros profissionais e serviços da
Rede de Atenção Psicossocial. A rede pública brasileira articula diferentes
pontos de atenção para atender pessoas com necessidades relacionadas à saúde
mental.
O
papel da Psicologia Clínica
Na ansiedade, o psicólogo pode ajudar a pessoa a
compreender os medos, reconhecer padrões de evitação e desenvolver estratégias
de enfrentamento.
Na depressão, pode trabalhar a desesperança, o
isolamento, a perda de interesse e os fatores que dificultam a retomada da vida
cotidiana.
No luto, oferece espaço para elaborar a perda e
reconstruir sentidos, sem exigir que a pessoa esqueça o vínculo.
Nas dificuldades relacionais, ajuda a reconhecer
padrões, comunicar necessidades, estabelecer limites e tomar decisões mais
conscientes.
Em todas essas situações, o atendimento precisa
respeitar a singularidade. Duas pessoas com sintomas semelhantes podem
necessitar de intervenções diferentes. O cuidado clínico começa quando o
profissional abandona respostas prontas e procura compreender como aquela
pessoa vive seu sofrimento.
Considerações
finais
Ansiedade, tristeza, luto e conflitos fazem parte da
experiência humana. Eles se tornam demandas clínicas quando produzem sofrimento
importante, comprometem o funcionamento cotidiano ou ultrapassam os recursos
disponíveis.
O papel do psicólogo não é transformar toda emoção
desconfortável em doença, mas também não deve minimizar sinais graves. É
necessário acolher, investigar, formular hipóteses e avaliar continuamente as
necessidades de cuidado.
Uma prática clínica humana reconhece que os sintomas não existem separados da história, dos vínculos e das condições de vida. O objetivo não
é apenas reduzir o sofrimento, mas ajudar a pessoa a compreender sua experiência, fortalecer recursos e recuperar possibilidades de participação na própria vida.
Referências
bibliográficas
BRASIL. Ministério da Saúde. Depressão: causas,
sintomas, diagnóstico, tratamento e prevenção. Brasília, DF: Ministério da
Saúde, 2025.
BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde mental.
Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026.
FREITAS, Joanneliese de Lucas. Luto, pathos e
clínica: uma leitura fenomenológica. Psicologia USP, São Paulo, v. 29, n.
1, 2018.
LUNA, Ivânia Jann; MORÉ, Carmen Leontina Ojeda
Ocampo. Rede social de apoio no luto: a quem confiar minha tristeza?
Psicologia em Estudo, Maringá, v. 28, 2023.
MICHEL, Luís Henrique Ferreira; FREITAS, Joanneliese
de Lucas. Psicoterapia e luto: a vivência de mães enlutadas. Psicologia:
Ciência e Profissão, Brasília, v. 41, 2021.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Depressão.
Genebra: OMS, 2025.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Transtornos de
ansiedade. Genebra: OMS, 2025.
SACILOTI, Isabela Pereira; BOMBANA, José Atílio. Abordagem
ao luto: aspectos exploratórios sobre a assistência de terapeutas ocupacionais.
Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional, São Carlos, v. 30, 2022.
SOUZA, Camila Peixoto de; SOUZA, Airle Miranda de. Rituais
fúnebres no processo do luto: significados e funções. Psicologia: Teoria e
Pesquisa, Brasília, v. 35, 2019.
Aula 2 — Crises, risco e trabalho em
rede
Uma crise psicológica acontece quando os recursos
que a pessoa costuma utilizar já não parecem suficientes para enfrentar
determinada situação. Ela pode surgir após uma perda, uma separação, um
episódio de violência, uma demissão, um diagnóstico médico, um conflito
familiar ou o agravamento de um problema de saúde mental.
A crise não é definida apenas pelo acontecimento
externo. Duas pessoas podem viver situações semelhantes e reagir de maneiras
muito diferentes. O que importa é compreender como o evento foi sentido, quais
recursos estão disponíveis e se existe risco imediato para a segurança da
pessoa ou de terceiros.
Durante uma crise, podem aparecer desorganização
emocional, medo intenso, agitação, choro, confusão, isolamento, impulsividade,
alterações do sono, uso prejudicial de álcool ou outras drogas e sensação de
que não existe saída. Nem toda reação intensa representa um transtorno mental,
mas sinais de sofrimento grave precisam ser avaliados com cuidado.
Acolher
antes de tentar resolver
Diante de alguém em crise, é comum sentir
vontade de
oferecer conselhos rápidos ou frases de incentivo. Entretanto, expressões como
“pense positivo”, “isso logo passa” ou “você precisa ser forte” podem fazer a
pessoa sentir que sua dor está sendo minimizada.
O primeiro cuidado é oferecer presença, escuta e
segurança. O psicólogo procura compreender o que aconteceu, como a pessoa está
naquele momento e quais necessidades precisam ser atendidas primeiro.
Uma intervenção inicial pode incluir perguntas
simples:
“O que aconteceu hoje?”
“O que está mais difícil neste momento?”
“Você está em um lugar seguro?”
“Existe alguém em quem confia e que possa ajudá-lo?”
Os primeiros cuidados psicológicos envolvem ajuda
humana, respeitosa e prática, sem pressionar a pessoa a relatar detalhes para
os quais ainda não esteja preparada. Também incluem identificar necessidades
imediatas e aproximá-la de informações, serviços e redes de apoio.
Acolher não significa conduzir uma psicoterapia
completa durante a emergência. Em uma crise, a prioridade pode ser reduzir
riscos, organizar os próximos passos e garantir que a pessoa não permaneça
sozinha diante de uma situação que não consegue administrar.
Avaliação
da situação
A avaliação precisa observar o estado emocional, a
capacidade de comunicação, a orientação, o comportamento e as condições de
segurança. Também é importante investigar acontecimentos recentes, uso de
substâncias, condições de saúde e presença de apoio familiar ou comunitário.
Alguns sinais exigem atenção especial:
Esses sinais não devem ser analisados isoladamente.
A avaliação considera intensidade, duração, contexto, histórico e mudanças
recentes. Uma fala aparentemente vaga pode adquirir grande importância quando é
acompanhada de isolamento, despedidas, planejamento ou acesso a meios letais.
Como
abordar pensamentos suicidas
Quando uma pessoa afirma que não vê mais sentido em
viver, o psicólogo não deve evitar o assunto por medo de piorar a situação. É
necessário perguntar de forma direta, respeitosa e sem julgamento:
“Você tem pensado em tirar a própria vida?”
“Pensou
em como faria isso?”
“Tem acesso ao que precisaria para realizar esse
plano?”
“Já tentou algo semelhante anteriormente?”
“Consegue manter-se em segurança hoje?”
Perguntar sobre suicídio não deve ser confundido com
incentivar o comportamento. A investigação permite compreender a gravidade,
acolher algo que talvez estivesse sendo vivido em silêncio e planejar medidas
de proteção.
A prevenção exige identificação precoce, avaliação,
manejo e acompanhamento das pessoas afetadas por comportamentos suicidas.
Também depende de colaboração entre serviços e diferentes setores da sociedade.
A avaliação não se resume a marcar a pessoa como de
“baixo”, “médio” ou “alto risco”. Essas classificações podem ajudar na
organização do atendimento, mas não substituem a compreensão clínica. O risco
pode mudar rapidamente, especialmente após novos conflitos, uso de substâncias
ou acesso a meios letais.
Fatores
de risco e de proteção
Os fatores de risco são condições que podem aumentar
a vulnerabilidade. Entre eles estão tentativas anteriores, desesperança
intensa, isolamento, violência, perdas recentes, uso prejudicial de
substâncias, sofrimento mental grave e acesso a meios capazes de causar danos.
Nenhum fator isolado permite prever com certeza um
comportamento suicida. A presença de uma condição de saúde mental, por exemplo,
não significa que a pessoa necessariamente tentará tirar a própria vida.
Os fatores de proteção podem incluir:
Esses fatores também não devem ser tratados como
garantias. Uma pessoa pode amar sua família e, ainda assim, estar em risco. Por
isso, a avaliação precisa combinar informações clínicas, história, contexto
atual e possibilidade real de proteção.
O Conselho Federal de Psicologia destaca que a
prevenção do suicídio não pode ficar restrita ao atendimento individual. É
necessário considerar as condições sociais, históricas e culturais que podem
contribuir para a produção de sofrimento intenso.
Plano
de segurança
Quando existem pensamentos suicidas, mas a pessoa ainda consegue participar das decisões e manter algum controle, pode ser construído um plano de segurança. Esse plano organiza ações
concretas para
momentos de piora.
Ele pode incluir:
O plano não deve ser confundido com uma simples
promessa de que a pessoa “não fará nada”. Um compromisso verbal não substitui
avaliação, acompanhamento e medidas concretas.
Também não é suficiente entregar uma lista de
telefones. O psicólogo precisa verificar se a pessoa consegue utilizar os
recursos, se há alguém disponível e se o serviço indicado funciona naquele
território e horário.
Quando
o sigilo pode ser limitado
O sigilo profissional protege a intimidade e
favorece a confiança. Entretanto, diante de risco grave, o psicólogo pode
precisar compartilhar informações indispensáveis para preservar a vida e a
segurança.
A decisão deve ser cuidadosa e fundamentada. Sempre
que possível, a pessoa deve ser informada e participar da escolha de quem será
contatado.
O profissional pode dizer:
“Estou muito preocupado com sua segurança. Gostaria
que pensássemos juntos em alguém que possa permanecer com você e nos ajudar a
buscar atendimento.”
Quando o risco é elevado e a pessoa não consegue
manter-se segura, pode ser necessário acionar familiares, pessoas de confiança
ou serviços de urgência, mesmo que ela inicialmente não autorize. A comunicação
deve limitar-se ao necessário, evitando a exposição de toda a história clínica.
O Código de Ética Profissional do Psicólogo permite
a decisão de quebra do sigilo quando existe conflito com princípios
fundamentais, devendo o profissional buscar o menor prejuízo e compartilhar
apenas as informações indispensáveis.
Situações
que exigem atendimento imediato
Algumas situações ultrapassam os limites de uma
sessão ambulatorial comum. Isso pode ocorrer quando há tentativa recente de
suicídio, plano iminente, intoxicação, agitação grave, alteração intensa da
consciência ou risco de agressão.
Nessas circunstâncias, não é adequado apenas
recomendar que a pessoa procure ajuda depois ou marcar uma sessão para a semana
seguinte. Pode ser necessário:
A segurança vem antes da continuidade da conversa
terapêutica. O psicólogo precisa conhecer previamente os recursos disponíveis
em seu município para não depender de improvisações durante uma emergência.
Rede
de Atenção Psicossocial
O cuidado em saúde mental não deve ficar concentrado
em um único profissional. No Sistema Único de Saúde, a Rede de Atenção
Psicossocial reúne serviços destinados a pessoas em sofrimento mental e àquelas
com necessidades relacionadas ao uso prejudicial de álcool e outras drogas. A
proposta é oferecer atenção integral e contínua, articulando diferentes pontos
do sistema.
As pessoas em crise podem ser acolhidas nos
diferentes serviços da RAPS, conforme a necessidade e a organização local.
Entre os pontos de atenção estão unidades básicas de saúde, CAPS, serviços de
urgência, hospitais gerais, unidades de acolhimento e equipes especializadas.
Os Centros de Atenção Psicossocial são serviços
públicos, comunitários e abertos que acolhem pessoas em sofrimento psíquico
intenso. Atuam com equipes multiprofissionais e buscam promover cuidado próximo
ao território e à vida comunitária.
O encaminhamento para a rede não significa abandonar
a pessoa. O psicólogo deve explicar por que outro atendimento é necessário e,
quando possível, colaborar para que o contato realmente aconteça.
Trabalho
multiprofissional
Crises psicológicas podem envolver questões
emocionais, médicas, familiares, sociais e jurídicas. Por isso, o cuidado pode
exigir a participação de psicólogos, psiquiatras, médicos, enfermeiros,
assistentes sociais, terapeutas ocupacionais e outros profissionais.
Uma pessoa que apresenta sofrimento intenso após
perder a moradia, por exemplo, pode precisar de acompanhamento psicológico e de
acesso à assistência social. Alguém que esteja intoxicado por uma substância
necessita de avaliação médica antes que uma intervenção psicológica mais
aprofundada seja possível.
O trabalho em equipe não significa transmitir
livremente todas as informações do paciente. Devem ser compartilhados apenas os
dados necessários à continuidade do cuidado, respeitando a finalidade
profissional e o sigilo.
O psicólogo também precisa evitar assumir responsabilidades que pertencem a outras áreas. Ele pode identificar sinais que exigem avaliação médica, mas não deve prescrever medicamentos ou substituir um atendimento de urgência.
A
importância da rede pessoal
Além dos serviços profissionais, familiares, amigos,
vizinhos e outras pessoas próximas podem participar da proteção. Contudo, é
importante avaliar se esses vínculos são realmente seguros.
Nem toda família oferece acolhimento. Em situações
de violência doméstica, preconceito ou abuso, contatar determinado familiar
pode aumentar o risco. A escolha da rede de apoio precisa considerar a
experiência e a segurança da pessoa.
Quando existe alguém confiável, essa pessoa pode
ajudar a:
A família não deve receber sozinha a
responsabilidade de resolver uma crise grave. Ela precisa de orientações claras
e do apoio dos serviços de saúde.
Registro
das decisões
A atuação em crise exige registros objetivos. O
psicólogo deve documentar as informações relevantes, as perguntas realizadas,
os riscos identificados, as pessoas contatadas, os encaminhamentos e as
providências tomadas.
O registro não deve conter julgamentos ou acusações.
Sua finalidade é organizar o acompanhamento, fundamentar as decisões e
favorecer a continuidade do cuidado.
Expressões vagas como “paciente estava mal” são
insuficientes. É mais adequado registrar comportamentos e falas relevantes,
evitando detalhes que não contribuam para a compreensão da situação.
Também é importante anotar as orientações fornecidas
e as razões que fundamentaram eventual compartilhamento de informações.
Depois
da crise
A redução do risco imediato não encerra o cuidado.
Depois de uma tentativa de suicídio, de um episódio de violência ou de uma
desorganização intensa, a pessoa pode continuar vulnerável.
O acompanhamento posterior pode ajudar a compreender
o que contribuiu para a crise, fortalecer recursos, reorganizar a rotina e
construir estratégias para situações futuras.
Também é necessário verificar se os encaminhamentos
foram efetivados. Dizer à pessoa que procure um CAPS ou uma unidade de saúde
não garante que ela tenha conseguido atendimento. Dificuldades de transporte,
horários, vergonha, medo e falta de apoio podem interromper o cuidado.
A OMS recomenda que pessoas afetadas por comportamentos suicidas sejam identificadas, avaliadas, manejadas e acompanhadas. O seguimento é parte essencial da prevenção.
Erros
comuns no atendimento a crises
Um erro frequente é minimizar falas de morte,
acreditando que quem pretende agir não comenta o assunto. Toda fala relacionada
ao desejo de morrer precisa ser acolhida e investigada.
Outro erro é tentar convencer a pessoa usando culpa:
“Pense no sofrimento que causaria à sua família.”
Esse tipo de frase pode aumentar a sensação de peso
e fracasso. É mais adequado reconhecer a dor e construir medidas práticas de
proteção.
Também são condutas inadequadas:
Esses erros podem ser reduzidos com formação, supervisão, conhecimento dos serviços locais e elaboração prévia de procedimentos para emergências.
Considerações
finais
Uma crise psicológica exige acolhimento, avaliação e
capacidade de agir. O psicólogo precisa ouvir sem minimizar, investigar sem
julgar e tomar providências compatíveis com a gravidade da situação.
Quando existe risco, a prioridade é preservar a vida
e a segurança. Isso pode exigir a participação de familiares, profissionais e
serviços da rede, sempre compartilhando apenas as informações necessárias.
O trabalho clínico não termina quando a crise
imediata diminui. O acompanhamento posterior ajuda a compreender fatores
desencadeadores, fortalecer recursos e prevenir novos episódios.
Reconhecer os limites do consultório e buscar apoio multiprofissional não representa fracasso. Ao contrário, demonstra responsabilidade. Em saúde mental, cuidar também significa saber quando nenhuma pessoa ou profissão consegue responder sozinha a todas as necessidades.
Referências
bibliográficas
BRASIL. Ministério da Saúde. Prevenção do
suicídio: manual dirigido a profissionais das equipes de saúde mental.
Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2006.
BRASIL. Ministério da Saúde. Rede de Atenção
Psicossocial. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde mental.
Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do
Psicólogo. Brasília, DF: CFP, 2005.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Suicídio e os
desafios para a Psicologia. Brasília, DF: CFP, 2013.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Referências
técnicas para atuação de psicólogas e psicólogos nos Centros de Atenção
Psicossocial. Brasília, DF: CFP, 2022.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Primeiros cuidados
psicológicos: guia para trabalhadores de campo. Genebra: OMS, 2015.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Prevenção do
suicídio: um recurso para profissionais da mídia. Genebra: OMS, 2023.
Aula 3 — Diversidade, contexto social
e desenvolvimento profissional
A Psicologia Clínica atende pessoas com histórias,
valores, identidades e condições de vida muito diferentes. Por isso,
compreender o sofrimento humano exige mais do que observar sintomas. É
necessário considerar o contexto em que a pessoa vive, as relações que
estabelece, os direitos aos quais tem acesso e as experiências de discriminação
ou exclusão que atravessam sua trajetória.
Nenhum atendimento é completamente separado da
sociedade. Desemprego, pobreza, racismo, violência, capacitismo, desigualdade
de gênero, isolamento social e dificuldade de acesso aos serviços de saúde
podem afetar profundamente o bem-estar psicológico. A Organização Mundial da
Saúde destaca que a saúde é influenciada pelas condições em que as pessoas
nascem, crescem, trabalham, vivem e envelhecem.
Reconhecer esses fatores não significa ignorar
pensamentos, emoções ou escolhas individuais. Significa compreender que o
sofrimento pode resultar da interação entre aspectos pessoais, familiares,
sociais, culturais e econômicos.
A
pessoa dentro de seu contexto
Uma pessoa que apresenta ansiedade por não conseguir
pagar o aluguel vive uma situação diferente daquela que sente ansiedade antes
de uma apresentação profissional. As duas precisam ser acolhidas, mas suas
necessidades e possibilidades de intervenção não são iguais.
No primeiro caso, trabalhar apenas técnicas de
respiração ou pensamentos positivos seria insuficiente. A ansiedade está
relacionada a uma ameaça concreta. Além do acompanhamento psicológico, pode ser
necessário buscar serviços de assistência social, orientação jurídica,
benefícios públicos ou outros recursos da comunidade.
Da mesma maneira, uma pessoa que sofre discriminação racial no trabalho não deve ser levada a acreditar que o problema existe apenas porque é insegura ou interpreta negativamente as situações. O racismo pode produzir efeitos reais sobre a autoestima, a
sensação de pertencimento, a
segurança e as oportunidades sociais.
O psicólogo precisa diferenciar aquilo que pertence
à experiência interna da pessoa daquilo que é provocado ou agravado por
condições externas. Muitas vezes, essas duas dimensões aparecem juntas.
Escuta
clínica e diversidade
Uma prática respeitosa começa pelo reconhecimento de
que o psicólogo também possui valores, crenças e referências culturais. Esses
elementos podem influenciar suas interpretações, mesmo quando ele acredita
estar sendo completamente neutro.
O profissional pode considerar normal um modelo
específico de família, relacionamento, religião, comunicação ou projeto de
vida. Contudo, aquilo que faz sentido em sua experiência pessoal não deve ser
imposto à pessoa atendida.
Considere uma jovem que deseja permanecer solteira e
não pretende ter filhos. Se o psicólogo entende casamento e maternidade como
etapas obrigatórias da vida adulta, pode interpretar essa escolha como medo de
compromisso ou imaturidade, mesmo sem dados que sustentem essa conclusão.
A escuta clínica precisa investigar o significado
que a escolha possui para a própria pessoa. O objetivo não é ajustar alguém às
expectativas sociais, mas compreender se suas decisões estão relacionadas aos
seus valores, desejos, medos e condições de vida.
Respeitar a diversidade não significa deixar de
formular perguntas ou ignorar conflitos. Significa evitar que diferenças
culturais, familiares, religiosas, corporais ou afetivas sejam tratadas
automaticamente como problemas psicológicos.
Relações
raciais e sofrimento psicológico
O racismo não se manifesta apenas por agressões
explícitas. Também pode aparecer em situações de desconfiança, exclusão,
desvalorização profissional, tratamento desigual, falta de representatividade e
repetição de estereótipos.
Essas experiências podem produzir medo, raiva,
tristeza, sensação de isolamento, necessidade constante de demonstrar
competência e dificuldade para confiar em instituições. O sofrimento não deve
ser atribuído somente a características individuais.
Imagine um homem negro que relata sentir intensa
ansiedade ao entrar em lojas porque percebe que costuma ser seguido por
seguranças. Uma condução inadequada seria afirmar imediatamente que ele
apresenta medo exagerado de julgamento.
O psicólogo precisa considerar que sua ansiedade pode estar relacionada a experiências reais de vigilância e discriminação. A clínica pode ajudá-lo a expressar os efeitos emocionais dessas situações,
pode estar relacionada a experiências reais de vigilância e discriminação. A
clínica pode ajudá-lo a expressar os efeitos emocionais dessas situações,
desenvolver recursos de proteção e fortalecer sua identidade, sem negar a
existência do racismo.
As referências técnicas do Conselho Federal de
Psicologia orientam a categoria a reconhecer os efeitos do racismo, enfrentar
práticas discriminatórias e construir uma atuação comprometida com os direitos
humanos e com a igualdade racial.
Diversidade
sexual e de gênero
Orientação sexual e identidade de gênero não
constituem doenças. O sofrimento apresentado por pessoas LGBTQIA+
frequentemente está relacionado à rejeição familiar, à discriminação, à
violência, ao medo de perder vínculos ou à dificuldade de viver sua identidade
com segurança.
O psicólogo não deve utilizar técnicas com a
finalidade de modificar a orientação sexual ou impor uma identidade considerada
socialmente adequada. A atuação precisa respeitar a dignidade, a autonomia e a
diversidade das formas de existir.
Quando uma pessoa relata conflito sobre sua
sexualidade, o trabalho não consiste em conduzi-la para determinada resposta. O
psicólogo pode ajudá-la a compreender sentimentos, avaliar condições de
segurança, lidar com pressões sociais e construir decisões compatíveis com sua
experiência.
No atendimento a pessoas trans, travestis e não
binárias, o respeito ao nome social e aos pronomes escolhidos é parte do
cuidado. O uso deliberadamente inadequado pode reproduzir violências e
prejudicar a confiança no atendimento. As orientações profissionais atuais do
CFP reforçam o respeito à identidade, à autonomia e aos direitos dessas
pessoas.
Também é importante não atribuir todos os problemas apresentados à identidade de gênero ou à orientação sexual. Uma pessoa LGBTQIA+ pode procurar atendimento por luto, conflitos no trabalho, ansiedade financeira ou qualquer outra demanda não relacionada diretamente à sua identidade.
Pessoas
com deficiência e acessibilidade
O capacitismo ocorre quando pessoas com deficiência
são consideradas inferiores, incapazes ou dependentes apenas por não
corresponderem a um padrão corporal, sensorial, intelectual ou comunicacional
considerado normal.
Na clínica, o capacitismo pode aparecer quando o
profissional fala apenas com o acompanhante, ignora a autonomia da pessoa,
presume que ela não possui vida afetiva ou toma decisões sem sua participação.
Uma pessoa com deficiência visual, por exemplo, não deve ser tratada
como se fosse incapaz de compreender as informações do
atendimento. Uma pessoa surda pode necessitar de recursos de acessibilidade,
adaptação da comunicação ou atuação em conjunto com intérprete, conforme o caso
e sua preferência.
A acessibilidade não é um favor. Ela é uma condição
para que a pessoa participe do atendimento com autonomia e igualdade. O CFP
orienta que a atuação psicológica seja comprometida com a inclusão, a equidade,
os direitos humanos e o enfrentamento do capacitismo.
Antes de presumir o que a pessoa precisa, o
psicólogo pode perguntar:
“Existe alguma adaptação que torne este atendimento
mais acessível para você?”
Essa pergunta respeita a experiência individual e evita soluções baseadas apenas nas suposições do profissional.
Cultura,
religião e espiritualidade
Crenças religiosas e espirituais podem oferecer
sentido, pertencimento, esperança e apoio comunitário. Também podem estar
relacionadas a conflitos, culpa, medo ou experiências de exclusão.
O psicólogo pode abordar esses temas quando forem
relevantes para a pessoa, mas não deve utilizar o atendimento para divulgar sua
própria religião ou tentar modificar as crenças do paciente.
Uma mulher pode dizer que sua fé a ajuda a enfrentar
uma doença. O profissional não precisa compartilhar essa crença para reconhecer
sua importância. Pode perguntar como a espiritualidade participa de sua vida,
quais recursos oferece e se também produz algum conflito.
A Psicologia é uma profissão laica. Isso não
significa proibir que pacientes falem de religião, mas garantir que o
atendimento não seja conduzido por pregação, imposição de crenças ou
explicações religiosas apresentadas como técnicas psicológicas. O CFP estabelece
normas para preservar o caráter laico do exercício profissional e o respeito às
diferentes crenças e convicções.
A
influência das condições sociais
O sofrimento psicológico pode ser agravado por
jornadas excessivas de trabalho, insegurança alimentar, ausência de moradia
adequada, violência urbana, migração, solidão e dificuldade de acesso à saúde.
Uma pessoa que trabalha muitas horas, cuida sozinha
de familiares e não possui renda suficiente pode apresentar cansaço,
irritabilidade e dificuldade de concentração. Seria inadequado concluir que ela
precisa apenas organizar melhor o tempo.
A clínica pode ajudá-la a reconhecer limites,
desenvolver estratégias e buscar apoio, mas não deve transformar problemas
sociais em falhas pessoais.
O psicólogo também precisa conhecer os
serviços do
território. Em determinados casos, o cuidado pode envolver unidades de saúde,
assistência social, escolas, serviços de proteção, organizações comunitárias e
outros profissionais.
Trabalhar em rede amplia as possibilidades de
atendimento. O encaminhamento, entretanto, deve ser explicado e realizado com
responsabilidade. Não basta entregar um endereço e considerar o problema
resolvido.
Interseccionalidade
As pessoas não vivem suas características de maneira
isolada. Gênero, raça, classe social, deficiência, idade, religião e orientação
sexual podem combinar-se, produzindo experiências específicas.
Uma mulher negra com deficiência pode enfrentar
barreiras diferentes das vividas por um homem branco com a mesma deficiência.
Uma pessoa idosa LGBTQIA+ pode experimentar, ao mesmo tempo, preconceito
relacionado à idade, à orientação sexual e ao isolamento social.
A perspectiva interseccional ajuda o psicólogo a
evitar explicações simplistas. Ela mostra que diferentes formas de desigualdade
podem se cruzar e produzir impactos particulares sobre a saúde mental.
Isso não significa reduzir a pessoa a categorias sociais. Significa reconhecer aspectos de sua realidade que podem ser ignorados quando o profissional observa apenas o indivíduo isolado.
Formação
continuada
A graduação oferece conhecimentos fundamentais, mas
não prepara o psicólogo para todas as situações que encontrará. Novas demandas,
mudanças sociais, avanços científicos e atualizações das normas profissionais
exigem estudo permanente.
A formação continuada pode incluir cursos
reconhecidos, grupos de estudo, leitura de pesquisas, participação em eventos,
supervisão e troca responsável com outros profissionais.
O psicólogo precisa avaliar criticamente as fontes
utilizadas. Conteúdos publicados em redes sociais podem ser interessantes para
iniciar uma reflexão, mas não substituem livros, artigos científicos, normas
profissionais e formação estruturada.
Também é necessário evitar o uso de técnicas apenas
porque se tornaram populares. Antes de incorporá-las, o profissional deve
conhecer seus fundamentos, indicações, limitações e possíveis riscos.
Admitir que não possui conhecimento suficiente sobre
determinada demanda é uma atitude ética. O psicólogo pode buscar qualificação,
consultar referências técnicas ou realizar um encaminhamento responsável.
Supervisão
clínica
A supervisão é um espaço de reflexão sobre o trabalho realizado. Nela, o profissional pode discutir hipóteses,
dificuldades,
intervenções, reações emocionais e dilemas éticos com alguém experiente e
qualificado.
Durante um atendimento, o psicólogo pode sentir
irritação, medo, pena, identificação ou desejo intenso de proteger. Essas
reações fazem parte da experiência humana, mas precisam ser reconhecidas para
não controlar a condução clínica.
Imagine uma psicóloga que se identifica fortemente
com uma paciente em situação de violência porque viveu uma história semelhante.
Sem perceber, ela pode apressar decisões, insistir em determinados
encaminhamentos ou sentir-se pessoalmente frustrada quando a paciente não segue
suas orientações.
Na supervisão, essas reações podem ser examinadas. O
objetivo não é expor a vida da pessoa atendida, mas melhorar a compreensão do
caso e proteger a qualidade do serviço. Somente as informações necessárias
devem ser compartilhadas, preservando o sigilo.
A supervisão não transfere a responsabilidade do
atendimento. A decisão profissional continua pertencendo ao psicólogo que
conduz o caso.
Autocuidado
e condições de trabalho
O contato constante com sofrimento, violência,
perdas e crises pode produzir desgaste emocional. O psicólogo precisa
reconhecer sinais como irritabilidade, dificuldade de concentração, cansaço
persistente, distanciamento afetivo e perda de interesse pelo trabalho.
Autocuidado não significa apenas descansar ou
realizar atividades prazerosas. Também envolve organizar a agenda, estabelecer
limites, buscar supervisão, manter formação adequada e reconhecer quando a
quantidade ou a complexidade dos atendimentos está ultrapassando sua
capacidade.
As condições de trabalho também precisam ser
consideradas. Sobrecarga, vínculos precários, falta de recursos e pressão por
produtividade podem comprometer a saúde do profissional e a qualidade do
atendimento.
O psicólogo não deve continuar trabalhando como se
estivesse plenamente disponível quando sua condição emocional prejudica a
escuta e a capacidade de decidir. Dependendo da situação, pode ser necessário
reduzir temporariamente a agenda, buscar acompanhamento pessoal ou reorganizar
responsabilidades.
Erros
comuns e formas de prevenção
Um erro frequente é interpretar todas as
dificuldades como problemas internos. Para evitá-lo, o psicólogo deve
investigar as condições sociais, econômicas e culturais envolvidas.
Outro erro é tratar sua própria cultura como padrão
universal. A prevenção exige curiosidade, estudo e disposição para reconhecer
preconceitos.
Também são
inadequadas as tentativas de modificar
orientação sexual, identidade de gênero, crenças religiosas ou modos de vida
que não causam prejuízo apenas porque diferem dos valores do profissional.
O atendimento pode falhar quando não oferece
acessibilidade, ignora experiências de racismo ou considera a pessoa com
deficiência incapaz de tomar decisões.
A falta de supervisão e de formação continuada
aumenta o risco de interpretações rígidas, técnicas inadequadas e dificuldades
éticas. Buscar apoio profissional não demonstra fraqueza, mas compromisso com a
qualidade do cuidado.
Considerações
finais
A Psicologia Clínica precisa compreender a pessoa em
sua singularidade e em seu contexto. Emoções, pensamentos e comportamentos não
existem separados das relações, da cultura, das condições materiais e das
experiências de desigualdade.
Uma prática comprometida com a diversidade não
consiste apenas em tratar todos da mesma forma. Pessoas diferentes podem
precisar de recursos, adaptações e formas de cuidado distintas para que tenham
condições reais de participar do atendimento.
O psicólogo deve reconhecer seus limites, revisar
preconceitos, atualizar conhecimentos e buscar supervisão. Também precisa
cuidar da própria saúde e observar como suas condições de trabalho influenciam
a prática.
Escutar com respeito é mais do que permitir que alguém fale. É reconhecer que existem diferentes modos de viver, amar, formar famílias, compreender o corpo, expressar emoções e construir sentido. A clínica torna-se mais humana quando não tenta encaixar todas as pessoas em um único modelo de normalidade.
Referências
bibliográficas
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética
Profissional do Psicólogo. Brasília, DF: CFP, 2005.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Manual
orientativo para uma atuação anticapacitista na Psicologia. Brasília, DF:
CFP, 2025.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Nota Técnica nº
11/2025: atuação de profissionais da Psicologia no atendimento às pessoas
trans, travestis e não binárias. Brasília, DF: CFP, 2025.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Relações raciais:
referências técnicas para a prática da psicóloga e do psicólogo. Brasília,
DF: CFP, 2017.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Referências
técnicas para atuação de psicólogas, psicólogos e psicólogues em políticas
públicas para a população LGBTQIA+. Brasília, DF: CFP, 2023.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Resolução CFP nº 1, de 22 de março de 1999. Estabelece normas de atuação para psicólogas e psicólogos em
relação à orientação sexual. Brasília, DF: CFP, 1999.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Resolução CFP nº
7, de 6 de abril de 2023. Estabelece normas para o exercício profissional
em relação ao caráter laico da prática psicológica. Brasília, DF: CFP, 2023.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Determinantes
sociais da saúde mental. Genebra: OMS, 2014.
ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. São Paulo:
WMF Martins Fontes, 2009.
Estudo de Caso — Uma crise que exigia
mais do que boa intenção
O caso a seguir é fictício, mas foi construído a
partir de situações recorrentes na prática clínica e nos serviços de saúde
mental. Os nomes e detalhes foram elaborados exclusivamente para fins
educativos.
A
chegada de Júlia ao atendimento
Júlia, de 27 anos, procurou atendimento psicológico
após o término de um relacionamento de seis anos. Trabalhava como atendente em
uma loja, morava sozinha e havia se mudado recentemente para outra cidade.
Desde a separação, passou a faltar ao trabalho, dormir durante o dia e
permanecer acordada à noite.
Na primeira sessão, contou que sentia ansiedade
intensa, chorava com frequência e havia perdido o interesse pelas atividades
que antes apreciava. Também relatou que não conhecia muitas pessoas na nova
cidade e que sua família morava longe.
A psicóloga responsável pelo atendimento, Patrícia,
percebeu que Júlia estava muito abalada, mas concluiu rapidamente que se
tratava de uma reação comum ao término de um relacionamento.
— Isso faz parte do luto amoroso. Você precisa dar
tempo ao tempo — afirmou.
Júlia permaneceu em silêncio. Antes de terminar a
sessão, disse em voz baixa:
— Às vezes, acho que seria melhor não acordar.
Patrícia ficou desconfortável com a frase, mas
decidiu não perguntar mais nada. Temia que uma pergunta direta sobre suicídio
deixasse a paciente ainda mais angustiada.
Primeiro
erro: normalizar o sofrimento sem avaliar sua gravidade
O término de um relacionamento pode provocar
tristeza, ansiedade, alterações do sono e sensação de perda. Essas reações não
devem ser automaticamente transformadas em diagnóstico.
Entretanto, reconhecer que um sofrimento pode estar
relacionado a uma experiência de vida não significa ignorar sua intensidade. No
caso de Júlia, havia prejuízos importantes: faltas no trabalho, isolamento,
alteração do sono, perda de interesse e uma fala relacionada à morte.
Patrícia tratou a situação como um luto comum antes
de investigar a duração, a frequência e o impacto dos sintomas.
Como evitar esse
erro
A psicóloga poderia acolher o sofrimento e, ao mesmo
tempo, ampliar a avaliação:
“Entendo que esse término foi muito doloroso. Além
da tristeza, você contou que deixou de trabalhar e perdeu o interesse pelas
atividades. Gostaria de compreender melhor como tem sido sua rotina.”
Também seria importante investigar alimentação, uso
de álcool ou outras substâncias, condições de saúde, apoio social e possíveis
episódios anteriores.
A saúde mental é influenciada por fatores
individuais, familiares, sociais e estruturais. Situações como perda, solidão,
discriminação, dificuldades financeiras e violência podem aumentar a
vulnerabilidade durante uma crise.
Segundo
erro: evitar perguntas sobre suicídio
A frase “seria melhor não acordar” não confirma,
sozinha, que Júlia tentaria tirar a própria vida. Contudo, exige investigação
direta e cuidadosa.
Patrícia evitou o assunto porque acreditava que
perguntar poderia incentivar o comportamento. Com isso, deixou de compreender
se havia apenas um desejo de escapar do sofrimento ou se Júlia possuía
intenção, plano ou acesso a meios para provocar a própria morte.
Como
evitar esse erro
A profissional poderia perguntar com tranquilidade:
“Quando você diz que seria melhor não acordar, está
pensando em morrer?”
“Já pensou em fazer alguma coisa contra si mesma?”
“Chegou a imaginar como faria isso?”
“Tem acesso ao que precisaria?”
“Já tentou se machucar anteriormente?”
“Consegue manter-se segura hoje?”
A identificação precoce, a avaliação, o manejo e o
acompanhamento são partes essenciais do cuidado às pessoas afetadas por
comportamentos suicidas.
Perguntas diretas não devem ser feitas de maneira
acusatória ou mecânica. O objetivo é abrir espaço para que a pessoa fale sobre
algo que pode estar vivendo em silêncio.
A
piora durante a semana
Quatro dias depois, Júlia enviou uma mensagem para
Patrícia:
“Desculpe incomodar. Tomei alguns comprimidos para
dormir. Não quero mais continuar desse jeito.”
Patrícia respondeu:
“Júlia, tente respirar e pensar nas pessoas que amam
você. Não faça nenhuma besteira. Conversaremos em nossa próxima sessão.”
Depois de enviar a mensagem, Patrícia desligou o
celular e seguiu sua rotina. Não perguntou quais comprimidos haviam sido
ingeridos, qual quantidade, onde Júlia estava ou se havia alguém por perto.
Terceiro
erro: substituir uma avaliação de emergência por frases motivacionais
A mensagem indicava uma possível intoxicação e risco imediato. Frases como “pense nas pessoas
mensagem indicava uma possível intoxicação e risco
imediato. Frases como “pense nas pessoas que amam você” podem aumentar a culpa
e não garantem a segurança.
Patrícia também não poderia esperar pela próxima
sessão. Uma possível ingestão de medicamentos exige avaliação médica urgente.
Como
evitar esse erro
A psicóloga deveria tentar contato imediato e
perguntar:
“O que você tomou?”
“Qual foi a quantidade?”
“Há quanto tempo isso aconteceu?”
“Onde você está?”
“Existe alguém próximo que possa chegar até você?”
Em seguida, deveria orientar ou acionar um serviço
de urgência, conforme as condições do caso. Também seria necessário buscar uma
pessoa de confiança que pudesse permanecer com Júlia.
Uma crise grave pode exigir a participação imediata
de serviços de saúde e não deve permanecer limitada ao atendimento psicológico
ambulatorial. No SUS, pessoas em crise podem ser acolhidas por diferentes
dispositivos da Rede de Atenção Psicossocial.
Quarto
erro: prometer sigilo sem explicar seus limites
Na primeira sessão, Patrícia havia dito:
— Tudo o que você falar ficará somente entre nós.
Nunca conto nada para ninguém.
Essa promessa parecia transmitir segurança, mas era
tecnicamente inadequada. Em situações de risco grave, pode ser necessário
compartilhar informações indispensáveis para proteger a pessoa.
Ao receber a mensagem de Júlia, Patrícia pensou em
telefonar para a irmã da paciente, cujo contato constava na ficha. Entretanto,
desistiu porque acreditava que estaria traindo o sigilo.
Como
evitar esse erro
Desde o início, o profissional deve explicar que as
informações são protegidas, mas que existem situações excepcionais nas quais
pode ser necessário acionar outras pessoas ou serviços para preservar a vida e
a segurança.
Diante de risco imediato, Patrícia poderia informar
Júlia:
“Estou preocupada com sua segurança e preciso
ajudá-la a receber atendimento agora. Gostaria de contatar sua irmã ou outra
pessoa de confiança para permanecer com você.”
Quando a participação da paciente não fosse possível
e o risco fosse grave, a psicóloga deveria tomar as medidas necessárias,
compartilhando apenas as informações indispensáveis.
O sigilo protege a intimidade, mas não deve impedir
ações justificadas para evitar um dano grave. Nesses casos, a comunicação
precisa ser restrita ao necessário.
A
intervenção da colega de trabalho
Naquela noite, uma colega percebeu que Júlia não comparecera ao emprego e foi até sua casa. Encontrou-a sonolenta e chamou o
comparecera ao emprego e foi até sua casa. Encontrou-a sonolenta e chamou o
serviço de emergência. Júlia foi encaminhada para atendimento hospitalar e
permaneceu em observação.
No dia seguinte, Patrícia soube do ocorrido.
Sentiu-se aliviada porque a paciente estava viva, mas acreditou que o
atendimento hospitalar havia resolvido a situação.
Não entrou em contato com a rede de saúde, não
registrou detalhadamente o ocorrido e não planejou o acompanhamento após a
alta.
Quinto
erro: acreditar que a crise termina com o atendimento hospitalar
A redução do risco imediato não significa que a
vulnerabilidade desapareceu. Depois de uma tentativa ou possível tentativa de
suicídio, a pessoa pode continuar apresentando desesperança, vergonha, medo e
isolamento.
A alta hospitalar precisa ser acompanhada de continuidade do cuidado. A OMS destaca a importância do seguimento após episódios de autoagressão ou tentativa de suicídio.
Como
evitar esse erro
Patrícia deveria, dentro de suas atribuições e
respeitando o sigilo, colaborar com a continuidade do atendimento. Poderia
verificar:
Também poderia construir um plano de segurança,
contendo sinais de alerta, estratégias de enfrentamento, contatos de confiança,
serviços disponíveis e medidas para restringir o acesso a meios de risco.
Intervenções desse tipo podem ser consideradas especialmente quando
acompanhadas de apoio e seguimento.
Sexto
erro: encaminhar sem conhecer a rede
Patrícia enviou uma mensagem para Júlia:
“Procure um CAPS perto da sua casa.”
Não informou onde ficava o serviço, como funcionava
ou se era adequado para aquela situação. Também não verificou se Júlia tinha
condições emocionais, financeiras e práticas de chegar ao local.
Júlia procurou o endereço pela internet, encontrou
informações antigas e desistiu.
Os CAPS são serviços públicos, comunitários e
abertos, destinados ao acolhimento de pessoas em intenso sofrimento psíquico,
inclusive em situações relacionadas ao uso prejudicial de álcool e outras
drogas.
Contudo, encaminhar não significa apenas citar o
nome de um serviço.
Como
evitar esse erro
A psicóloga deveria
conhecer os recursos existentes
no território e verificar qual ponto da rede seria mais adequado. Dependendo da
urgência e da organização municipal, poderiam ser necessários serviços de
emergência, unidade de saúde, CAPS ou acompanhamento hospitalar.
Um encaminhamento responsável inclui:
A RAPS articula diferentes serviços para oferecer
cuidado integral e contínuo às pessoas em sofrimento mental.
O
retorno ao atendimento
Duas semanas depois, Júlia retornou à psicoterapia.
Contou que havia procurado um serviço de saúde, mas se sentira discriminada por
ser uma mulher trans.
O profissional que a recebeu utilizou seu nome de
registro em voz alta diante de outras pessoas, apesar de ela ter informado seu
nome social. Júlia sentiu vergonha e decidiu não retornar.
Patrícia respondeu:
— Você precisa entender que esses erros acontecem. O
mais importante agora é tratar sua depressão.
A psicóloga acreditava estar mantendo o foco
clínico, mas desconsiderou uma experiência concreta de desrespeito e
discriminação.
Sétimo
erro: ignorar a diversidade e reduzir tudo a sintomas
O sofrimento de Júlia não estava relacionado apenas
ao término do relacionamento. A mudança de cidade, o isolamento, as
dificuldades econômicas e as experiências de discriminação também participavam
de sua vulnerabilidade.
Ao minimizar o desrespeito à identidade da paciente,
Patrícia enfraqueceu o vínculo e transmitiu a mensagem de que aquela violência
não era importante.
Como
evitar esse erro
A psicóloga poderia responder:
“O que aconteceu no serviço foi desrespeitoso e
parece ter aumentado sua sensação de insegurança. Vamos pensar em como isso
afetou você e em quais alternativas de cuidado podem oferecer maior proteção.”
Uma prática clínica comprometida com a diversidade
não transforma discriminações reais em simples interpretações individuais. As
referências do Conselho Federal de Psicologia orientam a profissão a reconhecer
e enfrentar o racismo, o preconceito e outras formas de discriminação em suas
práticas.
O profissional também deve respeitar nome social,
identidade de gênero, orientação sexual, religião, raça, deficiência e outras
dimensões da experiência, sem reduzir toda a história da pessoa a uma única
característica.
O peso das
condições sociais
Durante as sessões seguintes, Júlia contou que
estava ameaçada de demissão devido às faltas e que não possuía dinheiro
suficiente para pagar aluguel e alimentação.
Patrícia respondeu:
— Você precisa mudar sua forma de pensar. Tente não
imaginar sempre o pior.
A fala tratava uma ameaça concreta como se fosse
apenas um pensamento distorcido. A possibilidade de perder o emprego e a
moradia não era uma criação da ansiedade.
Como
evitar esse erro
A clínica poderia trabalhar os pensamentos e as
emoções de Júlia, mas também precisaria reconhecer suas condições materiais.
Patrícia poderia ajudá-la a organizar prioridades,
avaliar possibilidades de afastamento ou apoio no trabalho e articular recursos
de saúde e assistência social. O cuidado psicológico não resolve sozinho o
desemprego ou a falta de renda, mas pode evitar que problemas sociais sejam
apresentados como falhas pessoais.
Pobreza, violência, deficiência e desigualdade estão
entre as circunstâncias que podem aumentar o risco de sofrimento mental.
Oitavo
erro: trabalhar sozinha e sem supervisão
Patrícia sentia-se culpada e insegura, mas não
procurou supervisão. Tinha medo de que outros profissionais considerassem sua
atuação incompetente.
Como resultado, passou a enviar mensagens frequentes
para Júlia fora do horário de trabalho, perguntando se ela estava bem. Quando a
paciente demorava para responder, Patrícia ficava ansiosa e insistia no
contato.
A relação começou a perder seus limites. Júlia
passou a acreditar que precisava responder rapidamente para tranquilizar a
psicóloga.
Como
evitar esse erro
Patrícia precisava reconhecer que estava
emocionalmente envolvida e buscar supervisão. Esse espaço poderia ajudá-la a:
A supervisão não retira a responsabilidade do
profissional, mas amplia a reflexão e reduz o risco de decisões tomadas de
maneira isolada.
Também seria necessário definir com Júlia como
ocorreria a comunicação entre as sessões e quais serviços deveriam ser
procurados em situações emergenciais.
Uma
condução mais adequada
O atendimento poderia ter seguido outro caminho.
Ao ouvir a fala sobre não querer acordar, Patrícia investigaria diretamente os pensamentos de morte, a intenção, o planejamento, o
acesso a meios, as tentativas anteriores e a possibilidade de Júlia permanecer
em segurança.
Diante da mensagem sobre os comprimidos, agiria
imediatamente, buscando informações sobre a ingestão, acionando atendimento de
urgência e envolvendo uma pessoa segura.
Após a estabilização, colaboraria com a continuidade
do cuidado, conhecendo os recursos da RAPS e verificando se os encaminhamentos
haviam sido efetivados.
Também procuraria compreender o sofrimento de Júlia
de forma ampla. A separação, o isolamento, as dificuldades financeiras e as
experiências de discriminação seriam consideradas em conjunto, sem reduzir tudo
a um diagnóstico.
A psicóloga manteria o sigilo, mas explicaria seus
limites. Compartilharia somente as informações necessárias à proteção e
registraria de forma objetiva as avaliações, decisões e providências.
Por fim, buscaria supervisão, reconhecendo que casos
de maior complexidade não devem ser conduzidos apenas com boa intenção.
Principais
aprendizados do caso
Uma crise psicológica não pode ser avaliada apenas
pelo acontecimento que a desencadeou. É preciso observar a intensidade do
sofrimento, os prejuízos, os riscos e os recursos disponíveis.
Falas relacionadas à morte devem ser investigadas de
maneira direta e acolhedora. Evitar perguntas não protege a pessoa; pode
impedir a identificação do risco.
Frases motivacionais não substituem avaliação,
atendimento de urgência ou plano de segurança.
O sigilo é fundamental, mas possui limites quando
existe risco grave. O compartilhamento deve restringir-se às informações
necessárias.
Encaminhar não significa apenas indicar um serviço.
É preciso conhecer a rede, avaliar barreiras e favorecer a continuidade do
cuidado.
Diversidade e contexto social fazem parte da
clínica. Discriminação, pobreza e isolamento não devem ser tratados apenas como
pensamentos negativos.
A supervisão ajuda o profissional a reconhecer
erros, reações emocionais e limites. Procurar apoio demonstra responsabilidade,
não incapacidade.
Questões
para reflexão
1.
Quais sinais
indicavam que o sofrimento de Júlia precisava de uma avaliação mais ampla?
2.
Que perguntas
Patrícia deveria ter feito após a primeira fala relacionada à morte?
3.
Por que esperar
pela sessão seguinte seria inadequado após a mensagem sobre os comprimidos?
4.
Em que situação
o sigilo poderia ser limitado?
5.
O que diferencia
um encaminhamento responsável de uma simples indicação?
6. Como a discriminação e as
dificuldades econômicas influenciaram o caso?
7. De que maneira a supervisão poderia ter protegido Júlia e Patrícia?
Referências
bibliográficas
BRASIL. Ministério da Saúde. Rede de Atenção
Psicossocial. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde mental.
Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética
Profissional do Psicólogo. Brasília, DF: CFP, 2005.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Relações raciais:
referências técnicas para a prática da psicóloga e do psicólogo. Brasília,
DF: CFP, 2017.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Suicídio e os
desafios para a Psicologia. Brasília, DF: CFP, 2013.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Referências
técnicas para atuação de psicólogas e psicólogos nos Centros de Atenção
Psicossocial. Brasília, DF: CFP, 2022.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Prevenção do
suicídio: identificação, avaliação, manejo e acompanhamento. Genebra: OMS,
2023.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Primeiros cuidados psicológicos: guia para trabalhadores de campo. Genebra: OMS, 2015.
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