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Noções Básicas de Manutenção e Operação de Aerogeradores

   NOÇÕES BÁSICAS DE MANUTENÇÃO E OPERAÇÃO DE AEROGERADORES

MÓDULO 3 — Manutenção básica: preventiva, inspeções e registro técnico

Aula 1 — Manutenção preventiva, preditiva e corretiva (sem confusão)

 

           Quando a gente ouve a palavra manutenção, é comum pensar logo em “consertar quando quebra”. Só que, no mundo dos aerogeradores, essa é apenas uma parte da história — e nem é a parte mais inteligente. Aerogeradores são máquinas projetadas para trabalhar por muitos anos em ambientes exigentes: vento, poeira, maresia (em algumas regiões), variação de temperatura, umidade, vibração, esforço mecânico constante e, por cima disso tudo, a necessidade de operar com segurança e alta disponibilidade. Nesse cenário, manutenção não é só reparo: é estratégia. É o conjunto de escolhas e rotinas que faz a turbina durar mais, parar menos e gerar melhor.

           Para entender essa estratégia, ajuda muito separar manutenção em três “famílias”: preventiva, preditiva e corretiva. Pense nelas como três atitudes diferentes diante do mesmo objetivo: manter o equipamento saudável. A manutenção corretiva é a mais fácil de imaginar: algo falha, a turbina para (ou começa a operar mal), e a equipe entra para corrigir. Ela é inevitável em algum momento, porque nenhuma máquina é perfeita e o tempo desgasta tudo. O problema é que, quando a corretiva vira rotina, o parque começa a viver no modo “apagando incêndio”: corre para atender paradas, perde produção nos melhores ventos e sofre com custos mais altos, porque falha grande quase sempre é mais cara do que cuidado pequeno.

           A manutenção preventiva, por sua vez, é aquela que acontece por tempo ou por uso, mesmo que não haja falha visível. É como fazer revisão do carro: trocar itens em intervalos definidos, inspecionar componentes, reapertar o que precisa, limpar, verificar condições gerais. Em aerogeradores, a preventiva costuma envolver inspeções periódicas, checklists, limpeza de filtros e entradas de ar, checagem de sistemas de segurança, verificação de cabos, reapertos conforme procedimento, análise de desgaste em itens críticos e, muitas vezes, troca programada de consumíveis. O valor da preventiva é simples: ela diminui a chance de surpresa. E, quando não evita totalmente, pelo menos reduz a gravidade do problema.

           Já a manutenção preditiva é um passo além: em vez de agir só pelo calendário, ela age pela condição real do equipamento. É como se o aerogerador “falasse” por dados e sinais, e a

equipe aprendesse a interpretar essa conversa. Aqui entram análises como tendência de temperatura, vibração, qualidade de óleo, partículas metálicas, histórico de alarmes, variações de potência, comportamento de yaw e pitch, entre outras. A preditiva não depende de adivinhação; ela depende de observar padrões ao longo do tempo. E o ganho é enorme: em vez de trocar algo cedo demais (gastando sem necessidade) ou tarde demais (quando já falhou), você troca “no ponto certo”, com planejamento, equipe e peças prontas.

           Uma forma bem didática de diferenciar essas três é imaginar um telhado. A corretiva é consertar depois que a água já entrou e molhou o chão. A preventiva é revisar o telhado antes da temporada de chuva. E a preditiva é perceber que uma telha começou a afrouxar porque apareceu uma pequena infiltração no mesmo canto, e então agir antes que vire goteira. No aerogerador, o “telhado” pode ser o sistema de lubrificação, o pitch, o yaw, os sistemas elétricos, a ventilação, sensores, freios. E a “água entrando” pode ser um alarme recorrente, um aquecimento leve, uma vibração que cresce aos poucos, um consumo maior de um componente ou uma queda de performance em relação às turbinas vizinhas.

           Agora, por que essa conversa importa tanto para iniciantes? Porque, no dia a dia, é comum ver dois erros opostos. O primeiro é o erro do “deixa quebrar”: ignorar sinais e tratar tudo como normal até o dia em que a turbina para de vez. O segundo é o erro da “troca por garantia emocional”: querer trocar qualquer coisa ao menor sinal, sem evidência, gastando tempo e recurso, e às vezes criando problemas novos ao mexer sem necessidade. O equilíbrio entre preventiva e preditiva ajuda justamente a fugir desses extremos. Ela ensina a equipe a agir com critério: nem relaxada demais, nem ansiosa demais.

           Na prática, muita coisa que “come” a disponibilidade de um aerogerador não é um defeito gigantesco e dramático. Muitas vezes são coisas simples e repetitivas: filtros obstruídos, falhas de sensor, problemas de comunicação, vazamentos pequenos, desalinhamentos, cabos mal fixados, conexões elétricas com folga, ventilação insuficiente, sujeira acumulada. Soam como detalhes, mas detalhes acumulados geram calor, esforço extra e comportamento instável. E comportamento instável costuma virar alarme. E alarme repetido costuma virar parada. Por isso, uma manutenção bem feita começa com uma ideia que parece humilde, mas é poderosa: cuidar do básico com

consistência.

           Outro ponto que merece destaque é que manutenção em aerogeradores não é só técnica — é também documentação e rastreabilidade. Em parques eólicos, cada intervenção precisa ser registrada porque o equipamento é caro, a operação é contínua e as decisões precisam ser justificáveis. Um bom registro ajuda a equipe a entender o que já foi feito, o que mudou, o que melhorou e o que continua igual. E ajuda a identificar padrões: “essa turbina está repetindo o mesmo warning há semanas”, “essa outra começou a aquecer mais depois da última inspeção”, “o derating aparece sempre em ventos médios”. Em outras palavras, registro é parte da manutenção. Ele é o que transforma uma ação isolada em conhecimento acumulado.

           E tem mais um aspecto que precisa entrar desde já: manutenção é segurança. Não existe “manutenção rápida” quando o procedimento exige bloqueio, isolamento, EPI e análise de risco. Aerogeradores trabalham com altura, eletricidade e sistemas pressurizados. Então, quando falamos em preventiva e preditiva, não estamos só falando de manter a turbina rodando; estamos falando de manter as pessoas seguras e reduzir situações de emergência. Um parque que faz manutenção com planejamento tende a ter menos intervenções sob pressão e menos decisões tomadas “no calor do momento”.

           Para fechar esta aula, vale guardar uma ideia central: a manutenção mais eficiente é aquela que consegue ser previsível. Ela se antecipa, organiza, programa e aprende com os dados. A corretiva continuará existindo — porque o mundo real é assim —, mas ela não precisa mandar no parque. Quando a equipe aprende a combinar preventiva e preditiva, o trabalho fica mais tranquilo, o equipamento dura mais e a operação ganha estabilidade. E isso é especialmente importante em aerogeradores, porque, nesse tipo de máquina, uma falha não custa só a peça: custa o tempo de parada, a mobilização de equipe, a logística, o risco e, muitas vezes, a produção perdida justamente quando o vento está melhor.

           Na próxima aula, vamos entrar no lado mais “mão na massa” do módulo: inspeções básicas, checklists e como observar sem inventar. Mas, por agora, se você levar uma frase desta aula, leve esta: manutenção não é só consertar; é cuidar para não precisar consertar do jeito mais difícil.

Referências bibliográficas

  • ABEEÓLICA – Associação Brasileira de Energia Eólica. Publicações institucionais sobre operação e manutenção de parques eólicos.
  • ANEEL –
  • Agência Nacional de Energia Elétrica. Atlas de Energia Elétrica do Brasil. Brasília: ANEEL.
  • BORTONI, Edson C. (org.). Geração de Energia Eólica: fundamentos, tecnologias e aplicações. Rio de Janeiro: Interciência.
  • CUSTÓDIO, Ronaldo dos Santos. Energia Eólica para Produção de Energia Elétrica. Rio de Janeiro: Eletrobras / CEPEL.
  • FUNDACENTRO. Publicações técnicas sobre segurança, prevenção e gestão de riscos em manutenção industrial.
  • KARDÉC, Alan; NASCIF, Júlio. Manutenção: função estratégica. Rio de Janeiro: Qualitymark.
  • MANUAIS TÉCNICOS DE FABRICANTES (Vestas, Siemens Gamesa, GE). Planos de manutenção, conceitos de manutenção preventiva/preditiva/corretiva e diretrizes de inspeção em aerogeradores. Materiais de treinamento técnico (edições em português quando disponíveis).


Aula 2 — Inspeções básicas: o que olhar, como olhar, como não inventar

 

           Quando a gente fala em inspeção em aerogeradores, é fácil imaginar alguém “procurando defeito”. Mas uma boa inspeção não é caça ao erro: é uma forma de conversar com a máquina usando os sentidos e o método. É observar com calma, comparar com o que é esperado e registrar com clareza. E, para iniciantes, essa é uma das habilidades mais valiosas, porque não exige desmontar nada nem fazer intervenção complexa — exige atenção, disciplina e respeito ao procedimento. Em um parque eólico, quem inspeciona bem hoje ajuda a evitar a parada grande de amanhã.

           O primeiro ponto importante é entender que inspeção não é “olhar por olhar”. Ela tem objetivo: verificar se a turbina está em condições seguras e saudáveis para operar, identificar sinais de desgaste ou anormalidade e orientar ações futuras (monitorar, programar manutenção, ou agir imediatamente). Por isso, a inspeção precisa ser organizada. Em vez de chegar na turbina e ir reparando em tudo ao mesmo tempo, é melhor seguir um roteiro, como quem faz um check-up: começar pelo básico, passar pelos pontos críticos e terminar garantindo que nada ficou para trás.

           Uma inspeção bem feita começa antes mesmo de chegar ao aerogerador. Existe uma etapa “invisível” que ajuda muito: olhar rapidamente o SCADA, o histórico de alarmes e o comportamento recente da turbina. Se você sabe que houve aviso de temperatura, por exemplo, seu olhar vai naturalmente checar ventilação, filtros e sinais de aquecimento. Se houve desalinhamento de yaw, você vai prestar atenção em ruídos e na

inspeção bem feita começa antes mesmo de chegar ao aerogerador. Existe uma etapa “invisível” que ajuda muito: olhar rapidamente o SCADA, o histórico de alarmes e o comportamento recente da turbina. Se você sabe que houve aviso de temperatura, por exemplo, seu olhar vai naturalmente checar ventilação, filtros e sinais de aquecimento. Se houve desalinhamento de yaw, você vai prestar atenção em ruídos e na coerência do posicionamento. Essa preparação não substitui a inspeção, mas transforma a inspeção em algo mais inteligente: você não vai a campo “às cegas”; você vai com perguntas na cabeça.

           Depois vem a inspeção externa, que é onde muita gente subestima a importância do “simples”. Do lado de fora, dá para perceber muita coisa: condição das pás, presença de trincas, sinais de erosão (especialmente nas bordas), acúmulo de sujeira, marcas de impacto, e até diferença visual de uma pá para outra. As pás são como “a mão” que captura vento; qualquer irregularidade nelas pode virar perda de desempenho e aumento de esforço mecânico. Às vezes o iniciante pensa: “Mas está lá no alto, é difícil ver”. E é verdade — por isso existem técnicas e recursos (binóculo, inspeção com drone, fotos em ângulos específicos) —, mas mesmo com limitações, olhar com atenção já ajuda a notar padrões e mudanças.

           Na base da torre, a inspeção externa também inclui observar portas, fechaduras, sinalização, integridade da estrutura, presença de água acumulada, sinais de corrosão, condição do piso, organização do entorno e, quando aplicável, elementos do sistema elétrico acessível e aterramento visível. Parece detalhe, mas a base da torre é um lugar onde a realidade aparece: se há infiltração, se há sujeira excessiva, se há marcas de aquecimento em painéis, se há cheiro incomum. Em manutenção, cheiro e ruído às vezes contam a história antes do alarme.

           Falando em ruído: durante inspeções, é importante treinar o ouvido. Aerogeradores têm sons normais de operação — ventilação, pequenas vibrações, acionamentos —, mas também podem apresentar sons anormais, como batidas, rangidos, assobios diferentes, ou mudanças de padrão. O iniciante não precisa “diagnosticar pelo som”, mas pode registrar: “ruído metálico intermitente em tal condição”, “vibração percebida ao toque em tal ponto”, “som mais forte ao girar yaw”. O valor disso está na comparação. Se no mês passado o som era um e agora é outro, isso é uma pista. E pistas bem registradas encurtam o caminho da

manutenção.

           Quando a inspeção envolve acesso interno (sempre respeitando autorização, treinamento e procedimentos), o princípio é o mesmo: observar com método e sem improviso. Dentro da torre e da nacele, os pontos de atenção se multiplicam, mas também ficam mais fáceis de observar: limpeza, cabos organizados, sinais de desgaste em proteções, manchas de óleo, pontos de vazamento, condição de filtros, presença de poeira acumulada em entradas de ar, sinais de aquecimento (descoloração, cheiro de queimado, isolamento ressecado), e integridade de fixações. Uma boa inspeção interna não é “mexer para ver se está solto”. É olhar, tocar quando permitido, verificar de acordo com checklist, e, se algo parece errado, não inventar: registrar, fotografar e seguir o fluxo de comunicação.

           Esse “não inventar” merece destaque, porque é um erro muito comum em iniciantes bem-intencionados. A pessoa vê algo estranho e tenta “dar um jeitinho”: aperta um parafuso sem torque definido, reorganiza um cabo sem saber a rota correta, mexe em uma tampa para “dar uma olhada melhor”. Em equipamentos críticos, isso pode gerar mais problemas do que soluções. Inspeção não é intervenção. Se a ação não estiver prevista, se você não tiver habilitação, ou se não houver procedimento, o caminho correto é: identificar, evidenciar, sinalizar e escalar. Às vezes, o melhor trabalho do iniciante é justamente não mexer — e registrar bem para quem vai mexer com segurança e competência.

           É aqui que entram os checklists, que muita gente acha “chato” até perceber o quanto eles salvam tempo e evitam erro. Checklist não é desconfiança do profissional; é proteção contra falha humana. Em campo, o cansaço, o calor, a pressa, o vento e a repetição podem fazer qualquer pessoa esquecer um detalhe. O checklist garante consistência: você sempre passa pelos mesmos pontos críticos, na mesma ordem, e registra o que viu. E, com o tempo, o checklist vira histórico. Você consegue comparar “o que era” com “o que está sendo” e perceber degradação gradual.

           Um checklist básico de inspeção pode incluir itens como: presença de vazamentos, estado de filtros e entradas de ar, condição geral de cabos visíveis, sinais de corrosão, ruídos anormais, vibração percebida, organização do ambiente (housekeeping), integridade de sinalizações, condição de escadas e pontos de apoio, e confirmação de alarmes recorrentes no SCADA. Repare que o checklist mistura “máquina” e “ambiente”, porque

segurança e manutenção caminham juntas. Um ambiente interno desorganizado aumenta risco e também aumenta chance de falhas por objeto solto, aquecimento e desgaste.

           Outro ponto essencial, que deixa a inspeção mais profissional, é aprender a registrar com evidências. Em vez de “parece sujo”, melhor “filtro com acúmulo de poeira visível; foto anexada; recomendada limpeza na próxima preventiva”. Em vez de “tem um vazamento”, melhor “mancha de óleo abaixo do ponto X; gotejamento leve; área aproximada; foto; sem spray; recomendado monitoramento e OS”. Esse tipo de descrição muda a qualidade do trabalho. Porque manutenção é tomada de decisão — e decisões precisam de informação confiável.

           E, por falar em confiabilidade, lembre-se que inspeção também tem limitações. Nem tudo aparece a olho nu, e nem todo problema dá sinal claro no começo. Por isso, a inspeção funciona melhor quando ela é parte de um sistema: ela conversa com o SCADA, com a rotina de operação, com histórico de manutenção e com dados preditivos. Mesmo assim, a inspeção é indispensável, porque ela pega coisas que dado não pega: uma fixação fora do lugar, uma mangueira com desgaste, um acúmulo incomum de poeira, um cabo roçando, um cheiro de aquecimento. Dados são ótimos, mas presença humana atenta ainda é uma ferramenta poderosa.

           Para fechar esta aula, vale guardar duas ideias bem práticas. A primeira: inspeção é rotina, não evento. Ela funciona melhor quando é feita com consistência, porque comparação é o coração do diagnóstico. A segunda: inspeção boa é simples e bem registrada. Você não precisa descobrir a causa raiz de tudo. Você precisa perceber o que mudou, evidenciar o que encontrou e encaminhar de forma correta. É assim que a equipe inteira trabalha melhor, e é assim que a turbina ganha anos de vida útil com menos surpresas.

Referências bibliográficas

  • ABEEÓLICA – Associação Brasileira de Energia Eólica. Publicações institucionais sobre boas práticas de operação e manutenção em parques eólicos.
  • ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica. Atlas de Energia Elétrica do Brasil. Brasília: ANEEL.
  • BORTONI, Edson C. (org.). Geração de Energia Eólica: fundamentos, tecnologias e aplicações. Rio de Janeiro: Interciência.
  • CUSTÓDIO, Ronaldo dos Santos. Energia Eólica para Produção de Energia Elétrica. Rio de Janeiro: Eletrobras / CEPEL.
  • FUNDACENTRO. Publicações técnicas sobre segurança do trabalho, inspeções e
  • prevenção de acidentes.
  • KARDÉC, Alan; NASCIF, Júlio. Manutenção: função estratégica. Rio de Janeiro: Qualitymark.
  • MANUAIS TÉCNICOS DE FABRICANTES (Vestas, Siemens Gamesa, GE). Checklists de inspeção, rotinas de manutenção e critérios de observação em aerogeradores. Materiais de treinamento técnico (edições em português quando disponíveis).


Aula 3 — Registro técnico e qualidade: o que diferencia um bom time

 

           Quando a gente está começando na área de eólica, é normal pensar que o “trabalho de verdade” acontece quando alguém abre a nacele, troca uma peça grande e coloca a turbina para rodar de novo. Só que, na prática, existe uma diferença enorme entre um time que só “faz serviço” e um time que constrói confiabilidade. E o que separa essas duas realidades, muitas vezes, é algo que parece simples: registro técnico bem feito. Registrar não é burocracia para agradar auditoria. Registrar é transformar o que aconteceu hoje em informação útil para amanhã — para o próximo turno, para a manutenção, para a engenharia, para o planejamento e até para a segurança.

           Um aerogerador é uma máquina que trabalha por anos, e o que acontece com ele não cabe na memória de ninguém. Turnos mudam, equipes trocam, fornecedores entram e saem, e o parque continua ali, gerando e acumulando história. Se essa história não estiver bem registrada, cada novo problema parece “inédito” e o time perde tempo repetindo as mesmas perguntas: “Quando isso começou?”, “Já aconteceu antes?”, “O que foi feito da última vez?”, “Resolveu por quanto tempo?”. Por isso, um bom registro é como um mapa: ele encurta caminho, evita retrabalho e ajuda a equipe a agir com mais precisão. Em parques eólicos, tempo é energia, e energia é resultado.

           O primeiro passo para registrar bem é entender que um registro técnico não é um texto longo e bonito. Ele é, acima de tudo, claro e verificável. Quem lê um registro precisa conseguir imaginar a cena com segurança: onde foi, quando foi, em que turbina foi, qual era o contexto e o que exatamente foi observado. Parece básico, mas muitos registros falham logo aí: ficam genéricos, sem dados, sem evidência, e viram frases do tipo “turbina apresentou problema” ou “foi feita correção”. Isso não ajuda ninguém. Em vez disso, pense no registro como uma conversa com alguém que vai continuar o trabalho depois de você — e que não estava presente no momento.

           Um formato simples e muito eficiente para

iniciantes é o padrão: Sintoma → Evidência → Ação → Resultado → Próximo passo. Ele funciona porque organiza a mente e evita dois extremos: o registro “vago demais” e o registro “confuso demais”. O sintoma é o que chamou atenção: “potência abaixo do esperado”, “alarme intermitente de temperatura”, “paradas repetidas”, “ruído anormal”, “vazamento visível”. A evidência é o que sustenta esse sintoma: dados do SCADA (vento, potência, hora, código do alarme), fotos, local exato do vazamento, comparação com turbinas vizinhas, cheiros, ruídos, valores observados. A ação é o que foi feito, sempre descrevendo procedimento e condições: limpeza de filtro, inspeção visual, reaperto conforme procedimento, substituição de componente, reset autorizado, bloqueio LOTO aplicado. O resultado é o que mudou depois: alarme cessou, temperatura caiu, turbina voltou a operar, mas falha retornou após X horas. E o próximo passo é o que você recomenda: monitorar por 24 horas, abrir OS, solicitar inspeção especializada, planejar troca, checar componente específico.

           A beleza desse formato é que ele ajuda a equipe a evitar um erro muito comum: confundir opinião com fato. Em manutenção, “acho que” pode ser um ponto de partida, mas não pode ser o coração do registro. O registro precisa ser o mais factual possível. Se você tem uma hipótese, você pode incluir — mas como hipótese, não como conclusão. Por exemplo: “Hipótese: desalinhamento de yaw por possível falha de sensor; recomendado teste e calibração”. Isso é muito diferente de escrever “sensor de yaw com problema” sem ter evidência. Essa honestidade técnica protege você e protege o time, porque evita decisões baseadas em suposições.

           Outro ponto essencial é aprender a registrar com contexto. Uma turbina pode gerar um alarme de temperatura em um dia muito quente com vento forte e ainda assim estar dentro de um comportamento aceitável. Ou pode gerar o mesmo alarme em condições normais e isso indicar um problema de ventilação, filtro obstruído ou falha de sensor. O registro precisa incluir esse cenário: “vento 9–10 m/s”, “temperatura ambiente elevada”, “turbina em derating”, “ocorreu às 14h”, “comparado com T-07 e T-09 que não apresentaram o mesmo alarme”. Esse tipo de detalhe é o que transforma um relatório em ferramenta de diagnóstico.

           E aqui entra a parte que muita gente esquece: evidência visual. Foto bem feita é metade do caminho. Mas “foto bem feita” não é só tirar uma imagem rápida e desfocada. É

registrar o ponto com referência: mostrar onde fica, qual ângulo, qual componente, e quando possível incluir algo que dê escala (sem violar procedimento de segurança). Além da foto, vale descrever: “vazamento abaixo do atuador X”, “mancha com cerca de 10 cm”, “sem gotejamento ativo”, “presença de poeira aderida indicando recorrência”. Isso não é exagero; isso é linguagem de manutenção. É o que permite que outra equipe compare daqui a um mês e diga: “aumentou”, “diminuiu”, “mudou de lugar”.

           Uma boa escrita técnica também evita “palavras elásticas”, aquelas que cada pessoa interpreta de um jeito: “muito”, “pouco”, “alto”, “baixo”, “estranho”. Em vez disso, sempre que possível, use referência: “temperatura do componente X a 85°C”, “vibração acima do limite do alarme”, “ruído metálico intermitente durante acionamento de yaw”, “potência 20% abaixo da média das turbinas vizinhas sob vento 8–9 m/s”. Nem sempre o iniciante terá acesso a todas as medições, mas pode registrar o que tem. E quando não tiver número, pode registrar condição com cuidado: “ruído perceptível a 2 metros do painel”, “cheiro de aquecimento próximo ao conjunto de ventilação”. A ideia é tornar a observação rastreável.

           Além do conteúdo, o registro tem um papel importante na qualidade do trabalho. Em times maduros, qualidade não é “fazer bonito”; é fazer de forma que o processo seja repetível e auditável. Por isso, registrar também envolve mencionar itens como: procedimento seguido, EPI utilizado, aplicação de LOTO quando necessário, ferramentas específicas, torque conforme especificação, peças trocadas com identificação, e testes após a intervenção. Isso não só protege a integridade do equipamento, como também fortalece a cultura de segurança e profissionalismo.

           Há também um ponto que vale destacar: registro técnico não é só para a manutenção. Ele é para a operação, para o planejamento e para a tomada de decisão do parque. Se uma turbina está tendo muitos resets, isso pode indicar um problema que precisa de ação definitiva. Se outra turbina apresenta queda de performance em vento médio, pode ser tema de inspeção de pás ou yaw. Se uma terceira tem temperatura crescente ao longo de semanas, pode ser alerta para ventilação e lubrificação. Tudo isso aparece quando o registro é consistente. Quando não é, o parque vira refém da memória e do “boca a boca” — e isso, em ambiente industrial, costuma dar errado.

           Para fechar esta aula, pense assim: um bom

registro é um presente para o futuro. Ele economiza tempo, reduz erro, melhora a comunicação entre turnos e ajuda a manutenção a agir com precisão. Ele também protege você, porque mostra que seu trabalho foi feito com critério, evidência e responsabilidade. E, com o tempo, você vai perceber que o registro técnico é parte do que faz a eólica funcionar bem: não só turbinas girando, mas equipes alinhadas, aprendendo com dados e construindo confiabilidade dia após dia.

           Se você guardar uma frase para levar desta aula, que seja esta: o serviço termina quando está registrado com clareza. Porque, no mundo real, aquilo que não foi registrado… é como se não tivesse acontecido.

Referências bibliográficas

  • ABEEÓLICA – Associação Brasileira de Energia Eólica. Publicações institucionais sobre operação, manutenção e boas práticas em parques eólicos.
  • ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica. Atlas de Energia Elétrica do Brasil. Brasília: ANEEL.
  • BORTONI, Edson C. (org.). Geração de Energia Eólica: fundamentos, tecnologias e aplicações. Rio de Janeiro: Interciência.
  • CUSTÓDIO, Ronaldo dos Santos. Energia Eólica para Produção de Energia Elétrica. Rio de Janeiro: Eletrobras / CEPEL.
  • FUNDACENTRO. Publicações técnicas sobre segurança do trabalho, registros e rastreabilidade em ambientes industriais.
  • KARDÉC, Alan; NASCIF, Júlio. Manutenção: função estratégica. Rio de Janeiro: Qualitymark.
  • MANUAIS TÉCNICOS DE FABRICANTES (Vestas, Siemens Gamesa, GE). Padrões de registro, relatórios de manutenção, procedimentos e rastreabilidade de intervenções em aerogeradores. Materiais de treinamento técnico (edições em português quando disponíveis).

 

Estudo de caso do Módulo 3

 

“O vazamento discreto que virou parada grande”

Era início de semana e o parque vinha de dias bons de vento. A programação de manutenção preventiva estava em dia, e a equipe queria aproveitar o ritmo: fazer inspeções, “limpar pendências” e deixar o parque redondo para o próximo período de ventos fortes.

Na lista do dia estava a Turbina T-22, sem falhas graves no SCADA, apenas alguns avisos leves:

  • Warning intermitente de temperatura na nacele (aparecia e sumia)
  • Pequenas oscilações de potência em vento médio
    Nada que derrubasse a produção — pelo menos por enquanto.

A equipe foi formada por Lívia (técnica recém-contratada, muito dedicada) e Marcos (mais experiente, mas com pressa porque

havia outras turbinas para visitar). A missão era simples: inspeção básica + checklist + registro.

Cena 1 — O primeiro erro: checklist “de cabeça”

Na base da torre, Marcos falou:

— “A gente já sabe o que olhar. Vamos agilizar, hoje tem muita coisa.”

Lívia concordou, querendo mostrar serviço. E assim eles começaram a inspeção sem checklist formal.

Esse é um erro muito comum: trocar método por confiança. Checklist não existe porque o profissional não sabe — existe porque qualquer pessoa esquece quando está cansada, com pressa, com vento forte ou pensando em outras tarefas.

Como evitar

  • Usar checklist sempre, mesmo em inspeção “rápida”.
  • Se o checklist for longo, usar uma versão resumida (top 12 itens críticos).
  • Checklist é o “cinto de segurança” do trabalho: você não discute, você coloca.

Cena 2 — O segundo erro: ver vazamento pequeno e normalizar

Já dentro da torre, Lívia percebeu uma mancha de óleo discreta, próxima a uma passagem de cabos. Não pingava, não tinha cheiro forte, parecia “antigo”.

Ela comentou:
— “Tem um óleo aqui, mas acho que é de antes.”

Marcos respondeu:
— “Se não está pingando, deixa para depois.”

Esse é um erro clássico do módulo 3: vazamento pequeno em turbina não é pequeno. Mesmo uma “sujeirinha oleosa” pode ser sinal de vedação cansada, pressão irregular, desgaste, contaminação ou vazamento que vai crescer. E óleo, além de indicar falha, também eleva risco de incêndio e escorregamento.

Como evitar

  • Registrar sempre: local exato, aparência, extensão, presença de gotejamento, foto.
  • Verificar tendência no SCADA: temperatura, pressão, alarmes relacionados.
  • Classificar: “monitorar” ou “abrir OS” conforme procedimento.

Cena 3 — O terceiro erro: “mexer só um pouquinho”

Para “resolver rápido”, Marcos apertou uma fixação próxima ao local da mancha, sem consultar procedimento e sem torque especificado. A intenção era boa: evitar que “afrouxasse mais”.

Só que esse tipo de atitude pode piorar:

  • pode deformar vedação
  • pode deslocar mangueira
  • pode causar vazamento maior
  • pode mascarar o ponto real de origem

Como evitar

  • Inspeção não é intervenção.
  • Só mexer com procedimento, autorização, ferramenta correta e torque definido.
  • Se não for intervenção planejada, fotografar, sinalizar e escalar.

Cena 4 — O quarto erro: registro pobre e sem evidência

Na hora de registrar, Marcos escreveu no relatório:

“Inspeção ok. Pequena sujeira de óleo, sem

relevância.”

Lívia não quis contestar. Mas esse tipo de registro é praticamente o mesmo que não registrar. Ele não diz:

  • onde foi
  • quanto era
  • se havia odor
  • se a área estava limpa ou impregnada
  • se foi fotografado
  • se existia relação com temperatura/pressão no SCADA

Como evitar
Usar o padrão: Sintoma → Evidência → Ação → Resultado → Próximo passo

Exemplo bom:

  • Sintoma: presença de mancha oleosa na torre (T-22)
  • Evidência: mancha ~12 cm, sem gotejamento ativo, poeira aderida; foto anexada; warning intermitente de temperatura em dias quentes
  • Ação: inspeção visual; limpeza superficial para acompanhamento (se permitido)
  • Resultado: sem alteração imediata; turbina segue operando
  • Próximo passo: abrir OS para verificação de vedação/linha; monitorar por 72h e reavaliar

Cena 5 — O que aconteceu depois (e por que ficou pior)

Três dias depois, numa tarde com vento bom, a T-22 entrou em Fault e parou. Alarmes apontaram baixa pressão em um sistema e aumento rápido de temperatura.

A equipe voltou ao local e encontrou:

  • vazamento agora ativo
  • área maior impregnada
  • sinais de aquecimento no entorno
  • necessidade de intervenção mais longa do que seria antes

O reparo que poderia ter sido simples, programado e rápido virou:

  • parada não planejada
  • mobilização urgente
  • risco maior
  • perda de produção em hora de vento bom

Na análise final, descobriu-se que o “óleo discreto” era o início de falha em um componente de vedação/linha, e que o warning intermitente de temperatura era um sinal de sistema trabalhando fora do ideal.

Os erros comuns do Módulo 3 (e como evitar)

1) Inspeção sem checklist

Checklist evita esquecimento, padroniza e cria histórico.

2) Normalizar vazamento pequeno

Vazamento é dado técnico: registrar e acompanhar.

3) Transformar inspeção em intervenção improvisada

Só mexer com procedimento, torque e autorização.

4) Registro vago

Registrar com evidência: onde, quando, quanto, foto, tendência SCADA.

5) Não transformar achado em plano

Achado precisa virar ação: monitorar, OS, prioridade, rechecagem.

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