PLANO
DE GERENCIAMENTO DE RESÍDUOS DO SERVIÇO DE SAÚDE
Módulo
2 — Fazendo acontecer: segregação, acondicionamento, fluxo e segurança
Aula 2.1 — Segregação no ponto de geração
(onde se ganha ou se perde o jogo)
Segregar resíduo no serviço de saúde é uma
daquelas coisas que parecem “detalhe operacional” — até o dia em que dá errado.
E quando dá errado, não costuma dar errado de um jeito discreto: aparece como
acidente com perfurocortante, saco rompido, odor e vazamento no corredor,
abrigo externo virando mini lixão, aumento de custo com infectante e,
principalmente, risco desnecessário para quem não tinha nada a ver com o
procedimento (limpeza, coleta interna, manutenção). A aula 2.1 é sobre evitar
esse filme repetido com uma ideia simples: segregação não é etapa do final;
é decisão do começo.
A RDC nº 222/2018 coloca isso de
forma direta: os resíduos devem ser segregados no momento da geração,
conforme a classificação por grupos e o risco presente. Em linguagem humana: o
lugar certo de separar é onde o resíduo nasce — na sala de curativo, no
consultório, na coleta de sangue, no expurgo, no laboratório. Se você deixa
para separar “depois”, você está apostando que alguém vai adivinhar o que
aconteceu antes. E adivinhação, em RSS, vira risco.
Um jeito didático de entender a segregação
é pensar que ela é um “freio de mão” do risco. O resíduo não nasce
“organizado”. Ele nasce misturado com pressa, com luva suja, com bancada cheia,
com paciente esperando. O que impede esse caos de ir adiante é um sistema
simples: recipientes corretos, no lugar certo, em quantidade adequada, com
regra clara de uso e troca. O Manual de Gerenciamento de Resíduos de
Serviços de Saúde da Anvisa reforça essa lógica operacional: o plano e as
rotinas existem para orientar a prática e reduzir improvisos.
Só que aqui vem a parte incômoda: a maior
parte dos erros de segregação não acontece por “má vontade”. Acontece por design
ruim do ambiente e por regras confusas. Exemplo clássico: caixa de
perfurocortante longe do ponto de procedimento. A pessoa termina a aplicação,
olha para o lado, não vê o coletor, e o cérebro faz o atalho errado (“coloca no
saco infectante e depois eu vejo”). Esse “depois” é exatamente o que a NR-32
tenta bloquear quando estabelece diretrizes de proteção e prevenção de riscos
no trabalho em serviços de saúde. Ou seja: segregação boa não depende de “força
de vontade”; depende de facilitar o certo e dificultar o errado.
Por isso, a regra de ouro desta
aula é: segregação
boa começa com layout. Você não corrige mistura de resíduos só com cartaz.
Você corrige com recipiente certo na distância certa, com identificação
visível e com fluxo pensado. Quer um critério simples? O que precisa
estar “ao alcance da mão” é aquilo que, se for descartado errado, pode machucar
alguém ou contaminar a rota interna. Perfurocortante, por exemplo, não deveria
exigir caminhada. Se exige, o serviço está pedindo para alguém errar.
Agora, falando de erro comum: “usar o
infectante como lixeira universal”. Parece “mais seguro”, mas é o contrário.
Quando você joga resíduo comum no saco do Grupo A pôr hábito ou medo, você faz
duas coisas ruins ao mesmo tempo: (1) aumenta custo e volume de resíduo que
exige manejo diferenciado; (2) aumenta o manuseio de sacos pesados, com mais
chance de ruptura, vazamento e acidente. A própria lógica regulatória de gestão
de RSS insiste em separar pelo risco real, não pelo medo.
Outro erro comum: “o Grupo D vira o grupo
do esquecimento”. O serviço não define exemplos práticos do que é
comum/reciclável e, para evitar discussão, tudo cai no “vermelho”. A Anvisa tem
um documento de Perguntas e Respostas justamente para esclarecer dúvidas
recorrentes e ajudar a padronizar decisões de classificação e manejo. Isso
importa porque segregação não é só separar: é separar com critério repetível,
que todo mundo entende e consegue treinar. Se cada pessoa decide de um jeito,
você não tem processo; tem sorte.
Na rotina, a segregação no ponto de
geração funciona melhor quando você transforma o que parece “complexo” em
perguntas rápidas. A primeira é quase automática: isso fura ou corta? Se
sim, não existe debate: precisa ir para o coletor de perfurocortante (Grupo E),
sem escala no saco. A segunda pergunta é: tem risco específico (biológico,
químico, radioativo)? Se sim, você decide entre os grupos correspondentes;
se não, tende a ser comum (Grupo D). O objetivo não é transformar o
profissional em jurista; é criar um raciocínio padrão para reduzir erro.
E aqui vai uma verdade pouco glamourosa: o momento em que a segregação mais falha é quando o serviço está sob pressão (sala cheia, equipe reduzida, turno trocando, falta de material). Então, se o seu plano “só funciona quando está calmo”, ele não é plano, é fantasia. Um PGRSS bom é aquele que prevê o estresse: tem recipientes reserva, tem regra clara para troca de coletores, tem orientação do que fazer quando faltar saco/caixa, e tem supervisão simples (“quem
confere o quê, e quando”). Guias
institucionais, como o da Fiocruz, reforçam que o PGRSS descreve ações do
gerenciamento e responsabilidades justamente para garantir que o processo
aconteça de verdade — e não só no papel.
Para fechar a aula 2.1 com algo prático, pense na segregação como um “contrato silencioso” entre quem gera e quem vem depois. Quem faz o procedimento tem o dever de descartar certo porque está vendo o resíduo no contexto. Quem coleta depois não tem esse contexto — só tem o saco na mão. Quando você segrega no ponto de geração, você está protegendo a cadeia inteira: a limpeza, a coleta interna, o armazenamento, o transporte e a destinação. E isso é o coração do gerenciamento: controle do risco na origem.
Referências bibliográficas
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (ANVISA). Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 222, de 28 de
março de 2018. Regulamenta as Boas Práticas de Gerenciamento dos Resíduos
de Serviços de Saúde e dá outras providências. Diário Oficial da União,
Brasília, 2018.
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (ANVISA). Manual de Gerenciamento dos Resíduos de Serviços de
Saúde. Brasília: ANVISA, 2020.
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (ANVISA). Perguntas e Respostas — RDC nº 222/2018: Gerenciamento
de Resíduos de Serviços de Saúde. Brasília: ANVISA, s.d.
BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Norma
Regulamentadora nº 32 (NR-32): Segurança e Saúde no Trabalho em Serviços de
Saúde. Texto consolidado (atualização de 2022). Brasília, 2022.
FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (FIOCRUZ). Guia
para Elaboração do Plano de Gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde
(PGRSS). Rio de Janeiro: Fiocruz, 2020.
Aula 2.2 — Acondicionamento e
identificação: recipiente certo, risco certo
Acondicionar e identificar resíduos em um
serviço de saúde é o tipo de assunto que muita gente trata como “capricho” —
até perceber que é exatamente aqui que surgem vazamentos, rasgos de saco,
acidentes, cheiro no corredor, contaminação do abrigo e dor de cabeça com
fiscalização. A aula 2.2 existe para tirar o tema do modo “faz do jeito que
sempre foi” e colocar no modo profissional: recipiente certo + fechamento
certo + identificação clara = risco controlado. A partir daqui o resíduo
deixa de ser uma surpresa ambulante e passa a ser algo previsível, rastreável e
seguro de manusear.
Vamos começar pela ideia mais importante: acondicionamento não é “jogar dentro de qualquer saco”. A RDC nº 222/2018 trata
acondicionamento como parte das boas práticas do manejo e reforça que o resíduo
precisa ser colocado em recipientes que preservem a segurança e evitem perda
de conteúdo durante o manuseio. Em linguagem simples: saco que rasga, vaza
ou fica “babando” não é detalhe — é falha de gerenciamento. Quando isso
acontece, não importa se você separou direitinho lá atrás: o risco volta com
força na hora da coleta interna, no armazenamento e no transporte.
Um erro comum é o serviço comprar saco “o
mais barato possível” e depois gastar muito mais com retrabalho e incidente.
Existe motivo para normas técnicas como a ABNT NBR 9191 serem citadas e
usadas como referência: ela define requisitos e critérios de ensaio para sacos
plásticos de acondicionamento, justamente para reduzir ocorrência de solda
ruim, rasgo e perda de conteúdo durante o manuseio. Não é sobre “marca”, é
sobre padrão mínimo de desempenho. A conta é objetiva: saco ruim aumenta
risco e aumenta custo — porque exige troca frequente, gera sujeira, piora o
abrigo e pode transformar uma coleta interna simples em uma ocorrência.
No acondicionamento, também entram
decisões práticas que parecem bobas, mas fazem diferença enorme. Por exemplo: peso
e volume. Quando o saco fica pesado demais, você está criando uma
combinação perfeita para rasgar na hora de puxar do coletor ou na hora de
colocar no carro de coleta. Outro ponto: fechamento. Saco mal fechado
vira fonte de vazamento e de odores, além de facilitar acesso indevido
(inclusive por vetores). E tem ainda o “clássico” do improviso: colocar resíduo
em saco e deixar sem coletor adequado, encostado em canto de sala, “só por um
tempo”. Esse “por um tempo” costuma virar rotina — e rotina ruim é o que o
PGRSS existe para eliminar.
Agora, quando a gente fala de perfurocortantes, a conversa muda de tom, porque aqui o erro costuma ferir alguém. Perfurocortante (Grupo E) não é para saco, ponto. Ele exige coletor rígido, resistente à punctura, com fechamento seguro, desenhado para reduzir risco de perfuração e impedir que alguém tente “forçar mais um pouco” quando já passou do limite. A lógica por trás disso aparece tanto na RDC nº 222/2018 (ao separar o Grupo E e tratar seu manejo com rigor) quanto na NR-32, que é extremamente focada em prevenção de acidentes ocupacionais. E, como suporte técnico, existem normas como a ABNT NBR 13853, que estabelecem requisitos e métodos de ensaio para recipientes destinados a resíduos perfurantes/cortantes. Em outras palavras: não é
“qualquer caixinha”. É um
recipiente pensado para não te trair no pior momento.
Um dos erros mais repetidos que eu vejo em
serviços iniciantes é o “coletor de perfurocortante invisível”. Ele existe, mas
fica longe, em lugar ruim, ou é pequeno demais para a demanda do setor.
Resultado: a equipe começa a fazer atalhos — e o atalho mais perigoso é colocar
agulha no saco “porque depois eu levo”. Esse “depois” vira acidente com a
pessoa que troca o saco, com quem empurra o carro de coleta, ou com quem faz o
armazenamento. Se você quer reduzir acidente, o caminho é pragmático: coletor
ao alcance da mão no ponto de geração, dimensionado para o volume do setor,
com regra clara de troca antes de encher demais.
A segunda parte da aula 2.2 é a identificação,
e aqui muita gente erra por achar que é só “colar um símbolo”. Identificar bem
é garantir que qualquer pessoa — inclusive alguém que nunca pisou naquele setor
— consiga entender rapidamente que tipo de resíduo é, qual risco
representa e de onde veio. A RDC nº 222/2018 trata identificação
como etapa do manejo porque ela sustenta duas coisas: segurança (ninguém
manipula às cegas) e rastreabilidade (se der problema, você consegue
localizar origem e corrigir o processo). Quando a identificação é malfeita, a
equipe passa a operar no modo “tudo pode ser perigoso”, o que aumenta medo,
improviso e custo.
Na prática, uma identificação eficiente
costuma responder três perguntas sem esforço:
1. Qual
grupo de resíduo é este? (para orientar manuseio e destino)
2. Quem
gerou e quando? (para rastreio, controle e melhoria)
3. Como
devo manipular com segurança? (alerta de risco,
necessidade de cuidado)
Isso parece óbvio, mas veja o que acontece
quando o serviço ignora: saco sem identificação clara vira “saco misterioso”.
Aí a coleta interna fica insegura, o armazenamento vira bagunça, e a gestão
perde a chance de enxergar onde está o erro de segregação. E sem enxergar, você
não corrige — você só reage quando estoura.
Outro erro frequente na identificação é o excesso de confiança no “todo mundo aqui já sabe”. Equipe troca, terceirizado muda, substituto entra, plantão roda. Se o sistema depende de memória coletiva, ele vai falhar. A identificação precisa ser visível, padronizada e consistente. É aqui que documentos de apoio como o Manual de Gerenciamento da Anvisa e o Perguntas e Respostas da RDC nº 222/2018 ajudam bastante: eles aproximam a norma da realidade, esclarecem dúvidas recorrentes e orientam boas
práticas que evitam interpretações “criativas” no
dia a dia.
Para fechar, guarde esta ideia: acondicionamento e identificação são a “embalagem” e o “rótulo” do risco. Se a embalagem é fraca, o risco vaza. Se o rótulo é confuso, o risco se espalha por erro humano previsível. Quando você faz bem essas duas etapas, você protege o fluxo inteiro: coleta interna, armazenamento, coleta externa, transporte e destinação. E aí o PGRSS deixa de ser teoria e vira aquilo que ele deveria ser desde o começo: um sistema simples que impede o serviço de machucar pessoas e de perder dinheiro por falhas básicas.
Referências bibliográficas
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (ANVISA). Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 222, de 28 de
março de 2018. Regulamenta as Boas Práticas de Gerenciamento dos Resíduos
de Serviços de Saúde e dá outras providências. Diário Oficial da União,
Brasília, 2018.
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (ANVISA). Manual de Gerenciamento dos Resíduos de Serviços de
Saúde. Brasília: ANVISA, 2020.
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (ANVISA). Perguntas e Respostas — RDC nº 222/2018: Gerenciamento
de Resíduos de Serviços de Saúde. Brasília: ANVISA, s.d.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS
(ABNT). ABNT NBR 9191: Sacos plásticos para acondicionamento de lixo —
Requisitos e métodos de ensaio. Rio de Janeiro: ABNT, 2008.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS
(ABNT). ABNT NBR 13853: Recipientes para resíduos de serviços de saúde
perfurantes ou cortantes — Requisitos e métodos de ensaio. Rio de Janeiro:
ABNT, 1997.
BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Norma
Regulamentadora nº 32 (NR-32): Segurança e Saúde no Trabalho em Serviços de
Saúde. Texto consolidado. Brasília, 2022.
Aula 2.3 — Transporte interno,
armazenamentos e coleta: fluxo sem improviso
Transporte interno, armazenamentos e
coleta são o ponto em que o gerenciamento de resíduos “aparece” para todo
mundo. É aqui que o saco sai da sala, cruza corredor, passa perto de gente,
entra em elevador, chega no abrigo. Se essa etapa é bem desenhada, ninguém
percebe — funciona silenciosamente. Se é mal desenhada, vira novela: cheiro,
vazamento, saco rasgando, carrinho encostando em maca, resíduo parado no
corredor “só um minutinho”, gente com medo de mexer porque não sabe o que tem
ali dentro. A aula 2.3 é exatamente sobre isso: transformar um percurso que
costuma ser improvisado em um fluxo seguro, previsível e fácil de treinar.
A RDC nº
222/2018 organiza o manejo dos
resíduos como uma sequência de etapas que não dá para pular: depois de
segregar, acondicionar e identificar, vem o transporte interno, o armazenamento
temporário, o armazenamento externo e a coleta (interna e
externa), sempre preservando as condições de acondicionamento e reduzindo
risco. A mensagem por trás dessa estrutura é simples: não adianta acertar a
segregação e errar o caminho. Se o resíduo se espalha dentro do serviço, você
perde controle do risco e cria oportunidades de acidente e contaminação.
Vamos começar pelo transporte interno.
Ele não é “levar o saco na mão até o abrigo”. Transporte interno bom tem três
pilares: rota, equipamento e tempo. Rota significa definir
por onde o resíduo passa e por onde ele não passa. Corredor de grande
circulação, sala de espera, área de alimentação, áreas limpas e de preparo não
deveriam virar “atalho”. Quando o serviço não define rota, a equipe cria
caminho por conveniência — e conveniência costuma ignorar risco. Equipamento
significa usar coletor com rodas ou carro de coleta adequado, estável,
íntegro e fácil de higienizar, em vez de improvisar com caixas, baldes ou sacos
arrastados. E tempo significa ter horários programados para a coleta
interna, evitando a cena clássica de “saco acumulando” no setor porque ninguém
sabe quando será levado.
Um erro comum aqui é achar que o carrinho
resolve tudo. Não resolve. Carrinho sem rotina vira carrinho “estacionado” em
qualquer canto; carrinho sujo vira fonte de contaminação; carrinho usado para
outras coisas (roupa suja, materiais, caixas) vira confusão. Transporte interno
seguro depende de disciplina mínima: carrinho exclusivo, rota definida,
higienização frequente, EPI adequado e regra clara do que fazer quando acontece
um incidente (saco rasgou, vazou, caiu). A NR-32 entra nesse ponto com a lógica
de proteção ao trabalhador: risco ocupacional não se controla com discurso; se
controla com método, equipamento e conduta segura.
Depois do transporte interno, vem o armazenamento temporário. Pense nele como um “pit stop”: é um lugar intermediário, usado para organizar o fluxo até o armazenamento externo e a coleta. O problema é que muitos serviços transformam esse “pit stop” em depósito permanente. Quando isso acontece, aparecem os sinais típicos: recipiente empilhado, saco no chão, área com odor, presença de vetores, porta aberta, acesso de pessoas que não deveriam estar ali. Um armazenamento temporário bem-feito é restrito, sinalizado,
limpo
e usado só para a finalidade prevista. Ele não pode virar extensão do setor,
nem “esconderijo” de saco quando o abrigo externo está cheio ou longe.
O armazenamento externo (o famoso
abrigo) é onde o serviço fica mais exposto a falhas porque ele é, literalmente,
a vitrine do gerenciamento. Se o abrigo externo é apertado, mal ventilado, sem
higiene, com piso ruim, sem controle de acesso e sem organização, você está
pedindo para o problema crescer. E aqui tem uma verdade dura: abrigo externo
bagunçado costuma ser sintoma, não causa. Ele fica bagunçado quando a
segregação é ruim, quando o transporte interno é irregular, quando o
acondicionamento falha (sacos que vazam e rasgam) e quando ninguém tem
responsabilidade definida para manter o padrão. A RDC nº 222/2018 e os manuais
de apoio da Anvisa deixam claro que infraestrutura e rotina caminham juntas:
não existe “plano lindo” com abrigo caótico.
Agora, vamos falar de coleta interna
— a etapa que mais “puxa erro escondido”. É na coleta interna que o descarte
malfeito aparece: saco pesado demais, saco sem identificação, saco com
perfurocortante que não deveria estar ali, saco com líquido, saco com mistura
de comum e infectante. Quem faz a coleta interna está no fim da cadeia dentro
do serviço, e por isso tende a pagar pelos erros de quem gerou. Por isso, a
coleta interna precisa ter POP simples e firme: como recolher, com quais EPIs,
como fechar e acomodar no carrinho, como agir em caso de rasgo, o que é
proibido (recompactar saco, “apertar para caber”, transvasar de um saco para
outro sem controle). Se você não escreve esse POP e não treina, você está
deixando o método na mão do improviso.
Um ponto que quase ninguém leva a sério
até dar problema é o cruzamento de fluxos: resíduo e roupa limpa no
mesmo elevador; resíduo passando por área de preparo; resíduo encostando em
caixas de material esterilizado; resíduo “parado” no corredor enquanto alguém
atende o telefone. Essa mistura de fluxos é o oposto do que as boas práticas
tentam garantir. O objetivo é que o resíduo circule pelo caminho mais seguro e
mais curto possível, sem virar parte da paisagem do serviço. Se o serviço é
pequeno e não tem como separar tudo fisicamente, então o controle precisa ser
por horário, rota, sinalização e procedimento. Não
é perfeito, mas é controlável. Sem isso, vira loteria.
E a coleta e transporte externos? Mesmo quando terceirizados, eles dependem do que o serviço entrega no abrigo. A RDC nº 222/2018 define que a coleta
quando terceirizados, eles dependem do que o serviço entrega no abrigo. A
RDC nº 222/2018 define que a coleta e transporte externos devem preservar as
condições de acondicionamento e seguir técnicas seguras. Isso só funciona se o
abrigo estiver organizado, com resíduos identificados, recipientes íntegros,
área limpa e acesso adequado. Aqui entra também a perspectiva ambiental do
CONAMA: quando o serviço mistura e desorganiza, ele aumenta volume de resíduo
que requer manejo diferenciado, e isso impacta o tratamento e a disposição
final. Na prática, o serviço “paga duas vezes”: paga financeiramente e paga em
risco.
Para tornar tudo isso aplicável, vou te
dar um modelo mental simples: rotina de fluxo em três perguntas.
1. “Por
onde o resíduo pode passar sem expor pessoas e áreas limpas?” (rota).
2. “Com
que equipamento eu consigo transportar sem rasgar, vazar ou encostar em
superfícies críticas?” (carro/coletor, recipientes).
3. “Com
que frequência eu tiro do setor para não acumular e não correr?” (tempo).
Se você responde essas três perguntas e escreve um POP de 1 página, você já
está acima da média da maioria dos serviços que “têm PGRSS no papel”.
Para fechar a aula 2.3 com honestidade: a
maior armadilha é imaginar que transporte e armazenamentos são “problema da
limpeza”. Não são. Eles são parte do sistema de segurança e qualidade do
serviço. Quando você vê saco no corredor, abrigo externo sujo, carrinho
enferrujado e rota improvisada, isso não é detalhe — é indicador de que o
gerenciamento não está sob controle.
O que evita isso não é bronca nem cartaz: é fluxo desenhado, equipamento adequado, responsabilidade definida e treinamento curto e repetido. E quando isso entra na rotina, o resíduo deixa de ser ameaça itinerante e vira um processo previsível — do jeito que deveria ser desde o início.
Referências bibliográficas
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (ANVISA). Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 222, de 28 de
março de 2018. Regulamenta as Boas Práticas de Gerenciamento dos Resíduos
de Serviços de Saúde e dá outras providências. Diário Oficial da União,
Brasília, 2018.
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (ANVISA). Manual de Gerenciamento dos Resíduos de Serviços de
Saúde. Brasília: ANVISA, 2020.
BRASIL. Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA). Resolução CONAMA nº 358, de 29 de abril de 2005. Dispõe sobre o tratamento e a disposição final dos resíduos dos serviços de saúde e dá outras
providências. Diário Oficial da União, Brasília, 2005.
BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Norma
Regulamentadora nº 32 (NR-32): Segurança e Saúde no Trabalho em Serviços de
Saúde. Brasília: Ministério do Trabalho e Emprego, versão vigente em
publicação oficial do Governo Federal.
Estudo de caso do Módulo
2
“O corredor do plantão” — quando um bom
atendimento vira um péssimo gerenciamento de resíduos
A UPA Jardim das Palmeiras tem um plantão
que parece guerra em dia de chuva: sala cheia, equipe enxuta, tudo no limite.
No papel, “existe PGRSS”. Na prática, o gerenciamento funciona no modo sobrevivência:
cada setor faz do jeito que dá.
Numa sexta-feira à noite, entram três
atendimentos críticos quase em sequência: um corte profundo que exige sutura,
um paciente com vômito e diarreia intensa e uma suspeita de dengue com
sangramento gengival. O atendimento clínico é bom. O problema começa depois
— no que sobra sobre bancadas, no chão, dentro das lixeiras.
Cena 1 — Segregação: o erro
“bem-intencionado” que destrói o sistema
Na sala de sutura, a caixa de
perfurocortantes está quase cheia, mas fica do outro lado da sala. A
técnica de enfermagem pensa: “só hoje”, e joga duas agulhas no saco do
infectante. Ao mesmo tempo, o enfermeiro descarta embalagens limpas, papel e
copo no mesmo saco vermelho porque é a lixeira mais perto. Em 20 minutos, o
saco que deveria conter apenas o que faz sentido pelo risco vira um
“saco do tudo”. Isso é o oposto do que a RDC 222 descreve como boas práticas: o
gerenciamento começa na segregação no momento e local de geração e
depende da classificação correta e de rotinas executáveis.
Erro comum #1 (segregação):
usar o infectante como lixeira universal.
Como evitar (na prática, sem poesia):
Cena 2 — Acondicionamento e identificação:
quando o saco vira armadilha
A equipe está tão sobrecarregada que começa a encher demais os sacos. Um deles fica pesado, úmido, mal fechado. Ninguém identifica o conteúdo direito porque “todo mundo sabe”. Só que “todo mundo” muda: entra
substituto, entra terceirizado, entra plantonista de
apoio.
Na coleta interna, a auxiliar puxa o saco
do suporte, ele rasga no canto e escorre líquido no piso. A cena é clássica:
improviso + pressa + saco pesado = vazamento. A RDC 222 trata acondicionamento
e identificação como etapas formais do manejo justamente para evitar perda de
conteúdo, exposição e manuseio às cegas.
Erro comum #2 (acondicionamento):
saco frágil/cheio demais/fechado de qualquer jeito.
Erro comum #3 (identificação): “não precisa identificar porque é óbvio”.
Como evitar:
Cena 3 — Transporte interno e
armazenamento: o “atalho” que vira risco público
Com vazamento no chão, o coordenador manda
“levar logo pro abrigo”. A coleta interna pega um carrinho emprestado (que
também leva material de limpeza) e corta caminho pelo corredor principal porque
é o mais curto. No meio do trajeto, cruza com paciente em maca e com
acompanhante. Ninguém quer isso, mas acontece — porque não existe rota
definida, nem horário de coleta, nem carrinho exclusivo.
Chegando ao armazenamento temporário,
descobre-se outro problema: o local está cheio, sem organização por grupo, e
alguém deixou sacos no chão “só por um tempo”. Esse “só por um tempo” vira
rotina e, quando vira rotina, começa a aparecer odor, sujeira e risco de acesso
indevido. A RDC 222 descreve transporte, armazenamento e coleta como partes
integradas do manejo; não é um “detalhe da limpeza”, é etapa crítica do
controle de risco.
Erro comum #4 (transporte interno):
levar saco na mão/usar carrinho inadequado/sem rota e horário.
Erro comum #5 (armazenamento): “pit stop” que vira depósito, sacos no
chão, mistura de grupos.
Como evitar:
Cena 4 — Coleta externa e destinação:
quando o erro interno vira custo e problema ambiental
No dia
seguinte, a empresa terceirizada
reclama: vários sacos vieram rasgados e com mistura evidente. Resultado: parte
do que poderia ser comum foi tratado como infectante (mais caro), e a unidade
perde credibilidade com o prestador e com o controle sanitário/ambiental.
A Resolução CONAMA 358 é clara no
raciocínio: segregar no momento e local de geração reduz o volume que
precisa de manejo diferenciado — ou seja, o erro no começo explode no fim.
E a PNRS lembra o que muita gestão finge esquecer: existem responsabilidades do
gerador e diretrizes para o gerenciamento, inclusive de resíduos perigosos.
Terceirizar não apaga obrigação.
Erro comum #6 (gestão):
achar que “terceirizou, resolveu”.
Como evitar:
Diagnóstico final do caso: o que realmente
causou a crise?
Não foi “uma pessoa distraída”. Foi um
sistema montado para dar errado:
Plano de correção “pé no chão” (em 7 dias)
1. Reposicionar
e dimensionar coletores de perfurocortantes + regra de troca
antes do limite.
2. Padrão
mínimo de recipientes por ambiente (ponto de geração
manda).
3. Regra
de enchimento/fechamento de sacos e conferência na coleta
interna.
4. Identificação
mínima obrigatória (grupo + setor + data/turno).
5. Rota
e horários fixos de transporte interno, com carrinho exclusivo
e higienização.
6. Armazenamento
temporário com tempo máximo e proibição de sacos no chão.
7. Treinamento relâmpago de 20 minutos por equipe/turno, usando dúvidas comuns do P&R da Anvisa e exemplos do próprio serviço.
Referências bibliográficas
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (ANVISA). Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 222, de 28 de
março de 2018. Regulamenta as Boas Práticas de Gerenciamento dos Resíduos
de Serviços de Saúde e dá outras providências. Diário Oficial da União,
Brasília, 2018.
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (ANVISA). Perguntas e Respostas — RDC nº 222/2018: Gerenciamento
de Resíduos de Serviços de Saúde. Brasília: ANVISA, s.d.
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (ANVISA). Manual de Gerenciamento dos Resíduos de Serviços de
Saúde. Brasília: ANVISA, 2020.
BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Norma
Regulamentadora nº 32 (NR-32): Segurança e Saúde no Trabalho em Serviços de
Saúde. Brasília: MTE, texto consolidado vigente.
BRASIL. Conselho Nacional do Meio Ambiente
(CONAMA). Resolução CONAMA nº 358, de 29 de abril de 2005. Dispõe sobre
o tratamento e a disposição final dos resíduos dos serviços de saúde e dá
outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 2005.
BRASIL. Presidência da República. Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010. Institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Diário Oficial da União, Brasília, 2010.
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