FORRAGEM
E NUTRIÇÃO ANIMAL
MÓDULO 2 — Produção, Manejo e Conservação de Forragens
Aula 4 — Escolha da forrageira e formação
da pastagem
Escolher uma forrageira não é simplesmente
decidir “qual capim plantar”. Essa decisão influencia a produção de alimento, o
custo da propriedade, o manejo dos animais e a vida útil da pastagem. Uma boa
escolha começa com uma pergunta simples: qual planta combina melhor com o
clima, o solo, o tipo de animal e o sistema de produção que será usado?
Muitas pastagens fracassam não porque o
capim seja ruim, mas porque foi escolhido para o lugar errado ou manejado de
forma inadequada. Uma forrageira exigente, plantada em solo pobre e sem
correção, dificilmente produzirá bem. Da mesma forma, um capim de porte alto,
colocado em uma propriedade sem divisão de pastos e sem controle de entrada e
saída dos animais, pode virar um problema em vez de solução.
A formação da pastagem deve ser vista como investimento. Ela envolve planejamento, análise do solo, correção da fertilidade, preparo adequado da área, uso de sementes ou mudas de qualidade, semeadura bem-feita e primeiro pastejo no momento certo. A Embrapa destaca que, na formação ou reforma de pastagens, é preciso dar atenção especial à escolha da forrageira, ao preparo do solo, à semeadura e ao pastejo de formação.
A escolha da forrageira começa pelo
ambiente
O clima é um dos primeiros fatores a
considerar. Temperatura, volume de chuvas, duração da seca e risco de geadas
interferem diretamente no crescimento das plantas. Em regiões mais quentes e
úmidas, gramíneas como braquiárias, panicuns e capim-elefante costumam
apresentar bom rendimento. Já em áreas com menor volume de chuva, é preciso
escolher espécies mais adaptadas à seca, como capim-buffel, urocloa e, em
algumas regiões, capim-andropógon.
Isso mostra que não existe uma forrageira
perfeita para todos os lugares. O que existe é a espécie mais adequada para
determinada realidade. Um produtor que trabalha em região seca precisa pensar
em resistência e persistência. Um produtor que trabalha em região de boa
fertilidade e chuva regular pode buscar maior produção por área. Já em locais
sujeitos a encharcamento, a escolha precisa considerar plantas mais tolerantes
à umidade do solo.
O solo também pesa muito nessa decisão. Solos arenosos, argilosos, rasos, compactados, ácidos, encharcados ou pobres em nutrientes exigem cuidados diferentes. A Embrapa reforça que o solo é um dos fatores determinantes na escolha do
capim, especialmente quando há problemas de
drenagem, encharcamento ou alagamento temporário.
Por isso, antes de comprar sementes, o produtor precisa conhecer a área. Observar apenas o preço da semente ou a fama do capim pode levar a erro. Uma planta muito produtiva pode também ser mais exigente em fertilidade, manejo e adubação. Se a propriedade não consegue oferecer essas condições, a pastagem perde vigor e o sistema fica caro.
A forrageira deve combinar com o objetivo
da propriedade
Outro ponto importante é definir para que
a forragem será usada. A planta será consumida em pastejo direto? Será cortada
para silagem? Será usada para fenação? A área será vedada para uso na seca? O
sistema será voltado para leite, corte, ovinos ou caprinos?
Cada finalidade pede características
diferentes. Para pastejo, interessa uma planta que rebrote bem, suporte o
pisoteio e mantenha boa relação entre folhas e colmos. Para silagem, é
importante considerar produção de massa, teor de matéria seca e facilidade de
fermentação. Para feno, a planta precisa permitir corte, secagem e
armazenamento com boa qualidade.
Também é preciso observar a categoria
animal. Animais em crescimento, vacas em lactação ou animais em terminação têm
exigências maiores. Nesses casos, a propriedade pode precisar de forragens de
melhor qualidade, manejo mais cuidadoso e maior oferta de folhas. Já animais em
manutenção podem trabalhar com sistemas menos intensivos, desde que a
alimentação seja suficiente e equilibrada.
A Embrapa lembra que a destinação da
forrageira deve ser observada, considerando se ela será usada para pastejo,
silagem, fenação, vedação ou combinação desses usos, além do objetivo
produtivo, como carne ou leite.
Diversificar pode ser mais seguro
Um erro comum é plantar toda a propriedade
com uma única espécie de capim. Isso parece simples no começo, mas aumenta o
risco. Se aquela cultivar for sensível a uma praga, doença, seca prolongada ou
erro de manejo, toda a área pode sofrer ao mesmo tempo.
A diversificação de forrageiras ajuda a reduzir riscos e melhora o planejamento. Uma área pode ter capim mais rústico para períodos difíceis, outra pode ter forrageira mais produtiva para animais de maior exigência, e outra pode ser destinada à conservação de alimento. Essa estratégia também evita que todas as pastagens floresçam ou percam qualidade ao mesmo tempo. A Embrapa considera saudável diversificar cultivares, inclusive para melhorar o manejo e a eficiência do sistema
produtivo.
Diversificar, porém, não significa plantar
qualquer coisa. Cada espécie deve ter uma função clara dentro da propriedade. O
produtor precisa saber onde ela será plantada, que animais irá alimentar, como
será manejada e que investimento exigirá.
A análise de solo é o ponto de partida
Depois de escolher a forrageira, começa a
etapa de formação da pastagem. O primeiro passo técnico é conhecer o solo. A
análise mostra a fertilidade, a acidez, os nutrientes disponíveis e, em alguns
casos, ajuda a identificar limitações físicas da área.
A Embrapa recomenda que, antes do plantio,
sejam definidas as espécies ou cultivares e a quantidade de alimento que se
deseja produzir; em seguida, deve-se analisar o solo para orientar preparo,
correção da acidez e fornecimento de nutrientes.
Esse cuidado evita dois problemas: gastar
adubo sem necessidade ou deixar de corrigir uma limitação importante. Em muitos
solos brasileiros, a acidez e a baixa disponibilidade de fósforo dificultam o
estabelecimento das pastagens. A correção bem-feita ajuda as raízes a se
desenvolverem, melhora o aproveitamento de nutrientes e aumenta a chance de a
planta suportar períodos de estresse.
A calagem, a gessagem e a fosfatagem são
práticas que podem ser indicadas conforme a análise e a recomendação técnica. A
calagem corrige a acidez e melhora as condições químicas do solo. A gessagem
pode favorecer o aprofundamento de raízes em algumas situações. A fosfatagem
ajuda quando o fósforo está em níveis baixos, algo comum em muitos solos
destinados a pastagens.
Preparo da área e conservação do solo
A formação da pastagem não deve destruir o
solo. Antes de plantar, é preciso avaliar se há compactação, erosão, invasoras,
restos de cultura, declividade ou necessidade de práticas conservacionistas. Em
áreas inclinadas, o cuidado com curvas de nível, terraços e controle da
enxurrada pode evitar perdas da camada fértil do solo.
O preparo do solo deve buscar boas
condições para a germinação e o desenvolvimento inicial da planta. Torrões
grandes, solo muito solto, compactação, excesso de palhada mal manejada e
plantio em época inadequada podem prejudicar o estabelecimento. A Embrapa
destaca que práticas de conservação são fundamentais para evitar perdas da
camada fértil do solo por erosão.
Também é importante controlar plantas invasoras antes do plantio. Se a pastagem nasce disputando luz, água e nutrientes com invasoras agressivas, sua formação fica comprometida. O ideal é iniciar o
controle antes da semeadura, e não apenas depois que o problema já se
instalou.
Sementes, semeadura e profundidade de
plantio
A semente é um dos pontos mais sensíveis
da formação da pastagem. Semente de baixa qualidade pode ter pouca germinação,
contaminação com invasoras e mistura de cultivares. O barato pode sair caro,
porque uma pastagem malformada exigirá replantio, controle de falhas e maior
gasto de recuperação.
A Embrapa orienta o uso de sementes
certificadas e de empresas idôneas, pois sementes de alta qualidade favorecem
bom estande inicial e reduzem riscos de contaminação da área com invasoras,
nematoides e doenças.
A semeadura também precisa ser bem
executada. Não adianta corrigir o solo, comprar boa semente e errar na
regulagem da semeadora ou na profundidade de plantio. Para gramíneas
forrageiras, a Embrapa indica, de modo geral, profundidade de 3 a 6 cm; para leguminosas,
de 2 a 4 cm. Quando a semeadura é a lanço, é essencial garantir bom contato da
semente com o solo, usando práticas como grade niveladora fechada ou rolo
compactador, conforme a situação.
Sementes muito profundas podem não
emergir. Sementes muito superficiais podem secar, ser levadas pela chuva ou
comidas por aves e insetos. Por isso, a regulagem do equipamento e a umidade do
solo precisam ser observadas com cuidado.
Adubação de formação e arranque inicial
A adubação de formação tem papel
importante no início da pastagem. Nessa fase, a planta precisa se estabelecer
rapidamente, emitir raízes, cobrir o solo e formar boa população de perfilhos.
A Embrapa descreve que a adubação de formação geralmente usa fórmulas com maior
concentração de fósforo e menores teores de nitrogênio e potássio, sendo
importante para o arranque inicial da cultura, com recomendação baseada na
análise de solo e no nível de produção esperado.
Depois do estabelecimento, a adubação de
cobertura e a adubação de manutenção devem acompanhar o objetivo produtivo. Uma
pastagem usada com alta lotação exige mais reposição de nutrientes do que uma
área de uso extensivo. O SENAR também destaca que a adubação afeta diretamente
a produção de forragem e a vida útil da pastagem, especialmente quando se
pretende aumentar produção ou taxa de lotação.
O produtor iniciante deve entender que adubar sem manejo não resolve tudo. Se os animais pastejam abaixo da altura adequada, se não há descanso, se a lotação é excessiva ou se falta água, parte do investimento se perde. A adubação funciona melhor quando faz
parte
do investimento se perde. A adubação funciona melhor quando faz parte de um
sistema organizado.
O primeiro pastejo não deve ser
improvisado
Depois que a pastagem nasce, muitos
produtores ficam em dúvida: quando colocar os animais? Entrar cedo demais pode
prejudicar plantas ainda fracas. Entrar tarde demais também pode ser ruim,
porque a pastagem cresce de forma irregular, perde qualidade e forma touceiras
menos vigorosas.
A Embrapa orienta que o primeiro pastejo,
também chamado de pastejo de formação ou uniformização, ocorra quando a planta
atingir cerca de 80% da altura normal de manejo, geralmente por volta de 40 a
60 dias após a emergência das plântulas. Esse manejo ajuda a uniformizar a
pastagem, melhora a cobertura do solo e estimula o perfilhamento.
Esse primeiro pastejo deve ser leve e
rápido. O objetivo não é “aproveitar tudo”, mas ajudar a formar bem a área.
Animais demais, por muito tempo, podem arrancar plantas novas e causar falhas.
O manejo inicial precisa ser cuidadoso, porque ele influencia a estrutura da
pastagem pelos próximos anos.
Manejo após a formação
Uma pastagem bem formada ainda pode se
degradar se for mal manejada. Depois do estabelecimento, é preciso respeitar
altura de entrada e saída, período de descanso, taxa de lotação, adubação de
manutenção e distribuição adequada de água e cochos.
O SENAR explica que as práticas de manejo
de pastagens afetam tanto a produção de forragem quanto a utilização dessa
forragem pelos animais. Altura de entrada e saída, período de descanso,
adubação e irrigação se relacionam ao manejo da planta; já método de pastejo,
tamanho e número de piquetes se relacionam ao uso da forragem pelos animais.
Isso significa que formar uma pastagem é
apenas o começo. A produtividade depende da continuidade do cuidado. O pasto
precisa ser observado como uma lavoura viva: cresce, envelhece, sofre com seca,
responde à chuva, sente excesso de animais e precisa de descanso.
Erros comuns na escolha e formação da
pastagem
Um erro frequente é escolher o capim pela
moda. O produtor ouve que determinada cultivar “produz muito” e decide
plantá-la sem avaliar solo, clima, mão de obra e manejo. O resultado pode ser
uma pastagem exigente demais para a realidade da propriedade.
Outro erro é plantar sem análise de solo. Nesse caso, a correção e a adubação são feitas no “olhômetro”, o que aumenta custos e reduz a eficiência. Também é comum usar sementes de origem duvidosa, errar a profundidade de plantio, semear
fora da época adequada ou colocar os
animais antes da hora.
Há ainda o erro de não planejar a água e a
divisão dos pastos. Pastagem bem formada, mas sem bebedouro bem localizado,
pode ser mal utilizada. Os animais concentram o pastejo perto da água, deixam
outras áreas passarem do ponto e causam desgaste desigual.
Conclusão
A escolha da forrageira e a formação da
pastagem são decisões básicas, mas muito importantes para a nutrição animal.
Uma boa pastagem não nasce por acaso. Ela depende de planejamento, conhecimento
do solo, escolha correta da espécie, semente de qualidade, semeadura bem feita,
adubação adequada e primeiro pastejo no momento certo.
Para o iniciante, a principal lição é
esta: não existe capim milagroso. Existe capim bem escolhido para uma realidade
específica e bem manejado ao longo do tempo. Quando a forrageira combina com o
ambiente e com o sistema de produção, a pastagem se torna mais produtiva, mais
duradoura e mais eficiente na alimentação do rebanho.
Cuidar da formação da pastagem é cuidar da
base da nutrição animal. Quanto melhor essa base, menor a dependência de
correções caras no cocho e maior a segurança alimentar da propriedade.
Referências bibliográficas
EMBRAPA. Principais cuidados na formação
de pastagens. Campo Grande: Embrapa Gado de Corte.
EMBRAPA. Manejo de solo e recomendação de
correção e adubação na pecuária leiteira. Brasília: Embrapa.
EMBRAPA. Régua de manejo de pastagens.
Campo Grande: Embrapa Gado de Corte.
SENAR. Pastagens. Brasília: Serviço
Nacional de Aprendizagem Rural.
SENAR. Forragens: produção e manejo.
Curitiba: Sistema FAEP/SENAR.
Aula 5 — Manejo do pastejo: altura,
descanso e taxa de lotação
O manejo do pastejo é uma das decisões
mais importantes em sistemas que usam pastagens como base da alimentação
animal. Não basta ter uma boa forrageira plantada. Para que o pasto produza bem
e continue produtivo ao longo do tempo, é preciso saber quando colocar os
animais na área, quando retirar, quanto tempo deixar a planta descansar e
quantos animais aquela pastagem consegue sustentar.
Na prática, muitos problemas de nutrição
começam no manejo errado do pasto. Quando os animais entram cedo demais, a
planta ainda não recuperou suas folhas e reservas. Quando entram tarde demais,
o capim pode estar passado, com muitos talos e menor valor nutritivo. Quando
saem tarde demais, o pasto é rebaixado em excesso, a rebrota enfraquece e a
área pode caminhar para a degradação.
Por isso, manejar pastejo é
equilibrar
três interesses: a necessidade do animal, a capacidade de recuperação da planta
e a produção de alimento da propriedade. O SENAR destaca que o período de
descanso é necessário para que a planta forrageira se recupere dos efeitos do
pastejo, tanto em sistemas contínuos quanto rotacionados.
O pasto precisa ser colhido no ponto certo
O animal é o “colhedor” da pastagem.
Quando o manejo é bem-feito, ele consome folhas de boa qualidade e deixa
resíduo suficiente para a planta rebrotar. Quando o manejo é ruim, o animal
pode raspar demais o capim ou selecionar apenas as partes melhores, deixando
sobra envelhecida e pouco aproveitada.
O ponto ideal de pastejo varia conforme a
espécie forrageira. Capins de porte baixo, médio e alto não devem ser manejados
da mesma forma. Algumas plantas suportam rebaixamento maior; outras precisam de
resíduo mais alto para rebrotar bem. Por isso, usar uma única altura para todos
os capins é um erro comum.
A Embrapa desenvolveu a régua de manejo de
pastagens justamente para auxiliar produtores e técnicos a identificar alturas
adequadas de uso. O princípio é simples: quando o pasto atinge a altura máxima
recomendada para a forrageira, é momento de aumentar o número de animais ou
iniciar o pastejo; quando chega à altura mínima, é hora de reduzir a lotação ou
retirar os animais para descanso.
Esse controle evita dois extremos. O
primeiro é o superpastejo, quando os animais consomem demais e deixam o pasto
muito baixo. O segundo é o sub pastejo, quando sobra muito capim velho, com
talos e material seco, reduzindo a qualidade da forragem consumida.
Altura de entrada e altura de saída
A altura de entrada é o momento em que o
pasto está pronto para receber os animais. Nessa fase, a planta já formou área
foliar suficiente para oferecer alimento e, ao mesmo tempo, ainda mantém boa
qualidade. Entrar antes desse ponto prejudica a recuperação da planta e reduz a
produção futura.
A altura de saída é o momento em que os
animais devem ser retirados. Ela representa o resíduo que precisa permanecer
para que a planta rebrote com força. Sair tarde demais parece vantajoso no
curto prazo, porque o animal consome mais naquele momento, mas pode comprometer
a próxima rebrota.
A Embrapa apresenta recomendações específicas de altura para diferentes forrageiras. Para capins do grupo dos panicuns, por exemplo, as alturas de entrada e saída variam conforme a cultivar; o capim-mombaça, em pastejo rotacionado, aparece com referência de
entrada e saída variam conforme a
cultivar; o capim-mombaça, em pastejo rotacionado, aparece com referência de
entrada próxima de 85 cm e saída em torno de 45 cm. Esses números mostram que
cada planta tem seu próprio manejo.
O produtor iniciante não precisa decorar
todas as alturas no primeiro momento, mas precisa entender a lógica: o pasto
não deve ser consumido nem cedo demais, nem tarde demais. O manejo correto
busca oferecer folhas de qualidade ao animal e preservar a capacidade de
rebrota da planta.
Período de descanso
Depois que os animais saem do piquete, a
planta precisa de tempo para se recuperar. Esse intervalo é chamado de período
de descanso. Durante esse tempo, o capim recompõe folhas, refaz reservas e se
prepara para novo pastejo.
No pastejo rotacionado, o descanso é mais
fácil de visualizar, porque os animais saem de um piquete e entram em outro.
Enquanto um piquete é pastejado, os demais descansam. O SENAR explica que,
nesse sistema, o período de descanso é definido pelo momento de entrada e saída
dos animais e ajuda a conciliar produção com qualidade da forragem consumida.
O erro comum é trabalhar com descanso fixo
sem observar a planta. Por exemplo, decidir que todo piquete descansará sempre
30 dias pode funcionar em alguns momentos, mas não em todos. No período das
chuvas, o capim cresce mais rápido. Na seca ou no frio, cresce mais devagar.
Assim, o tempo de descanso deve considerar clima, fertilidade, espécie
forrageira e altura real do pasto.
No pastejo contínuo, também existe
descanso, mas ele ocorre de forma menos evidente. As plantas conseguem se
recuperar quando a taxa de lotação é ajustada, permitindo que nem toda a área
seja consumida ao mesmo tempo. Se há animais demais, o capim é pastejado
repetidamente antes de rebrotar, o que enfraquece a pastagem.
Taxa de lotação
A taxa de lotação indica a relação entre o
número de animais e a área ocupada. Em termos simples, é a quantidade de
animais colocada em determinada área de pasto. Quando a lotação está acima da
capacidade da pastagem, o resultado é superpastejo, perda de vigor das plantas,
solo descoberto, erosão e queda na produção de forragem.
Quando a lotação está muito baixa, o
problema é outro. O pasto pode passar do ponto, acumular talos, perder
qualidade e ser mal aproveitado. Por isso, lotação baixa demais também pode
gerar desperdício, principalmente em períodos de crescimento intenso.
A Embrapa alerta que uma parcela importante dos problemas de pastagens está
relacionada ao uso de taxas de
lotação excessivas, pois a pressão animal acima da capacidade da área contribui
para o enfraquecimento da pastagem. O ajuste de lotação, portanto, é uma
ferramenta central para manter o equilíbrio entre produção de forragem e
consumo animal.
A taxa de lotação não deve ser pensada como número fixo para o ano inteiro. Uma mesma área pode suportar mais animais nas águas e menos na seca. O produtor precisa acompanhar o crescimento do pasto e ajustar o rebanho ou a área disponível conforme a oferta de alimento.
Pastejo contínuo e pastejo rotacionado
No pastejo contínuo, os animais permanecem
por longo período na mesma área. Esse método é simples e exige menos estrutura,
mas precisa de controle. Se o número de animais for alto, os pontos preferidos
serão rebaixados demais. Se a lotação for baixa, haverá sobra e envelhecimento
da forragem.
No pastejo rotacionado, a área é dividida
em piquetes. Os animais pastejam uma parte enquanto as outras descansam. A
Embrapa define o pastejo rotacionado como um sistema no qual a pastagem é
subdividida em três ou mais piquetes, pastejados em sequência por um ou mais
lotes de animais.
O rotacionado não é automaticamente melhor
em qualquer situação. Ele exige planejamento, cercas, água bem distribuída,
controle de entrada e saída e acompanhamento constante. Quando bem-feito, ajuda
a melhorar o aproveitamento da forragem. Quando malconduzido, pode apenas
dividir o problema em vários piquetes.
O mais importante é entender que o método
de pastejo deve combinar com a realidade da propriedade. Uma pequena fazenda
pode começar com ajustes simples na lotação e na altura do pasto antes de
investir em muitas divisões. O manejo deve ser técnico, mas também viável.
Como medir a altura do pasto
Medir a altura do pasto é uma prática
simples e muito útil. Pode ser feita com régua, trena ou régua de manejo. O
produtor deve caminhar pela área, medir vários pontos e fazer uma média. Não se
deve medir apenas o melhor ou o pior lugar, pois isso distorce a avaliação.
A Embrapa orienta que, para determinar a
altura com régua ou trena, é necessário caminhar ao longo do pasto, medir as
plantas em vários pontos e calcular a média dos valores encontrados. Essa
prática ajuda o produtor a tomar decisão com base em observação, e não apenas
na impressão visual.
Com o tempo, o olhar fica mais treinado. Ainda assim, medir continua sendo importante, principalmente para quem está aprendendo. A altura mostra se o pasto
está
aprendendo. A altura mostra se o pasto está pronto para entrada, se precisa
descansar ou se já está sendo rebaixado demais.
Consequências do superpastejo
O superpastejo acontece quando os animais
consomem a pastagem abaixo do limite adequado ou retornam à área antes da
recuperação da planta. No começo, o produtor pode achar que está aproveitando
melhor o capim, porque vê menos sobra. Mas, com o tempo, a planta perde vigor,
produz menos folhas e deixa o solo mais exposto.
O solo descoberto sofre mais com calor,
erosão e compactação. As plantas desejáveis reduzem sua participação e as
invasoras encontram espaço para crescer. O rebanho passa a caminhar mais para
encontrar alimento, perde desempenho e exige mais suplementação.
O superpastejo é perigoso porque sua
consequência nem sempre aparece imediatamente. A degradação é gradual. Quando o
produtor percebe, a área já pode exigir reforma, correção mais cara e tempo de
recuperação.
Consequências do sub pastejo
O sub pastejo ocorre quando há sobra
excessiva de forragem. Nesse caso, o capim passa do ponto, acumula talos, perde
folhas jovens e reduz a qualidade. O pasto parece farto, mas o animal aproveita
pouco. Ele seleciona as partes melhores e rejeita material mais duro.
Esse tipo de erro é comum quando o
produtor tem poucos animais para uma área muito produtiva ou quando demora a
colocar o lote no piquete. O resultado é desperdício de alimento e queda no
valor nutritivo.
Para evitar o sub pastejo, é possível
ajustar a lotação, fazer roçada estratégica, reservar a área para feno ou
silagem, ou reorganizar o uso dos piquetes. O importante é não deixar a
forragem envelhecer sem função.
Manejo do pastejo e nutrição animal
O manejo do pastejo está diretamente
ligado à nutrição. Um pasto bem manejado oferece mais folhas, melhor
digestibilidade e maior consumo. Um pasto mal manejado obriga o animal a gastar
mais energia procurando alimento ou a consumir material de menor qualidade.
Quando o pasto está no ponto certo, o
animal colhe melhor a forragem. Isso reduz desperdícios, melhora o desempenho e
diminui a dependência de concentrados. Ao contrário, quando a pastagem está
degradada ou passada, o produtor tende a gastar mais com suplemento para
compensar um problema que começou no campo.
Por isso, o cocho não deve ser a primeira resposta para todo problema de nutrição. Antes de comprar suplemento, o produtor deve perguntar: o pasto está na altura certa? A lotação está adequada? O descanso foi
respeitado? Há folhas disponíveis? Os animais têm água próxima?
Essas respostas orientam decisões mais econômicas e eficientes.
Exemplo prático
Imagine uma propriedade com quatro
piquetes de capim bem formado. O produtor deixa os animais entrarem quando o
capim ainda está baixo, porque quer “aproveitar a rebrota nova”. Em pouco
tempo, a planta perde força, a produção cai e o solo começa a aparecer. Esse é
um caso de entrada precoce e saída tardia.
Em outra área, o produtor espera demais
para colocar os animais. O capim fica alto, com talos grossos e folhas secas.
Os animais comem apenas parte do material e deixam muita sobra. Apesar da
aparência de abundância, o aproveitamento é baixo.
O manejo correto estaria no meio desses
dois extremos: entrada quando a planta alcança altura adequada e saída antes do
rebaixamento excessivo. Assim, o animal consome forragem de melhor qualidade e
a planta mantém capacidade de rebrota.
Conclusão
Manejar o pastejo é aprender a respeitar o
ritmo da planta e a necessidade do animal. Altura de entrada, altura de saída,
período de descanso e taxa de lotação são ferramentas simples, mas fundamentais
para manter pastagens produtivas.
Para o iniciante, a principal lição é que
o pasto não deve ser usado no improviso. Ele precisa ser observado, medido e
ajustado. Quando o produtor controla melhor o pastejo, melhora a qualidade da
forragem, reduz desperdícios, preserva o solo e favorece o desempenho do
rebanho.
Uma boa pastagem não depende apenas da espécie plantada. Depende, principalmente, do manejo diário. O animal colhe o pasto, mas é o produtor quem decide se essa colheita será eficiente ou prejudicial ao sistema.
Referências bibliográficas
EMBRAPA. Ajuste de lotação no manejo de
pastagens. Campo Grande: Embrapa Gado de Corte.
EMBRAPA. Régua de manejo de pastagens.
Campo Grande: Embrapa Gado de Corte.
EMBRAPA. Manejo de pastagens tropicais.
Campo Grande: Embrapa Gado de Corte.
EMBRAPA. Pastejo rotacionado. Brasília:
Embrapa.
SENAR. Pastagens. Brasília: Serviço
Nacional de Aprendizagem Rural.
Aula 6 — Conservação de forragens: feno,
silagem e planejamento da seca
A produção de pasto não é igual durante
todo o ano. Em muitas regiões, o capim cresce bem no período das chuvas, mas
perde força na seca, no frio ou em fases de baixa luminosidade. O produtor que
não se prepara para essa variação costuma enfrentar o mesmo problema todos os
anos: sobra alimento em uma época e falta em outra.
É por isso que conservar
forragem é uma
prática tão importante. Conservar forragem significa guardar parte do alimento
produzido em período de abundância para usar quando o pasto já não consegue
atender bem o rebanho. Esse alimento pode ser armazenado principalmente na
forma de feno, silagem ou pré-secado. A Embrapa define o planejamento alimentar
como a organização prévia das ações necessárias para produzir e fornecer
alimento ao rebanho por determinado período, incluindo volumosos como pasto,
feno, silagem e capineira, além de concentrados e suplementos.
Para quem está começando, a ideia central
é simples: não se deve esperar a seca chegar para pensar em alimento. Quando os
animais começam a perder peso, o problema já está instalado. O planejamento
precisa começar antes, ainda no período de crescimento das forrageiras.
Por que conservar forragem?
A conservação de forragens ajuda a reduzir
os efeitos da falta de pasto. Em vez de depender apenas do capim disponível no
campo, o produtor passa a ter uma reserva estratégica para manter os animais
alimentados em períodos críticos.
Essa prática é importante porque a
nutrição animal precisa de regularidade. Quando há muita variação na oferta de
alimento, os animais ganham peso nas águas e perdem na seca. Esse efeito de
“vai e volta” prejudica crescimento, reprodução, produção de leite e
terminação. Em muitos casos, o produtor gasta boa parte do período favorável
apenas recuperando perdas que poderiam ter sido evitadas.
Conservar forragem também ajuda a
aproveitar melhor o excesso de pasto. Em vez de deixar o capim passar do ponto,
virar talo e perder qualidade, parte dessa produção pode ser colhida e
armazenada. Assim, o alimento que seria desperdiçado passa a ter função dentro
do sistema.
Mas é importante entender uma regra
básica: conservar não melhora uma forragem ruim. A ensilagem e a fenação
preservam, dentro de certos limites, a qualidade do material colhido. Se a
planta foi cortada muito velha, com baixa qualidade, mofada ou contaminada, o
produto final também será limitado. A Embrapa reforça que a ensilagem não
melhora a qualidade da forragem, apenas conserva a qualidade original.
Feno: alimento seco e bem armazenado
O feno é produzido pela desidratação da
forragem. A planta é cortada, espalhada ou revolvida para perder água e depois
armazenada em fardos, medas ou outra forma protegida. O objetivo é reduzir a
umidade para impedir deterioração e permitir que o alimento seja guardado por
mais tempo.
Um bom feno deve ter
bom feno deve ter cheiro agradável,
coloração adequada, boa quantidade de folhas e ausência de mofo. Feno escuro,
aquecido, embolorado ou com cheiro ruim indica problema de secagem ou
armazenamento. Esse tipo de alimento pode perder valor nutritivo e até causar
rejeição pelos animais.
A fenação exige atenção ao clima. Para
produzir feno de qualidade, é preciso contar com dias de sol, baixa umidade e
boa ventilação. Se chover durante o processo, as perdas aumentam. Por isso,
essa técnica combina melhor com regiões ou períodos em que há maior segurança
para secagem no campo.
O feno pode ser feito com gramíneas e
leguminosas, desde que a planta tenha características adequadas e seja cortada
no ponto correto. A Embrapa apresenta a fenação como uma técnica de conservação
de forrageiras e pastagens, envolvendo época de colheita, ponto de feno e
formas de produção.
Na prática, o feno é muito útil porque é
fácil de transportar, dosar e fornecer. Também ocupa menos espaço do que a
forragem verde. Porém, precisa ficar protegido da chuva, da umidade do solo e
de locais mal ventilados. Armazenar feno diretamente no chão ou em galpão com
infiltração é um erro comum.
Silagem: conservação em ambiente sem ar
A silagem é uma das formas mais utilizadas
para conservar forragem suculenta. Ela é feita a partir da colheita, picagem,
compactação e vedação da planta dentro de um silo. O objetivo é criar um
ambiente sem ar, onde ocorre fermentação adequada e redução do pH, conservando
o alimento por vários meses.
A Embrapa explica que a silagem é uma
forragem verde conservada por fermentação anaeróbica, e que a ensilagem envolve
cortar a forragem, colocá-la no silo, compactar e vedar para permitir a
fermentação.
As culturas mais tradicionais para silagem
são milho e sorgo, porque possuem boa quantidade de carboidratos solúveis, o
que favorece a fermentação. Também é possível fazer silagem de capim, cana e
outras forrageiras, mas cada uma exige cuidados específicos. O milho, por
exemplo, costuma apresentar boas características para ensilagem, e a Embrapa
indica que, em condições práticas de campo, o melhor momento de colheita ocorre
quando a planta está em torno de 30% a 35% de matéria seca.
Para o iniciante, os pontos mais importantes da silagem são: colher no ponto correto, picar bem, compactar bastante, vedar com cuidado e retirar corretamente depois de aberto. Se entra ar no silo, surgem perdas, aquecimento, mofo e fermentação inadequada. A compactação bem-feita
expulsa o ar da massa ensilada, e a vedação impede a
entrada de oxigênio e água.
Outro cuidado é o tempo de enchimento. Um
silo que demora demais para ser cheio fica exposto ao ar por muito tempo,
prejudicando a fermentação. Depois de fechado, deve permanecer vedado até o
momento de uso. Após aberto, a retirada diária precisa ser organizada para
evitar deterioração da face exposta.
Pré-secado: uma alternativa intermediária
O pré-secado é uma técnica intermediária
entre feno e silagem. A forragem é parcialmente desidratada antes de ser
armazenada, geralmente em fardos envolvidos por filme plástico ou em estruturas
adequadas. Ele mantém mais umidade que o feno, mas menos que uma silagem
convencional.
Essa alternativa pode ser útil quando o
produtor quer conservar uma forragem de melhor qualidade, mas não tem tempo
suficiente para secagem completa como no feno. Também pode ajudar em regiões
onde o clima dificulta a fenação tradicional.
O pré-secado, no entanto, também exige
cuidado. A planta precisa ser cortada no ponto certo, perder água até uma
condição adequada, ser bem compactada e ficar vedada. Se houver falhas no
plástico, excesso de umidade ou contaminação, o alimento pode deteriorar.
Planejamento da seca
Planejar a seca é mais do que guardar
alimento. É calcular, ainda que de forma simples, quantos animais serão
alimentados, por quantos dias e com qual tipo de volumoso. Também é preciso
prever perdas, espaço de armazenamento, mão de obra, cochos, água e suplementação.
Um erro comum é produzir silagem ou feno
sem saber quanto o rebanho realmente vai consumir. O produtor faz uma
quantidade “no olho” e só percebe que é insuficiente quando o alimento acaba
antes do fim da seca. Outro erro é produzir uma reserva grande, mas sem
qualidade, o que reduz o consumo e não atende às necessidades dos animais.
A Embrapa orienta que o pecuarista se
prepare com antecedência para alimentar o rebanho na seca, considerando
alternativas como vedação de pasto, produção de silagem, plantio de cana e uso
de capineiras. Essa visão é importante porque cada propriedade tem uma
realidade. Em algumas, a silagem será a melhor opção. Em outras, o feno, a
cana, a palma, o pasto diferido ou uma combinação de alternativas pode
funcionar melhor.
O planejamento deve começar pelo diagnóstico: quantos animais existem, qual a categoria de cada um, qual a exigência nutricional, quanto pasto estará disponível e qual será a duração provável da seca. A partir disso, o produtor
define a reserva necessária.
Cuidados no fornecimento
Depois de conservar a forragem, o cuidado
continua no fornecimento. Feno mofado, silagem aquecida ou alimento deixado por
muito tempo no cocho podem prejudicar o consumo e a saúde dos animais. O cocho
deve estar limpo, protegido quando possível e dimensionado para permitir acesso
adequado ao lote.
No caso da silagem, é importante retirar
apenas a quantidade que será usada no dia, mantendo a face do silo bem cortada
e compacta. Buracos, retirada irregular e exposição prolongada ao ar aumentam
as perdas. Se houver partes mofadas ou com cheiro muito desagradável, elas não
devem ser fornecidas.
No caso do feno, a atenção maior está no
armazenamento. Ele deve ficar em local seco, ventilado e protegido da chuva.
Fardos encostados diretamente no solo podem absorver umidade e estragar. Também
é importante evitar acúmulo de poeira, presença de roedores e contato com
produtos químicos.
Erros comuns na conservação de forragens
O primeiro erro é cortar a planta fora do
ponto. Se a forragem estiver muito nova, pode ter excesso de umidade e baixa
produção de matéria seca. Se estiver muito velha, terá mais fibra, menos
digestibilidade e menor valor nutritivo.
O segundo erro é conservar material de
baixa qualidade esperando que a técnica resolva o problema. A silagem e o feno
não transformam uma forragem ruim em alimento excelente. O resultado final
depende muito da qualidade inicial da planta.
O terceiro erro é falhar na secagem do
feno. Guardar feno úmido favorece aquecimento, mofo e perdas. Em casos graves,
pode haver risco de deterioração intensa e rejeição pelos animais.
O quarto erro é compactar mal a silagem. A
presença de ar dentro do silo prejudica a fermentação e aumenta a deterioração.
A compactação é uma das etapas mais importantes da ensilagem.
O quinto erro é vedar mal o silo. Lona
furada, bordas abertas e entrada de água da chuva comprometem o alimento. A
vedação deve impedir a entrada de ar e umidade.
O sexto erro é não calcular a quantidade
necessária. Conservar pouco alimento gera falta no período crítico. Conservar
muito, sem boa estrutura, pode gerar perdas e desperdício.
Conclusão
A conservação de forragens é uma
estratégia essencial para quem deseja alimentar melhor o rebanho ao longo do
ano. Feno, silagem e pré-secado ajudam a transformar o excesso de produção das
águas em reserva para a seca, reduzindo perdas de peso, queda de produção e
gastos emergenciais.
Para o iniciante, a
principal lição é que
conservar forragem exige planejamento. É preciso escolher a planta certa,
cortar no ponto adequado, respeitar as etapas de produção, armazenar
corretamente e fornecer com cuidado. Quando bem-feita, essa prática dá
segurança alimentar à propriedade e torna a nutrição animal mais organizada.
A seca não deve ser tratada como surpresa. Ela costuma acontecer todos os anos. O produtor preparado sofre menos, gasta melhor e mantém o rebanho em condições mais estáveis.
Referências bibliográficas
EMBRAPA. Conservação de forragem: fenação
e silagem. Teresina: Embrapa Meio-Norte, 2000.
EMBRAPA. Silos, silagem e ensilagem. Campo
Grande: Embrapa Gado de Corte, 1995.
EMBRAPA. Silagem é garantia de alimento na
época mais seca do ano. Brasília: Embrapa, 2009.
EMBRAPA. Planejamento alimentar em
pastagem. In: Todo ano tem seca! Está preparado? Estratégias para produção e
uso do pasto na época seca. São Paulo: Reino Editorial, 2022.
EMBRAPA. Fenação. Agência Embrapa de
Informação Tecnológica.
SENAR. Pastagens. Brasília: Serviço
Nacional de Aprendizagem Rural.
Estudo de caso — A fazenda que plantou
capim, mas esqueceu de manejar
Na Fazenda Boa Esperança, o produtor
Marcos decidiu melhorar a alimentação do rebanho. Ele tinha 40 bovinos de corte
em recria e acreditava que o principal problema da propriedade era “falta de
capim bom”. Depois de ouvir outros produtores da região, comprou sementes de
uma forrageira muito produtiva, reformou uma área antiga e esperou que a nova
pastagem resolvesse a perda de peso dos animais na seca.
Nos primeiros meses, a pastagem parecia
bonita. O capim nasceu bem em algumas partes, cresceu rápido e deixou Marcos
animado. Mas, com o tempo, os problemas começaram a aparecer. Havia falhas em
vários pontos da área, algumas partes ficaram tomadas por invasoras, os animais
rebaixavam demais certos locais e deixavam outros passarem do ponto. Quando
chegou a seca, o pasto perdeu qualidade, a silagem feita às pressas apresentou
cheiro ruim e o rebanho voltou a perder condição corporal.
O caso chamou atenção porque Marcos não era descuidado. Ele trabalhava todos os dias, observava os animais e queria melhorar. O erro estava em acreditar que a escolha de uma forrageira produtiva, sozinha, resolveria o sistema. Na prática, a produção de forragem depende de um conjunto de decisões: escolha correta da planta, preparo do solo, semeadura bem-feita, primeiro pastejo no momento certo, ajuste de lotação e conservação planejada
para a seca.
O primeiro erro apareceu antes do plantio.
Marcos escolheu o capim pela fama, sem avaliar bem o solo, o clima, a
fertilidade da área e o nível de manejo que conseguiria oferecer. A Embrapa
orienta que, na formação ou reforma de pastagens, a escolha da forrageira deve
considerar fatores como clima, solo, finalidade de uso, preparo da área,
semeadura e primeiro pastejo.
A forrageira escolhida tinha bom potencial
produtivo, mas era mais exigente do que a propriedade conseguia sustentar
naquele momento. A análise de solo não foi feita antes do plantio. A correção
da acidez foi realizada “no olho” e a adubação foi menor do que a necessidade
da área. Como resultado, algumas partes da pastagem se estabeleceram bem,
enquanto outras ficaram fracas e abertas, facilitando a entrada de plantas
invasoras.
O segundo erro foi usar semente sem
verificar qualidade e procedência. Marcos comprou sementes mais baratas,
acreditando que economizaria. Porém, a germinação foi irregular. Em áreas onde
a cobertura falhou, o solo ficou exposto, surgiram invasoras e o capim perdeu
espaço. Nesse ponto, a economia inicial acabou gerando mais gasto com
replantio, controle de invasoras e perda de produção.
O terceiro erro foi colocar os animais
cedo demais na área recém-formada. Assim que viu o capim crescer, Marcos
liberou o pastejo para “aproveitar logo”. O problema é que as plantas ainda não
estavam bem estabelecidas. Algumas foram arrancadas pelo pisoteio, outras foram
consumidas antes de formar boa estrutura de rebrota. O primeiro pastejo deveria
ter sido leve, rápido e feito apenas quando a pastagem estivesse pronta.
Depois da formação, veio o quarto erro:
falta de controle da altura do pasto. Os animais permaneciam muito tempo na
mesma área. Perto do bebedouro e da sombra, o capim ficava muito baixo. Em
pontos mais distantes, o capim passava do ponto, acumulava talos e folhas
secas. O SENAR destaca que o respeito à altura de entrada e saída, ao período
de descanso, à adubação e ao manejo dos piquetes ajuda a conciliar produção de
forragem com alimento de boa qualidade para os animais.
Marcos também não ajustava a taxa de lotação conforme a época do ano. Nas águas, a pastagem crescia mais e parecia suportar bem o rebanho. Na seca, o crescimento diminuía, mas a quantidade de animais continuava a mesma. O resultado foi superpastejo em algumas áreas, enfraquecimento das plantas e queda na disponibilidade de alimento. A lotação precisa acompanhar a capacidade real
do ano. Nas águas, a pastagem crescia mais e parecia
suportar bem o rebanho. Na seca, o crescimento diminuía, mas a quantidade de
animais continuava a mesma. O resultado foi superpastejo em algumas áreas,
enfraquecimento das plantas e queda na disponibilidade de alimento. A lotação
precisa acompanhar a capacidade real do pasto, que muda conforme chuva,
fertilidade, espécie forrageira e manejo.
A técnica que visitou a propriedade
mostrou a Marcos que o pasto precisava ser medido e não apenas observado de
longe. A régua de manejo de pastagens da Embrapa trabalha justamente com a
ideia de acompanhar alturas mínimas e máximas conforme a forrageira, ajudando o
produtor a decidir quando colocar ou retirar os animais.
O quinto erro apareceu na conservação de
forragens. Como havia muito capim nas águas, Marcos decidiu fazer silagem de
última hora. O corte foi feito quando a planta já estava passada, a picagem
ficou irregular, a compactação foi fraca e a lona não foi bem vedada. Quando o
silo foi aberto, havia partes aquecidas, odor desagradável e pontos com mofo.
Os animais reduziram o consumo.
A técnica explicou que silagem não
transforma forragem ruim em alimento excelente. Ela conserva, dentro de
limites, a qualidade do material colhido. Para milho destinado à silagem, por
exemplo, a Embrapa recomenda atenção ao ponto de colheita, com referência de
aproximadamente 32% a 35% de matéria seca, pois isso favorece consumo, produção
e conservação do alimento.
Também foi destacado que colher fora do
ponto compromete o resultado. No caso de silagem de milho e sorgo, materiais
técnicos alertam que a colheita após o ponto adequado, com grãos muito duros,
dificulta a compactação, diminui a digestibilidade e pode aumentar perdas.
Depois do diagnóstico, Marcos mudou a
forma de conduzir a propriedade. Primeiro, fez análise de solo e planejou a
correção da área antes de qualquer novo plantio. Em vez de escolher capim
apenas pela produtividade prometida, passou a considerar clima, fertilidade,
tipo de animal, finalidade da área e nível de investimento possível.
Em seguida, reorganizou o pastejo. Dividiu
melhor a área, aproximou pontos de água, controlou o tempo de permanência dos
animais e passou a observar a altura de entrada e saída. As áreas mais
enfraquecidas foram descansadas, e os animais foram direcionados para piquetes
em melhor condição. O objetivo deixou de ser “raspar o pasto” e passou a ser
colher a forragem no ponto adequado.
Marcos também reduziu a
lotação no período
seco e planejou reserva alimentar com antecedência. Em vez de esperar faltar
pasto, definiu áreas para produção de silagem, avaliou a possibilidade de feno
e organizou uma reserva de volumoso para os meses críticos. A conservação
passou a ser parte do calendário da propriedade, não uma emergência.
Com o tempo, o rebanho melhorou a condição corporal, a pastagem apresentou rebrota mais uniforme e o produtor reduziu desperdícios. A maior mudança, porém, foi na forma de pensar. Marcos percebeu que forragem não é apenas plantar capim. É escolher, formar, manejar, descansar, colher e conservar no momento certo.
Erros comuns mostrados no caso
O primeiro erro foi escolher a forrageira
pela moda, sem avaliar se ela combinava com o solo, o clima e a capacidade de
manejo da fazenda.
O segundo erro foi formar a pastagem sem
análise de solo e com correção inadequada, o que prejudicou o estabelecimento
das plantas.
O terceiro erro foi usar sementes de baixa
qualidade, gerando falhas, invasoras e necessidade de retrabalho.
O quarto erro foi liberar o primeiro
pastejo cedo demais, antes de a pastagem estar bem formada.
O quinto erro foi não controlar altura,
descanso e taxa de lotação, provocando áreas super pastejadas e áreas com capim
passado.
O sexto erro foi fazer silagem sem
planejamento, com corte fora do ponto, compactação deficiente e vedação
malfeita.
Como evitar esses erros
Para evitar problemas na escolha da
forrageira, o produtor deve começar pelo diagnóstico da propriedade. Antes de
comprar sementes, precisa avaliar clima, solo, finalidade da área, categoria
animal, mão de obra disponível e nível de intensificação desejado.
Para formar bem a pastagem, a análise de
solo deve orientar calagem, adubação e preparo da área. Também é importante
usar sementes de procedência confiável e respeitar profundidade, época e
condições adequadas de plantio.
No pastejo, o produtor deve observar a
altura do capim, retirar os animais antes do rebaixamento excessivo e permitir
descanso suficiente para a rebrota. O pasto precisa ser usado como uma lavoura
viva, não como área permanente de ocupação sem controle.
A taxa de lotação deve ser ajustada
conforme a oferta de forragem. Na seca, a capacidade do pasto geralmente
diminui. Manter o mesmo número de animais sem reserva alimentar pode levar à
degradação e à perda de desempenho.
Na conservação de forragens, o segredo é planejar. Silagem e feno devem ser feitos com planta no ponto certo,
equipamentos regulados, armazenamento adequado e fornecimento cuidadoso. O
alimento conservado deve ser produzido antes da crise, não quando os animais já
estão perdendo peso.
Conclusão do estudo de caso
A história da Fazenda Boa Esperança mostra
que o módulo 2 não trata apenas de plantar capim. Ele ensina que a produção de
forragem depende de planejamento, técnica e observação diária. Uma boa pastagem
nasce da escolha correta da forrageira, mas se mantém com manejo adequado do
pastejo e reserva alimentar bem-organizada.
O erro de Marcos foi procurar uma solução
única para um problema que era de sistema. Ele queria um capim milagroso, mas
precisava de solo corrigido, sementes boas, pastejo controlado, lotação
ajustada e conservação planejada.
A grande lição é simples: quem maneja bem a forragem alimenta melhor o rebanho, reduz desperdícios e enfrenta a seca com mais segurança. O pasto bem cuidado é uma das formas mais econômicas e inteligentes de produzir alimento animal.
Referências bibliográficas
EMBRAPA. Principais cuidados na formação
de pastagens. Campo Grande: Embrapa Gado de Corte.
EMBRAPA. Catálogo de forrageiras
recomendadas pela Embrapa. Brasília: Embrapa.
EMBRAPA. Régua de manejo de pastagens.
Campo Grande: Embrapa Gado de Corte.
EMBRAPA. Milho para silagem. Agência
Embrapa de Informação Tecnológica.
SENAR. Pastagens. Brasília: Serviço
Nacional de Aprendizagem Rural.
SENAR. Silagem de milho e sorgo. Brasília: Serviço Nacional de Aprendizagem Rural.
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