FORRAGEM
E NUTRIÇÃO ANIMAL
MÓDULO
1 — Fundamentos de Forragem e Alimentação Animal
Aula 1 — O que é forragem e por que ela é
tão importante?
Quando se fala em nutrição animal, muita
gente pensa logo em ração, suplementos, sal mineral ou concentrados. Mas, na
prática da pecuária, especialmente na criação de bovinos, ovinos, caprinos e
outros ruminantes, a base da alimentação quase sempre está na forragem. É ela
que sustenta grande parte dos sistemas de produção, reduz custos e permite que
o animal transforme plantas em carne, leite, lã, trabalho ou reprodução.
Forragem é todo alimento vegetal utilizado
pelos animais. Pode ser o capim consumido diretamente no pasto, o feno guardado
no galpão, a silagem armazenada no silo, a cana-de-açúcar picada no cocho, a
palma forrageira em regiões mais secas ou até restos agrícolas aproveitados com
orientação técnica. Em outras palavras, forragem é a planta usada como
alimento.
A pastagem, por sua vez, é a área onde
essas plantas crescem e são consumidas pelos animais. Por isso, é importante
entender que pastagem não é apenas “mato” ou “capim no chão”. Uma boa pastagem
deve ser vista como uma lavoura: precisa de solo cuidado, escolha correta da
espécie, manejo adequado, descanso, controle de plantas invasoras, água
disponível e lotação compatível com a capacidade da área.
A importância da forragem está justamente
nesse ponto: ela é o alimento mais natural e, muitas vezes, mais econômico para
os ruminantes. Quando bem manejada, melhora o desempenho dos animais, reduz a
necessidade de compra de alimentos externos e ajuda o produtor a manter o
rebanho com mais regularidade ao longo do ano. Materiais técnicos da Embrapa
classificam capins verdes, silagens, fenos e palhadas como alimentos volumosos,
fundamentais na dieta de bovinos e outros ruminantes.
A forragem como base da alimentação animal
O primeiro passo para compreender a
forragem é perceber que o animal não come apenas “volume”. Ele precisa de
nutrientes. Dentro da forragem existem água, fibra, energia, proteína, minerais
e vitaminas em diferentes quantidades. A qualidade desse alimento depende da
espécie da planta, da idade de corte ou pastejo, da fertilidade do solo, da
época do ano e do modo como o pasto é manejado.
Um capim novo, com boa proporção de folhas, normalmente apresenta melhor valor nutritivo do que um capim velho, cheio de talos, seco e fibroso. Isso acontece porque, conforme a planta amadurece, ela acumula mais estruturas de
sustentação, fica mais dura e pode
ser menos aproveitada pelo animal. Assim, nem sempre um pasto alto significa um
pasto bom. Muitas vezes, o pasto parece farto, mas tem baixa qualidade.
Esse é um erro comum em propriedades
iniciantes. O produtor olha a área verde ou cheia de massa e acredita que os
animais estão bem alimentados. No entanto, se houver muita sobra envelhecida,
folhas secas, talos grossos e baixa renovação, o animal seleciona o que
consegue, come menos do que deveria e pode perder peso mesmo em uma área
aparentemente cheia de capim.
Por isso, quantidade e qualidade precisam
caminhar juntas. Não basta ter muito pasto. É preciso ter pasto em ponto
adequado de consumo. A forragem deve oferecer alimento suficiente, mas também
precisa permitir bom consumo, boa digestão e bom aproveitamento dos nutrientes.
Por que os ruminantes aproveitam tão bem a
forragem?
Os ruminantes possuem um sistema digestivo
especial. Bovinos, ovinos, caprinos e bubalinos têm compartimentos digestivos
que permitem o aproveitamento da fibra vegetal. O rúmen funciona como uma
espécie de câmara de fermentação, onde vivem microrganismos capazes de quebrar
parte da fibra das plantas e transformar esse material em energia para o
animal.
Essa característica explica por que os
ruminantes conseguem utilizar alimentos que os seres humanos não aproveitam
diretamente, como capins, fenos e silagens. Eles transformam recursos vegetais
fibrosos em produtos de valor econômico e alimentar. No entanto, para que isso
aconteça bem, o rúmen precisa funcionar de forma equilibrada.
Quando a dieta é pobre, muito fibrosa ou
oferecida de maneira irregular, o animal pode reduzir o consumo e o desempenho.
Quando há mudança brusca de alimentação, como sair apenas do pasto e receber
grande quantidade de concentrado de uma vez, também podem ocorrer distúrbios
digestivos. Por isso, toda mudança alimentar deve ser feita com cuidado e
adaptação.
A forragem, nesse sentido, não serve
apenas para “encher a barriga”. Ela ajuda a manter a ruminação, a salivação, o
funcionamento do rúmen e a saúde digestiva. A fibra da forragem é essencial,
mas precisa estar em equilíbrio. Fibra demais, principalmente quando é pouco
digestível, limita o consumo. Fibra de menos, especialmente em dietas com muito
concentrado, pode causar problemas digestivos.
Tipos de forragem
As forragens podem ser oferecidas de várias formas. A mais comum é a pastagem verde, consumida diretamente no campo. Esse sistema costuma ter
menor custo, porque o próprio animal colhe o alimento.
Porém, exige bom manejo, pois o uso desordenado pode causar degradação,
compactação do solo, perda de plantas desejáveis e aumento de invasoras.
Outra forma é o feno, produzido pela
secagem da planta. O objetivo é retirar grande parte da água para permitir o
armazenamento por mais tempo. Um bom feno deve ter cheiro agradável, coloração
adequada, ausência de mofo e boa quantidade de folhas. Fenar uma planta muito
passada, molhada ou mal armazenada resulta em perdas de qualidade.
A silagem é outra alternativa importante.
Nesse caso, a forragem é picada, compactada e armazenada sem presença de ar,
para passar por fermentação. Quando bem-feita, a silagem ajuda a conservar
alimento para épocas de escassez. A Embrapa descreve a ensilagem como uma forma
de conservar alimentos suculentos, especialmente forragens verdes, em ambiente
sem ar, preservando boa parte do material para uso posterior.
Também existem forragens cortadas e fornecidas frescas no cocho, como capim-elefante, cana-de-açúcar e palma forrageira. Essa prática pode ser útil, mas exige mão de obra, planejamento e cuidado para evitar desperdício. O alimento cortado deve ser fornecido de maneira limpa, em quantidade adequada e sem permanecer muito tempo no cocho, principalmente em dias quentes.
Pastagem é lavoura
Uma das ideias mais importantes desta aula
é entender que pastagem precisa ser tratada como lavoura. Nenhuma lavoura
produz bem sem solo fértil, sem manejo e sem cuidado. Com o pasto acontece a
mesma coisa. Se o solo está fraco, se há erosão, se os animais pastejam até
“raspar” o chão e se não existe período de descanso, a pastagem perde vigor.
O manejo inadequado pode levar ao
superpastejo. Isso ocorre quando os animais consomem a planta abaixo do ponto
recomendado, prejudicando sua rebrota. Com o tempo, aparecem falhas, solo
exposto, invasoras e queda na produção de forragem. O problema não aparece de
um dia para o outro, mas vai se acumulando até a área perder produtividade.
Também existe o sub pastejo, quando sobra
muito capim velho. Nesse caso, a planta passa do ponto, perde qualidade e o
animal passa a selecionar apenas algumas partes. A área até parece cheia, mas
boa parte do material disponível não é bem aproveitada. O ideal é encontrar equilíbrio
entre oferta, consumo e recuperação da planta.
Por isso, o produtor precisa observar o pasto antes de observar apenas o cocho. A altura do capim, a presença de folhas verdes, a
quantidade de material seco, a cobertura do solo e o comportamento
dos animais dizem muito sobre a qualidade da alimentação.
Relação entre solo, planta, animal e
produtor
A nutrição animal baseada em forragem
depende de uma relação simples, mas muito importante: solo, planta, animal e
produtor. O solo sustenta a planta. A planta alimenta o animal. O animal
responde com ganho de peso, produção de leite, reprodução ou manutenção
corporal. O produtor observa, decide e corrige o sistema.
Quando um desses pontos falha, o resultado
aparece no rebanho. Solo pobre produz menos forragem. Planta mal manejada perde
qualidade. Animal mal alimentado reduz desempenho. Produtor sem registro ou
observação demora a perceber o problema. Por isso, o manejo alimentar começa
antes da suplementação: começa no diagnóstico da propriedade.
Um exemplo simples ajuda a entender. Dois
produtores podem ter o mesmo tipo de capim. Um deles maneja bem a altura,
respeita o descanso, ajusta a lotação e oferece água limpa. O outro deixa os
animais o ano inteiro na mesma área, sem descanso e sem controle. Mesmo com a
mesma espécie forrageira, os resultados serão diferentes. A diferença está no
manejo.
Forragem e custo de produção
A forragem tem grande impacto econômico.
Em muitos sistemas, produzir alimento na própria propriedade é mais barato do
que comprar grande quantidade de ração. Isso não significa que suplementos e
concentrados não sejam importantes. Eles podem ser necessários em várias
situações, como seca, crescimento, lactação, terminação ou deficiência
nutricional específica. Mas, quando a base forrageira é ruim, o suplemento
tende a ficar mais caro e menos eficiente.
Suplementar um animal em pasto degradado é
como tentar resolver uma construção fraca apenas pintando a parede. A aparência
pode até melhorar por um momento, mas o problema estrutural continua. Primeiro
é preciso cuidar da base: pastagem, água, cocho, sal mineral e lotação. Depois,
a suplementação entra como ferramenta estratégica.
Isso vale especialmente para iniciantes.
Antes de perguntar “qual ração devo comprar?”, o produtor deve perguntar: “que
forragem eu tenho?”, “em que época falta alimento?”, “meu pasto está no ponto
certo?”, “meus animais têm acesso à água?”, “a lotação está adequada?”. Essas
perguntas evitam gastos desnecessários e ajudam a tomar decisões mais seguras.
Como observar uma boa forragem?
Uma boa observação começa pelo olhar atento. O aluno deve aprender a caminhar pela área e reparar
em detalhes. O
capim tem mais folhas ou mais talos? Há partes secas? Os animais estão
pastejando com tranquilidade? Existem áreas muito baixas e outras muito altas?
O solo está descoberto? Há erosão? Há plantas invasoras? A água está próxima e
limpa?
Também é importante observar os animais.
Animais bem alimentados costumam apresentar comportamento mais tranquilo, boa
ruminação, pelagem melhor, ganho de peso compatível e menor disputa por
alimento. Já animais que caminham muito, comem pouco, perdem condição corporal
ou ficam disputando suplemento podem estar sinalizando problema de oferta ou
qualidade da dieta.
A avaliação da forragem não precisa
começar com equipamentos complexos. A observação visual, os registros simples e
o acompanhamento do rebanho já ajudam muito. Com o tempo, o produtor pode
avançar para análises de solo, análise bromatológica da forragem e planejamento
alimentar mais técnico.
Cuidados básicos para o iniciante
Quem está começando deve evitar alguns
erros frequentes. O primeiro é acreditar que qualquer capim serve para qualquer
lugar. A escolha da forrageira precisa considerar clima, solo, fertilidade,
tipo de animal e objetivo da produção.
O segundo erro é colocar animais demais em
uma área pequena. Quando a lotação passa da capacidade do pasto, a planta não
consegue se recuperar. O produtor percebe queda de produção, mas muitas vezes
culpa apenas o clima ou a “fraqueza do capim”.
O terceiro erro é deixar para pensar em
alimento somente quando chega a seca. A escassez precisa ser planejada antes.
Feno, silagem, cana, palma, vedação de pasto e suplementação estratégica devem
ser organizados com antecedência.
O quarto erro é confundir suplemento com
solução mágica. Suplemento ajuda, mas não substitui manejo. Se falta pasto,
água, sombra ou espaço de cocho, o resultado será limitado.
Conclusão
A forragem é a base da nutrição animal em
muitos sistemas de produção. Ela alimenta, sustenta o funcionamento do rúmen,
influencia o desempenho e afeta diretamente o custo da propriedade. Mas, para
cumprir esse papel, precisa ser produzida, manejada e utilizada corretamente.
Nesta primeira aula, o ponto principal é
compreender que pasto não é apenas capim disponível. Pasto é alimento em
construção diária. Ele depende do solo, da planta, do clima, do animal e das
decisões do produtor. Quando o iniciante entende isso, começa a enxergar a
nutrição animal de forma mais prática e responsável.
Cuidar da forragem é cuidar do rebanho antes mesmo
da forragem é cuidar do rebanho antes mesmo de abrir o saco de ração. É observar a propriedade com mais atenção, planejar a alimentação ao longo do ano e entender que o bom desempenho animal começa na base: uma forragem bem escolhida, bem manejada e bem aproveitada.
Referências bibliográficas
EMBRAPA. Nutrição de bovinos de corte:
fundamentos e aplicações. Brasília: Embrapa, 2015.
EMBRAPA. Os alimentos. Campo Grande:
Embrapa Gado de Corte.
EMBRAPA. Conservação de forragem: fenação
e silagem. Teresina: Embrapa Meio-Norte.
EMBRAPA. Formação e manejo de pastagens.
Brasília: Embrapa.
SENAR. Pastagens: manejo de pastagens
tropicais. Brasília: Serviço Nacional de Aprendizagem Rural.
Aula 2 — Tipos de alimentos: volumosos,
concentrados e suplementos
Na alimentação animal, especialmente
quando falamos de bovinos, ovinos e caprinos, é comum ouvir palavras como
pasto, silagem, feno, ração, farelo, sal mineral e suplemento. Para quem está
começando, tudo isso pode parecer uma mistura de nomes soltos. Mas, quando
organizamos esses alimentos em grupos, fica muito mais fácil entender o papel
de cada um na dieta.
De forma simples, os alimentos usados na
nutrição animal podem ser divididos em três grandes grupos: volumosos,
concentrados e suplementos. Os volumosos são a base da alimentação dos
ruminantes, porque fornecem fibra e ajudam no bom funcionamento do rúmen. Os
concentrados entram para complementar energia ou proteína quando a forragem não
é suficiente. Já os suplementos corrigem carências específicas, principalmente
minerais e vitaminas.
Essa separação é importante porque o
animal não precisa apenas “comer bastante”. Ele precisa receber os nutrientes
certos, na quantidade correta e de forma equilibrada. Uma dieta com muito
volume e pouca qualidade pode não sustentar o ganho de peso ou a produção de
leite. Por outro lado, uma dieta com muito concentrado e pouca fibra pode
causar distúrbios digestivos. O equilíbrio é sempre o ponto central.
O que são alimentos volumosos?
Os volumosos são alimentos ricos em fibra.
De acordo com materiais técnicos da Embrapa, são considerados volumosos aqueles
que possuem mais de 18% de fibra bruta na matéria seca, como capins verdes,
silagens, fenos e palhadas.
Na prática, os volumosos são os alimentos que ocupam maior espaço na dieta dos ruminantes. Eles podem ser consumidos diretamente no pasto ou fornecidos no cocho. Entre os exemplos mais comuns estão o capim verde, a silagem de milho, a silagem de capim, o
feno, a
cana-de-açúcar, a palma forrageira e algumas palhadas agrícolas.
A principal função dos volumosos é
fornecer fibra. Essa fibra estimula a mastigação, a salivação e a ruminação.
Também ajuda a manter o ambiente do rúmen mais estável. Por isso, em dietas
para ruminantes, a fibra não deve ser vista como algo sem valor. Ela é
essencial para que o animal digira bem e mantenha sua saúde.
Entretanto, nem todo volumoso tem a mesma
qualidade. Um capim jovem, com muitas folhas e pouca parte seca, costuma ser
mais nutritivo do que um capim velho, cheio de talos e material fibroso. Isso
vale para o feno e a silagem: se forem feitos com plantas no ponto correto e
bem armazenados, terão melhor valor alimentar. Se forem feitos com plantas
passadas, mofadas ou malconservadas, podem reduzir o consumo e prejudicar o
desempenho.
Por isso, o produtor iniciante precisa
entender que volumoso não é apenas “enchimento”. Ele é a base da dieta, mas sua
qualidade faz muita diferença. Um volumoso ruim pode obrigar o produtor a
gastar mais com concentrados e suplementos. Já um volumoso bem manejado reduz
custos e melhora a eficiência da alimentação.
O que são alimentos concentrados?
Os concentrados são alimentos com menor
teor de fibra e maior concentração de nutrientes, principalmente energia ou
proteína. A Embrapa classifica os concentrados como alimentos com menos de 18%
de fibra bruta na matéria seca. Eles podem ser divididos em energéticos e
proteicos.
Os concentrados energéticos são aqueles
que fornecem principalmente energia. O milho é o exemplo mais conhecido, mas
também podem ser usados sorgo, farelo de arroz, trigo, aveia e outros grãos ou
subprodutos. Esses alimentos ajudam no ganho de peso, na produção de leite e na
terminação dos animais, quando usados corretamente.
Os concentrados proteicos, por sua vez,
têm maior teor de proteína. Farelo de soja, farelo de algodão, farelo de
amendoim e farelo de girassol são alguns exemplos. Eles são importantes quando
a forragem não fornece proteína suficiente, situação comum em pastagens de
baixa qualidade ou durante o período seco.
A principal vantagem dos concentrados é a
alta densidade nutricional. Com menor volume, eles fornecem mais nutrientes.
Mas isso não significa que devam ser usados sem critério. Concentrado custa
mais caro do que pasto e, quando fornecido em excesso ou sem adaptação, pode
causar problemas digestivos, como acidose, queda no consumo e perda de
desempenho.
Um erro comum é tentar corrigir uma
pastagem ruim apenas aumentando a ração. Em alguns casos, o animal até melhora
por um tempo, mas o custo sobe muito e o problema principal continua. O
concentrado deve complementar a dieta, não substituir o manejo adequado da
forragem.
O que são suplementos?
Os suplementos são produtos usados para
corrigir deficiências específicas da dieta. Eles podem fornecer minerais,
vitaminas, proteína, energia ou combinações desses nutrientes. Na rotina das
propriedades, o suplemento mais conhecido é o sal mineral.
Os suplementos minerais fornecem elementos
importantes como cálcio, fósforo, sódio, magnésio, cobre, zinco, iodo, selênio
e cobalto. A Embrapa descreve os suplementos minerais como fontes de macro
minerais e microminerais, essenciais para várias funções do organismo animal.
A mineralização é uma prática básica, mas
muitas vezes negligenciada. O animal pode estar em um pasto aparentemente bom
e, ainda assim, apresentar deficiência mineral. Essas deficiências podem afetar
crescimento, reprodução, imunidade, casco, pelagem e aproveitamento dos
alimentos. Por isso, o sal mineral deve ser escolhido de acordo com a categoria
animal, a região, o tipo de pastagem e a orientação técnica.
Além do suplemento mineral, existem
suplementos proteicos, energéticos e proteico-energéticos. Eles são muito
usados em períodos de seca, quando o pasto perde qualidade. Nessa época, o
capim costuma ter menos proteína e maior teor de fibra menos digestível. O
suplemento pode ajudar o animal a aproveitar melhor a forragem disponível,
desde que ainda exista pasto suficiente.
É importante lembrar que suplemento não
faz milagre. Se não há volumoso disponível, se a água é ruim, se o cocho é
pequeno ou se a lotação está acima da capacidade da área, o resultado será
limitado. Suplementar é uma decisão técnica, não apenas comercial.
A importância da matéria seca
Para comparar alimentos, o produtor
precisa entender o conceito de matéria seca. Todo alimento tem água. O capim
verde tem muita água. A silagem também. Já o feno e os grãos têm menos umidade.
A matéria seca é a parte do alimento que sobra quando retiramos a água. É nela
que estão os nutrientes, como carboidratos, proteínas, minerais e fibras.
Esse conceito evita muitos enganos. Por exemplo, 10 quilos de capim verde não alimentam da mesma forma que 10 quilos de feno. O capim verde pode ter grande quantidade de água, enquanto o feno é mais seco e concentra mais nutriente por quilo de matéria natural. Por isso, comparar
alimentos apenas pelo peso “como fornecido” pode levar a erros.
A Embrapa reforça que os cálculos de
alimentação, custos e balanceamento devem ser feitos com base na matéria seca,
justamente porque a umidade varia muito entre os alimentos. Para o iniciante,
essa é uma das noções mais importantes da nutrição animal.
Na prática, isso significa que o produtor
deve desconfiar de comparações simples demais. Um alimento pode parecer barato
por tonelada, mas ter muita água. Outro pode parecer caro, mas ser mais
concentrado em matéria seca e nutrientes. O que importa é avaliar quanto
nutriente útil o animal realmente recebe.
Como combinar volumosos, concentrados e
suplementos?
Uma dieta equilibrada não depende de um
único alimento. Ela nasce da combinação correta entre volumosos, concentrados e
suplementos. O volumoso forma a base. O concentrado corrige energia ou proteína
quando necessário. O suplemento ajusta minerais, vitaminas ou outros nutrientes
específicos.
Em sistemas a pasto, o primeiro cuidado
deve ser garantir boa forragem. Um pasto bem manejado pode sustentar boa parte
das exigências dos animais, principalmente em fases de manutenção ou produção
moderada. Quando o pasto perde qualidade, como na seca, pode ser necessário
usar feno, silagem, cana, palma ou outro volumoso conservado, além de
suplementação estratégica.
Para animais em crescimento, lactação ou
terminação, a exigência nutricional é maior. Nesses casos, o uso de
concentrados pode ser necessário para melhorar o desempenho. Mas a quantidade
deve ser planejada. O excesso pode aumentar custos e provocar desequilíbrios
digestivos.
Também é preciso considerar a categoria
animal. Uma vaca seca, uma vaca em lactação, um bezerro, uma novilha em
crescimento e um boi em terminação não têm as mesmas necessidades. A dieta deve
acompanhar o objetivo produtivo. Alimentar todos os animais da mesma forma pode
gerar desperdício para uns e deficiência para outros.
Erros comuns no uso dos alimentos
Um erro frequente é acreditar que pasto
verde sempre é pasto nutritivo. Embora a cor ajude na avaliação visual, ela não
mostra tudo. O valor nutritivo depende do estágio da planta, da proporção de
folhas, da fertilidade do solo e da digestibilidade. Um pasto verde, mas
passado e com muito talo, pode ter baixo aproveitamento.
Outro erro é usar concentrado sem avaliar a forragem. Quando o produtor não sabe a qualidade do volumoso, ele pode fornecer ração demais ou de menos. O ideal é observar o pasto,
acompanhar o
escore corporal dos animais e, quando possível, fazer análise bromatológica dos
alimentos.
Também é comum deixar o sal mineral em
cochos descobertos, sujos ou distantes. Quando isso acontece, o consumo fica
irregular. Alguns animais comem mais, outros comem menos, e o suplemento perde
eficiência. O cocho deve ser protegido da chuva, ter espaço adequado e ficar em
local de fácil acesso.
Outro problema é mudar a dieta de forma
brusca. O rúmen precisa de adaptação. Quando o animal sai de uma dieta baseada
em pasto e passa a receber muito concentrado de uma vez, os microrganismos
ruminais podem se desequilibrar. A mudança deve ser gradual, respeitando o
tempo de adaptação do animal.
Exemplo prático
Imagine uma pequena propriedade com
bovinos mantidos em pastagem durante o período das águas. O capim está bem
manejado, com boa quantidade de folhas e acesso fácil à água. Nesse momento, a
base da dieta pode ser o próprio pasto, acompanhado de sal mineral adequado.
Com a chegada da seca, o pasto perde
qualidade e crescimento. O produtor percebe que os animais começam a perder
condição corporal. Nesse caso, ele pode usar um volumoso conservado, como
silagem ou feno, e avaliar a necessidade de um suplemento proteico ou
proteico-energético. Se houver pouca forragem disponível, apenas colocar
suplemento no cocho não resolverá o problema.
Agora pense em vacas em lactação. Elas têm
exigência maior, porque precisam manter o corpo e produzir leite. Mesmo com bom
volumoso, pode ser necessário fornecer concentrado energético e proteico. A
quantidade dependerá da produção, do peso, da qualidade da forragem e do
sistema adotado.
Esses exemplos mostram que não existe uma
receita única. O alimento certo depende da situação. A boa nutrição começa com
observação, planejamento e equilíbrio.
Conclusão
Conhecer os tipos de alimentos é um passo
essencial para quem está começando na nutrição animal. Volumosos, concentrados
e suplementos têm funções diferentes, mas se complementam dentro da dieta. O
volumoso sustenta a base alimentar e mantém o funcionamento do rúmen. O
concentrado reforça energia ou proteína quando a exigência do animal ou a
limitação da forragem exigem. O suplemento corrige deficiências específicas,
especialmente minerais.
O produtor iniciante deve evitar soluções apressadas. Antes de comprar ração ou suplemento, precisa olhar para a forragem, para os animais, para a água, para o cocho e para o período do ano. Alimentar bem não é apenas oferecer
produtor iniciante deve evitar soluções
apressadas. Antes de comprar ração ou suplemento, precisa olhar para a
forragem, para os animais, para a água, para o cocho e para o período do ano.
Alimentar bem não é apenas oferecer comida. É fornecer o alimento certo, na
forma certa, para o animal certo e no momento certo.
Quando esse raciocínio é compreendido, a
nutrição deixa de ser um gasto confuso e passa a ser uma ferramenta de manejo.
E, em qualquer sistema de produção animal, essa diferença faz muito efeito no
desempenho, no custo e na saúde do rebanho.
Referências bibliográficas
EMBRAPA. Os alimentos. Campo Grande:
Embrapa Gado de Corte.
EMBRAPA. Nutrição de bovinos de corte:
fundamentos e aplicações. Brasília: Embrapa, 2015.
EMBRAPA. Alimentos para gado de leite.
Brasília: Embrapa Informação Tecnológica.
EMBRAPA. Metodologias para avaliação de
alimentos para ruminantes domésticos. Porto Velho: Embrapa Rondônia.
SENAR. Bovinocultura: manejo e alimentação
de bovinos de corte em confinamento. Brasília: Serviço Nacional de Aprendizagem
Rural.
Aula 3 — Como o ruminante aproveita a
forragem?
Para entender a importância da forragem, é
preciso compreender como o ruminante transforma capim, feno, silagem e outros
volumosos em energia, proteína, crescimento, leite, carne e reprodução.
Bovinos, ovinos, caprinos e bubalinos não aproveitam a forragem da mesma forma
que animais monogástricos, como suínos, aves ou cavalos. Eles possuem um
sistema digestivo especializado, capaz de usar alimentos ricos em fibra com a
ajuda de microrganismos que vivem no rúmen.
O rúmen é o grande diferencial desses
animais. Ele funciona como uma câmara de fermentação, onde bactérias,
protozoários e fungos atuam na degradação dos alimentos, especialmente dos
carboidratos estruturais presentes nas plantas. Materiais técnicos da Embrapa
explicam que, nos ruminantes, grande parte da digestão dos carboidratos ocorre
no rúmen, onde os microrganismos degradam esses compostos e produzem
substâncias que depois serão aproveitadas pelo animal.
Por isso, quando alimentamos um ruminante,
não estamos alimentando apenas o animal. Estamos alimentando também a população
de microrganismos que vive dentro dele. Se essa população está equilibrada, o
animal aproveita melhor a forragem. Se o ambiente ruminal se desequilibra, o
consumo cai, a digestão piora e podem surgir problemas metabólicos.
O caminho da forragem no organismo
Quando o animal consome a forragem, ele mastiga rapidamente e
engole o alimento. Esse alimento chega ao rúmen e ao
retículo, onde começa a fermentação. Depois, parte desse material volta à boca
para ser remastigada. Esse processo é chamado de ruminação.
A ruminação é essencial porque reduz o
tamanho das partículas da forragem, aumenta a área de contato do alimento com
os microrganismos e estimula a produção de saliva. A saliva, além de ajudar na
mastigação e deglutição, contribui para manter o equilíbrio do pH ruminal. A
Embrapa destaca que a ruminação é estimulada pela fibra fisicamente efetiva da
dieta e que a saliva tem papel importante no equilíbrio ácido-base do rúmen.
Depois de bem processado no rúmen, o
alimento segue para outros compartimentos: omaso e abomaso. O abomaso é
conhecido como o “estômago verdadeiro”, pois nele ocorre digestão por secreções
do próprio animal, semelhante ao que acontece em animais não ruminantes. Na
sequência, os nutrientes seguem para o intestino, onde ocorre absorção.
Esse caminho mostra que o aproveitamento
da forragem depende de várias etapas. Não basta o animal ingerir o alimento.
Ele precisa mastigar, ruminar, fermentar, digerir e absorver. Qualquer falha
nesse processo pode reduzir o desempenho.
O papel dos microrganismos do rúmen
Os microrganismos ruminais são os grandes
responsáveis pela capacidade dos ruminantes de aproveitar a fibra das plantas.
Eles degradam celulose, hemicelulose e outros componentes da parede celular
vegetal. Esses compostos estão presentes em grande quantidade nas forragens e
seriam pouco aproveitados sem a fermentação ruminal.
Durante a fermentação, os microrganismos
produzem ácidos graxos de cadeia curta, principalmente acético, propiônico e
butírico. Esses compostos são absorvidos pela parede do rúmen e usados como
fonte de energia pelo animal. Segundo material da Embrapa, esses ácidos podem
ser utilizados para geração de energia ou como precursores de gordura e glicose
no organismo.
Além disso, os microrganismos também
formam proteína microbiana. Quando eles seguem pelo trato digestivo e chegam ao
abomaso e ao intestino, são digeridos e passam a fornecer aminoácidos ao
animal. Esse é um ponto muito importante: parte da proteína aproveitada pelo
ruminante vem dos próprios microrganismos que se multiplicaram dentro do rúmen.
Por isso, a alimentação do ruminante deve favorecer a vida microbiana. Dietas muito pobres, mudanças bruscas de alimento, falta de fibra efetiva ou excesso de concentrado podem prejudicar essa população e comprometer a
isso, a alimentação do ruminante deve
favorecer a vida microbiana. Dietas muito pobres, mudanças bruscas de alimento,
falta de fibra efetiva ou excesso de concentrado podem prejudicar essa
população e comprometer a digestão.
A fibra como aliada da saúde ruminal
Muitas vezes, quem está começando pensa
que fibra é apenas uma parte “grosseira” do alimento. Na nutrição de
ruminantes, porém, a fibra tem função essencial. Ela estimula a mastigação, a
ruminação, a produção de saliva e a movimentação do rúmen.
A fibra efetiva é aquela que realmente
estimula o animal a ruminar. Ela está relacionada ao tamanho das partículas e à
estrutura física do alimento. Uma forragem muito moída, por exemplo, pode até
ter fibra na análise, mas não estimular a ruminação da mesma forma que uma
forragem com partículas adequadas. Por isso, a forma física do alimento também
importa.
Quando falta fibra efetiva, o rúmen pode
ficar mais ácido, principalmente se a dieta tiver muitos grãos ou concentrados
de rápida fermentação. Dietas ricas em grãos reduzem a salivação e a produção
de substâncias tamponantes, favorecendo queda do pH ruminal e risco de acidose,
timpanismo e inflamações no rúmen.
Por outro lado, fibra em excesso também
pode ser um problema. Forragens muito maduras, com muitos talos e baixa
digestibilidade, ocupam espaço no rúmen por mais tempo e podem limitar o
consumo de matéria seca. Documentos técnicos sobre avaliação de alimentos para
ruminantes destacam que a fibra excessiva pode reduzir a concentração
energética da dieta e deprimir o consumo de matéria seca.
Assim, o segredo não é retirar a fibra nem
exagerar nela. O segredo é oferecer fibra de boa qualidade, em quantidade
adequada e com estrutura física capaz de manter o rúmen saudável.
Forragem jovem e forragem passada
A idade da planta interfere muito no
aproveitamento pelo animal. Uma forragem mais jovem costuma ter maior proporção
de folhas, melhor digestibilidade e maior teor de nutrientes. Já uma forragem
passada tem mais colmos, mais material seco e maior quantidade de fibra menos
digestível.
Na prática, isso explica por que um pasto
alto nem sempre é melhor. O produtor pode olhar para uma área cheia de capim e
imaginar que há alimento sobrando. Mas, se esse capim estiver muito velho, o
animal pode selecionar apenas algumas folhas e rejeitar talos duros. Com isso,
o consumo real diminui.
Quando a forragem tem baixa qualidade, o alimento permanece mais tempo no rúmen, a taxa de passagem diminui e o
a forragem tem baixa qualidade, o
alimento permanece mais tempo no rúmen, a taxa de passagem diminui e o animal
demora mais para sentir fome novamente. Como resultado, ele consome menos
matéria seca ao longo do dia. Menor consumo significa menor entrada de
nutrientes, o que afeta ganho de peso, produção de leite e condição corporal.
Por isso, manejar o pasto no ponto certo é uma forma direta de melhorar a nutrição. O animal aproveita melhor uma forragem colhida ou pastejada no momento adequado do que uma grande quantidade de massa velha e pouco digestível.
A importância da adaptação alimentar
O rúmen precisa de estabilidade. Os
microrganismos se adaptam ao tipo de dieta que o animal recebe. Se a dieta muda
de forma brusca, a população microbiana pode não acompanhar essa mudança
rapidamente.
Isso acontece, por exemplo, quando animais
acostumados apenas ao pasto passam a receber grande quantidade de concentrado
de uma vez. O excesso de carboidratos de fermentação rápida pode provocar
produção intensa de ácidos, queda do pH ruminal e acidose. A Embrapa alerta que
o consumo abrupto de grande quantidade de concentrado causa fermentação
intensa, desequilíbrio do pH ruminal e pode levar à acidose, além de favorecer
problemas como laminite, timpanismo e abscessos hepáticos.
A adaptação deve ser gradual. Quando for
necessário introduzir ração, silagem, ureia, proteinado ou qualquer novo
alimento, o produtor deve fazer isso aos poucos, respeitando o tempo de
resposta do rúmen. Essa transição reduz riscos e melhora o aproveitamento da
dieta.
Também é importante manter regularidade no
fornecimento. Grandes variações de horário, quantidade ou tipo de alimento
prejudicam o comportamento alimentar e podem afetar a fermentação ruminal.
Ruminantes gostam de rotina, e o rúmen funciona melhor quando recebe alimento
de forma equilibrada.
Água, ruminação e consumo
A água também participa diretamente do
aproveitamento da forragem. Sem água suficiente, o consumo cai. Se o animal
bebe pouco, come menos, rumina menos e aproveita pior os nutrientes. Bebedouros
sujos, distantes ou insuficientes afetam a nutrição tanto quanto um alimento
mal escolhido.
Outro ponto importante é observar a
ruminação. Animais saudáveis passam parte do dia ruminando, principalmente em
momentos de descanso. Quando muitos animais deixam de ruminar, ficam inquietos,
reduzem consumo ou apresentam fezes muito alteradas, pode haver problema na
dieta.
A observação diária ajuda o produtor a perceber
sinais antes que o prejuízo fique grande. O rúmen não é visível por
fora, mas o comportamento do animal mostra muito sobre seu funcionamento.
Consumo, ruminação, fezes, escore corporal e produção são indicadores simples e
úteis.
Como melhorar o aproveitamento da
forragem?
O primeiro passo é oferecer forragem de
qualidade. Isso envolve escolher a espécie adequada, cuidar do solo, respeitar
altura de pastejo, evitar tanto o superpastejo quanto o acúmulo de capim velho
e planejar alimento para a seca.
O segundo passo é manter equilíbrio entre
volumoso e concentrado. O volumoso é a base da dieta dos ruminantes. O
concentrado pode ser necessário, mas deve entrar como complemento, não como
substituto desordenado da fibra.
O terceiro passo é evitar mudanças
bruscas. Toda alteração alimentar deve ser feita com adaptação. Isso vale para
entrada em confinamento, início de suplementação, troca de silagem, uso de
ureia ou aumento de ração.
O quarto passo é garantir acesso a água
limpa, sal mineral adequado e espaço de cocho. Muitas falhas de nutrição não
estão apenas na fórmula da dieta, mas na forma como o alimento chega ao animal.
Exemplo prático
Imagine dois lotes de bovinos em
propriedades diferentes. No primeiro lote, os animais recebem pasto manejado no
ponto correto, com boa quantidade de folhas, água próxima e sal mineral
disponível. Mesmo sem grande quantidade de ração, os animais mantêm bom consumo
e ruminação.
No segundo lote, há muito capim acumulado,
mas velho e fibroso. Os animais selecionam o pouco que conseguem, deixam talos
para trás e perdem condição corporal. O produtor decide fornecer concentrado
rapidamente, sem adaptação. Alguns animais comem demais, outros comem pouco, e
o lote começa a apresentar fezes alteradas e queda de desempenho.
A diferença entre os dois casos não está
apenas na quantidade de alimento. Está no funcionamento do sistema. No
primeiro, a forragem favorece o rúmen. No segundo, a dieta é desequilibrada, a
fibra é de baixa qualidade e a mudança alimentar foi brusca.
Conclusão
O ruminante aproveita a forragem graças à
ação conjunta entre o animal, o rúmen e os microrganismos que vivem nele. A
forragem fornece fibra, estimula a ruminação e serve de base para a fermentação
ruminal. Essa fermentação gera energia e proteína microbiana, permitindo que o
animal transforme plantas fibrosas em produção.
Para o iniciante, a principal lição desta aula é simples: cuidar da forragem é cuidar do rúmen. Um rúmen saudável depende de
o iniciante, a principal lição desta
aula é simples: cuidar da forragem é cuidar do rúmen. Um rúmen saudável depende
de fibra adequada, dieta equilibrada, água limpa, adaptação alimentar e manejo
correto do pasto. Quando esses fatores estão em harmonia, o animal consome
melhor, digere melhor e produz melhor.
A nutrição de ruminantes não começa no saco de ração. Começa no entendimento de como o animal aproveita aquilo que come. E, nesse processo, a forragem bem manejada continua sendo uma das ferramentas mais importantes da produção animal.
Referências bibliográficas
EMBRAPA. Nutrição de bovinos de corte:
fundamentos e aplicações. Brasília: Embrapa, 2015.
EMBRAPA. Rúmen: o herói esquecido da
pecuária. São Carlos: Embrapa Pecuária Sudeste, 2021.
EMBRAPA. Metodologias para avaliação de
alimentos para ruminantes domésticos. Porto Velho: Embrapa Rondônia, 2010.
EMBRAPA. Dieta de alto concentrado diminui
GEEs na pecuária e pode ser mais econômica. Brasília: Embrapa, 2020.
EMBRAPA. Utilização da ureia na
alimentação de ruminantes no semiárido. Petrolina: Embrapa Semiárido.
EMBRAPA. 500 perguntas, 500 respostas:
feijão-caupi. Brasília: Embrapa.
Estudo de caso — O pasto estava cheio, mas
os animais não estavam bem
Na propriedade Santa Helena, uma pequena
fazenda de cria e recria, o produtor João cuidava de 32 bovinos em uma área de
pastagem formada havia alguns anos. À primeira vista, parecia não faltar
alimento. O capim estava alto, havia bastante massa verde e os animais
circulavam livremente pelo pasto. Por isso, João acreditava que a nutrição do
rebanho estava garantida.
Com o passar das semanas, porém, ele
começou a perceber sinais preocupantes. Alguns animais estavam perdendo peso, o
pelo ficou mais áspero, as bezerras demoravam a se desenvolver e as vacas
pareciam menos dispostas. Mesmo com “muito capim”, o resultado não aparecia. O
primeiro pensamento de João foi comprar ração, porque imaginou que o problema
era falta de alimento concentrado.
Ao receber a visita de uma técnica, a
situação começou a ficar mais clara. O pasto realmente tinha volume, mas grande
parte da forragem estava passada, com muitos talos, folhas secas e baixa
proporção de folhas novas. Os animais caminhavam bastante, escolhiam apenas as
partes mais tenras e deixavam sobras grosseiras. Ou seja, havia quantidade
visual, mas baixa qualidade de consumo.
Esse é um erro comum em propriedades iniciantes: confundir pasto alto com pasto nutritivo. A forragem precisa ter
quantidade, mas também precisa ter qualidade, digestibilidade e boa aceitação.
Materiais da Embrapa classificam capins verdes, fenos, silagens e palhadas como
alimentos volumosos importantes para ruminantes, mas deixam claro que esses
alimentos variam muito em composição e valor nutritivo.
A técnica explicou a João que o animal não
se alimenta apenas de “volume”. Ele precisa consumir matéria seca com
nutrientes aproveitáveis. Como a água dos alimentos varia muito, comparar
alimentos apenas pelo peso natural pode enganar. Um capim muito úmido, uma
silagem, um feno ou uma palhada não oferecem a mesma quantidade de nutrientes
por quilo fornecido. Por isso, na nutrição animal, a matéria seca é uma
referência essencial para comparar alimentos e planejar dietas.
Outro problema estava no manejo. Os
animais ficavam muito tempo na mesma área. Em alguns pontos, o pasto estava
alto e envelhecido; em outros, estava muito baixo, quase raspado. Isso mostrava
seleção intensa e pastejo desigual. Onde os animais preferiam comer, a planta
não tinha tempo de se recuperar. Onde eles rejeitavam, o capim passava do ponto
e perdia qualidade.
A técnica mostrou que a pastagem deveria
ser tratada como uma lavoura. Não bastava deixar o gado entrar e sair sem
controle. Era preciso observar altura, descanso, lotação e rebrota. Materiais
técnicos sobre manejo de pastagens reforçam a importância de controlar entrada
e saída dos animais conforme a altura da forrageira, pois isso ajuda a
preservar a planta e melhorar o aproveitamento do pasto.
No cocho, havia outro detalhe importante.
João oferecia apenas sal comum, acreditando que isso era suficiente. No
entanto, sal comum fornece basicamente sódio e cloro, enquanto os animais
também precisam de outros minerais. A falta de suplementação mineral adequada
pode prejudicar crescimento, reprodução, imunidade e desempenho geral. O sal
mineral correto não substitui o pasto, mas corrige carências importantes da
dieta.
Quando a técnica observou os animais no
fim da tarde, percebeu que poucos estavam ruminando tranquilamente. Muitos
ainda caminhavam procurando partes melhores do pasto. Isso indicava que o
alimento disponível não estava sendo bem aproveitado. Em ruminantes, a fibra da
forragem é fundamental para estimular mastigação, ruminação e produção de
saliva, ajudando a manter o equilíbrio do rúmen.
João também queria resolver tudo rapidamente com concentrado. A técnica orientou que isso precisava ser feito com cuidado. Concentrados
também queria resolver tudo
rapidamente com concentrado. A técnica orientou que isso precisava ser feito
com cuidado. Concentrados podem ser úteis, principalmente quando há deficiência
de energia ou proteína, mas não devem ser introduzidos de forma brusca.
Mudanças rápidas na dieta podem desequilibrar o rúmen, reduzir o consumo e
causar problemas digestivos. O concentrado deve complementar uma base
forrageira bem manejada, não tentar compensar sozinho uma pastagem
mal-conduzida.
A solução não foi uma única medida, mas um
conjunto de ajustes simples. Primeiro, João dividiu melhor a área para reduzir
o pastejo desordenado. Depois, passou a retirar os animais antes que
rebaixassem demais o capim. Também começou a observar quais áreas precisavam de
descanso e quais estavam acumulando material velho. Parte da pastagem foi
roçada para eliminar excesso de talos e estimular nova brotação.
Em seguida, ele substituiu o sal comum por
uma mistura mineral indicada para bovinos de corte da região. Também limpou os
cochos, colocou cobertura para evitar chuva no suplemento e melhorou o acesso à
água. A água ficava distante de alguns pontos do pasto, o que fazia os animais
usarem mal a área. Com bebedouro mais acessível, o pastejo ficou mais
distribuído.
A técnica recomendou ainda que João
planejasse a época seca. Até então, ele só pensava em suplementação quando os
animais já estavam magros. O novo plano incluía reservar uma área de pasto,
avaliar a possibilidade de produzir silagem ou feno e acompanhar o escore
corporal do rebanho antes da perda de peso se tornar evidente.
Com o tempo, João percebeu que a nutrição
animal começava antes da compra de ração. Começava no olhar para o pasto, na
qualidade da forragem, no funcionamento do rúmen, no sal mineral, na água e na
rotina de observação. O capim deixou de ser visto como “mato disponível” e
passou a ser tratado como alimento.
Erros comuns identificados no caso
O primeiro erro foi acreditar que pasto
alto sempre significa boa alimentação. O pasto pode estar volumoso, mas
envelhecido, fibroso e pouco digestível. Nesse caso, o animal come menos do que
precisa e aproveita pior o alimento.
O segundo erro foi não diferenciar
quantidade de qualidade. Havia muita massa no campo, mas pouca folha nova e
nutritiva. A aparência do pasto enganou o produtor.
O terceiro erro foi deixar os animais
muito tempo na mesma área. Isso causou pastejo desigual: algumas partes foram
muito rebaixadas, enquanto outras ficaram passadas.
O
quarto erro foi usar apenas sal comum,
sem suplementação mineral adequada. O sal comum não atende sozinho às
necessidades minerais do rebanho.
O quinto erro foi pensar em concentrado
como primeira solução. A ração pode ajudar, mas não corrige sozinha falta de
manejo, baixa qualidade da forragem, deficiência mineral, água distante ou
lotação inadequada.
Como evitar esses erros
Para evitar esses problemas, o produtor
deve observar o pasto com atenção. É preciso olhar se há mais folhas ou talos,
se o capim está muito baixo ou muito passado, se existem áreas descobertas, se
há plantas invasoras e se os animais conseguem pastejar de forma tranquila.
Também é importante respeitar o tempo de
recuperação da planta. O pasto precisa descansar para rebrotar. Quando o animal
volta cedo demais, a planta enfraquece. Quando volta tarde demais, a forragem
perde qualidade.
Outro cuidado é separar os alimentos por
função. Volumosos, como pasto, feno e silagem, formam a base da dieta.
Concentrados ajudam a complementar energia e proteína. Suplementos corrigem
carências específicas, especialmente minerais. Cada um tem seu papel.
A suplementação deve ser planejada, não
improvisada. Antes de comprar produtos, o produtor precisa avaliar a condição
do pasto, a categoria dos animais, a época do ano, o objetivo produtivo e o
custo-benefício.
Por fim, o produtor deve lembrar que
ruminantes dependem de um rúmen saudável. Mudanças alimentares devem ser
graduais, a fibra precisa ser adequada e a água deve estar sempre limpa e
acessível. Cuidar do rúmen é cuidar do desempenho do animal.
Conclusão do estudo de caso
O caso da propriedade Santa Helena mostra
que muitos problemas de nutrição animal não começam no cocho, mas no manejo da
forragem. O rebanho não precisava apenas de mais comida. Precisava de alimento
mais bem aproveitado, pastagem bem conduzida, suplementação mineral correta e
decisões mais planejadas.
A principal lição do módulo 1 é que
forragem não é apenas capim. É alimento. E alimento precisa ser observado,
manejado e equilibrado com as necessidades do animal. Quando o produtor entende
essa lógica, ele deixa de agir apenas quando o problema aparece e passa a
prevenir perdas antes que elas comprometam o rebanho.
Questões para reflexão
1. O
que fez João acreditar, inicialmente, que os animais estavam bem alimentados?
2. Por
que o pasto alto não garantia boa nutrição?
3. Qual
foi a diferença entre ter muita forragem e ter forragem de qualidade?
4. Por
que o concentrado não deveria ser a primeira solução?
5. Que
medidas simples melhoraram o aproveitamento do pasto e a saúde do rebanho?
Referências bibliográficas
EMBRAPA. Os alimentos. Campo Grande:
Embrapa Gado de Corte.
EMBRAPA. Fibra efetiva para vacas em
lactação. Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite.
EMBRAPA. Régua de manejo de pastagens.
Campo Grande: Embrapa Gado de Corte.
EMBRAPA. Catálogo de forrageiras
recomendadas pela Embrapa. Brasília: Embrapa.
SENAR. Pastagens: manejo de pastagens tropicais. Brasília: Serviço Nacional de Aprendizagem Rural.
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