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Introdução em Nefrologia

INTRODUÇÃO EM NEFROLOGIA

 

Fundamentos da Nefrologia 

Anatomia e Fisiologia dos Rins 

 

Os rins são órgãos vitais do sistema urinário, com funções essenciais para a homeostase corporal, incluindo a excreção de resíduos metabólicos, regulação do equilíbrio hidroeletrolítico e produção de hormônios. Seu estudo envolve aspectos anatômicos e fisiológicos fundamentais para a compreensão de diversas condições clínicas relacionadas ao sistema renal.

Localização e Estrutura Macroscópica dos Rins

Os rins estão localizados na região retroperitoneal do abdome, um de cada lado da coluna vertebral, entre as vértebras T12 e L3. O rim direito geralmente se encontra levemente mais baixo do que o esquerdo, devido à posição do fígado. Cada rim mede aproximadamente 10 a 12 cm de comprimento, 5 a 7 cm de largura e 2,5 a 3 cm de espessura, com um peso médio de 120 a 150 g em adultos.

A estrutura macroscópica de cada rim compreende três regiões principais: o córtex renal (camada externa), a medula renal (camada interna composta por pirâmides renais) e a pelve renal, que coleta a urina formada e a conduz para os ureteres. As pirâmides renais convergem para as papilas renais, que drenam a urina para os cálices menores, depois para os cálices maiores e, por fim, para a pelve renal.

O sangue é suprido pelos rins por meio das artérias renais, ramos diretos da aorta abdominal, e drenado pelas veias renais em direção à veia cava inferior.

Unidade Funcional: o Néfron

A unidade funcional básica do rim é o néfron, responsável pela filtração do sangue e formação da urina. Cada rim contém cerca de 1 a 1,5 milhão de néfrons. Estruturalmente, o néfron é composto por dois principais segmentos: o corpúsculo renal e o túbulo renal.

O corpúsculo renal inclui o glomérulo (um novelo de capilares sanguíneos) e a cápsula de Bowman, onde ocorre a filtração inicial do plasma sanguíneo. O filtrado glomerular então percorre o túbulo contorcido proximal, a alça de Henle (com ramos descendente e ascendente), o túbulo contorcido distal e os túbulos coletores.

Os néfrons são classificados em corticais (situados no córtex renal) e justamedulares (próximos à medula renal e com alças de Henle longas), sendo esses últimos fundamentais para a capacidade de concentração da urina. Ao longo do túbulo, substâncias úteis como água, eletrólitos e glicose são reabsorvidas para o sangue, enquanto outras são secretadas para a urina tubular.

Funções Principais: Excreção, Regulação e Produção Hormonal

Excreção

A principal função dos rins é a excreção de produtos do metabolismo, como a ureia (derivada do metabolismo de proteínas), creatinina (derivada da creatina muscular), ácido úrico e outros resíduos. Por meio da filtração glomerular e dos processos de reabsorção e secreção tubular, os rins garantem a eliminação dessas substâncias na urina, mantendo a composição química do plasma adequada para o funcionamento celular.

Regulação

Os rins desempenham papel essencial na regulação do equilíbrio hidroeletrolítico, controlando a concentração de sódio, potássio, cálcio, fósforo, magnésio e outros íons. Também regulam o equilíbrio ácido-base, ajustando a excreção de íons hidrogênio (H⁺) e a reabsorção de bicarbonato (HCO₃⁻), mecanismos importantes para manter o pH sanguíneo dentro de limites fisiológicos (7,35–7,45).

A regulação da pressão arterial também é uma função renal crítica. Os rins liberam renina, uma enzima envolvida no sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA), que promove vasoconstrição e retenção de sódio e água, elevando a pressão arterial. Além disso, o controle do volume extracelular contribui diretamente para o controle hemodinâmico.

Produção Hormonal

Além de funções excretoras e regulatórias, os rins possuem importante papel endócrino. Eles produzem hormônios como:

  • Eritropoetina (EPO): estimula a produção de eritrócitos na medula óssea, em resposta à hipóxia;
  • Calcitriol (forma ativa da vitamina D): atua na regulação do cálcio e fósforo, promovendo absorção intestinal e reabsorção renal desses minerais;
  • Renina: como mencionado, participa da regulação da pressão arterial.

Essas funções hormonais tornam os rins centrais não apenas para o sistema urinário, mas também para os sistemas cardiovascular, hematopoiético e esquelético.

Considerações Finais

O conhecimento da anatomia e fisiologia renal é essencial para a compreensão das diversas doenças nefrológicas, assim como para a abordagem clínica de distúrbios que afetam a homeostase geral do organismo. A integridade da estrutura renal e o funcionamento adequado dos néfrons são indispensáveis para a manutenção da vida.

Referências Bibliográficas:

  • GUYTON, Arthur C.; HALL, John E. Tratado de Fisiologia Médica. 14. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  • JUNQUEIRA, Luiz C.; CARNEIRO, José. Histologia Básica. 13. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017.
  • MOORE, Keith L.; DALLEY, Arthur F.; AGUR, Anne M. R. Anatomia Orientada para
  • Orientada para a Clínica. 7. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2014.
  • NETTER, Frank H. Atlas de Anatomia Humana. 7. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2019.
  • SILVA JÚNIOR, Wilson S.; MOURA, Lindemberg S. Nefrologia Básica. São Paulo: Atheneu, 2015.

 

Funções Renais e Equilíbrio Hidroeletrolítico

 

O funcionamento renal é essencial para a manutenção da homeostase corporal. Os rins exercem múltiplas funções vitais que vão além da simples excreção de resíduos metabólicos, atuando também na regulação do equilíbrio hidroeletrolítico, ácido-base, pressão arterial e produção hormonal. Entre os principais mecanismos fisiológicos que permitem essas funções estão a filtração glomerular, a reabsorção e secreção tubular, além de complexos sistemas de regulação iônica e volumétrica que envolvem o sódio, potássio, bicarbonato e a água corporal.

Filtração Glomerular, Reabsorção e Secreção Tubular

A filtração glomerular ocorre nos corpúsculos renais, mais especificamente nos glomérulos — um novelo de capilares envolto pela cápsula de Bowman. O sangue chega aos glomérulos pelas arteríolas aferentes, e a pressão hidrostática glomerular força a passagem de água e solutos do plasma através da membrana de filtração para o espaço capsular. Essa membrana é seletiva, permitindo a passagem de pequenas moléculas (água, íons, glicose, ureia), mas retendo células sanguíneas e proteínas maiores.

A taxa de filtração glomerular (TFG) é um dos principais indicadores da função renal, com um valor médio de aproximadamente 125 mL/min em adultos. Isso significa que cerca de 180 litros de filtrado são produzidos por dia, dos quais mais de 99% são reabsorvidos, com menos de 2 litros sendo eliminados como urina.

Após a filtração, o túbulo renal realiza dois processos fundamentais: a reabsorção e a secreção tubular. A reabsorção é a recuperação de substâncias úteis, como glicose, aminoácidos, sódio, potássio, bicarbonato e água, devolvendo-as ao sangue. Isso ocorre principalmente no túbulo contorcido proximal, onde cerca de 65% do filtrado é reabsorvido. A alça de Henle, o túbulo distal e os túbulos coletores continuam esse processo seletivo, especialmente no controle do volume urinário final.

A secreção tubular, por outro lado, consiste na transferência de substâncias do sangue para o interior do túbulo, como íons hidrogênio, potássio, amônia e certos medicamentos, permitindo eliminação ativa de substâncias potencialmente tóxicas ou em excesso.

Regulação do

Equilíbrio Ácido-Base

A manutenção do pH sanguíneo entre 7,35 e 7,45 é crucial para o funcionamento adequado das células e sistemas enzimáticos. Os rins exercem papel essencial na regulação do equilíbrio ácido-base, trabalhando em conjunto com os sistemas tampões e os pulmões.

Os mecanismos renais de controle do pH envolvem a reabsorção de bicarbonato (HCO₃⁻) filtrado e a secreção de íons hidrogênio (H⁺) nos túbulos renais. No túbulo proximal, quase todo o bicarbonato filtrado é reabsorvido. Já no túbulo distal e nos ductos coletores, ocorre secreção ativa de H⁺, promovendo acidificação da urina.

Quando o organismo apresenta um estado de acidose metabólica, os rins aumentam a excreção de H⁺ e a geração de bicarbonato novo, além de intensificar a excreção de ácidos tituláveis e amônio. Em contrapartida, em alcalose metabólica, a reabsorção de bicarbonato é inibida e a secreção de H⁺ é reduzida.

Diferente dos pulmões, que regulam o pH rapidamente por meio da excreção de CO₂, os rins são responsáveis por uma compensação mais lenta, porém mais duradoura e eficaz, especialmente em distúrbios metabólicos crônicos.

Controle de Sódio, Potássio e Líquidos Corporais

O equilíbrio hídrico e eletrolítico depende de um delicado controle da quantidade de sódio (Na⁺), potássio (K⁺) e água no corpo, sendo regulado principalmente pelos rins.

Sódio e volume extracelular

O sódio é o principal cátion do líquido extracelular e determina, em grande parte, o volume plasmático e a pressão arterial. Sua reabsorção ocorre em todas as partes do túbulo renal, sendo modulada por vários hormônios, com destaque para a aldosterona (produzida pela suprarrenal), que estimula a reabsorção de sódio nos túbulos distais e ductos coletores, em troca da secreção de potássio.

A concentração de sódio influencia a liberação do hormônio antidiurético (ADH), também chamado de vasopressina. O ADH promove a inserção de aquaporinas nos túbulos coletores, aumentando a reabsorção de água, concentrando a urina e reduzindo a perda hídrica.

Potássio e excitação celular

O potássio é o principal íon intracelular e tem papel fundamental na transmissão nervosa e contração muscular. Pequenas variações na sua concentração plasmática podem causar arritmias graves. O rim regula a excreção de potássio principalmente no túbulo distal e ductos coletores, por meio de mecanismos dependentes de aldosterona e do estado ácido-base.

A hipercalemia (excesso de potássio no sangue) estimula diretamente a secreção de

aldosterona, aumentando a eliminação de K⁺ na urina. Em contrapartida, a hipocalemia (níveis baixos de potássio) reduz essa secreção, preservando o íon.

Água e osmolaridade

A regulação da osmolaridade plasmática e do volume de água corporal é outro papel crítico dos rins. O centro osmorreceptor no hipotálamo detecta variações na osmolaridade do plasma e controla a liberação de ADH pela neuro-hipófise. Quando a osmolaridade aumenta (desidratação), o ADH é liberado, aumentando a reabsorção de água e concentrando a urina. Quando a osmolaridade diminui (hidratação excessiva), o ADH é suprimido, resultando em urina mais diluída.

Considerações Finais

As funções renais são fundamentais para a vida, garantindo o equilíbrio interno por meio de processos de filtração, reabsorção, secreção e excreção. A regulação precisa dos íons, do pH e do volume de água corporal reflete o papel sofisticado e adaptativo dos rins frente a diferentes desafios fisiológicos. A compreensão desses mecanismos é essencial para o diagnóstico e tratamento de doenças renais e de distúrbios eletrolíticos comuns na prática clínica.

Referências Bibliográficas:

  • GUYTON, Arthur C.; HALL, John E. Tratado de Fisiologia Médica. 14. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  • BORON, Walter F.; BOULPAEP, Emile L. Fisiologia Médica. 3. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2018.
  • COSTANZO, Linda S. Fisiologia. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2020.
  • HALL, John E. Pocket Companion to Guyton and Hall Textbook of Medical Physiology. Elsevier, 2016.
  • SILVA JÚNIOR, Wilson S. Nefrologia Básica. São Paulo: Atheneu, 2015.


Exames Básicos na Avaliação Renal

 

A função renal pode ser avaliada por meio de diversos exames laboratoriais que fornecem dados essenciais sobre a capacidade dos rins em realizar suas funções de filtração, excreção e regulação. Dentre os exames mais comumente utilizados na prática clínica estão os níveis séricos de creatinina e ureia, a estimativa da taxa de filtração glomerular (TFG), a depuração renal e a análise da urina tipo I (ou EAS – elementos anormais e sedimento), incluindo a verificação de proteinúria. Esses exames são de fácil acesso, baixo custo e fornecem informações fundamentais para o diagnóstico, acompanhamento e estratificação de risco de doenças renais.

Creatinina, Ureia e Função Renal

A creatinina é um produto da degradação da creatina fosfato nos músculos, sendo produzida em quantidade relativamente constante e eliminada pelos rins

por filtração glomerular. Como não sofre reabsorção significativa nos túbulos renais, a creatinina sérica é um dos marcadores mais utilizados para estimar a função renal. Elevações nos níveis séricos de creatinina estão associadas à redução da filtração glomerular, embora possam ser influenciadas por fatores como massa muscular, idade, sexo e estado nutricional.

Valores normais de creatinina variam entre 0,6 a 1,3 mg/dL nos adultos, dependendo do laboratório. No entanto, alterações leves podem não refletir prejuízo real da função renal, especialmente em idosos ou indivíduos com pouca massa muscular. Por isso, é recomendável complementar a análise com a estimativa da TFG.

A ureia é um composto resultante do metabolismo de proteínas no fígado e é excretada pelos rins. Ao contrário da creatinina, a ureia sofre reabsorção tubular em situações de hipovolemia, o que pode levar a aumentos desproporcionais em relação à creatinina, especialmente em estados pré-renais. Assim, a ureia é considerada um marcador menos específico da função glomerular, mas útil na avaliação do equilíbrio nitrogenado e da hidratação.

A relação ureia/creatinina pode ser útil na diferenciação entre causas pré-renais e renais de elevação da ureia. Relações elevadas sugerem causas pré-renais, enquanto relações próximas do normal apontam para disfunção renal intrínseca.

Depuração e Taxa de Filtração Glomerular (TFG)

A taxa de filtração glomerular (TFG) é o principal parâmetro para a avaliação quantitativa da função renal. Refere-se ao volume de filtrado glomerular formado por minuto, refletindo diretamente a capacidade dos rins em filtrar o plasma.

A forma mais precisa de se obter a TFG é pela depuração da inulina, um marcador exógeno que é completamente filtrado e não reabsorvido ou secretado. No entanto, essa técnica é complexa e pouco disponível na prática clínica. Assim, utiliza-se com mais frequência a depuração de creatinina como estimativa.

A depuração de creatinina (ClCr) é calculada a partir da concentração de creatinina na urina coletada por 24 horas e no sangue, pela fórmula:

ClCr = (creatinina urinária × volume urinário) / (creatinina plasmática × tempo)

Entretanto, pela dificuldade de coleta adequada da urina de 24 horas, a TFG é frequentemente estimada por fórmulas matemáticas baseadas na creatinina sérica, como a Cockcroft-Gault, MDRD e CKD-EPI. Esta última é a mais recomendada atualmente pelas diretrizes, por apresentar melhor acurácia em diferentes faixas etárias e

níveis de função renal.

Os estágios da Doença Renal Crônica (DRC) são classificados com base na TFG:

  • Estágio 1: TFG ≥ 90 mL/min/1,73m² (com dano renal comprovado)
  • Estágio 2: TFG 60–89 mL/min/1,73m²
  • Estágio 3a: TFG 45–59 mL/min/1,73m²
  • Estágio 3b: TFG 30–44 mL/min/1,73m²
  • Estágio 4: TFG 15–29 mL/min/1,73m²
  • Estágio 5: TFG < 15 mL/min/1,73m² (insuficiência renal terminal)

Urina Tipo I e Proteinúria

A urina tipo I ou EAS (Elementos Anormais do Sedimento) é um exame fundamental e de rotina na avaliação da função renal e de distúrbios urinários. Inclui uma análise físico-química (cor, aspecto, densidade, pH), bioquímica (presença de glicose, proteínas, sangue, nitrito, cetonas) e microscópica (células, cilindros, cristais, bactérias).

A proteinúria, especialmente a presença de albumina na urina, é um marcador precoce de lesão glomerular. Em indivíduos saudáveis, a excreção de proteínas pela urina é mínima (menor que 150 mg por dia), com a albumina representando menos de 30 mg. Acima desse valor, já se considera microalbuminúria, e acima de 300 mg/dia, proteinúria manifesta.

A detecção de proteinúria pode ser feita inicialmente pela fita reagente, mas deve ser confirmada por métodos quantitativos. A relação proteína/creatinina ou albumina/creatinina na urina isolada (spot) é uma alternativa prática e confiável à coleta de 24 horas.

A presença persistente de proteinúria, mesmo com TFG normal, é suficiente para diagnosticar DRC. Além disso, o grau de proteinúria se correlaciona com o risco de progressão da doença renal e de eventos cardiovasculares.

Outros achados importantes na urina tipo I incluem:

  • Hemácias dismórficas e cilindros hemáticos, sugestivos de glomerulonefrite;
  • Leucócitos e bactérias, associados a infecção urinária;
  • Cristais, que podem indicar distúrbios metabólicos ou risco de litíase;
  • Cilindros granulosos e cerosos, associados a lesão tubular ou insuficiência renal crônica.

Considerações Finais

A interpretação integrada dos exames de creatinina, ureia, TFG, proteinúria e análise de urina fornece uma visão abrangente da função renal e auxilia no diagnóstico precoce de doenças renais. O conhecimento e a correta aplicação desses exames são fundamentais para a prática clínica em todas as áreas da saúde, especialmente na prevenção e manejo da Doença Renal Crônica, uma condição de alta prevalência e impacto sistêmico.

Referências Bibliográficas:

  • GUYTON, Arthur C.; HALL, John
  • E. Tratado de Fisiologia Médica. 14. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  • KDIGO. Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease. Kidney Int Suppl. 2013.
  • SILVA JÚNIOR, Wilson S.; MOURA, Lindemberg S. Nefrologia Básica. São Paulo: Atheneu, 2015.
  • LEVIN, A.; STEVENS, P.E. Summary of KDIGO 2012 CKD Guideline: Behind the Scenes, Need for Guidance, and a Framework for Moving Forward. Kidney Int. 2014.
  • NETTO, Nilton S. Exames Laboratoriais em Nefrologia. In: MARTINS, H. S. Rotinas em Nefrologia. São Paulo: Manole, 2012.


Ultrassonografia e Exames Complementares na Avaliação Renal

 

A avaliação adequada da função e da anatomia renal exige uma abordagem integrada que combina exames laboratoriais com exames de imagem. A ultrassonografia é o método de imagem de primeira escolha na investigação de doenças renais e urinárias por ser acessível, não invasiva e isenta de radiação ionizante. Além dela, outros exames complementares, como tomografia computadorizada (TC), ressonância magnética (RM), cintilografia renal e exames contrastados, podem ser indicados em casos específicos para diagnóstico diferencial, estadiamento de doenças ou planejamento terapêutico.

Ultrassonografia Renal: Princípios e Indicações

A ultrassonografia renal utiliza ondas sonoras de alta frequência para gerar imagens em tempo real dos rins e das vias urinárias. É um exame seguro, sem contraindicações absolutas e pode ser realizado à beira do leito em situações críticas.

Indicações principais:

  • Avaliação do tamanho, forma e simetria dos rins
  • Pesquisa de dilatação pielocalicial (hidronefrose)
  • Detecção de cálculos renais ou ureterais
  • Identificação de cistos, massas sólidas ou abscessos
  • Avaliação do enchimento vesical e resíduo pós-miccional
  • Acompanhamento de doença renal crônica (atrofia, ecogenicidade cortical)

A imagem ultrassonográfica permite diferenciar rins normais, com contornos regulares e diferenciação entre córtex e medula, de rins alterados, com perda de diferenciação corticomedular, aumento da ecogenicidade cortical (sugerindo doença parenquimatosa crônica) ou dilatação do sistema coletor.

Na doença renal crônica (DRC), os rins costumam estar diminuídos, com aumento da ecogenicidade e parênquima afinado. Já na obstrução urinária aguda, pode haver dilatação pielocalicial com preservação do parênquima.

Tomografia Computadorizada (TC)

A tomografia

computadorizada fornece imagens detalhadas das estruturas renais com maior resolução do que a ultrassonografia, sendo útil em casos complexos ou quando há necessidade de avaliação anatômica precisa.

Principais indicações da TC renal:

  • Avaliação de massas renais (carcinomas, angiomiolipomas)
  • Detecção e caracterização de cálculos urinários
  • Investigação de trauma renal
  • Planejamento pré-operatório de nefrectomias ou cirurgias urológicas
  • Avaliação de complicações de pielonefrite, como abscessos

A TC pode ser realizada com ou sem contraste iodado. O contraste intravenoso é contraindicado em pacientes com insuficiência renal grave devido ao risco de nefropatia induzida por contraste, especialmente quando a TFG está abaixo de 30 mL/min/1,73 m². Nessas situações, alternativas devem ser consideradas.

A urotomografia (ou TC urinária) é uma modalidade específica que permite visualização detalhada das vias urinárias, sendo útil para avaliar uropatias obstrutivas, lesões uroteliais e anomalias congênitas.

Ressonância Magnética (RM)

A ressonância magnética é uma técnica avançada de imagem que fornece imagens multiplanares sem a utilização de radiação ionizante. Seu uso em nefrologia é reservado a situações específicas, principalmente quando a TC está contraindicada.

Indicações da RM na avaliação renal:

  • Avaliação vascular renal (arterite, estenose, trombose venosa)
  • Estudo de massas renais complexas ou indeterminadas
  • Doenças congênitas e malformações urológicas
  • Avaliação detalhada de tumores renais e extensão para vasos

A angiorressonância magnética permite a visualização das artérias e veias renais sem necessidade de contraste iodado. Em alguns casos, utiliza-se gadolínio como contraste paramagnético. Entretanto, o uso de gadolínio em pacientes com insuficiência renal avançada (DRC estágios 4 e 5) deve ser evitado devido ao risco de fibrose sistêmica nefrogênica.

Cintilografia Renal

A cintilografia renal é um exame funcional que utiliza radiofármacos para avaliar a perfusão, função e excreção dos rins. É particularmente útil para análise comparativa da função renal entre os dois rins, avaliação de obstruções e confirmação de processos infecciosos.

Existem diferentes tipos de cintilografia, conforme o radioisótopo utilizado:

  • DTPA (ácido dietileno triamino penta-acético): avalia a filtração glomerular
  • MAG3 (ácido mercaptoacetiltriglicina): útil para avaliação da excreção tubular
  • DMSA (ácido dimercaptosuccínico): permite estudo morfológico e cicatrizes renais

A cintilografia é indicada em casos de infecções urinárias de repetição em crianças, investigação de hidronefrose, avaliação de função renal diferencial pré-nefrectomia, e rastreamento de estenose da artéria renal em hipertensão renovascular.

Outros Exames Complementares

Além das modalidades descritas, outros exames podem ser utilizados em situações clínicas específicas:

  • Urografia excretora: método antigo com uso decrescente, ainda utilizado em locais com limitações tecnológicas.
  • Angiografia renal: atualmente substituída pela angiotomografia e angiorressonância, mas ainda pode ser usada para intervenções terapêuticas.
  • Biópsia renal guiada por imagem: realizada sob ultrassonografia ou TC, permite diagnóstico histológico de glomerulopatias, doenças intersticiais e rejeição em transplantes renais.

Considerações Finais

A ultrassonografia representa o primeiro passo na avaliação por imagem das doenças renais, sendo essencial para detecção de alterações morfológicas e obstrutivas. Exames complementares, como TC, RM e cintilografia, oferecem informações adicionais sobre a estrutura e a função renal, sendo indicados conforme a complexidade do caso. A escolha do exame ideal depende da hipótese diagnóstica, da condição clínica do paciente (especialmente a função renal) e da disponibilidade dos métodos.

Referências Bibliográficas

  • CARVALHO, Carolina R. et al. Imaginologia do Sistema Urinário. In: FLEURY, D. F. (Org.). Radiologia e Diagnóstico por Imagem. 3. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2018.
  • KASPER, Dennis L. et al. Harrison's Principles of Internal Medicine. 20th ed. New York: McGraw-Hill, 2018.
  • SILVA JÚNIOR, Wilson S.; MOURA, Lindemberg S. Nefrologia Básica. São Paulo: Atheneu, 2015.
  • AMERICAN COLLEGE OF RADIOLOGY. Appropriateness Criteria®: Acute Onset Flank Pain – Suspicion of Stone Disease (Urolithiasis), 2021.
  • SOCIEDADE BRASILEIRA DE NEFROLOGIA. Diretrizes Clínicas para Doença Renal Crônica, 2013.

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