BÁSICO EM RESINA COMPOSTA NA
ODONTOLOGIA
Aplicações
e Cuidados Pós-Operatórios
Esculpindo e Finalizando
Restaurações
A excelência em odontologia
restauradora não depende apenas da adesão e da resistência do material
utilizado, mas também da reprodução fiel
da anatomia dental. A correta escultura da resina composta é fundamental
para restabelecer função mastigatória,
oclusão adequada, estética e saúde periodontal. Restaurar a forma dental
envolve profundo conhecimento da anatomia
dental básica, tanto de dentes anteriores quanto posteriores, além de
domínio técnico na aplicação e acabamento do material restaurador.
A restauração ideal é aquela que reconstrói o dente de forma funcional e natural, com contornos adequados, contato proximal, ponto de contato oclusal correto e textura superficial compatível com os dentes vizinhos. Este texto aborda os fundamentos da escultura anatômica em resinas compostas e os cuidados durante o acabamento e finalização das restaurações diretas.
A anatomia dental refere-se à forma, número e disposição das
estruturas morfológicas dos dentes, sendo essencial para guiar a reconstrução
restauradora.
Os dentes anteriores (incisivos e
caninos) possuem características marcantes:
●
Face vestibular: geralmente plana ou levemente
convexa, com lóbulos de desenvolvimento
(mesial, central e distal) e sulcos
periquimatosos discretos;
●
Face palatina: com cíngulo cervical proeminente, delimitado por margens mesial e distal, formando a fossa palatina;
●
Borda incisal: delgada, com discreto
arredondamento nos ângulos mesioincisal e distoincisal (o ângulo mesial é mais
agudo).
Essas referências são fundamentais
para escultura e acabamento de restaurações estéticas em dentes anteriores,
especialmente em fraturas, alterações de forma ou cor e fechamentos de
diastemas.
Os dentes posteriores (pré-molares e
molares) apresentam anatomia mais complexa:
●
Cúspides: estruturas elevadas responsáveis
pela trituração dos alimentos. Nos molares inferiores, há geralmente cinco
cúspides (mesiovestibular, distovestibular, distal, mesiolingual e
distolingual);
●
Sulcos e fissuras: delimitam as cúspides e orientam a
escultura oclusal;
●
Cristas marginais: elevações que limitam a face
oclusal mesial e distal;
●
Fossas centrais: depressões entre as cúspides, onde
convergem os sulcos principais.
Conhecer essas estruturas permite esculpir restaurações que respeitem a oclusão e a dinâmica mandibular, evitando interferências e desgaste precoce.
A restauração de dentes anteriores
exige atenção à estética e simetria,
já que estão localizados no centro do campo visual do sorriso. A escultura deve
respeitar proporções, texturas, brilho e forma tridimensional.
1.
Estratificação em camadas: uso de diferentes resinas (opacas,
dentina, esmalte e translúcidas) para mimetizar a estrutura natural;
2.
Escultura anatômica: reconstrução dos lóbulos
vestibulares e cíngulo palatino, preservando o formato natural do dente;
3.
Texturização superficial: simulação de periquímios e sulcos
discretos para fidelidade estética;
4.
Polimento final: com discos abrasivos, escovas de
feltro e pastas, para obter brilho e lisura.
A escultura deve considerar o dente contralateral como guia de forma e proporção. Além disso, é essencial respeitar o perfil de emergência cervical para não invadir o espaço biológico gengival.
A restauração de dentes posteriores
exige reconstituição precisa da anatomia
oclusal, fundamental para a função mastigatória e o equilíbrio oclusal.
1. Reconstrução das cúspides: modelagem das cúspides funcionais e não funcionais respeitando altura e volume compatíveis com os dentes adjacentes;
2.
Definição dos sulcos principais: os sulcos devem ser profundos o
suficiente para guiar a mastigação, mas sem excessos que facilitem retenção de
biofilme;
3.
Criação das fossas centrais e
marginais: essas
áreas devem permitir o encaixe dos cúspides antagonistas e o correto escoamento
dos alimentos;
4.
Modelagem das cristas marginais e
dos pontos de contato proximais: essenciais para a estabilidade oclusal e para a proteção
do espaço interdental.
A escultura deve ser realizada com instrumentos apropriados, como pincéis de resina, espátulas anatômicas e modeladores de silicone. A correta reprodução da anatomia oclusal reduz o tempo de ajuste oclusal posterior.
Após a escultura e a polimerização,
a restauração deve passar por acabamento e polimento para:
●
Remover excessos e ajustar contornos;
●
Reduzir rugosidade superficial;
●
Evitar retenção de placa bacteriana;
●
Melhorar a estética e o conforto
para o paciente.
A sequência recomendada
envolve abrasivos de granulação progressivamente fina (discos, pontas de borracha, escovas e pastas). A manutenção da integridade da escultura durante o acabamento é essencial para a longevidade da restauração.
A escultura anatômica em resina
composta é um dos momentos mais críticos da restauração direta. Exige
conhecimento preciso da morfologia
dental, domínio técnico e senso estético apurado. Em dentes anteriores, o
desafio está na reprodução da forma e textura natural. Em dentes posteriores, a
prioridade é restabelecer a função oclusal e o equilíbrio biomecânico.
O sucesso das restaurações depende do conjunto entre adesão, escultura e acabamento. Investir tempo e atenção nesse processo garante resultados duradouros e alta satisfação estética e funcional por parte do paciente.
●
ANUSAVICE,
K. J.; SHEN, C.; RAWLS, H. R. Phillips –
Materiais Dentários. 12. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013.
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SUMMITT,
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Restauradora. 3. ed. Rio de Janeiro: Santos, 2007.
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OPDAM,
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v. 93, n. 10, p. 943–949, 2014.
O acabamento e o polimento são etapas essenciais no protocolo clínico
das restaurações com resina composta. Embora frequentemente subestimadas, essas
fases finais influenciam diretamente a qualidade
estética, a integridade marginal, a longevidade clínica e a saúde periodontal
da restauração. A obtenção de uma superfície lisa, com brilho compatível com os
dentes naturais, é indispensável para reduzir a adesão bacteriana, prevenir
pigmentações e proporcionar conforto ao paciente.
A superfície final da restauração deve refletir a habilidade do operador não apenas na escultura, mas também no refinamento de detalhes morfológicos e ópticos. Este texto apresenta os fundamentos, objetivos e técnicas envolvidas no acabamento e polimento das restaurações diretas com resina composta.
Acabamento é o processo de remoção de excessos
e ajuste dos contornos anatômicos da
restauração, enquanto o polimento
corresponde ao alinhamento das
irregularidades microscópicas, promovendo lisura e brilho superficial. Ambos os procedimentos devem ser
conduzidos de forma sequencial e cuidadosa para preservar a anatomia construída
e evitar danos à integridade da restauração ou ao tecido dentário adjacente.
Os principais objetivos dessas
etapas são:
●
Melhorar
a estética final (brilho e textura);
●
Prevenir
a retenção de placa bacteriana;
●
Reduzir
o risco de manchamento e descoloração;
●
Preservar
a saúde gengival ao evitar sobre
contornos;
●
Garantir
conforto oclusal e funcionalidade
mastigatória.
O acabamento e o polimento também influenciam na taxa de desgaste da resina ao longo do tempo, uma vez que superfícies rugosas são mais susceptíveis à abrasão e acúmulo de biofilme.
O sucesso do acabamento e polimento
depende da correta sequência de
abrasivos, respeitando a granulometria progressiva, e da escolha dos instrumentos apropriados para cada
superfície restaurada (lisa, côncava, proximal, oclusal).
●
Pontas multilaminadas de carbeto de
tungstênio: utilizadas
para remoção de excessos e ajuste de contornos em áreas vestibulares e
oclusais;
●
Pontas diamantadas finas: indicadas para refinamento
anatômico;
●
Lâminas de bisturi e fitas abrasivas: usadas para contornos cervicais e
áreas proximais.
●
Discos abrasivos flexíveis (de granulação decrescente): ideais
para faces lisas vestibulares e palatinas;
●
Pontas de borracha impregnadas com
abrasivos: indicadas
para superfícies oclusais e áreas de difícil acesso;
●
Escovas de feltro ou silicone com
pasta diamantada:
promovem brilho elevado e lustro final.
A escolha do sistema depende da resina utilizada, da área anatômica e da etapa clínica. Resinas nanoparticuladas, por exemplo, respondem melhor ao polimento do que resinas microhíbridas, devido ao menor tamanho de suas partículas.
O acabamento e polimento devem ser
iniciados após a completa
fotopolimerização da restauração e preferencialmente em sessão distinta da escultura inicial, quando possível,
permitindo maior estabilidade do material.
A sequência básica inclui:
1.
Remoção de excessos com pontas grossas;
2. Redefinição dos contornos com
abrasivos intermediários;
3.
Alisamento progressivo com abrasivos finos;
4.
Polimento final com pastas de polimento e escovas
rotatórias.
O uso de baixa rotação e pressão controlada é fundamental para evitar
superaquecimento do material restaurador e do dente, o que poderia causar sensibilidade pós-operatória ou
degradação superficial da resina.
Além disso, o operador deve manter umidade constante durante o
procedimento para evitar danos térmicos e otimizar a ação abrasiva dos
instrumentos.
Diversos fatores influenciam o
sucesso do acabamento e polimento:
●
Tipo de resina composta: resinas nanoparticuladas e
nanohíbridas promovem superfícies mais lisas e polidas, mantendo o brilho por
mais tempo.
●
Curvatura e localização do dente: áreas vestibulares planas permitem
melhor controle, enquanto regiões interproximais e cervicais exigem
instrumentação específica.
●
Experiência clínica do operador: o domínio da técnica e a
sensibilidade tátil são determinantes para evitar desgastes excessivos ou
irregularidades indesejadas.
Também é importante considerar o tempo clínico disponível: procedimentos
apressados podem comprometer o brilho e a adaptação marginal da restauração.
A ausência de polimento adequado pode resultar em rugosidades que favorecem retenção de placa, sangramento gengival, escurecimento da restauração e necessidade precoce de substituição.
O acabamento e o polimento das
restaurações em resina composta são etapas
fundamentais que devem ser tratadas com a mesma importância que a adesão e
a escultura. A obtenção de uma superfície lisa, brilhante e anatomicamente
correta melhora significativamente o desempenho clínico da restauração, além de
contribuir para a saúde periodontal e a satisfação do paciente.
Dominar essas técnicas exige conhecimento dos materiais, habilidade manual e atenção aos detalhes. A incorporação sistemática de um protocolo de acabamento e polimento bem executado é sinal de excelência clínica e respeito à biologia e estética do paciente.
●
ANUSAVICE,
K. J.; SHEN, C.; RAWLS, H. R. Phillips –
Materiais Dentários. 12. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013.
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Esthetic and Restorative Dentistry, v. 23, n. 2, p. 127–135, 2011.
Apesar dos avanços tecnológicos nos
materiais restauradores e nas técnicas adesivas, as restaurações com resina composta estão sujeitas a falhas ao longo
do tempo. Essas falhas podem ocorrer por fatores relacionados ao material, à
técnica operatória ou ao próprio paciente. A detecção precoce de alterações
clínicas — como pigmentações,
infiltração marginal e fraturas — é essencial para definir a conduta mais
adequada: manutenção, reparo ou
substituição total da restauração.
O conhecimento das causas e manifestações dessas falhas permite ao cirurgião-dentista intervir com previsibilidade, mantendo a integridade do dente e reduzindo a necessidade de tratamentos mais invasivos.
As alterações cromáticas nas restaurações em resina composta são
causas frequentes de insatisfação estética e podem indicar degradação
superficial, falhas de polimento ou problemas mais profundos, como
infiltrações.
●
Pigmentação extrínseca: resulta do acúmulo de biofilme e
de substâncias corantes da dieta (café, vinho, cigarro). Geralmente ocorre na
superfície e pode ser removida com polimento.
●
Pigmentação intrínseca: está relacionada à degradação da
matriz orgânica da resina ou à microinfiltração marginal. Nestes casos, o
tratamento pode exigir reparo ou substituição.
●
Falta
de acabamento e polimento adequados;
●
Superfície
rugosa que favorece retenção de biofilme;
●
Resinas
de baixa estabilidade cromática;
●
Exposição
frequente a agentes pigmentantes;
●
Técnica
de fotopolimerização deficiente, com baixa conversão de monômeros.
A inspeção visual e tátil, com iluminação adequada e secagem do campo operatório, é essencial para diferenciar os tipos de manchamento e determinar a conduta clínica.
A infiltração marginal é uma das
falhas mais críticas das
restaurações adesivas. Ocorre quando há falha
na vedação entre a restauração e a estrutura dentária, permitindo a
penetração de fluidos, bactérias e detritos orgânicos na interface
restauradora.
●
Técnica
adesiva inadequada, especialmente em dentina;
●
Contaminação
por saliva ou sangue durante a aplicação;
●
Contração
de polimerização não controlada;
●
Fadiga
mecânica ou degradação hidrolítica dos adesivos ao longo do tempo.
●
Manchamento
marginal;
●
Recorrência
de cárie;
●
Sensibilidade
pós-operatória;
●
Descolamento
parcial da restauração.
A identificação pode ser feita por inspeção visual, uso de exploradores periodontais, ou corantes reveladores. A radiografia interproximal pode auxiliar no diagnóstico de infiltrações profundas ou recidivas cariosas.
As fraturas parciais ou totais da restauração podem ocorrer devido a
forças mastigatórias, bruxismo, falhas na escultura anatômica ou uso de resinas
de baixa resistência.
●
Fratura de borda: comum em restaurações anteriores,
geralmente associada à ausência de suporte adequado ou uso de resina
excessivamente frágil;
●
Fratura de cúspide: pode envolver tanto a restauração
quanto a estrutura dentária remanescente;
●
Fraturas adesivas: ocorrem na interface dente-resina,
muitas vezes por falha na adesão inicial ou por fadiga do material;
●
Fraturas coesivas: acontecem dentro da própria
resina, por esforços repetidos ou trincas internas.
O desgaste progressivo da resina é inevitável com o tempo, mas pode ser acelerado por hábitos parafuncionais, uso inadequado de resinas flow em áreas de carga ou ausência de polimento adequado. O desgaste pode comprometer a função oclusal, forma anatômica e ponto de contato.
A decisão entre reparar ou substituir uma restauração deve considerar
o tipo, extensão e localização da falha, bem como a possibilidade de preservar
a estrutura dental sadia.
●
Pequenas
fraturas marginais ou perda de brilho superficial;
●
Pigmentações
extrínsecas ou manchas localizadas;
●
Infiltrações
discretas sem envolvimento profundo;
●
Fraturas
limitadas à camada externa da resina.
O reparo envolve condicionamento da superfície com ácido
fosfórico ou jateamento com óxido de alumínio, seguido da reativação da superfície com adesivo e
inserção de nova camada de resina composta. A adesão entre a resina antiga e a
nova é menor que a adesão ao dente, mas pode ser satisfatória quando realizada
com protocolo adequado.
●
Fraturas
extensas que envolvam dentina ou parede cuspídea;
●
Infiltrações
profundas com comprometimento da adesão;
●
Desadaptação
marginal severa;
●
Restaurações
antigas com múltiplas falhas cumulativas;
●
Comprometimento
estético irreversível.
A substituição exige remoção completa da restauração defeituosa, preparo adequado da cavidade, nova adesão e restauração com técnica incremental e polimerização ideal.
A longevidade das restaurações diretas em resina composta depende não apenas do material e da técnica utilizados, mas também da avaliação contínua da integridade clínica da restauração. A identificação precoce de falhas como pigmentações, infiltrações e fraturas permite a adoção de condutas conservadoras, com ênfase em reparos minimamente invasivos sempre que possível.
A correta aplicação de protocolos clínicos de reparo ou substituição, com base em diagnóstico preciso e conhecimento técnico, contribui para a manutenção da saúde bucal, preservação da estrutura dentária e satisfação do paciente.
●
ANUSAVICE,
K. J.; SHEN, C.; RAWLS, H. R. Phillips –
Materiais Dentários. 12. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013.
●
DEMARCO,
F. F. et al. Longevity of posterior composite restorations: a systematic review
and meta-analysis. Journal of Dentistry,
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GARCIA,
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MONDELLI,
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OPDAM,
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restorations: a review. Journal of
Esthetic and Restorative Dentistry, v. 24, n. 3, p. 143–149, 2012.
A odontologia restauradora moderna busca a máxima preservação da estrutura dentária natural. Nesse contexto, os reparos em restaurações de
resina composta
ganham destaque como uma alternativa conservadora, viável e eficaz diante de
falhas localizadas. No entanto, nem toda restauração pode ou deve ser reparada:
há situações clínicas em que a substituição
completa da restauração é a conduta mais indicada.
O conhecimento dos critérios de indicação para o reparo, das técnicas disponíveis e dos momentos em que a substituição se impõe é essencial para guiar decisões clínicas seguras e baseadas em evidência.
O reparo é indicado quando a falha é
limitada e localizada, e a maior
parte da restauração apresenta bom
desempenho funcional e estético. Entre as situações clínicas favoráveis ao
reparo, destacam-se:
●
Desgaste superficial com perda de brilho ou textura;
●
Pigmentações extrínsecas que não respondem ao polimento;
●
Fraturas parciais de bordas ou ângulos sem
envolvimento profundo da estrutura dentária;
●
Infiltração marginal discreta, sem presença de cárie ativa
subjacente;
●
Necessidade
de ajuste oclusal leve ou alteração
estética pontual.
Nesses casos, o reparo evita a remoção desnecessária de tecido dentário e preserva a integridade do dente. Além disso, o procedimento é menos invasivo, mais rápido e geralmente mais econômico.
O sucesso do reparo depende da reativação da superfície da resina antiga
e da adesão eficaz entre o material
existente e o novo. A interface entre a resina antiga e a nova apresenta
menor energia de superfície e menor potencial adesivo do que a estrutura
dentária virgem, o que exige protocolos específicos.
1.
Avaliação clínica e radiográfica da restauração, para assegurar que
não haja cárie subjacente ou falhas estruturais amplas.
2.
Remoção da camada superficial da
resina antiga,
com pontas diamantadas finas ou jateamento com óxido de alumínio. Esse passo é
crucial para expor uma superfície renovada, mais receptiva à adesão.
3.
Limpeza da cavidade com clorexidina a 2% ou solução
salina, para eliminar resíduos.
4.
Condicionamento da superfície com ácido fosfórico (quando resinas
convencionais forem utilizadas) por 15 a 30 segundos, seguido de lavagem e
secagem leve.
5.
Aplicação de sistema adesivo compatível com o material original.
Sistemas adesivos universais ou autocondicionantes têm sido amplamente
utilizados devido à sua praticidade.
6. Inserção do novo material
restaurador,
respeitando a técnica incremental e os princípios de escultura anatômica.
7.
Fotopolimerização adequada, seguida de ajuste oclusal, acabamento e polimento.
A longevidade dos reparos é satisfatória quando os protocolos são respeitados, embora, em geral, os reparos apresentem menor durabilidade do que restaurações novas feitas em substrato íntegro.
Apesar dos benefícios, o reparo tem limitações importantes. Quando os
critérios clínicos não são atendidos, a substituição total da restauração passa
a ser a conduta mais indicada.
●
Fraturas extensas que envolvem a estrutura dentária
remanescente, comprometendo a integridade do dente;
●
Desadaptação marginal severa ou infiltração com cárie ativa sob
a restauração;
●
Descolamento parcial ou total da restauração;
●
Perda de contato proximal com consequente impactação
alimentar;
●
Estética insatisfatória irreversível, como descoloração intrínseca,
alterações profundas de forma ou múltiplos reparos cumulativos;
●
Incompatibilidade
entre os materiais restauradores (resinas muito antigas ou de composição
desconhecida);
●
Dificuldade
de acesso para realizar reparo com qualidade.
A decisão pela substituição deve
considerar também o histórico
restaurador do paciente, o risco de
recidiva de cárie, o nível de
exigência estética e o custo-benefício
biológico da intervenção.
A substituição deve ser feita de
forma minimamente invasiva,
priorizando a remoção seletiva apenas do material restaurador comprometido.
Algumas recomendações incluem:
●
Uso
de instrumentos rotatórios de baixa
granulação para preservar tecido dentário;
●
Avaliação
com tinte de cárie ou corantes
reveladores para distinguir resina remanescente de tecido cariado;
●
Aplicação
de sistemas adesivos modernos,
adaptados ao substrato exposto (esmalte ou dentina);
●
Planejamento
da nova restauração com ênfase na adesão,
escultura e polimento, de forma a evitar recorrência de falhas.
A substituição deve ser vista como último recurso, após esgotadas as possibilidades de conservação da restauração original.
A decisão entre reparar ou substituir uma restauração deve ser baseada em critérios clínicos objetivos, sempre visando a preservação da estrutura dentária e a satisfação
funcional e estética do paciente. O reparo, quando bem indicado, é uma
solução eficiente, conservadora e de bom custo-benefício. No entanto, falhas
extensas ou comprometimento funcional e estético relevante exigem substituição
completa.
O domínio técnico das etapas de reparo, a seleção adequada do sistema adesivo, e o entendimento claro das limitações do procedimento são essenciais para o sucesso clínico a longo prazo.
●
ANUSAVICE,
K. J.; SHEN, C.; RAWLS, H. R. Phillips –
Materiais Dentários. 12. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013.
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OPDAM,
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●
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DEMARCO,
F. F. et al. Longevity of posterior composite restorations: a systematic review
and meta-analysis. Journal of Dentistry,
v. 43, n. 8, p. 1043–1050, 2015.
A restauração com resina composta é
um dos procedimentos mais comuns na odontologia restauradora atual, oferecendo
resultados estéticos e funcionais satisfatórios. No entanto, sua durabilidade clínica está diretamente
relacionada à qualidade da técnica
operatória e, principalmente, ao comportamento
e aos cuidados do paciente no pós-tratamento.
Orientar o paciente quanto à higiene oral, hábitos alimentares, e a necessidade de acompanhamento periódico é essencial para prevenir falhas restauradoras, como infiltrações, pigmentações, fraturas e cárie secundária. Este texto aborda os principais cuidados que devem ser adotados pelo paciente e destaca os fatores que influenciam a longevidade das restaurações em resina composta.
A higiene oral eficiente é fundamental para o sucesso das
restaurações diretas. A superfície da resina composta pode acumular biofilme
bacteriano, principalmente em áreas de difícil acesso ou com acabamento
inadequado.
As orientações ao paciente devem
incluir:
●
Escovação
com escova de cerdas macias e dentifrício fluoretado, ao menos duas
vezes ao dia;
●
Uso
diário de fio dental ou fitas
interdentais, com cuidado especial em áreas restauradas com contato
proximal;
●
Evitar
escovação com movimentos excessivamente
abrasivos, principalmente em restaurações cervicais, para prevenir desgaste
do material e retração gengival.
A manutenção da higiene reduz o risco de cárie secundária, doença periodontal e escurecimento da restauração. Pacientes com limitações motoras devem receber instruções adaptadas ou considerar o uso de dispositivos auxiliares, como escovas elétricas e irrigadores orais.
A dieta também exerce influência direta sobre a durabilidade das
restaurações. Alimentos e bebidas com alto potencial de pigmentação e acidez
podem comprometer a estética e
integridade da resina composta.
Recomendações dietéticas incluem:
●
Reduzir
o consumo de alimentos e bebidas pigmentantes, como café, vinho tinto, chá
escuro, refrigerantes à base de cola e molhos escuros;
●
Evitar
a ingestão frequente de alimentos ácidos
(sucos cítricos, vinagre, refrigerantes), que podem degradar a superfície da
restauração e do esmalte adjacente;
●
Evitar
o uso da dentição para funções não
mastigatórias, como abrir embalagens ou roer objetos, o que pode provocar fraturas ou desgaste da resina.
Pacientes com hábitos parafuncionais, como bruxismo, também devem ser orientados quanto ao risco aumentado de falha restauradora, e podem ser candidatos ao uso de placas oclusais noturnas.
A manutenção da saúde bucal após o
tratamento restaurador exige avaliações
clínicas periódicas, geralmente a cada seis meses, embora a frequência
possa variar conforme o risco individual de cárie e doença periodontal.
Durante essas consultas, o
cirurgião-dentista deve:
●
Verificar
integridade marginal e presença de
infiltrações;
●
Avaliar
cor e brilho da restauração,
propondo polimento ou retoques se necessário;
●
Realizar
exames radiográficos, especialmente
em restaurações interproximais;
●
Detectar
precocemente fraturas, desgastes ou alterações funcionais;
●
Reforçar
orientações preventivas personalizadas.
As visitas periódicas também permitem intervenções minimamente invasivas, como pequenos reparos, antes que falhas evoluam para a necessidade de substituição completa da restauração.
A expectativa de vida média das
restaurações diretas em resina composta varia entre 5 e 10 anos, podendo ser estendida em condições ideais. Vários
fatores influenciam diretamente essa durabilidade:
●
Tipo de resina composta: resinas nanoparticuladas e
nanohíbridas apresentam melhor polimento e resistência ao desgaste;
●
Estabilidade cromática: materiais com maior resistência à
absorção de pigmentos e degradação superficial são preferíveis;
●
Qualidade do sistema adesivo
utilizado, que
influencia a vedação marginal e a retenção a longo prazo.
●
Correta
aplicação da técnica adesiva;
●
Uso
de incrementos de até 2 mm para
reduzir a tensão de polimerização;
●
Fotopolimerização adequada, com controle de intensidade e
tempo;
●
Escultura anatômica funcional, que evita sobrecarga
localizada.
●
Presença
de bruxismo, hábitos deletérios ou
má oclusão;
●
Baixa
adesão às orientações de higiene e dieta;
●
Alto
índice de cárie ou doença periodontal não controlada;
●
Falta
de acompanhamento profissional.
É importante destacar que a manutenção é um processo contínuo que envolve a atuação conjunta do profissional e do paciente. Mesmo restaurações bem realizadas estão sujeitas a falhas se os cuidados de longo prazo forem negligenciados.
O sucesso das restaurações com
resina composta vai além da execução clínica do procedimento. Cuidados pós-operatórios, orientações
preventivas, controle de hábitos e avaliações periódicas são determinantes
para a longevidade e o desempenho funcional e estético da restauração.
O papel do cirurgião-dentista inclui não apenas restaurar a estrutura dental, mas também educar e engajar o paciente na manutenção da saúde bucal. A abordagem preventiva reduz custos, preserva tecido dentário e proporciona melhor qualidade de vida ao paciente.
●
ANUSAVICE,
K. J.; SHEN, C.; RAWLS, H. R. Phillips –
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MENEZES,
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