BÁSICO EM RESINA COMPOSTA NA
ODONTOLOGIA
Técnica
Operatória e Manuseio Clínico
Indicações e Contraindicações Clínicas
As resinas compostas representam atualmente o principal material restaurador direto utilizado na odontologia contemporânea. A evolução da sua composição, associada às técnicas adesivas modernas, permite sua aplicação em múltiplas situações clínicas, com previsibilidade, estética e desempenho funcional satisfatórios. Entretanto, seu uso deve ser guiado por critérios técnicos bem definidos, que envolvem o tipo e extensão da lesão, localização da cavidade, fatores oclusais e condições do meio bucal. Este texto explora as principais indicações e contraindicações clínicas das resinas compostas, com ênfase nas cavidades classe I a V e nas lesões cervicais não cariosas.
As resinas compostas são indicadas
sempre que se deseja uma restauração estética, conservadora e adesiva,
respeitando os princípios da odontologia minimamente invasiva. As indicações
incluem, mas não se limitam a:
Envolvem sulcos e fóssulas de dentes posteriores. As resinas são indicadas
em casos de pequenas a médias cavidades, especialmente quando o controle de
umidade é possível. A técnica adesiva permite restaurações com vedamento
marginal eficiente e boa estética, mesmo em áreas não visíveis.
Referem-se a áreas proximais de pré-molares e molares. São indicadas para
cavidades pequenas ou moderadas, em pacientes com bom controle de placa e sem
carga oclusal excessiva. As resinas compostas permitem restaurações com melhor
preservação da estrutura dental e adaptação ao contato proximal, quando inseridas
com técnica adequada (matrizes seccionais, cunhas, etc.).
Localizam-se em superfícies proximais de dentes anteriores, sem envolvimento do
ângulo incisal. As resinas compostas são altamente indicadas, dada a sua
capacidade de mimetizar a cor dental e permitir restaurações invisíveis. A
adesão é geralmente excelente no esmalte anterior, especialmente com
condicionamento ácido total.
Compreendem superfícies proximais com comprometimento do ângulo incisal. Exigem materiais com boa resistência mecânica e alta estética. A resina composta é o material de eleição quando há possibilidade de escultura anatômica e estratificação com diferentes opacidades, visando naturalidade e
durabilidade.
Situam-se no terço cervical vestibular ou lingual de dentes anteriores e
posteriores. As resinas compostas apresentam excelente desempenho nesses casos,
especialmente quando há esmalte suficiente para ancoragem. São indicadas tanto
em lesões cariosas quanto em lesões
cervicais não cariosas (LCNC), como as de origem abrasiva, erosiva ou
abfrativa.
As LCNC são defeitos estruturais que
ocorrem na região cervical do dente sem envolvimento de processo infeccioso. As
principais causas incluem:
●
Abrasão: escovação agressiva com
dentifrícios abrasivos;
●
Erosão: exposição ácida (intrínseca ou
extrínseca);
●
Abfração: tensões oclusais concentradas que
causam microfraturas cervicais.
A restauração dessas lesões com
resina composta é indicada nos seguintes casos:
●
Dentinossensibilidade
intensa;
●
Comprometimento
estético;
●
Progressão
da lesão;
●
Risco
de fratura da coroa clínica.
O sucesso depende do correto preparo da superfície, uso de sistemas adesivos compatíveis com dentina esclerótica e isolamento adequado
Apesar de sua versatilidade, as
resinas compostas apresentam limitações. As principais contraindicações incluem:
A adesão da resina composta depende
diretamente da manutenção do campo seco.
Em regiões subgengivais, onde o isolamento absoluto é impraticável, o risco de
falha adesiva aumenta, comprometendo o selamento e a longevidade da
restauração.
Grandes perdas estruturais que
envolvem cúspides ou múltiplas faces podem exceder a resistência da resina,
levando à fratura do material ou do dente. Nestes casos, restaurações indiretas
(como onlays cerâmicos ou metálicos) ou o uso de materiais mais resistentes
podem ser preferíveis.
Pacientes com hábitos parafuncionais apresentam maior risco de desgaste, fratura ou delaminação das resinas compostas. Nesses casos, o uso de resina pode ser contraindicado ou necessitar de planejamento associado a contenções oclusais.
O sucesso clínico depende da colaboração do paciente para manter higiene oral, controlar dieta e comparecer a consultas periódicas. Em indivíduos não colaborativos, há maior risco de recorrência de cárie, infiltração e falha precoce da restauração.
Além das indicações e
contraindicações, é importante considerar:
●
Longevidade: estudos mostram que restaurações
em resina podem durar mais de 10 anos, especialmente em cavidades pequenas e
com boa técnica operatória.
●
Estética: a possibilidade de estratificação
com diferentes opacidades (dentina, esmalte, efeito) permite resultados
altamente naturais.
●
Biocompatibilidade: quando bem polimerizadas e
manipuladas adequadamente, as resinas compostas são seguras e não provocam
efeitos adversos significativos.
A escolha adequada do tipo de resina (microhíbrida, nanoparticulada, flow, bulk-fill), associada à técnica adesiva apropriada, é essencial para o sucesso clínico em qualquer classe cavitária.
As resinas compostas, quando bem indicadas e aplicadas com rigor técnico, oferecem resultados clínicos excelentes em cavidades de classes I a V e em lesões cervicais não cariosas. Sua adesividade, estética e versatilidade tornaram-nas indispensáveis na prática clínica moderna. Entretanto, devem ser evitadas em situações de controle de umidade deficiente, cavidades muito extensas ou pacientes com bruxismo severo. O conhecimento das indicações e limitações desses materiais é essencial para garantir longevidade, funcionalidade e satisfação estética nas restaurações diretas.
●
ANUSAVICE,
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Materiais Dentários. 12. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013.
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A busca por tratamentos odontológicos com excelência estética tem crescido substancialmente, refletindo a valorização da aparência e da harmonia do sorriso na sociedade contemporânea. Nesse cenário, as resinas compostas tornaram-se o principal material restaurador direto para
dentes anteriores,
graças à sua capacidade de mimetizar a estrutura dental, restaurar forma e
função com mínima remoção de estrutura sadia, e proporcionar resultados
imediatos.
Apesar de suas vantagens, a indicação da resina composta exige critérios clínicos bem definidos. Em determinadas situações, o uso desse material pode ser limitado ou até contraindicado, exigindo a adoção de outras abordagens restauradoras, como as restaurações indiretas em cerâmica. Este texto aborda as aplicações estéticas da resina composta em dentes anteriores e apresenta os principais cenários clínicos em que seu uso deve ser evitado.
A utilização de resinas compostas em
dentes anteriores é indicada em diversas situações clínicas:
●
Fraturas coronárias (trauma dentário);
●
Cavidades classe III e IV;
●
Fechamento de diastemas;
●
Melhorias na forma, cor ou tamanho
dental
(cosmética);
●
Defeitos de desenvolvimento do
esmalte (como
hipoplasias ou fluorose);
●
Desgastes por bruxismo ou erosão;
●
Facetas diretas de resina composta.
A capacidade de estratificação com diferentes opacidades (dentina, esmalte, translúcido), associada à escultura manual e ao polimento final, permite alcançar resultados extremamente naturais. A adesão ao esmalte, em particular, é estável e duradoura quando a técnica operatória é bem executada.
●
Preservação
máxima da estrutura dental;
●
Resultados
imediatos e reversíveis;
●
Custo
mais acessível que restaurações indiretas;
●
Possibilidade
de manutenção e reparo direto em consultório.
Essas vantagens fazem das resinas compostas a primeira escolha para intervenções estéticas conservadoras, especialmente em pacientes jovens ou em situações de caráter transitório.
O êxito das restaurações anteriores
em resina composta depende da habilidade
do profissional e da qualidade do
material utilizado. Entre os fatores críticos estão:
●
Escolha
correta da cor e translucidez;
●
Técnica
de estratificação adequada;
●
Uso
de matrizes e moldadores cervicais;
●
Correta
fotopolimerização em camadas finas;
●
Finalização
com lixamento e polimento progressivos,
para brilho e longevidade estética.
Além disso, o paciente deve ser instruído sobre cuidados com a dieta, higiene e
disso, o paciente deve ser instruído sobre cuidados com a dieta, higiene e hábitos que influenciam diretamente na manutenção da cor e integridade da restauração.
Apesar das vantagens, há contextos
clínicos em que o uso de resina composta não
é a melhor alternativa. A seguir, são apresentados os principais fatores de
contraindicação relativa ou absoluta:
Em casos de perda extensa de estrutura coronária, especialmente quando mais de 50% do tecido dental está ausente ou há comprometimento de bordo incisal e ângulos proximais, a resina composta pode não oferecer resistência mecânica suficiente. Nestes casos, restaurações indiretas (como facetas ou fragmentos cerâmicos) proporcionam melhor longevidade e estética previsível.
Quando há dentes com escurecimento
intrínseco acentuado (por exemplo, por tratamento endodôntico ou manchas de
tetraciclina), a resina pode não
mascarar adequadamente a cor de fundo. Embora exista a possibilidade de
usar opacificadores ou resinas de alta opacidade, o resultado estético pode ser
limitado. Restaurações cerâmicas, por outro lado, permitem controle superior da
opacidade e da cor final.
Pacientes com bruxismo severo ou histórico de fraturas restauradoras apresentam
risco aumentado de desgaste, lascamento
ou fratura das resinas. Nestes casos, além de considerar materiais mais
resistentes (como cerâmicas reforçadas), o tratamento deve incluir controle
oclusal e uso de placas miorrelaxantes.
A técnica adesiva requer um campo
seco absoluto. Em casos de limitações
anatômicas ou comportamentais (por exemplo, pacientes com sangramento
gengival persistente, saliva abundante ou dificuldade de colaboração), o
isolamento torna-se comprometido, e a adesão pode falhar. Nestes casos, o uso
de materiais menos sensíveis à umidade ou técnicas indiretas pode ser
preferível.
Pacientes com expectativas muito elevadas e inflexíveis quanto ao resultado estético podem se frustrar com as pequenas alterações de cor, brilho ou textura que a resina sofre ao longo do tempo. Para esses casos, as cerâmicas oferecem maior estabilidade óptica e longevidade estética, sendo mais indicadas.
As restaurações estéticas em dentes anteriores com resina composta são uma alternativa segura, conservadora e acessível para uma
ampla variedade de situações clínicas. Quando bem indicadas
e executadas, proporcionam excelente mimetismo, função e satisfação estética ao
paciente. No entanto, o uso
indiscriminado deve ser evitado, especialmente em casos de perda extensa de
estrutura, hipersolicitação oclusal, dificuldades operatórias e alterações
cromáticas severas.
O cirurgião-dentista deve considerar todos os fatores clínicos e pessoais do paciente, para indicar o material mais apropriado, equilibrando estética, função, durabilidade e previsibilidade. A correta indicação continua sendo a chave para o sucesso restaurador a longo prazo.
●
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A introdução da odontologia adesiva representou um dos marcos mais importantes da
odontologia restauradora moderna, permitindo tratamentos conservadores, seguros
e estéticos. A capacidade de aderir materiais restauradores diretamente à
estrutura dental — esmalte e dentina — abriu caminho para a substituição de
técnicas invasivas, antes baseadas em retenções mecânicas extensas. Com o
avanço dos sistemas adesivos,
tornou-se possível realizar restaurações duráveis com mínima remoção de
estrutura dentária sadia.
Contudo, a eficácia da adesão depende de uma série de fatores, incluindo a correta aplicação da técnica adesiva, o comportamento biológico do substrato (especialmente da dentina), e a qualidade do isolamento do campo operatório, essencial para o sucesso clínico. Este texto discute os princípios da adesão ao esmalte e à dentina, bem como as estratégias de isolamento mais indicadas na prática restauradora com resinas compostas.
O esmalte dental é um tecido altamente mineralizado, composto
por
aproximadamente 96% de minerais (principalmente hidroxiapatita), com estrutura
prismática organizada. Essa composição confere ao esmalte excelentes
propriedades de adesão micromecânica quando adequadamente condicionado.
O condicionamento com ácido fosfórico a 35–37% é o padrão-ouro na
preparação do esmalte para adesão. O ácido remove uma fina camada da superfície
e cria uma micro retenção prismática,
aumentando a energia superficial e favorecendo a penetração dos monômeros
adesivos. O padrão de ataque ácido depende da orientação dos prismas e da
homogeneidade da superfície.
A adesão ao esmalte é altamente previsível, especialmente quando há uma espessura suficiente do tecido e ausência de contaminação por saliva ou fluido gengival. A técnica do "etch-and-rinse" (condicionar, lavar e secar) permanece a mais eficaz para esmalte.
A dentina é um tecido menos mineralizado e mais complexo que o esmalte. Contém cerca de 70% de hidroxiapatita, 20% de material orgânico (colágeno tipo I) e 10% de água. Sua estrutura tubular, rica em fluido dentinário, representa um desafio à adesão.
A adesão à dentina ocorre por meio
da formação da camada híbrida, uma
zona de transição onde o monômero adesivo infiltra-se na matriz colágena
exposta após o condicionamento ácido. Essa camada, quando bem formada,
estabelece retenção micromecânica e sela os túbulos dentinários.
Entretanto, a hidratação da dentina, a presença da camada de smear layer, a profundidade da dentina e o grau de
exposição tubular afetam a qualidade da adesão. O controle da umidade é
essencial para manter a integridade da rede colágena e permitir sua impregnação
pelo adesivo.
Os sistemas adesivos podem ser
classificados em:
●
Convencionais ou de três passos
(etch-and-rinse):
condicionamento com ácido fosfórico, seguido por primer e adesivo. São os mais
estáveis ao longo do tempo, especialmente em dentina.
●
De dois passos (autocondicionantes
ou autocondensantes):
combinam primer e adesivo em um único frasco, mantendo a smear layer
parcialmente intacta. São mais rápidos e reduzem sensibilidade técnica, porém
podem ter menor capacidade de adesão ao esmalte.
●
Adesivos universais: permitem uso tanto com
condicionamento total (etch-and-rinse) quanto seletivo ou autocondicionante.
Têm ganhado espaço pela versatilidade clínica.
A escolha do sistema adesivo deve considerar o tipo
escolha do sistema adesivo deve considerar o tipo de substrato (esmalte ou dentina), o controle de umidade, a profundidade da cavidade e a habilidade do operador.
O isolamento do campo operatório é
um pré-requisito fundamental para o sucesso da adesão. A contaminação por saliva, sangue ou fluido crevicular compromete a
interação dos sistemas adesivos com os tecidos dentários, reduzindo a eficácia
da ligação e favorecendo a microinfiltração.
O isolamento absoluto com dique de borracha é considerado o padrão
ideal. Proporciona controle completo da umidade, melhora a visibilidade e
protege os tecidos moles. Além disso, reduz o risco de ingestão acidental de
instrumentos ou materiais. Sua utilização é fortemente recomendada em restaurações
com resina composta, tanto anteriores quanto posteriores.
Apesar de ser considerado mais trabalhoso, o dique de borracha apresenta vantagens clínicas incontestáveis. Em situações em que seu uso é inviável, o profissional deve recorrer a estratégias alternativas.
Quando o isolamento absoluto não é possível (por questões anatômicas ou comportamentais), o isolamento relativo pode ser adotado. Esse tipo de isolamento utiliza roletes de algodão, sugadores e afastadores labiais ou linguais para reduzir a umidade. Contudo, não oferece a mesma eficácia do dique e deve ser usado com cautela, especialmente em procedimentos adesivos profundos ou próximos à gengiva.
A adesão aos tecidos dentários é um
processo que combina princípios químicos, físicos e biológicos. Enquanto o esmalte permite uma adesão previsível e
duradoura, a dentina exige maior
atenção técnica, devido à sua complexidade estrutural e susceptibilidade à
contaminação.
A correta seleção do sistema adesivo, a atenção à hidratação controlada da dentina e o uso de técnicas eficazes de isolamento são aspectos críticos para o sucesso clínico das restaurações adesivas. O domínio desses princípios capacita o cirurgião-dentista a realizar procedimentos restauradores duráveis, estéticos e seguros.
●
ANUSAVICE,
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treatment. Dental Materials, v. 26,
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A evolução da odontologia restauradora está diretamente ligada ao desenvolvimento de materiais e técnicas que priorizem a adesão efetiva dos materiais restauradores às estruturas dentárias. Nesse contexto, o uso de ácido fosfórico e de sistemas adesivos modernos tem permitido restaurações cada vez mais conservadoras, duráveis e estéticas. Paralelamente, a efetividade desses procedimentos está condicionada à adequada técnica de isolamento do campo operatório, sendo o isolamento absoluto com dique de borracha considerado o padrão ideal. Este texto aborda os princípios de atuação do ácido fosfórico, os sistemas adesivos mais utilizados (convencional e autocondicionante), e as técnicas de isolamento absoluto e relativo aplicadas na prática clínica.
O ácido ortofosfórico a 35% ou 37% é amplamente utilizado no
condicionamento dentário, promovendo modificações
morfológicas superficiais no esmalte e na dentina. No esmalte, ele remove
parcialmente a camada mineralizada e cria microporosidades, aumentando a
energia superficial e permitindo a penetração dos monômeros adesivos. O ataque
ácido ao esmalte é confiável e duradouro, favorecendo a adesão micromecânica.
Na dentina, o ácido remove a smear layer e desmineraliza parcialmente a matriz superficial, expondo fibras colágenas. Essa exposição possibilita a formação da camada híbrida, essencial para a retenção do material restaurador. No entanto, o tempo de aplicação do ácido sobre a dentina deve ser mais curto (aproximadamente 15 segundos), para evitar a desmineralização excessiva e a colapsagem da rede colágena, o que prejudica a infiltração dos adesivos.
O avanço dos sistemas adesivos é um dos pilares da odontologia adesiva. Eles são classificados, de modo geral, segundo a forma como interagem com a smear layer e o número de passos clínicos necessários.
O sistema convencional
envolve três etapas principais: condicionamento
com ácido fosfórico, aplicação do primer e aplicação do adesivo. Após o ataque
ácido, a superfície é lavada e levemente seca, mantendo-se a dentina úmida
(técnica de umidade controlada), seguida da aplicação do primer hidrofílico e
do adesivo.
Este sistema é considerado o padrão-ouro em adesão ao esmalte, uma
vez que o condicionamento ácido proporciona uma micro retenção eficaz. Na
dentina, porém, exige maior habilidade do operador, devido à sensibilidade da
técnica ao controle da umidade e ao risco de colapsamento da rede colágena.
Ainda assim, é o sistema que apresenta os resultados
mais estáveis a longo prazo, especialmente em substratos dentinários
saudáveis.
Os sistemas autocondicionantes
dispensam o uso do ácido fosfórico como etapa isolada, pois já contêm agentes
ácidos em sua formulação. Esses sistemas podem ser aplicados em dois passos
(primer + adesivo) ou em passo único (sistemas "all-in-one").
Seu principal benefício é a simplicidade da aplicação, com menor
sensibilidade técnica. Como a smear layer não é completamente removida, mas
parcialmente modificada e integrada ao adesivo, há menor risco de sensibilidade
pós-operatória.
Apesar dessas vantagens, os sistemas
autocondicionantes têm menor capacidade
de desmineralizar o esmalte, o que pode comprometer a adesão nesta
estrutura. Por isso, recomenda-se, em muitos casos, o condicionamento seletivo do esmalte com ácido fosfórico, seguido da
aplicação do sistema autocondicionante na dentina.
A eficácia dos sistemas adesivos,
independentemente do tipo, depende criticamente da ausência de contaminação durante a aplicação. A umidade, o sangue,
o fluido crevicular e a saliva são inimigos da adesão, afetando diretamente a
penetração e a polimerização dos monômeros.
O isolamento absoluto é realizado
com dique de borracha, grampos, arco
metálico e perfurações individualizadas. Esta técnica oferece controle total da umidade, melhora a
visibilidade, facilita a aplicação de sistemas adesivos e promove maior
segurança operatória.
Entre as vantagens estão:
●
Redução
do risco de contaminação do campo operatório;
●
Prevenção
da aspiração ou deglutição de instrumentos;
●
Conforto
para o operador e segurança para o paciente;
●
Estabilidade
da gengiva marginal por retração mecânica.
O uso do dique de
borracha é especialmente recomendado em procedimentos restauradores com resina composta, cimentações adesivas, endodontia e clareamento interno. Sua adoção deve ser estimulada desde a graduação como parte integrante da boa prática clínica.
O isolamento relativo é realizado
com roletes de algodão, sugadores e
afastadores labiais. Embora não ofereça as mesmas garantias do dique de
borracha, pode ser eficaz em situações menos exigentes, como restaurações
provisórias, procedimentos em dentes decíduos ou quando o dique é
contraindicado.
Suas desvantagens incluem:
●
Maior
risco de contaminação por saliva ou sangue;
●
Menor
controle da umidade;
●
Dificuldade
em procedimentos próximos à gengiva.
Sempre que possível, o isolamento absoluto deve ser a escolha padrão. O isolamento relativo deve ser adotado apenas em situações clínicas onde o uso do dique é impraticável ou contraindicado.
A adesão efetiva dos materiais
restauradores depende de três pilares fundamentais: o condicionamento adequado das superfícies dentárias, o uso correto do sistema adesivo e a manutenção de um campo operatório seco e
limpo. O ácido fosfórico continua sendo o agente condicionador mais
confiável, especialmente para o esmalte. A escolha entre sistema convencional
ou autocondicionante deve considerar o substrato envolvido e a experiência
clínica do operador.
O isolamento, por sua vez, é uma etapa que não deve ser negligenciada. O uso do dique de borracha deve ser encarado como um padrão de excelência clínica, e não como um obstáculo. A correta integração dessas etapas permite restaurar dentes com previsibilidade, longevidade e respeito às estruturas biológicas.
●
ANUSAVICE,
K. J.; SHEN, C.; RAWLS, H. R. Phillips –
Materiais Dentários. 12. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013.
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O uso da resina composta na odontologia restauradora exige não apenas a
escolha de materiais de qualidade, mas também a adoção de técnicas operatórias específicas para garantir o desempenho clínico
adequado. Entre essas técnicas, a aplicação
incremental e a fotopolimerização
eficaz são fundamentais para controlar a contração de polimerização, assegurar a adesão adequada ao substrato dental e obter a estabilidade estética e funcional da restauração.
A correta manipulação da resina, associada à escolha apropriada do equipamento fotopolimerizador e ao controle do tempo e da intensidade de luz, está diretamente relacionada à longevidade clínica das restaurações. Este texto discute esses aspectos técnicos essenciais para a prática clínica com resinas compostas.
A contração de polimerização é um fenômeno inevitável nas resinas
compostas, resultante da aproximação das moléculas de monômero durante a
formação das cadeias poliméricas. Essa contração pode gerar tensões internas
capazes de comprometer a interface adesiva, provocando infiltrações, fendas marginais, sensibilidade pós-operatória e falhas
precoces.
A técnica incremental é uma
estratégia destinada a minimizar os
efeitos deletérios da contração, reduzindo o volume total de material
polimerizado por vez e permitindo melhor controle da adaptação do material às
paredes cavitárias.
●
Redução da tensão de polimerização por diminuir a massa do material em
cada cura;
●
Melhor adaptação marginal e diminuição do risco de gaps;
●
Maior profundidade de polimerização devido à melhor penetração da luz
em camadas delgadas;
●
Possibilidade de escultura anatômica progressiva, facilitando o
acabamento e polimento.
A técnica tradicional consiste na aplicação de camadas com espessura máxima de 2 mm, respeitando o limite de penetração da luz e assegurando a conversão adequada dos monômeros. Podem ser utilizados incrementos horizontais, oblíquos ou em forma de cunha, de acordo com a anatomia da cavidade.
A fotopolimerização é o processo de ativação da reação de cura da resina por meio de radiação luminosa. O equipamento utilizado, denominado fotopolimerizador, emite luz em comprimentos de onda específicos para ativar os
iniciadores presentes na resina
composta (geralmente a canforoquinona).
●
Halógena de quartzo-tungstênio
(QTH): foi o tipo
mais utilizado no passado. Apresenta amplo espectro de emissão, mas menor
eficiência energética, gerando calor e exigindo maior tempo de cura.
●
LED (Diodo Emissor de Luz): atualmente, é o padrão na maioria
das clínicas. Apresenta emissão concentrada em torno de 450–470 nm, com alta
eficiência, baixa geração de calor e tempo reduzido de exposição. Existem LEDs monowave e polywave, sendo os últimos indicados para resinas que utilizam
fotoiniciadores alternativos.
●
Plasma de arco e laser: tecnologias menos comuns, com alto
custo e uso restrito a nichos específicos.
A escolha do equipamento deve levar em consideração não apenas o tipo de luz, mas também sua intensidade de saída (mW/cm²) e a compatibilidade com o material restaurador.
A intensidade da luz emitida, aliada ao tempo de exposição, determina o grau de conversão da resina. Uma
cura inadequada pode resultar em restaurações com baixa dureza superficial, maior liberação de monômeros residuais, menor
resistência mecânica e aumento do risco de falhas.
●
Intensidade:
idealmente acima de 1000 mW/cm² para
resinas convencionais, sendo que alguns fabricantes recomendam intensidades de
até 1200–1500 mW/cm².
●
Tempo:
para camadas de 2 mm, recomenda-se 20 a
40 segundos com LED, dependendo da intensidade do aparelho e da
cor/opacidade da resina.
●
Distância:
a ponta do fotopolimerizador deve estar o mais próxima possível da superfície
da resina, evitando perdas por dispersão.
A redução do tempo sem compensação adequada na intensidade pode levar à cura incompleta, especialmente em camadas profundas, e comprometer a adesão. Também é importante manter a ponta do fotopolimerizador limpa e em boas condições, pois sujeiras e resinas fotopolimerizadas na lente reduzem drasticamente sua eficácia.
Apesar da simplicidade aparente da
fotopolimerização, diversos erros técnicos podem ocorrer durante o procedimento
restaurador:
●
Aplicação de camadas muito espessas: camadas superiores a 2 mm reduzem
a penetração da luz e dificultam a polimerização completa do material.
●
Cura com intensidade insuficiente: aparelhos sem manutenção ou com
luz fraca não polimerizam adequadamente a resina.
●
Distância excessiva da luz: a dispersão da luz aumenta com o
afastamento, reduzindo sua eficácia.
●
Cura com luz inclinada ou fora do
eixo: prejudica a penetração uniforme da
luz, criando zonas não polimerizadas.
●
Tempo de exposição insuficiente: mesmo com boa intensidade, o tempo
abaixo do recomendado compromete a conversão polimérica.
●
Descuido com o isolamento: contaminação por saliva ou sangue
durante a polimerização compromete a adesão e a integridade da restauração.
Além disso, o superaquecimento do dente por exposição prolongada à luz intensa sem intervalos adequados pode causar danos pulpares, especialmente em cavidades profundas. Portanto, é necessário equilibrar eficiência e segurança durante a polimerização.
A eficácia das restaurações com
resina composta depende de uma sequência técnica rigorosa. A técnica incremental, aliada a uma fotopolimerização controlada, contribui
para reduzir a contração de polimerização, otimizar a adesão e aumentar a
longevidade clínica das restaurações.
O conhecimento dos tipos de luz disponíveis, dos parâmetros ideais de tempo e intensidade e dos erros técnicos mais comuns permite ao profissional atuar com segurança e previsibilidade. A incorporação dessas boas práticas no cotidiano clínico é essencial para resultados restauradores duradouros e satisfatórios tanto do ponto de vista funcional quanto estético.
●
ANUSAVICE,
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