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Trabalho Social no PAEFI

 TRABALHO SOCIAL NO PAEFI

 

MÓDULO 2 — Técnicas e estratégias do trabalho social no PAEFI

Aula 4 — Acolhida, entrevista e escuta: o começo do vínculo

  

           Tem um momento muito específico no trabalho do PAEFI que costuma definir o tom de todo o acompanhamento: os primeiros minutos do encontro. Às vezes a pessoa chega com vergonha, falando baixo. Às vezes chega com raiva, dizendo que foi “obrigada” a vir. Às vezes chega confusa, sem conseguir explicar direito o que está acontecendo. E, em muitos casos, chega cansada — cansada de repetir a própria história, cansada de não ser acreditada, cansada de carregar tudo sozinha. Acolhida, entrevista e escuta, no PAEFI, são justamente isso: a capacidade de transformar esse começo (que pode ser tenso) em um início de caminho, com proteção, respeito e direção.

           Acolher não é “ser simpático” apenas. É uma atitude profissional que comunica: “Eu estou aqui para te escutar com seriedade e para construir, com você, próximos passos possíveis.” No PAEFI, essa postura é ainda mais importante porque muitas famílias chegam machucadas por experiências anteriores com instituições: foram tratadas com desconfiança, receberam sermões, ouviram ameaças ou se sentiram expostas. Então, logo de cara, é fundamental explicar de forma simples e humana o papel do CREAS e do serviço: “Aqui a gente trabalha com situações de violação de direitos. Nosso objetivo é proteger e acompanhar, articulando a rede. Não é um lugar de punição, mas também não é um lugar onde a gente ‘faz vista grossa’. A prioridade é segurança e direitos.”

           Quando a equipe faz essa apresentação com calma, algo muda. A pessoa entende que existe método, e não improviso. Entende que ela não precisa “brigar” para ser ouvida. E entende, principalmente, que haverá uma conversa franca sobre riscos e encaminhamentos — sem sustos e sem jogos de poder. Essa combinação (acolhimento + clareza) é uma das chaves para o vínculo no PAEFI.

           Depois da acolhida, vem a entrevista. E aqui aparece um erro muito comum de quem está começando: achar que entrevista é um “questionário”. No PAEFI, entrevista não é um formulário a ser preenchido; é um diálogo orientado por objetivos. Você conversa para compreender, para identificar riscos, para localizar fatores de proteção e para pactuar ações. É como se você estivesse, aos poucos, montando um mapa: onde a família está, o que a trouxe até aqui, quais são as ameaças, quais são os apoios e por onde dá para

começar.

           Para fazer isso bem, ajuda ter em mente que a entrevista do PAEFI costuma trabalhar com três camadas. A primeira camada é a história do que aconteceu (o que motivou a procura/encaminhamento). A segunda é a situação atual (o que está acontecendo agora, hoje, esta semana). E a terceira é o risco (há perigo imediato? alguém está ameaçado? há violência ativa? há necessidade de medida urgente?). Se a gente se perde na primeira camada e fica apenas “recolhendo história”, pode deixar passar um risco urgente. Se a gente pula direto para a terceira camada com perguntas agressivas, pode quebrar o vínculo e perder informações importantes. O equilíbrio é o ouro do PAEFI.

           Por isso, perguntas abertas costumam ser grandes aliadas no início. “O que te trouxe aqui hoje?” “Como tem sido a rotina de vocês?” “O que tem te preocupado mais?” “Quando isso começou a ficar mais difícil?” “O que você já tentou fazer?” Essas perguntas dão espaço para a pessoa organizar a narrativa. E, enquanto ela fala, você vai observando com atenção: o tom, as contradições, a emoção, o que ela consegue dizer e o que parece difícil dizer. Não para “pegar no pulo”, mas para compreender o que existe por trás do relato.

           Em situações de violência e violação, é comum a pessoa falar de um jeito quebrado, como quem vai e volta. Às vezes ela conta um pedaço e para. Às vezes minimiza. Às vezes muda de versão. Isso não significa necessariamente mentira; muitas vezes é trauma, medo, lealdade ambivalente, dependência financeira, ameaça do agressor ou simplesmente vergonha. Nesses momentos, a escuta qualificada não pressiona; ela sustenta. Um recurso muito útil é a “devolutiva organizadora”: “Deixa eu ver se entendi: você está me dizendo que as brigas aumentaram, que houve xingamentos e que você está com medo do que pode acontecer quando ele bebe. É isso?” Essa devolutiva ajuda a pessoa a se sentir compreendida e ajuda você a não se perder.

           Outro recurso importante é validar emoções sem validar violência. Parece detalhe, mas não é. Se uma mãe diz “eu bati porque eu estava fora de mim”, você pode reconhecer o cansaço e a sobrecarga, mas sem naturalizar a agressão: “Eu consigo perceber o quanto você está exausta. Ao mesmo tempo, a violência machuca e coloca a criança em risco. Vamos pensar juntas em outras formas de lidar com isso e em apoios que podem te fortalecer.” Assim você acolhe e mantém a proteção como eixo.

           E é aqui que entra o cuidado

com o que a gente fala. No PAEFI, frases ameaçadoras costumam ser um atalho ruim: “se você não fizer, vou chamar o Conselho”, “se continuar assim, você vai perder seus filhos”. Além de nem sempre serem verdadeiras daquele jeito, elas criam medo, não vínculo. O que funciona melhor é a transparência protetiva: “Quando existe risco para criança e adolescente, a rede tem obrigação de agir. Nosso objetivo é proteger e construir um caminho com vocês. Se a gente precisar acionar algum órgão, vou te explicar o motivo e vamos fazer do jeito mais cuidadoso possível.” Isso dá firmeza sem terror.

           A entrevista também precisa combinar escuta e limites. Tem momentos em que a pessoa vem com uma expectativa impossível: quer que o CREAS “resolva” em um dia, quer que a equipe “mande prender”, quer que “tire a criança de casa” como se fosse simples. Nesses momentos, ser humano é também ser didático: explicar o que o serviço pode e não pode fazer, quais são os passos, quais são as responsabilidades de cada órgão e o que pode ser feito imediatamente para reduzir risco. A didática, aqui, não é aula formal; é orientação que devolve chão para quem está perdido.

           Um ponto delicado no PAEFI é quando há criança ou adolescente envolvido. A escuta deles precisa ser cuidadosa. Não é adequado transformar a conversa em interrogatório (“ele te tocou?”, “quantas vezes?”, “onde?”), porque isso pode gerar traumatização e também comprometer encaminhamentos futuros. Em geral, o caminho mais protetivo é começar por perguntas sobre rotina e segurança: “Como é ficar em casa?” “O que acontece quando alguém se irrita?” “Você se sente seguro?” “Com quem você conversa quando fica triste?” E, se surgir relato de violência, o profissional acolhe, registra com cuidado e aciona os fluxos adequados, sempre respeitando as normativas e a proteção integral.

           A escuta qualificada também inclui olhar para o que não é dito. Às vezes, a pessoa fala muito sobre “desobediência do filho” e quase nada sobre a convivência com o companheiro. Às vezes fala muito sobre “problema na escola” e pouco sobre o que acontece em casa à noite. Às vezes o adulto domina a conversa e a criança fica invisível. O papel do profissional é equilibrar isso com respeito: dar voz, garantir que todos sejam escutados, sem expor ninguém a risco. Se houver suspeita de que conversar na frente de alguém pode piorar a segurança, é melhor pensar em estratégias protegidas, com pactuação e cuidado.

           Em

meio a tudo isso, existe um pilar que sustenta a confiança: explicar o sigilo e seus limites. A pessoa precisa saber que o que ela fala não vai virar fofoca de rede, mas também precisa entender que o CREAS não pode guardar em silêncio algo que coloca alguém em risco grave. Quando isso é explicado no começo, a relação fica mais transparente e segura: “A equipe trabalha com sigilo. A gente compartilha informações com a rede apenas quando é necessário para proteção e, sempre que possível, conversa com você antes sobre isso.”

           Por fim, a aula de hoje se completa quando a gente entende que acolhida, entrevista e escuta não são um “momento isolado”. Elas preparam o acompanhamento. Por isso, um bom primeiro encontro termina com algo muito concreto: próximos passos combinados. A pessoa precisa sair sabendo o que vai acontecer: haverá retorno? quando? haverá visita? qual objetivo? haverá contato com escola/saúde? por quê? quais sinais de alerta exigem ação imediata? Esse fechamento não é formalidade; é o começo de um plano. E quando a pessoa entende o caminho, ela tende a se sentir menos perdida — e isso, por si só, já é uma forma de proteção.

           Se você está começando, guarde esta imagem: no PAEFI, a acolhida é como abrir uma porta com cuidado. A entrevista é como acender a luz para enxergar o que está acontecendo. E a escuta qualificada é como segurar a mão de alguém enquanto vocês caminham por um corredor difícil — sem correr, sem empurrar, mas também sem ficar parado. Quando essas três coisas se alinham, o vínculo deixa de ser “sorte” e passa a ser resultado de postura, técnica e ética.

Referências bibliográficas

BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Política Nacional de Assistência Social – PNAS/2004. Brasília: MDS, 2004.

BRASIL. Conselho Nacional de Assistência Social. Norma Operacional Básica do SUAS – NOB/SUAS. Brasília: CNAS, 2012.

BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social. Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais. Brasília: MDS/CNAS, 2009.

BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social. Orientações Técnicas: Centro de Referência Especializado de Assistência Social – CREAS. Brasília: MDS, 2011.

BRASIL. Presidência da República. Lei nº 8.742, de 7 de dezembro de 1993 (Lei Orgânica da Assistência Social – LOAS). Brasília, 1993.

BRASIL. Presidência da República. Estatuto da Criança e do Adolescente – Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Brasília, 1990.

BRASIL. Presidência da República. Lei nº

13.431, de 4 de abril de 2017 (Sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente vítima ou testemunha de violência). Brasília, 2017.

CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL (CFESS). Código de Ética Profissional do/a Assistente Social. Brasília: CFESS, 1993 (e alterações posteriores).

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília: CFP, 2005.

 

Aula 5 — Estudo social e Plano de Acompanhamento: transformando “história” em caminho no PAEFI

 

           Depois da acolhida e das primeiras conversas, costuma aparecer uma sensação bem comum em quem está começando no PAEFI: “Eu já ouvi muita coisa…, mas como eu organizo isso?”. A família conta um pedaço, a escola traz outro, a unidade de saúde acrescenta mais um, o Conselho Tutelar encaminha com uma preocupação específica, e, quando você percebe, está com um quebra-cabeça enorme na mão. É aqui que o estudo social e o Plano de Acompanhamento Familiar ou Individual entram como ferramentas-chave. Eles ajudam a transformar um conjunto de informações (às vezes caótico) em um caminho concreto de proteção, acompanhamento e articulação de rede.

           O estudo social, no PAEFI, não é um “relatório frio” nem uma lista de problemas. Ele é um modo de olhar para a realidade de uma pessoa ou família com profundidade, para entender o que está acontecendo, por que está acontecendo, o que coloca em risco e o que protege. Em outras palavras, o estudo social é a construção de uma leitura da situação, feita com ética, método e cuidado, para orientar decisões e intervenções. Ele não se baseia em achismos nem em moralismos; ele se baseia em informações colhidas ao longo do acompanhamento, observações técnicas e diálogo com a rede, sempre com o objetivo de garantir direitos.

           Um jeito bem didático de entender o estudo social é pensar que ele reúne três blocos: (1) o contexto de vida, (2) a dinâmica da violação e (3) a rede e as possibilidades de proteção. No contexto de vida entram coisas como renda, trabalho, moradia, composição familiar, rotina, acesso a serviços, escolarização, saúde, presença de apoios (família ampliada, vizinhos, amigos), e também os atravessamentos do território (violência comunitária, falta de transporte, precariedade de serviços). Na dinâmica da violação, entram o tipo de violação de direitos, quando começou, como se manifesta, quem está mais vulnerável, quais são os gatilhos, se há agressor no convívio, se há ameaça, se há repetição ou

escalada. E, por fim, no bloco da rede e proteção, entram os serviços já acionados, os vínculos protetivos existentes, o que está funcionando, o que não está, e o que precisa ser construído.

           Ao fazer estudo social, uma postura essencial é não confundir vulnerabilidade com culpabilidade. É fácil cair na armadilha de “explicar demais” a violação por causa da pobreza ou do cansaço, e acabar naturalizando o que não pode ser naturalizado. E também é fácil ir para o lado oposto: enxergar só falha e “falta de caráter”, ignorando que a família pode estar imersa em sobrecargas reais. O estudo social maduro caminha no meio: reconhece contexto e sofrimento, mas mantém a proteção como eixo. Ele consegue dizer, ao mesmo tempo, “há sobrecarga e ausência de rede” e “há práticas que violam direitos e precisam ser interrompidas”.

           Outra coisa que confunde iniciantes é achar que estudo social é “um documento pronto” feito em um dia. No PAEFI, quase sempre o estudo social é processual: vai se refinando ao longo do acompanhamento. Você começa com uma leitura inicial (mais provisória), identifica lacunas (o que ainda precisa saber), ajusta hipóteses conforme surgem novos elementos, e vai registrando evoluções. Isso é muito importante porque muitos casos têm segredos, medos e silêncios. Às vezes a violência não aparece inteira no primeiro mês. Às vezes a família só confia depois de alguns encontros. Então, ao invés de buscar a “verdade final” logo, o estudo social constrói um entendimento suficiente para agir e proteger, e vai aprofundando com responsabilidade.

           E onde entra o Plano de Acompanhamento? Ele entra quando a equipe pega tudo isso e pergunta: “Diante desse cenário, qual é o objetivo do PAEFI aqui e quais passos são possíveis?”. O Plano de Acompanhamento é o que tira o caso do lugar de “conversa infinita” e coloca o acompanhamento no lugar de processo com direção. Ele dá forma ao trabalho: define prioridades, organiza ações, distribui responsabilidades e cria critérios para avaliar se houve avanço ou agravamento.

           Um plano bom no PAEFI não precisa ser complicado. Ele precisa ser claro. Geralmente, ele tem um objetivo geral e alguns objetivos específicos, com ações e prazos. O objetivo geral costuma ser algo como: reduzir riscos e enfrentar a violação de direitos, fortalecendo fatores de proteção e acesso à rede. Já os objetivos específicos são aqueles “degraus” que tornam a mudança possível. Por exemplo: garantir segurança

imediata; fortalecer a capacidade protetiva do responsável; retomar frequência escolar; estabilizar acesso à saúde e atendimento; construir rede de apoio; interromper convivência com agressor ou reduzir exposição a risco; promover acesso a benefícios e serviços que aliviem sobrecarga.

           Na prática, objetivos específicos funcionam melhor quando são escritos de um jeito que dá para reconhecer no cotidiano. Em vez de “melhorar vínculos”, você pode escrever “estabelecer combinados de convivência não violenta e rotina de cuidado, com acompanhamento quinzenal”. Em vez de “reduzir negligência”, você pode escrever “garantir que a criança tenha rotina mínima de alimentação, higiene e supervisão, com apoio do CRAS e acompanhamento do CREAS”. Isso não é “linguagem dura”. É linguagem concreta, que transforma intenção em ação.

           Outra característica do plano é a corresponsabilização. Plano não é lista de “tarefas da família” como se o CREAS fosse fiscal. Também não é lista de “tarefas do CREAS” como se a família não tivesse nenhum papel. Plano no PAEFI é pacto possível. Ele costuma ter ações do CREAS (atendimentos, visitas, articulação de rede, orientações), ações da família (comparecer aos atendimentos, aderir a combinados de proteção, buscar serviços, reorganizar rotina) e ações da rede (escola, UBS, CRAS, Conselho Tutelar, serviços especializados). Quando o plano distribui responsabilidades, ele diminui a sensação de abandono e aumenta a chance de continuidade.

           Um ponto muito importante: o plano precisa respeitar o que é prioridade. No PAEFI, às vezes a gente quer resolver “tudo” de uma vez: renda, moradia, escola, saúde, violência doméstica, uso de álcool, conflitos familiares, documentação… e aí o plano vira um peso impossível, e a família desiste. Um plano protetivo começa pelo essencial: o que precisa mudar primeiro para reduzir o risco mais grave? Depois, aos poucos, vai ampliando. Para famílias muito sobrecarregadas, um bom plano às vezes começa com duas ou três metas pequenas, bem definidas, e um retorno curto para revisar. Isso é mais humano e mais eficaz.

           Também é preciso lembrar que plano não é algo “imposto”. Ele é construído com a família, ainda que a família não concorde com tudo. Em alguns casos, a pessoa nega a violação, minimiza ou responsabiliza terceiros. Mesmo assim, dá para pactuar algo. Por exemplo: “Você pode não concordar com o termo ‘violência psicológica’, mas concorda que gritos e humilhações

fazem mal para a criança? Então vamos começar por aí: combinados de convivência e proteção.” Ou: “Você diz que ele ‘não é agressivo’, mas concorda que quando ele bebe a casa fica perigosa? Então vamos pactuar o que fazer nesses momentos.” O PAEFI trabalha muito com esse tipo de pacto inicial, porque ele abre caminho para aprofundar depois.

           E a avaliação do plano? Ela é o que evita que o acompanhamento vire “repetição de atendimentos”. Avaliar não é pressionar. É olhar com honestidade para os indicadores: houve redução de risco? A criança está mais segura? A família acessou a rede? Os atendimentos estão acontecendo? Houve recidiva de violência? Houve agravamento? Às vezes a avaliação mostra avanços pequenos, mas importantes: a pessoa voltou ao atendimento, aceitou uma orientação, conseguiu ir à UBS, retomou contato com a escola, reduziu conflitos. Outras vezes, mostra que algo piorou e que é preciso acionar medidas mais protetivas. O plano, então, é revisado — e isso é normal.

           Um cuidado técnico essencial é o modo de registrar o estudo social e o plano. Registro não deve ser moralista nem vago. E também não deve expor desnecessariamente. O ideal é registrar com linguagem objetiva: “responsável refere…”, “criança apresenta…”, “rede informa…”, “avaliado risco de…”, “pactuado que…”. Quando o documento é claro, ele protege a família, protege a equipe e ajuda a rede a agir com mais precisão.

           Para fechar esta aula com uma imagem simples: o estudo social é como uma lente que te ajuda a enxergar o caso com mais nitidez. O plano de acompanhamento é como um mapa que mostra por onde andar. Sem lente, a gente se confunde. Sem mapa, a gente se perde. Com os dois, o trabalho do PAEFI deixa de ser “apagar incêndio” e vira acompanhamento com direção, construído passo a passo, com firmeza e cuidado.

Referências bibliográficas

BRASIL. Presidência da República. Lei nº 8.742, de 7 de dezembro de 1993 (Lei Orgânica da Assistência Social – LOAS). Brasília, 1993.

BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Política Nacional de Assistência Social – PNAS/2004. Brasília: MDS, 2004.

BRASIL. Conselho Nacional de Assistência Social. Norma Operacional Básica do SUAS – NOB/SUAS. Brasília: CNAS, 2012.

BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social. Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais. Brasília: MDS/CNAS, 2009.

BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social. Orientações Técnicas: Centro de Referência Especializado de

Técnicas: Centro de Referência Especializado de Assistência Social – CREAS. Brasília: MDS, 2011.

BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social. Orientações Técnicas sobre o PAEFI e o trabalho social com famílias e indivíduos no âmbito do CREAS. Brasília: MDS, publicações do SUAS (edições vigentes).

BRASIL. Presidência da República. Estatuto da Criança e do Adolescente – Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Brasília, 1990.

BRASIL. Presidência da República. Lei nº 13.431, de 4 de abril de 2017 (Sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente vítima ou testemunha de violência). Brasília, 2017.

CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL (CFESS). Código de Ética Profissional do/a Assistente Social. Brasília: CFESS, 1993 (e alterações posteriores).

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília: CFP, 2005.


Aula 6 — Visita domiciliar, atendimento familiar e intervenções: quando o PAEFI sai da sala e encontra a vida como ela é

 

           Em algum momento do acompanhamento no PAEFI, a equipe percebe que só conversar dentro do CREAS não é suficiente. Às vezes a família falta repetidamente e você precisa entender por quê. Às vezes o relato traz dúvidas e contradições que pedem um olhar mais cuidadoso para a rotina. Às vezes existe uma criança ou um idoso em situação de risco, e a pergunta que não sai da cabeça é: “Como essa pessoa está vivendo, de verdade, no dia a dia?”. É aqui que entram três frentes muito importantes do trabalho: a visita domiciliar, o atendimento familiar e as intervenções planejadas. Elas são ferramentas potentes, mas exigem postura ética, planejamento e sensibilidade, porque mexem com o lugar mais íntimo das pessoas: a casa, os vínculos e os conflitos.

           A visita domiciliar costuma ser cercada de expectativas. Para algumas famílias, ela é sinal de apoio (“alguém veio até nós”). Para outras, é motivo de medo (“estão vindo fiscalizar”). E para alguns profissionais iniciantes, a visita dá um frio na barriga, como se fosse um território sem controle. Por isso, o primeiro aprendizado é: visita domiciliar não é fiscalização; é intervenção técnica com objetivo claro. Ela precisa ser feita com finalidade definida: conhecer a dinâmica familiar e o contexto de vida; avaliar fatores de risco e proteção; fortalecer vínculo; pactuar ações; garantir acesso a direitos; ou monitorar segurança quando existe violação.

           Quando a visita é usada como “curiosidade” ou como “punição”, ela

perde sentido e pode aumentar a resistência da família. Mas quando é usada com método, ela amplia o olhar e ajuda o plano de acompanhamento a ficar mais realista. Nem sempre o que aparece no atendimento aparece em casa. Às vezes a família diz que “está tudo bem”, mas a casa revela isolamento, ausência de supervisão de crianças, falta de alimentação adequada, situações de ameaça no território. Outras vezes, a família é vista como “desorganizada” no relato, mas a casa mostra esforços concretos de cuidado, apesar das dificuldades. A visita, então, serve para ajustar a leitura: nem romantizar, nem condenar — compreender para proteger.

           Como toda intervenção, a visita precisa ser planejada. Antes de ir, a equipe deve responder perguntas simples: Por que vamos? Para quê? Quem vai? Em que horário? Quem estará presente? Há risco de violência? Há presença de possível agressor? O território é seguro? Em alguns casos, a visita não deve ser feita por um único profissional ou sem articulação com a rede. Em outros, pode ser necessário combinar previamente, porque chegar “de surpresa” pode expor a família ou aumentar conflitos. Planejamento, aqui, é cuidado. Não é burocracia.

           Também é fundamental trabalhar com uma postura respeitosa ao entrar na casa do outro. A casa é extensão da intimidade e da dignidade. Então, pequenos gestos fazem diferença: pedir permissão para entrar, explicar o motivo da visita, dizer o tempo aproximado, evitar comentários sobre organização, móveis, cheiros, roupas, e tomar cuidado com perguntas que humilham. O objetivo não é “avaliar limpeza”, é compreender rotinas de cuidado, segurança e vínculos. Às vezes, o profissional iniciante precisa lembrar: o que parece “desleixo” pode ser exaustão, depressão, falta de água, falta de recursos, adoecimento, violência doméstica. Por isso, o olhar deve ser técnico e humano ao mesmo tempo.

           Durante a visita, ajuda observar três dimensões. A primeira é a dimensão material e de sobrevivência: há comida? há água? há local seguro para dormir? há risco estrutural (fiação exposta, entulho, risco de queda)? há proteção para criança pequena? há medicamentos acessíveis de forma perigosa? A segunda é a dimensão relacional: como as pessoas se falam? há gritos? há medo? alguém domina a conversa? as crianças evitam algum adulto? existe afeto? existe apoio? A terceira é a dimensão de rede e território: a família sabe onde buscar ajuda? tem acesso a UBS e escola? há violência comunitária

que impede circulação? há vizinhos de confiança? Essas observações não servem para “rotular”. Servem para orientar intervenções possíveis e seguras.

           E aqui entra um ponto central do PAEFI: o registro. O que você observa na visita precisa ser registrado com objetividade e respeito. Nada de “casa imunda”, “mãe relaxada”, “família desestruturada”. O registro técnico descreve: “ambiente com acúmulo de lixo no cômodo X”, “ausência de alimentos perecíveis e não perecíveis visíveis”, “criança de 3 anos sem supervisão durante parte da visita”, “relato de ausência de água há 10 dias”, “observou-se tensão e elevação de voz entre adultos”. Descrição é diferente de julgamento. E essa diferença protege todo mundo.

           Além da visita, o atendimento familiar é uma das ferramentas mais ricas e também mais delicadas do PAEFI. Ele não é “reunião para dar lição de moral”. É um espaço para reorganizar comunicação, pactuar proteção e construir acordos possíveis. Em situações de violência, porém, existe um cuidado essencial: nem todo atendimento familiar é seguro. Se há um agressor no convívio ou se a presença de determinada pessoa aumenta o risco, juntar todos na mesma sala pode piorar a situação. Em alguns casos, o atendimento individual e o trabalho com rede precisam vir antes. O PAEFI não trabalha “a qualquer custo”; trabalha com prioridade de segurança.

           Quando o atendimento familiar é possível, ele costuma funcionar melhor quando começa pelo concreto. Famílias em sofrimento se perdem no “sempre” e no “nunca”: “ele sempre grita”, “ela nunca obedece”, “ninguém me ajuda”. O profissional pode ajudar a aterrar a conversa: “Vamos falar da última semana. O que aconteceu? Em que momentos piorou? Em que momentos foi melhor?” Essa pergunta simples transforma acusações em situações observáveis. E, a partir daí, dá para construir combinados: como lidar com conflitos sem violência, como distribuir tarefas de cuidado, como organizar rotina, como acionar ajuda quando a tensão subir.

           No PAEFI, intervenções não são mágicas nem instantâneas. Elas são ajustes finos e progressivos. Um exemplo: uma mãe que grita e humilha o filho pode estar repetindo um padrão que ela mesma viveu, e também pode estar exausta por sobrecarga. A intervenção, então, pode envolver orientação sobre práticas não violentas, pactos de convivência, encaminhamento para apoio na rede (CRAS, saúde mental quando indicado), organização de acesso a benefícios, e acompanhamento

frequente no início. Ou seja, a intervenção é um conjunto: suporte + limite + rede. Sem suporte, vira cobrança. Sem limite, vira conivência. Sem rede, vira sobrecarga do CREAS.

           Outro exemplo: em casos de violência doméstica, uma intervenção protetiva pode ser construir com a pessoa um plano de segurança. Coisas muito práticas: para onde ir se houver ameaça, quem chamar, como guardar documentos, como combinar uma palavra-sinal com alguém de confiança, como buscar apoio na rede. Pode parecer simples, mas em muitos casos salva vidas. A intervenção aqui é tão concreta quanto humana: é olhar para o risco e dizer “vamos reduzir as chances de algo pior acontecer”.

           Intervenções no PAEFI também incluem algo que, para iniciantes, costuma ser difícil: articular rede sem “empurrar o caso”. Encaminhar não é se livrar; é construir continuidade. Por isso, ao encaminhar para a escola, UBS, Conselho Tutelar ou outro serviço, é importante deixar claro o objetivo e o combinado: o que a rede fará, o que o CREAS acompanhará, o que a família precisa saber. Intervenção de rede bem feita diminui peregrinação e aumenta proteção.

           Um tema importante na aula 6 é entender que algumas intervenções são pequenas, mas estratégicas. Às vezes o que destrava um caso não é uma grande reunião, mas uma mudança simples: estabelecer retorno semanal por um mês; fazer uma visita em horário combinado; garantir matrícula escolar; organizar acesso a documentos; alinhar com a escola para reduzir exposição; incluir a família em um serviço do território; fortalecer um parente protetivo. Essas ações podem parecer “básicas”, mas em situações de violação elas criam estrutura, e estrutura é proteção.

           Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer os limites do serviço e os limites do tempo. Há casos em que, apesar das intervenções, a situação não melhora ou até piora. Nesses momentos, o PAEFI precisa sustentar a postura protetiva: reavaliar risco, registrar evolução, acionar rede e medidas cabíveis, intensificar acompanhamento ou reorganizar estratégias. Isso faz parte do trabalho. E, de novo, não é “falha” quando a realidade é dura; é a exigência ética de não abandonar e não fingir que está tudo bem.

           Para fechar, vale guardar uma síntese simples desta aula: visita domiciliar, atendimento familiar e intervenções são maneiras de aproximar o PAEFI da vida real. Elas tiram o caso do papel e colocam o acompanhamento no cotidiano. Quando bem feitas, com

planejamento, ética e clareza, elas ampliam proteção, fortalecem vínculo e dão concretude ao plano de acompanhamento.

E talvez essa seja a parte mais bonita (e mais exigente) do trabalho: entrar na complexidade da vida do outro com respeito, sem invadir, mas também sem se omitir — para que direitos não sejam só palavras, e sim cuidado possível.

Referências bibliográficas

BRASIL. Presidência da República. Lei nº 8.742, de 7 de dezembro de 1993 (Lei Orgânica da Assistência Social – LOAS). Brasília, 1993.

BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Política Nacional de Assistência Social – PNAS/2004. Brasília: MDS, 2004.

BRASIL. Conselho Nacional de Assistência Social. Norma Operacional Básica do SUAS – NOB/SUAS. Brasília: CNAS, 2012.

BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social. Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais. Brasília: MDS/CNAS, 2009.

BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social. Orientações Técnicas: Centro de Referência Especializado de Assistência Social – CREAS. Brasília: MDS, 2011.

BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social. Orientações Técnicas: Trabalho Social com Famílias e Indivíduos no âmbito do CREAS/PAEFI. Brasília: MDS, publicações do SUAS (edições vigentes).

BRASIL. Presidência da República. Estatuto da Criança e do Adolescente – Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Brasília, 1990.

BRASIL. Presidência da República. Lei nº 13.431, de 4 de abril de 2017 (Sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente vítima ou testemunha de violência). Brasília, 2017.

CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL (CFESS). Código de Ética Profissional do/a Assistente Social. Brasília: CFESS, 1993 (e alterações posteriores).

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília: CFP, 2005.


Estudo de caso envolvente do Módulo 2 — “O caso que parecia simples… até a visita”

 

Na primeira semana no CREAS, a equipe recebeu um encaminhamento curto da escola:

“Adolescente (14 anos) com faltas frequentes, sonolência, queda de rendimento. Mãe difícil de localizar. Suspeita de negligência.”

O nome dela era Larissa, 14. A mãe, Patrícia, 33, trabalhava “quando aparecia” e dizia que “não tinha tempo pra essas coisas”. Moravam com o padrasto, Rogério, 38, e um irmão menor, Davi, 6.

Larissa chegou ao CREAS num fim de tarde, com o uniforme amarrotado e o celular na mão. Ela sentou no canto e não olhava no rosto de ninguém. Patrícia veio junto, já falando alto na recepção:

“Eu

vim porque disseram que se eu não viesse ia dar problema. Mas eu não tenho culpa se essa menina não quer nada com a vida.”

A técnica recém-chegada, querendo “ser eficiente”, respirou fundo e pensou: “Ok, caso típico de falta de rotina. Vou organizar e pronto.”

E foi aí que o caso começou a sair do rumo.

Parte 1 — O atendimento que “travou”: erros comuns do Módulo 2

Erro 1: transformar acolhida em interrogatório

Logo no início, a profissional abriu um bloco de perguntas em sequência, sem preparar o terreno:

— “Quantas faltas? Quem cuida dela? Você trabalha onde? Vocês têm renda fixa? Ela tem pai? Ela usa drogas? Ela obedece?”

Patrícia respondeu atravessado, Larissa ficou ainda mais fechada e o clima virou disputa. A técnica até conseguiu informações, mas não conseguiu o principal: vínculo e confiança. A entrevista virou um checklist, e ninguém se sentiu realmente escutado.

Como evitar: começar com acolhida + explicação do papel do PAEFI + perguntas abertas (“O que vocês esperam daqui hoje?”) e só depois ir para perguntas mais específicas, sempre explicando o motivo.

Erro 2: “comprar” a narrativa do adulto e silenciar a adolescente

Patrícia dominou a conversa:

“Ela fica no celular, não quer estudar, dorme tarde, é preguiçosa.”

A técnica, sem perceber, concordou com acenos e respondeu:

— “Então vamos trabalhar disciplina e rotina.”

Larissa manteve a cabeça baixa. Ninguém perguntou como ela estava se sentindo, nem como eram as noites em casa, nem o que acontecia quando Rogério chegava.

Como evitar: garantir espaço de fala para o adolescente, com cuidado e pactuação: “Patrícia, eu vou conversar uns minutos com a Larissa também, para entender a perspectiva dela. Depois voltamos juntas para combinar os passos.”

Erro 3: não avaliar risco antes de “planejar mudanças”

Sem avaliar risco, a técnica já sugeriu:

— “Vamos fazer um combinado: tirar o celular durante a semana e colocar horário de dormir.”

Patrícia gostou da ideia e riu:

“Boa. Vou tomar esse celular na marra. E se ela reclamar, apanha.”

A técnica ficou sem reação e tentou “corrigir” com um sermão:

— “Não pode bater, viu?”

Mas sem método, sem pacto e sem plano de proteção, a fala ficou solta. Larissa ficou pálida. Ali apareceu o que o Módulo 2 insiste: antes de pensar em rotina, a gente precisa avaliar segurança.

Como evitar: fazer perguntas de risco de forma cuidadosa e direta, com linguagem protetiva: “Quando tem conflito em casa, o que acontece? Alguém se machuca? Tem gritos,

ameaças, empurrões? Você se sente segura?”

Erro 4: estudo social apressado, cheio de rótulos

No registro, a profissional escreveu: “Mãe negligente, adolescente sem limites, família desestruturada.”

Esse tipo de registro pode virar uma armadilha: é subjetivo, julgador e pouco útil para orientar intervenção. Além disso, expõe a família de forma desnecessária e pode atrapalhar articulação de rede.

Como evitar: registrar fatos e falas de forma objetiva: “Mãe refere dificuldades de supervisão devido a trabalho informal; adolescente apresenta sonolência e faltas escolares; mãe relata intenção de retirar celular ‘na marra’ e menciona uso de agressão física como forma de controle.”

Erro 5: Plano de acompanhamento impossível (e sem corresponsabilização)

A técnica montou um plano “perfeito” no papel:

  • Larissa: frequência escolar 100%, sem celular, dormir 22h, reforço escolar, psicólogo.
  • Patrícia: participar de grupo de pais, procurar emprego fixo, comparecer ao CREAS semanalmente.
  • Rogério: “mudar postura”.

Nada disso foi pactuado de verdade. Era grande demais, rápido demais e sem considerar contexto (trabalho, território, medo, violência). Resultado: a família faltou no retorno.

Como evitar: priorizar 2–3 metas iniciais realistas, com prazos curtos, e dividir responsabilidades entre CREAS, família e rede.

Parte 2 — A visita domiciliar que mudou tudo (e o erro mais perigoso)

Duas semanas depois, a escola ligou dizendo que Larissa piorou e sumiu por dois dias. A equipe decidiu fazer visita domiciliar.

A técnica, ainda insegura, foi sozinha e sem planejamento. Chegou sem combinar horário, bateu palma, perguntou alto pelo nome de Larissa, na frente de vizinhos.

Rogério apareceu no portão, irritado:

“Agora virou polícia? Vão ficar vindo aqui?”

Dentro da casa, a tensão era visível. Larissa não saiu do quarto. Patrícia, nervosa, só repetia: “Tá tudo bem.”

A técnica tentou insistir:

— “Eu preciso ver a Larissa.”

Rogério fechou a cara:

“Aqui ninguém manda.”

Essa visita, feita sem estratégia, aumentou risco. Depois, Patrícia enviou mensagem dizendo que não voltaria mais, e Larissa parou de responder.

Erro crítico: visita sem objetivo claro, sem avaliação de risco e sem cuidado com exposição da família no território.

Como evitar: planejar a visita (objetivo, segurança, equipe, horário), combinar com a família quando possível, e evitar exposição pública. Se houver suspeita de agressor no convívio, avaliar se é seguro ir e como.

Parte 3 — “Rebobina”: como o caso poderia ser conduzido com o Módulo 2 bem aplicado

Vamos imaginar a mesma história, mas com decisões mais protetivas e didáticas.

1) Acolhida que abre caminho

A técnica começa assim:

— “Patrícia, eu entendo que vir ao CREAS pode dar sensação de cobrança. Aqui nosso objetivo é proteger direitos e acompanhar a família para reduzir riscos. Vamos conversar com calma, e no final combinamos próximos passos claros.”

Perguntas abertas primeiro:
— “O que mais tem preocupado vocês?”
— “O que mudou nos últimos meses?”
— “Quando as faltas começaram a aumentar?”

2) Escuta da adolescente com pactuação

— “Patrícia, posso falar 10 minutos com a Larissa e depois voltamos juntas? É importante ouvir a visão dela.”

A sós, em vez de interrogar, a técnica pergunta:
— “Como é sua rotina em casa?”
— “Quando tem briga, o que acontece?”
— “Você se sente segura?”
— “O que você gostaria que melhorasse primeiro?”

Larissa conta, aos poucos, que Rogério grita, controla o celular, faz comentários humilhantes, e que ela evita ficar em casa. Em uma noite, ele tentou pegar o celular à força e empurrou ela.

3) Estudo social sem rótulos + avaliação de risco

A técnica registra como relato, identifica risco de violência psicológica e física, e considera fatores de proteção (vínculo com uma tia, boa relação com uma professora, UBS próxima).

4) Plano de acompanhamento realista e protetivo (primeiro ciclo)

Em vez de 20 metas, o plano começa com três:

1.     Segurança: pactuar medidas imediatas para reduzir conflito e violência (inclui orientar proteção e avaliar necessidade de acionar rede conforme risco).

2.     Acompanhamento: retorno semanal por 1 mês (Larissa + Patrícia), com escuta e pactos graduais.

3.     Rede: contato com a escola para apoiar permanência e reduzir exposição; articulação com UBS para avaliar sono/saúde mental (quando indicado).

Responsabilidades ficam distribuídas:

  • CREAS: atendimentos + articulação + reavaliação de risco.
  • Família: comparecer + pactuar combinados mínimos.
  • Escola/UBS: acompanhar e informar sinais de alerta.

5) Visita domiciliar planejada (se necessária e segura)

A visita só ocorre com objetivo claro e cuidado:

  • combinar horário com Patrícia;
  • ir em dupla (quando indicado);
  • evitar exposição no território;
  • ter um roteiro de observação focado em proteção (rotina, supervisão, ambiente, dinâmica relacional);
  • se Rogério for fator de risco, avaliar
  • alternativa: atendimento no CREAS, conversa com Patrícia em espaço seguro, e acionamento da rede conforme fluxo local.

Parte 4 — Resumo dos erros comuns do Módulo 2 e como evitá-los

1.     Entrevista vira questionário → Comece com acolhida e perguntas abertas; explique o porquê das perguntas.

2.     Só o adulto fala → Garanta espaço protegido para criança/adolescente, com pactuação.

3.     Sem avaliação de risco → Antes de “rotina e disciplina”, avalie segurança e violação.

4.     Registro com rótulos → Descreva fatos e falas; evite julgamentos.

5.     Plano impossível → Priorize poucas metas iniciais, realistas, com prazos curtos e corresponsabilização.

6.     Visita domiciliar mal feita → Planeje, proteja a família de exposição e avalie risco antes.

 

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