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TONTURA
NO PRONTO SOCORRO
Módulo
3 – Tratamento e Atendimento Seguro
Aula 1 – Tratamento medicamentoso e não
medicamentoso
O tratamento da tontura no pronto-socorro
deve sempre começar pela identificação de sua causa. Não existe um medicamento
capaz de tratar todos os tipos de tontura, pois esse sintoma pode estar
relacionado a doenças do labirinto, alterações neurológicas, problemas
cardiovasculares, distúrbios metabólicos ou até efeitos adversos de
medicamentos. Por isso, o objetivo inicial é aliviar o desconforto do paciente
sem perder de vista a investigação da doença responsável pelos sintomas.
Nos pacientes que apresentam náuseas,
vômitos e vertigem intensa, é comum utilizar medicamentos para controlar os
sintomas durante a fase aguda. Antivertiginosos e antieméticos ajudam a reduzir
o mal-estar, permitindo maior conforto e facilitando a avaliação clínica.
Entretanto, essas medicações devem ser utilizadas apenas pelo tempo necessário,
principalmente nas vestibulopatias periféricas, pois o uso prolongado pode
retardar a compensação vestibular, mecanismo natural pelo qual o cérebro se
adapta às alterações do sistema de equilíbrio.
Outro aspecto importante é compreender que
o tratamento sintomático não substitui o tratamento específico. Se a tontura
for consequência de uma hipoglicemia, por exemplo, a prioridade será corrigir a
glicemia. Em casos de desidratação, a reposição de líquidos é fundamental.
Quando houver suspeita de arritmias cardíacas, infecções, distúrbios
metabólicos ou acidente vascular cerebral (AVC), o tratamento deve ser
direcionado à doença de base, e não apenas ao alívio da tontura. Essa abordagem
reduz complicações e melhora o prognóstico do paciente.
Nas doenças vestibulares periféricas,
algumas condutas específicas apresentam excelentes resultados. Na Vertigem
Posicional Paroxística Benigna (VPPB), por exemplo, o tratamento de escolha
consiste nas manobras de reposicionamento dos otólitos, especialmente a manobra
de Epley. Em muitos pacientes, uma única sessão já proporciona melhora
significativa dos sintomas, reduzindo ou até eliminando a necessidade de
medicamentos. As diretrizes atuais recomendam priorizar essas manobras sempre
que o diagnóstico estiver confirmado.
Na neurite vestibular, o manejo inclui controle dos sintomas durante os primeiros dias e incentivo ao retorno gradual das atividades. Em situações selecionadas e avaliadas pelo médico, pode ser
considerada a utilização de corticosteroides na fase inicial da doença.
Entretanto, a recuperação depende principalmente da compensação vestibular e da
reabilitação funcional, motivo pelo qual o repouso prolongado deve ser evitado.
Entre as medidas não medicamentosas, a reabilitação
vestibular ocupa papel de destaque. Trata-se de um conjunto de exercícios
específicos que estimula o sistema nervoso a reorganizar os mecanismos
responsáveis pelo equilíbrio. Os exercícios trabalham movimentos dos olhos, da
cabeça, da marcha e do controle postural, favorecendo a adaptação do organismo
e diminuindo episódios de tontura e instabilidade. Diversos estudos demonstram
que a reabilitação vestibular acelera a recuperação funcional e melhora a
qualidade de vida dos pacientes.
Outro cuidado importante é orientar o
paciente sobre o retorno gradual às atividades diárias. Permanecer deitado por
vários dias, salvo em situações específicas, pode retardar a recuperação. A
movimentação progressiva da cabeça e do corpo favorece a adaptação do sistema
vestibular e reduz o risco de persistência dos sintomas. Esse processo deve
ocorrer de forma segura, respeitando as limitações individuais e evitando
situações que aumentem o risco de quedas.
A educação do paciente também faz parte do
tratamento. Muitas pessoas acreditam que qualquer episódio de tontura
corresponde à chamada "labirintite" e acabam utilizando medicamentos
por longos períodos sem acompanhamento médico. Explicar a causa provável dos
sintomas, a finalidade das medicações e a importância do seguimento clínico
melhora a adesão ao tratamento e evita o uso inadequado de antivertiginosos.
Durante a alta hospitalar, é essencial
fornecer orientações claras sobre os sinais que exigem retorno imediato ao
serviço de emergência. Fraqueza em um lado do corpo, dificuldade para falar,
alteração da visão, perda de consciência, piora progressiva da tontura ou
dificuldade importante para caminhar são exemplos de sinais de alerta que podem
indicar uma condição mais grave e não devem ser ignorados.
Em resumo, o tratamento da tontura deve ser individualizado e baseado na causa identificada. O uso criterioso de medicamentos, associado às medidas não farmacológicas e à orientação adequada do paciente, proporciona melhores resultados clínicos. No pronto-socorro, aliviar os sintomas é importante, mas garantir um diagnóstico correto e um acompanhamento seguro é o que realmente faz diferença na recuperação do paciente.
Referências
bibliográficas
BRASIL. Ministério da Saúde. Cadernos
de Atenção Básica nº 28 – Acolhimento à Demanda Espontânea: Queixas Mais Comuns
na Atenção Básica. Brasília: Ministério da Saúde.
CONSELHO FEDERAL DE FISIOTERAPIA E TERAPIA
OCUPACIONAL. Resolução sobre Reabilitação Vestibular.
COSTA, Henrique Olival; MESQUITA NETO,
Osmar. Diretriz sobre Vertigem. Revista da Associação Médica Brasileira.
MARTINS, Herlon Saraiva; SCALABRINI NETO,
Augusto; VELASCO, Irineu Tadeu. Pronto-Socorro: Condutas do Hospital das
Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Barueri: Manole.
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Diretrizes de
Atenção à Reabilitação da Pessoa com Acidente Vascular Cerebral. Brasília:
Ministério da Saúde.
Aula 2 – Critérios de internação, alta e
encaminhamento
Após identificar a causa provável da
tontura e iniciar o tratamento adequado, o profissional precisa tomar uma
decisão importante: o paciente pode receber alta com segurança ou necessita de
internação e investigação complementar? Essa definição deve ser baseada na
avaliação clínica, na evolução dos sintomas, nos fatores de risco e na presença
ou ausência de sinais de gravidade. Uma alta segura reduz o risco de
complicações e evita retornos desnecessários ao pronto-socorro.
Nem todo paciente com tontura precisa
permanecer internado. Muitos apresentam doenças benignas, como a Vertigem
Posicional Paroxística Benigna (VPPB), que pode ser tratada com manobras de
reposicionamento e acompanhamento ambulatorial. Outros apresentam neurite
vestibular ou episódios autolimitados de vertigem periférica, que respondem bem
ao tratamento clínico e às orientações para recuperação em casa. Entretanto,
antes da alta, é fundamental confirmar que o paciente está clinicamente
estável, consegue caminhar com segurança e compreendeu as orientações
fornecidas pela equipe de saúde.
Por outro lado, algumas situações exigem
internação imediata. Pacientes com suspeita de acidente vascular cerebral
(AVC), alterações neurológicas persistentes, perda importante da coordenação
motora, dificuldade para permanecer em pé, rebaixamento do nível de consciência
ou instabilidade clínica devem permanecer em ambiente hospitalar para
investigação e monitoramento. Nesses casos, a prioridade é identificar
rapidamente a causa da tontura e iniciar o tratamento específico o mais cedo
possível.
Também merecem atenção especial os pacientes que apresentam fatores de risco importantes, como idade avançada, hipertensão arterial, diabetes mellitus,
fibrilação atrial, doenças
cardiovasculares ou uso de anticoagulantes. Embora esses fatores, isoladamente,
não determinem a necessidade de internação, eles aumentam a probabilidade de
causas centrais e devem ser considerados juntamente com a história clínica e o
exame físico.
Outro critério importante é a capacidade
funcional do paciente. Pessoas que permanecem incapazes de caminhar, apresentam
vômitos persistentes, não conseguem manter hidratação adequada ou necessitam de
medicação intravenosa frequentemente precisam permanecer em observação até que
haja melhora clínica. Além disso, pacientes sem suporte familiar ou com
dificuldade para compreender as orientações podem necessitar de acompanhamento
mais prolongado para garantir um retorno seguro ao domicílio.
Quando a alta é indicada, ela deve ser
acompanhada de orientações claras. O paciente precisa entender qual foi o
diagnóstico provável, quais medicamentos utilizar, como realizar corretamente o
tratamento prescrito e quais cuidados deverá manter nos próximos dias. Também é
importante orientar que atividades como dirigir veículos, operar máquinas,
trabalhar em altura ou subir escadas sejam evitadas enquanto houver risco de
novas crises de tontura ou desequilíbrio.
As orientações sobre sinais de alerta são
indispensáveis. O paciente deve ser informado de que deve procurar
imediatamente um serviço de emergência caso apresente piora da tontura,
dificuldade para falar, perda de força ou sensibilidade em braços ou pernas,
visão dupla, perda da consciência, dor de cabeça intensa, dificuldade para
caminhar ou qualquer outro sintoma neurológico novo. Essas manifestações podem
indicar uma condição grave que não estava evidente durante a avaliação inicial.
Após a alta, muitos pacientes necessitam
de acompanhamento ambulatorial. Dependendo da causa da tontura, pode ser
indicado retorno com otorrinolaringologista, neurologista, cardiologista ou
clínico geral. Pacientes com doenças vestibulares frequentemente se beneficiam
da reabilitação vestibular, realizada por fisioterapeutas capacitados, que
acelera a compensação do sistema de equilíbrio e reduz a recorrência dos
sintomas.
Um erro frequente é liberar o paciente apenas porque os sintomas diminuíram após o uso de medicamentos. A melhora clínica imediata não significa necessariamente que a causa da tontura foi identificada ou resolvida. Da mesma forma, manter um paciente internado sem critérios objetivos também não representa uma boa prática
assistencial. O
equilíbrio entre segurança e uso racional dos recursos depende de uma avaliação
clínica criteriosa e individualizada.
Em síntese, a decisão entre alta, observação ou internação deve ser tomada com base no conjunto das informações obtidas durante o atendimento. Uma avaliação completa, aliada à orientação adequada do paciente e ao planejamento do acompanhamento, reduz complicações, melhora a continuidade do cuidado e fortalece a segurança da assistência prestada.
Referências bibliográficas
BRASIL. Ministério da Saúde. Cadernos
de Atenção Básica nº 28 – Acolhimento à Demanda Espontânea: Queixas Mais Comuns
na Atenção Básica. Brasília: Ministério da Saúde.
COSTA, Henrique Olival; MESQUITA NETO,
Osmar. Diretriz sobre Vertigem. Revista da Associação Médica Brasileira.
HOSPITAL ISRAELITA ALBERT EINSTEIN. Guia
do Episódio de Cuidado: Diagnóstico e Tratamento da Tontura Aguda na Unidade de
Pronto Atendimento.
MARTINS, Herlon Saraiva; SCALABRINI NETO,
Augusto; VELASCO, Irineu Tadeu. Pronto-Socorro: Condutas do Hospital das
Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Barueri: Manole.
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Linha de Cuidado
do Acidente Vascular Cerebral no Adulto. Brasília: Ministério da Saúde.
Aula 3 – Erros comuns no pronto-socorro e
como
evitá-los
O atendimento ao paciente com tontura
representa um desafio frequente nos serviços de urgência e emergência. Apesar
de, na maioria das vezes, estar relacionada a doenças benignas, a tontura
também pode ser o primeiro sinal de condições graves, como o acidente vascular
cerebral (AVC). Muitos dos erros cometidos no pronto-socorro não decorrem da
falta de exames, mas da interpretação inadequada dos sintomas ou da realização
de uma avaliação clínica incompleta. Conhecer essas falhas e aprender a
evitá-las é essencial para oferecer um atendimento mais seguro e eficiente.
Um dos erros mais frequentes é considerar
que toda tontura corresponde à chamada "labirintite". Na prática,
esse termo costuma ser utilizado de forma genérica para qualquer episódio de
vertigem, quando, na realidade, existem diversas causas possíveis. Alterações
do sistema vestibular, doenças neurológicas, problemas cardiovasculares,
distúrbios metabólicos, uso de medicamentos e até quadros infecciosos podem
provocar tontura. Rotular rapidamente o paciente sem uma investigação adequada
aumenta o risco de atraso no diagnóstico de doenças potencialmente graves.
Outro equívoco comum é concentrar a avaliação apenas na intensidade
dade da tontura. Um paciente com Vertigem Posicional
Paroxística Benigna (VPPB) pode apresentar sintomas muito intensos e, ainda
assim, ter uma doença benigna. Por outro lado, um paciente com AVC cerebelar
pode apresentar uma tontura aparentemente moderada, mas acompanhada de
alterações discretas da marcha ou da coordenação. Por isso, a gravidade do
quadro não deve ser julgada apenas pelo desconforto relatado, mas pelo conjunto
das informações clínicas.
Também é frequente solicitar exames de
imagem antes mesmo da realização de um exame físico completo. Embora a
tomografia computadorizada seja amplamente utilizada no pronto-socorro, ela
possui baixa sensibilidade para identificar AVC isquêmico da circulação
posterior nas primeiras horas. Assim, um resultado normal não exclui
completamente uma doença neurológica. A história clínica detalhada e o exame
físico continuam sendo os principais instrumentos para orientar a investigação
inicial.
Outro erro importante consiste em deixar
de investigar os fatores de risco do paciente. Hipertensão arterial, diabetes
mellitus, fibrilação atrial, tabagismo, idade avançada e histórico de doenças
cardiovasculares aumentam a probabilidade de causas centrais da tontura. Essas
informações devem ser obtidas ainda na anamnese, pois ajudam a definir o nível
de risco e a necessidade de investigação complementar.
A realização incompleta do exame
neurológico também contribui para diagnósticos equivocados. Alterações
discretas da coordenação motora, da marcha, dos movimentos oculares ou do
equilíbrio podem ser os únicos sinais de um AVC cerebelar. Em pacientes com síndrome
vestibular aguda, protocolos como o HINTS podem auxiliar na diferenciação entre
causas periféricas e centrais quando aplicados por profissionais devidamente
treinados e nos pacientes corretos.
Outro problema observado na prática é o
uso prolongado de antivertiginosos. Esses medicamentos são úteis para aliviar
os sintomas na fase aguda, mas não tratam a causa da tontura. Nas
vestibulopatias periféricas, sua utilização por tempo excessivo pode retardar a
compensação vestibular e prolongar a recuperação funcional. Sempre que
possível, o tratamento deve ser direcionado à doença de base e associado à
reabilitação vestibular quando indicada.
Também merece destaque a alta hospitalar sem orientações adequadas. Antes de deixar o pronto-socorro, o paciente deve compreender o diagnóstico provável, o tratamento prescrito, os cuidados necessários em casa e os sinais
destaque a alta hospitalar
sem orientações adequadas. Antes de deixar o pronto-socorro, o paciente deve
compreender o diagnóstico provável, o tratamento prescrito, os cuidados
necessários em casa e os sinais de alerta que exigem retorno imediato ao
serviço de emergência. Orientações claras reduzem complicações, aumentam a
adesão ao tratamento e fortalecem a segurança do atendimento.
Evitar esses erros depende principalmente
da adoção de um raciocínio clínico organizado. A abordagem deve integrar a
história clínica, o exame físico, a identificação de fatores de risco e a
solicitação criteriosa de exames complementares. Essa sequência permite
estabelecer diagnósticos mais precisos, reduz intervenções desnecessárias e
melhora a qualidade da assistência prestada.
Em conclusão, o profissional que atende pacientes com tontura no pronto-socorro deve manter uma postura investigativa e evitar conclusões precipitadas. A combinação entre conhecimento técnico, avaliação clínica cuidadosa e comunicação eficiente com o paciente constitui a melhor estratégia para reduzir erros diagnósticos e oferecer um atendimento seguro, humanizado e baseado em evidências.
Referências bibliográficas
BRASIL. Ministério da Saúde. Cadernos
de Atenção Básica nº 28 – Acolhimento à Demanda Espontânea: Queixas Mais Comuns
na Atenção Básica. Brasília: Ministério da Saúde.
COSTA, Henrique Olival; MESQUITA NETO,
Osmar. Diretriz sobre Vertigem. Revista da Associação Médica Brasileira.
HOSPITAL ISRAELITA ALBERT EINSTEIN. Guia
do Episódio de Cuidado: Diagnóstico e Tratamento da Tontura Aguda na Unidade de
Pronto Atendimento.
MARTINS, Herlon Saraiva; SCALABRINI NETO,
Augusto; VELASCO, Irineu Tadeu. Pronto-Socorro: Condutas do Hospital das
Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Barueri: Manole.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE CLÍNICA MÉDICA. Manual
de Urgências e Emergências Clínicas. Barueri: Manole.
Estudo de Caso – Módulo 3
A alta precoce que terminou em um novo
atendimento de emergência
Carlos, 62 anos, procurou o pronto-socorro
após apresentar tontura intensa, náuseas e dificuldade para caminhar iniciadas
naquela manhã. Era hipertenso, diabético e fazia tratamento para fibrilação
atrial. Na avaliação inicial, encontrava-se consciente, sem perda evidente de
força nos membros e com sinais vitais estáveis. Recebeu medicação para aliviar
a tontura e, cerca de duas horas depois, relatou melhora parcial dos sintomas.
Como o desconforto havia diminuído, foi liberado para casa com a
orientação de repousar e utilizar antivertiginosos por
alguns dias. Não recebeu explicações sobre possíveis sinais de alerta, não foi
orientado sobre retorno em caso de piora e não teve encaminhamento para
acompanhamento especializado.
Na manhã seguinte, Carlos retornou ao hospital após apresentar piora importante da tontura, dificuldade para falar e perda do equilíbrio. A equipe realizou uma nova avaliação neurológica e exames complementares, sendo diagnosticado um acidente vascular cerebral (AVC) da circulação posterior. Felizmente, o paciente recebeu tratamento especializado, mas o atraso no reconhecimento da gravidade aumentou o tempo até o início da terapêutica adequada. A literatura destaca que pacientes com AVC da circulação posterior podem inicialmente apresentar apenas tontura e desequilíbrio, tornando a avaliação clínica criteriosa indispensável.
Erros cometidos durante o atendimento
O primeiro erro foi basear a decisão de
alta apenas na melhora temporária dos sintomas após a administração de
medicamentos. A redução da tontura não significa que a causa do problema foi
resolvida. Os antivertiginosos aliviam o desconforto, mas não tratam doenças
como o AVC, arritmias ou outras causas potencialmente graves.
Outro equívoco foi não considerar os
fatores de risco do paciente. Hipertensão arterial, diabetes mellitus e
fibrilação atrial aumentavam significativamente a probabilidade de um evento
cerebrovascular e deveriam ter influenciado a decisão sobre observação
hospitalar e investigação complementar.
Também houve falha na orientação de alta.
O paciente deixou o serviço sem receber informações sobre quais sintomas
indicariam necessidade de retorno imediato ao pronto-socorro, como dificuldade
para falar, perda de força, alteração da visão, piora da tontura ou
incapacidade para caminhar. Essas orientações fazem parte da alta segura e
contribuem para reduzir atrasos na procura por atendimento.
Além disso, não foi programado
acompanhamento ambulatorial nem reavaliação clínica. Em pacientes cuja causa da
tontura ainda não está completamente esclarecida, o seguimento é importante
para confirmar a evolução do quadro e garantir continuidade do cuidado.
Como esses erros poderiam ter sido
evitados
Antes da alta, a equipe deveria ter reavaliado cuidadosamente a evolução clínica do paciente. Persistência de instabilidade da marcha, fatores de risco cardiovasculares e início súbito da tontura justificariam observação prolongada ou investigação
adicional, mesmo
diante de melhora parcial dos sintomas.
Outro cuidado seria fornecer orientações
escritas e verbais sobre os sinais de alerta. O paciente e seus familiares
deveriam ser informados de que qualquer piora da tontura, dificuldade para
caminhar, alterações da fala, perda de força ou visão dupla exigiria retorno
imediato ao serviço de emergência.
Também seria importante organizar o
encaminhamento para acompanhamento conforme a hipótese diagnóstica. Dependendo
da causa suspeita, o paciente poderia necessitar de avaliação por neurologista,
otorrinolaringologista, cardiologista ou fisioterapeuta especializado em
reabilitação vestibular. A continuidade do cuidado reduz o risco de
complicações e melhora a recuperação funcional.
Lições aprendidas
Este caso demonstra que uma alta
hospitalar segura depende de muito mais do que o desaparecimento momentâneo dos
sintomas. É necessário avaliar a causa provável da tontura, os fatores de risco
do paciente, sua capacidade funcional e a presença de sinais de alerta antes de
decidir pela liberação.
Outro aprendizado importante é que a
comunicação faz parte do tratamento. Orientações claras, linguagem acessível e
explicações sobre quando retornar ao pronto-socorro aumentam a segurança do
paciente e permitem reconhecer precocemente complicações que podem surgir após
a alta.
Por fim, o atendimento da tontura deve ser visto como um processo contínuo. Diagnóstico, tratamento, critérios de internação, alta responsável e acompanhamento ambulatorial formam um conjunto inseparável de cuidados. Quando essas etapas são realizadas de maneira integrada, diminuem-se os erros diagnósticos, evita-se o atraso no tratamento de doenças graves e oferece-se uma assistência mais segura, humanizada e baseada em evidências.
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