Portal IDEA
TONTURA
NO PRONTO SOCORRO
Módulo
2 – Diagnóstico e Condutas
Aula 1 – Exame físico neurológico e
vestibular
O exame físico é uma das etapas mais
importantes na avaliação do paciente com tontura no pronto-socorro. Em muitos
casos, uma avaliação clínica bem conduzida fornece informações suficientes para
diferenciar doenças benignas de condições potencialmente graves, reduzindo a
necessidade de exames complementares desnecessários. Por isso, o profissional
deve realizar o exame de forma sistemática, associando cada achado à história
clínica do paciente.
Antes de iniciar o exame específico, é
fundamental observar o estado geral do paciente. Deve-se verificar o nível de
consciência, a capacidade de comunicação, a postura e a facilidade para
permanecer sentado ou em pé. Pacientes que apresentam dificuldade importante
para manter o equilíbrio, sonolência excessiva ou alterações da fala merecem
atenção especial, pois esses sinais podem indicar comprometimento neurológico
central e exigem investigação imediata.
A avaliação neurológica começa pela
observação dos pares cranianos, da força muscular, da sensibilidade e dos
reflexos. Em seguida, devem ser analisadas a coordenação motora e a marcha.
Testes simples, como o dedo-nariz, calcanhar-joelho e a observação da
caminhada, ajudam a identificar alterações cerebelares que podem estar
relacionadas a doenças do sistema nervoso central. Embora pareçam procedimentos
básicos, esses testes frequentemente fornecem informações decisivas para o
diagnóstico.
Outro ponto essencial é a avaliação dos
movimentos oculares. O examinador deve observar se há presença de nistagmo, que
corresponde a movimentos involuntários dos olhos. O tipo de nistagmo, sua
direção e a forma como se comporta durante a fixação do olhar ajudam a
diferenciar alterações do labirinto das doenças neurológicas. Em geral, o
nistagmo periférico costuma ser horizontal ou horizontal-rotatório e mantém a
mesma direção, enquanto alterações centrais podem produzir nistagmo vertical ou
que muda de direção conforme o olhar do paciente.
Nos pacientes com síndrome vestibular aguda, um dos exames mais úteis é o protocolo HINTS, sigla formada pelas iniciais de Head Impulse, Nystagmus e Test of Skew. Esse conjunto de testes foi desenvolvido para auxiliar na diferenciação entre causas vestibulares periféricas, como a neurite vestibular, e causas centrais, principalmente o AVC da circulação posterior.
Entretanto, seu uso deve ser
restrito a profissionais treinados, pois a interpretação incorreta pode levar a
erros diagnósticos importantes.
O primeiro componente do HINTS é o Head
Impulse Test, que avalia o reflexo vestíbulo-ocular. Durante o exame, o
paciente mantém o olhar fixo em um ponto enquanto o examinador realiza pequenos
movimentos rápidos da cabeça para cada lado. Alterações nesse reflexo costumam
indicar comprometimento vestibular periférico, enquanto um resultado
aparentemente normal em pacientes com síndrome vestibular aguda pode aumentar a
suspeita de lesão central.
O segundo componente é a avaliação do
nistagmo. O profissional observa se os movimentos oculares permanecem na mesma
direção ou mudam conforme o paciente desloca o olhar. Nistagmo unidirecional
favorece uma causa periférica, enquanto nistagmo vertical ou multidirecional
aumenta a possibilidade de comprometimento neurológico central.
O terceiro teste, chamado Test of Skew,
avalia o alinhamento dos olhos. O examinador cobre alternadamente cada olho e
observa se ocorre desalinhamento vertical durante a troca da cobertura. A
presença desse desvio pode indicar lesão do tronco encefálico ou do cerebelo,
reforçando a necessidade de investigação neurológica.
Além do HINTS, algumas situações exigem
testes específicos. Quando a tontura surge apenas ao movimentar a cabeça ou ao
mudar de posição, pode haver suspeita de Vertigem Posicional Paroxística
Benigna (VPPB). Nesses casos, a manobra de Dix-Hallpike auxilia no diagnóstico,
enquanto a manobra de Epley pode ser utilizada para tratamento após confirmação
da doença. Essas manobras devem ser realizadas somente quando não houver
contraindicações clínicas.
É importante lembrar que nenhum teste deve
ser interpretado isoladamente. O exame físico precisa sempre ser integrado à
história clínica, aos fatores de risco do paciente e aos sintomas associados.
Em alguns casos, mesmo diante de um exame aparentemente normal, a persistência
da suspeita clínica pode justificar exames de imagem ou avaliação por um
especialista.
Outro erro frequente é acreditar que a tomografia computadorizada de crânio exclui todas as causas graves de tontura. Nas primeiras horas de um AVC isquêmico da circulação posterior, a tomografia pode apresentar sensibilidade limitada. Por isso, quando houver suspeita clínica de doença central, a decisão deve ser baseada principalmente na avaliação clínica e, quando indicada, complementada por exames mais sensíveis, como a
erro frequente é acreditar que a
tomografia computadorizada de crânio exclui todas as causas graves de tontura.
Nas primeiras horas de um AVC isquêmico da circulação posterior, a tomografia
pode apresentar sensibilidade limitada. Por isso, quando houver suspeita
clínica de doença central, a decisão deve ser baseada principalmente na
avaliação clínica e, quando indicada, complementada por exames mais sensíveis,
como a ressonância magnética.
Em resumo, o exame físico neurológico e
vestibular representa uma das ferramentas mais valiosas no atendimento do
paciente com tontura. Quando realizado de forma criteriosa, permite identificar
sinais de gravidade, orientar o diagnóstico diferencial e definir quais
pacientes necessitam de investigação imediata. Mais do que executar manobras
técnicas, o profissional deve compreender o significado clínico de cada achado,
tornando sua avaliação mais segura, precisa e eficiente.
Referências bibliográficas
ACADEMIA BRASILEIRA DE NEUROLOGIA. HINTS
e o diagnóstico na síndrome vestibular aguda.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE
OTORRINOLARINGOLOGIA E CIRURGIA CÉRVICO-FACIAL. II Fórum Brasileiro de
Otoneurologia.
MARTINS, Herlon Saraiva; SCALABRINI NETO,
Augusto; VELASCO, Irineu Tadeu. Pronto-Socorro: Condutas do Hospital das
Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Barueri: Manole.
SILVEIRA, Jader Luís (Org.). Abordagens
em Saúde Pública: dos Tempos Normais à Pandemia. Editora Pasteur.
RADOS, Dimitris. Abordagem diagnóstica
de síndrome vestibular aguda (e tontura) no pronto-socorro. Artmed.
Aula 2 – Exames complementares e
interpretação clínica
Após a realização da anamnese e do exame
físico, o profissional deve decidir se há necessidade de exames complementares.
Essa decisão não deve ser automática. No atendimento da tontura, exames
laboratoriais e de imagem têm a função de confirmar hipóteses levantadas
durante a avaliação clínica, e não de substituir o raciocínio diagnóstico.
Solicitar exames de forma indiscriminada aumenta custos, pode prolongar o tempo
de permanência no pronto-socorro e nem sempre contribui para um diagnóstico
mais preciso.
O primeiro passo é identificar se existem sinais de alerta que indiquem maior risco de uma doença grave. Pacientes com alterações neurológicas, déficit de força, dificuldade para falar, alterações da marcha, redução do nível de consciência ou suspeita de acidente vascular cerebral (AVC) exigem investigação mais rápida e direcionada. Nesses casos, os exames complementares fazem
parte de uma estratégia para confirmar o
diagnóstico e definir a conduta terapêutica.
Os exames laboratoriais são úteis quando
existe suspeita de causas clínicas para a tontura. Hemograma pode auxiliar na
identificação de anemia ou infecções; a glicemia permite reconhecer episódios
de hipoglicemia ou hiperglicemia; ureia, creatinina e eletrólitos ajudam na
investigação de distúrbios metabólicos; e exames de coagulação podem ser
necessários quando há suspeita de AVC ou uso de medicamentos anticoagulantes. O
eletrocardiograma também deve ser considerado sempre que houver suspeita de
origem cardiovascular, como arritmias ou isquemia cardíaca.
É importante compreender que exames
laboratoriais normais não descartam doenças neurológicas. Um paciente pode
apresentar resultados laboratoriais sem alterações e, ainda assim, estar
desenvolvendo um AVC da circulação posterior. Por isso, a interpretação dos
exames deve sempre ser feita em conjunto com a história clínica e os achados do
exame físico.
Entre os exames de imagem, a tomografia
computadorizada de crânio é frequentemente utilizada no pronto-socorro por sua
ampla disponibilidade e rapidez. Seu principal papel é identificar hemorragias
intracranianas e outras alterações estruturais importantes. Entretanto, nos
casos de tontura isolada, especialmente quando há suspeita de AVC isquêmico da
circulação posterior, a tomografia apresenta baixa sensibilidade nas primeiras
horas de evolução. Isso significa que um resultado normal não exclui completamente
a possibilidade de um AVC.
Quando a avaliação clínica aponta para uma
possível causa central e permanece dúvida diagnóstica, a ressonância magnética
com difusão costuma oferecer maior sensibilidade para identificar lesões
isquêmicas precoces da circulação posterior. Apesar disso, a indicação desse
exame deve considerar a disponibilidade do serviço, o quadro clínico e a
avaliação médica, já que nem todos os pacientes com tontura necessitam de
ressonância.
Outro ponto importante é evitar a chamada
"medicina baseada apenas em exames". Nenhum resultado deve ser
interpretado isoladamente. Uma tomografia normal, por exemplo, não elimina a
necessidade de reavaliar um paciente que continua apresentando alterações
neurológicas ou piora clínica. Da mesma forma, exames laboratoriais
discretamente alterados nem sempre explicam a tontura e não devem desviar a
atenção de uma investigação mais ampla quando houver sinais sugestivos de
doença grave.
Nos pacientes com suspeita
pacientes com suspeita de síndrome
vestibular aguda, a avaliação clínica continua sendo a principal ferramenta
diagnóstica. Protocolos como o exame HINTS, quando realizados por profissionais
capacitados, podem apresentar desempenho superior ao da tomografia
computadorizada inicial para diferenciar causas periféricas e centrais em
pacientes selecionados. Esse fato reforça que um exame físico bem executado
continua sendo indispensável mesmo em serviços que dispõem de tecnologia
avançada.
Também é importante saber quando não
solicitar exames. Pacientes jovens, sem fatores de risco, com quadro típico de
vertigem posicional paroxística benigna e exame neurológico normal geralmente
podem ser conduzidos com avaliação clínica e testes específicos, sem
necessidade de exames de imagem. Evitar solicitações desnecessárias reduz
custos, diminui a exposição do paciente à radiação e torna o atendimento mais
eficiente.
Outro cuidado fundamental é interpretar os
exames dentro do contexto clínico. O profissional não deve buscar apenas
alterações, mas compreender seu significado para aquele paciente específico. Um
exame alterado pode representar uma doença pré-existente sem relação com a
tontura, enquanto exames aparentemente normais não afastam completamente
diagnósticos importantes. O raciocínio clínico permanece sendo a principal
ferramenta para integrar todas as informações disponíveis.
Em síntese, os exames complementares são aliados importantes na investigação da tontura, mas seu verdadeiro valor depende de uma boa indicação e de uma interpretação criteriosa. Quando utilizados de forma racional, eles contribuem para um diagnóstico mais seguro, evitam procedimentos desnecessários e auxiliam na definição da melhor conduta para cada paciente.
Referências bibliográficas
BRASIL. Ministério da Saúde. Linha de
Cuidado do Acidente Vascular Cerebral no Adulto. Brasília: Ministério da
Saúde.
HOSPITAL ISRAELITA ALBERT EINSTEIN. Guia
do Episódio de Cuidado: Diagnóstico e Tratamento da Tontura Aguda na Unidade de
Pronto Atendimento.
MARTINS, Herlon Saraiva; SCALABRINI NETO,
Augusto; VELASCO, Irineu Tadeu. Pronto-Socorro: Condutas do Hospital das
Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Barueri: Manole.
SILVEIRA, Jader Luís (Org.). Abordagens
em Saúde Pública: dos Tempos Normais à Pandemia. Editora Pasteur.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE CLÍNICA MÉDICA. Manual
de Urgências e Emergências Clínicas. Manole.
Aula 3 – Principais doenças associadas à
tontura e seu manejo
A
tontura é um sintoma que pode estar
presente em diversas doenças, desde alterações benignas do sistema vestibular
até condições neurológicas e cardiovasculares que exigem atendimento imediato.
No pronto-socorro, o desafio do profissional é reconhecer rapidamente as
características de cada quadro para iniciar a conduta adequada e evitar atrasos
no tratamento. A avaliação deve sempre considerar o tempo de início dos
sintomas, os fatores desencadeantes, os sinais associados e os fatores de risco
do paciente.
Entre as causas mais frequentes está a Vertigem
Posicional Paroxística Benigna (VPPB). Nessa condição, pequenos cristais de
carbonato de cálcio, chamados otólitos, deslocam-se para os canais
semicirculares do ouvido interno, provocando episódios breves de vertigem
desencadeados por mudanças na posição da cabeça, como se deitar, levantar-se ou
olhar para cima. Apesar de causar intenso desconforto, trata-se de uma doença
benigna, cujo diagnóstico pode ser confirmado por meio da manobra de
Dix-Hallpike e cujo tratamento é realizado, na maioria dos casos, com manobras
de reposicionamento, como a manobra de Epley.
Outra causa comum é a neurite
vestibular, caracterizada pela inflamação do nervo vestibular, geralmente
após uma infecção viral. O paciente costuma apresentar vertigem intensa e
contínua, acompanhada de náuseas, vômitos e dificuldade para caminhar, mas sem
perda auditiva. O tratamento inclui medidas de suporte, controle dos sintomas
nas fases iniciais e início precoce da reabilitação vestibular, que favorece a
recuperação do equilíbrio e reduz o tempo de incapacidade.
A doença de Ménière também faz
parte do diagnóstico diferencial. Nessa enfermidade, a tontura ocorre em crises
que podem durar de minutos a algumas horas e costuma estar associada à perda
auditiva flutuante, sensação de pressão no ouvido e zumbido. Embora não seja
considerada uma emergência na maioria dos casos, é importante reconhecê-la para
orientar o tratamento e encaminhar o paciente para acompanhamento
especializado.
Além das doenças vestibulares periféricas,
deve-se considerar a migrânea vestibular, uma condição em que episódios
de vertigem estão relacionados à enxaqueca. Nem sempre a dor de cabeça está
presente durante as crises, o que pode dificultar o diagnóstico. Muitos
pacientes relatam sensibilidade à luz, aos sons ou histórico pessoal e familiar
de enxaqueca. O tratamento envolve controle das crises e medidas preventivas
individualizadas.
Entre as causas
potencialmente graves
destaca-se o acidente vascular cerebral (AVC), especialmente quando
acomete o cerebelo ou o tronco encefálico. Nesses casos, a tontura pode surgir
de forma súbita e intensa, muitas vezes acompanhada de dificuldade para
caminhar, alteração da coordenação motora, visão dupla, dificuldade para falar
ou fraqueza em um dos lados do corpo. Entretanto, alguns pacientes apresentam
apenas vertigem persistente e desequilíbrio, tornando o diagnóstico mais
desafiador. Reconhecer esses sinais de alerta é fundamental, pois o tratamento
precoce aumenta significativamente as chances de recuperação.
Também é importante lembrar que
aproximadamente metade dos pacientes atendidos por tontura apresenta causas
não vestibulares. Hipotensão ortostática, arritmias cardíacas,
desidratação, hipoglicemia, anemia, distúrbios eletrolíticos, efeitos adversos
de medicamentos e infecções podem provocar sintomas semelhantes. Nessas
situações, o tratamento deve ser direcionado à doença de base, e não apenas ao
controle da tontura.
No manejo inicial, o controle dos sintomas
é importante, principalmente quando o paciente apresenta náuseas, vômitos ou
incapacidade para permanecer em pé. Antieméticos e antivertiginosos podem ser
utilizados por curto período em situações selecionadas. Entretanto, seu uso
prolongado não é recomendado, pois pode retardar a compensação vestibular e
dificultar a recuperação funcional. O tratamento definitivo depende sempre da
identificação da causa da tontura.
Outro aspecto essencial é definir quais
pacientes necessitam de internação. Indivíduos com suspeita de AVC, alterações
neurológicas, instabilidade clínica, arritmias importantes ou incapacidade de
manter hidratação adequada geralmente precisam de observação hospitalar e
investigação complementar. Já pacientes com quadros típicos de VPPB ou outras
causas benignas, sem sinais de gravidade, podem receber tratamento inicial,
orientações e encaminhamento ambulatorial quando apropriado.
Um erro frequente é utilizar o termo "labirintite"
para qualquer paciente que apresenta tontura. Na prática clínica, esse hábito
pode mascarar diagnósticos importantes e atrasar o tratamento de doenças
graves. O profissional deve buscar identificar a síndrome clínica apresentada
pelo paciente e estabelecer um diagnóstico o mais específico possível, evitando
generalizações que comprometam a qualidade da assistência.
Em conclusão, conhecer as principais doenças associadas à tontura permite ao
profissional atuar com maior segurança
no pronto-socorro. Uma avaliação clínica cuidadosa, associada ao reconhecimento
dos sinais de alerta e ao manejo adequado de cada condição, reduz erros
diagnósticos, melhora o prognóstico dos pacientes e garante um atendimento mais
eficiente e humanizado.
Referências bibliográficas
BRASIL. Ministério da Saúde. Acidente
Vascular Cerebral (AVC). Brasília: Ministério da Saúde.
BRASIL. Ministério da Saúde. Cadernos
de Atenção Básica nº 28 – Acolhimento à Demanda Espontânea: Queixas Mais Comuns
na Atenção Básica. Brasília: Ministério da Saúde.
HOSPITAL ISRAELITA ALBERT EINSTEIN. Guia
do Episódio de Cuidado: Diagnóstico e Tratamento da Tontura Aguda na Unidade de
Pronto Atendimento.
MARTINS, Herlon Saraiva; SCALABRINI NETO,
Augusto; VELASCO, Irineu Tadeu. Pronto-Socorro: Condutas do Hospital das
Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Barueri: Manole.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE CLÍNICA MÉDICA. Manual
de Urgências e Emergências Clínicas. Barueri: Manole.
Estudo de Caso – Módulo 2
O exame estava normal, mas o diagnóstico
ainda não estava fechado
Mariana, 59 anos, procurou o
pronto-socorro após apresentar tontura intensa, náuseas e dificuldade para
caminhar havia cerca de quatro horas. Ela relatava que os sintomas começaram de
forma súbita enquanto preparava o almoço. Não apresentava perda de força,
alteração da fala ou perda de consciência. Como possuía histórico de
hipertensão arterial e diabetes, foi encaminhada para avaliação médica.
Na primeira consulta, a paciente foi
submetida a uma tomografia computadorizada de crânio, que não mostrou
alterações. Diante do resultado normal, recebeu o diagnóstico de
"labirintite", foi medicada com antivertiginosos e permaneceu em
observação.
Mesmo após algumas horas, Mariana
continuava incapaz de caminhar sem auxílio e referia intensa sensação de
desequilíbrio. Um segundo médico revisou cuidadosamente o caso. Durante o exame
físico, observou instabilidade importante da marcha, nistagmo com características
atípicas e discreta alteração na coordenação dos membros superiores.
Considerando os fatores de risco e os achados clínicos, levantou a hipótese de
acidente vascular cerebral (AVC) da circulação posterior.
Após avaliação neurológica e realização de ressonância magnética, confirmou-se um AVC isquêmico cerebelar em fase inicial. A rápida reavaliação clínica permitiu modificar a conduta e iniciar o tratamento adequado, reduzindo o risco de complicações e sequelas. Esse
cenário
reforça que uma tomografia normal nas primeiras horas não exclui AVC de
circulação posterior e que a avaliação clínica permanece essencial.
Erros cometidos durante o atendimento
O primeiro erro foi confiar exclusivamente
no resultado da tomografia computadorizada. Embora esse exame seja excelente
para identificar hemorragias intracranianas, sua sensibilidade para detectar
AVC isquêmico da circulação posterior nas primeiras horas é limitada. Assim, um
exame normal não deve afastar a suspeita clínica quando persistem sinais de
alerta.
Outro equívoco foi interromper a
investigação logo após um exame de imagem sem alterações. A paciente continuava
apresentando instabilidade importante da marcha, um sinal que exige atenção,
pois pode indicar comprometimento cerebelar. A evolução clínica deve sempre ser
reavaliada durante a permanência no pronto-socorro.
Também houve falha na realização inicial
de um exame neurológico e vestibular mais detalhado. Em pacientes com síndrome
vestibular aguda, testes clínicos específicos, quando executados por
profissionais treinados, podem fornecer informações valiosas para diferenciar
causas periféricas das centrais.
Como esses erros poderiam ter sido
evitados
O atendimento deveria ter começado por uma
avaliação integrada da história clínica, dos fatores de risco e do exame
físico. Hipertensão, diabetes, início súbito dos sintomas e dificuldade para
caminhar aumentavam a probabilidade de uma causa neurológica e justificavam
investigação mais aprofundada.
Outro ponto importante seria interpretar
os exames complementares dentro do contexto clínico. Exames de imagem são
ferramentas diagnósticas importantes, mas não substituem a observação do
paciente nem o raciocínio clínico. Quando os sintomas persistem ou evoluem de
forma incompatível com um quadro benigno, novas avaliações e exames podem ser
necessários.
Nos pacientes com síndrome vestibular
aguda, a aplicação correta do protocolo HINTS por profissionais capacitados
pode aumentar a precisão diagnóstica e auxiliar na identificação precoce de
lesões centrais, desde que utilizada nas situações apropriadas e associada à
avaliação clínica completa.
Lições aprendidas
Este caso demonstra que a qualidade do atendimento não depende apenas da disponibilidade de exames, mas principalmente da capacidade do profissional de interpretar corretamente todas as informações obtidas durante a consulta. História clínica, exame físico e exames complementares devem funcionar
como partes de um mesmo processo diagnóstico.
Outra lição importante é que pacientes com
tontura precisam ser reavaliados sempre que houver persistência ou piora dos
sintomas. A evolução clínica pode revelar sinais que não estavam presentes na
primeira avaliação e modificar completamente a hipótese diagnóstica.
Por fim, o caso evidencia que o manejo seguro da tontura exige raciocínio clínico sistemático, atenção aos fatores de risco e reconhecimento dos sinais de gravidade. Quando esses princípios são respeitados, diminuem-se os erros diagnósticos, evitam-se tratamentos inadequados e aumenta-se a segurança do paciente no pronto-socorro.
Quer acesso gratuito a mais materiais como este?
Acesse materiais, apostilas e vídeos em mais de 3000 cursos, tudo isso gratuitamente!
Matricule-se AgoraQuer acesso gratuito a mais materiais como este?
Acesse materiais, apostilas e vídeos em mais de 3000 cursos, tudo isso gratuitamente!
Matricule-se Agora