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Patologias da Nutrição

PATOLOGIAS DA NUTRIÇÃO

 

Patologias por Excesso e Doenças Metabólicas 

Sobrepeso, Obesidade e Síndrome Metabólica

 

1. Introdução

O sobrepeso e a obesidade configuram uma das principais crises de saúde pública do século XXI. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 1,9 bilhão de adultos no mundo apresentam excesso de peso, sendo mais de 650 milhões classificados como obesos (WHO, 2021). No Brasil, dados do Vigitel 2023 indicam que 57% da população adulta está com sobrepeso e 22% com obesidade.

A obesidade é um fator de risco importante para diversas doenças crônicas, como hipertensão arterial, diabetes tipo 2, dislipidemias, doenças cardiovasculares e certos tipos de câncer. Além disso, ela está diretamente associada à síndrome metabólica, uma condição clínica caracterizada por um conjunto de alterações metabólicas que aumentam significativamente o risco cardiovascular e de mortalidade precoce.

A compreensão dos fatores que levam ao acúmulo excessivo de gordura corporal, seus impactos sobre a saúde e as estratégias eficazes de prevenção e tratamento é essencial para profissionais da saúde e formuladores de políticas públicas.

2. Definição, Causas e Consequências

2.1. Sobrepeso e Obesidade

A obesidade é definida como o acúmulo excessivo ou anormal de gordura corporal que pode prejudicar a saúde. O sobrepeso representa um estágio anterior da obesidade, com risco aumentado, porém ainda reversível com mudanças no estilo de vida.

Ambas as condições resultam de um desequilíbrio energético crônico entre a ingestão e o gasto de calorias. No entanto, sua origem é multifatorial, incluindo fatores genéticos, metabólicos, ambientais, psicológicos e comportamentais.

2.2. Causas Principais

  • Alimentação inadequada: excesso de alimentos ultraprocessados, ricos em gorduras saturadas, açúcares e sódio.
  • Sedentarismo: redução da atividade física no cotidiano, associada ao tempo prolongado em frente a telas.
  • Genética e epigenética: influência da herança familiar e alterações na expressão gênica causadas pelo ambiente.
  • Fatores emocionais: ansiedade, depressão, compulsão alimentar.
  • Fatores socioeconômicos: acesso limitado a alimentos saudáveis, ambientes obesogênicos, marketing de alimentos pouco nutritivos.
  • Distúrbios hormonais ou uso de medicamentos: como hipotiroidismo ou corticoterapia prolongada.

2.3. Consequências para a

Saúde

O excesso de gordura corporal, especialmente a gordura visceral (abdominal), está associado a diversas complicações, tais como:

  • Doenças cardiovasculares (infarto, AVC, aterosclerose);
  • Diabetes mellitus tipo 2;
  • Hipertensão arterial sistêmica;
  • Dislipidemias (colesterol e triglicerídeos elevados);
  • Apneia obstrutiva do sono;
  • Síndrome do ovário policístico;
  • Osteoartrite e problemas articulares;
  • Alguns tipos de câncer (colorretal, mama, endométrio).

Além das consequências físicas, a obesidade também impacta a saúde psicológica e social, gerando baixa autoestima, estigma, discriminação e isolamento social.

3. Diagnóstico e Classificação da Obesidade

A classificação do sobrepeso e da obesidade é feita principalmente com base no Índice de Massa Corporal (IMC), embora outros indicadores sejam recomendados para uma avaliação mais precisa da composição corporal e risco metabólico.

3.1. Índice de Massa Corporal (IMC)

O IMC é calculado pela fórmula:

IMC = Peso (kg) / Altura² (m)

  • IMC entre 18,5 e 24,9 kg/m²: eutrofia (peso adequado);
  • IMC entre 25,0 e 29,9 kg/m²: sobrepeso;
  • IMC entre 30,0 e 34,9 kg/m²: obesidade grau I;
  • IMC entre 35,0 e 39,9 kg/m²: obesidade grau II;
  • IMC ≥ 40 kg/m²: obesidade grau III (obesidade mórbida).

O IMC, embora útil para triagem populacional, não distingue massa magra de massa gorda, o que pode limitar sua aplicação em atletas, idosos ou pessoas com alteração significativa da composição corporal.

3.2. Circunferência Abdominal (CA) e Relação Cintura-Quadril (RCQ)

A circunferência abdominal é um marcador importante de gordura visceral, mais associada a risco cardiovascular do que o IMC isoladamente. Valores de CA ≥ 88 cm para mulheres e ≥ 102 cm para homens indicam risco aumentado.

A relação cintura-quadril e a relação cintura-estatura também são utilizadas como parâmetros complementares para avaliar risco metabólico.

4. Síndrome Metabólica

A síndrome metabólica é um conjunto de alterações clínicas que aumentam o risco de doenças cardiovasculares e diabetes. A definição mais aceita, segundo a International Diabetes Federation (IDF), inclui:

  • Obesidade abdominal (CA elevada);
  • Glicemia de jejum alterada ou diabetes tipo 2;
  • Triglicerídeos elevados;
  • HDL-colesterol reduzido;
  • Pressão arterial elevada.

A presença de três ou mais desses critérios define o diagnóstico. A síndrome metabólica reflete uma resistência à insulina

sistêmica, frequentemente agravada por inflamação crônica de baixo grau associada ao tecido adiposo.

A identificação precoce da síndrome metabólica permite a adoção de estratégias preventivas antes da progressão para complicações irreversíveis.

5. Abordagem Nutricional e Preventiva

O tratamento e prevenção do sobrepeso, da obesidade e da síndrome metabólica exigem intervenções integradas e sustentáveis, com foco em mudanças no estilo de vida, especialmente na alimentação e atividade física. A atuação deve ser individualizada, levando em conta aspectos culturais, emocionais, econômicos e comportamentais.

5.1. Alimentação Saudável

A base da abordagem nutricional consiste em:

  • Redução do consumo de ultraprocessados, açúcares adicionados, gorduras saturadas e sal;
  • Aumento da ingestão de frutas, legumes, verduras, cereais integrais e leguminosas;
  • Promoção da hidratação adequada com água, evitando bebidas açucaradas e alcoólicas;
  • Planejamento de refeições regulares e equilibradas, evitando jejuns prolongados ou compulsões alimentares;
  • Alimentação consciente (mindful eating), valorizando a fome e saciedade reais.

Abordagens rígidas e extremamente restritivas tendem a ser ineficazes e podem levar a transtornos alimentares. O foco deve estar em melhorar a qualidade da alimentação e criar hábitos sustentáveis a longo prazo.

5.2. Atividade Física e Comportamento

  • Atividade física regular (150 a 300 minutos por semana de atividade moderada) auxilia no controle do peso, melhora o metabolismo da glicose e lipídios, e reduz a pressão arterial.
  • Modificações comportamentais, como o acompanhamento psicológico, são úteis para tratar gatilhos emocionais, melhorar a relação com o corpo e a comida, e manter a motivação.
  • A educação em saúde e a participação da família e da comunidade são essenciais para o sucesso das intervenções.

5.3. Estratégias Populacionais

Além da intervenção individual, é fundamental promover políticas públicas para prevenir e combater a obesidade, como:

  • Regulação da publicidade infantil de alimentos não saudáveis;
  • Rotulagem nutricional clara;
  • Taxação de bebidas açucaradas;
  • Programas de alimentação escolar saudável;
  • Incentivo à criação de ambientes urbanos que estimulem o transporte ativo.

6. Considerações Finais

O sobrepeso, a obesidade e a síndrome metabólica são condições multifatoriais, complexas e inter-relacionadas

que afetam milhões de pessoas em todo o mundo. Seu impacto sobre a saúde pública é imenso, exigindo esforços coordenados entre indivíduos, profissionais da saúde, gestores e sociedade civil.

A prevenção e o tratamento devem se basear em abordagens não estigmatizantes, sustentáveis e centradas no cuidado integral, promovendo a autonomia, o bem-estar e a melhoria da qualidade de vida. A alimentação saudável, a prática de atividade física e o suporte psicossocial são pilares fundamentais no enfrentamento desse desafio global.

Referências Bibliográficas

  • BRASIL. Ministério da Saúde. Guia Alimentar para a População Brasileira. 2. ed. Brasília: MS, 2014.
  • BRASIL. Ministério da Saúde. Vigitel Brasil 2023: Vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico. Brasília: MS, 2023.
  • IDF – International Diabetes Federation. The IDF consensus worldwide definition of the metabolic syndrome. Brussels: IDF, 2006.
  • MONTEIRO, C. A. et al. Ultra-processed products are becoming dominant in the global food system. Obesity Reviews, v. 14, n. S2, p. 21–28, 2013.
  • WHO – World Health Organization. Obesity and overweight: Fact sheet. Geneva: WHO, 2021.
  • WAITZBERG, D. L. Nutrição Oral, Enteral e Parenteral na Prática Clínica. 5. ed. São Paulo: Atheneu, 2017.


Diabetes Mellitus Tipo 2 e Resistência à Insulina

 

1. Introdução

O Diabetes Mellitus Tipo 2 (DM2) é uma doença metabólica crônica caracterizada por hiperglicemia persistente, decorrente da resistência à insulina e, posteriormente, da falência parcial das células beta pancreáticas. Essa condição compromete o metabolismo da glicose, lipídios e proteínas, tendo como consequência complicações micro e macro vasculares, que afetam gravemente a qualidade de vida dos pacientes.

Responsável por mais de 90% dos casos de diabetes no mundo, o DM2 é um problema de saúde pública global. Estima-se que mais de 500 milhões de adultos estejam vivendo com diabetes, sendo a maioria com o tipo 2, e os números continuam crescendo (IDF, 2021). O desenvolvimento do DM2 está fortemente associado a hábitos alimentares inadequados, excesso de peso, sedentarismo e fatores genéticos e ambientais.

A detecção precoce da resistência à insulina e a adoção de estratégias alimentares e comportamentais eficazes são fundamentais para a prevenção, controle e até reversão da progressão do diabetes tipo 2.

2. Relação com Alimentação e Sedentarismo

A

alimentação moderna, marcada pelo consumo excessivo de alimentos ultraprocessados, ricos em açúcares adicionados, farinhas refinadas, gorduras saturadas e sódio, tem desempenhado papel central no aumento da incidência de DM2. Além disso, a redução da atividade física e o tempo excessivo em comportamentos sedentários contribuem para a elevação do risco metabólico.

O excesso calórico contínuo promove o acúmulo de gordura, principalmente a gordura visceral, que é metabolicamente ativa e induz a produção de mediadores inflamatórios. Esses, por sua vez, reduzem a sensibilidade à insulina — fenômeno conhecido como resistência periférica à insulina. Com isso, a glicose não entra nas células adequadamente, permanecendo em excesso no sangue, e o pâncreas é forçado a produzir mais insulina para compensar, o que pode levar à exaustão das células beta.

Esse ciclo é agravado pela inatividade física, que reduz o consumo de glicose pelos músculos e prejudica o metabolismo energético. Por outro lado, o aumento da atividade física regular melhora a sensibilidade à insulina e reduz a glicemia basal, sendo uma ferramenta terapêutica essencial.

3. Glicemia, Insulina e Hemoglobina Glicada (HbA1c)

O diagnóstico e acompanhamento do diabetes tipo 2 envolvem a análise de parâmetros laboratoriais que indicam o controle glicêmico e a função pancreática.

3.1. Glicemia de Jejum

É o exame mais comum para triagem. Valores de glicemia de jejum são classificados da seguinte forma:

  • Normal: < 100 mg/dL
  • Pré-diabetes: entre 100 e 125 mg/dL
  • Diabetes: ≥ 126 mg/dL (confirmado em duas dosagens)

A hiperglicemia persistente é o principal marcador da disfunção metabólica, sendo o controle da glicemia fundamental para prevenir complicações.

3.2. Insulina e Índice HOMA-IR

A insulina é o hormônio responsável por facilitar a entrada da glicose nas células. Na resistência insulínica, o corpo precisa produzir quantidades maiores de insulina para obter o mesmo efeito. O índice HOMA-IR, que considera os níveis de glicemia e insulina de jejum, é uma medida útil para estimar a resistência à insulina, especialmente em fases iniciais.

3.3. Hemoglobina Glicada (HbA1c)

A HbA1c representa a média da glicemia nos últimos dois a três meses. É um marcador importante tanto para o diagnóstico quanto para o monitoramento do controle glicêmico.

  • Normal: < 5,7%
  • Pré-diabetes: entre 5,7% e 6,4%
  • Diabetes: ≥ 6,5%

Meta terapêutica para diabéticos geralmente é manter HbA1c abaixo de

7%, podendo ser mais flexível ou rigorosa conforme o perfil clínico do paciente.

4. Alimentação de Baixo Índice Glicêmico e Contagem de Carboidratos

A alimentação é a base do tratamento do diabetes tipo 2. Dentre as estratégias nutricionais, destacam-se a ênfase em alimentos com baixo índice glicêmico (IG) e a contagem de carboidratos, especialmente para aqueles que utilizam insulina.

4.1. Índice Glicêmico (IG)

O índice glicêmico classifica os alimentos ricos em carboidratos de acordo com a velocidade com que elevam a glicemia após a ingestão.

Alimentos com baixo IG (≤ 55) provocam elevação mais lenta e gradual da glicose, favorecendo o controle glicêmico e a saciedade.

Exemplos de alimentos com baixo IG:

  • Leguminosas (feijão, lentilha, grão-de-bico)
  • Frutas com casca e bagaço (maçã, pera, ameixa)
  • Cereais integrais (aveia, quinoa)
  • Vegetais fibrosos (brócolis, couve, cenoura)

Por outro lado, alimentos com alto IG como pão branco, arroz branco, batata, refrigerantes e doces aumentam rapidamente a glicose no sangue e devem ser evitados ou consumidos com moderação e em combinações que retardem a absorção.

O conceito de carga glicêmica também é importante, pois considera a quantidade total de carboidrato em uma porção e seu impacto na glicemia.

4.2. Contagem de Carboidratos

A contagem de carboidratos é uma técnica usada para ajustar a alimentação e, quando necessário, a dose de insulina em pacientes diabéticos. Envolve o cálculo da quantidade total de carboidratos consumidos em cada refeição, permitindo maior flexibilidade alimentar e melhor controle glicêmico.

Essa abordagem exige educação nutricional contínua e, frequentemente, o uso de aplicativos, tabelas de composição ou apoio profissional. Alimentos com carboidratos complexos, acompanhados de fibras, proteínas e gorduras boas, tendem a ter menor impacto glicêmico.

Além disso, manter refeições regulares, evitar grandes intervalos sem comer e praticar o comer consciente são estratégias comportamentais que auxiliam no controle da glicose e evitam picos pós-prandiais.

5. Estratégias Complementares e Prevenção

O controle eficaz do DM2 vai além da alimentação. A prevenção e tratamento devem incluir:

  • Atividade física regular (pelo menos 150 minutos por semana), especialmente exercícios aeróbicos e de resistência muscular;
  • Redução do peso corporal, com meta de perda de 5% a 10% do peso inicial em pessoas com sobrepeso ou obesidade;
  • Controle do
  • estresse e atenção à saúde mental;
  • Educação em diabetes, para empoderamento do paciente e adesão ao plano terapêutico;
  • Monitoramento regular da glicemia, quando indicado.

Em indivíduos com pré-diabetes, a mudança de hábitos alimentares e o aumento da atividade física são capazes de reduzir em até 58% o risco de progressão para diabetes tipo 2 (Diabetes Prevention Program Research Group, 2002).

6. Considerações Finais

O Diabetes Mellitus Tipo 2 e a resistência à insulina são condições crônicas, multifatoriais e progressivas, fortemente influenciadas pelo estilo de vida. A alimentação inadequada e o sedentarismo são os principais pilares de sua gênese e, ao mesmo tempo, os principais alvos para intervenção.

A abordagem nutricional, baseada em alimentos com baixo índice glicêmico, planejamento de refeições e contagem de carboidratos, associada à prática regular de atividade física e ao autocuidado, é fundamental tanto para a prevenção quanto para o controle do diabetes. O papel do nutricionista, do educador físico e de uma equipe multiprofissional é essencial na promoção da saúde, no monitoramento contínuo e na melhoria da qualidade de vida dos pacientes.

Referências Bibliográficas

  • BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas – Diabetes Mellitus Tipo 2. Brasília: MS, 2022.
  • INTERNATIONAL DIABETES FEDERATION (IDF). IDF Diabetes Atlas – 10th edition. Brussels: IDF, 2021.
  • AMERICAN DIABETES ASSOCIATION (ADA). Standards of Medical Care in Diabetes – 2024. Diabetes Care, v. 47, suppl. 1, 2024.
  • BRAND-MILLER, J. et al. The New Glucose Revolution: The Authoritative Guide to the Glycemic Index. New York: Marlowe & Company, 2003.
  • DIABETES PREVENTION PROGRAM RESEARCH GROUP. Reduction in the incidence of type 2 diabetes with lifestyle intervention or metformin. New England Journal of Medicine, v. 346, n. 6, p. 393–403, 2002.
  • MONTEIRO, C. A. et al. A nova classificação dos alimentos baseada na extensão e propósito do processamento (NOVA). Cadernos de Saúde Pública, v. 26, n. 11, p. 2039–2049, 2010.


Dislipidemias e Hipertensão Arterial

 

1. Introdução

As doenças cardiovasculares (DCVs) são a principal causa de morte no mundo, representando cerca de 32% de todos os óbitos globais (WHO, 2021). Dentre os principais fatores de risco modificáveis estão as dislipidemias e a hipertensão arterial sistêmica (HAS), condições silenciosas e progressivas

condições silenciosas e progressivas que, quando não diagnosticadas e controladas, aumentam significativamente a probabilidade de infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC) e insuficiência cardíaca.

As dislipidemias referem-se às alterações nos níveis de lipídios sanguíneos — como colesterol total, LDL-colesterol, HDL-colesterol e triglicerídeos — enquanto a hipertensão arterial consiste na elevação sustentada da pressão arterial, geralmente acima de 140/90 mmHg. Ambas as condições estão diretamente relacionadas a hábitos alimentares inadequados, excesso de peso, sedentarismo e fatores genéticos.

O controle dietético é um dos pilares do tratamento e prevenção dessas doenças, sendo essencial a promoção de padrões alimentares saudáveis, com ênfase em alimentos cardioprotetores e na modulação do consumo de gorduras.

2. Alterações Lipídicas e Risco Cardiovascular

2.1. Tipos de Dislipidemias

As dislipidemias podem ser classificadas de acordo com os lipídios alterados no sangue:

  • Hipercolesterolemia: aumento do colesterol total, sobretudo o LDL-colesterol ("colesterol ruim");
  • Hipertrigliceridemia: elevação dos triglicerídeos;
  • Baixo HDL-colesterol: HDL é considerado o "colesterol bom", pois tem efeito protetor;
  • Dislipidemia mista: associação de duas ou mais alterações.

O LDL-colesterol elevado é o principal responsável pela formação de placas ateroscleróticas nas artérias, levando à obstrução dos vasos e aumentando o risco de eventos cardiovasculares graves. Já os níveis reduzidos de HDL-colesterol comprometem a remoção do colesterol das artérias, potencializando esse risco (SBC, 2017).

A hipertrigliceridemia, embora menos aterogênica isoladamente, está associada à resistência à insulina, obesidade abdominal, diabetes tipo 2 e esteatose hepática.

2.2. Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS)

A hipertensão arterial ocorre quando os níveis de pressão se mantêm elevados de forma crônica. Os valores de referência para o diagnóstico, segundo as diretrizes brasileiras (SBC, 2020), são:

  • PA normal: < 120/80 mmHg
  • PA elevada: 130–139/85–89 mmHg
  • HAS estágio 1: ≥ 140/90 mmHg

A pressão elevada causa lesões no endotélio vascular, favorece a formação de placas de ateroma e sobrecarrega o coração, rins e cérebro. Sua fisiopatologia envolve fatores genéticos, retenção de sódio, disfunção endotelial, inflamação crônica e desequilíbrio hormonal.

O controle da pressão arterial está diretamente relacionado

à ingestão de sódio, potássio, cálcio, magnésio, consumo de álcool, peso corporal e padrões alimentares.

3. Gorduras na Dieta: Boas versus Ruins

A qualidade da gordura alimentar tem impacto direto no perfil lipídico e na saúde cardiovascular. A substituição de gorduras saturadas e trans por insaturadas é uma das recomendações nutricionais mais robustas em prevenção cardiovascular.

3.1. Gorduras Saturadas e Trans (ruins)

As gorduras saturadas, presentes principalmente em carnes gordas, embutidos, laticínios integrais e óleos de coco e palma, elevam o LDL-colesterol e estão associadas ao aumento da inflamação vascular. O consumo diário deve ser inferior a 10% do total calórico, idealmente < 7% em pessoas com dislipidemia.

As gorduras trans, encontradas em alimentos ultraprocessados como margarinas, biscoitos recheados e produtos de panificação industrial, são ainda mais prejudiciais, pois elevam o LDL e reduzem o HDL. Seu consumo deve ser evitado completamente (FAO/WHO, 2010).

3.2. Gorduras Mono e Poli-insaturadas (boas)

As gorduras monoinsaturadas, como o ácido oleico presente no azeite de oliva, castanhas e abacate, têm efeito benéfico sobre o perfil lipídico, reduzindo o LDL e mantendo o HDL.

As gorduras poli-insaturadas, em especial os ácidos graxos ômega-3 (presentes em peixes de água fria, sementes de linhaça e chia), exercem efeito anti-inflamatório, reduzem os triglicerídeos e contribuem para a prevenção da aterosclerose e de arritmias.

O equilíbrio no tipo de gordura consumida é mais importante do que a quantidade total, e deve fazer parte de um padrão alimentar saudável.

4. Plano Alimentar com Enfoque Cardioprotetor

A alimentação cardioprotetora baseia-se na redução de fatores de risco, melhora do perfil lipídico, controle da pressão arterial e diminuição da inflamação crônica. Modelos alimentares amplamente recomendados incluem a dieta do Mediterrâneo, a DASH (Dietary Approaches to Stop Hypertension) e o Guia Alimentar para a População Brasileira.

4.1. Princípios da Alimentação Cardioprotetora

  • Alimentos in natura e minimamente processados como base da dieta;
  • Frutas, verduras e legumes em pelo menos 5 porções por dia (ricos em fibras, antioxidantes e potássio);
  • Grãos integrais em vez de refinados;
  • Leguminosas (feijão, lentilha, grão-de-bico) como fonte de proteína vegetal;
  • Oleaginosas e sementes em pequenas quantidades (fontes de gorduras boas);
  • Peixes ricos em ômega-3, pelo menos duas
  • vezes por semana;
  • Redução do consumo de sal, preferindo temperos naturais;
  • Moderação no consumo de carnes vermelhas, embutidos, queijos curados e doces;
  • Evitar bebidas açucaradas e alcoólicas em excesso.

A fibras solúveis (encontradas na aveia, cevada e frutas) são especialmente úteis na redução do LDL-colesterol, pois se ligam aos ácidos biliares no intestino, favorecendo sua excreção.

O potássio, presente em frutas e vegetais, contribui para o controle da pressão arterial, enquanto o excesso de sódio, encontrado em alimentos processados, deve ser limitado a menos de 2 gramas por dia (equivalente a 5 g de sal).

5. Considerações Finais

Dislipidemias e hipertensão arterial são condições comuns, silenciosas e altamente relacionadas ao estilo de vida moderno. A prevenção e o tratamento dessas alterações dependem de ações conjuntas que envolvem a modificação de hábitos alimentares, redução do sedentarismo, controle do peso corporal e, quando necessário, o uso de medicamentos.

A adoção de um plano alimentar equilibrado, rico em alimentos naturais, com predominância de gorduras insaturadas, baixo teor de sódio e rica ingestão de fibras e antioxidantes, é uma das estratégias mais eficazes para reduzir o risco cardiovascular e promover a longevidade com qualidade.

A atuação do nutricionista é fundamental nesse processo, oferecendo orientações personalizadas, educativas e sustentáveis, que permitam a adesão ao tratamento e a reeducação alimentar de forma respeitosa e eficaz.

Referências Bibliográficas

  • BRASIL. Ministério da Saúde. Guia Alimentar para a População Brasileira. 2. ed. Brasília: MS, 2014.
  • FAO/WHO. Fats and fatty acids in human nutrition: Report of an expert consultation. Geneva: WHO, 2010.
  • SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA (SBC). Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose. Arq Bras Cardiol, v. 109, n. 2, 2017.
  • SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA (SBC). Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial. Arq Bras Cardiol, v. 116, n. 3, p. 516–658, 2021.
  • WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Cardiovascular Diseases – Key Facts. Geneva: WHO, 2021.
  • MOZAFFARIAN, D. et al. Trans fatty acids and cardiovascular risk. New England Journal of Medicine, v. 354, n. 15, p. 1601–1613, 2006.
  • ESTRUCH, R. et al. Primary prevention of cardiovascular disease with a Mediterranean diet. New England Journal of Medicine, v. 368, n. 14, p. 1279–1290, 2013.

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