Portal IDEA
PSICOLOGIA APLICADA À ADMINISTRAÇÃO
Módulo 3 — Psicologia na Gestão de Pessoas e no
Desenvolvimento Organizacional
Aula 1 — Psicologia Aplicada à
Gestão de Pessoas
Introdução
Toda organização depende de pessoas
para funcionar. São os trabalhadores que executam atividades, desenvolvem
soluções, atendem clientes e contribuem para que os objetivos empresariais
sejam alcançados. Entretanto, administrar pessoas envolve muito mais do que
contratar funcionários, distribuir tarefas e acompanhar resultados.
Cada profissional possui
conhecimentos, experiências, expectativas e necessidades que influenciam sua
maneira de trabalhar. Compreender essas diferenças é fundamental para construir
relações profissionais saudáveis e desenvolver práticas administrativas mais
eficientes.
A Psicologia Aplicada à
Administração contribui para esse processo ao oferecer conhecimentos sobre
comportamento humano, motivação, aprendizagem, comunicação e relações
interpessoais.
Na gestão de pessoas, esses
conhecimentos ajudam a compreender as necessidades dos colaboradores, organizar
processos de seleção, orientar o desenvolvimento profissional e melhorar as
condições de trabalho.
Nesta aula, conheceremos as
principais contribuições da psicologia para a gestão de pessoas e
compreenderemos como seus conceitos podem ser aplicados em diferentes momentos
da trajetória profissional dos trabalhadores.
1. O que é gestão de pessoas?
A gestão de pessoas é o conjunto de
práticas utilizadas pelas organizações para organizar, orientar, desenvolver e
acompanhar o trabalho de seus colaboradores.
Ela envolve atividades como
recrutamento, seleção, integração, treinamento, avaliação de desempenho e
desenvolvimento profissional.
Entretanto, a gestão de pessoas não
deve ser compreendida apenas como um conjunto de procedimentos administrativos.
Seu funcionamento depende da maneira como a organização reconhece e valoriza os
indivíduos que fazem parte dela.
Durante muito tempo, algumas
práticas empresariais trataram os trabalhadores principalmente como recursos
necessários à produção. Com o desenvolvimento dos estudos sobre comportamento
organizacional, ganhou força uma compreensão mais ampla da importância das
relações humanas e das condições de trabalho.
Atualmente, uma gestão de pessoas
responsável procura conciliar os objetivos da organização com o respeito aos
direitos, às necessidades e às capacidades dos trabalhadores.
Imagine uma empresa que enfrenta dificuldades para manter seus
funcionários. A direção pode acreditar que o
problema está exclusivamente na remuneração. Entretanto, ao investigar a
situação, descobre que muitos colaboradores estão insatisfeitos com a falta de
orientação, com as oportunidades limitadas de crescimento e com o comportamento
de determinados gestores.
Nesse caso, a solução exige
compreender diferentes aspectos da experiência profissional.
A gestão de pessoas procura
justamente desenvolver práticas que favoreçam o funcionamento da organização e,
ao mesmo tempo, contribuam para relações de trabalho mais equilibradas.
2. As contribuições da psicologia
para os processos administrativos
A psicologia estuda o comportamento
humano e os processos mentais, incluindo pensamentos, emoções, percepções,
aprendizagem e relações sociais.
No contexto administrativo, esses
conhecimentos ajudam a compreender por que as pessoas apresentam diferentes
atitudes diante das mesmas situações.
Um funcionário pode demonstrar
entusiasmo ao receber uma nova responsabilidade, enquanto outro pode sentir
insegurança. Essas reações podem estar relacionadas às experiências anteriores,
às competências desenvolvidas e às condições oferecidas pela organização.
A psicologia contribui para que os
gestores evitem interpretações precipitadas e procurem compreender os fatores
envolvidos no comportamento profissional.
Essa contribuição aparece em
diferentes atividades administrativas, como a distribuição de tarefas, a
comunicação com as equipes e o acompanhamento do desempenho.
Por exemplo, quando um colaborador
apresenta dificuldades para cumprir suas atividades, o gestor precisa
investigar se o problema está relacionado à falta de treinamento, à organização
do trabalho ou a outros fatores.
Simplesmente considerar o
funcionário desinteressado pode impedir a identificação das verdadeiras causas.
A aplicação da psicologia também
ajuda a compreender a importância da motivação, do reconhecimento e das
relações interpessoais para o desenvolvimento profissional.
Entretanto, utilizar conhecimentos
psicológicos na administração não significa realizar diagnósticos ou avaliações
psicológicas sem habilitação. Essas atividades, quando privativas da profissão,
devem ser conduzidas por psicólogos devidamente habilitados.
O papel do administrador é utilizar
conhecimentos gerais sobre comportamento humano para orientar decisões e
desenvolver práticas de gestão responsáveis.
3. Recrutamento e seleção de
colaboradores
O recrutamento e a seleção são
etapas importantes da gestão de pessoas, pois permitem identificar
profissionais que possuem competências relacionadas às necessidades da
organização.
O recrutamento consiste em atrair
candidatos para determinadas oportunidades de trabalho. Ele pode ocorrer
internamente, quando a empresa considera profissionais que já fazem parte de
sua equipe, ou externamente, quando procura candidatos no mercado.
A seleção corresponde ao processo de
análise dos candidatos, considerando os requisitos necessários para o exercício
da função.
Nesse momento, a psicologia
contribui para compreender a importância das diferenças individuais e da
avaliação cuidadosa das competências profissionais.
Imagine uma empresa que precisa
contratar um funcionário para atuar no atendimento ao público. Além de
conhecimentos técnicos, a função pode exigir comunicação clara, organização e
capacidade de lidar com situações difíceis.
Entretanto, seria inadequado
escolher um candidato apenas porque ele parece mais simpático durante a
entrevista.
A seleção precisa considerar
critérios relacionados às atividades, utilizando informações consistentes sobre
conhecimentos, experiências e competências demonstradas.
Entrevistas estruturadas, análise de
experiências profissionais e atividades práticas relacionadas à função podem
contribuir para decisões mais fundamentadas.
Quando houver necessidade de testes
psicológicos ou de avaliação psicológica, esses procedimentos devem respeitar
as normas profissionais e ser realizados por psicólogos habilitados.
Também é fundamental evitar
discriminações relacionadas à idade, ao gênero, à deficiência, à aparência ou a
outras características pessoais que não representem requisitos legítimos da
atividade.
Um processo seletivo responsável
procura identificar competências sem desconsiderar a dignidade e os direitos
dos candidatos.
4. Competências técnicas e
comportamentais
As competências profissionais
envolvem conhecimentos, habilidades e atitudes necessários para a realização de
determinadas atividades.
No ambiente organizacional,
costuma-se distinguir competências técnicas e comportamentais.
As competências técnicas estão
relacionadas aos conhecimentos específicos utilizados na execução do trabalho.
Saber operar um sistema, elaborar relatórios financeiros ou utilizar
equipamentos são exemplos.
As competências comportamentais
envolvem capacidades relacionadas à maneira como as pessoas organizam suas
atividades, se comunicam e interagem com os demais.
Entre elas estão cooperação,
responsabilidade, organização, comunicação e capacidade de lidar com problemas.
Imagine um profissional que possui
excelente conhecimento técnico, mas apresenta dificuldades para compartilhar
informações com os colegas.
Mesmo dominando suas tarefas, ele
pode encontrar obstáculos em atividades que exigem colaboração.
Por outro lado, um funcionário com
boa comunicação e disposição para aprender também precisa desenvolver os
conhecimentos técnicos necessários para realizar suas funções.
Isso demonstra que as duas dimensões
são importantes e devem ser consideradas de acordo com as exigências de cada
atividade.
A administração precisa evitar
classificações superficiais, como considerar alguém competente apenas porque é
comunicativo ou julgar uma pessoa incapaz por apresentar comportamento mais
reservado.
As competências devem ser observadas
por meio de comportamentos profissionais, resultados e oportunidades concretas
de aprendizagem.
Além disso, muitas habilidades podem
ser desenvolvidas com treinamento, experiência e orientação adequada.
5. Integração e adaptação de novos
funcionários
A contratação de um profissional
representa apenas o início de sua relação com a organização. Após a seleção, é
necessário oferecer condições para que ele conheça suas responsabilidades,
compreenda os procedimentos e estabeleça relações com os colegas.
Esse processo é conhecido como
integração organizacional.
Imagine uma funcionária que inicia
suas atividades em uma empresa sem receber informações sobre os procedimentos
internos. Mesmo possuindo experiência profissional, ela poderá enfrentar
dificuldades para compreender as rotinas e identificar a quem recorrer quando
surgirem dúvidas.
A ausência de orientação pode
provocar insegurança, erros e dificuldades de adaptação.
Por isso, a integração deve
apresentar informações sobre a organização, suas atividades, normas de
funcionamento e responsabilidades profissionais.
Também é importante oferecer
oportunidades para que o novo colaborador conheça a equipe e compreenda como
seu trabalho se relaciona com os demais setores.
A psicologia contribui para esse
processo ao demonstrar que a adaptação envolve aprendizagem, expectativas,
emoções e relações interpessoais.
Algumas pessoas se adaptam
rapidamente, enquanto outras precisam de mais tempo e acompanhamento. Essas
diferenças não devem ser interpretadas automaticamente como falta de
competência.
Uma integração bem-organizada permite que o
trabalhador esclareça dúvidas, desenvolva confiança e compreenda
gradualmente sua função.
6. Treinamento e desenvolvimento
profissional
O treinamento é um processo
planejado de aprendizagem que busca desenvolver conhecimentos e habilidades
necessários para a realização das atividades profissionais.
Já o desenvolvimento profissional
possui uma perspectiva mais ampla, envolvendo o aperfeiçoamento contínuo das
competências e a preparação para novos desafios.
Embora estejam relacionados,
treinamento e desenvolvimento não representam exatamente a mesma coisa.
Imagine uma empresa que implanta um
novo sistema de atendimento. Os funcionários precisam aprender a utilizar a
ferramenta para realizar suas atividades. Nesse caso, o treinamento possui um
objetivo específico.
Entretanto, quando a organização
oferece oportunidades para desenvolver comunicação, liderança e capacidade de
resolver problemas, está contribuindo para um processo mais amplo de
desenvolvimento profissional.
A psicologia ajuda a compreender que
as pessoas possuem diferentes experiências, conhecimentos e maneiras de
aprender.
Por isso, uma capacitação eficiente
precisa considerar as necessidades dos participantes e as características das
atividades.
Também é importante reconhecer que
participar de um treinamento não garante automaticamente a melhoria do
desempenho.
O trabalhador precisa encontrar
oportunidades para aplicar os conhecimentos adquiridos e receber apoio durante
esse processo.
Estudos brasileiros sobre
treinamento destacam a importância de avaliar não apenas a aprendizagem, mas
também sua aplicação nas atividades profissionais e seus efeitos sobre a
organização.
Assim, investir em desenvolvimento
significa criar condições para que os colaboradores aprendam e utilizem suas
competências de maneira efetiva.
7. Avaliação de desempenho e
feedback
A avaliação de desempenho é um
processo utilizado para analisar como o trabalhador realiza suas atividades em
relação aos objetivos e às responsabilidades de sua função.
Seu propósito deve ser identificar
resultados, reconhecer contribuições e orientar melhorias.
Entretanto, quando realizada de
maneira inadequada, pode provocar insegurança e sentimentos de injustiça.
Imagine um funcionário que recebe
uma avaliação negativa sem compreender quais critérios foram utilizados. Mesmo
que existam dificuldades reais em seu desempenho, a ausência de explicações
pode prejudicar sua confiança no processo.
Uma avaliação responsável precisa
utilizar critérios claros, relacionados às atividades profissionais e
conhecidos pelos trabalhadores.
Também deve considerar as condições
em que o trabalho foi realizado. Um funcionário que não recebeu equipamentos
adequados, por exemplo, não pode ser avaliado como se tivesse contado com todos
os recursos necessários.
O feedback é uma parte importante
desse processo. Ele permite conversar sobre resultados, reconhecer aspectos
positivos e identificar oportunidades de melhoria.
Um retorno construtivo deve
apresentar informações específicas, evitando julgamentos vagos sobre a
personalidade do colaborador.
Em vez de afirmar que uma pessoa é
desorganizada, o gestor pode explicar quais atividades foram entregues fora do
prazo e discutir maneiras de melhorar o planejamento.
O funcionário também precisa ter
oportunidade de apresentar sua perspectiva.
Dessa forma, a avaliação deixa de
ser apenas um instrumento de cobrança e passa a contribuir para o
desenvolvimento profissional.
8. Ética e respeito às diferenças na
gestão de pessoas
A ética é fundamental em todas as
atividades da gestão de pessoas, pois as decisões administrativas podem
influenciar diretamente a vida profissional e pessoal dos trabalhadores.
Contratações, promoções, avaliações
e desligamentos precisam ser conduzidos com responsabilidade, transparência e
respeito aos direitos individuais.
Uma gestão ética evita
favorecimentos injustificados, discriminações e decisões baseadas
exclusivamente em preferências pessoais.
Imagine uma empresa em que dois
funcionários possuem competências semelhantes, mas apenas um recebe
oportunidades de crescimento por manter uma relação de amizade com o gestor.
Essa situação pode provocar
sentimentos de injustiça e prejudicar a confiança da equipe.
Por isso, é importante estabelecer
critérios profissionais claros e oferecer oportunidades de maneira equitativa.
O respeito às diferenças também
exige reconhecer que as pessoas possuem experiências, características e
necessidades distintas.
Uma organização inclusiva procura
eliminar barreiras que dificultam a participação profissional e adota medidas
adequadas para garantir condições justas de trabalho.
Outro cuidado importante envolve a
privacidade dos colaboradores. Informações pessoais obtidas durante processos
de seleção, avaliações e atividades de gestão devem ser tratadas com
confidencialidade e utilizadas apenas para finalidades legítimas.
A psicologia contribui para a construção dessas práticas ao
destacar a importância da dignidade humana e da
compreensão das diferenças individuais.
9. Aplicação prática: melhorando a
gestão de pessoas
Imagine uma empresa de pequeno porte
que enfrenta dificuldades para manter seus funcionários e alcançar os
resultados esperados.
A direção percebe que muitos
colaboradores deixam a organização poucos meses após a contratação. Além disso,
os trabalhadores demonstram insegurança diante das tarefas e reclamam da falta
de oportunidades de crescimento.
Inicialmente, os gestores acreditam
que os problemas estão relacionados à falta de comprometimento.
Entretanto, ao analisar os processos
internos, descobrem que as contratações são realizadas sem critérios claros, os
novos funcionários não recebem treinamento adequado e as avaliações de
desempenho acontecem apenas quando surgem erros.
Diante dessa situação, a empresa
decide reorganizar suas práticas de gestão de pessoas.
O processo seletivo passa a
considerar as competências necessárias para cada função. Os novos colaboradores
recebem orientações sobre suas responsabilidades e acompanhamento durante a
adaptação.
A organização também estabelece
treinamentos periódicos e cria momentos para oferecer feedback construtivo.
Com essas mudanças, a empresa
procura melhorar a preparação dos trabalhadores e fortalecer as relações
profissionais.
Esse exemplo demonstra que problemas
de desempenho nem sempre estão relacionados à falta de interesse individual.
Muitas dificuldades surgem quando a
organização não oferece condições adequadas para que as pessoas desenvolvam
suas atividades.
A Psicologia Aplicada à
Administração ajuda a compreender essas situações e contribui para a construção
de práticas de gestão mais equilibradas.
Conclusão
A gestão de pessoas é uma atividade
essencial para o funcionamento das organizações e envolve muito mais do que
procedimentos de contratação e acompanhamento de resultados.
A psicologia contribui para essa
área ao oferecer conhecimentos sobre comportamento humano, aprendizagem,
motivação e relações interpessoais.
Esses conhecimentos podem ser
aplicados no recrutamento, na seleção, na integração, no treinamento e na
avaliação de desempenho dos colaboradores.
Entretanto, uma gestão eficiente
precisa reconhecer que os resultados profissionais dependem tanto das
competências individuais quanto das condições oferecidas pela organização.
Valorizar as pessoas significa oferecer orientações adequadas, reconhecer suas contribuições, respeitar
suas contribuições, respeitar suas
diferenças e criar oportunidades de desenvolvimento.
Assim, a Psicologia Aplicada à Administração demonstra que o crescimento organizacional deve estar acompanhado de práticas responsáveis, capazes de conciliar os objetivos empresariais com a dignidade e o desenvolvimento dos trabalhadores.
Referências bibliográficas
BORGES-ANDRADE, Jairo Eduardo.
Desenvolvimento de medidas em avaliação de treinamento. Estudos de Psicologia,
Natal, v. 7, número especial, p. 31-43, 2002.
CHIAVENATO, Idalberto. Gestão de
pessoas: o novo papel dos recursos humanos nas organizações. Barueri: Manole.
DEMO, Gisela. Políticas de gestão de
pessoas nas organizações: papel dos valores pessoais e da justiça
organizacional. São Paulo: Atlas.
OLIVEIRA, Thiago Aguiar de;
PÉREZ-NEBRA, Amalia Raquel; TORDERA, Nuria. Práticas de gestão de pessoas no
Brasil: uma revisão sistemática. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho,
v. 22, n. 4, 2022.
PARPINELLI, Renata Fabiana;
LUNARDELLI, Maria Cristina Frollini. Avaliação psicológica em processos
seletivos: contribuições da abordagem sistêmica. Estudos de Psicologia,
Campinas, v. 23, n. 4, p. 463-471, 2006.
ROBBINS, Stephen P.; JUDGE, Timothy
A.; SOBRAL, Filipe. Comportamento organizacional: teoria e prática no contexto
brasileiro. São Paulo: Pearson.
VERGARA, Sylvia Constant. Gestão de
pessoas. São Paulo: Atlas.
ZANELLI, José Carlos;
BORGES-ANDRADE, Jairo Eduardo; BASTOS, Antônio Virgílio Bittencourt (org.).
Psicologia, organizações e trabalho no Brasil. Porto Alegre: Artmed.
Aula
2 — Clima Organizacional, Cultura e Saúde Mental no Trabalho
Introdução
O ambiente de trabalho influencia
diretamente a maneira como as pessoas se sentem, se relacionam e realizam suas
atividades. Uma empresa pode oferecer bons equipamentos, salários adequados e
processos organizados, mas ainda enfrentar dificuldades quando os colaboradores
convivem com conflitos constantes, insegurança ou falta de reconhecimento.
Isso acontece porque o funcionamento
de uma organização não depende apenas de seus recursos materiais. As relações
humanas, os valores compartilhados e as condições de trabalho também exercem
influência sobre a satisfação e o comportamento profissional.
A Psicologia Aplicada à
Administração ajuda a compreender esses aspectos por meio de conceitos como
cultura organizacional, clima organizacional e saúde mental no trabalho.
Esses conhecimentos permitem que os gestores identifiquem situações que
prejudicam o bem-estar dos trabalhadores e
desenvolvam práticas administrativas mais responsáveis.
Nesta aula, compreenderemos como a
cultura e o clima organizacional influenciam as relações profissionais, quais
fatores podem contribuir para o estresse e o esgotamento e por que a prevenção
dos riscos psicossociais é importante para uma gestão humanizada.
1. O que é cultura organizacional?
A cultura organizacional corresponde
ao conjunto de valores, crenças, normas, hábitos e práticas compartilhados que
influenciam a maneira como as pessoas se comportam dentro de uma organização.
Ela pode ser percebida na forma como
os gestores tomam decisões, na maneira como os funcionários se comunicam e nos
comportamentos que são valorizados ou desencorajados.
Imagine duas empresas que atuam no
mesmo setor. Na primeira, os funcionários são incentivados a apresentar
sugestões e participar das decisões. Na segunda, as orientações são
transmitidas exclusivamente pela chefia, sem espaço para questionamentos.
Embora as duas organizações realizem
atividades semelhantes, possuem culturas diferentes.
A cultura não está presente apenas
nos documentos oficiais. Ela também aparece nas atitudes cotidianas e nas
regras informais que se desenvolvem ao longo do tempo.
Uma empresa pode afirmar que
valoriza o respeito, mas permitir que gestores utilizem humilhações como forma
de cobrança. Nesse caso, existe uma contradição entre os valores anunciados e
as práticas reais.
Por isso, compreender a cultura
organizacional exige observar como as pessoas efetivamente trabalham e se
relacionam.
A psicologia contribui para essa
análise ao demonstrar que os comportamentos são influenciados não apenas pelas
características individuais, mas também pelas expectativas e práticas
compartilhadas no ambiente profissional.
2. Valores, normas e comportamentos
compartilhados
Os valores organizacionais
representam princípios considerados importantes para o funcionamento da
empresa, como responsabilidade, qualidade, cooperação e ética.
As normas correspondem às
orientações e regras que organizam o comportamento dos trabalhadores. Algumas
são formais, estabelecidas em documentos e procedimentos internos. Outras
surgem informalmente, por meio da convivência.
Os comportamentos compartilhados são
as atitudes que se repetem e acabam sendo reconhecidas como comuns dentro da
organização.
Imagine uma equipe em que os funcionários costumam compartilhar informações e ajudar os colegas diante de
dificuldades. Com o tempo, essas atitudes podem tornar-se parte da maneira
habitual de trabalhar.
Entretanto, também podem surgir
práticas prejudiciais. Em um setor no qual atrasos são constantemente
ignorados, por exemplo, o descumprimento de prazos pode acabar sendo
considerado normal.
A administração precisa compreender
que os comportamentos valorizados pelos gestores influenciam as práticas
coletivas.
Quando uma empresa reconhece
atitudes cooperativas e mantém regras justas, contribui para fortalecer uma
cultura de responsabilidade.
Por outro lado, quando tolera
discriminação, favorecimentos pessoais ou comportamentos agressivos, pode
estimular relações profissionais prejudiciais.
A construção de uma cultura
organizacional saudável exige coerência entre os valores apresentados e as
decisões tomadas diariamente.
3. O conceito de clima
organizacional
O clima organizacional está
relacionado à maneira como os trabalhadores percebem e avaliam diferentes
aspectos do ambiente profissional.
Essas percepções podem envolver a
liderança, a comunicação, as condições de trabalho, as oportunidades de
desenvolvimento e as relações entre colegas.
Embora cultura e clima
organizacional estejam relacionados, não representam exatamente a mesma coisa.
A cultura envolve valores, práticas
e significados compartilhados que se desenvolvem ao longo do tempo. O clima
corresponde às percepções dos trabalhadores sobre o ambiente organizacional em
determinado período.
Imagine uma empresa que possui uma
cultura voltada para resultados, mas passa por mudanças na liderança e na
distribuição das tarefas.
Mesmo que seus valores gerais
permaneçam semelhantes, o clima pode ser afetado pela insegurança e pelas
dificuldades de adaptação.
O clima organizacional pode ser
investigado por meio de pesquisas, entrevistas, reuniões e outros instrumentos
adequados.
Entretanto, essas avaliações
precisam garantir respeito, confidencialidade e condições para que os
trabalhadores expressem suas opiniões sem medo de represálias.
Também é importante reconhecer que
nem todos os funcionários percebem o ambiente da mesma maneira.
Um setor pode apresentar relações
positivas, enquanto outro enfrenta dificuldades de comunicação e conflitos
frequentes.
Por isso, compreender o clima exige
considerar diferentes perspectivas e evitar conclusões baseadas apenas na
opinião de um pequeno grupo.
4. Fatores que influenciam a
satisfação e o bem-estar no trabalho
A satisfação profissional corresponde à
satisfação profissional
corresponde à avaliação que uma pessoa faz de sua experiência no trabalho.
Ela pode ser influenciada por
diferentes fatores, como remuneração, reconhecimento, relações interpessoais,
oportunidades de crescimento e condições oferecidas pela organização.
O bem-estar no trabalho possui uma
dimensão mais ampla, envolvendo experiências emocionais, condições de saúde e a
maneira como o indivíduo vivencia suas atividades profissionais.
Imagine uma funcionária que gosta de
suas tarefas e mantém boas relações com os colegas, mas enfrenta jornadas
excessivas e dificuldades para descansar.
Embora encontre satisfação em
determinados aspectos da profissão, suas condições de trabalho podem prejudicar
o bem-estar.
Isso demonstra que gostar do
trabalho não significa necessariamente estar em uma situação saudável.
A administração precisa observar
tanto os aspectos positivos quanto os fatores que podem provocar desgaste.
Uma organização que oferece
orientações claras, distribui responsabilidades de maneira equilibrada e
respeita os limites dos trabalhadores cria melhores condições para a satisfação
profissional.
Entretanto, iniciativas isoladas,
como comemorações e campanhas motivacionais, não substituem melhorias nas
condições reais de trabalho.
O bem-estar precisa ser considerado
nas decisões administrativas e na organização cotidiana das atividades.
5. Estresse ocupacional e seus
principais fatores
O estresse ocupacional está
relacionado às respostas físicas e psicológicas que podem surgir quando as
exigências do trabalho são percebidas como superiores aos recursos disponíveis
para enfrentá-las.
Situações de pressão fazem parte de
diferentes atividades profissionais. Entretanto, quando essas exigências são
intensas, frequentes ou prolongadas, podem prejudicar a saúde e o desempenho.
Entre os fatores que contribuem para
o estresse estão a sobrecarga de tarefas, a falta de autonomia, os conflitos
constantes, as jornadas prolongadas e a insegurança profissional.
Imagine um funcionário que precisa
atender vários clientes simultaneamente, cumprir metas elevadas e resolver
problemas sem receber apoio adequado.
Com o passar do tempo, essa situação
pode provocar cansaço, irritabilidade, dificuldades de concentração e
alterações no sono.
É importante reconhecer que o estresse não depende exclusivamente da capacidade individual de lidar com dificuldades. As condições e a organização do trabalho exercem influência importante sobre esse
processo.
Estudos realizados no setor de
teleatendimento, por exemplo, identificaram relações entre formas rígidas de
controle das atividades e queixas de cansaço e esgotamento dos trabalhadores.
A administração deve procurar
identificar os fatores que provocam sobrecarga e desenvolver medidas para
reduzir seus efeitos.
Isso pode envolver reorganizar
tarefas, estabelecer metas realistas, melhorar a comunicação e garantir
recursos suficientes para a realização das atividades.
6. Esgotamento profissional e seus
impactos
O esgotamento profissional,
frequentemente relacionado ao termo burnout, é um fenômeno associado ao
estresse crônico no trabalho que não foi administrado adequadamente.
A Organização Mundial da Saúde
descreve o burnout como um fenômeno ocupacional, e não como uma condição médica
classificada isoladamente como doença.
Ele envolve três dimensões
principais: sensação de exaustão, distanciamento mental ou atitudes negativas
em relação ao trabalho e redução da eficácia profissional percebida.
Imagine uma profissional que,
durante vários meses, enfrenta cobranças excessivas, falta de apoio e
dificuldades para descansar.
Inicialmente, ela pode apresentar
apenas cansaço frequente. Com o tempo, pode desenvolver maior distanciamento em
relação às atividades e sentir que seus esforços não produzem resultados
satisfatórios.
Entretanto, esses sinais não são
suficientes para estabelecer um diagnóstico. Diferentes condições de saúde
podem apresentar manifestações semelhantes e precisam ser avaliadas por
profissionais habilitados.
O esgotamento pode afetar a
qualidade de vida, as relações profissionais e a capacidade de realizar
atividades.
Por isso, a prevenção deve envolver
mudanças nas condições de trabalho, e não apenas recomendações individuais para
que os funcionários sejam mais resistentes à pressão.
A organização precisa observar
fatores como carga de trabalho, autonomia, apoio da liderança e possibilidade
de recuperação física e mental.
7. Assédio moral e comportamentos
prejudiciais no trabalho
O assédio moral envolve condutas
abusivas que podem expor trabalhadores a situações humilhantes, constrangedoras
ou degradantes no ambiente profissional.
Ele pode aparecer por meio de
ofensas, desqualificações constantes, isolamento deliberado e outras práticas
que atingem a dignidade do trabalhador.
É importante diferenciar o exercício
legítimo da autoridade de comportamentos abusivos.
Um gestor pode estabelecer metas, cobrar
responsabilidades e oferecer avaliações críticas, desde que essas ações
sejam realizadas de maneira profissional e respeitosa.
Entretanto, utilizar humilhações,
ameaças ou constrangimentos como instrumentos de cobrança não representa uma
prática adequada de liderança.
Imagine uma funcionária que recebe
críticas ofensivas diante dos colegas sempre que apresenta alguma dificuldade.
Além de prejudicar sua confiança,
essa situação pode provocar medo, sofrimento e dificuldades para realizar suas
atividades.
A prevenção do assédio exige regras
claras de convivência, orientação das lideranças e canais seguros para
comunicar situações inadequadas.
Também é fundamental que as
denúncias sejam tratadas com seriedade, confidencialidade e proteção contra
retaliações.
Nem todo conflito ou cobrança
caracteriza juridicamente assédio moral. A análise depende das circunstâncias,
da conduta e de seus efeitos, sem que isso diminua a necessidade de prevenir e
corrigir comportamentos desrespeitosos.
8. Prevenção dos riscos
psicossociais relacionados ao trabalho
Os fatores de risco psicossociais
relacionados ao trabalho são aspectos da organização, das condições e das
relações profissionais que podem contribuir para danos à saúde física e mental
dos trabalhadores.
Entre eles estão demandas
excessivas, falta de apoio, assédio, discriminação, ausência de clareza nas
responsabilidades e condições inadequadas de trabalho.
A prevenção exige identificar essas
situações e desenvolver medidas capazes de reduzir os riscos.
No Brasil, a Norma Regulamentadora
nº 1 (NR-1), em sua redação vigente desde 26 de maio de 2026, estabelece a
inclusão dos fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho no
gerenciamento de riscos ocupacionais.
Isso reforça a importância de
analisar não apenas o comportamento individual dos trabalhadores, mas também a
maneira como as atividades são planejadas, distribuídas e acompanhadas.
Imagine uma empresa que identifica
reclamações frequentes sobre excesso de tarefas e dificuldades para cumprir
prazos.
Em vez de oferecer apenas palestras
sobre controle emocional, a administração precisa investigar a quantidade de
trabalho, os recursos disponíveis e a organização das responsabilidades.
As medidas preventivas podem
envolver ajustes nas metas, melhoria dos processos, capacitação das lideranças
e participação dos trabalhadores na identificação dos problemas.
A Fundacentro destaca que a prevenção dos riscos psicossociais deve considerar a
organização real do
trabalho e envolver os próprios trabalhadores na construção das soluções.
A identificação e o gerenciamento
desses riscos devem ser conduzidos conforme as normas aplicáveis, com
participação dos profissionais competentes em segurança e saúde no trabalho.
9. Responsabilidade da organização
na promoção de ambientes saudáveis
Promover um ambiente de trabalho
saudável é uma responsabilidade compartilhada, mas a organização possui papel
fundamental na criação de condições adequadas.
Os trabalhadores podem contribuir
por meio de atitudes respeitosas, comunicação responsável e cooperação.
Entretanto, não possuem controle individual sobre todos os fatores que
influenciam seu bem-estar.
A administração precisa desenvolver
práticas que considerem a saúde, a segurança e a dignidade das pessoas.
Isso envolve estabelecer
responsabilidades claras, evitar sobrecargas desnecessárias, combater
comportamentos abusivos e oferecer canais de comunicação confiáveis.
Também é importante acompanhar as
condições de trabalho e avaliar se as medidas adotadas estão produzindo
melhorias.
Imagine uma empresa que percebe
aumento das reclamações e dos afastamentos entre seus colaboradores.
Uma resposta limitada seria realizar
uma campanha motivacional e esperar que os problemas desaparecessem.
Uma abordagem mais responsável
envolveria investigar as condições de trabalho, ouvir os funcionários e
identificar possíveis fatores organizacionais associados às dificuldades.
A partir dessa análise, seria
possível desenvolver medidas preventivas e acompanhar seus resultados.
A promoção da saúde mental não deve
ser confundida com a obrigação de manter os trabalhadores felizes o tempo todo.
O objetivo é construir condições de
trabalho que respeitem os limites humanos, reduzam riscos evitáveis e permitam
o desenvolvimento profissional de maneira digna.
Conclusão
A cultura organizacional, o clima e
a saúde mental são aspectos fundamentais para compreender o funcionamento das
organizações.
A cultura influencia os valores e os
comportamentos compartilhados, enquanto o clima revela como os trabalhadores
percebem diferentes características do ambiente profissional.
Esses fatores podem contribuir para
relações saudáveis ou favorecer situações de insatisfação e sofrimento.
O estresse ocupacional, o
esgotamento e o assédio moral demonstram que as condições de trabalho precisam
ser consideradas nas decisões administrativas.
A Psicologia Aplicada à Administração ajuda a
Psicologia Aplicada à
Administração ajuda a reconhecer esses desafios e mostra que o bem-estar
profissional depende tanto das relações humanas quanto da organização das
atividades.
Assim, uma gestão responsável não se limita a buscar produtividade. Ela também procura prevenir riscos, respeitar as diferenças e construir ambientes nos quais as pessoas possam trabalhar com segurança, dignidade e oportunidades de desenvolvimento.
Referências bibliográficas
BRASIL. Ministério do Trabalho e
Emprego. Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1): Disposições Gerais e Gerenciamento
de Riscos Ocupacionais. Brasília: Ministério do Trabalho e Emprego, 2026.
CHIAVENATO, Idalberto. Comportamento
organizacional: a dinâmica do sucesso das organizações. Barueri: Manole.
FUNDAÇÃO JORGE DUPRAT FIGUEIREDO DE
SEGURANÇA E MEDICINA DO TRABALHO (FUNDACENTRO). Diretrizes para aplicar a NR-1
com a inclusão dos riscos psicossociais: analisar a organização e gestão do
trabalho para intervir. São Paulo: Fundacentro, 2026.
MARTINEZ, Maria Carmen; PARAGUAY,
Ana Isabel Bruzzi Bezerra; LATORRE, Maria do Rosário Dias de Oliveira. Relação
entre satisfação com aspectos psicossociais e saúde dos trabalhadores. Revista
de Saúde Pública, São Paulo, v. 38, n. 1, p. 55-61, 2004.
ROBBINS, Stephen P.; JUDGE, Timothy
A.; SOBRAL, Filipe. Comportamento organizacional: teoria e prática no contexto
brasileiro. São Paulo: Pearson.
SIQUEIRA, Mirlene Maria Matias
(org.). Medidas do comportamento organizacional: ferramentas de diagnóstico e
de gestão. Porto Alegre: Artmed.
VILELA, Lailah Vasconcelos de
Oliveira; ASSUNÇÃO, Ada Ávila. Os mecanismos de controle da atividade no setor
de teleatendimento e as queixas de cansaço e esgotamento dos trabalhadores.
Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 20, n. 4, 2004.
ZANELLI, José Carlos;
BORGES-ANDRADE, Jairo Eduardo; BASTOS, Antônio Virgílio Bittencourt (org.).
Psicologia, organizações e trabalho no Brasil. Porto Alegre: Artmed.
Aula
3 — Mudanças Organizacionais, Tomada de Decisão e Gestão Humanizada
Introdução
As organizações estão em constante
transformação. Novas tecnologias, mudanças no comportamento dos consumidores,
alterações nos processos de trabalho e diferentes exigências do mercado fazem
com que as empresas precisem adaptar suas atividades para continuar funcionando
de maneira eficiente.
Entretanto, toda mudança organizacional envolve pessoas. Mesmo quando uma transformação parece simples para a administração, ela pode provocar dúvidas,
expectativas e inseguranças
entre os trabalhadores.
A implantação de um sistema digital,
a reorganização de setores ou a chegada de uma nova liderança, por exemplo,
podem modificar rotinas e exigir o desenvolvimento de novas competências.
A Psicologia Aplicada à
Administração ajuda a compreender como os indivíduos reagem a essas situações e
de que maneira os gestores podem conduzir mudanças com responsabilidade e
respeito.
Além disso, seus conhecimentos
contribuem para a tomada de decisões mais equilibradas, considerando não apenas
os resultados financeiros, mas também as condições de trabalho e as
necessidades humanas.
Nesta aula, compreenderemos os
aspectos psicológicos envolvidos nas mudanças organizacionais, a influência das
emoções nas decisões e a importância de uma gestão humanizada para o
desenvolvimento das empresas.
1. O que são mudanças
organizacionais?
As mudanças organizacionais são
transformações realizadas na estrutura, nos processos, nas tecnologias ou nas
práticas de uma organização.
Elas podem ocorrer por diferentes
motivos, como a necessidade de melhorar serviços, reduzir desperdícios, atender
novas exigências ou acompanhar transformações do mercado.
Algumas mudanças acontecem de
maneira gradual, permitindo que os trabalhadores se adaptem aos poucos. Outras
precisam ser realizadas rapidamente, especialmente diante de situações
inesperadas.
Imagine uma empresa que decide
substituir seus controles manuais por um sistema informatizado. A mudança pode
facilitar o acesso às informações e melhorar a organização das atividades.
Entretanto, sua implantação também
exige treinamento, reorganização das tarefas e adaptação dos funcionários.
Isso demonstra que uma mudança não
depende apenas da escolha de uma nova ferramenta ou procedimento. Seu sucesso
também está relacionado à maneira como as pessoas compreendem e participam do
processo.
A administração precisa reconhecer
que os trabalhadores possuem diferentes experiências e níveis de familiaridade
com as novidades.
Por isso, planejar uma transformação
significa considerar tanto os aspectos técnicos quanto os fatores humanos
envolvidos.
2. Reações psicológicas diante das
mudanças
As pessoas podem reagir de maneiras
diferentes quando suas rotinas profissionais são modificadas.
Alguns trabalhadores demonstram
entusiasmo diante de novas oportunidades, enquanto outros sentem preocupação,
insegurança ou receio de não conseguir acompanhar as exigências.
Essas reações são influenciadas
por
experiências anteriores, expectativas, características individuais e pela forma
como a mudança é apresentada.
Imagine dois funcionários que
recebem a notícia de que a empresa implantará um novo sistema de atendimento.
Um deles considera a novidade uma
oportunidade para aprender e desenvolver suas competências. O outro teme
cometer erros e perder espaço na organização.
Embora estejam diante da mesma
situação, suas interpretações são diferentes.
A psicologia ajuda a compreender que
essas reações não devem ser classificadas automaticamente como positivas ou
negativas.
A preocupação pode indicar a
necessidade de informações mais claras, enquanto o entusiasmo pode representar
disposição para aprender.
O papel do gestor é reconhecer essas
diferenças e oferecer condições para que os trabalhadores compreendam os
objetivos da transformação.
Uma comunicação transparente,
acompanhada de orientações adequadas, pode reduzir dúvidas e facilitar a
adaptação.
3. Resistência, insegurança e
adaptação profissional
A resistência à mudança acontece
quando pessoas ou grupos apresentam dificuldades, questionamentos ou oposição
diante de determinadas transformações.
Ela pode surgir por diferentes
razões, como medo de perder responsabilidades, falta de confiança na liderança,
experiências negativas anteriores ou ausência de informações.
Entretanto, resistir não significa
necessariamente agir de maneira inadequada.
Em algumas situações, os
trabalhadores identificam problemas reais que não foram considerados durante o
planejamento.
Imagine uma empresa que decide
alterar os horários de trabalho sem consultar os funcionários. A medida pode
provocar dificuldades relacionadas ao transporte, aos compromissos familiares e
à organização da rotina.
Se a administração interpretar todas
as reclamações como falta de comprometimento, poderá deixar de perceber
consequências importantes da decisão.
Por isso, compreender a resistência
exige ouvir as pessoas e investigar suas causas.
A adaptação profissional também
depende das condições oferecidas pela organização. Quando uma mudança exige
novas habilidades, é necessário garantir oportunidades de aprendizagem.
Treinamentos, orientações claras e
acompanhamento adequado podem ajudar os colaboradores a desenvolver maior
segurança.
A administração deve reconhecer que
a adaptação acontece em ritmos diferentes e que o apoio oferecido pode
influenciar significativamente esse processo.
4. A influência das emoções e percepções na
tomada de decisão
Tomar decisões faz parte da rotina
administrativa. Os gestores precisam escolher caminhos, estabelecer prioridades
e resolver problemas que afetam diferentes setores.
Entretanto, as decisões humanas não
são influenciadas apenas por informações técnicas. Emoções, experiências
anteriores, expectativas e percepções também participam desse processo.
Um administrador que está irritado
após receber uma reclamação pode interpretar determinado problema de maneira
mais negativa do que faria em outra circunstância.
Da mesma forma, um gestor
excessivamente confiante pode desconsiderar riscos importantes por acreditar
que sua experiência é suficiente para garantir bons resultados.
Isso demonstra que as emoções podem
influenciar a maneira como as informações são analisadas.
Entretanto, elas não devem ser
consideradas exclusivamente prejudiciais. Sentimentos e experiências também
podem chamar a atenção para necessidades e situações que merecem cuidado.
O desafio está em reconhecer essas
influências sem permitir que substituam uma análise responsável.
Uma decisão administrativa
equilibrada deve considerar informações confiáveis, diferentes perspectivas e
possíveis consequências.
Antes de responsabilizar um
funcionário por determinado erro, por exemplo, o gestor precisa investigar o
ocorrido e verificar se existiram problemas de comunicação, falta de recursos
ou orientações inadequadas.
Essa postura reduz a possibilidade
de julgamentos precipitados e contribui para decisões mais justas.
5. Vieses cognitivos e decisões
administrativas
Os vieses cognitivos são tendências
de pensamento que podem influenciar a maneira como interpretamos informações e
tomamos decisões.
Nosso cérebro utiliza experiências
anteriores e estratégias mentais simplificadas para lidar com situações
complexas. Embora esses mecanismos sejam úteis no cotidiano, algumas vezes
podem provocar avaliações equivocadas.
Um exemplo é o viés de confirmação,
que ocorre quando uma pessoa dá maior atenção às informações que reforçam suas
opiniões e desconsidera evidências contrárias.
Imagine um gerente que acredita que
determinado funcionário não possui capacidade para assumir responsabilidades.
Mesmo quando o colaborador apresenta bons resultados, o gestor pode valorizar
apenas os erros que confirmam sua impressão inicial.
Outro exemplo é o excesso de
confiança, que acontece quando alguém superestima seus conhecimentos ou sua
capacidade de prever resultados.
Também existe o efeito
existe o efeito de ancoragem,
no qual uma informação inicial influencia excessivamente as avaliações
posteriores.
Pesquisas brasileiras com gestores
identificaram a presença desses vieses em decisões administrativas,
demonstrando a importância de analisar informações de maneira crítica.
Para reduzir essas influências, o
administrador deve procurar diferentes fontes de informação, considerar
opiniões divergentes e utilizar critérios claros.
Reconhecer que todos estão sujeitos
a erros de julgamento é um passo importante para desenvolver decisões mais
responsáveis.
6. Participação dos colaboradores
nos processos de transformação
A participação dos trabalhadores
pode contribuir significativamente para o sucesso das mudanças organizacionais.
Isso acontece porque os funcionários
conhecem aspectos da rotina profissional que nem sempre são percebidos pelos
gestores.
Ao participar das discussões, podem
identificar dificuldades, apresentar sugestões e contribuir para o
desenvolvimento de soluções mais adequadas.
Imagine uma empresa que pretende
modificar seu sistema de controle de estoque. Antes de implantar a mudança, a
administração reúne os profissionais responsáveis pelas atividades e procura
compreender os problemas existentes.
Durante as conversas, os
trabalhadores apresentam informações sobre dificuldades de registro, atrasos e
necessidades de treinamento.
Com essas contribuições, a empresa
consegue planejar a implantação de maneira mais cuidadosa.
A participação também pode favorecer
o sentimento de pertencimento, pois os colaboradores percebem que suas
experiências são consideradas.
Entretanto, participar não significa
que todas as sugestões serão necessariamente adotadas. A administração continua
responsável por avaliar a viabilidade das propostas e tomar decisões
fundamentadas.
O importante é garantir que a
participação seja verdadeira e que as pessoas recebam explicações sobre as
decisões tomadas.
7. Gestão humanizada e
responsabilidade organizacional
A gestão humanizada é uma abordagem
administrativa que reconhece a importância das pessoas e procura conciliar os
objetivos organizacionais com o respeito à dignidade humana.
Ela não significa abandonar metas,
eliminar responsabilidades ou permitir qualquer comportamento.
Seu propósito é desenvolver práticas
que considerem as necessidades dos trabalhadores, as condições de trabalho e as
consequências das decisões administrativas.
Uma empresa que adota princípios de gestão humanizada
procura estabelecer relações respeitosas, oferecer
oportunidades de desenvolvimento e prevenir situações que possam prejudicar a
saúde e o bem-estar.
Imagine um gestor que percebe
dificuldades recorrentes no cumprimento das metas de sua equipe.
Em vez de aumentar imediatamente as
cobranças, ele procura investigar se existem problemas relacionados à
distribuição das tarefas, à falta de recursos ou às orientações recebidas.
Essa atitude não elimina a
necessidade de alcançar resultados, mas permite compreender melhor as causas
das dificuldades.
A gestão humanizada também envolve
decisões éticas, respeito à diversidade e compromisso com condições justas de
trabalho.
Estudos brasileiros destacam que
práticas humanizadas precisam estar presentes na organização real do trabalho e
nas políticas de gestão, não apenas em discursos institucionais.
Assim, administrar de maneira
humanizada significa reconhecer que os resultados empresariais devem ser
buscados sem desconsiderar os direitos e as necessidades das pessoas.
8. Desenvolvimento contínuo e
aprendizagem nas organizações
As transformações organizacionais
exigem que os trabalhadores desenvolvam novos conhecimentos e aperfeiçoem suas
competências.
Por isso, a aprendizagem precisa ser
compreendida como um processo contínuo.
Uma organização que valoriza o
desenvolvimento profissional oferece oportunidades para que seus colaboradores
aprendam, compartilhem experiências e acompanhem as mudanças relacionadas às
suas atividades.
Entretanto, a aprendizagem não
acontece apenas em treinamentos formais.
Ela também pode ocorrer por meio da
troca de conhecimentos entre colegas, da análise de problemas e da reflexão
sobre experiências profissionais.
Imagine uma equipe que enfrenta
dificuldades durante a implantação de um novo procedimento.
Após identificar os problemas, os
funcionários se reúnem para discutir o que aconteceu e propor melhorias.
Essa experiência pode contribuir
para o aperfeiçoamento das atividades e para a construção de novos
conhecimentos.
A administração precisa criar
condições para que a aprendizagem aconteça, oferecendo orientação, recursos e
oportunidades de participação.
Também é importante evitar uma
cultura em que os erros sejam tratados exclusivamente como motivos de punição.
Quando uma falha é analisada com
responsabilidade, pode revelar problemas nos processos e contribuir para
melhorias.
Isso não significa ignorar comportamentos inadequados, mas compreender que a aprendizagem
organizacional
depende da capacidade de identificar dificuldades e desenvolver soluções.
9. Aplicação integrada da psicologia
à administração
Os conhecimentos estudados ao longo
do curso podem ser utilizados de maneira integrada no cotidiano administrativo.
Imagine uma empresa que decide
reorganizar seus setores para melhorar o atendimento aos clientes.
Durante o processo, alguns
funcionários demonstram insegurança, outros apresentam dificuldades de
adaptação e parte da equipe questiona as novas responsabilidades.
Um gestor que utiliza conhecimentos
de psicologia procura compreender essas reações antes de tomar decisões.
Inicialmente, estabelece uma
comunicação clara sobre os objetivos da mudança e explica como as atividades
serão reorganizadas.
Em seguida, ouve os colaboradores e
identifica as principais dificuldades.
A administração também oferece
treinamento, acompanha a adaptação e estabelece critérios para avaliar os
resultados.
Durante esse processo, o gestor
precisa reconhecer possíveis vieses em suas próprias decisões, evitando
favorecer determinadas opiniões apenas porque coincidem com suas expectativas.
Ao mesmo tempo, procura manter uma
liderança respeitosa, oferecendo orientação e autonomia conforme as
necessidades dos trabalhadores.
Esse exemplo demonstra que
motivação, comunicação, liderança, aprendizagem e gestão humanizada não são
assuntos isolados.
Todos esses elementos estão
relacionados e podem contribuir para uma administração mais consciente.
A principal aprendizagem é que
compreender o comportamento humano permite desenvolver decisões mais
equilibradas e construir condições favoráveis ao desempenho profissional.
Conclusão
As mudanças organizacionais fazem
parte da realidade das empresas e exigem atenção tanto aos aspectos técnicos
quanto às necessidades humanas.
A Psicologia Aplicada à
Administração ajuda a compreender como os trabalhadores reagem às
transformações e de que maneira emoções, percepções e experiências influenciam
suas atitudes.
Também demonstra que a tomada de
decisão pode ser afetada por vieses cognitivos, tornando importante a
utilização de informações confiáveis e a consideração de diferentes
perspectivas.
A participação dos colaboradores, a
comunicação transparente e as oportunidades de aprendizagem contribuem para
processos de mudança mais responsáveis.
Por sua vez, a gestão humanizada reforça que os resultados organizacionais devem ser buscados com respeito à dignidade, aos direitos e às
condições de trabalho.
Assim, administrar não significa
apenas controlar recursos e estabelecer metas. Significa também compreender
pessoas, orientar transformações e desenvolver ambientes nos quais o
crescimento da organização esteja acompanhado do desenvolvimento humano.
Referências bibliográficas
CHIAVENATO, Idalberto. Comportamento
organizacional: a dinâmica do sucesso das organizações. Barueri: Manole.
CORTEZ, Pedro Afonso; ZERBINI,
Thaís; VEIGA, Heila Magali da Silva. Práticas humanizadas de gestão de pessoas
e organização do trabalho: para além do positivismo e do dataísmo. Trabalho,
Educação e Saúde, v. 17, n. 3, 2019.
COSTA, Daniel Fonseca; CARVALHO,
Francisval de Melo; MOREIRA, Bruno César de Melo; SILVA, Washington Santos.
Viés de confirmação na tomada de decisão gerencial: um estudo experimental com
gestores e contadores. Revista de Contabilidade e Organizações, v. 14, 2020.
FEITOSA, Arnaldo Barros; SILVA,
Pablo Rogers; SILVA, Dany Rogers. A influência de vieses cognitivos e
motivacionais na tomada de decisão gerencial: evidências empíricas em uma
empresa de construção civil brasileira. Revista de Negócios, v. 19, n. 3, p. 3-22,
2014.
HERNANDEZ, José Mauro da Costa;
CALDAS, Miguel P. Resistência à mudança: uma revisão crítica. Revista de
Administração de Empresas, v. 41, n. 2, p. 31-45, 2001.
ROBBINS, Stephen P.; JUDGE, Timothy
A.; SOBRAL, Filipe. Comportamento organizacional: teoria e prática no contexto
brasileiro. São Paulo: Pearson.
VERGARA, Sylvia Constant. Gestão de
pessoas. São Paulo: Atlas.
ZANELLI, José Carlos; BORGES-ANDRADE, Jairo Eduardo; BASTOS, Antônio Virgílio Bittencourt (org.). Psicologia, organizações e trabalho no Brasil. Porto Alegre: Artmed.
Quer acesso gratuito a mais materiais como este?
Acesse materiais, apostilas e vídeos em mais de 3000 cursos, tudo isso gratuitamente!
Matricule-se AgoraQuer acesso gratuito a mais materiais como este?
Acesse materiais, apostilas e vídeos em mais de 3000 cursos, tudo isso gratuitamente!
Matricule-se Agora