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Manejo Nutricional de Equinos

MANEJO NUTRICIONAL DE EQUINOS

 

MÓDULO 3 — Manejo nutricional em fases da vida e situações especiais

Aula 1 — Potros, crescimento, gestação e lactação

 

Quando entramos no manejo nutricional de potros e éguas reprodutoras, a primeira coisa que precisa ficar clara é que essa fase pede um olhar muito mais atento do que o manejo de um cavalo adulto em simples manutenção. Isso acontece porque aqui não estamos lidando apenas com a preservação do peso corporal ou com a rotina normal do animal. Estamos lidando com formação de um novo indivíduo, produção de leite, crescimento acelerado e desenvolvimento corporal. Em outras palavras, errar nessa etapa não significa apenas “alimentar mal”; significa interferir em um período decisivo da vida do animal. As exigências nutricionais dos equinos variam conforme a fase fisiológica, e crescimento, gestação e lactação aumentam essas demandas em relação à mantença.

No caso da égua gestante, o começo da prenhez não costuma exigir mudanças radicais na dieta quando o animal já está bem manejado. A Embrapa destaca que, até o sétimo ou oitavo mês de gestação, as exigências nutricionais da égua podem ser semelhantes às de um animal em manutenção. O cenário muda a partir do oitavo mês, quando o crescimento fetal se acelera e a necessidade nutricional aumenta, tornando a suplementação uma estratégia importante. O mesmo material informa que essas exigências permanecem elevadas até o pico da lactação, por volta do segundo ao terceiro mês após o parto.

Esse ponto é muito importante para o aluno iniciante, porque existe um erro comum de raciocínio: pensar que a barriga crescendo já significa que a dieta da égua estava “dando conta” o tempo todo. Nem sempre. Muitas vezes, a gestação avança de forma aparentemente tranquila, mas a maior pressão nutricional aparece mais adiante, exatamente quando o feto passa a crescer com mais intensidade. Em linguagem simples, a égua prenhe não precisa necessariamente “comer muito mais” desde o primeiro dia, mas precisa ser acompanhada para que, no final da gestação e no começo da lactação, não faltem energia, proteína, cálcio, fósforo e outros nutrientes importantes. Na referência consultada, as exigências no início da lactação chegam a cerca de 13,6% de proteína bruta, 0,54% de cálcio e 0,35% de fósforo na dieta, valores superiores aos de animais em simples manutenção.

Depois do parto, o cuidado nutricional continua sendo central, porque agora a égua passa a sustentar o potro por meio do

leite. Nos primeiros meses de vida, o leite é o principal alimento do potro, e o pico de lactação ocorre entre o segundo e o terceiro mês. Só que, justamente nesse período, começa a surgir uma diferença entre o que o potro precisa e o que a mãe consegue fornecer sozinha. Por isso, materiais técnicos da Embrapa destacam que essa diferença pode ser compensada por fontes complementares de nutrientes, desde que se tenha muito cuidado com a formulação, porque potros jovens são especialmente sensíveis a erros alimentares.

Aqui entra uma noção muito valiosa para quem está começando: potro não é um cavalo pequeno. Ele está em crescimento acelerado, formando ossos, músculos, articulações e estruturas corporais que ainda não estão prontas. Isso exige equilíbrio. Não basta pensar em “engordar” o potro ou em fazê-lo crescer rápido; é preciso buscar crescimento harmonioso. Um estudo brasileiro sobre programas nutricionais para equinos em crescimento destaca justamente que o desenvolvimento acelerado dos potros exige programa nutricional adequado, e chama atenção para o risco de deformidades quando há restrição alimentar seguida de alimentação à vontade, favorecendo crescimento extremo e desordenado.

Essa ideia é essencial do ponto de vista didático. Muita gente acha bonito um potro muito “cheio”, muito pesado ou crescendo rápido demais, como se isso fosse sinônimo automático de qualidade. Mas crescimento saudável não é corrida. O que interessa não é apenas ganhar peso, e sim ganhar peso com estrutura, com proporcionalidade e com suporte nutricional adequado. Os dados usados pela Embrapa mostram, por exemplo, que potros de seis meses, em determinada condição de consumo, têm exigências mais altas de proteína, cálcio e fósforo do que cavalos adultos em manutenção, e que os animais de 6 a 12 meses ainda precisam de dieta nutricionalmente reforçada. Isso confirma que a fase de crescimento não deve ser tratada como uma continuação simples da dieta do adulto.

Além disso, o crescimento do potro é muito rápido logo no primeiro ano. Em materiais brasileiros, há estimativas de que o animal atinge cerca de 70% a 80% do seu desenvolvimento nos primeiros 12 a 14 meses de vida, e estudos citados em publicações nacionais mostram que, aos 12 meses, potros podem já ter alcançado aproximadamente 65% do peso definitivo e perto de 88,5% a 90% da altura adulta. Isso ajuda o aluno a perceber por que essa fase é tão crítica: muita coisa acontece em pouco tempo, e o corpo do animal está

construindo sua base futura.

Na prática do manejo, uma das estratégias usadas para ajudar o potro nessa fase é o fornecimento de alimento complementar em local acessível a ele, mas não à mãe, o chamado creeper ou curralzinho. A Embrapa cita esse tipo de estrutura como alternativa para suplementação dos potros ainda lactentes, recomendando cocho coberto e colocado, de preferência, em locais onde as éguas costumam se agrupar. A mesma referência traz, para aquela realidade de campo, uma média de consumo de cerca de 0,5 kg por mês de idade por dia, lembrando que esse valor depende da produção de leite da égua e da qualidade e da quantidade de pasto disponível. Mais importante do que decorar o número é entender a lógica: o leite continua central, mas em algum momento ele deixa de bastar sozinho.

Outro ponto que merece muita atenção é o nascimento e o período neonatal. Nem sempre o aluno associa isso à nutrição, mas deveria associar. O guia brasileiro sobre equídeos destaca que o reflexo de sucção do neonato costuma surgir entre meia hora e uma hora após o parto, que o potro deve levantar-se até duas horas depois de nascer e que é fundamental confirmar a ingestão de colostro nas primeiras seis horas de vida. Para potros órfãos, o documento recomenda fornecimento de colostro ou substituto em até 24 horas. Esses detalhes são decisivos porque, nessa fase, nutrição e sobrevivência caminham juntas. O potro recém-nascido não precisa apenas “ser alimentado”; ele precisa começar a vida recebendo o alimento certo, na hora certa.

O desmame também precisa ser tratado com calma. O mesmo guia informa que potros não devem ser desmamados antes dos quatro meses de idade e que o desmame deve ser lento e gradual. Essa orientação é importante porque o desmame brusco, além de aumentar o estresse, pode comprometer a ingestão, o comportamento e a adaptação do animal à nova rotina alimentar. Já a Embrapa observa que, quando os potros estão recebendo concentrado até essa fase, é recomendável manter o mesmo concentrado no período do desmame para reduzir o impacto da mudança. Em linguagem bem simples: o desmame não é só separar mãe e filho; é organizar uma transição nutricional e comportamental com o menor desgaste possível.

Também vale destacar que a qualidade do ambiente e da forragem interfere bastante nessa fase. No material da Embrapa sobre o Pantanal, quando a suplementação intensiva nem sempre é viável, recomenda-se que éguas e potros em amamentação e desmame sejam

colocados em áreas de pastagens preferidas pelos equinos, com forrageiras mais palatáveis e de melhor qualidade, justamente para favorecer um bom desenvolvimento corporal. Esse detalhe ensina algo importante: nutrição não depende só do que está no cocho; depende também do que está disponível no pasto, da condição da mãe e da forma como o sistema de criação foi organizado.

No fim das contas, a grande mensagem desta aula é que crescimento e reprodução exigem cuidado, paciência e equilíbrio. A égua precisa entrar bem nutrida no final da gestação e na lactação para sustentar a si mesma e ao potro. O potro, por sua vez, precisa de leite, transição correta para o alimento sólido, formulações bem pensadas e crescimento sem exageros. Quem está começando precisa abandonar duas ideias perigosas: a de que “se o potro está gordo, está ótimo” e a de que “quanto mais rápido crescer, melhor”. Em equinos, o melhor crescimento não é o mais apressado; é o mais equilibrado, o que respeita a fisiologia do animal e constrói uma base saudável para a vida adulta.

Referências bibliográficas

COSTA, G. V. Avaliação do leite de éguas da raça Crioula. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2013.

REZENDE, A. S. C. et al. Efeito de dois diferentes programas nutricionais sobre o desenvolvimento corporal de potros Mangalarga Marchador. Revista Brasileira de Zootecnia, 2000.

RIBEIRO, R. A. et al. Curva de crescimento em altura na cernelha de equinos da raça Brasileiro de Hipismo. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, 2018.

SANTOS, Sandra Aparecida. Recomendações sobre manejo nutricional para eqüinos criados em pastagens nativas no Pantanal. Corumbá: Embrapa Pantanal, 1997.

SCARPELLI, Edson Martins; JULIANO, Raquel Soares; SANTOS, Sandra Aparecida; SODRÉ, Thais. Capítulo 10 – Equídeos. In: MACHADO, Rui (coord.); VIANA, A. A. B.; DE ANGELIS, K.; BRAGA, L. M. G. M. (org.). Guia brasileiro de produção, manutenção ou utilização de animais em atividades de ensino ou pesquisa científica. Brasília, DF: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, 2023.


Aula 2 — Cavalo idoso: quando a dificuldade não é fome, é mastigação

 

Quando falamos do cavalo idoso, uma mudança importante precisa acontecer no nosso olhar. Nem todo animal que emagrece na velhice está comendo pouco porque “perdeu a vontade”. Muitas vezes, ele continua querendo comer, aproxima-se do cocho, demonstra interesse pelo alimento, mas já não consegue mastigar e aproveitar a dieta da mesma

falamos do cavalo idoso, uma mudança importante precisa acontecer no nosso olhar. Nem todo animal que emagrece na velhice está comendo pouco porque “perdeu a vontade”. Muitas vezes, ele continua querendo comer, aproxima-se do cocho, demonstra interesse pelo alimento, mas já não consegue mastigar e aproveitar a dieta da mesma forma que antes. É por isso que, nessa fase da vida, nutrição e dentição caminham muito juntas. Cuidar da alimentação do equino idoso não é apenas aumentar a quantidade de comida; é entender se ele ainda consegue transformar esse alimento em nutrição de verdade.

Os problemas dentários ganham grande importância com o envelhecimento. Em revisão brasileira sobre geriatria equina, os equinos passam a apresentar maior predisposição a distúrbios odontológicos, especialmente doenças periodontais, após os 15 anos, e anormalidades dentárias foram observadas em 95,4% dos cavalos idosos avaliados em um dos estudos citados. Esse dado é muito expressivo porque mostra que alterações na boca não são exceção no cavalo velho; são parte frequente da realidade e justificam cuidado preventivo.

Com o passar dos anos, a dentição também muda em estrutura e eficiência. A mesma revisão descreve que, à medida que o equino envelhece, os dentes erupcionam, reduzem de tamanho e passam por alterações que modificam o contato oclusal. Com o desgaste, a superfície mastigatória pode ficar mais lisa e menos eficiente, o que reduz a capacidade de triturar bem os alimentos. Em linguagem simples, o cavalo idoso pode continuar comendo, mas mastigando pior. E mastigar pior, no caso do equino, significa comprometer toda a etapa seguinte da digestão.

Esse ponto é central porque a eficiência digestiva do cavalo depende muito da mastigação adequada. Em trabalho brasileiro sobre o movimento mastigatório, as alterações oclusais aparecem associadas a dor ou desconforto durante a mastigação, queda de alimento pela boca durante a ingestão, emagrecimento e perda de peso. O mesmo estudo lembra que a incapacidade de triturar corretamente o alimento fibroso piora a digestão de nutrientes e prejudica os processos fermentativos no intestino grosso. Até a presença de fibras longas e grãos inteiros nas fezes é apontada como indício prático de má digestão.

É por isso que o manejo nutricional do cavalo idoso precisa ser mais adaptado e menos automático. A revisão da UFMG mostra que muitos cavalos geriátricos continuam recebendo feno, mas que as disfunções dentárias comuns no

envelhecimento reduzem drasticamente a capacidade de mastigar fibras longas e de baixa qualidade. O mesmo material apresenta exemplos de equinos idosos, com mais de 25 anos e perda de vários dentes, alimentados com dieta adaptada em forma peletizada justamente para facilitar a mastigação. A lição aqui é muito importante: em alguns casos, o problema não está em oferecer mais comida, mas em oferecer a comida de um jeito que o animal consiga realmente mastigar.

Ao mesmo tempo, adaptar a dieta não significa abandonar a lógica do equino como herbívoro. O SENAR reforça que os alimentos volumosos são fundamentais para os cavalos e que o volumoso não deve ser retirado da dieta total dos equinos. Então, no cavalo idoso, o raciocínio mais correto não é “tirar a fibra”, mas ajustar sua qualidade, sua forma física e a estratégia de fornecimento. Em muitos casos, a solução está em trabalhar com alimentos mais macios, mais fáceis de umedecer, peletizados ou oferecidos de maneira que reduzam o esforço mastigatório, sem perder de vista a importância da fibra na dieta.

Outro ponto essencial nesta fase é o monitoramento do corpo do animal. A literatura consultada mostra que, em cavalos idosos, tanto a perda de peso quanto a obesidade aparecem com frequência e representam desafios relevantes do manejo nutricional. Por isso, não basta dizer que o cavalo “está velho mesmo”. É preciso acompanhar escore corporal, observar se houve emagrecimento progressivo, perceber se o animal está demorando mais para comer e monitorar o consumo de água e de alimento. O guia brasileiro de equídeos orienta, inclusive, que na inspeção diária sejam observados consumo de água, consumo de alimentos, fezes, urina e condição corporal, justamente porque esses sinais ajudam a perceber cedo quando algo saiu do equilíbrio.

A rotina preventiva faz muita diferença. Um estudo brasileiro sobre tratamento odontológico preventivo destaca que afecções dentárias dolorosas prejudicam a trituração do alimento, comprometem a digestão e podem predispor ao emagrecimento progressivo. O mesmo trabalho conclui que a odontoplastia periódica é benéfica porque melhora a trituração do alimento, favorece a digestibilidade e a absorção dos nutrientes e ainda ajuda a diminuir o risco de cólicas. Em outras palavras, no cavalo idoso, revisar a boca não é luxo nem detalhe: é parte do manejo nutricional.

No fim das contas, a grande mensagem desta aula é simples e muito humana: o cavalo idoso não precisa apenas de mais

cuidado; ele precisa de um cuidado mais inteligente. Muitas vezes, ele não está recusando a alimentação. Ele está tentando comer com um corpo que já mastiga de outro jeito. Quando o tratador entende isso, deixa de culpar o animal por “escolher comida” e passa a adaptar a dieta com mais sensibilidade e técnica. É assim que o manejo nutricional deixa de ser apenas fornecimento de alimento e se transforma, de fato, em cuidado com a qualidade de vida.

Referências bibliográficas

DINIZ, Loiane Aparecida. Geriatria equina: revisão de literatura. Belo Horizonte: Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais, 2022.

PAIVA NETO, Álvaro de Oliveira. Análise biomecânica do movimento mastigatório antes e após o ajuste da oclusão dentária em equino. Jaboticabal: Universidade Estadual Paulista, 2010.

SANTOS, Jessica Pamela Velasco; SEKIME, Vitor Massaki; MURARO, Lívia Saab; TOMA, Hugo Shisei; SANTOS, Marcelo Diniz; PINHO NETO, Antonio Catunda; CARVALHO, Mariana Bueno; CARVALHO, Armando Mattos. Efeito do tratamento odontológico preventivo sobre o peso corpóreo e a condição corporal de éguas. Medicina Veterinária, Recife, v. 15, n. 4, p. 318-323, 2021.

SCARPELLI, Edson Martins; JULIANO, Raquel Soares; SANTOS, Sandra Aparecida; SODRÉ, Thais. Capítulo 10 – Equídeos. In: MACHADO, Rui (coord.); VIANA, A. A. B.; DE ANGELIS, K.; BRAGA, L. M. G. M. (org.). Guia brasileiro de produção, manutenção ou utilização de animais em atividades de ensino ou pesquisa científica. Brasília, DF: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, 2023.

SERVIÇO NACIONAL DE APRENDIZAGEM RURAL. Equideocultura: manejo e alimentação. Brasília: SENAR, 2018.


Aula 3 — Sinais de alerta e decisões práticas no dia a dia

 

Na rotina com equinos, uma das habilidades mais importantes não é apenas saber o que colocar no cocho, mas perceber quando alguma coisa deixou de funcionar bem. Muitas vezes, o problema nutricional não começa de forma dramática. Ele aparece aos poucos, em detalhes que parecem pequenos: o cavalo bebe menos água, sobra alimento no cocho, as fezes mudam, o animal emagrece sem motivo claro, engorda em excesso, fica mais apático ou começa a demonstrar desconforto. Por isso, a nutrição no dia a dia não deve ser vista como uma tarefa mecânica de fornecer comida, mas como um processo de observação contínua. O próprio guia oficial para equídeos mantidos em instalações de ensino e pesquisa orienta que, na inspeção diária, sejam monitorados consumo de água e alimentos, condição

das habilidades mais importantes não é apenas saber o que colocar no cocho, mas perceber quando alguma coisa deixou de funcionar bem. Muitas vezes, o problema nutricional não começa de forma dramática. Ele aparece aos poucos, em detalhes que parecem pequenos: o cavalo bebe menos água, sobra alimento no cocho, as fezes mudam, o animal emagrece sem motivo claro, engorda em excesso, fica mais apático ou começa a demonstrar desconforto. Por isso, a nutrição no dia a dia não deve ser vista como uma tarefa mecânica de fornecer comida, mas como um processo de observação contínua. O próprio guia oficial para equídeos mantidos em instalações de ensino e pesquisa orienta que, na inspeção diária, sejam monitorados consumo de água e alimentos, condição das fezes e da urina, presença de secreções e escore de condição corporal, além de avaliações periódicas dos parâmetros fisiológicos.

Essa observação diária é valiosa porque o corpo do cavalo costuma “falar” antes de um problema ficar evidente. O escore de condição corporal, por exemplo, é descrito em manual oficial como um indicador importante de bem-estar e deve ser acompanhado para manter o animal em peso adequado. Nesse mesmo material, o intervalo considerado ideal aparece entre 4 e 6 na escala de Henneke; abaixo disso, o animal já pode estar magro demais, e acima disso, passa a haver excesso de gordura. Em linguagem simples, isso significa que não basta achar que o cavalo “está bonito”. É preciso avaliar se ele está realmente equilibrado.

Também é importante entender que mudança de comportamento pode ser sinal nutricional. Um cavalo que passa a demonstrar apatia, fraqueza, letargia ou cansaço excessivo merece atenção, porque esses estados não devem ser naturalizados. O mesmo manual de bem-estar em competições equestres afirma que animais aparentemente apáticos, fracos, letárgicos, macilentos ou excessivamente cansados não devem ser apresentados em provas nem em treinamento. Mesmo fora do ambiente esportivo, esse raciocínio serve muito bem para o manejo diário: quando o cavalo perde vivacidade, algo precisa ser investigado.

Entre os sinais de alerta mais importantes estão as alterações ligadas ao trato digestivo. Revisão brasileira sobre cólica em equinos destaca que, para prevenir esse tipo de problema, é essencial manter a qualidade e a quantidade de água e alimento, além de preservar a rotina de avaliação da dentição, o controle de parasitas e um programa de exercício compatível com o condicionamento do

animal. O mesmo texto reforça que, diante de cólica, a ajuda veterinária deve ser buscada o mais rápido possível e que tratamentos caseiros devem ser evitados. Isso é muito importante para o iniciante, porque o impulso de “esperar melhorar sozinho” ou de improvisar pode custar caro.

Os erros mais comuns do dia a dia quase sempre passam por manejo inadequado, e não apenas por alimento ruim. O material do SENAR alerta que os equinos são muito predispostos a acidentes digestivos e que se deve evitar sobrecarga alimentar, mudança repentina na alimentação, incorporação abrupta de suplementação, fornecimento apenas de concentrados e uso de produtos formulados para outras espécies. Esse trecho é especialmente didático porque mostra que o problema não está só no que se oferece, mas em como se oferece. Muitas complicações começam quando o cavalo recebe “mais” de uma vez, “tudo diferente” de um dia para o outro ou “só ração” no lugar da base forrageira.

Esse cuidado faz ainda mais sentido quando lembramos que a dieta equina precisa ser centrada no volumoso. O manual de boas práticas para alimentação no turfe afirma que o ideal para cavalos é uma dieta totalmente à base de volumoso ou com, no mínimo, 70% desse componente, exceto em situações especiais. O mesmo material destaca que uma alimentação com muito concentrado e pouco volumoso representa risco para a saúde geral do cavalo, incluindo lesões da mucosa gastrointestinal, cólicas e laminite. Em outras palavras, quando o manejo afasta o cavalo da fibra e o aproxima demais do concentrado, o corpo costuma responder mal.

Além do corpo, o comportamento também ajuda muito a identificar quando algo não vai bem. Segundo o manual do MAPA, o acesso contínuo ao volumoso faz o cavalo passar mais tempo mastigando, reduz o tempo ocioso, melhora o bem-estar e ajuda a prevenir comportamentos anormais. Já o guia de equídeos do CONCEA observa que, em sistemas de confinamento total, a presença de feno à vontade nas baias é indicada na prevenção de estereotipias. Isso quer dizer que inquietação excessiva, oralidades repetitivas, vícios e irritação entre as refeições podem estar ligados, entre outras causas, a uma rotina alimentar pobre em fibra ou mal distribuída.

Outro alerta importante aparece nos cascos e na locomoção. O documento do CONCEA orienta que o tratador observe claudicações, sensibilidade dolorosa, temperatura dos cascos, presença de brocas e rachaduras, além de comunicar anormalidades ao médico-veterinário

responsável. O próprio texto destaca que alterações e enfermidades dos cascos podem ser prevenidas por manejo adequado, inclusive nutricional. Esse ponto conversa diretamente com a necessidade de não ignorar sinais como andar encurtado, relutância para se mover, casco quente ou desconforto nas mãos e pés, porque eles podem indicar processos mais sérios.

Nesse contexto, o excesso de gordura corporal também merece atenção. Trabalhos brasileiros e revisões recentes apontam que a obesidade em equinos preocupa por sua relação com pior desempenho, termorregulação deficiente e maior risco de laminite; além disso, revisões sobre laminite associada à síndrome metabólica equina encontraram associação entre obesidade e episódios de laminite em diversos estudos. Por isso, cavalo “redondo” demais, com pescoço engrossado, dificuldade de sentir as costelas e gordura acumulada na base da cauda, não deve ser automaticamente visto como bem nutrido. Às vezes, ele já está sinalizando um desequilíbrio importante.

Na prática, uma boa decisão diária começa com um roteiro mental simples: o cavalo comeu normalmente, bebeu água, evacuou bem, está mastigando sem dificuldade, mantém comportamento habitual, apresenta condição corporal estável e se movimenta com conforto? Se a resposta for “não” para qualquer um desses pontos, o manejo precisa ser revisto. E, quando houver dor, cólica, recusa persistente de alimento, apatia acentuada ou sinais locomotores importantes, a decisão correta não é improvisar: é procurar atendimento veterinário. No manejo nutricional de equinos, agir cedo costuma ser mais eficaz — e mais humano — do que esperar o problema crescer.

Referências bibliográficas

BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Boas práticas para uma boa alimentação. Brasília, DF: MAPA, 2022.

BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Manual de boas práticas para o bem-estar animal em competições equestres. Brasília, DF, 2015.

BRASIL. Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal. Resolução Normativa CONCEA nº 42, de 25 de julho de 2018. Anexo I – Equídeos mantidos em instalações de instituições de ensino ou pesquisa científica. Brasília, DF, 2018.

NARDI, Letícia Tavares. Laminite associada à síndrome metabólica equina: revisão de literatura. Jaboticabal: Universidade Estadual Paulista, 2021.

SERVIÇO NACIONAL DE APRENDIZAGEM RURAL. Equideocultura: manejo e alimentação.

Brasília: SENAR, 2018.

SILVA, Luana Ferreira; MAIA, Hanna Gabriela Oliveira; FERREIRA, Fabiana; OLIVEIRA, Neide Judith Faria de. Cólica em equinos. In: Sistemas de Produção nas Ciências Agrárias 2. Ponta Grossa: Atena, 2021.

GONTIJO, Letícia de Abreu et al. Bem-estar em equinos do Jockey Club do Paraná. Pesquisa Veterinária Brasileira, 2018.

 

Estudo de caso do Módulo 3 — “Quando o problema não era falta de cuidado, e sim falta de leitura do animal”

 

Na pequena propriedade de seu Antônio, três animais concentravam quase toda a rotina do manejo: Aurora, uma égua no fim da gestação; Raio, o potro dela, recém-nascido; e Sereno, um cavalo idoso que havia trabalhado a vida inteira e agora passava mais tempo no piquete. Seu Antônio era cuidadoso, dedicado e realmente gostava dos animais. O problema é que ele fazia o que muita gente faz no campo: repetia manejos “porque sempre foi assim”, sem perceber que gestação, crescimento e velhice exigem decisões diferentes. E foi aí que os erros começaram. A própria literatura brasileira destaca que as exigências nutricionais dos equinos variam conforme a fase fisiológica, e que crescimento, gestação, lactação e envelhecimento pedem ajustes específicos.

Aurora passou quase toda a prenhez recebendo exatamente a mesma dieta de antes, sem qualquer atenção especial ao terço final da gestação. Como ela seguia comendo bem e não parecia abatida, seu Antônio concluiu que estava tudo certo. Esse é um erro muito comum: imaginar que, se a égua parece bem, a dieta já está adequada até o parto. Só que as recomendações da Embrapa mostram que, até o sétimo ou oitavo mês, a égua gestante pode até se aproximar das exigências de manutenção, mas a partir do oitavo mês suas necessidades aumentam pelo crescimento acelerado do feto, e elas seguem elevadas até o pico da lactação. No início da lactação, a referência cita exigências em torno de 13,6% de proteína bruta, 0,54% de cálcio e 0,35% de fósforo, o que ajuda a mostrar que essa fase não combina com descuido nutricional.

Quando Raio nasceu, veio outro erro clássico: a pressa em “deixar a natureza resolver”. Seu Antônio observou o parto de longe, mas não conferiu com atenção se o potro mamou logo, se houve ingestão adequada de colostro nem se o comportamento inicial estava dentro do esperado. Mais tarde, já querendo aliviar a demanda sobre Aurora, cogitou desmamar o potro bem cedo, antes dos quatro meses. Esse tipo de decisão parece prático, mas é arriscado. O guia brasileiro para

equídeos orienta que o reflexo de sucção aparece entre meia e uma hora após o parto, que o potro deve levantar-se até duas horas depois do nascimento, que a ingestão de colostro deve ser confirmada nas seis primeiras horas, e que potros não devem ser desmamados antes dos quatro meses, devendo o desmame ser lento e gradual.

Além disso, quando Aurora entrou em lactação, seu Antônio passou a achar que “mais ração” resolveria tudo. Só que ele não ajustou a dieta com critério, não revisou mineralização específica para equinos e ainda utilizou um sal mineral da fazenda que também era oferecido aos bovinos. Esse é outro erro muito comum em propriedades mistas: tratar suplemento mineral de equino como se fosse igual ao de outras espécies. O material do SENAR alerta que o sal mineral para cavalos deve ser específico para equinos e que o produto destinado a bovinos pode conter elementos tóxicos para eles. O mesmo material também lembra que os equinos são muito predispostos a acidentes digestivos e que se deve evitar mudança repentina na alimentação, incorporação abrupta de suplementos e fornecimento apenas de concentrados, já que eles continuam precisando de volumoso.

Enquanto isso, Sereno, o cavalo idoso, começava a emagrecer. Como ele ainda se aproximava do cocho com interesse, seu Antônio achou que fosse apenas “coisa da idade”. Mas havia sinais claros passando despercebidos: Sereno demorava demais para terminar o alimento, deixava bolos de fibra parcialmente mastigados no chão e mostrava perda gradual de condição corporal. A revisão da UFMG sobre geriatria equina chama atenção para o fato de que distúrbios odontológicos são muito frequentes em animais idosos, com anormalidades odontológicas observadas em 95,4% dos cavalos idosos citados na revisão. O mesmo trabalho destaca que essas disfunções reduzem drasticamente a capacidade mastigatória de fibras, o que explica por que muitos idosos não emagrecem por falta de apetite, mas por dificuldade real de mastigar e aproveitar a dieta.

O que unia os três problemas da propriedade era uma falha de base: seu Antônio estava alimentando, mas não estava monitorando. Ele via o cocho esvaziar e assumia que isso bastava. Só que o acompanhamento diário precisa ir além disso. O guia brasileiro para equídeos recomenda monitorar regularmente consumo de água, consumo de alimentos, fezes, urina e escore de condição corporal, além de lembrar que o escore corporal é uma medida consistente da condição nutricional do animal. O

mesmo documento também adverte que a falta de alimentação fibrosa ao longo do dia pode favorecer obesidade, laminite e cólica. Em outras palavras, não basta oferecer alimento; é preciso observar a resposta do corpo.

A correção do manejo começou quando um veterinário reorganizou a rotina da fazenda. Aurora passou a receber ajuste nutricional compatível com o terço final da gestação e a lactação, com atenção real à qualidade da base forrageira e à suplementação correta. Raio foi acompanhado de perto no período neonatal e mantido em transição alimentar sem pressa, respeitando o tempo certo de desmame. Sereno passou por avaliação dentária, teve a dieta adaptada para facilitar mastigação e voltou a ser observado não só pelo quanto comia, mas pelo quanto conseguia de fato aproveitar. Nada disso foi “milagroso”; foi apenas manejo coerente com a fase de cada animal. Essa é a principal lição do módulo 3: o mesmo capricho não serve igual para todos, porque o cavalo gestante, o potro e o idoso têm necessidades diferentes.

Esse caso mostra, de forma bem clara, alguns erros comuns. O primeiro é tratar a égua prenhe como se fosse uma adulta em manutenção até o parto. O segundo é não conferir colostro, primeiros sinais do neonato e tempo adequado de desmame. O terceiro é usar suplementação sem critério, inclusive produtos de outras espécies. O quarto é achar que cavalo idoso emagrece “porque está velho”, sem investigar dentição e capacidade mastigatória. E o quinto, talvez o mais importante, é não observar água, fezes, apetite, condição corporal e comportamento no dia a dia.

Para evitar que situações como essa se repitam, o caminho é mais simples do que parece: ajustar a dieta à fase da vida, manter a forragem como base, usar suplementação específica para equinos, fazer transições de forma gradual, revisar a dentição dos idosos e observar o animal todos os dias. Quando o tratador aprende a ler o corpo e o comportamento do cavalo, ele deixa de agir só por costume e passa a manejar com critério. E, em nutrição equina, essa mudança de olhar costuma evitar muito sofrimento antes mesmo que ele apareça.

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