MANEJO
NUTRICIONAL DE EQUINOS
MÓDULO 2 — Como montar e ajustar a dieta do cavalo adulto
Aula 1 — Forragens, pasto e feno: escolhendo a base da alimentação
Quando alguém começa a cuidar da
alimentação de um cavalo, é muito comum pensar primeiro na ração. Isso acontece
porque o concentrado costuma parecer a parte mais “forte” da dieta, a mais
visível, a que passa a sensação de reforço nutricional. Mas, no manejo correto,
a pergunta mais importante vem antes: qual é a forragem que sustenta esse
animal? É aí que começa uma alimentação bem planejada. Para equinos, a base da
dieta não deveria nascer do saco de ração, e sim do volumoso, especialmente do
pasto e do feno. É essa base que dá sustentação ao funcionamento digestivo, ao
comportamento alimentar e ao equilíbrio diário do cavalo.
Isso faz sentido quando lembramos quem é o
cavalo do ponto de vista biológico. Ele é um herbívoro adaptado ao consumo de
fibra, com comportamento alimentar ligado ao pastejo e à mastigação prolongada.
Em materiais da Embrapa, vemos que o cavalo ajusta seu comportamento de pastejo
conforme a disponibilidade da fração preferida da forrageira e sua distribuição
no ambiente. O mesmo documento mostra que cavalos em pastejo podem passar de 10
a 12 horas por dia se alimentando, em turnos alternados com descanso e locomoção.
Ou seja, a alimentação natural do equino não combina com refeições rápidas e
espaçadas demais; ela combina com acesso frequente a forragem e com tempo para
mastigar.
É por isso que o pasto costuma ser visto
como o ambiente mais adequado para a alimentação dos cavalos. A literatura
técnica em português descreve as pastagens como o ambiente reconhecidamente
apropriado para essa espécie, ainda que o sistema pastoril seja complexo e
dependa da oferta, da estrutura e da qualidade da forragem. Em termos simples,
isso significa que não basta “ter capim”. É preciso que esse capim esteja
disponível de forma suficiente, em condição adequada e de maneira compatível
com o tipo de cavalo e com a rotina da propriedade. Um piquete com baixa oferta
ou com forragem de qualidade ruim não cumpre bem o papel de base alimentar,
mesmo que à primeira vista pareça verde e abundante.
Quando falamos em volumoso, estamos falando de alimentos com alto teor de fibra e menor densidade energética em comparação com os concentrados. O manual do Ministério da Agricultura resume isso de forma muito clara: os volumosos incluem pastagem, capim cortado, feno, silagem e pré-secado; têm mais
falamos em volumoso, estamos
falando de alimentos com alto teor de fibra e menor densidade energética em
comparação com os concentrados. O manual do Ministério da Agricultura resume
isso de forma muito clara: os volumosos incluem pastagem, capim cortado, feno,
silagem e pré-secado; têm mais de 18% de fibra bruta e podem ser formados por
gramíneas ou leguminosas. As gramíneas, em geral, oferecem alto teor de fibra e
boa resistência ao pisoteio; as leguminosas costumam ter melhor teor de
proteína e maior palatabilidade, embora resistam menos ao uso intenso. Essa
diferença é importante porque mostra que “forragem” não é uma coisa só.
Escolher a base da dieta é escolher, com critério, qual tipo de fibra faz mais
sentido para aquele manejo.
Na prática, isso quer dizer que o melhor
volumoso não é necessariamente o mais bonito, o mais famoso ou o mais barato. O
melhor volumoso é o que atende bem às necessidades do animal dentro da
realidade da propriedade. Um cavalo em manutenção, vivendo a pasto e com boa
condição corporal, pode se beneficiar muito de uma base bem construída em
forragem. Já um animal estabulado, com acesso limitado a piquete, dependerá
mais de feno ou de capim fornecido no cocho. O erro comum do iniciante é
imaginar que, se o animal não está no pasto o dia todo, basta compensar isso
com mais ração. Não é assim. Quando falta pasto, quem normalmente deve assumir
esse espaço na dieta é o feno de boa qualidade, e não o excesso de concentrado.
O próprio material do MAPA destaca que a dieta equina deve ser pensada sempre a
partir do volumoso, ficando o concentrado para ajustar necessidades específicas
daquele indivíduo, naquela fase e naquela intensidade de trabalho.
O feno, nesse contexto, é uma ferramenta valiosa. Ele entra principalmente quando a pastagem não está disponível em quantidade ou qualidade suficientes, quando há estacionalidade de produção forrageira ou quando o cavalo passa boa parte do tempo estabulado. Mas aqui existe um cuidado importante: feno não é sinônimo automático de boa alimentação. A revisão brasileira sobre volumosos conservados para equinos alerta que fenos, silagens e pré-secados, embora muito úteis quando não há pastagem, também aparecem entre os principais pontos envolvidos em problemas de saúde quando sua escolha e seu manejo são inadequados. O mesmo trabalho chama atenção para um detalhe muito didático: a aparência externa do feno, sozinha, nunca deve ser o único critério para decidir sua qualidade. Em outras
palavras,
feno bonito nem sempre é feno bom.
Essa observação é importante porque muitos
iniciantes escolhem o feno apenas pelo visual ou pela praticidade. Só que, para
o cavalo, qualidade não é só aparência. O feno precisa ser coerente com o
manejo nutricional, com o estado do animal e com a segurança da dieta. A
própria literatura brasileira reforça que a manutenção de equinos em pastejo ou
sob fornecimento de feno e outros alimentos volumosos é essencial para a
atividade e a saúde do trato digestório. Isso mostra que o ponto não é escolher
entre pasto ou feno como se um anulasse o outro. O ponto é garantir que o
cavalo tenha uma fonte fibrosa de boa qualidade como eixo da alimentação, seja
ela a pastagem, o feno ou a combinação dos dois.
Outro aspecto que o aluno precisa
compreender é que a qualidade da forragem interfere não apenas na nutrição, mas
também no comportamento. O manual do Ministério da Agricultura destaca que o
acesso contínuo ao volumoso faz o cavalo passar mais tempo mastigando, reduz o
ócio, melhora o bem-estar, ajuda a prevenir comportamentos anormais e ainda
favorece um desgaste mais adequado dos dentes. Isso é muito relevante no manejo
diário, porque às vezes o problema não aparece primeiro como emagrecimento ou
ganho de peso, mas como inquietação, frustração, estereotipias ou desconforto
geral. Quando a base da dieta é pobre em volumoso, o cavalo não perde só fibra;
ele perde parte da possibilidade de expressar um comportamento alimentar mais
próximo do natural.
É por isso que a escolha da base alimentar exige mais observação do que pressa. Antes de definir qual ração comprar, o cuidador precisa perguntar: esse cavalo tem pasto suficiente? O pasto disponível realmente sustenta a dieta ou é apenas um espaço de permanência? Quando não há pasto adequado, o feno oferecido é compatível com a necessidade do animal? A rotina garante tempo de mastigação e acesso regular a fibra? Essas perguntas mudam completamente a qualidade do manejo. Elas tiram o foco do produto e colocam o foco no animal, que é exatamente onde ele deve estar.
Em termos práticos, a grande lição desta aula é simples: a base da alimentação de um cavalo iniciante bem manejado quase sempre começa no volumoso. O pasto é, quando bem manejado, uma forma muito natural e eficiente de sustentar essa base. O feno é um recurso fundamental quando a pastagem não basta ou não está disponível. O concentrado, por sua vez, entra depois, como ajuste, e não como alicerce. Quando o
aluno entende essa ordem, ele deixa de pensar apenas em “encher o cocho” e passa a pensar em construir uma dieta coerente, estável e segura. E essa mudança de olhar, por si só, já é um enorme avanço no manejo nutricional de equinos.
Referências bibliográficas
BRANDI, Roberta Ariboni; FURTADO, Carlos
Eduardo. Importância nutricional e metabólica da fibra na dieta de equinos.
Revista Brasileira de Zootecnia, v. 38, supl. especial, p. 246-258, 2009.
BRASIL. Ministério da Agricultura,
Pecuária e Abastecimento. Manual de boas práticas e bem-estar animal no turfe:
boas práticas para uma boa alimentação. Brasília, DF, 2022.
DOMINGUES, José Luiz. Uso de volumosos
conservados na alimentação de equinos. Revista Brasileira de Zootecnia, v. 38,
supl. especial, p. 259-269, 2009.
SANTOS, Sandra Aparecida. Recomendações
sobre manejo nutricional para equinos criados em pastagens nativas no Pantanal.
Corumbá: Embrapa Pantanal, 1997.
VICTOR, Rodolfo Pedro; ASSEF, Luiz Carlos;
PAULINO, Valdinei Tadeu. Forrageiras para equinos. Nova Odessa: Instituto de
Zootecnia, 2007.
Aula 2 — Concentrados, minerais e
suplementos: quando entram e quando atrapalham
Depois de entender que a base da
alimentação do cavalo deve estar no volumoso, chega uma dúvida muito comum
entre iniciantes: afinal, para que servem o concentrado, o sal mineral e os
suplementos? Essa pergunta é importante porque, na prática, muitos erros de
manejo começam exatamente aqui. Há quem ofereça concentrado como se ele fosse a
parte principal da dieta, há quem compre vários suplementos ao mesmo tempo por
medo de “estar faltando alguma coisa”, e há também quem acredite que, se o
cavalo recebe pasto ou feno, então não precisa de mais nenhum cuidado com
minerais. O problema é que a nutrição equina não funciona na base do exagero
nem da adivinhação. Ela funciona melhor quando cada componente entra no momento
certo e com uma finalidade clara.
O concentrado, de forma geral, é o alimento de maior densidade energética e menor teor de fibra dentro da dieta. O manual de boas práticas do Ministério da Agricultura explica que ele inclui grãos e rações comerciais e que, em regra, apresenta menos de 18% de fibra bruta. Esse mesmo material diferencia os concentrados energéticos, como aveia e milho, dos concentrados proteicos, como soja, algodão e amendoim. Em linguagem simples, isso significa que o concentrado é uma ferramenta de ajuste nutricional: ele ajuda quando o volumoso sozinho não cobre a exigência do animal,
especialmente em fases de crescimento, lactação, maior atividade física
ou outras situações de demanda aumentada. Mas ele não deve ocupar, por padrão,
o lugar da fibra.
É justamente aí que o iniciante costuma
tropeçar. Como a ração é prática, armazenável e dá a impressão de ser “mais
forte”, muitas vezes ela passa a ser usada em excesso. O trabalho da Unesp
sobre manejo nutricional de equinos chama atenção para esse ponto ao observar
que o uso de alimentos concentrados é favorecido pela logística e pelo preço de
aquisição, mas que a ausência de um programa nutricional consistente, que
considere a forragem como item essencial, está associada a problemas digestivos
e a desperdícios no manejo. Em outras palavras, o concentrado é útil, mas perde
o sentido quando é usado para tapar buracos que deveriam ser resolvidos
primeiro com a base forrageira e com uma rotina alimentar melhor organizada.
Por isso, uma boa pergunta não é “qual
concentrado é o melhor?”, mas “esse cavalo realmente precisa de concentrado, e
em que quantidade?”. O material do SENAR orienta que a necessidade do animal em
relação ao concentrado varia conforme estágio fisiológico, tipo de trabalho,
intensidade do exercício, idade e estado de saúde. O mesmo material recomenda
dividir a quantidade diária em várias refeições, sem ultrapassar 2 kg por
refeição, e alternar o fornecimento de concentrado com o de volumosos. Essa
orientação ensina uma lição valiosa: mesmo quando o concentrado é necessário,
ele continua sendo complemento, e não base. Seu uso deve respeitar a fisiologia
do equino, que lida melhor com pequenas porções e rotina previsível do que com
grandes cargas de alimento de uma só vez.
Quando passamos para os minerais, o
raciocínio continua o mesmo: necessidade real antes de modismo. O SENAR explica
que os minerais são elementos inorgânicos fundamentais para funções essenciais
do organismo e que sua exigência varia com idade, sexo, ciclo reprodutivo e
estado fisiológico. O material também diferencia suplemento mineral de sal
mineral: o suplemento mineral é uma complementação da dieta com diferentes
minerais, podendo inclusive conter vitaminas e aminoácidos; já o sal mineral
equino tem, obrigatoriamente, o papel de repor as necessidades de cloreto de
sódio do animal. Essa distinção é muito importante porque, no dia a dia, esses
produtos acabam sendo tratados como se fossem a mesma coisa, quando na verdade
cumprem funções diferentes dentro do manejo nutricional.
Outro cuidado
indispensável é nunca usar,
por improviso, produtos de outras espécies. Materiais brasileiros de manejo
equino alertam que o sal mineral precisa ser específico para cavalos. O SENAR
afirma que o sal mineral fornecido a bovinos pode conter elementos tóxicos aos
equinos, e André G. Cintra reforça que muitos sais minerais para ruminantes
possuem aditivos ou promotores potencialmente tóxicos para cavalos, além de
apresentarem composição inadequada para as necessidades da espécie. Para quem
está começando, a orientação prática é simples: mineral para equino é para
equino. Economia mal feita nessa etapa pode gerar problema sério.
Também é importante entender que
suplementação mineral não deve ser feita “no escuro”. O texto de Cintra destaca
que o uso intenso de cereais tende a desequilibrar a relação entre minerais,
especialmente cálcio e fósforo, e que a oferta mineral precisa buscar
equilíbrio, não apenas a reposição de um elemento isolado. O mesmo material
observa que o excesso de um único mineral pode induzir deficiência de outro,
fenômeno conhecido como carência induzida. Isso é muito didático para o aluno
iniciante, porque mostra que mais suplemento não significa mais saúde. Às
vezes, suplementar sem critério desorganiza aquilo que parecia estar sendo
melhorado. Em nutrição equina, equilíbrio quase sempre vale mais do que
excesso.
É nesse ponto que entram os suplementos de
forma mais ampla. Aminoácidos, vitaminas, microminerais, produtos voltados para
casco, músculo, articulação, desempenho ou brilho de pelagem aparecem com
frequência no mercado e podem parecer soluções rápidas. Mas a lógica correta é
outra: suplemento não corrige volumoso ruim, água inadequada, excesso de
concentrado, divisão errada das refeições nem rotina alimentar desorganizada.
Os materiais consultados convergem em um ponto central: a dieta deve, antes de
tudo, atender às necessidades de energia, proteína, água, minerais e vitaminas
do animal, considerando sua categoria, seu trabalho e sua condição corporal. Só
depois disso faz sentido discutir ajustes mais finos. Quando o suplemento entra
antes da base, o manejo fica caro, confuso e muitas vezes ineficiente.
Na prática, o aluno precisa aprender a pensar em camadas. A primeira camada é a forragem. A segunda é a rotina de trato. A terceira é a avaliação do animal: condição corporal, nível de trabalho, fase da vida e resposta à dieta. Só então entram as decisões sobre concentrado e suplementação. Um cavalo adulto em manutenção,
com bom pasto,
feno adequado e escore corporal equilibrado, pode precisar de muito menos
concentrado do que o iniciante imagina. Já uma égua em lactação, um potro em
crescimento ou um cavalo atleta podem exigir uma dieta mais densa e mais
cuidadosamente balanceada. O ponto não é demonizar nem idolatrar o concentrado
ou o suplemento; é usá-los com lógica.
No fim, a grande mensagem desta aula é bastante humana e bastante prática: nem tudo o que parece cuidado é realmente cuidado. Às vezes, dar mais produtos ao cavalo traz a sensação de zelo, mas o que ele precisava era de uma dieta mais simples, mais coerente e melhor ajustada. Concentrados, minerais e suplementos têm lugar no manejo nutricional de equinos, sim. O problema começa quando eles deixam de ser ferramentas e passam a ser atalhos. O bom manejo não é o que acumula produtos; é o que entende a necessidade do animal e escolhe, com critério, o que realmente faz sentido para ele.
Referências bibliográficas
BELINELO, Letícia Cristina. Descrição do
manejo nutricional de equinos praticantes de esportes e caracterização de
propriedade. Botucatu: Universidade Estadual Paulista, 2023.
BRASIL. Ministério da Agricultura,
Pecuária e Abastecimento. Manual de boas práticas e bem-estar animal no turfe:
boas práticas para uma boa alimentação. Brasília, DF, 2022.
CINTRA, André G. O uso de sal mineral na
rotina diária dos cavalos. 2023.
SERVIÇO NACIONAL DE APRENDIZAGEM RURAL.
Equideocultura: manejo e alimentação. Brasília: SENAR, 2018.
Aula 3 — Montando uma dieta básica para o
cavalo adulto
Montar a dieta de um cavalo adulto parece,
à primeira vista, uma tarefa simples: basta oferecer capim, um pouco de ração e
água. Mas, na prática, não funciona tão no improviso. Uma dieta bem feita
começa com observação, cálculo e bom senso. Antes de decidir “o que dar”, é
preciso entender quem é aquele animal, qual é o seu peso aproximado, em
que condição corporal ele está, se vive a pasto ou estabulado, se trabalha
muito ou pouco e como vem respondendo ao manejo atual. Os manuais técnicos
brasileiros insistem justamente nisso: a alimentação do equino precisa ser
organizada considerando categoria, exigência, rotina e características
individuais do animal.
O primeiro passo é lembrar uma regra que já apareceu nas aulas anteriores, mas que precisa estar muito clara aqui: a base da dieta do cavalo adulto deve ser o volumoso. O manual de boas práticas do Ministério da Agricultura recomenda, de forma geral, dieta
totalmente à base
de volumoso ou com no mínimo 70% de volumoso, salvo situações especiais.
Já o material do SENAR reforça que a dieta dos equinos deve ser organizada com
dois grandes grupos de alimentos, volumosos e concentrados, sendo o volumoso
fundamental por causa do teor de fibra e do papel que ele exerce na
digestibilidade e no trânsito alimentar. Em linguagem simples, isso quer dizer
que a dieta começa no pasto ou no feno; o concentrado entra depois, se
realmente houver necessidade.
Depois de garantir essa lógica, entra a
avaliação do corpo do animal. Não dá para montar uma dieta apenas “olhando de
longe” e supondo que o cavalo está bem. O escore de condição corporal é uma
ferramenta muito útil porque permite estimar a gordura corporal de forma
prática. Trabalhos brasileiros descrevem o ECC como um método simples, que não
exige equipamentos e ajuda a avaliar as reservas energéticas do animal. Isso é
valioso porque o mesmo peso corporal pode esconder situações bem diferentes: um
cavalo pode estar pesado, mas com excesso de gordura; outro pode parecer
“normal”, mas já estar perdendo condição. Por isso, dieta boa não é a que
parece generosa, e sim a que combina com a realidade corporal do cavalo.
Quando não há balança, o manejo não
precisa parar. O acompanhamento do peso pode ser feito com fita de pesagem e
com registros periódicos. Materiais brasileiros destacam a importância dos
controles de peso e de escore corporal como parte das boas práticas de
alimentação, e trabalhos de campo com equinos mostram que a fita pode ser
utilizada para estimar a quantidade de alimento exigida, ainda que não
substitua a pesagem direta em balança. O mais importante, nesse caso, é
acompanhar tendência: o cavalo está mantendo, ganhando ou perdendo peso? Essa
leitura, feita ao longo do tempo, vale mais do que um palpite isolado.
Com essas informações em mãos, a montagem da dieta fica mais racional. Se o cavalo é adulto, saudável, está em manutenção, apresenta bom escore corporal e tem acesso adequado a pasto ou feno de qualidade, muitas vezes a dieta pode ser bastante simples, com o volumoso sustentando a base e o concentrado entrando apenas como complemento, ou até nem sendo necessário em grande quantidade. Já se o animal trabalha mais, está em fase reprodutiva ou não consegue manter condição corporal apenas com a forragem, o concentrado passa a ter função de ajuste energético e nutricional. O erro do iniciante é montar a dieta partindo da ração; o correto é montar
essas informações em mãos, a montagem
da dieta fica mais racional. Se o cavalo é adulto, saudável, está em
manutenção, apresenta bom escore corporal e tem acesso adequado a pasto ou feno
de qualidade, muitas vezes a dieta pode ser bastante simples, com o volumoso
sustentando a base e o concentrado entrando apenas como complemento, ou até nem
sendo necessário em grande quantidade. Já se o animal trabalha mais, está em
fase reprodutiva ou não consegue manter condição corporal apenas com a
forragem, o concentrado passa a ter função de ajuste energético e nutricional.
O erro do iniciante é montar a dieta partindo da ração; o correto é montar a
partir da necessidade do animal.
Também é importante entender que dois
cavalos com o mesmo peso podem precisar de dietas diferentes. Um animal com
escore corporal elevado, pescoço carregado e acúmulo de gordura não deve
receber o mesmo manejo de um cavalo magro ou em maior exigência energética.
Estudos brasileiros mostram que os sistemas atuais de criação frequentemente
associam dietas ricas em carboidratos ao sobrepeso e ao acúmulo de gordura, e
que a obesidade em equinos tem relação com alterações metabólicas e com maior
risco de laminite. Isso ensina uma lição muito prática: montar dieta não é só
“fazer o cavalo comer”; é evitar tanto a carência quanto o excesso.
Por isso, quando o cavalo está acima do
peso, a decisão mais sensata não é simplesmente cortar comida de forma brusca.
O manejo precisa reorganizar a base da dieta, controlar excessos de concentrado
e observar a qualidade e a quantidade do volumoso, sempre sem romper a lógica
fisiológica do animal. O Ministério da Agricultura destaca a importância dos
registros, do controle de peso, do escore corporal, da frequência alimentar e
da disponibilidade de volumoso. Na prática, isso significa que o emagrecimento
seguro passa por planejamento e monitoramento, não por medidas radicais.
Da mesma forma, quando o cavalo está abaixo da condição ideal, não se deve resolver tudo despejando grandes quantidades de ração no cocho. O material do SENAR reforça que o concentrado, quando utilizado, deve ser fracionado em mais de uma refeição e ajustado à necessidade do animal, sem exageros por fornecimento. Isso é importante porque o sistema digestório do cavalo não responde bem a improvisos e sobrecargas. Em um animal com pouca condição corporal, a dieta precisa ser fortalecida com lógica: melhorar a base forrageira, organizar a rotina, avaliar a necessidade real de
concentrado,
quando utilizado, deve ser fracionado em mais de uma refeição e ajustado à
necessidade do animal, sem exageros por fornecimento. Isso é importante porque
o sistema digestório do cavalo não responde bem a improvisos e sobrecargas. Em
um animal com pouca condição corporal, a dieta precisa ser fortalecida com
lógica: melhorar a base forrageira, organizar a rotina, avaliar a necessidade
real de concentrado e acompanhar a resposta corporal com regularidade.
No fundo, montar uma dieta básica para o cavalo adulto é aprender a tomar decisões com menos pressa e menos achismo. Primeiro se observa o animal. Depois se avalia peso, escore corporal, rotina e exigência. Em seguida se garante uma base consistente de volumoso. Só então se decide se o concentrado é necessário, em que quantidade e com que objetivo. Essa sequência parece simples, e realmente é. O que faz diferença é respeitá-la. Quando isso acontece, a dieta deixa de ser uma soma aleatória de alimentos e passa a ser um manejo coerente, seguro e ajustado ao cavalo real que está diante de nós.
Referências bibliográficas
BRASIL. Ministério da Agricultura,
Pecuária e Abastecimento. Manual de boas práticas e bem-estar animal no
turfe: boas práticas para uma boa alimentação. Brasília, DF, 2022.
MAGALHÃES, João Filipe et al. Estudo da
correlação de medidas radiográficas e do índice de massa corporal em equinos
obesos e não obesos. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e
Zootecnia, 2014.
OLIVEIRA GOBESSO, Alexandre Augusto de et
al. Avaliação de escore corporal em equinos por meio da ultrassonografia.
Brazilian Journal of Veterinary Research and Animal Science, São Paulo, 2014.
RODRIGUES, Paulo G. et al. Gordura
corporal e eficiência reprodutiva em éguas receptoras de embrião. Ciência e
Agrotecnologia, Lavras, 2011.
SERVIÇO NACIONAL DE APRENDIZAGEM RURAL. Equideocultura:
manejo e alimentação. Brasília: SENAR, 2018.
AMARAL, Lívia A. et al. Relação entre
adiposidade, perfil energético, proteínas de fase aguda e estresse oxidativo em
equinos. Pesquisa Veterinária Brasileira, 2017.
PAZ, C. F. R. et al. Relação entre
obesidade, insulina plasmática e laminite em equinos. Arquivo Brasileiro de
Medicina Veterinária e Zootecnia, 2013.
Estudo de caso do Módulo 2 — “Lua parecia
bem tratada, mas a dieta estava toda invertida”
Marina sempre ouviu que cavalo bonito é cavalo com cocho cheio. Quando comprou Lua, uma égua adulta, mansa e muito gulosa, decidiu fazer “o melhor”: comprou uma ração
comercial cara,
passou a oferecer um bom volume de concentrado duas vezes ao dia, pendurou um
saleiro comum que já usava para o gado e deixou o feno em segundo plano, como
se fosse apenas um complemento. No pasto, Lua ficava em um piquete pequeno, já
bastante raspado, mas Marina acreditava que isso não era problema, porque “a
ração compensava”. Só que, no manejo nutricional equino, a lógica correta é
justamente o contrário: a dieta deve ser baseada em volumoso, idealmente toda à
base dele ou com pelo menos 70% da dieta vindo dessa fração, ficando
concentrados e suplementos como ajustes para necessidades específicas.
Nas primeiras semanas, Marina ficou
satisfeita. Lua corria para o cocho, lambia tudo, pedia mais e parecia
“agradecida”. Esse tipo de resposta engana muito iniciante, porque apetite não
é a mesma coisa que necessidade nutricional real. O cavalo pode demonstrar
grande interesse por concentrado e, ainda assim, estar recebendo uma dieta
desbalanceada. Além disso, a necessidade de concentrado varia conforme
categoria, estágio fisiológico, tipo de trabalho, intensidade de exercício,
idade e estado de saúde; não existe um padrão que sirva igualmente para todos
os animais adultos.
Com o passar do tempo, alguns sinais
começaram a aparecer. Lua passou a mastigar rápido demais nas refeições, ficou
mais tempo ociosa entre um trato e outro e começou a demonstrar ansiedade perto
dos horários de alimentação. Seu pescoço foi ficando mais carregado, a base da
cauda mais arredondada, e as costelas ficaram cada vez mais difíceis de
perceber na palpação. Marina interpretou isso como melhora de condição física.
Na verdade, já era um indício de que a dieta estava fornecendo energia demais e
fibra de menos. A obesidade em equinos é motivo de preocupação justamente por
se associar a pior desempenho, dificuldade de termorregulação e maior risco de
laminite.
O problema se agravou quando Marina
resolveu “fortalecer ainda mais” a dieta com um suplemento mineral qualquer da
fazenda, o mesmo usado nos bovinos. Esse é um erro muito comum: imaginar que
mineral é tudo igual. Não é. O SENAR diferencia suplemento mineral de sal
mineral equino e alerta que, para cavalos, deve-se usar produto específico da
espécie, porque sais minerais formulados para bovinos podem conter elementos
tóxicos aos equinos. Também lembra que as exigências minerais variam conforme
perdas, sobretudo pela sudorese, e conforme a categoria do animal.
Alguns dias depois, Lua apresentou desconforto,
reduziu a disposição e começou a alternar momentos de irritação
com apatia. O veterinário foi chamado. Ao avaliar a rotina, percebeu uma
sequência clássica de erros de manejo: base forrageira insuficiente, pasto sem
oferta adequada, excesso de confiança no concentrado, pouca individualização da
dieta, mineralização inadequada e ausência de monitoramento real da condição
corporal. O caso mostrava exatamente o que o módulo 2 ensina: não adianta
investir em ração e suplemento se a base da alimentação está mal construída. O
próprio material técnico do MAPA ressalta que volumosos incluem pastagem, capim
cortado, feno, silagem e pré-secado, enquanto concentrados têm alto teor
energético e baixo teor de fibra; quando se inverte a hierarquia entre esses
grupos, o manejo deixa de respeitar a fisiologia do equino.
A correção começou pelo começo, como
deveria ter sido desde o início. Primeiro, o veterinário reorganizou a dieta
com foco na forragem. O piquete foi revisto, o fornecimento de feno passou a
ter prioridade e o concentrado foi reduzido e reavaliado conforme a real
exigência de Lua. Depois, o plano alimentar foi ajustado ao perfil dela: uma
égua adulta, fora de fase reprodutiva, sem trabalho intenso e com tendência a
ganhar peso. O concentrado, quando mantido, passou a ser apenas complemento, em
quantidade compatível com a necessidade do animal, e não mais o centro da
dieta.
Outro ajuste importante foi a forma de
oferecer o concentrado. Em vez de grandes quantidades em poucas refeições, a
orientação técnica é fracionar a oferta ao longo do dia e não ultrapassar 2 kg
por refeição. O SENAR também recomenda alternar o fornecimento de concentrado
com o de volumosos e evitar que o concentrado fique no cocho por longos
períodos. Esse detalhe parece pequeno, mas faz muita diferença na segurança do
manejo.
A mineralização também foi corrigida. Saiu
o produto dos bovinos; entrou sal mineral específico para equinos. Marina
aprendeu que suplemento não é enfeite de cocheira nem atalho para consertar uma
dieta mal montada. Primeiro se organiza o volumoso, depois a rotina, depois se
observa o animal, e só então se define o que realmente precisa ser
suplementado. Essa é uma das lições mais importantes do módulo 2, porque muitos
erros de iniciantes nascem da tentativa de “melhorar demais” uma dieta que
ainda nem foi bem estruturada.
Com algumas semanas de manejo mais coerente, Lua mudou. Ficou mais tranquila entre as refeições, passou a depender menos do momento do
cocho, recuperou uma rotina mais compatível com o
comportamento alimentar natural do cavalo e começou a perder o excesso de
gordura de forma gradual. Marina também mudou. Deixou de perguntar “qual
suplemento é melhor?” e passou a perguntar “a base da dieta está certa?”. Essa
troca de pergunta transformou o manejo dela.
A grande lição desse caso é simples, mas poderosa: no cavalo adulto, erro comum não é apenas dar comida errada; é montar a dieta na ordem errada. Primeiro vem a forragem. Depois, a avaliação do peso, do escore corporal, da rotina e do trabalho. Só então entram concentrado, sal mineral e suplementos. Quando essa ordem é ignorada, o que parece zelo vira excesso; quando ela é respeitada, o manejo fica mais seguro, mais econômico e muito mais inteligente.
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