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Logística Farmacêutica

 LOGÍSTICA FARMACÊUTICA

 

Introdução à Logística Farmacêutica 

Conceitos Gerais de Logística na Saúde 

 

A logística na área da saúde constitui um dos pilares fundamentais para garantir o acesso eficaz, seguro e oportuno aos produtos e serviços que sustentam a assistência médica. Esse campo envolve o planejamento, execução e controle de todos os processos relacionados ao fluxo de materiais, medicamentos, insumos e informações, desde o ponto de origem até o consumidor final – seja este um hospital, farmácia, unidade de saúde ou paciente.

Definição de Logística e Cadeia de Suprimentos

A logística pode ser conceituada como o processo de gestão estratégica do fluxo e armazenamento de bens, serviços e informações, desde o ponto de origem até o ponto de consumo, com o objetivo de atender aos requisitos dos clientes com qualidade e eficiência (BALLOU, 2006). No contexto da saúde, a logística não se limita à simples entrega de produtos, mas envolve requisitos regulatórios, sanitários e éticos, que tornam o processo mais complexo e sensível.

Complementarmente, o conceito de cadeia de suprimentos (supply chain) refere-se à integração de todas as atividades, organizações e recursos envolvidos na produção e entrega de um produto ou serviço, englobando fornecedores, fabricantes, distribuidores, prestadores de serviço logístico e clientes finais. A cadeia de suprimentos na saúde envolve desde a fabricação de medicamentos e equipamentos até sua disponibilização segura aos usuários do sistema de saúde.

Segundo Chopra e Meindl (2011), a cadeia de suprimentos eficaz deve garantir que o produto certo esteja disponível no local certo, no momento certo, nas condições ideais e com o menor custo possível, sem comprometer a qualidade e a segurança.

Importância da Logística no Setor Farmacêutico

No setor farmacêutico, a logística desempenha papel central na garantia da eficácia terapêutica, segurança dos pacientes e no cumprimento das exigências sanitárias. A má gestão logística pode resultar em atrasos no fornecimento de medicamentos, desperdício de insumos, deterioração de produtos sensíveis à temperatura, rupturas de estoque e até riscos à saúde pública.

Entre os principais desafios enfrentados estão:

  • Manuseio e armazenamento de produtos termolábeis, como vacinas, hemoderivados e certos antibióticos, que exigem cadeia do frio rigorosa.
  • Controle rigoroso de prazos de validade e
  • rastreabilidade, em conformidade com normas da ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).
  • Prevenção de desabastecimentos e superestoques, que podem comprometer o equilíbrio financeiro de instituições e operadoras de saúde.
  • Logística reversa de medicamentos vencidos ou não utilizados, que requer processos ambientalmente adequados e seguros.

A eficiência logística no setor farmacêutico não apenas reduz custos e perdas operacionais, mas também assegura a continuidade e qualidade da assistência ao paciente, especialmente em situações críticas como pandemias, surtos endêmicos ou desastres naturais.

Especificidades da Área da Saúde

A logística na saúde apresenta características próprias que a diferenciam de outros setores da economia. Uma das principais especificidades é o fato de lidar com produtos de alto valor agregado, alta criticidade e que afetam diretamente a vida humana. Isso demanda um sistema logístico extremamente confiável, rastreável e padronizado, com profissionais treinados e processos validados.

Algumas das particularidades mais relevantes incluem:

  • Alta exigência regulatória e documental, com necessidade de cumprimento de normativas da ANVISA, Ministério da Saúde, OMS, entre outros.
  • Diversidade e complexidade dos produtos, que incluem desde medicamentos e materiais esterilizados até equipamentos médicos de grande porte.
  • Variabilidade da demanda, com picos imprevisíveis, como em emergências ou sazonalidades (ex.: aumento da procura por antigripais no inverno).
  • Necessidade de condições específicas de transporte e armazenamento, como controle de temperatura, umidade e exposição à luz.
  • Integração entre áreas clínicas e administrativas, para garantir que os insumos estejam disponíveis conforme protocolos terapêuticos.

Além disso, há uma crescente digitalização da logística em saúde, com o uso de tecnologias como códigos de barras bidimensionais, RFID (identificação por radiofrequência), sistemas WMS (Warehouse Management System) e ERP (Enterprise Resource Planning), que permitem maior controle, automação e visibilidade de toda a cadeia.

Considerações Finais

A logística na saúde é uma função estratégica que ultrapassa os limites operacionais e se insere no núcleo das políticas de qualidade e segurança do cuidado ao paciente. Compreender seus fundamentos e especificidades é essencial para todos os profissionais envolvidos na

cadeia de suprimentos da saúde, especialmente no setor farmacêutico, onde a correta gestão logística pode significar a diferença entre a vida e a morte.

É imperativo que instituições de saúde invistam em capacitação profissional, processos padronizados, sistemas de informação integrados e infraestrutura adequada para enfrentar os desafios contemporâneos da logística. A adoção das boas práticas logísticas é não apenas uma exigência legal, mas um compromisso ético com a saúde da população.

Referências Bibliográficas

  • BALLOU, R. H. Gerenciamento da Cadeia de Suprimentos: planejamento, organização e logística empresarial. 5. ed. Porto Alegre: Bookman, 2006.
  • CHOPRA, S.; MEINDL, P. Gestão da Cadeia de Suprimentos: estratégia, planejamento e operação. 4. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2011.
  • ANVISA. Resolução RDC nº 430, de 8 de outubro de 2020. Dispõe sobre as Boas Práticas de Distribuição, Armazenagem e de Transporte de Medicamentos.
  • FARIA, R. N.; SILVA, A. L. L. Logística Hospitalar: Gestão da Cadeia de Suprimentos na Área da Saúde. São Paulo: Atlas, 2013.
  • ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Good Distribution Practices (GDP) for pharmaceutical products. WHO Technical Report Series. Geneva, 2010.


Fundamentos da Logística Farmacêutica

 

A logística farmacêutica é um ramo especializado da logística aplicada ao setor da saúde, com foco específico na gestão eficiente dos medicamentos, insumos e correlatos ao longo de toda a cadeia de suprimentos. Esse campo envolve a coordenação de atividades que asseguram a disponibilidade de produtos com qualidade e segurança, desde a produção até o uso final pelo paciente, integrando aspectos regulatórios, sanitários, operacionais e tecnológicos.

O Papel da Logística no Ciclo do Medicamento

O ciclo do medicamento é composto por diversas etapas encadeadas que vão desde a pesquisa e desenvolvimento, produção, armazenamento, distribuição, dispensação e, finalmente, uso racional pelo paciente. Em cada uma dessas etapas, a logística desempenha funções essenciais que garantem que o medicamento chegue ao seu destino com eficácia terapêutica preservada.

Na etapa de produção e embalagem, a logística atua na gestão de matérias-primas, insumos farmacêuticos ativos (IFAs) e materiais de embalagem, garantindo abastecimento regular à linha de produção. Durante o armazenamento e estocagem, a logística deve respeitar rigorosos padrões de conservação, especialmente para

medicamentos termolábeis, com controle de temperatura, umidade e rastreabilidade por lote.

Já na fase de distribuição, a logística assegura o transporte em condições controladas e monitoradas, desde os centros de distribuição até farmácias, hospitais ou clínicas.

O processo deve garantir integridade física e sanitária do produto, respeitando prazos de validade e assegurando que os medicamentos estejam disponíveis no local certo, no momento certo.

Por fim, na dispensação ao paciente, a logística impacta diretamente na experiência de cuidado, pois falhas no suprimento podem comprometer tratamentos, gerar descontinuidade terapêutica ou agravar quadros clínicos. Dessa forma, o papel da logística vai muito além de uma função operacional: ela é parte estratégica da assistência à saúde.

Diferença entre Logística Hospitalar, Industrial e Comercial

Embora todas as modalidades de logística farmacêutica tenham como objetivo comum garantir o fluxo adequado de medicamentos, cada uma possui particularidades de acordo com o ambiente em que está inserida.

Logística Industrial Farmacêutica:
Refere-se à gestão logística dentro das indústrias farmacêuticas, englobando a entrada de matérias-primas, movimentação interna, controle de qualidade, produção, embalagem e expedição. Nesse contexto, a logística deve garantir o abastecimento da linha de produção com insumos qualificados, rastreabilidade de lotes, cumprimento de boas práticas de fabricação (BPF) e integração com sistemas regulatórios.

Logística Comercial Farmacêutica:
Relaciona-se às distribuidoras e redes de farmácias, onde a ênfase está na capilaridade da distribuição, gestão de estoques com alta rotatividade e atendimento ao consumidor final. Nessa modalidade, o foco é garantir a disponibilidade de medicamentos nas prateleiras, responder rapidamente às variações de demanda e manter a integridade dos produtos durante o transporte e armazenamento.

Logística Hospitalar:
É caracterizada pelo abastecimento interno de hospitais, clínicas e unidades de pronto-atendimento. A complexidade dessa modalidade reside na necessidade de entrega em tempo real, organização por setores assistenciais, controle de consumo por paciente e reposição contínua. A logística hospitalar exige integração com prontuários eletrônicos, monitoramento rigoroso de validades e controle de uso de medicamentos controlados ou de alto custo.

Cada uma dessas abordagens enfrenta desafios próprios, mas todas compartilham a necessidade de precisão,

rastreabilidade e conformidade com normas sanitárias, especialmente aquelas impostas pela ANVISA, como a RDC nº 430/2020.

Relação com a Gestão de Estoques

A gestão de estoques farmacêuticos está intrinsecamente ligada à logística, pois envolve o equilíbrio entre a disponibilidade de produtos e a minimização de perdas, desperdícios e custos. O estoque é o elo entre a oferta e a demanda e, na área da saúde, sua má gestão pode acarretar consequências graves, como desabastecimento, vencimento de medicamentos ou armazenamento inadequado.

Entre os principais princípios da gestão de estoques aplicados à logística farmacêutica estão:

  • Classificação ABC: permite identificar os produtos mais importantes em termos de valor e volume de consumo, otimizando o controle e as compras.
  • Métodos PEPS e UEPS: determinam a ordem de saída dos medicamentos do estoque. O método PEPS (Primeiro a Entrar, Primeiro a Sair) é o mais comum na área da saúde, pois preserva a validade dos produtos.
  • Curva XYZ ou de criticidade: prioriza os medicamentos de maior impacto clínico ou regulatório, independentemente do custo.
  • Inventário rotativo: garante a atualização constante das quantidades em estoque e previne divergências entre o físico e o sistêmico.

A correta gestão de estoques permite ao sistema de saúde assegurar o abastecimento contínuo, evitar o vencimento de medicamentos, otimizar os recursos financeiros e reduzir riscos à segurança do paciente. Além disso, a automação e o uso de sistemas de gestão como WMS (Warehouse Management System) e ERP (Enterprise Resource Planning) contribuem significativamente para o controle logístico eficiente.

Considerações Finais

A logística farmacêutica é uma engrenagem fundamental para o funcionamento seguro, eficiente e sustentável dos sistemas de saúde, sejam eles públicos ou privados. Seu papel no ciclo do medicamento, sua adaptação às diversas realidades (industrial, comercial ou hospitalar) e sua interface direta com a gestão de estoques revelam a complexidade e a criticidade dessa área.

Investir em processos logísticos bem estruturados, com base em normas regulatórias, uso de tecnologia e capacitação contínua de profissionais, é uma medida estratégica para qualquer instituição de saúde que vise excelência operacional e segurança no cuidado ao paciente.

Referências Bibliográficas

  • BALLOU, R. H. Gerenciamento da Cadeia de Suprimentos: logística empresarial.
  • 5. ed. Porto Alegre: Bookman, 2006.
  • CHOPRA, S.; MEINDL, P. Administração da Cadeia de Suprimentos: estratégia, planejamento e operação. 4. ed. São Paulo: Pearson, 2011.
  • ANVISA. Resolução RDC nº 430, de 8 de outubro de 2020. Dispõe sobre as Boas Práticas de Distribuição, Armazenagem e Transporte de Medicamentos.
  • FIORAVANTI, R. M. Logística Farmacêutica: desafios e oportunidades. São Paulo: Manole, 2020.
  • FARIA, R. N.; SILVA, A. L. L. Logística Hospitalar: gestão de suprimentos na saúde. São Paulo: Atlas, 2013.


Legislação e Normas Reguladoras na Logística Farmacêutica

 

A logística farmacêutica, por lidar com produtos que impactam diretamente a saúde e a segurança dos pacientes, é uma das áreas mais reguladas do setor produtivo. A atuação dos profissionais e instituições nesse segmento está sujeita a uma série de legislações específicas e normativas técnicas que visam assegurar a integridade, eficácia e rastreabilidade dos medicamentos ao longo de toda a cadeia logística.

No Brasil, a principal entidade responsável por regulamentar as atividades relacionadas a medicamentos é a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), que publica e atualiza resoluções (RDCs) com força normativa, aplicáveis em todo o território nacional. Entre essas normas, destacam-se aquelas que tratam diretamente das Boas Práticas de Armazenamento e Distribuição (BPAD).

1. RDCs da ANVISA Relacionadas à Logística

A ANVISA estabelece uma série de resoluções que regulam tanto o armazenamento quanto a distribuição de medicamentos e insumos farmacêuticos, impondo padrões técnicos obrigatórios para garantir a qualidade dos produtos durante todo o seu ciclo de vida. Entre as mais relevantes para a logística farmacêutica, destacam-se:

RDC nº 430/2020
Publicada em outubro de 2020, essa resolução substituiu a antiga RDC nº 304/2019 e estabeleceu as diretrizes mais atualizadas sobre as Boas Práticas de Distribuição, Armazenagem e Transporte de Medicamentos.

Esta RDC aplica-se a todos os estabelecimentos que realizam atividades de armazenagem e transporte de medicamentos sujeitos à vigilância sanitária.

Principais pontos da RDC 430/2020:

  • Licenciamento sanitário obrigatório para empresas que armazenam ou transportam medicamentos.
  • Qualificação de fornecedores e prestadores de serviço logístico, com responsabilidade solidária entre as partes.
  • Monitoramento ambiental dos armazéns, com controle de
  • temperatura, umidade e limpeza.
  • Rastreabilidade e documentação dos lotes, com manutenção de registros acessíveis à fiscalização.
  • Validação dos processos de transporte, incluindo rotas, embalagens e monitoramento das condições de acondicionamento.

RDC nº 275/2019
Estabelece os requisitos para Boas Práticas de Fabricação (BPF) de medicamentos, incluindo diretrizes sobre o manuseio e estocagem dos insumos dentro das instalações produtivas, influenciando diretamente a logística interna das indústrias farmacêuticas.

RDC nº 17/2010
Essa RDC trata também das BPFs, com foco específico na qualificação das áreas de armazenagem, exigindo segregação por tipo de produto, identificação clara, controle de acesso e registros de movimentação.

Lei nº 6.360/1976 e Decreto nº 8.077/2013
Complementam o arcabouço legal ao regulamentar o registro, a fabricação e a comercialização de medicamentos, incluindo exigências para a conservação e acondicionamento adequados durante a distribuição.

As RDCs são atualizadas periodicamente, o que impõe às empresas do setor logístico farmacêutico a necessidade constante de monitoramento regulatório e adequação de processos internos.

2. Boas Práticas de Armazenamento e Distribuição (BPAD)

As Boas Práticas de Armazenamento e Distribuição constituem um conjunto de procedimentos operacionais padronizados que visam preservar a qualidade, integridade e eficácia dos medicamentos desde o momento em que saem do fabricante até a chegada ao ponto de dispensação.

De acordo com a RDC nº 430/2020, os principais eixos das BPAD incluem:

a) Armazenamento

O armazenamento de medicamentos deve garantir:

  • Condições adequadas de temperatura e umidade, com registro contínuo e sistemas de alarme.
  • Organização por lotes e validade, obedecendo ao critério PEPS (Primeiro que Entra, Primeiro que Sai).
  • Segregação de produtos não conformes, vencidos ou em quarentena, evitando qualquer possibilidade de contaminação cruzada.
  • Controle de pragas e higienização periódica do armazém.

Além disso, o armazém deve possuir infraestrutura física compatível com o volume e a natureza dos produtos armazenados, bem como contar com equipe capacitada em boas práticas e em normas de vigilância sanitária.

b) Distribuição e Transporte

As BPAD determinam que a distribuição e o transporte devem:

  • Manter a integridade e segurança do medicamento durante todo o trajeto, inclusive em condições de trânsito
  • adversas.
  • Utilizar veículos adequados e validados, com controle térmico quando necessário.
  • Garantir a rastreabilidade dos produtos transportados, com documentação que permita identificar o lote, a origem, o destino e as condições de transporte.
  • Evitar atrasos ou desvios de rota, que possam comprometer a estabilidade do produto.

O transporte de produtos termolábeis, como vacinas, insulinas e hemoderivados, exige cadeia do frio validada, com uso de caixas térmicas, gelos recicláveis, sensores de temperatura e registros eletrônicos de acompanhamento.

c) Qualificação e Validação

As empresas devem documentar todas as etapas dos processos logísticos, incluindo:

  • Mapeamento térmico dos armazéns e veículos.
  • Plano de Qualificação de Fornecedores, com auditorias periódicas.
  • Treinamentos regulares da equipe em Boas Práticas.
  • Procedimentos de emergência e gestão de risco, como panes de refrigeração, acidentes ou roubos.

Considerações Finais

A conformidade com a legislação e com as normas de boas práticas é indispensável para garantir a segurança dos medicamentos e a saúde da população. O descumprimento dessas normas pode acarretar sanções administrativas, responsabilizações legais e danos irreparáveis à imagem das instituições, além de representar riscos concretos à vida dos pacientes.

A logística farmacêutica, portanto, não é apenas uma atividade operacional, mas um processo técnico e regulado, que exige profissionais capacitados, tecnologias adequadas e uma cultura organizacional comprometida com a qualidade e a conformidade sanitária.

As Boas Práticas de Armazenamento e Distribuição são a base para a construção de sistemas logísticos seguros, auditáveis e eficientes, alinhados com os princípios da vigilância sanitária moderna e da gestão de riscos em saúde.

Referências Bibliográficas

  • ANVISA. Resolução RDC nº 430, de 8 de outubro de 2020. Dispõe sobre as Boas Práticas de Distribuição, Armazenagem e de Transporte de Medicamentos.
  • ANVISA. Resolução RDC nº 275, de 2019. Estabelece as Boas Práticas de Fabricação para Medicamentos.
  • ANVISA. Resolução RDC nº 17, de 2010. Dispõe sobre as Boas Práticas de Fabricação de Medicamentos.
  • BRASIL. Lei nº 6.360, de 23 de setembro de 1976. Dispõe sobre a vigilância sanitária a que ficam sujeitos os medicamentos.
  • BRASIL. Decreto nº 8.077, de 14 de agosto de 2013. Regulamenta dispositivos
  • da Lei nº 6.360/76.
  • FARIA, R. N.; SILVA, A. L. L. Logística Hospitalar e Cadeia de Suprimentos da Saúde. São Paulo: Atlas, 2013.
  • FIORAVANTI, R. M. Boas Práticas Logísticas Farmacêuticas. São Paulo: Manole, 2021.


Papel da Vigilância Sanitária na Saúde Pública e na Logística Farmacêutica

 

A vigilância sanitária é um dos pilares fundamentais do sistema de saúde pública brasileiro. Sua função principal é proteger e promover a saúde da população, por meio do controle e da fiscalização de produtos, serviços e ambientes que, direta ou indiretamente, possam oferecer riscos à saúde. Dentro desse escopo, sua atuação é essencial em diversos setores, com destaque para o controle da produção, armazenamento, transporte, comercialização e uso de medicamentos e insumos farmacêuticos. A atuação da vigilância sanitária é, portanto, estratégica na cadeia logística farmacêutica e no sistema de saúde como um todo.

1. Conceito e Abrangência da Vigilância Sanitária

Segundo a Lei nº 8.080/1990, que estrutura o Sistema Único de Saúde (SUS), a vigilância sanitária é definida como um conjunto de ações capazes de eliminar, diminuir ou prevenir riscos à saúde, bem como de intervir nos problemas sanitários decorrentes do meio ambiente, da produção e da circulação de bens e da prestação de serviços de interesse da saúde.

Sua atuação abrange uma ampla gama de atividades:

  • Controle de medicamentos, alimentos, cosméticos, saneantes, produtos médicos e correlatos;
  • Fiscalização de estabelecimentos de saúde, laboratórios, farmácias e indústrias;
  • Regulação de ambientes de trabalho e lazer;
  • Licenciamento e inspeção de empresas e profissionais que atuam em áreas sob vigilância sanitária.

No Brasil, a vigilância sanitária é exercida em três esferas: federal (por meio da ANVISA), estadual e municipal. Essa articulação visa garantir a efetividade das ações em todo o território nacional, respeitando as especificidades regionais e locais.

2. Vigilância Sanitária e a Logística Farmacêutica

No contexto da logística farmacêutica, a vigilância sanitária desempenha um papel regulador, fiscalizador e normatizador. Seu foco está na garantia da qualidade, eficácia e segurança dos medicamentos, desde sua produção até o consumo final. Isso inclui:

  • Autorização de funcionamento de empresas que atuam na distribuição, armazenagem, transporte e comercialização de medicamentos;
  • Inspeções sanitárias periódicas em
  • distribuidoras, operadores logísticos e farmácias;
  • Fiscalização do cumprimento das Boas Práticas de Armazenamento, Distribuição e Transporte, conforme normativas específicas como a RDC nº 430/2020;
  • Avaliação de riscos sanitários em situações de recall, desvio de qualidade ou interdição de lotes;
  • Controle de medicamentos sujeitos a controle especial, como psicotrópicos e entorpecentes, com exigência de sistemas de escrituração eletrônica e rastreabilidade.

Essa atuação visa prevenir problemas como falsificação de medicamentos, transporte inadequado, desvios de qualidade e comercialização irregular de produtos não autorizados. Assim, a vigilância sanitária garante que toda a cadeia logística opere em conformidade com padrões técnicos e sanitários, contribuindo para a proteção da saúde da população.

3. Instrumentos de Atuação

A vigilância sanitária conta com diversos instrumentos legais e operacionais para realizar seu trabalho, dentre os quais destacam-se:

  • Normas e resoluções técnicas (RDCs) publicadas pela ANVISA, que regulam atividades específicas, como a RDC nº 430/2020 para logística farmacêutica;
  • Sistema Nacional de Vigilância Sanitária (SNVS), rede coordenada pela ANVISA que integra os órgãos estaduais e municipais;
  • Licenciamento e fiscalização sanitária, obrigatórios para funcionamento de empresas que atuam na área da saúde;
  • Termos de ajustamento de conduta, interdições, multas e apreensões, em caso de descumprimento das normas sanitárias;
  • Educação sanitária e capacitação de profissionais, por meio da produção de manuais, guias e eventos educativos.

Outro ponto relevante é a integração com sistemas de rastreabilidade e farmacovigilância, como o SNCM (Sistema Nacional de Controle de Medicamentos), que visa garantir o controle total sobre os medicamentos comercializados no país, desde a indústria até o consumidor final.

4. Importância para a Saúde Pública

A vigilância sanitária é essencial para garantir o direito constitucional à saúde. Seu papel vai além da fiscalização e punição; ela atua de forma preventiva, educativa e reguladora. A proteção da população contra riscos sanitários decorrentes de medicamentos vencidos, contaminados ou armazenados em condições inadequadas é uma das suas missões centrais.

Em contextos de crise sanitária, como a pandemia de COVID-19, a vigilância sanitária mostrou-se ainda mais estratégica, ao participar do

controle da distribuição de vacinas, regulação de produtos emergenciais e acompanhamento da cadeia de suprimentos em tempo real.

Além disso, a atuação da vigilância sanitária favorece a equidade e a justiça social, ao exigir que todos os estabelecimentos, públicos e privados, cumpram as mesmas regras, contribuindo para a universalidade e integralidade do cuidado em saúde.

5. Desafios e Perspectivas

Apesar dos avanços significativos, a vigilância sanitária brasileira enfrenta desafios importantes, como:

  • Carência de recursos humanos e financeiros, especialmente em municípios de pequeno porte;
  • Necessidade de integração de sistemas de informação, que garantam maior rastreabilidade e transparência;
  • Avanços tecnológicos constantes, que exigem atualização permanente da legislação e das práticas de fiscalização;
  • Descentralização e variações nos critérios de fiscalização, que podem gerar desigualdade na aplicação das normas.

Para enfrentar esses desafios, é necessário fortalecer o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária, investir em capacitação técnica, promover a harmonização das normas com padrões internacionais e ampliar a participação social no controle sanitário.

Considerações Finais

A vigilância sanitária representa uma instância crítica para assegurar a qualidade dos medicamentos e a proteção da saúde da população. No setor logístico farmacêutico, sua atuação garante que os produtos cheguem aos pacientes em perfeitas condições de uso, cumprindo todos os requisitos legais e sanitários.

Trata-se de uma função que exige comprometimento ético, competência técnica e vigilância constante, sendo indispensável para o bom funcionamento do sistema de saúde. A vigilância sanitária não apenas regula o mercado, mas também salva vidas, previne doenças e fortalece a confiança da sociedade nos serviços e produtos de saúde

Referências Bibliográficas

  • BRASIL. Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990. Dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes e dá outras providências.
  • ANVISA. Resolução RDC nº 430, de 8 de outubro de 2020. Dispõe sobre as Boas Práticas de Distribuição, Armazenagem e de Transporte de Medicamentos.
  • ANVISA. Manual de Boas Práticas para o Transporte de Medicamentos. Brasília: ANVISA, 2021.
  • FARIA, R. N.; SILVA, A. L. L. Logística Hospitalar e Gestão da Cadeia de
  • Suprimentos em Saúde. São Paulo: Atlas, 2013.
  • FIORAVANTI, R. M. Boas Práticas Logísticas Farmacêuticas. São Paulo: Manole, 2021.
  • ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DE SAÚDE (OPAS). Vigilância Sanitária: Conceitos e Diretrizes. Brasília: OPAS, 2008.

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