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Introdução à Patologia Clínica

INTRODUÇÃO À PATOLOGIA CLÍNICA

 

Principais Exames Laboratoriais 

Hematologia Básica 

 

Introdução

A hematologia é o ramo da patologia clínica que estuda os elementos figurados do sangue, incluindo eritrócitos, leucócitos e plaquetas. O principal exame desse setor é o hemograma completo, uma ferramenta fundamental na prática médica por fornecer informações valiosas sobre o estado de saúde do paciente, auxiliando no diagnóstico, no monitoramento de doenças e na avaliação da resposta terapêutica. O conhecimento adequado dos parâmetros hematológicos e sua interpretação são essenciais para a conduta clínica segura e eficaz.

O Hemograma Completo

O hemograma completo é um exame laboratorial que analisa quantitativa e qualitativamente os três principais componentes celulares do sangue: série vermelha (eritrócitos), série branca (leucócitos) e série plaquetária (trombócitos).

Série Vermelha

A série vermelha avalia os eritrócitos e seus índices relacionados:

  • Hemoglobina (Hb): Proteína responsável pelo transporte de oxigênio. Seus níveis refletem diretamente a capacidade de oxigenação do organismo.
  • Hematócrito (Ht): Percentual do volume de sangue ocupado por hemácias.
  • Contagem de eritrócitos (RBC): Número total de hemácias por microlitro de sangue.
  • Índices hematimétricos:
    • VCM (volume corpuscular médio): indica o tamanho médio das hemácias.
    • HCM (hemoglobina corpuscular média): mostra a quantidade média de Hb por hemácia.
    • CHCM (concentração de Hb corpuscular média): avalia a concentração média de Hb nas hemácias.

Esses parâmetros são fundamentais na classificação das anemias em normocíticas, microcíticas ou macrocíticas; e em hipocrômicas ou normocrômicas.

Série Branca

Avalia a quantidade e as características dos leucócitos:

  • Leucograma: contagem total de leucócitos e sua distribuição percentual (e, em alguns casos, absoluta) em neutrófilos, linfócitos, monócitos, eosinófilos e basófilos.
  • O aumento (leucocitose) ou redução (leucopenia) dessas células pode indicar processos infecciosos, inflamatórios, alérgicos, imunológicos ou neoplásicos.

Série Plaquetária

Inclui a contagem de plaquetas e, ocasionalmente, parâmetros como o volume plaquetário médio (VPM). As plaquetas desempenham papel crucial na hemostasia primária, e alterações em sua contagem podem indicar risco de sangramentos ou tromboses.

Interpretação Clínica

dos Parâmetros Hematológicos

A interpretação de um hemograma exige conhecimento clínico e deve sempre considerar o contexto do paciente, incluindo idade, sexo, condições clínicas, histórico e uso de medicamentos.

Anemias

  • Anemia ferropriva: caracterizada por VCM e HCM baixos (microcitose e hipocromia), com frequência associada à diminuição do CHCM. Causada geralmente por sangramentos crônicos ou deficiência de ferro.
  • Anemia megaloblástica: apresenta VCM elevado (macrocitose) e pode estar relacionada à deficiência de vitamina B12 ou ácido fólico.
  • Anemia de doença crônica: geralmente normocítica e normocrômica, com baixa reticulocitose.

Leucócitos

  • Leucocitose neutrofílica: frequentemente associada a infecções bacterianas, inflamações agudas e uso de corticosteroides.
  • Linfocitose: comum em infecções virais como mononucleose ou hepatites.
  • Leucopenia com neutropenia: pode indicar infecção viral grave, aplasia medular ou uso de quimioterápicos.
  • Desvio à esquerda: presença de formas jovens de neutrófilos no sangue, como bastonetes ou metamielócitos, geralmente indica infecção aguda.

Plaquetas

  • Trombocitose: pode ser reacional (inflamações, pós-cirurgia) ou clonal (distúrbios mieloproliferativos).
  • Trombocitopenia: observada em púrpura trombocitopênica imune (PTI), infecções virais ou uso de drogas que afetam a medula óssea.

Casos Clínicos Ilustrativos (Descritivos)

Caso 1: Anemia Ferropriva

Paciente do sexo feminino, 32 anos, com queixa de cansaço, palidez e queda de cabelo. Hemograma revela Hb = 9,2 g/dL, Ht = 29%, VCM = 72 fL, HCM = 22 pg, CHCM = 29 g/dL, com contagem de plaquetas elevada. O padrão microcítico e hipocrômico, aliado à trombocitose, é característico de anemia por deficiência de ferro.

Caso 2: Infecção Bacteriana Aguda

Homem, 45 anos, febre alta, dor abdominal e leucograma com leucocitose de 18.000/mm³, neutrofilia com desvio à esquerda. O quadro laboratorial, associado ao contexto clínico, é sugestivo de apendicite aguda.

Caso 3: Leucemia Linfocítica Crônica (LLC)

Idoso de 70 anos, assintomático, com linfocitose persistente (40.000/mm³), sem sinais de infecção. O exame microscópico revela linfócitos atípicos. A suspeita é de LLC, uma neoplasia hematológica indolente. Confirmação requer mielograma e imunofenotipagem.

Caso 4: Púrpura Trombocitopênica Imune

Criança, 6 anos, com petéquias e hematomas espontâneos após infecção viral

recente. Hemograma mostra plaquetas = 20.000/mm³, sem alterações em Hb ou leucócitos. O diagnóstico provável é PTI, uma condição autoimune transitória.

Considerações Finais

O hemograma completo é um dos exames mais solicitados na medicina, pela sua ampla aplicabilidade clínica. A correta interpretação dos seus parâmetros exige não apenas domínio técnico, mas também capacidade de os correlacionar com o quadro clínico do paciente. A utilização de casos clínicos ilustrativos permite compreender a importância do exame na prática diária e reforça a necessidade de uma formação sólida em hematologia básica para todos os profissionais da saúde.

Referências Bibliográficas

  • HOFFBRAND, A. V.; MOSS, P. A. H. Fundamentos de Hematologia. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2019.
  • RODAK, B. F.; FROOM, P. A. Hematologia Clínica. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016.
  • WHO. Haemoglobin concentrations for the diagnosis of anaemia and assessment of severity. World Health Organization, 2011. Disponível em: https://www.who.int/.
  • SBPC/ML. Manual de Medicina Laboratorial. Sociedade Brasileira de Patologia Clínica / Medicina Laboratorial, 2021.
  • KUMAR, V. et al. Robbins Patologia Básica. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2018.


Bioquímica Clínica: Parâmetros, Interpretação e Valores de Referência

 

Introdução

A bioquímica clínica é um dos pilares da patologia clínica e da medicina laboratorial. Ela envolve a análise de substâncias químicas presentes no sangue e em outros fluidos corporais, permitindo a avaliação de funções metabólicas e orgânicas. Entre os exames mais comumente solicitados estão a dosagem de glicose (glicemia), lipídios (colesterol e triglicerídeos) e enzimas hepáticas, fundamentais para o diagnóstico e o monitoramento de doenças metabólicas, cardiovasculares e hepáticas.

Este texto apresenta os principais parâmetros da bioquímica clínica, incluindo suas finalidades, valores de referência e interpretação clínica.

Glicemia

A dosagem de glicose no sangue é utilizada para detectar distúrbios do metabolismo dos carboidratos, principalmente o diabetes mellitus.

Glicemia de Jejum

A glicemia de jejum é o método mais utilizado para triagem e diagnóstico do diabetes. Segundo a American Diabetes Association (ADA), os valores de referência são:

  • Normal: < 100 mg/dL
  • Pré-diabetes: 100–125 mg/dL
  • Diabetes: ≥ 126 mg/dL (confirmado em duas ocasiões)

Glicemia Pós-Prandial e Curva Glicêmica

Utilizadas para detectar

alterações na tolerância à glicose. A glicemia duas horas após sobrecarga com 75 g de glicose (TOTG) tem como referência:

  • Normal: < 140 mg/dL
  • Intolerância à glicose: 140–199 mg/dL
  • Diabetes: ≥ 200 mg/dL

Hemoglobina Glicada (HbA1c)

Indicador do controle glicêmico médio nos últimos 2–3 meses.

  • Normal: < 5,7%
  • Pré-diabetes: 5,7–6,4%
  • Diabetes: ≥ 6,5%

A glicemia elevada pode ocorrer em diabetes mellitus, estresse agudo, pancreatite e uso de medicamentos como corticosteroides. Já a hipoglicemia pode resultar de insulinoma, insuficiência adrenal ou uso inadequado de insulina.

Perfil Lipídico: Colesterol e Triglicerídeos

Colesterol Total e Frações

O colesterol é um lipídio essencial, mas seu excesso está associado ao risco cardiovascular. O perfil lipídico inclui:

  • Colesterol total: valor de referência < 200 mg/dL
  • LDL (lipoproteína de baixa densidade):
    • Ótimo: < 100 mg/dL
    • Limítrofe: 130–159 mg/dL
    • Alto risco: ≥ 160 mg/dL
  • HDL (lipoproteína de alta densidade):
    • Desejável: ≥ 40 mg/dL (homens), ≥ 50 mg/dL (mulheres)

O LDL é considerado o principal fator aterogênico, enquanto o HDL exerce papel protetor. Estratégias terapêuticas visam reduzir o LDL e aumentar o HDL.

Triglicerídeos

Triglicerídeos são lipídios relacionados ao metabolismo energético. Seus valores de referência são:

  • Normal: < 150 mg/dL
  • Limítrofe: 150–199 mg/dL
  • Alto: 200–499 mg/dL
  • Muito alto: ≥ 500 mg/dL

A hipertrigliceridemia pode estar associada à obesidade, diabetes, alcoolismo, dieta rica em carboidratos simples e dislipidemias genéticas. Níveis muito elevados (> 1000 mg/dL) aumentam o risco de pancreatite aguda.

Enzimas Hepáticas

A dosagem de enzimas hepáticas permite avaliar o grau de dano hepatocelular e colestase. As principais enzimas analisadas incluem:

ALT (Alanina Aminotransferase)

Predominantemente hepática, é mais específica para lesão hepatocelular.

  • Valor de referência: até 40 U/L

AST (Aspartato Aminotransferase)

Presente também em coração e músculos. Sua elevação pode ocorrer em hepatopatias e doenças musculares.

  • Valor de referência: até 40 U/L

GGT (Gama-Glutamil Transferase)

Marcador de colestase e indutor de enzimas hepáticas por álcool ou drogas.

  • Valor de referência: até 50 U/L

FA (Fosfatase Alcalina)

Elevada em obstruções biliares e também em situações de aumento da atividade osteoblástica (infância, fraturas, tumores ósseos).

  • Valor de referência: 40–130 U/L

O padrão de elevação enzimática ajuda na

diferenciação de causas hepáticas. Por exemplo:

  • Hepatite viral: ALT > AST
  • Hepatite alcoólica: AST > ALT (razão > 2:1)
  • Colestase: FA e GGT elevadas mais que transaminases

Interpretação Clínica e Valores de Referência

A interpretação dos exames bioquímicos requer uma abordagem integrativa, considerando fatores como:

  • Idade, sexo, hábitos alimentares e medicamentos em uso
  • Presença de sintomas clínicos
  • Histórico familiar de doenças metabólicas ou hepáticas

Por exemplo:

  • Um paciente com glicemia de jejum de 110 mg/dL, HbA1c de 6% e triglicerídeos de 180 mg/dL pode ser classificado como portador de síndrome metabólica, exigindo intervenção precoce.
  • Outro caso: um paciente com ALT de 85 U/L, AST de 70 U/L e história de uso crônico de álcool sugere hepatopatia alcoólica.

Os valores de referência podem variar entre laboratórios, sendo essencial considerar os limites adotados por cada instituição.

Considerações Finais

A bioquímica clínica desempenha papel crucial na avaliação da saúde metabólica e hepática. O conhecimento dos parâmetros de glicemia, perfil lipídico e enzimas hepáticas, bem como sua interpretação à luz da clínica, é indispensável para a prática médica de qualidade. A solicitação adequada dos exames e a correta leitura de seus resultados contribuem para o diagnóstico precoce e o manejo eficaz de doenças crônicas e agudas.

Referências Bibliográficas

  • AMERICAN DIABETES ASSOCIATION. Standards of Medical Care in Diabetes—2024. Diabetes Care, v. 47, Suplemento 1, 2024.
  • SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA. Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2022. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v. 118, n. 2, 2022.
  • KUMAR, V. et al. Robbins Patologia Básica. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2018.
  • GARRIDO, F. R.; ZAGZAG, R. Patologia Clínica: Fundamentos e Aplicações. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2019.
  • Tietz, N. W. Fundamentals of Clinical Chemistry and Molecular Diagnostics. 8th ed. Elsevier, 2018.


Fatores que Influenciam os Resultados de Exames Laboratoriais

 

Introdução

A precisão e a confiabilidade dos exames laboratoriais são fundamentais para o diagnóstico, acompanhamento e prognóstico de diversas condições clínicas. No entanto, os resultados podem ser significativamente influenciados por uma série de fatores pré-analíticos, analíticos e pós-analíticos. O conhecimento desses fatores é essencial para

profissionais da saúde, laboratórios e pacientes, a fim de minimizar erros e garantir a qualidade dos exames.

1. Fatores Pré-analíticos

Os fatores pré-analíticos correspondem à fase que precede a análise efetiva da amostra, incluindo a preparação do paciente, coleta, manuseio e transporte da amostra. Essa é considerada a fase mais vulnerável do processo laboratorial, responsável por até 70% dos erros nos exames.

a) Jejum e Dieta

A ingestão de alimentos antes da coleta pode interferir em diversos exames. A glicemia, por exemplo, pode ser falsamente elevada se o paciente não estiver em jejum. A ingestão de alimentos gordurosos pode alterar triglicerídeos e causar lipemia, interferindo na leitura espectrofotométrica.

b) Uso de Medicamentos

Diversos medicamentos alteram os níveis de substâncias analisadas nos exames laboratoriais. Corticoides podem aumentar a glicemia; diuréticos podem afetar eletrólitos; anticoagulantes podem interferir em testes de coagulação. Por isso, o uso de fármacos deve ser informado ao laboratório.

c) Horário da Coleta

Muitas substâncias apresentam variações circadianas. O cortisol, por exemplo, atinge seu pico nas primeiras horas da manhã, enquanto o TSH pode aumentar à noite. A padronização do horário de coleta é essencial para garantir comparabilidade dos resultados.

d) Posição Corporal

A posição do paciente no momento da coleta (sentado, deitado ou em pé) pode influenciar a concentração de proteínas plasmáticas e células sanguíneas, devido à redistribuição de líquidos no compartimento vascular.

e) Estresse e Atividade Física

O estresse físico ou emocional pode aumentar temporariamente os níveis de glicose, leucócitos e catecolaminas. Exercícios físicos intensos podem alterar as enzimas musculares, como a creatina quinase (CK), e influenciar exames hepáticos e hematológicos.

f) Técnica de Coleta

Erros como torniquete prolongado, uso de tubos inadequados, hemólise por aspiração forçada, e ordem incorreta dos tubos podem comprometer os resultados. A hemólise, por exemplo, libera potássio e LDH, alterando seus níveis no plasma.

2. Fatores Analíticos

Esses fatores dizem respeito ao processo técnico de análise realizado no laboratório.

a) Calibração e Manutenção de Equipamentos

Equipamentos mal calibrados ou com falhas técnicas podem gerar resultados imprecisos. A manutenção preventiva e os controles de qualidade são essenciais para garantir a confiabilidade dos testes.

b) Qualidade dos Reagentes

Reagentes fora do

prazo de validade, contaminados ou armazenados incorretamente afetam diretamente os resultados. A rastreabilidade e a padronização dos lotes são práticas essenciais.

c) Técnica Analítica

A escolha do método analítico (espectrofotometria, ELISA, imunofluorescência, entre outros) deve ser adequada à substância pesquisada. Diferenças metodológicas podem produzir variações entre laboratórios.

d) Interferências Analíticas

Lipemia, hemólise e icterícia são interferentes comuns. A lipemia pode causar turbidez nas amostras, dificultando leituras ópticas. A icterícia interfere em métodos colorimétricos, enquanto a hemólise altera parâmetros como potássio, AST e LDH.

3. Fatores Pós-analíticos

Referem-se ao processamento, validação, interpretação e liberação dos resultados.

a) Transcrição de Dados

Erros de digitação e falhas no sistema de informação laboratorial podem levar à liberação de resultados incorretos para o paciente errado. O uso de sistemas informatizados com validação dupla ajuda a minimizar esses riscos.

b) Interpretação Clínica

A interpretação incorreta por parte do profissional solicitante, sem considerar o contexto clínico, pode levar a erros diagnósticos. A análise deve sempre considerar os limites de referência, os sinais e sintomas, e possíveis fatores de confusão.

c) Tempo de Liberação

O tempo entre coleta e liberação influencia a utilidade clínica dos exames. Exames urgentes devem ser priorizados, e amostras com instabilidade temporal (como gases sanguíneos e lactato) devem ser processadas imediatamente.

Considerações Finais

Os resultados laboratoriais são fundamentais na prática médica, mas estão sujeitos a múltiplos fatores que podem afetar sua acurácia e utilidade. A adoção de boas práticas em todas as fases do processo laboratorial é crucial para garantir a qualidade dos resultados. A comunicação clara entre laboratório, paciente e profissional de saúde é indispensável para minimizar interferências e garantir um diagnóstico confiável.

Referências Bibliográficas

  • LIMA-OLIVEIRA, G. et al. Preanalytical phase management: A review of the critical issues. Clinica Chimica Acta, v. 432, p. 17–23, 2014.
  • NARAYANAN, S. The preanalytic phase: an important component of laboratory medicine. Am J Clin Pathol, v. 113, n. 3, p. 429–452, 2000.
  • KATAYAMA, M. L. H. et al. Patologia Clínica/Medicina Laboratorial: Fundamentos e Prática. 2. ed. São Paulo: Sarvier, 2021.
  • GARRIDO, F. R.; ZAGZAG, R. Patologia
  • Clínica: Fundamentos e Aplicações. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2019.
  • WESTGARD, J. O. Basic Method Validation. 4. ed. Madison: Westgard QC, 2010.


Urinálise e Exames de Fezes: Avaliação Laboratorial e Indicativos Clínicos

 

Introdução

Os exames laboratoriais de urina e fezes são ferramentas fundamentais no diagnóstico de diversas condições clínicas, especialmente infecções e distúrbios metabólicos e gastrointestinais. São métodos acessíveis, de fácil realização, mas que exigem técnicas padronizadas e interpretação cuidadosa para fornecer informações úteis à conduta médica. Este texto aborda os principais aspectos da urinálise (com ênfase no EAS e sedimentoscopia) e do exame parasitológico de fezes, destacando suas aplicações clínicas e os achados laboratoriais mais relevantes.

Urina Tipo I (EAS) e Sedimentoscopia

O exame de urina tipo I, também conhecido como elementos anormais do sedimento (EAS), é uma análise rotineira que avalia parâmetros físicos, químicos e microscópicos da urina, sendo essencial no rastreamento de infecções urinárias, doenças renais e distúrbios metabólicos.

Análise Física

Inclui a avaliação da cor, aspecto, volume, densidade e pH da urina. A presença de turvação, por exemplo, pode indicar piúria ou precipitação de cristais. A densidade urinária informa sobre a capacidade de concentração renal, enquanto o pH pode variar conforme a dieta e o estado metabólico do paciente.

Análise Química

Realizada com fitas reagentes, permite a detecção de:

  • Proteínas: sua presença (proteinúria) pode indicar doença glomerular.
  • Glicose: sua detecção (glicosúria) sugere diabetes mellitus mal controlado.
  • Corpos cetônicos: indicam cetose, comum em diabetes tipo 1 descompensado ou jejum prolongado.
  • Bilirrubina e urobilinogênio: são marcadores indiretos de distúrbios hepatobiliares.
  • Nitrito e esterase leucocitária: associados à presença de bactérias gram-negativas e leucócitos, respectivamente, sugerem infecção urinária.

Sedimentoscopia

É a análise microscópica do sedimento urinário, realizada após centrifugação da amostra. Os principais achados incluem:

  • Hemácias: indicam hematúria, associada a traumas, infecções, cálculos ou neoplasias.
  • Leucócitos: sugerem infecção ou inflamação do trato urinário.
  • Cilindros: estruturas que se formam nos túbulos renais. Os hialinos podem ser fisiológicos; os granulosos, celulares ou hemáticos indicam lesão renal.
  • Cristais:
  • como oxalato de cálcio ou ácido úrico, ajudam no diagnóstico de distúrbios metabólicos ou risco de litíase renal.
  • Células epiteliais: podem refletir descamação normal ou inflamação.

Exame Parasitológico de Fezes

O exame parasitológico de fezes (EPF) visa a detecção de parasitas intestinais em suas formas evolutivas: cistos, trofozoítos, ovos e larvas. É um exame essencial na avaliação de diarreias, dor abdominal, desnutrição, anemia e eosinofilia periférica.

Métodos de Análise

Os métodos mais comuns incluem:

  • Exame direto (a fresco): permite visualização de formas móveis (trofozoítos) e estruturas parasitárias.
  • Método de concentração (sedimentação ou flutuação): aumenta a sensibilidade para detecção de ovos e cistos.
  • Colorações especiais (Lugol, Ziehl-Neelsen modificado): utilizadas para visualizar detalhes morfológicos ou organismos como Cryptosporidium.

A recomendação é coletar três amostras em dias alternados, para aumentar a sensibilidade diagnóstica, devido à eliminação intermitente dos parasitas.

Principais Parasitas Detectáveis

  • Protozoários: Entamoeba histolytica, Giardia lamblia, Blastocystis hominis, Isospora belli, Cryptosporidium spp.
  • Helmintos: Ascaris lumbricoides, Ancylostoma duodenale, Trichuris trichiura, Strongyloides stercoralis, Schistosoma mansoni

Indicativos Laboratoriais de Infecções ou Distúrbios Metabólicos

Infecções do Trato Urinário (ITU)

Os achados laboratoriais típicos incluem:

  • Presença de leucócitos, nitrito e bactérias na urina.
  • Urocultura positiva com contagem significativa de unidades formadoras de colônias (UFC/mL).
  • A sedimentoscopia pode revelar leucócitos agrupados, piocitúria e, em casos graves, cilindros leucocitários.

A diferenciação entre cistite e pielonefrite pode ser sugerida por sinais clínicos associados a proteinúria e presença de cilindros granulosos ou leucocitários.

Doenças Renais

  • Proteinúria persistente e presença de cilindros granulosos ou hemáticos podem indicar glomerulonefrite.
  • Hematúria isolada sugere lesões do trato urinário inferior (ex: cistite ou neoplasias).
  • Cristalúria pode ser indicativa de distúrbios metabólicos que predispõem à formação de cálculos.

Distúrbios Metabólicos

  • Glicosúria sem hiperglicemia sugere disfunção tubular renal (síndrome de Fanconi).
  • Cetonúria está presente em estados de jejum prolongado, diabetes descompensado e dietas
  • cetogênicas.
  • Bilirrubinúria e urobilinogenúria indicam alterações hepáticas ou obstrução biliar parcial.

Infecções Intestinais

No exame parasitológico de fezes, a presença de parasitas pode explicar quadros clínicos de:

  • Diarreia crônica (ex: giardíase, amebíase).
  • Síndromes disabsortivas (ex: isosporíase, criptosporidiose, em imunossuprimidos).
  • Eosinofilia periférica (ex: ancilostomíase, estrongiloidíase).

Além disso, a pesquisa de sangue oculto nas fezes é fundamental na triagem de doenças intestinais crônicas, como neoplasias colorretais.

Considerações Finais

A urinálise e o exame parasitológico de fezes são exames simples, de baixo custo, mas de enorme valor diagnóstico. A interpretação correta dos achados laboratoriais deve considerar a história clínica, sintomas e outros exames complementares. A padronização das técnicas de coleta e análise é essencial para garantir resultados confiáveis. Esses exames são frequentemente a porta de entrada para o diagnóstico precoce de doenças infecciosas, inflamatórias e metabólicas, reforçando sua importância na prática clínica cotidiana.

Referências Bibliográficas

  • GARRIDO, F. R.; ZAGZAG, R. Patologia Clínica: Fundamentos e Aplicações. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2019.
  • KATAYAMA, M. L. H. et al. Patologia Clínica/Medicina Laboratorial: Fundamentos e Prática. 2. ed. São Paulo: Sarvier, 2021.
  • RODAK, B. F. et al. Hematologia Clínica. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016.
  • ANVISA. Resolução RDC nº 302/2005 – Regulamento técnico para funcionamento de laboratórios clínicos. Agência Nacional de Vigilância Sanitária, 2005. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa.
  • WHO. Basic Laboratory Procedures in Clinical Bacteriology. Geneva: World Health Organization, 2003.

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