MÓDULO 3 — Colocando em pé: monitoramento, auditoria básica e comunicação com segurança
Aula 1. Monitoramento: controle que não é acompanhado
vira enfeite
Quando a gente fala de
controle interno, é muito comum imaginar que o trabalho termina quando o
procedimento foi criado: “Pronto, agora tem um checklist”, “agora tem uma
regra”, “agora tem um fluxo”. Só que, na prática, o ponto mais delicado começa
justamente depois disso. Porque controle que não é acompanhado vira enfeite. É
como instalar um extintor e nunca verificar se está carregado, ou criar uma
rotina de segurança e ninguém mais lembrar que ela existe. Nesta Aula 1 do
Módulo 3, o tema é monitoramento — ou, dito de forma bem simples, o
hábito de olhar periodicamente para os controles e para os processos
para garantir que continuam funcionando na vida real.
Monitorar não é desconfiar de pessoas. Monitorar é respeitar a realidade: a rotina muda, as equipes mudam, as prioridades mudam, os sistemas mudam. O controle que funcionava no ano passado pode estar falhando hoje por razões totalmente compreensíveis — aumento de demanda, redução de equipe, mudança de fornecedor, alteração de regra. Se ninguém acompanha, o problema não aparece cedo; ele aparece tarde, quando já virou retrabalho, desperdício ou crise. O monitoramento é o que mantém o controle interno vivo e útil. É o “termômetro” que mostra se a instituição está saudável ou se está começando a ter febre
Para entender monitoramento de um
jeito bem humano, pense numa escola. Se a coordenação pedagógica cria um plano
de aula e nunca volta para ver como isso está acontecendo, a realidade da sala
pode se afastar do plano sem que ninguém perceba. Na gestão pública é
semelhante: você pode ter um procedimento excelente de compras, mas se ninguém
acompanha, logo surgem atalhos: “assina aí para não atrasar”, “depois a gente
anexa”, “faz do jeito antigo porque é mais rápido”. O monitoramento não precisa
ser um “policiamento”, mas precisa existir como rotina de cuidado: vamos
olhar, com calma, se o combinado está sendo cumprido e se faz sentido continuar
do mesmo jeito.
Uma das maiores vantagens do monitoramento é que ele ajuda a organizar a energia da equipe. Sem monitoramento, os problemas chegam por susto e urgência: um processo devolvido, uma denúncia, um questionamento, um apontamento do tribunal, uma falha que estoura no colo do gestor. Com monitoramento, a equipe
das maiores vantagens do
monitoramento é que ele ajuda a organizar a energia da equipe. Sem
monitoramento, os problemas chegam por susto e urgência: um processo devolvido,
uma denúncia, um questionamento, um apontamento do tribunal, uma falha que estoura
no colo do gestor. Com monitoramento, a equipe consegue agir antes. Ela percebe
tendências. Ela ajusta o curso. É uma mudança de postura: sair do modo “apagar
incêndio” e entrar no modo “prevenir incêndio”. E isso, no serviço público,
vale ouro.
Agora, vamos para a parte prática: o que monitorar? A resposta mais inteligente é: monitorar aquilo que é sinal de risco e de qualidade do processo. E, para isso, entram os indicadores, que não precisam ser sofisticados. Um indicador é apenas uma pergunta que você consegue medir. Por exemplo: “Quantos processos voltaram por falta de documento este mês?” “Qual o percentual de notas fiscais pagas com atesto e evidência completa?” “Quantas compras foram emergenciais?” “Quanto tempo um processo leva do pedido ao pagamento?” “Quantas prestações de contas de viagem estão atrasadas?” Repare como essas perguntas fazem sentido para qualquer pessoa do setor — não são números para enfeitar relatório; são números que ajudam a enxergar a realidade.
Um erro comum é achar que indicador
precisa ser perfeito, com fórmula complexa. Não precisa. O que precisa é ser simples,
coletável e útil. Se dá muito trabalho coletar, ninguém coleta. Se ninguém
entende para que serve, ninguém usa. Por isso, nesta aula, a proposta é
trabalhar com poucos indicadores, bem escolhidos. Em geral, três já são
suficientes para começar. Um indicador pode olhar para conformidade (se
as etapas estão sendo cumpridas), outro para eficiência (tempo,
retrabalho), e outro para resultado (qualidade da entrega, planejamento,
redução de emergências). Com esses três, você já tem um painel básico do
processo.
Imagine um exemplo bem comum: compras e contratos. Um indicador de conformidade poderia ser “% de processos com checklist completo”. Um indicador de eficiência poderia ser “tempo médio entre solicitação e contratação”. Um indicador de resultado poderia ser “% de compras emergenciais no total de compras do mês”. O interessante é que cada indicador conta uma história. Se o checklist completo está baixo, talvez a equipe precise de modelo mais simples ou orientação. Se o tempo médio está alto, talvez o fluxo esteja emperrado ou exista gargalo. Se as compras emergenciais estão
subindo,
talvez o problema não seja a licitação — seja a falta de planejamento do setor
demandante ou do estoque. Ou seja: indicador não é para culpar; é para
descobrir onde agir.
Outra pergunta importante é: com que frequência monitorar? Aqui entra uma ideia muito prática: melhor monitorar pouco, mas sempre, do que muito, só quando dá. Em muitos órgãos, uma rotina mensal funciona bem. Uma “reunião de monitoramento” curta, de 30 a 40 minutos, com pauta objetiva: olhar três indicadores, discutir duas causas e escolher uma ação concreta para o próximo mês. Isso já cria cultura. É como uma manutenção preventiva do carro: você não espera o motor fundir para abrir o capô; você olha óleo, freio, pneu, com regularidade.
E o monitoramento não precisa ser só
reunião. Ele pode ser um painel simples (até numa planilha), uma lista de
verificação mensal, um relatório curto. O principal é que exista um ciclo: medir
→ interpretar → agir → acompanhar de novo. Sem a parte “agir”, indicador
vira estatística. Sem a parte “acompanhar de novo”, ação vira promessa. O ciclo
completo é o que transforma controle interno em melhoria contínua.
Nesta aula também vale lembrar que
monitoramento pode ser feito em níveis diferentes. Existe o monitoramento do
dia a dia, feito pela própria equipe (primeira linha), como checar evidência
antes de avançar uma etapa. Existe o monitoramento gerencial (segunda linha),
feito por chefias, coordenações e áreas de conformidade, olhando tendências e
gargalos. E existe o monitoramento mais independente, quando a auditoria
interna (se existir) ou uma função de avaliação faz testes por amostragem. O
importante é perceber que monitoramento não é algo distante; ele começa no
cotidiano, no cuidado com o processo.
Um ponto que ajuda a tornar tudo isso
mais humano é entender que monitoramento deve ser proporcional e respeitoso. Se
a equipe está sobrecarregada, criar um monitoramento gigantesco é receita para
fracasso. O caminho é começar pequeno, colher benefícios e crescer aos poucos.
Muitas vezes, o primeiro ganho do monitoramento é surpreendente: só o fato de
olhar para o processo com regularidade já reduz informalidade e aumenta
registro. As pessoas se lembram do combinado. O padrão melhora. E, quando
melhora, a própria equipe sente alívio: menos devolução, menos urgência, menos
ruído.
Para fechar, pense no monitoramento como o que mantém o controle interno “em movimento”. Controle interno não é
fechar, pense no monitoramento
como o que mantém o controle interno “em movimento”. Controle interno não é um
documento pronto; é um sistema vivo. E sistemas vivos precisam de atenção, do
mesmo jeito que uma escola precisa de acompanhamento pedagógico e uma unidade
de saúde precisa de indicadores de atendimento. Quando você monitora, você cria
previsibilidade. Quando você cria previsibilidade, você reduz crise. E quando
você reduz crise, a gestão pública consegue fazer aquilo que deveria ser o foco
desde o início: entregar serviço com qualidade para quem mais precisa.
Referências
bibliográficas
Aula 2.
Auditoria/avaliação simples: como testar se o controle funciona
Depois que a gente entende, na Aula 1 do Módulo 3, que controle sem acompanhamento vira decoração, surge uma pergunta natural — e muito prática: como eu verifico, de verdade, se um controle está funcionando? É aqui que entra a ideia de auditoria ou avaliação simples. E já vale começar quebrando um medo comum: “auditoria” não precisa ser um bicho de sete cabeças, nem uma caça às bruxas. Nesta aula, a proposta é enxergar auditoria como um teste de realidade. É como checar se o cinto de segurança está travando, se o extintor está carregado, se a receita
É como checar se o cinto de
segurança está travando, se o extintor está carregado, se a receita está sendo
seguida. Não é para culpar alguém; é para garantir que o sistema está
protegendo o serviço público como deveria.
Uma forma bem humana de entender isso
é pensar em um time de cozinha que serve merenda escolar. Mesmo com pessoas
comprometidas, é saudável ter rotinas de verificação: conferir temperatura,
validade, limpeza, armazenamento. Ninguém faz isso porque acha que “o
cozinheiro é suspeito”. Faz porque a consequência de uma falha é séria, e
porque o dia a dia cansa, distrai e abre brechas. Na gestão pública, é igual:
quando você testa controles de tempos em tempos, você encontra falhas pequenas
antes que virem falhas grandes. E isso, no fim, protege a equipe — inclusive
emocionalmente — porque reduz aquela sensação de “a qualquer momento pode
explodir um problema”.
O ponto central desta aula é: testar
controles não é só ler norma; é olhar evidência. Controle existe quando
acontece na prática, e isso deixa rastro. Se o controle diz “todo recebimento
deve ter conferência e termo assinado”, então, ao testar, você vai procurar:
tem termo? está preenchido? tem assinatura? dá para ver que houve conferência?
Se o controle diz “não pagar sem atesto”, então você vai olhar: os processos
pagos têm atesto? o atesto tem data e responsável? está coerente com a nota
fiscal? É simples assim. O teste, no fundo, é uma pergunta: o que foi
combinado realmente está acontecendo?
Para fazer isso de forma leve e
eficaz, existem três “formas de testar” que costumam funcionar muito bem na
administração pública, especialmente para iniciantes: amostragem, trilha
(walkthrough) e conformidade. A amostragem é pegar uma quantidade pequena
de processos — por exemplo, 10 — e verificar se os itens essenciais estão
presentes e coerentes. A trilha é escolher um processo específico e acompanhar
do início ao fim, como se você estivesse “refazendo o caminho” para ver onde há
buracos. E o teste de conformidade é comparar o que aconteceu no processo com o
que a norma ou o procedimento interno exige. Cada um desses testes tem sua
utilidade, e você pode escolher o mais adequado conforme o tipo de risco e o
tempo disponível.
A amostragem é o caminho mais prático para começar, porque ela entrega sinais rápidos. Imagine que você quer saber se o controle de “pesquisa de preços” está funcionando em compras pequenas. Você pega 10 processos do último
mês e observa: quantos têm pesquisa
anexada? quantos têm justificativa? quantos têm evidência mínima? Se você
encontra que 8 de 10 estão incompletos, você não precisa “investigar” cada caso
como se fosse crime; você já tem um diagnóstico de processo: o controle não
está sendo cumprido como deveria. A amostragem não diz tudo sobre tudo, mas ela
é ótima para responder: “isso está acontecendo com frequência?”
A trilha é ainda mais
reveladora quando o problema parece “escorregadio”. Às vezes a instituição tem
documentos, mas ninguém entende a lógica do processo. A trilha ajuda a enxergar
a história inteira: como a demanda nasceu, como foi autorizada, como foi
executada, como foi conferida, como foi registrada, como foi paga. É um teste
muito didático, porque mostra onde o processo fica vulnerável. Muitas vezes, a
falha não está no fim; está no começo. Um processo pode estar “pago certinho”,
mas começou com uma justificativa fraca, uma especificação ruim ou uma
autorização informal. A trilha expõe isso com clareza, sem precisar de discurso
duro.
Já o teste de conformidade é o
mais “regrado”: ele pergunta “o procedimento diz que deve ter X; o processo tem
X?” É útil quando há exigências legais ou normativas claras, como etapas
obrigatórias em licitação, documentação mínima de contratos, regras de
prestação de contas etc. Mas aqui cabe um cuidado: conformidade não é só checar
papel; é checar sentido. Um documento pode existir e ser inútil. Por isso,
conformidade precisa andar junto com evidência e coerência. A pergunta não é
“tem assinatura?”, é “essa assinatura representa uma conferência real, com
responsabilidade?”
Agora, uma dúvida comum: como
escolher o que testar? A resposta vem de tudo que você aprendeu no Módulo
2: comece pelos riscos mais críticos. Se um risco tem alta probabilidade e alto
impacto, ele merece teste com mais frequência e mais atenção. Exemplo:
pagamento de serviços, fiscalização de contratos, compras emergenciais, diárias
e passagens, almoxarifado, concessão de benefícios. Você não precisa testar
tudo ao mesmo tempo. Auditoria simples bem-feita é, muitas vezes, uma escolha
inteligente de foco: vamos olhar primeiro para onde o risco é maior e onde a
consequência é mais sensível.
E o que exatamente você verifica num teste? A palavra-chave é critério. Critério é a regra de comparação: lei, norma interna, contrato, manual, checklist oficial do órgão. Sem critério, vira opinião. Com critério, vira
Critério é a regra de comparação:
lei, norma interna, contrato, manual, checklist oficial do órgão. Sem critério,
vira opinião. Com critério, vira avaliação. Depois do critério, vem a evidência:
o que prova que o controle aconteceu (ou não aconteceu). E, por fim, você chega
ao que chamamos de “achado”, que é uma constatação objetiva. Achado não é
julgamento moral; é descrição clara: “Em 6 de 10 processos analisados, não
havia termo de recebimento assinado, apesar de haver pagamento realizado.” Isso
é um achado. A partir dele, você pode falar de risco e sugerir recomendação.
Aqui entra uma parte muito importante
da aula: diferenciar achado, risco e recomendação.
Quando a equipe mistura tudo, o texto
fica agressivo ou confuso. Quando separa bem, a conversa fica madura e útil. E
isso melhora muito a relação entre áreas, porque o foco sai da pessoa e vai
para o processo.
Vamos pensar num exemplo simples para
sentir o tom. Suponha que você testou processos de diárias e percebeu ausência
de relatório de viagem. O achado seria: “Dos 12 processos analisados, 7 não
apresentaram relatório de viagem no prazo previsto.” O risco: “Isso dificulta
comprovar o interesse público e enfraquece a prestação de contas, aumentando
vulnerabilidade a questionamentos.” A recomendação: “Implementar modelo padrão
de relatório de 1 página e condicionar novas concessões à entrega da prestação
de contas, com exceções formalizadas.” Perceba: não tem acusação, não tem
drama; tem clareza e solução.
Outro ponto essencial: testar
controle não é só encontrar falha; é também encontrar o que funciona.
Quando você identifica boas práticas em um setor, você pode replicar em outros.
Às vezes, uma unidade tem um modelo simples de conferência que funciona muito
bem, e ninguém nunca formalizou isso. Auditoria simples pode revelar essas
“ilhas de excelência” e transformar em padrão institucional. Isso é muito
poderoso, porque controle interno também é aprendizado organizacional.
Na hora de montar um roteiro de teste, a dica é manter o checklist curto e objetivo. Algo como: (1) qual processo? (2) qual período? (3) qual amostra? (4) quais critérios? (5) quais evidências esperadas? (6) como registrar resultados? Com isso, qualquer pessoa consegue reproduzir o teste e chegar a
conclusões semelhantes. Esse ponto é importante porque traz justiça: a avaliação não depende do humor de quem avalia; depende do critério e da evidência.
E como comunicar resultados sem gerar
guerra? Mesmo que a Aula 3 vá aprofundar comunicação, já dá para antecipar um
princípio: a devolutiva deve ser proporcional e respeitosa. Se você
encontra falhas, trate como oportunidade de ajuste, não como humilhação. E se o
problema é estrutural (falta de equipe, sistema ruim, excesso de demanda), diga
isso com honestidade. Às vezes o controle falha não porque alguém “não quis”,
mas porque o processo foi desenhado para uma realidade que não existe mais.
Reconhecer isso torna o controle interno mais humano — e mais eficaz.
No fim, a ideia desta aula é te dar confiança para fazer avaliações simples, mas consistentes. Você não precisa de um “megaprograma de auditoria” para melhorar a gestão. Você precisa de rotina de teste, foco no risco, critério claro, evidência bem observada e recomendações viáveis. Quando isso vira cultura, o controle interno se fortalece sem virar peso. E a equipe sente a diferença: menos surpresa, menos retrabalho, menos improviso, mais segurança para decidir e para entregar.
Referências
bibliográficas
Aula 3. Como escrever
relatórios e orientar sem gerar guerra
Existe uma parte do controle interno que muita gente subestima — e, ao mesmo tempo, é a parte que mais decide se as
coisas vão melhorar de verdade: a comunicação. Você pode ter um
diagnóstico excelente, controles bem desenhados, testes bem-feitos…, mas, se a
forma de orientar e de registrar os resultados vira confronto, a instituição
cria resistência, as áreas se fecham e a melhoria não acontece. Por isso, nesta
Aula 3 do Módulo 3, o foco é aprender a escrever relatórios claros e fazer
devolutivas firmes, porém respeitosas, sem gerar “guerra interna”. É o
ponto em que o controle interno deixa de ser apenas técnico e vira também habilidade
humana.
Vamos começar com uma verdade
simples: quase ninguém gosta de receber crítica, principalmente quando a equipe
está sobrecarregada e sente que está se esforçando. E, na administração
pública, esse cenário é comum: pessoas trabalhando no limite, com cobrança de
resultados, prazos curtos e pressão externa. Se o controle interno chega com um
tom acusatório, o cérebro humano faz o que sempre faz: entra em defesa. A
conversa vira disputa. E, quando vira disputa, o objetivo do controle interno
se perde. O que deveria ser uma melhoria de processo vira uma discussão sobre
“quem errou”. Por isso, o primeiro aprendizado desta aula é: o tom não é
enfeite; o tom é parte do método.
Um relatório bom não é o relatório
“mais duro”; é o relatório mais compreensível e acionável. Ele ajuda a
organização a enxergar o problema, entender o risco e agir. Para isso, existe
uma estrutura simples — quase uma receita — que funciona muito bem na gestão
pública: contexto, critério, condição (o que foi encontrado),
risco/consequência e recomendação. Parece técnico, mas é, na verdade, uma
forma organizada de contar uma história com começo, meio e fim. E uma boa
história, aqui, não é para emocionar; é para deixar claro o que precisa ser
ajustado.
O contexto é o “onde e por que estamos falando disso”. É dizer qual processo foi analisado, em que período, e qual foi o objetivo da avaliação. Sem contexto, quem lê pode achar que você está criticando “o setor inteiro” ou “a gestão inteira”. Com contexto, fica claro que é uma análise localizada e profissional. O critério é o “com base em quê”. Pode ser uma lei, uma norma interna, um contrato, um manual do próprio órgão, um fluxo aprovado. O critério dá neutralidade ao texto: não é “eu acho”, é “o procedimento exige”. A condição é o que você observou, com evidência: número de processos, quantidade de falhas, exemplo típico, sempre com cuidado para não expor pessoas
desnecessariamente. Aí vem o risco,
que é explicar por que aquilo importa: o que pode acontecer se continuar assim.
E, por fim, a recomendação, que é o “o que fazer” — e aqui mora um dos
maiores segredos da boa comunicação: recomendação boa é recomendação viável.
Muita resistência nasce quando a
recomendação parece impossível. Exemplo: “O setor deve garantir 100% de
conformidade em todas as etapas, imediatamente.” Isso não ajuda ninguém. É
bonito no papel e frustrante na prática. Uma recomendação madura é mais parecida
com: “Padronizar o termo de recebimento e torná-lo obrigatório antes do
pagamento, com checklist de conferência; iniciar piloto em 30 dias e revisar
após 60 dias.” É concreta, tem caminho, respeita a realidade e permite
acompanhamento. Controle interno não é um pedido de milagre; é um convite para
organizar o possível e melhorar progressivamente.
Agora, além de estrutura, existe uma habilidade essencial: escrever de forma que foque no processo, não na pessoa. Em vez de “o servidor não conferiu”, prefira “não houve evidência de conferência”. Em vez de “o fiscal falhou”, prefira “não foram identificados registros de fiscalização no período”. Isso não é “passar pano”; é técnica de comunicação que reduz defensividade e aumenta a chance de adesão. O objetivo é que a área leia e pense: “ok, isso faz sentido; vamos corrigir”, e não: “estão me acusando; vou rebater”.
Outra prática que faz muita diferença
é usar uma linguagem que não seja humilhante nem exagerada. Palavras como
“grave”, “absurdo”, “inadmissível” podem ser verdadeiras em alguns contextos,
mas, na maioria das situações do dia a dia, elas mais atrapalham do que ajudam.
Em controle interno, firmeza não depende de adjetivo; depende de fato bem
descrito e risco bem explicado. Quando você escreve com calma e precisão, o
texto fica mais forte, não mais fraco.
E aqui entra uma pergunta importante: o que colocar num relatório curto? Porque, na gestão pública, relatórios longos demais costumam morrer na gaveta. Um relatório curto, de uma a três páginas, muitas vezes é mais efetivo. Ele pode ter: (1) objetivo e escopo, (2) metodologia simples (amostragem, trilha etc.), (3) achados principais, (4) recomendações, (5) plano de ação sugerido (responsável e prazo). Esse formato “enxuto” aumenta a chance de leitura e de implementação. E, se precisar de detalhe, você coloca anexos: tabelas, lista de processos, evidências. Assim, você mantém o corpo do
texto limpo e útil.
Falando em utilidade, um ponto muito
importante desta aula é entender que relatório é metade; devolutiva é a
outra metade. De nada adianta escrever bem e comunicar mal. A devolutiva é
a conversa com a área, e ela pode ser um momento de construção ou de conflito.
A dica central é: vá para a devolutiva com postura de parceria e com foco em
solução. Uma abordagem que costuma funcionar é: “Eu observei X (fato). Isso
pode gerar Y (risco). Minha sugestão é Z (recomendação). O que você acha viável
fazer primeiro?” Esse final — perguntar viabilidade — muda tudo. Não é
“negociar a norma”; é construir o caminho de implementação com quem vive a
rotina.
Também é importante saber lidar com
reações. Algumas áreas vão negar, outras vão justificar, outras vão se sentir
atacadas. Isso é humano. O controle interno não precisa entrar na emoção. Ele
precisa voltar para o método: critério e evidência. Se alguém diz “mas aqui
sempre foi assim”, você pode responder com calma: “Entendo, mas o critério
exige X e hoje não há evidência de X; vamos pensar num jeito simples de
garantir isso.” Se alguém diz “não dá para fazer”, você pode perguntar:
“O que impediria?
Falta de equipe? Falta de sistema? Vamos pensar numa alternativa mínima
viável.” Essa postura não é “ceder”; é ser estratégico para produzir mudança
real.
E há um cuidado muito relevante: evitar
a cultura da vergonha. Quando uma área se sente envergonhada publicamente,
ela aprende a esconder. Em controle interno, esconder é o pior cenário, porque
o risco cresce no escuro. Por isso, devolutivas devem ser respeitosas e, quando
possível, feitas de forma reservada, com foco em processo. Ao mesmo tempo,
transparência institucional é importante. O equilíbrio saudável é: tratar o
problema com seriedade, mas sem humilhar pessoas. A instituição precisa
aprender, não se punir emocionalmente.
Um relatório e uma devolutiva
bem-feitos também ajudam a criar um hábito valioso: o plano de ação com
responsável, prazo e evidência. É aqui que o controle interno vira
movimento. Sem plano de ação, recomendação vira conselho. Com plano de ação,
recomendação vira entrega. E para o plano ser executável, ele precisa ser
simples: o que será feito, quem fará, quando ficará pronto e como vamos saber
que foi feito (evidência). Esse “como vamos saber” é decisivo, porque fecha o
ciclo com monitoramento (Aula 1): depois, você volta e verifica se o plano foi
cumprido.
Por
fim, vale lembrar que comunicação também inclui reconhecer avanços. Quando uma área melhora, quando um controle passa a funcionar, quando um indicador evolui, isso deve ser registrado. Isso cria cultura positiva e incentiva continuidade. Controle interno que só aparece para apontar falha vira “fantasma” e gera medo. Controle interno que aparece para orientar, ajustar e reconhecer melhorias vira referência e fortalece a governança.
Se você levar uma síntese desta aula, leve esta: controle interno é técnico, mas só se torna eficaz quando é comunicável. Relatório claro, linguagem respeitosa, foco em evidência, recomendação viável, devolutiva parceira e plano de ação simples. É isso que transforma achado em melhoria e transforma melhoria em cultura. No fim das contas, é assim que a gestão pública ganha algo raro e precioso: consistência para entregar bem, sem depender de heróis e sem viver em crise.
Referências
bibliográficas
Estudo de Caso – Módulo 3
“A reforma da
escola que virou dor de cabeça: quando ninguém monitora, tudo parece bem… até
dar ruim”
Cenário:
Município fictício de Santa Aurora, rede municipal com 18 escolas.
Objeto: contrato de manutenção predial (telhados, pintura,
elétrica e pequenos reparos).
Personagens:
Parte 1 — O
contrato começa bem… no papel
No início do ano,
a prefeitura licitou um contrato de manutenção predial “guarda-chuva”, para
atender chamados nas escolas. O contrato tinha cláusulas claras, exigia
relatórios de fiscalização, medições e evidências de execução. O problema é
que, na prática, o dia a dia engoliu a parte mais importante: acompanhar o
que foi combinado.
Diego foi nomeado
fiscal. Ele sabia o que precisava fazer, mas acumulava obras, licitações e
projetos. Patrícia ligava quase todo dia: “A sala está com infiltração”, “A
fiação está falhando”, “O banheiro está interditado”. Helena pressionava:
“Preciso de tudo andando, sem atraso”.
E assim, sem
perceber, o contrato foi entrando no modo “faz primeiro, registra depois”.
Erro comum 1 —
Monitoramento inexistente
Como evitar
(Monitoramento – Aula 1):
1. %
de ordens de serviço com relatório e foto
2. %
de medições pagas com checklist completo
3. tempo
médio entre chamado e execução
Parte 2 — O
controle “de vitrine”: relatório existe, mas não diz nada
Para não “parar o
fluxo”, Diego começou a assinar medições com base em mensagens e promessas do
fornecedor. Às vezes, ele ia ao local. Às vezes, não. Fotos apareciam, mas sem
data e sem contexto. Relatórios eram gerados, porém genéricos:
“Serviço executado
conforme solicitado.”
Quando o
financeiro pedia documentos, vinha tudo “meio montado”. Rogério pagava porque
havia assinatura e porque a escola precisava do reparo.
Erro comum 2 —
Evidência fraca e rastreabilidade quebrada
Como evitar
(Processo e evidência + monitoramento):
o escola/local,
ordem de serviço, serviço executado, data, responsável
o fotos
antes/depois (com identificação)
o checklist
rápido (itens mínimos)
Parte 3 — O sinal
que ninguém viu: as medições começaram a “crescer”
Em três meses, os
valores das medições aumentaram. Era sempre justificável: “apareceu um problema
a mais”, “foi uma escola que estava pior”, “teve que trocar material”.
Mas ninguém parou
para enxergar tendência. Não havia comparação com histórico, nem alerta para
“crescimento anormal”. O contrato estava ficando mais caro sem que a gestão
percebesse.
Erro comum 3 —
Falta de indicador
Como evitar (Aula
1 – indicadores simples):
o “Valor
pago por escola/mês”
o “Número
de chamados por escola”
o “%
de aditivos/serviços extras”
Parte 4 — A
auditoria simples que não foi feita (e teria salvado o mês)
Se alguém tivesse
feito um teste por amostragem — 8 ordens de serviço do mês — teria percebido:
Mas como não
existia rotina de teste, isso passou batido. E problema que passa batido vira padrão.
Erro comum 4 — Não
testar controles
Como evitar (Aula
2 – auditoria simples):
o evidências
presentes?
o datas
e locais claros?
o relatório
coerente com medição?
o assinatura
do fiscal baseada em conferência?
Parte 5 — O
“estouro”: denúncia e visita surpresa
Um vereador
recebeu reclamações: “A escola X continua com infiltração, mas disseram que já
pagaram a reforma”. Ele pediu documentos. Quando o Controle Interno foi montar
resposta, veio o choque: não dava para provar com segurança o que foi feito em
algumas ordens de serviço.
Não era fraude
confirmada. Era pior: era vulnerabilidade. A gestão ficou exposta por
falta de evidência e rotina de verificação.
Helena ficou irritada, Patrícia desesperada, Diego se sentiu injustiçado (“eu fiz o que pude”), e Rogério temeu responsabilização (“paguei com assinatura, mas sem prova robusta”).
Diagnóstico do Módulo 3
(o que deu errado, na linguagem do curso)
1) Monitoramento
falhou (Aula 1)
2) Teste/avaliação
falhou (Aula 2)
3) Comunicação
falhou (Aula 3)
Como evitar:
solução prática “mínimo viável” do Módulo 3
A) Monitoramento
(mensal, leve e consistente)
3 indicadores
1. %
de ordens de serviço com pacote completo de evidência
2. valor
mensal por escola + variação (alerta de crescimento)
3. tempo
médio de atendimento do chamado
Rotina
B) Auditoria
simples / testes
o ordem
de serviço
o relatório
padrão do fiscal
o fotos
antes/depois
o medição
coerente
o atesto com data e responsável
C) Relatório e
devolutiva (sem guerra, com método)
Modelo de achado
curto
Tom
Acesse materiais, apostilas e vídeos em mais de 3000 cursos, tudo isso gratuitamente!
Matricule-se AgoraAcesse materiais, apostilas e vídeos em mais de 3000 cursos, tudo isso gratuitamente!
Matricule-se Agora