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CONTABILIDADE SOCIETÁRIA POR AÇÕES
Módulo 2 – Escrituração Contábil, Patrimônio Líquido e Distribuição de Resultados
Aula 1 – Escrituração Contábil nas Sociedades por
Ações
1.1
O que é Escrituração Contábil?
A escrituração
contábil é o processo de registrar, de maneira organizada e sistemática, os
acontecimentos que modificam o patrimônio de uma empresa. Esses registros
permitem acompanhar as movimentações financeiras e econômicas, identificar
obrigações e verificar os resultados das atividades empresariais.
Nas sociedades por
ações, a escrituração possui uma importância especial, pois as informações
registradas servem de base para a elaboração das demonstrações financeiras
apresentadas aos acionistas e demais interessados.
Imagine uma
companhia que compra equipamentos, vende mercadorias e contrata empréstimos.
Cada uma dessas operações produz efeitos diferentes sobre o patrimônio. A
escrituração permite identificar esses efeitos e apresentar informações
confiáveis sobre a situação da empresa.
Para cumprir sua
finalidade, os registros devem ser realizados com clareza, documentação
adequada e observância das normas contábeis.
1.2
O Método das Partidas Dobradas
O método das
partidas dobradas é um princípio fundamental da escrituração contábil. Ele
estabelece que todo lançamento deve apresentar valores iguais no total dos
débitos e dos créditos.
Isso significa que
uma operação pode movimentar duas ou mais contas, mas a soma dos valores
debitados deve corresponder à soma dos valores creditados.
Considere uma
sociedade anônima que compra equipamentos à vista por R$ 20.000. A empresa
aumenta seu ativo imobilizado e reduz o dinheiro disponível em sua conta
bancária.
O lançamento será:
Débito:
Equipamentos – R$ 20.000.
Crédito: Bancos –
R$ 20.000.
Nesse exemplo, o
valor total dos ativos não se altera, pois houve apenas a troca de um recurso
financeiro por um equipamento.
É importante
compreender que débito e crédito não representam, necessariamente, entrada e
saída de dinheiro. Seu significado depende da natureza da conta contábil.
1.3
Livros e Documentos Contábeis
Os livros
contábeis são instrumentos utilizados para organizar e acompanhar os registros
das operações empresariais. Entre os principais estão o Livro Diário e o Livro
Razão.
O Livro Diário apresenta os lançamentos contábeis em ordem cronológica, permitindo acompanhar os fatos registrados ao longo do tempo. O Livro Razão organiza essas movimentações por conta, facilitando a
identificação de saldos e a conferência
dos registros.
Além dos livros, a
escrituração deve ser fundamentada em documentos que comprovem as operações
realizadas, como notas fiscais, contratos, recibos e comprovantes bancários.
A documentação
adequada é essencial para demonstrar a origem dos lançamentos e permitir
verificações posteriores.
Nas sociedades
anônimas, também existem livros societários específicos, destinados ao registro
de informações relacionadas às ações, aos acionistas e às deliberações da
companhia, conforme as exigências legais aplicáveis.
1.4
O Regime de Competência
O regime de
competência determina que as receitas e despesas sejam reconhecidas nos
períodos aos quais pertencem, observados os critérios contábeis aplicáveis,
independentemente do momento do recebimento ou pagamento.
Imagine que uma
companhia preste um serviço em março, mas receba o pagamento apenas em abril.
Se os critérios de reconhecimento forem atendidos em março, a receita deverá
ser registrada nesse mês.
O mesmo princípio
se aplica às despesas. Uma conta de energia elétrica referente ao consumo de
março deve ser reconhecida como despesa desse período, mesmo que o pagamento
aconteça em abril.
Esse procedimento
permite que as demonstrações contábeis representem melhor o desempenho
econômico da empresa.
1.5
Registro de Receitas e Despesas
As receitas
representam aumentos nos ativos ou reduções nos passivos que resultam em
aumento do patrimônio líquido, exceto aqueles relacionados às contribuições dos
proprietários.
As despesas
representam reduções nos ativos ou aumentos nos passivos que resultam em
diminuição do patrimônio líquido, exceto distribuições aos proprietários.
Considere uma
companhia que presta serviços no valor de R$ 15.000, com recebimento previsto
para o mês seguinte. Quando a receita é reconhecida, o lançamento simplificado
será:
Débito: Clientes –
R$ 15.000.
Crédito: Receita
de Serviços – R$ 15.000.
Quando o cliente
realizar o pagamento, a empresa registrará a entrada do dinheiro e a redução do
direito a receber.
Esse exemplo
demonstra que o reconhecimento da receita e o recebimento financeiro podem
ocorrer em momentos diferentes.
1.6
Controles Internos e Conferência dos Registros
Os controles
internos são procedimentos utilizados para proteger os recursos da empresa,
organizar suas atividades e reduzir a possibilidade de erros e irregularidades.
Na área contábil, esses controles incluem conferência de documentos, conciliação bancária,
acompanhamento de contas a receber e verificação dos saldos registrados.
A conciliação
bancária, por exemplo, consiste em comparar as informações dos extratos
bancários com os registros contábeis da companhia. Quando existem diferenças, é
necessário investigar suas causas.
Uma escrituração
organizada contribui para a elaboração de demonstrações financeiras confiáveis
e facilita o trabalho de administradores, auditores e demais responsáveis pelo
acompanhamento das informações.
Aula 2 – Patrimônio Líquido e Reservas nas Sociedades
Anônimas
2.1
Conceito de Patrimônio Líquido
O patrimônio
líquido representa a participação residual dos acionistas nos ativos da
companhia após a dedução de seus passivos. Em outras palavras, corresponde à
diferença contábil entre os recursos reconhecidos e as obrigações da empresa.
Nas sociedades
anônimas, o patrimônio líquido é formado por diferentes contas que demonstram a
origem dos investimentos, a acumulação e destinação dos resultados e
determinadas alterações patrimoniais.
Sua composição é
importante porque permite compreender como o capital dos acionistas está
estruturado e de que maneira os resultados influenciam a situação patrimonial
da companhia.
2.2
Capital Social e Reservas de Capital
O capital social
representa os valores subscritos pelos acionistas para a formação do capital da
sociedade. Ele pode ser aumentado ou reduzido mediante procedimentos
societários específicos, observadas as exigências legais.
As reservas de
capital possuem natureza diferente. Elas são constituídas a partir de
determinadas operações de capital previstas na legislação, não sendo originadas
diretamente do lucro das atividades empresariais.
Um exemplo é o
valor recebido pela companhia na emissão de ações que ultrapassa a parcela
destinada à formação do capital social.
Imagine que uma
companhia emita ações por R$ 120.000, destinando R$ 100.000 ao capital social e
R$ 20.000 à reserva de capital, conforme as condições da emissão. Nesse caso,
os dois valores integrarão o patrimônio líquido, mas serão apresentados em
contas diferentes.
Essa separação
permite identificar a origem dos recursos e aplicar corretamente as regras
legais sobre sua utilização.
2.3
Reservas de Lucros
As reservas de
lucros são constituídas por parcelas do lucro líquido destinadas a finalidades
previstas na legislação ou no estatuto social.
Elas podem contribuir para a manutenção da estrutura patrimonial, a realização de investimentos e a preparação da
companhia para determinadas situações futuras.
Entretanto, a
formação dessas reservas não depende apenas da vontade dos administradores. É
necessário observar as condições legais e os direitos dos acionistas.
Entre as
principais modalidades estão a reserva legal, as reservas estatutárias e a
reserva para contingências.
2.4
Reserva Legal
A reserva legal
tem como finalidade contribuir para a integridade do capital social. Conforme o
artigo 193 da Lei nº 6.404/1976, em regra, 5% do lucro líquido do exercício
devem ser destinados à sua constituição, antes de outras destinações, até que
seu saldo alcance 20% do capital social.
A legislação
também prevê uma hipótese em que a companhia poderá deixar de constituí-la,
relacionada à soma da reserva legal com determinadas reservas de capital.
Considere uma
sociedade anônima com lucro líquido de R$ 100.000. Se estiver sujeita à
constituição integral da reserva legal naquele exercício, deverá destinar R$
5.000 a essa finalidade.
Essa reserva
somente poderá ser utilizada para compensar prejuízos ou aumentar o capital
social, respeitando as disposições legais.
2.5
Reservas Estatutárias e para Contingências
As reservas
estatutárias são estabelecidas pelo estatuto social da companhia. Para sua
constituição, o documento deve indicar a finalidade, os critérios de cálculo e
o limite máximo da reserva.
Uma empresa pode,
por exemplo, prever uma reserva destinada a investimentos, desde que respeite
as condições legais aplicáveis.
Já a reserva para
contingências tem como finalidade compensar, em exercício futuro, uma possível
redução do lucro decorrente de perda considerada provável e cujo valor possa
ser estimado.
Imagine uma
companhia que identifica uma situação capaz de comprometer seus resultados
futuros. Mediante proposta fundamentada da administração e deliberação
societária, poderá constituir uma reserva para contingências, quando atendidos
os requisitos legais.
É importante não
confundir essa reserva, que integra o patrimônio líquido, com uma provisão
contábil para obrigação presente, que pode integrar o passivo.
2.6
Ajustes de Avaliação Patrimonial e Ações em Tesouraria
Os ajustes de
avaliação patrimonial representam determinadas contrapartidas de avaliações de
ativos e passivos reconhecidas diretamente no patrimônio líquido, conforme as
normas contábeis aplicáveis.
Esses ajustes não
devem ser confundidos com reservas de lucros, pois possuem origem e tratamento
próprios.
As ações em tesouraria, por sua
vez, são ações de emissão da própria companhia que foram
adquiridas por ela, observadas as condições legais e regulatórias.
Na contabilidade,
essas ações são apresentadas como dedução do patrimônio líquido. Sua aquisição
não representa uma despesa operacional comum, mas uma operação com instrumentos
patrimoniais próprios.
2.7
Prejuízos Acumulados
Nem sempre uma
sociedade anônima encerra o exercício com lucro. Quando as despesas e demais
efeitos negativos superam as receitas e os efeitos positivos reconhecidos no
resultado, a companhia pode apresentar prejuízo.
Os prejuízos
acumulados representam resultados negativos ainda não absorvidos e são
apresentados como redução do patrimônio líquido.
A legislação
estabelece uma ordem de absorção dos prejuízos, considerando lucros acumulados
e reservas de lucros, com utilização da reserva legal conforme as regras
aplicáveis.
O acompanhamento
desses valores é importante porque prejuízos persistentes podem comprometer a
estrutura patrimonial e exigir medidas administrativas.
Aula 3 – Apuração do Resultado e Distribuição de
Dividendos
3.1
Como é Apurado o Resultado do Exercício?
A apuração do
resultado consiste em identificar o desempenho econômico da companhia durante
determinado período, considerando receitas, custos, despesas e outros efeitos
reconhecidos contabilmente.
Quando os efeitos
positivos superam os negativos, a empresa apresenta lucro. Quando ocorre o
contrário, apresenta prejuízo.
O resultado é
demonstrado por meio da Demonstração do Resultado do Exercício (DRE), que
permite acompanhar a formação do lucro ou prejuízo.
Imagine uma
companhia com receita líquida de R$ 500.000, custos de R$ 300.000 e despesas
operacionais de R$ 120.000. Considerando apenas esses elementos, o resultado
será positivo em R$ 80.000, antes de eventuais outros efeitos, tributos e
participações aplicáveis.
Esse exemplo
mostra como o resultado depende não apenas do volume de vendas, mas também do
controle dos custos e das despesas.
3.2
Lucro Líquido e Destinação dos Resultados
O lucro líquido do
exercício representa o resultado final apurado depois das deduções e
participações aplicáveis.
Nas sociedades
anônimas, esse valor precisa receber destinação conforme a legislação e o
estatuto social.
A administração
apresenta uma proposta de destinação do lucro, que será submetida à deliberação
societária competente.
Entre as possibilidades estão a constituição de reservas, a distribuição de dividendos e a retenção de
lucros para investimentos, desde que observadas as exigências
legais.
Portanto, a
existência de lucro não significa que todo o valor possa permanecer livremente
na empresa ou ser distribuído sem critérios.
3.3
O que São Dividendos?
Dividendos são
parcelas dos lucros distribuídas aos acionistas, respeitando as regras legais e
estatutárias.
Eles representam
uma forma de remuneração do capital investido na companhia, embora sua
existência e seu valor dependam das condições aplicáveis a cada sociedade.
O pagamento de
dividendos não deve ser confundido com uma despesa operacional da companhia.
Trata-se de uma destinação de resultados aos proprietários.
Uma empresa pode
apresentar lucro e, ainda assim, precisar avaliar cuidadosamente sua
disponibilidade financeira para efetuar os pagamentos.
Isso acontece
porque lucro contábil e dinheiro disponível em caixa não são necessariamente a
mesma coisa.
3.4
Dividendos Obrigatórios
O dividendo
obrigatório é a parcela do lucro que os acionistas têm direito de receber,
calculada conforme as regras do estatuto social e da legislação.
Quando o estatuto
é omisso, aplica-se, em regra, o critério previsto no artigo 202 da Lei nº
6.404/1976: metade do lucro líquido ajustado pelas destinações e reversões
legalmente previstas.
Por exemplo, uma
companhia apresenta lucro líquido de R$ 200.000 e constitui reserva legal de R$
10.000. Não havendo outros ajustes e considerando o estatuto omisso, a base
será de R$ 190.000.
Nesse caso, o
dividendo obrigatório corresponderá a R$ 95.000.
É importante
observar que a legislação prevê situações específicas que podem alterar a
distribuição ou permitir tratamento diferenciado, conforme as condições
estabelecidas.
3.5
Retenção de Lucros para Investimentos
A retenção de
lucros ocorre quando a companhia mantém parte dos resultados para financiar
suas atividades ou realizar investimentos futuros, respeitando os procedimentos
legais.
Imagine uma
sociedade anônima que pretende construir uma nova unidade industrial. Para
reduzir a necessidade de empréstimos, a administração pode propor a retenção de
parte dos lucros, fundamentada em orçamento de capital.
Essa decisão
precisa observar as exigências societárias e não pode prejudicar indevidamente
o dividendo obrigatório.
A retenção de
lucros, portanto, deve estar associada a uma finalidade legítima e devidamente
justificada.
3.6
Registros Contábeis da Destinação dos Resultados
Depois da apuração do lucro líquido, a companhia deve
registrar contabilmente sua destinação.
Considere uma
sociedade anônima com lucro líquido de R$ 100.000. Suponha que sejam destinados
R$ 5.000 à reserva legal e R$ 47.500 a dividendos obrigatórios, sem outros
ajustes na base de cálculo.
O registro
simplificado da constituição da reserva legal será:
Débito: Lucros
Acumulados – R$ 5.000.
Crédito: Reserva
Legal – R$ 5.000.
Para o
reconhecimento dos dividendos obrigatórios devidos, o lançamento simplificado
será:
Débito: Lucros
Acumulados – R$ 47.500.
Crédito:
Dividendos a Pagar – R$ 47.500.
Esses lançamentos
pressupõem que o resultado já tenha sido transferido para a conta transitória
de lucros acumulados e que estejam atendidas as condições de reconhecimento dos
dividendos como obrigação.
O saldo restante
de R$ 47.500 deverá receber destinação regular, conforme as disposições legais
e societárias.
Os registros
permitem demonstrar como o lucro foi utilizado e quais valores passaram a
representar obrigações perante os acionistas.
Considerações
Finais do Módulo 2
A escrituração
contábil, a organização do patrimônio líquido e a destinação dos resultados são
atividades fundamentais para o funcionamento das sociedades por ações.
Neste módulo, foi
possível compreender como os registros contábeis representam as operações
empresariais e por que o método das partidas dobradas é essencial para manter o
equilíbrio das informações.
Também foram
apresentados os principais componentes do patrimônio líquido, especialmente as
reservas de capital e de lucros, além das regras relacionadas à apuração dos
resultados e à distribuição de dividendos.
Esses
conhecimentos permitem compreender que a contabilidade societária não se limita
ao registro das movimentações financeiras. Ela também contribui para a
organização do capital, a proteção dos interesses dos acionistas e o
planejamento das atividades empresariais.
No próximo módulo,
serão estudadas as demonstrações financeiras, sua interpretação e a importância
da transparência contábil para a tomada de decisões.
Referências
Bibliográficas
BRASIL. Lei nº
6.404, de 15 de dezembro de 1976. Dispõe sobre as Sociedades por Ações.
Brasília: Presidência da República, 1976.
BRASIL. Lei nº
11.638, de 28 de dezembro de 2007. Altera e revoga dispositivos da Lei nº
6.404/1976 e da Lei nº 6.385/1976. Brasília: Presidência da República, 2007.
BRASIL. Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009. Altera a legislação tributária federal e dá outras providências. Brasília: Presidência da
República, 2009.
COMITÊ DE
PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS. CPC 00 (R2) – Estrutura Conceitual para Relatório
Financeiro. Brasília: CPC, 2019.
COMITÊ DE
PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS. CPC 26 (R1) – Apresentação das Demonstrações
Contábeis. Brasília: CPC.
GELBCKE, Ernesto
Rubens; SANTOS, Ariovaldo dos; IUDÍCIBUS, Sérgio de; MARTINS, Eliseu. Manual de
Contabilidade Societária: Aplicável a Todas as Sociedades de Acordo com as
Normas Internacionais e do CPC. São Paulo: Atlas.
MARION, José
Carlos. Contabilidade Empresarial. São Paulo: Atlas.
RIBEIRO, Osni Moura. Contabilidade Geral. São Paulo: Saraiva.
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