ELABORAÇÃO DE PROJETOS SOCIAIS
MÓDULO 3 — Orçamento, parcerias e escrita final
(o “quanto”, “com quem” e “como vender a
ideia”)
Aula 7 — Orçamento sem trauma: quanto custa e por que
Quando a
gente chega na parte do orçamento, é muito comum sentir um friozinho na
barriga. Tem gente que ama essa etapa, mas a maioria dos iniciantes pensa logo:
“Pronto, agora complicou”. E eu entendo. Orçamento costuma ser associado a
burocracia, planilha, números e uma sensação de que qualquer erro vai
“estragar” o projeto. Só que dá para olhar por outro ângulo, bem mais leve: orçamento
é a história do seu projeto contada em valores. Ele mostra, de forma
concreta, o que você disse que vai fazer. É como se o projeto precisasse
provar, com números, que ele é possível.
Um
orçamento bem-feito não é o que tem o menor valor. É o que tem coerência.
Coerência entre o diagnóstico, os objetivos, a metodologia e as atividades. Se
você promete encontros semanais com 30 participantes, mas não prevê custo de
material básico, lanche ou transporte da equipe, algo não fecha. Se você diz
que vai acompanhar as pessoas por seis meses, mas não coloca nenhuma hora de
coordenação ou monitoria, também não fecha. O orçamento é justamente o lugar
onde a pergunta aparece: isso cabe na realidade?
Um
jeito simples de começar sem se perder é imaginar que o orçamento responde a
duas perguntas: (1) do que o projeto precisa para acontecer? (2) quanto isso
custa, de forma realista? A primeira pergunta é quase um exercício de
“inventário” do projeto: o que precisa existir para as atividades acontecerem?
E aqui vale lembrar que nem tudo é óbvio.
Muita gente lista material de oficina, mas
esquece impressão, internet, transporte, água, limpeza, pequenos reparos,
comunicação, e até coisas simples como caneta, fita, extensão, adaptador.
Quando você pensa em orçamento, pense em logística também. Projeto social é
lindo, mas acontece no mundo físico — e o mundo físico tem custos.
Antes de colocar preços, vale fazer uma lista ampla, sem censura, de tudo que o projeto pode precisar. Depois, você organiza em categorias. Isso ajuda muito a “enxergar” o orçamento e não ficar com aquela sensação de bagunça. Categorias comuns em projetos sociais são: recursos humanos, materiais e consumo, serviços de terceiros, transporte e logística, comunicação, infraestrutura (quando houver), e, em alguns editais, reserva técnica ou custos administrativos permitidos. Se você tiver
custos administrativos permitidos. Se você tiver um parceiro cedendo espaço,
isso também pode aparecer como contrapartida, mesmo que não seja dinheiro
entrando e saindo.
E
aqui entra um ponto essencial: recursos humanos quase sempre são o maior
custo — e isso é normal. Projetos sociais são feitos de gente: coordenação,
educadores, monitores, assistente social, psicólogo (quando aplicável),
administrativo, comunicação. Iniciantes às vezes têm medo de colocar custo de
equipe porque acham que “pega mal”, como se projeto social tivesse que ser tudo
voluntário. Mas é justamente o contrário: quando um projeto reconhece trabalho,
ele aumenta a chance de continuidade e qualidade. Voluntariado pode ser
maravilhoso, mas depender 100% dele para atividades centrais costuma gerar
instabilidade. O ideal é equilibrar: ter voluntários onde faz sentido, mas
garantir o mínimo de estrutura para não desmoronar.
Outra
confusão comum é achar que orçamento é só “chutar um valor”. Não é. Você
precisa justificar. Uma forma bem didática é usar a lógica: quantidade ×
valor unitário × número de vezes. Por exemplo: “lanche para 25
participantes por encontro × valor médio por pessoa × 12 encontros”. Ou
“impressão de apostilas: 25 unidades × X páginas × valor por página”. Ou ainda
“educador: 4 horas semanais × valor/hora × 12 semanas”. Quando você escreve
assim, qualquer pessoa entende de onde saiu o número. E, mais importante, você
mesmo entende — e pode ajustar com consciência.
Um
cuidado importante: orçamento não é “lista de desejos”; ele é um “mapa do
necessário”. Isso significa que você vai precisar fazer escolhas. Às vezes, o
orçamento disponível não dá para tudo. Nesse caso, você tem três caminhos
honestos: reduzir escopo, buscar parcerias/contrapartidas, ou reorganizar
a metodologia sem perder o objetivo. Por exemplo, se não dá para ter três
profissionais diferentes, talvez a equipe foque em um profissional principal e
monitores treinados. Se não dá para comprar material caro, talvez use materiais
recicláveis ou parcerias com comércio local. Se não dá para oferecer
transporte, talvez seja necessário escolher um local mais acessível ou negociar
apoio com a rede. Orçamento, no fundo, é a arte de equilibrar sonho e
possibilidade sem trair o propósito do projeto.
E já que falamos em parceria: uma parte muito importante do orçamento é reconhecer o que vem como contrapartida. Contrapartida é tudo aquilo que não entra como dinheiro no
caixa do projeto, mas que reduz custo e viabiliza a
execução. Um espaço cedido pela escola, por exemplo, tem valor. Uma empresa que
doa lanche tem valor. Um profissional que oferece horas voluntárias tem valor.
Registrar isso no projeto não é “enfeitar”; é mostrar força de articulação e
sustentabilidade. Só é preciso cuidado para não “contar duas vezes” e para não
prometer contrapartidas que não estão combinadas.
Também vale ficar atento às regras de cada edital ou financiador. Alguns não permitem comprar equipamentos; outros permitem, mas com limites. Alguns aceitam alimentação; outros não. Alguns pedem que custos administrativos sejam limitados a um percentual. Outros exigem três orçamentos para compras maiores. Por isso, uma dica prática é: orçamento é sempre feito em diálogo com o edital. O projeto pode ser o mesmo, mas o orçamento precisa respeitar o que é permitido. Quando você aprende a ler regras com calma, você evita retrabalho e frustração.
Um
ponto que parece detalhe, mas que muda a vida, é pensar em custos “invisíveis”
e em uma margem de segurança. Projetos quase sempre têm imprevistos: aumento de
preço, necessidade de material extra, transporte em dia de chuva, reposição de
equipamento, impressão a mais, demanda emergencial do público. Alguns editais
permitem uma reserva técnica ou um percentual para contingência; outros não.
Quando não permitem, a saída é planejar com prudência: pesquisar preços
atualizados, não subestimar quantidades e, se possível, garantir parcerias para
cobrir variáveis.
Depois
de montar o orçamento, vale fazer um teste de coerência: pegue a metodologia e
passe atividade por atividade perguntando: “o que essa atividade exige de
recursos?”. Você vai perceber rapidamente se esqueceu algo. Também vale
fazer o teste inverso: olhar um item do orçamento e perguntar: “isso está
ligado a qual atividade ou necessidade?”. Se não estiver ligado a nada,
provavelmente é excesso ou está mal explicado. Orçamento bom é aquele em que
cada linha tem uma razão de existir.
Para fechar a aula com uma visão mais humana: orçamento não é a parte “sem graça” do projeto. É a parte que garante dignidade e sustentabilidade. Um orçamento cuidadoso protege o projeto de promessas vazias e protege a equipe de sobrecarga. Ele é um compromisso com o público também, porque evita que o projeto comece e pare no meio por falta de previsão. Quando você aprende a orçar, você aprende a transformar intenção em
realidade com responsabilidade.
Como exercício prático, faça um rascunho de orçamento do seu projeto em três passos. Primeiro, liste tudo que o projeto precisa (sem valores). Segundo, organize por categorias (RH, materiais, serviços, transporte, comunicação). Terceiro, estime valores usando a lógica quantidade × unitário × frequência. Depois, olhe para o resultado e pergunte: “isso cabe no recurso que eu imagino buscar?”. Se não couber, ajuste escopo ou busque contrapartidas. Orçamento não é punição; é ferramenta de clareza. E clareza é o que sustenta projetos no mundo real.
Referências bibliográficas
BRASIL. Ministério do Planejamento,
Orçamento e Gestão. Manual de Custos no Governo Federal. Brasília: MPOG,
2012.
PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE (PMI). A
Guide to the Project Management Body of Knowledge (PMBOK® Guide). 7. ed.
Newtown Square: Project Management Institute, 2021.
UNDP. Handbook on Planning, Monitoring
and Evaluating for Development Results. New York: United Nations
Development Programme, 2009.
WORLD BANK. Procurement Regulations for
IPF Borrowers. Washington, DC: The World Bank, 2020.
OECD. Better Criteria for Better
Evaluation: Revised Evaluation Criteria – Definitions and Principles for Use.
Paris: OECD, 2019.
Aula 8 — Cronograma, equipe e parcerias:
fazendo o projeto caber na realidade
Chega
um ponto na construção de um projeto social em que a ideia já está clara, os
objetivos estão bem definidos e as atividades fazem sentido. Aí vem a parte que
decide se tudo isso vai mesmo acontecer: cronograma, equipe e parcerias.
É como sair do “plano bonito” e colocar o projeto no chão, com calendário,
responsabilidades e gente de verdade. E, sim, é uma etapa que dá um certo
nervoso — porque ela obriga a encarar limites. Mas também é uma etapa
libertadora: quando você organiza bem essa parte, o projeto para de parecer um
sonho distante e começa a parecer algo possível.
Vamos
começar pelo cronograma. Muita gente imagina cronograma como uma tabela rígida,
cheia de datas exatas. Só que, em projetos sociais, cronograma funciona melhor
quando ele tem estrutura e flexibilidade. O que precisa estar muito
claro não é o dia específico de cada atividade, mas as fases do projeto,
a frequência das ações e os principais marcos. Um cronograma bom é como uma
trilha bem-sinalizada: você sabe onde começa, quais são as etapas, onde você
faz pausas para conferir o caminho e onde termina.
Um jeito bem didático de
organizar o cronograma é pensar em três fases: preparação, execução e encerramento. A preparação é o período em que quase ninguém vê o projeto, mas ele está sendo construído por dentro. É quando você confirma parceiros, define equipe, organiza materiais, ajusta comunicação, faz inscrições, visita o território, combina uso de espaço, cria instrumentos de registro e afina a metodologia. Se você pula a preparação, o projeto até começa, mas começa tropeçando. E tropeçar no início custa caro, porque o público percebe rápido quando a iniciativa está desorganizada.
Na
fase de execução entram as atividades centrais: encontros, oficinas,
acompanhamentos, plantões, visitas, encaminhamentos, mentorias, reuniões com a
rede. Aqui, o segredo é lembrar que execução não é só “realizar encontros”. É
também manter a qualidade, garantir presença, fazer busca ativa quando alguém
some, registrar indicadores e ajustar o que precisar. Por isso, o cronograma da
execução precisa ter espaço para essas rotinas invisíveis. Quando o cronograma
é só “oficina, oficina, oficina”, o projeto fica sem tempo para cuidar do que
sustenta a permanência.
Já
o encerramento é a etapa que muita gente subestima. Encerrar não é “parar”.
Encerrar é fechar o ciclo com cuidado: avaliar resultados, ouvir o
público, registrar aprendizados, fazer devolutiva, reunir parceiros, produzir
relatório (quando necessário) e planejar próximos passos. Um encerramento bem-feito
deixa portas abertas, fortalece confiança e aumenta chance de continuidade. Um
encerramento apressado, sem despedida e sem prestação de contas, pode gerar
sensação de abandono — especialmente em públicos mais vulneráveis, que já
viveram muitas interrupções na vida.
Depois
do cronograma, vem a equipe. E aqui vale uma verdade simples: projeto social
não se sustenta na base do “todo mundo faz tudo” por muito tempo. No
começo, até pode ser assim, especialmente se for uma iniciativa pequena. Mas,
conforme o projeto cresce, a falta de clareza sobre papéis vira um problema:
tarefas se perdem, prazos estouram, pessoas se sobrecarregam, e o projeto fica
frágil. Definir equipe não é burocracia; é cuidado com as pessoas e com a
qualidade do trabalho.
Uma forma humana de organizar equipe é pensar em funções, não em títulos. Você pode chamar de coordenação, facilitador, monitor, articulador, apoio administrativo — o nome pode variar. O importante é ter clareza sobre responsabilidades. Normalmente, quase todo
projeto precisa de pelo menos estas funções (mesmo que
uma pessoa acumule mais de uma): coordenação (quem garante que tudo
anda), execução/facilitação (quem conduz as atividades), mobilização
e acompanhamento (quem fala com participantes, faz busca ativa, lembra
horários, acolhe), e registro/avaliação (quem garante listas,
indicadores e devolutivas).
Quando ninguém assume o registro, ele
sempre fica por último — e aí você perde a chance de aprender e de comprovar
resultados.
Uma
coisa que ajuda muito é escrever, em uma ou duas linhas, a missão de cada
papel. Algo como: “Coordenação: organizar calendário, garantir recursos,
articular parceiros e acompanhar execução”. “Facilitador: conduzir encontros e
ajustar metodologia”. “Monitor: apoiar dinâmicas, acolher participantes e
registrar presença”. “Articulador: manter diálogo com escola, CRAS e rede
local”. Isso parece simples, mas evita ruído e ansiedade. E, se o projeto tiver
voluntários, essa clareza é ainda mais importante, porque voluntários precisam
de tarefas bem definidas para não se sentirem perdidos ou explorados.
Agora,
sobre parcerias: aqui está um dos maiores segredos de projetos sociais
sustentáveis. Parceria não é enfeite. É estrutura. Projetos sociais
raramente conseguem fazer tudo sozinhos. E nem deveriam. Um projeto forte é
aquele que entende que faz parte de uma rede. Escola, unidade de saúde, CRAS,
associação de moradores, coletivos culturais, comércio local, universidade,
conselho tutelar, secretaria municipal… cada um pode contribuir de formas
diferentes. Mas parceria boa não nasce de pedido genérico (“apoia a gente?”).
Ela nasce de clareza: o que o projeto faz, o que precisa, e o que o parceiro
ganha ao se envolver.
É importante dizer isso com sinceridade: parceiro não entra só por caridade. Ele entra porque aquilo faz sentido para ele. Pode ser por missão institucional, por responsabilidade social, por visibilidade, por interesse em resultados comunitários, por obrigação legal em alguns casos, ou por vínculo afetivo com o território. Não tem problema. O que importa é construir uma parceria que seja boa para os dois lados e, principalmente, boa para o público.
Para organizar parcerias sem se perder, ajuda fazer um “mapa simples”. De um lado, liste suas necessidades: espaço, lanche, materiais, divulgação, transporte, encaminhamentos, profissionais, certificação, acesso a dados (com ética), etc. Do outro lado, liste possíveis parceiros que
podem oferecer cada coisa. Depois,
pense na contrapartida: o que você oferece? Às vezes é reconhecimento,
relatório de resultados, logomarca em divulgação, certificado, participação em
eventos, fortalecimento da imagem institucional no território, ou simplesmente
a realização de uma missão que o parceiro já tem. Quando você trata a parceria
como troca justa, ela fica mais sustentável.
Também
é importante que parceria tenha combinado claro, mesmo que simples. Não precisa
de contrato gigante para tudo, mas é bom registrar por escrito (nem que seja
por e-mail ou termo simples): o que será oferecido, por quanto tempo, com que
frequência, qual ponto de contato e quais limites. Isso evita frustração. Por
exemplo, a padaria pode doar lanche, mas talvez não consiga em todos os
encontros — e isso precisa estar acordado para não virar cobrança. A escola
pode ceder sala, mas pode ter semanas com prova. O CRAS pode receber
encaminhamentos, mas dentro de critérios. Projeto social funciona melhor quando
o combinado protege as relações.
Um
erro comum nessa fase é colocar no projeto uma lista enorme de parceiros “de
nome”, sem parceria real. Fica bonito para um edital, mas é frágil. É muito
melhor ter dois ou três parceiros confirmados e alinhados do que dez
parceiros citados sem conversa. Financiadores e avaliadores experientes
percebem quando é “parceria de vitrine”. E, mais importante ainda, o território
percebe.
Outra
coisa importante é pensar em rotina de comunicação com a rede. Não adianta ter
parceiros se ninguém conversa. Às vezes, uma reunião rápida mensal com
parceiros-chave já resolve: alinhar demandas, discutir casos (com sigilo),
ajustar fluxo, avisar sobre mudanças. Isso não só melhora execução como evita
conflitos e retrabalho. Projetos sociais que funcionam bem são, muitas vezes,
projetos que comunicam bem — dentro e fora.
Para
fechar esta aula, vale uma imagem: cronograma é o esqueleto, equipe é o
músculo, parcerias são os ligamentos. Se um desses três falha, o projeto perde
movimento. Se os três estão bem alinhados, o projeto caminha. E caminha mesmo
quando chove, mesmo quando falta voluntário em um dia, mesmo quando o espaço
muda. Porque existe um plano, existe responsabilidade distribuída e existe
rede.
Como atividade prática, você pode fazer três entregas simples: (1) um cronograma por fases, com marcos principais e frequência das ações; (2) um quadro de equipe com funções e
responsabilidades; (3) um mapa de parcerias com necessidades, possíveis parceiros e contrapartidas. Depois, faça uma pergunta honesta: “com esse arranjo, o projeto cabe na realidade do território e da equipe?”. Se a resposta for “quase”, ajuste. Projeto social bom não é o mais ambicioso. É o que consegue acontecer com dignidade, consistência e cuidado.
Referências bibliográficas
BRASIL. Ministério do Desenvolvimento
Social e Combate à Fome. Orientações Técnicas: Centro de Referência de
Assistência Social — CRAS. Brasília: MDS, 2009.
PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE (PMI). A
Guide to the Project Management Body of Knowledge (PMBOK® Guide). 7. ed.
Newtown Square: Project Management Institute, 2021.
UNDP. Handbook on Planning, Monitoring
and Evaluating for Development Results. New York: United Nations
Development Programme, 2009.
OECD. Better Criteria for Better
Evaluation: Revised Evaluation Criteria – Definitions and Principles for Use.
Paris: OECD, 2019.
CHAMBERS, Robert. Rural Development:
Putting the Last First. London: Longman, 1983.
KUSEK, Jody Zall; RIST, Ray C. Ten Steps
to a Results-Based Monitoring and Evaluation System. Washington, DC: The
World Bank, 2004.
Aula 9 — Como escrever o projeto e
apresentar para edital ou patrocínio (sem “texto bonito” vazio)
Chegamos
à reta final: você já entendeu o problema, definiu público, construiu
objetivos, desenhou metodologia, pensou em indicadores, organizou orçamento,
cronograma, equipe e parcerias. Agora vem uma etapa que, para muita gente,
parece a mais difícil: escrever o projeto e apresentar para alguém
apoiar. E eu já adianto uma coisa que costuma aliviar: você não precisa ser “um
escritor profissional” para fazer isso bem. O que você precisa é clareza,
coerência e verdade. Um bom texto de projeto não é o mais rebuscado; é o
que dá para entender e dá vontade de apoiar porque faz sentido.
Pense
no avaliador de um edital (ou no gestor de uma empresa patrocinadora). Essa
pessoa lê muitos projetos. A maioria tem boas intenções. O que diferencia os
que se destacam é que eles conseguem responder, sem enrolação, três perguntas: (1)
Qual é o problema e por que ele importa? (2) O que exatamente vocês vão fazer e
com quem? (3) Como vocês vão provar que fizeram e que gerou mudança? Se o
seu texto entrega isso com segurança, você já está à frente de muita gente.
Um erro clássico nessa fase é escrever como se o projeto fosse um anúncio. A pessoa tenta “vender” com frases
grandiosas: “transformaremos a realidade”, “promoveremos cidadania”, “mudaremos o futuro”. Só que quem avalia projeto não compra promessa; compra viabilidade. Então, em vez de exagerar, o melhor caminho é mostrar que você conhece o território, que tem um plano possível e que está preparado para acompanhar resultados. Em projetos sociais, humildade bem estruturada convence mais do que grandiosidade vazia.
Vamos
falar sobre estrutura, porque estrutura ajuda a organizar a escrita e diminui a
ansiedade. De modo geral, um projeto social para edital ou patrocínio fica
muito bem com uma sequência simples: título, resumo executivo, contexto
e problema (diagnóstico), público-alvo, objetivos, metodologia
e atividades, indicadores e avaliação, cronograma, orçamento,
equipe e parcerias, e, quando fizer sentido, sustentabilidade/continuidade.
Não é obrigatório seguir exatamente essa ordem sempre, mas ela é uma espécie de
“mapa” que costuma funcionar porque conduz o leitor do problema à solução, e da
solução à prova.
O
título parece detalhe, mas é a primeira impressão. Títulos muito
genéricos (“Projeto Esperança”, “Projeto Transformar”) não ajudam. Um bom
título sugere o foco e o público. Algo como “Rota Escola: apoio à permanência
escolar de jovens do bairro X” já diz muita coisa sem ser longo. O título não
precisa ser poético; precisa ser identificável.
Logo
depois vem o resumo executivo, que é uma das partes mais importantes do
projeto e, ao mesmo tempo, uma das mais maltratadas. Muita gente escreve um
resumo tão vago que não serve para nada. O resumo executivo deveria ser um
parágrafo (ou dois) que, em poucas linhas, conta o essencial: problema,
público, objetivo, principais estratégias, duração e resultado esperado. Pense
nele como a “porta de entrada”. Se o resumo for claro, o leitor entra no
projeto com confiança. Se for confuso, ele já entra desconfiado.
O trecho de contexto e problema é onde você mostra que não está falando “de ouvido”. Aqui, vale usar linguagem simples e dados na medida certa. Dados não são para impressionar; são para sustentar. E o mais importante: o diagnóstico precisa deixar claro o recorte. Em vez de “há muita evasão escolar”, diga “na Escola Aurora, turmas do 1º e 2º ano apresentam faltas recorrentes e risco de evasão, principalmente entre estudantes que trabalham no contraturno”. Quando você é específico, o projeto parece real. Quando você é genérico, o projeto parece um texto que poderia
ser usado em qualquer lugar — e
isso enfraquece.
Na
parte de público-alvo, o segredo é escrever como se você estivesse
apresentando essas pessoas para alguém que nunca as viu. Quem são? Onde
vivem/estudam? Qual faixa etária? Qual condição relacionada ao problema? E, se
houver, qual critério de prioridade? Isso precisa estar tão claro que a pessoa
consiga imaginar quem estará na sala quando o projeto acontecer. Aqui também é
um bom lugar para demonstrar cuidado com barreiras de participação: horário,
acesso, transporte, cuidado com crianças, linguagem. Isso mostra maturidade.
A
seção de objetivos costuma ser curta, mas precisa ser precisa. Um
objetivo geral alinhado ao problema e objetivos específicos que conduzam à
ação. Evite transformar objetivo em atividade (“realizar oficinas”). Prefira
falar de mudança (“reduzir faltas”, “ampliar participação”, “aumentar acesso”,
“fortalecer competências”). E evite promessas que não dependem do projeto. É
melhor dizer “contribuir para” do que “garantir que”. O leitor confia mais
quando você reconhece limites.
Quando
você chega na metodologia e atividades, é a hora de fazer o leitor
“enxergar” o projeto acontecendo. Uma metodologia bem escrita tem ritmo: ela
descreve como o projeto começa, como se organiza, como mantém participação,
como acompanha pessoas, como se articula com a rede e como finaliza. E as
atividades precisam ser descritas com consistência: o que será feito, para
quem, com que frequência, por quanto tempo, onde, por quem. O objetivo aqui é
que alguém consiga ler e pensar: “Isso é executável”. Se o avaliador termina
essa seção ainda sem saber como será o dia a dia do projeto, ele tende a
considerar o projeto frágil.
A
seção de indicadores e avaliação é onde você dá segurança. Não precisa
ser um capítulo gigantesco. Precisa ser honesto e útil. Mostre poucos
indicadores bem escolhidos: alguns de processo (execução) e alguns de resultado
(mudança no público). Diga como vai coletar: lista de presença, ficha de
acompanhamento, formulário curto, entrevistas de encerramento, registros do
serviço parceiro (com ética). O que convence aqui é a sensação de que vocês vão
acompanhar de verdade — e que vão aprender com o que acontecer.
Depois entra o cronograma, que mostra organização. Em vez de colocar datas rígidas que podem mudar, muitas vezes é melhor apresentar por semanas ou meses, em fases: preparação, execução e encerramento. Coloque marcos principais
rígidas que podem mudar, muitas vezes é melhor apresentar por semanas ou meses,
em fases: preparação, execução e encerramento. Coloque marcos principais
(inscrição, início das atividades, avaliações intermediárias, encerramento,
relatório). Cronograma bem-feito passa uma mensagem simples: “a gente sabe como
conduzir isso no tempo”.
O
orçamento é onde o projeto prova coerência. Muita gente tem medo de
parecer “caro”, mas o que pesa mesmo é o orçamento sem lógica. Quando você
apresenta itens com quantidade, valor unitário e justificativa ligada às
atividades, o orçamento deixa de ser “número” e vira “plano concreto”. E se
houver contrapartida (espaço cedido, doações, voluntariado estruturado),
registre. Isso mostra força de rede e sustentabilidade.
A
parte de equipe e parcerias é onde você mostra que não é um “projeto sem
mãos”. Diga quem faz o quê. Mesmo que sejam poucas pessoas, descreva funções e
experiência relevante. Não precisa inflar currículo; precisa mostrar
capacidade. E nas parcerias, seja verdadeiro: é melhor citar menos parceiros,
mas com papel bem definido, do que listar nomes sem acordo. Se possível,
mencione como a parceria será mantida (reuniões periódicas, ponto focal, fluxo
de encaminhamento).
Por fim, quando for necessário, entre no tema da sustentabilidade. Sustentabilidade não é prometer que o projeto vai durar para sempre. É mostrar como ele pode continuar ou se consolidar: formação de equipe local, produção de materiais reaproveitáveis, fortalecimento de rede, busca de novos editais, contrapartidas comunitárias, ou incorporação de rotinas por instituições parceiras. Às vezes, a sustentabilidade está em criar um modelo que pode ser replicado, ou em deixar um método que permanece mesmo se o financiamento acabar.
Agora,
um ponto que transforma a escrita: o tom. Texto de projeto não precisa
ser frio. Ele precisa ser claro e respeitoso. Você pode escrever de forma
humana, desde que mantenha objetividade. Evite excesso de adjetivos
(“incrível”, “maravilhoso”, “grandioso”). Prefira verbos práticos (“realizar”,
“acompanhar”, “oferecer”, “articular”, “registrar”, “avaliar”). E cuide do
ritmo: parágrafos curtos, frases diretas, termos explicados quando necessário.
Lembre-se: quem lê pode não conhecer seu território, então você é a ponte.
Para apresentar o projeto — seja em edital, reunião com empresa, ou conversa com parceiro — existe uma estratégia simples que funciona muito bem: a
apresentação em três camadas. A primeira camada é um pitch de 1 minuto:
problema, público, solução, resultado esperado. A segunda camada é um resumo de
5 minutos: objetivos, metodologia, cronograma e como será avaliado. A terceira
camada é o detalhamento completo: orçamento, equipe, parcerias, riscos e plano
de execução. Quando você domina essas três camadas, você adapta seu discurso a
qualquer situação sem se perder.
E
já que falamos em discurso: uma dica valiosa é preparar respostas para
perguntas que sempre aparecem. “Por que esse público?”, “Como vocês garantem
adesão?”, “Como medem resultado?”, “O que acontece se der errado?”, “Que
parceria sustenta o projeto?”, “Qual o custo por participante?”, “Como evitam
dependência?”. Você não precisa decorar respostas prontas. Mas pensar nelas
antes te dá segurança e evita improviso nervoso.
Encerrando
esta aula, a ideia central é: um projeto bem escrito é um projeto que
respeita o leitor e respeita o público. Respeita o leitor porque não
enrola, não exagera, não promete o impossível. Respeita o público porque
descreve ações viáveis, cuidadosas e acompanhadas. Escrever um projeto é, de
certa forma, assumir um compromisso: “eu sei o que estou propondo, sei com quem
estou propondo, e estou preparado para executar e aprender”. Quando seu texto
passa essa mensagem, ele não só tem mais chance de aprovação — ele também se
torna um guia real para a equipe.
Referências bibliográficas
PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE (PMI). A
Guide to the Project Management Body of Knowledge (PMBOK® Guide). 7. ed.
Newtown Square: Project Management Institute, 2021.
KUSEK, Jody Zall; RIST, Ray C. Ten Steps
to a Results-Based Monitoring and Evaluation System. Washington, DC: The
World Bank, 2004.
OECD. Better Criteria for Better
Evaluation: Revised Evaluation Criteria – Definitions and Principles for Use.
Paris: OECD, 2019.
UNDP. Handbook on Planning, Monitoring
and Evaluating for Development Results. New York: United Nations
Development Programme, 2009.
BRASIL. Controladoria-Geral da União. Manual
de Orientações para Elaboração de Projetos e Prestação de Contas de Recursos
Públicos. Brasília: CGU, 2017.
EUROPEAN COMMISSION. Project Cycle
Management Guidelines. Brussels: European Commission, 2004.
Estudo de caso do Módulo 3
“O Projeto Aprovado… que Quase Quebrou na
Primeira Semana”
Depois de muito ajuste, o Projeto Recomeçar estava finalmente redondo: diagnóstico claro, público bem recortado,
objetivos bem escritos, metodologia
enxuta e indicadores possíveis. A equipe estava animada e, pela primeira vez,
confiante. Eles decidiram se inscrever em um edital municipal de apoio a
iniciativas comunitárias.
E aí veio a notícia: APROVADO.
Teve
comemoração, print no grupo, abraço na escola, mensagem para os parceiros.
Parecia que o mais difícil tinha passado.
Mas
o Módulo 3 existe para lembrar uma coisa essencial: aprovação não é
execução.
Na verdade, a execução de verdade começa agora — e é justamente aqui que
projetos bons “se perdem” por erros bem comuns em orçamento, cronograma,
equipe/parcerias e escrita/apresentação.
A seguir, você vai ver os tropeços que quase derrubaram o Recomeçar — e o que eles fizeram para evitar que o projeto virasse só “um projeto aprovado no papel”.
Parte 1 — Orçamento: o dinheiro existe, mas
não dá para usar
Erro comum 1: Orçar sem ler as regras (e
descobrir tarde demais)
No primeiro mês, a equipe planejou comprar:
Só depois perceberam que o edital não
permitia compra de equipamentos permanentes com aquele recurso. E, pior: o
dinheiro do projeto ainda demoraria algumas semanas para cair, porque havia
etapas de documentação e assinatura.
O que aconteceu na prática:
As aulas iam começar e eles estavam sem estrutura mínima: sem material
impresso, sem lanche garantido para todos os encontros, sem como pagar um
educador temporário.
Como evitar:
Como eles corrigiram (decisão inteligente):
Lição do módulo 3:
Orçamento não é lista de desejos. É um mapa de sobrevivência do projeto.
Erro comum 2: Esquecer custos invisíveis (e
estourar no meio)
O orçamento original tinha “oficina”,
“lanche” e “educador”. Só que ninguém tinha previsto:
O que aconteceu:
Na terceira semana, o dinheiro “sumiu” e começou a sensação de que o projeto
estava caro demais.
Como evitar:
Como eles corrigiram:
Parte 2 — Cronograma: quando o calendário
ignora a realidade do território
Erro comum 3: Cronograma “lindo” que
confronta a vida real
O projeto tinha marcado atividades em
semanas que coincidiam com:
O que aconteceu:
A presença despencou e a equipe achou que “o projeto esfriou”. Na verdade, o
cronograma é que estava fora do ritmo do território.
Como evitar:
Como eles corrigiram:
1.
preparação e mobilização,
2.
encontros semanais + plantões quinzenais,
3.
avaliação intermediária,
4.
fechamento e devolutiva.
Lição:
Cronograma bom não é o mais cheio. É o que consegue acontecer com consistência.
Parte 3 — Equipe e parcerias: quando “todo
mundo faz tudo” vira burnout
Erro comum 4: Não definir responsabilidades
(e sobrecarregar uma pessoa)
Na prática, a professora Ana estava:
Em duas semanas, ela estava exausta.
Como evitar:
o coordenação
o facilitação
o mobilização/acompanhamento
o registro/avaliação
Como eles corrigiram:
Lição:
Projeto social não quebra só por falta de dinheiro. Quebra por falta de
estrutura humana.
Erro comum 5: Parceria “de boca” (sem
combinado claro)
A padaria tinha prometido lanche “sempre
que desse”. No primeiro mês, ajudou bastante. No segundo, parou sem avisar,
porque teve problemas internos.
A equipe ficou sem lanche no dia do
encontro. Os jovens chegaram e perguntaram: “Hoje não tem?”. O clima pesou.
Como evitar:
o o quê
o com que frequência
o por quanto tempo
o quem é o contato
o quais limites
Como eles corrigiram:
Lição:
Parceria forte é parceria combinada. Boa intenção sem acordo vira
instabilidade.
Parte 4 — Escrita e apresentação: o projeto
é bom, mas “não convence”
Erro comum 6: Escrever para parecer
importante, não para ser compreendido
Antes de aprenderem, o texto do Recomeçar
tinha frases como:
“promoveremos protagonismo juvenil e cidadania plena por meio de metodologias
inovadoras”.
Bonito, mas vago. Na banca do edital, isso
não se sustenta.
Como evitar:
o problema recortado
o público definido
o objetivo de mudança
o metodologia
executável
o indicadores simples
Como eles corrigiram (o que fez diferença):
Lição:
Texto bom é texto que dá para ver acontecendo.
Como o caso termina (e o que ele ensina)
No fim, o Recomeçar não só executou o
projeto — como terminou com um relatório simples, mas forte: presença média,
evolução de frequência escolar, relatos de participantes e um plano de
continuidade com parceiros. Eles não viraram “um projeto perfeito”. Viraram um
projeto real, que aprende e se ajusta.
E isso é, muitas vezes, o que mais convence um patrocinador:
consistência.
Checklist do Módulo 3 (erros comuns e
antídotos)
1.
Erro: não ler regras do edital com atenção
Antídoto: checklist de “pode/não pode” + plano para atraso de repasse
2.
Erro: esquecer custos invisíveis
Antídoto: revisão atividade por atividade + categoria logística
3.
Erro: cronograma que ignora o território
Antídoto: fases + consulta a parceiros + semanas coringa
4.
Erro: equipe sem papéis claros
Antídoto: funções mínimas + distribuição de responsabilidade
5.
Erro: parceria sem combinado
Antídoto: acordo simples por escrito + plano B
6.
Erro: texto bonito e vago
Antídoto: clareza, recorte, método e indicadores enxutos
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