Apostila 3 — Curso Gestão de Pragas na Cana de Açúcar

GESTÃO DE PRAGAS NA CANA-DE-AÇUCAR

 

Módulo 3 – Gestão Sustentável e Planejamento do Controle

Aula 1 Planejamento anual do manejo 

 

O sucesso da gestão de pragas na cana-de-açúcar não depende apenas da capacidade de controlar uma infestação quando ela aparece. Na realidade, os melhores resultados são alcançados quando o produtor planeja suas ações antes mesmo do início da safra. O planejamento anual permite antecipar riscos, organizar as atividades da equipe, reduzir custos e tornar o manejo mais eficiente. Em vez de agir apenas em situações de emergência, a propriedade passa a trabalhar de forma preventiva, utilizando informações técnicas para proteger o potencial produtivo do canavial. O Manejo Integrado de Pragas (MIP) recomenda exatamente essa abordagem, baseada em planejamento, monitoramento e tomada de decisão fundamentada em dados de campo.

O primeiro passo para um bom planejamento é conhecer o histórico da área cultivada. Informações sobre as pragas que ocorreram em safras anteriores, os locais mais afetados, as épocas de maior incidência e os métodos de controle utilizados ajudam a identificar padrões de ocorrência. Com esse histórico, o produtor consegue prever quais problemas têm maior probabilidade de surgir e preparar estratégias adequadas para enfrentá-los antes que causem prejuízos.

Outro aspecto importante é avaliar as características da propriedade. O tipo de solo, a disponibilidade de água, o regime de chuvas, a temperatura da região e a presença de áreas vizinhas cultivadas influenciam diretamente a dinâmica das populações de pragas. Além disso, variedades de cana podem apresentar diferentes níveis de suscetibilidade a determinados insetos. Considerar esses fatores durante o planejamento permite escolher práticas de manejo mais eficientes para cada situação.

A definição de um calendário de monitoramento também faz parte do planejamento anual. As inspeções não devem ocorrer apenas quando surgem sintomas de ataque, mas durante todo o ciclo da cultura. Estabelecer uma frequência para as avaliações facilita a identificação precoce das pragas e reduz a necessidade de medidas corretivas mais caras. Dependendo das condições da lavoura e da época do ano, o monitoramento pode ser semanal, quinzenal ou mensal, sempre adaptado à realidade da propriedade.

Durante esse planejamento, também é importante organizar os recursos necessários para o manejo. Equipamentos de monitoramento, armadilhas, materiais para coleta de amostras,

equipamentos de proteção individual (EPIs), produtos biológicos e defensivos registrados devem estar disponíveis antes que ocorram infestações. Essa preparação evita atrasos nas ações de controle e reduz os riscos de perdas causadas pela demora na tomada de decisões.

Outro elemento fundamental é integrar diferentes estratégias de manejo. O planejamento deve prever práticas culturais, como o uso de mudas sadias, eliminação de restos vegetais excessivamente infestados, manutenção da fertilidade do solo e escolha de variedades adaptadas às condições locais. Essas medidas fortalecem as plantas e reduzem as condições favoráveis ao desenvolvimento das principais pragas da cultura. Quando associadas ao monitoramento e ao controle biológico, aumentam significativamente a eficiência do programa de manejo.

O controle biológico também deve ser considerado durante o planejamento anual. A programação das liberações de parasitoides ou da aplicação de fungos entomopatogênicos depende do ciclo das pragas e das condições ambientais. Quando essas ações são planejadas antecipadamente, sua eficiência tende a ser maior, pois os agentes biológicos são utilizados no momento mais adequado para controlar as populações de insetos.

As condições climáticas exercem grande influência sobre a ocorrência das pragas e, por isso, também precisam ser consideradas. Períodos de maior umidade, temperaturas elevadas ou estiagens prolongadas podem favorecer determinadas espécies. Acompanhar previsões meteorológicas e utilizar dados climáticos como ferramenta de apoio ajuda a definir o momento ideal para intensificar o monitoramento ou realizar intervenções, tornando o manejo mais eficiente.

Outra prática importante é manter registros detalhados de todas as atividades realizadas. Informações sobre datas de monitoramento, espécies encontradas, intensidade das infestações, produtos utilizados, métodos de controle adotados e resultados obtidos constituem um banco de dados valioso para o planejamento das próximas safras. Esses registros permitem avaliar quais estratégias apresentaram melhor desempenho e quais precisam ser ajustadas.

O planejamento anual também favorece a capacitação da equipe. Funcionários treinados conseguem identificar precocemente os sintomas das principais pragas, realizar inspeções com maior qualidade e aplicar corretamente as técnicas de manejo. Investir em treinamento reduz erros operacionais e melhora a eficiência das ações desenvolvidas na propriedade.

Por fim, é

importante compreender que o planejamento não é um documento fixo. Ao longo da safra, novas informações obtidas durante o monitoramento podem exigir adaptações nas estratégias inicialmente previstas. Um bom programa de manejo deve ser flexível, permitindo ajustes sempre que houver mudanças nas condições da lavoura ou no comportamento das pragas.

Em síntese, o planejamento anual do manejo de pragas representa uma das etapas mais importantes para o sucesso da produção de cana-de-açúcar. Quando baseado em informações técnicas, histórico da propriedade, monitoramento contínuo e integração de diferentes métodos de controle, ele contribui para reduzir perdas, diminuir custos, preservar os recursos naturais e aumentar a produtividade de forma sustentável.

Referências bibliográficas

  • BORÉM, A.; SANTOS, F. (Org.). Cana-de-Açúcar: do Plantio à Colheita. Viçosa: Editora UFV.
  • DINARDO-MIRANDA, L. L. Pragas da Cana-de-Açúcar. Campinas: Instituto Agronômico.
  • EMBRAPA. Manejo Integrado de Pragas e Doenças da Cana-de-Açúcar. Brasília: Embrapa.
  • EMBRAPA. Pragas da Cana-de-Açúcar. Brasília: Embrapa.
  • GALLO, D. et al. Entomologia Agrícola. Piracicaba: FEALQ.
  • PINTO, A. S.; LOPES, V. L.; LIMA, A. A. Manejo de Pragas da Cana-de-Açúcar. In: Cana-de-Açúcar: do Plantio à Colheita. Viçosa: Editora UFV.


Aula 2 Tecnologias aplicadas ao monitoramento

 

A evolução tecnológica transformou profundamente a forma como as lavouras de cana-de-açúcar são monitoradas. Se antes a identificação de pragas dependia quase exclusivamente de inspeções visuais realizadas por técnicos e produtores, hoje diversas ferramentas digitais tornam esse processo mais rápido, preciso e eficiente. Essas tecnologias não substituem o conhecimento do profissional de campo, mas ampliam sua capacidade de identificar problemas precocemente e tomar decisões mais assertivas. Quando utilizadas dentro do Manejo Integrado de Pragas (MIP), elas contribuem para reduzir perdas, otimizar recursos e aumentar a sustentabilidade da produção.

O monitoramento continua sendo a principal etapa da gestão de pragas, mas agora pode ser realizado com o auxílio de equipamentos que coletam informações em grande escala. Drones, sensores, sistemas de posicionamento global (GPS), imagens de satélite e softwares de agricultura de precisão permitem acompanhar o desenvolvimento da lavoura de forma detalhada, identificando alterações que muitas vezes não seriam percebidas apenas

durante caminhamentos no campo. Essas ferramentas fornecem dados importantes para direcionar as inspeções e priorizar áreas que realmente necessitam de atenção.

Os drones têm ganhado destaque entre as tecnologias utilizadas na agricultura moderna. Equipados com câmeras de alta resolução ou sensores multiespectrais, eles realizam voos programados sobre os canaviais, produzindo imagens capazes de revelar diferenças de desenvolvimento entre as plantas. Alterações na coloração da vegetação, falhas de brotação ou manchas com crescimento irregular podem indicar a presença de pragas, doenças ou outros fatores que comprometem a produtividade. Dessa forma, o produtor consegue localizar rapidamente os focos de infestação e direcionar as inspeções de campo para essas áreas específicas.

Outra ferramenta importante é o sensoriamento remoto. Por meio de imagens obtidas por satélites ou aeronaves, é possível acompanhar a evolução dos talhões ao longo da safra, comparando diferentes períodos e identificando mudanças no comportamento das plantas. Embora essas imagens não substituam a confirmação realizada no campo, elas representam um importante apoio para o planejamento das atividades de monitoramento e manejo fitossanitário.

Os sistemas de georreferenciamento também desempenham papel fundamental. Utilizando receptores de GPS, cada ponto monitorado na propriedade pode ser registrado com precisão. Isso permite elaborar mapas das áreas infestadas, acompanhar a evolução das pragas ao longo do tempo e concentrar as ações de controle apenas onde realmente são necessárias. Essa estratégia reduz desperdícios de insumos, diminui custos operacionais e contribui para uma produção mais sustentável.

Além dos equipamentos utilizados em campo, os softwares de gestão agrícola tornaram-se importantes aliados do produtor. Esses programas armazenam informações sobre monitoramentos, histórico de infestações, aplicações de defensivos, liberações de agentes biológicos e condições climáticas. A organização desses dados facilita a tomada de decisões e permite avaliar a eficiência das estratégias adotadas em cada safra. Com o histórico disponível, torna-se mais fácil identificar padrões de ocorrência das pragas e planejar ações preventivas para os anos seguintes.

Os aplicativos móveis também têm facilitado o trabalho das equipes de campo. Durante as inspeções, técnicos podem registrar fotografias, localização geográfica, espécie encontrada, intensidade da infestação e observações

diretamente no celular ou tablet. Essas informações são enviadas para bancos de dados digitais, reduzindo erros de anotação e permitindo que gestores acompanhem a situação da propriedade praticamente em tempo real.

Outro recurso que vem sendo incorporado ao monitoramento é o uso de armadilhas inteligentes. Algumas utilizam sensores ou câmeras capazes de registrar automaticamente a presença de determinados insetos e enviar essas informações para plataformas digitais. Embora ainda estejam em processo de expansão em muitas regiões produtoras, essas tecnologias apresentam grande potencial para tornar o monitoramento mais contínuo e preciso.

A agricultura de precisão também possibilita integrar diferentes fontes de informação. Dados climáticos, análises de solo, imagens aéreas e registros de monitoramento podem ser reunidos em um único sistema, oferecendo uma visão completa da lavoura. Essa integração permite compreender melhor a relação entre fatores ambientais e a ocorrência de pragas, favorecendo decisões técnicas mais seguras e eficientes.

Apesar dos avanços tecnológicos, é importante destacar que nenhuma ferramenta substitui completamente a experiência do profissional de campo. Os equipamentos fornecem informações valiosas, mas a interpretação correta dos dados depende do conhecimento técnico sobre a biologia das pragas, as características da cultura e as condições da propriedade. A combinação entre tecnologia e experiência humana produz os melhores resultados no manejo fitossanitário.

Outro aspecto relevante é que a adoção dessas tecnologias não precisa ocorrer de forma imediata ou em grande escala. Pequenos e médios produtores podem iniciar com ferramentas mais simples, como aplicativos de registro de monitoramento, GPS de dispositivos móveis ou imagens obtidas por drones contratados de empresas especializadas. À medida que a propriedade evolui, novas tecnologias podem ser incorporadas conforme as necessidades e a disponibilidade de investimento.

Em síntese, o uso de tecnologias no monitoramento das pragas representa um importante avanço para a produção de cana-de-açúcar. Drones, sensores, georreferenciamento, softwares e aplicativos tornam o acompanhamento da lavoura mais preciso, permitindo identificar problemas com maior rapidez e direcionar as ações de manejo de forma eficiente. Integradas aos princípios do Manejo Integrado de Pragas, essas ferramentas contribuem para reduzir perdas, otimizar recursos, preservar o meio ambiente e aumentar a

competitividade da atividade agrícola.

Referências bibliográficas

  • BORÉM, A.; SANTOS, F. (Org.). Cana-de-Açúcar: do Plantio à Colheita. Viçosa: Editora UFV.
  • DINARDO-MIRANDA, L. L. Pragas da Cana-de-Açúcar. Campinas: Instituto Agronômico.
  • EMBRAPA. Agricultura de Precisão. Brasília: Embrapa.
  • EMBRAPA. Manejo Integrado de Pragas e Doenças da Cana-de-Açúcar. Brasília: Embrapa.
  • GREGO, C. R.; SPERANZA, E. A.; SANCHES, G. M. et al. Aplicação da Agricultura de Precisão em Cana-de-Açúcar. Brasília: Embrapa.
  • CAMARGO, F. M. Monitoramento de Pragas na Cultura da Cana-de-Açúcar Utilizando Aerofotogrametria de Baixa Altitude. Universidade Estadual Paulista (UNESP).


Aula 3 Sustentabilidade e perspectivas futuras

 

A produção de cana-de-açúcar tem passado por profundas transformações nas últimas décadas. Além da busca por maior produtividade, o setor sucroenergético passou a incorporar práticas que conciliam eficiência econômica, responsabilidade ambiental e uso racional dos recursos naturais. Nesse cenário, a gestão sustentável de pragas tornou-se uma das principais estratégias para garantir a competitividade da cultura, reduzir impactos ambientais e atender às exigências dos mercados consumidores, cada vez mais atentos às práticas de produção agrícola. O Manejo Integrado de Pragas (MIP) é considerado um dos pilares desse novo modelo de agricultura, pois combina diferentes métodos de controle para manter as populações de pragas abaixo do nível de dano econômico, reduzindo a dependência exclusiva de defensivos químicos.

A sustentabilidade no manejo de pragas vai além da simples redução do uso de inseticidas. Ela envolve a adoção de práticas que preservem a biodiversidade, mantenham a qualidade do solo e da água e favoreçam o equilíbrio dos agroecossistemas. Quando inimigos naturais das pragas são preservados e o monitoramento é realizado de forma contínua, a necessidade de intervenções químicas tende a diminuir, reduzindo custos de produção e minimizando riscos ao meio ambiente. Esse modelo beneficia não apenas o produtor, mas também os trabalhadores rurais, os consumidores e os ecossistemas ao redor das áreas cultivadas.

Um dos principais avanços observados na cultura da cana-de-açúcar é a ampliação do uso do controle biológico. O Brasil tornou-se referência mundial na utilização de parasitoides, predadores e fungos entomopatogênicos para o controle das principais pragas da cultura. A expansão

dessas tecnologias demonstra que é possível produzir em larga escala utilizando métodos sustentáveis, capazes de reduzir significativamente o consumo de inseticidas sem comprometer a produtividade dos canaviais.

Outro fator que fortalece a sustentabilidade é a adoção de práticas conservacionistas. A manutenção da palhada sobre o solo após a colheita mecanizada, a redução do revolvimento do solo durante a reforma dos canaviais, a conservação da matéria orgânica e o uso racional da água contribuem para melhorar as condições do ambiente agrícola. Solos mais saudáveis favorecem o desenvolvimento das plantas e aumentam sua capacidade de tolerar o ataque de pragas, reduzindo a necessidade de intervenções corretivas.

As perspectivas futuras para o manejo de pragas estão diretamente relacionadas aos avanços tecnológicos. Ferramentas como drones, sensores remotos, inteligência artificial, sistemas de georreferenciamento e softwares de agricultura de precisão tornam o monitoramento mais rápido e preciso. Essas tecnologias permitem identificar alterações no desenvolvimento das plantas ainda nos estágios iniciais, localizar focos de infestação e direcionar as ações de controle apenas para as áreas necessárias, reduzindo desperdícios e aumentando a eficiência das operações agrícolas.

Outra tendência importante é o desenvolvimento de novas variedades de cana-de-açúcar com maior resistência às principais pragas e melhor adaptação às diferentes condições climáticas. Os programas de melhoramento genético têm contribuído para disponibilizar materiais mais produtivos, resistentes e capazes de reduzir naturalmente as perdas provocadas por insetos. Essas variedades não eliminam a necessidade do monitoramento, mas representam uma ferramenta adicional dentro do Manejo Integrado de Pragas.

A pesquisa científica também continua ampliando o conhecimento sobre a biologia das pragas e de seus inimigos naturais. O desenvolvimento de novos bioinsumos, formulações biológicas mais eficientes e técnicas de produção em larga escala amplia as possibilidades de adoção do controle biológico por propriedades de diferentes portes. Paralelamente, cresce o investimento em métodos de monitoramento automatizado e sistemas de apoio à decisão baseados em dados climáticos e históricos de infestação.

Outro aspecto essencial para o futuro da gestão de pragas é a capacitação permanente dos profissionais envolvidos na produção. O sucesso das novas tecnologias depende da correta interpretação das

aspecto essencial para o futuro da gestão de pragas é a capacitação permanente dos profissionais envolvidos na produção. O sucesso das novas tecnologias depende da correta interpretação das informações geradas e da aplicação adequada das recomendações técnicas. Produtores, técnicos e trabalhadores rurais precisam manter-se atualizados para acompanhar as constantes inovações que chegam ao setor sucroenergético.

Também merece destaque a crescente preocupação com a rastreabilidade e a certificação da produção agrícola. Empresas, usinas e consumidores valorizam cada vez mais produtos obtidos por meio de práticas sustentáveis, com redução do uso de defensivos, preservação ambiental e respeito às normas de segurança alimentar. Nesse contexto, programas de Manejo Integrado de Pragas bem estruturados contribuem para aumentar a credibilidade da produção e ampliar o acesso a mercados mais exigentes.

Entretanto, alguns desafios permanecem. As mudanças climáticas podem alterar o comportamento das pragas, favorecendo o surgimento de novas espécies ou modificando a distribuição geográfica das já conhecidas. Além disso, o uso inadequado de inseticidas ainda representa um risco para o desenvolvimento de resistência em determinadas populações. Por isso, será cada vez mais importante investir em pesquisa, monitoramento contínuo e integração entre diferentes métodos de controle para manter a eficiência das estratégias de manejo.

Em síntese, o futuro da gestão de pragas na cana-de-açúcar está fundamentado na integração entre conhecimento técnico, inovação tecnológica e sustentabilidade. A combinação de monitoramento constante, controle biológico, agricultura de precisão, variedades mais resistentes e planejamento estratégico permitirá produzir de forma mais eficiente, reduzindo impactos ambientais e fortalecendo a competitividade do setor sucroenergético. O produtor que incorporar essas práticas estará mais preparado para enfrentar os desafios das próximas décadas e construir um sistema produtivo mais resiliente, rentável e sustentável.

Referências bibliográficas

  • BORÉM, A.; SANTOS, F. (Org.). Cana-de-Açúcar: do Plantio à Colheita. Viçosa: Editora UFV.
  • DINARDO-MIRANDA, L. L. Pragas da Cana-de-Açúcar. Campinas: Instituto Agronômico.
  • EMBRAPA. Manejo Integrado de Pragas e Doenças da Cana-de-Açúcar. Brasília: Embrapa.
  • EMBRAPA. O Controle de Pragas Agrícolas e a Sustentabilidade Ecológica. Londrina: Embrapa Soja.
  • EMBRAPA.
  • Práticas Conservacionistas no Manejo da Cana-de-Açúcar: Produtividade e Qualidade Ambiental. Brasília: Embrapa.
  • GALLO, D. et al. Entomologia Agrícola. Piracicaba: FEALQ.
  • PRUDENCIO, M. F.; MARCIANO, M. C.; FIGUEIREDO, P. A. M.; PRADO, E. P.; VIANA, R. S. Atualizações no Manejo Integrado das Principais Pragas da Cana-de-Açúcar no Brasil: uma revisão dos últimos 10 anos. ARACÊ, 2025.


Estudo de Caso – Módulo 3

Tecnologia e planejamento: a mudança que transformou um canavial

 

A Agrovale do Cerrado cultivava cerca de 650 hectares de cana-de-açúcar destinados à produção de açúcar e etanol. Nos primeiros anos, a fazenda apresentava bons índices de produtividade, mas, com o passar do tempo, os custos com o controle de pragas aumentaram significativamente. Mesmo realizando diversas aplicações de inseticidas ao longo da safra, a equipe continuava encontrando focos de broca-da-cana e cigarrinha-das-raízes em diferentes áreas da propriedade.

O gerente agrícola acreditava que o problema estava relacionado apenas ao aumento da população das pragas. Como consequência, a solução adotada era ampliar o número de aplicações químicas. Entretanto, não existia um planejamento anual para o manejo, nem registros detalhados das áreas mais afetadas. As inspeções eram feitas apenas quando os danos já eram visíveis, e todas as decisões eram tomadas de forma reativa, sem utilizar informações históricas da propriedade.

Ao final da safra, os custos com defensivos agrícolas haviam aumentado consideravelmente, enquanto a produtividade permaneceu abaixo da média regional. Além disso, verificou-se redução da presença de inimigos naturais importantes para o equilíbrio do canavial, consequência do uso frequente de inseticidas de amplo espectro. A propriedade também percebeu que tratava áreas inteiras, mesmo quando os focos de infestação estavam concentrados em apenas alguns talhões. O Manejo Integrado de Pragas recomenda justamente o contrário: decisões baseadas em monitoramento, histórico da área e integração de diferentes métodos de controle.

Erros cometidos

  • Não elaborar um planejamento anual para o manejo das pragas.
  • Ausência de registros sobre infestações ocorridas em safras anteriores.
  • Realizar aplicações preventivas em toda a propriedade sem monitoramento adequado.
  • Utilizar poucas ferramentas tecnológicas para identificar focos de infestação.
  • Não integrar controle biológico, monitoramento e práticas culturais.
  • Concentrar praticamente todo o manejo no uso de inseticidas.

A mudança de estratégia

Na safra seguinte, a empresa decidiu reorganizar completamente seu sistema de gestão fitossanitária. O primeiro passo foi criar um plano anual de manejo, estabelecendo um calendário de monitoramento para todos os talhões.

As equipes passaram a utilizar aplicativos para registrar as inspeções de campo e um sistema de georreferenciamento para identificar exatamente onde as pragas estavam ocorrendo. Também foram utilizados drones para mapear áreas com desenvolvimento irregular das plantas, permitindo direcionar as vistorias para os locais mais críticos. O uso dessas tecnologias tornou o monitoramento mais rápido e preciso, facilitando a tomada de decisão.

Com base nas informações coletadas, o controle biológico passou a ser utilizado de forma programada nas áreas com maior risco de infestação da broca-da-cana. O controle químico deixou de ser aplicado em toda a fazenda e passou a ocorrer apenas nos talhões onde o monitoramento indicava que a população das pragas havia atingido o nível de dano econômico.

Outro avanço importante foi a organização de um banco de dados com o histórico das infestações. Essas informações passaram a orientar o planejamento das safras seguintes, permitindo antecipar ações preventivas nas áreas tradicionalmente mais vulneráveis.

Resultados alcançados

Após duas safras utilizando o novo sistema de gestão, a fazenda observou mudanças significativas:

  • redução expressiva do número de aplicações de inseticidas;
  • menor custo com controle fitossanitário;
  • aumento da eficiência do controle biológico;
  • preservação dos inimigos naturais presentes na lavoura;
  • identificação mais rápida dos focos de infestação;
  • crescimento da produtividade e melhoria da qualidade da matéria-prima entregue à usina.

Além dos ganhos econômicos, a propriedade fortaleceu seu compromisso com práticas agrícolas mais sustentáveis, reduzindo impactos ambientais e tornando o sistema produtivo mais equilibrado.

Lições aprendidas

O caso demonstra que a tecnologia, por si só, não resolve os problemas de manejo. Ela precisa estar integrada ao planejamento, ao monitoramento contínuo e à capacitação da equipe. Ferramentas como drones, georreferenciamento e aplicativos aumentam a eficiência das operações, mas somente produzem resultados quando utilizadas dentro de um programa estruturado de Manejo Integrado de Pragas.

Como evitar

problemas semelhantes

  • Elaborar um planejamento anual para o manejo das pragas.
  • Manter registros atualizados sobre as infestações de cada talhão.
  • Realizar monitoramento periódico durante todo o ciclo da cultura.
  • Utilizar tecnologias de apoio, como drones, GPS e aplicativos de campo, para tornar as inspeções mais eficientes.
  • Priorizar o controle biológico e as práticas preventivas antes de recorrer ao controle químico.
  • Aplicar defensivos apenas quando o monitoramento indicar necessidade econômica.
  • Investir na capacitação contínua da equipe para interpretar corretamente os dados coletados e tomar decisões técnicas fundamentadas.
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