Apostila 2 — Curso Gestão de Pragas na Cana de Açúcar

GESTÃO DE PRAGAS NA CANA-DE-AÇUCAR

 

Módulo 2 – Manejo Integrado de Pragas (MIP)

Aula 1 – Princípios do Manejo Integrado de Pragas

  

A agricultura moderna enfrenta um grande desafio: produzir mais alimentos utilizando os recursos naturais de forma responsável e sustentável. Na cultura da cana-de-açúcar, esse desafio passa diretamente pelo controle das pragas, que podem comprometer a produtividade e aumentar significativamente os custos de produção. Durante muitos anos, o controle dessas pragas foi baseado quase exclusivamente na aplicação de inseticidas. Embora essa prática possa apresentar resultados imediatos, o uso repetitivo e sem planejamento favorece o surgimento de resistência, elimina organismos benéficos e pode causar impactos ambientais. Como alternativa mais eficiente surgiu o Manejo Integrado de Pragas (MIP), uma estratégia que combina diferentes métodos de controle para manter as populações de pragas abaixo do nível de dano econômico.

O Manejo Integrado de Pragas é definido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) como um sistema que considera a dinâmica das populações de pragas e o ambiente em que elas vivem, utilizando técnicas compatíveis entre si para evitar que essas populações atinjam níveis capazes de provocar prejuízos econômicos. O objetivo não é eliminar completamente os insetos presentes na lavoura, mas manter seu número em equilíbrio, reduzindo perdas e preservando o funcionamento natural do ecossistema agrícola.

Esse conceito representa uma mudança importante na forma de lidar com as pragas. Em vez de agir apenas quando o problema se torna evidente, o produtor passa a trabalhar de forma preventiva, planejando ações que reduzam as condições favoráveis ao desenvolvimento dos insetos. Dessa maneira, o manejo deixa de ser uma medida emergencial e passa a fazer parte do planejamento da propriedade desde o preparo do solo até a colheita.

O primeiro princípio do MIP é o monitoramento contínuo da lavoura. Nenhuma decisão deve ser tomada sem conhecer a situação real do canavial. As inspeções periódicas permitem identificar quais pragas estão presentes, sua quantidade, a distribuição nos talhões e o estágio de desenvolvimento em que se encontram. Essas informações fornecem segurança para decidir se realmente existe necessidade de intervenção ou se a população ainda pode ser controlada pelos inimigos naturais presentes na área.

Outro princípio fundamental é a correta identificação da praga.

Espécies diferentes exigem estratégias distintas de manejo. Além disso, alguns sintomas podem ser confundidos com doenças, deficiência nutricional ou estresse hídrico. Um diagnóstico equivocado pode levar ao uso de medidas inadequadas, aumentando custos e atrasando a solução do problema. Por isso, conhecer a biologia das principais pragas da cana-de-açúcar é indispensável para um manejo eficiente.

O conceito de nível de dano econômico também é uma das bases do MIP. Nem toda presença de insetos representa uma ameaça à produção. O controle só deve ser iniciado quando a população da praga atingir um ponto em que os prejuízos econômicos previstos sejam maiores que o custo da intervenção. Essa abordagem evita aplicações desnecessárias de inseticidas, reduz gastos e contribui para preservar os organismos benéficos que atuam naturalmente na lavoura.

Outro aspecto importante é a integração de diferentes métodos de controle. O Manejo Integrado de Pragas não depende de uma única solução. Ele reúne práticas culturais, como o uso de mudas sadias, eliminação de restos culturais, escolha de variedades adaptadas e manejo adequado do solo; métodos biológicos, utilizando inimigos naturais das pragas; métodos comportamentais, físicos e, quando necessário, o controle químico realizado de forma criteriosa. A combinação dessas estratégias torna o sistema mais eficiente e sustentável.

Entre todas as ferramentas disponíveis, o controle biológico ocupa posição de destaque. Na cultura da cana-de-açúcar, diversos inimigos naturais são utilizados para controlar pragas importantes, como a broca-da-cana e as cigarrinhas. Parasitoides, predadores e fungos entomopatogênicos ajudam a reduzir naturalmente as populações de insetos, diminuindo a necessidade de aplicações químicas e contribuindo para o equilíbrio do agroecossistema.

Quando o controle químico se torna necessário, ele deve ser realizado de maneira técnica e responsável. A escolha do produto deve considerar a espécie-alvo, o momento adequado de aplicação, a dose recomendada e a rotação de mecanismos de ação para reduzir o risco de resistência. Além disso, a aplicação deve ser feita com equipamentos calibrados e por profissionais capacitados, sempre respeitando as normas de segurança e proteção ambiental.

O sucesso do Manejo Integrado de Pragas depende também da capacitação da equipe envolvida na produção. Funcionários treinados conseguem identificar precocemente os sinais de infestação, registrar corretamente as

informações de campo e colaborar para que as decisões sejam tomadas com maior rapidez e precisão. A participação de todos os profissionais da propriedade fortalece o programa de manejo e aumenta sua eficiência.

Em síntese, o Manejo Integrado de Pragas representa uma forma moderna e sustentável de proteger os canaviais. Ao combinar monitoramento, prevenção, controle biológico, práticas culturais e uso racional de defensivos, o produtor consegue reduzir perdas, preservar o meio ambiente e aumentar a rentabilidade da atividade. Mais do que combater insetos, o MIP busca manter o equilíbrio do sistema produtivo, garantindo uma agricultura mais eficiente e preparada para os desafios futuros.

Referências bibliográficas

  • BORÉM, A. Cana-de-Açúcar: do Plantio à Colheita. Viçosa: Editora UFV.
  • DINARDO-MIRANDA, L. L. Pragas da Cana-de-Açúcar. Campinas: Instituto Agronômico.
  • EMBRAPA. Manejo Integrado de Pragas e Doenças da Cana-de-Açúcar. Brasília: Embrapa.
  • EMBRAPA. Pragas da Cana-de-Açúcar. Brasília: Embrapa.
  • GALLO, D. et al. Entomologia Agrícola. Piracicaba: FEALQ.
  • GRAVENA, S. Controle Biológico no Manejo Integrado de Pragas. Pesquisa Agropecuária Brasileira, Brasília, v. 27, 1992.


Aula 2 – Controle biológico

 

O controle biológico é uma das ferramentas mais importantes do Manejo Integrado de Pragas (MIP) na cultura da cana-de-açúcar. Essa estratégia utiliza organismos vivos, chamados de inimigos naturais, para reduzir a população de pragas de forma equilibrada e sustentável. Em vez de eliminar completamente os insetos presentes na lavoura, o objetivo é manter suas populações abaixo do nível em que causam prejuízos econômicos. Essa abordagem diminui a dependência de inseticidas químicos, preserva o meio ambiente e favorece o equilíbrio do ecossistema agrícola.

Ao longo das últimas décadas, o Brasil tornou-se referência mundial na utilização do controle biológico em canaviais. Os programas desenvolvidos para combater a broca-da-cana e a cigarrinha-das-raízes são considerados alguns dos maiores do mundo, demonstrando que é possível aliar produtividade, sustentabilidade e redução de custos. O sucesso dessas iniciativas é resultado da integração entre pesquisa científica, monitoramento das lavouras e adoção de tecnologias pelos produtores.

Os inimigos naturais podem ser classificados em três grandes grupos: predadores, parasitoides e microrganismos entomopatogênicos. Os predadores alimentam-se diretamente

das pragas durante sua vida, enquanto os parasitoides depositam seus ovos sobre ou dentro do hospedeiro, levando-o à morte durante o desenvolvimento de suas larvas. Já os microrganismos, como fungos, bactérias e vírus, provocam doenças capazes de controlar naturalmente diversas espécies de insetos.

Na cultura da cana-de-açúcar, um dos exemplos mais conhecidos é a pequena vespa Cotesia flavipes, utilizada no controle da broca-da-cana (Diatraea saccharalis). A fêmea localiza as lagartas da broca e deposita seus ovos em seu interior. As larvas da vespa desenvolvem-se utilizando o corpo da lagarta como alimento, impedindo que ela continue causando danos aos colmos. Esse método apresenta elevada eficiência quando integrado ao monitoramento da lavoura e realizado no momento adequado.

Outro importante aliado do produtor é o parasitoide Trichogramma galloi, que atua ainda na fase de ovo da broca-da-cana. Ao impedir a eclosão das lagartas, esse agente biológico reduz o estabelecimento da praga no canavial e complementa a ação da Cotesia flavipes. A utilização conjunta dessas espécies fortalece o programa de manejo e aumenta a eficiência do controle biológico.

No caso da cigarrinha-das-raízes (Mahanarva fimbriolata), o controle biológico é realizado principalmente com o fungo Metarhizium anisopliae. Os esporos desse fungo entram em contato com o inseto, germinam sobre sua superfície e penetram em seu organismo, provocando sua morte. Como o fungo necessita de condições favoráveis de umidade para se desenvolver, sua aplicação costuma apresentar melhores resultados durante os períodos chuvosos.

Uma das grandes vantagens do controle biológico é sua elevada seletividade. Diferentemente de muitos inseticidas químicos, os agentes biológicos atuam especificamente sobre determinadas pragas, preservando insetos benéficos, como joaninhas, aranhas, abelhas e outros organismos que contribuem para o equilíbrio ecológico da lavoura. Essa característica reduz os impactos ambientais e favorece a manutenção da biodiversidade nas áreas agrícolas.

Além dos benefícios ambientais, o controle biológico oferece vantagens econômicas importantes. A redução do número de aplicações de inseticidas diminui os custos com produtos, combustível e mão de obra. Outro benefício é a menor probabilidade de desenvolvimento de resistência pelas pragas, problema frequentemente observado quando o mesmo inseticida é utilizado repetidamente durante várias safras. Dessa forma, o controle biológico

contribui para aumentar a eficiência do sistema produtivo a longo prazo.

Entretanto, para que essa estratégia produza bons resultados, é indispensável realizar monitoramento constante da lavoura. As liberações de parasitoides ou as aplicações de fungos entomopatogênicos devem ocorrer no momento correto, quando a população da praga ainda se encontra em níveis que permitam seu controle eficiente. A adoção dessas práticas sem acompanhamento técnico pode reduzir significativamente sua eficácia.

Também é importante compreender que o controle biológico não substitui todas as demais práticas de manejo. Ele faz parte de um conjunto de ações que inclui o uso de variedades adaptadas, manejo adequado do solo, eliminação de restos culturais, monitoramento periódico e, quando necessário, o uso criterioso de produtos fitossanitários. Essa integração caracteriza o Manejo Integrado de Pragas e proporciona resultados mais consistentes do que a utilização isolada de qualquer método.

O avanço das biofábricas e da produção comercial de agentes biológicos tem ampliado o acesso dos produtores a essas tecnologias. Atualmente, diversos parasitoides e microrganismos encontram-se registrados para uso agrícola no Brasil, permitindo que propriedades de diferentes tamanhos adotem programas de controle biológico com maior facilidade e segurança.

Em síntese, o controle biológico representa uma alternativa moderna, eficiente e sustentável para o manejo das principais pragas da cana-de-açúcar. Quando associado ao monitoramento e às demais práticas do Manejo Integrado de Pragas, ele contribui para reduzir perdas, preservar os recursos naturais e aumentar a produtividade dos canaviais, consolidando-se como uma das principais estratégias para uma agricultura mais equilibrada e competitiva.

Referências bibliográficas

  • ALMEIDA, J. E. M. Controle Biológico das Pragas da Cana com Patógenos. Instituto Biológico.
  • BORÉM, A. Cana-de-Açúcar: do Plantio à Colheita. Viçosa: Editora UFV.
  • DINARDO-MIRANDA, L. L. Pragas da Cana-de-Açúcar. Campinas: Instituto Agronômico.
  • EMBRAPA. Manejo Integrado de Pragas e Doenças da Cana-de-Açúcar. Brasília: Embrapa.
  • EMBRAPA. Pragas no Colmo da Cana-de-Açúcar. Brasília: Embrapa.
  • GALLO, D. et al. Entomologia Agrícola. Piracicaba: FEALQ.
  • OLIVEIRA, H. N. Cotesia no Controle da Broca-da-Cana. Embrapa Agropecuária Oeste.


Aula 3 – Controle químico e boas práticas

 

O controle químico continua sendo

uma importante ferramenta para o manejo das pragas da cana-de-açúcar. No entanto, sua eficiência depende da forma como é utilizado. Durante muitos anos, acreditou-se que aplicações frequentes de inseticidas seriam suficientes para proteger os canaviais. Com o avanço das pesquisas, verificou-se que essa prática pode gerar diversos problemas, como aumento dos custos de produção, contaminação ambiental, eliminação de organismos benéficos e desenvolvimento de populações resistentes aos produtos utilizados. Por isso, atualmente o controle químico é recomendado como uma das estratégias do Manejo Integrado de Pragas (MIP), sendo empregado apenas quando realmente necessário.

O primeiro princípio para o uso correto de inseticidas é compreender que a simples presença de uma praga não justifica uma aplicação. Antes de qualquer decisão, é indispensável realizar o monitoramento da lavoura para verificar o tamanho da população da praga e comparar esses dados com o nível de dano econômico. Somente quando os prejuízos esperados forem superiores ao custo do controle é que a intervenção química se torna recomendada. Essa abordagem reduz aplicações desnecessárias e torna o manejo mais eficiente.

Outro aspecto essencial é a correta identificação da praga. Cada espécie possui comportamento, ciclo biológico e sensibilidade diferentes aos produtos fitossanitários. Utilizar um inseticida inadequado ou aplicá-lo em uma fase incorreta do desenvolvimento do inseto reduz significativamente sua eficiência. Além disso, sintomas causados por doenças, deficiência nutricional ou estresse hídrico podem ser confundidos com ataques de pragas, tornando o diagnóstico preciso uma etapa indispensável antes de qualquer aplicação.

A escolha do produto também deve seguir critérios técnicos. Somente defensivos registrados para a cultura da cana-de-açúcar e para a praga-alvo devem ser utilizados. O produtor deve respeitar rigorosamente as orientações contidas na bula quanto à dose, ao volume de aplicação, ao intervalo entre aplicações e ao período de carência. O uso de doses inferiores pode favorecer a sobrevivência das pragas, enquanto doses superiores aumentam os riscos ambientais, elevam os custos e não garantem melhor controle.

A tecnologia de aplicação exerce grande influência sobre os resultados obtidos. Pulverizadores mal regulados, pontas de pulverização inadequadas, velocidade excessiva do equipamento ou condições climáticas desfavoráveis podem comprometer a deposição das gotas e

reduzir a eficiência do tratamento. Por isso, é fundamental realizar a calibração periódica dos equipamentos e observar fatores como temperatura, umidade relativa do ar e velocidade do vento antes da aplicação.

Outro cuidado importante é a rotação dos mecanismos de ação dos inseticidas. Quando um mesmo princípio ativo é utilizado repetidamente durante várias safras, aumenta a pressão de seleção sobre a população da praga, favorecendo o aparecimento de indivíduos resistentes. Com o tempo, os produtos deixam de apresentar a mesma eficiência, exigindo doses maiores ou aplicações mais frequentes. Alternar grupos químicos e integrar outras estratégias de manejo são medidas fundamentais para prolongar a vida útil dos inseticidas disponíveis.

O controle químico também deve ser compatível com o controle biológico. Muitos inimigos naturais, como parasitoides, predadores e fungos entomopatogênicos, ajudam a reduzir naturalmente as populações de pragas. O uso indiscriminado de inseticidas de amplo espectro pode eliminar esses organismos benéficos e provocar desequilíbrios ecológicos que favorecem novas infestações. Sempre que possível, recomenda-se priorizar produtos seletivos e planejar as aplicações para minimizar impactos sobre os agentes de controle biológico.

A segurança do trabalhador também faz parte das boas práticas agrícolas. Durante o preparo da calda, abastecimento dos equipamentos e aplicação dos produtos, é obrigatório utilizar os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) recomendados, como macacão impermeável, luvas, botas, máscara, óculos de proteção e chapéu apropriado. Além disso, o armazenamento dos defensivos deve ocorrer em locais exclusivos, ventilados, sinalizados e protegidos contra acesso de pessoas não autorizadas e animais.

Após a aplicação, outro procedimento indispensável é a destinação correta das embalagens vazias. No Brasil, a legislação determina que as embalagens de defensivos agrícolas passem pela tríplice lavagem, quando aplicável, e sejam devolvidas aos postos de recebimento autorizados. Essa prática reduz riscos de contaminação ambiental e contribui para a reciclagem adequada desses materiais.

A adoção das boas práticas também inclui o registro das aplicações realizadas. Informações como data, produto utilizado, dose, área tratada, condições climáticas e resultados observados permitem avaliar a eficiência das estratégias adotadas e facilitam o planejamento das próximas safras. Esses registros tornam a gestão da

propriedade mais organizada e favorecem decisões baseadas em dados concretos.

É importante destacar que o controle químico isoladamente não resolve os problemas fitossanitários da cultura. Os melhores resultados são obtidos quando ele é integrado ao monitoramento, ao controle biológico, às práticas culturais e ao uso de variedades adaptadas. Essa combinação reduz a dependência de inseticidas, diminui os impactos ambientais e proporciona maior estabilidade produtiva ao longo dos anos.

Em síntese, o controle químico permanece como uma ferramenta importante na proteção dos canaviais, desde que utilizado com responsabilidade, planejamento e critérios técnicos. Quando associado aos princípios do Manejo Integrado de Pragas, ele contribui para manter as populações de insetos abaixo do nível de dano econômico, preservar os inimigos naturais, reduzir custos de produção e promover uma agricultura mais sustentável e eficiente.

Referências bibliográficas

  • BORÉM, A. Cana-de-Açúcar: do Plantio à Colheita. Viçosa: Editora UFV.
  • DINARDO-MIRANDA, L. L. Pragas da Cana-de-Açúcar. Campinas: Instituto Agronômico.
  • EMBRAPA. Manejo Integrado de Pragas e Doenças da Cana-de-Açúcar. Brasília: Embrapa.
  • EMBRAPA. Pragas da Cana-de-Açúcar. Brasília: Embrapa.
  • GALLO, D. et al. Entomologia Agrícola. Piracicaba: FEALQ.
  • PANIZZI, A. R.; PARRA, J. R. P. Bioecologia e Nutrição de Insetos: Base para o Manejo Integrado de Pragas. Brasília: Embrapa.


Estudo de Caso – Módulo 2

O custo de confiar apenas no inseticida

 

A Fazenda Santa Esperança cultivava aproximadamente 420 hectares de cana-de-açúcar destinados ao fornecimento de matéria-prima para uma usina. Durante vários anos, o manejo das pragas era realizado de maneira simples: sempre que surgiam sinais de infestação, a equipe aplicava o mesmo inseticida utilizado nas safras anteriores. Como a estratégia havia funcionado no passado, os responsáveis acreditavam que não havia necessidade de mudar o sistema de controle.

No início de uma nova safra, o monitoramento identificou o aumento da população de broca-da-cana (Diatraea saccharalis). Sem realizar uma avaliação detalhada da intensidade da infestação, a equipe iniciou imediatamente a pulverização química em toda a propriedade. Mesmo após duas aplicações, os danos continuaram aumentando e novos focos apareceram em diferentes talhões.

A situação tornou-se ainda mais preocupante quando foram observadas elevadas populações de

cigarrinha-das-raízes em algumas áreas. O número de aplicações aumentou, os custos cresceram rapidamente e, ainda assim, a produtividade ficou abaixo da esperada. A análise técnica mostrou que o principal problema não era a falta de inseticidas, mas sim a ausência de um programa de Manejo Integrado de Pragas (MIP). O uso repetitivo do mesmo mecanismo de ação favoreceu a redução da eficiência do controle e também afetou organismos benéficos que ajudavam naturalmente a manter as pragas sob controle. O MIP recomenda justamente integrar diferentes métodos de manejo e utilizar o controle químico apenas quando o monitoramento indicar necessidade econômica.

Erros cometidos

  • Utilizar sempre o mesmo inseticida durante várias safras.
  • Iniciar aplicações sem considerar o nível de dano econômico.
  • Não realizar monitoramento detalhado antes das decisões.
  • Desconsiderar o controle biológico como alternativa de manejo.
  • Eliminar parte dos inimigos naturais devido ao uso excessivo de inseticidas.
  • Não registrar os resultados das aplicações para avaliar sua eficiência.

Como o problema foi solucionado

Após contratar assistência técnica especializada, a fazenda reorganizou completamente seu programa de manejo. O primeiro passo foi implantar um cronograma de monitoramento semanal, registrando a ocorrência das principais pragas e sua distribuição nos talhões.

Para o controle da broca-da-cana, foram realizadas liberações programadas da vespa Cotesia flavipes, importante parasitoide utilizado no controle biológico dessa praga. Nas áreas com maior incidência de cigarrinha-das-raízes, passou-se a utilizar aplicações do fungo entomopatogênico Metarhizium anisopliae, respeitando as condições ambientais mais favoráveis para sua atuação. O uso de inseticidas ficou restrito aos locais e momentos em que o monitoramento indicava necessidade, com rotação dos mecanismos de ação para reduzir o risco de resistência.

Também foram adotadas práticas culturais, como eliminação de restos vegetais excessivamente infestados, melhoria da organização das inspeções de campo e treinamento dos colaboradores para reconhecer precocemente os sintomas provocados pelas principais pragas.

Resultados obtidos

Após duas safras de manejo integrado, a propriedade apresentou resultados bastante positivos:

  • redução expressiva da infestação de broca-da-cana;
  • diminuição das populações de cigarrinha-das-raízes;
  • menor número de aplicações de
  • inseticidas;
  • redução dos custos operacionais com controle fitossanitário;
  • preservação dos inimigos naturais presentes na lavoura;
  • aumento da produtividade e da qualidade tecnológica da cana entregue à usina.

Além dos ganhos econômicos, a fazenda passou a adotar práticas mais sustentáveis, reduzindo o impacto ambiental das operações agrícolas e tornando o sistema produtivo mais equilibrado.

Lições aprendidas

Este caso demonstra que o controle químico, quando utilizado de forma isolada, dificilmente oferece resultados duradouros. O sucesso no manejo das pragas depende da integração entre monitoramento, controle biológico, práticas culturais e uso criterioso de defensivos agrícolas. O Manejo Integrado de Pragas não busca eliminar completamente os insetos, mas manter suas populações abaixo do nível de dano econômico, preservando o equilíbrio do agroecossistema.

Como evitar problemas semelhantes

  • Monitorar periodicamente toda a área cultivada antes de decidir qualquer intervenção.
  • Identificar corretamente a espécie de praga presente na lavoura.
  • Utilizar o controle biológico sempre que recomendado tecnicamente.
  • Alternar mecanismos de ação dos inseticidas para reduzir o risco de resistência.
  • Registrar todas as inspeções e aplicações realizadas.
  • Integrar práticas culturais, biológicas e químicas dentro de um programa de Manejo Integrado de Pragas.
  • Investir na capacitação contínua da equipe para reconhecer precocemente os sintomas de infestação e aplicar corretamente as estratégias de manejo.
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