MÓDULO 3 — Avaliação, impacto e sustentabilidade das ações
Aula 7 — Indicadores e monitoramento: medir para aprender
Quando alguém ouve a palavra “indicador”,
é comum vir uma careta automática: “lá vem burocracia”, “lá vem planilha”, “lá
vem cobrança”. Em muitos lugares, indicadores foram usados como ferramenta de
controle frio, distante, quase punitivo. Mas, na Gestão Social, a ideia pode
ser outra — e muito mais útil: medir para aprender. Indicadores não
precisam ser um chicote. Eles podem ser uma bússola. E o monitoramento pode ser
menos um “fiscal” e mais um “companheiro de rota”, ajudando o grupo a perceber
se está caminhando na direção certa.
A grande pergunta desta aula é simples: como saber se o que estamos fazendo está funcionando? Sem algum tipo de medida, a gente fica refém de impressão, de discurso e de memória seletiva. E isso é perigoso, porque projetos sociais e políticas públicas mexem com a vida das pessoas. Se algo não está funcionando, é melhor perceber cedo e ajustar, do que insistir por meses ou anos por orgulho, por hábito ou por falta de olhar.
Mas medir não é só contar. Medir, em
processos sociais, significa olhar para mudança. E mudança é um fenômeno
vivo: às vezes aparece rápido; às vezes demora; às vezes melhora para um grupo
e piora para outro; às vezes muda no papel, mas não muda no cotidiano. Por
isso, indicadores e monitoramento precisam ser pensados com cuidado, com contexto
e com ética. Eles devem servir ao propósito do projeto e ao bem comum — não à
vaidade de “mostrar números”.
Um bom ponto de partida é entender
que existem diferentes tipos de indicadores, como se fossem diferentes lentes.
Uma lente olha para os recursos (o que entrou), outra para o processo
(como estamos fazendo), outra para os resultados imediatos (o que
entregamos) e outra para os efeitos (o que mudou na vida). Em termos
simples:
Essa distinção é importante porque
muita gente mede apenas o que é fácil. É fácil contar quantas reuniões
aconteceram. É fácil dizer quantas pessoas participaram. Só que isso, sozinho,
não responde à pergunta mais importante: a vida das pessoas melhorou? Ao
mesmo tempo, também não dá para medir “mudança na vida” sem olhar para o
processo. Se a participação caiu, se a equipe está sobrecarregada ou se a
comunicação falhou, o efeito pode não aparecer. Por isso, monitorar bem é
equilibrar lentes: um pouco de processo, um pouco de entrega e um pouco de
mudança.
Outro cuidado fundamental é evitar
indicadores que viram “meta burra”. Sabe quando a instituição cobra “atender X
pessoas por mês” e, para cumprir, a equipe faz atendimentos rápidos, sem
qualidade, só para bater número? Isso acontece porque o indicador foi escolhido
sem pensar no comportamento que ele incentiva. Indicador não é neutro: ele
empurra o jeito de trabalhar. Em Gestão Social, o indicador precisa ser
coerente com valores como dignidade, equidade e qualidade. Às vezes, é melhor
ter menos indicadores e mais sentido, do que muitos indicadores e pouca
utilidade.
É aqui que entram os indicadores qualitativos. Nem tudo o que importa cabe em números. Confiança, sensação de acolhimento, percepção de segurança, qualidade do diálogo, respeito no atendimento… são coisas reais, mas que não aparecem em “quantas pessoas foram”. Para monitorar isso, você pode usar instrumentos simples: perguntas curtas após um encontro (“você se sentiu ouvido?”), pequenos relatos de caso, grupos de escuta periódicos, registros de feedback, diário de campo. O importante é que o qualitativo não vire “história bonita isolada”, e sim um tipo de evidência que conversa com o restante do monitoramento.
Uma ideia que ajuda muito quem está começando é pensar em linha de base. Linha de base é o “antes”. Se você não sabe como estava antes, é difícil afirmar que melhorou depois. Às vezes, o projeto começa com boa intenção e, no meio do caminho, alguém diz: “aumentou a participação”. A pergunta natural é: aumentou em relação a quê? Com base em qual medida? A linha de base pode ser um número (por exemplo, taxa de faltas em acompanhamento) ou uma fotografia qualitativa (por exemplo, a maioria das pessoas relatava medo de usar a praça à noite). O importante é registrar o ponto de partida para que o
grupo tenha referência.
E, junto com a linha de base, vem a
questão das metas. Metas são úteis quando são realistas e
contextualizadas. Em Gestão Social, metas não podem ser um desejo abstrato
(“zerar a violência”, “acabar com evasão”). Elas precisam caber na capacidade
do projeto e nos limites do território. Às vezes, uma meta honesta é “aumentar
em 20% o comparecimento ao acompanhamento” ou “reduzir em 15% as faltas
recorrentes”. E, ainda assim, as metas devem ser revisáveis. Se o contexto muda
(mudança de gestão, crise econômica, pandemia, desastre climático), insistir na
mesma meta pode ser injusto e pouco inteligente.
Agora, falando de monitoramento: monitorar é acompanhar o projeto em movimento. É como checar o painel do carro durante uma viagem. Você não espera o carro parar para olhar o combustível. Você olha no caminho, para ajustar antes de virar problema. Um bom monitoramento acontece em ciclos curtos: semanal, quinzenal ou mensal, dependendo do projeto. Ele responde: “o que fizemos?”, “o que funcionou?”, “o que travou?”, “o que precisamos ajustar?”, “o que aprendemos?”. Quando esse ciclo vira hábito, o projeto ganha uma cultura poderosa: a cultura da melhoria contínua.
Em processos participativos,
monitoramento também precisa ser participativo. Não significa que todo mundo
vai preencher planilhas, mas significa que o grupo envolvido precisa ter acesso
a informações e espaço para interpretar. Às vezes, a equipe técnica tem dados,
mas a comunidade tem a leitura do porquê. Um número pode dizer “a adesão caiu”,
mas o território pode dizer “caiu porque o ônibus mudou o trajeto”, ou “porque
a reunião passou a acontecer em horário impossível”, ou “porque houve um
episódio de violência na rota”. Monitoramento sem escuta vira miopia.
E, claro, monitorar também exige
cuidado com ética e privacidade. Quando lidamos com dados de famílias, saúde,
renda, violência, vulnerabilidade, é essencial proteger informações, evitar
exposição e usar dados de forma responsável. Transparência não é abrir dados
sensíveis; transparência é explicar decisões e resultados sem violar dignidade.
Em Gestão Social, medir nunca pode significar vigiar.
Para fechar, vale guardar esta imagem: indicadores são como perguntas bem formuladas que a gente faz ao projeto. Em vez de “estamos indo bem?”, perguntas mais úteis seriam: “estamos alcançando quem mais precisa?”, “o que melhorou de fato?”, “onde estamos falhando?”, “o que
precisa?”, “o que melhorou de fato?”, “onde estamos
falhando?”, “o que precisa mudar já?”, “como o território percebe o processo?”.
Quando indicadores nascem dessas perguntas, eles deixam de ser burocracia e
viram aprendizado.
Se esta aula tivesse um recado
central, seria este: medir não é desconfiar — é cuidar. Cuidar do
dinheiro público ou do recurso social investido. Cuidar do tempo das pessoas.
Cuidar da equipe para não se perder em ativismo. E, principalmente, cuidar do
propósito: melhorar a vida de alguém, de um território, de uma comunidade.
Porque, no fim, o indicador mais importante não é o número no relatório. É a
mudança que a pessoa sente quando volta para casa.
Referências
bibliográficas
PATTON,
Michael Quinn. Utilization-Focused Evaluation. Thousand Oaks: Sage
Publications, 2008.
WEISS,
Carol H. Evaluation: Methods for Studying Programs and Policies. Upper
Saddle River: Prentice Hall, 1998.
Rossi,
Peter H.; Lipsey, Mark W.; Freeman, Howard E. Evaluation: A Systematic
Approach. Thousand Oaks: Sage Publications, 2004.
KUSEK,
Jody Zall; RIST, Ray C. Ten Steps to a Results-Based Monitoring and
Evaluation System. Washington, DC: World Bank, 2004.
BRASIL.
Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Orientações técnicas:
Centro de Referência de Assistência Social — CRAS. Brasília: MDS, 2009.
FREIRE,
Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
Aula 8 — Prestação de contas e
legitimidade: confiança se constrói
Existe uma frase que costuma circular
em territórios onde projetos e políticas públicas passam e desaparecem: “Eles
vêm, prometem, tiram foto e somem.” Dói ouvir isso, mas é um retrato fiel
do que acontece quando não há prestação de contas. Em Gestão Social, a
prestação de contas não é um detalhe administrativo — é um dos pilares que
sustentam a confiança. E confiança, vamos ser honestos, é um recurso raro. Ela
não nasce porque alguém falou bonito numa reunião. Ela nasce quando as pessoas
percebem coerência entre o que foi dito, o que foi decidido e o que foi feito.
Prestação de contas é, basicamente, responder três perguntas que toda comunidade tem direito de fazer: o que vocês fizeram? por que fizeram assim? e o que vai acontecer agora? Quando essas respostas são claras e frequentes, o processo ganha legitimidade. Quando elas não existem, abre-se um espaço enorme para boatos, desconfiança, ressentimento e disputa. E, com o tempo, as pessoas param de participar
porque
sentem que não vale a pena.
É importante ampliar um pouco o
conceito. Muita gente entende prestação de contas apenas como “mostrar gasto”
ou “apresentar relatório”. Isso é parte da história, claro. Mas em Gestão
Social, prestação de contas tem um sentido mais profundo: é o compromisso
público de explicar decisões e assumir responsabilidades. É o famoso accountability,
que envolve não só transparência de informação, mas também a capacidade de
responder, justificar, corrigir e aprender. Em outras palavras: não é só
“mostrar números”; é dar sentido ao que foi feito.
Um erro muito comum é achar que
prestar contas significa despejar informações. A equipe publica um PDF enorme,
cheio de termos técnicos, tabelas e siglas, e conclui: “pronto, está
transparente”. Só que transparência não é isso. Transparência, de verdade, é
quando a informação chega às pessoas de um jeito que elas conseguem entender e
usar. Se ninguém entende, não é transparência — é apenas exposição de dados. E
isso importa muito porque, em processos participativos, a prestação de contas é
também uma forma de respeito: eu te devo explicação porque essa decisão mexe
com sua vida.
Uma prestação de contas bem-feita tem
alguns ingredientes simples, mas poderosos. O primeiro é a clareza do que
foi decidido. Parece óbvio, mas muita reunião termina com frases vagas:
“ficou encaminhado”, “vamos ver”, “vamos buscar apoio”. Depois, cada pessoa sai
com uma versão. Quando a equipe devolve por escrito — com linguagem simples —
“decidimos isso, por esses critérios, com esses prazos”, o processo ganha chão.
O segundo ingrediente é a explicação dos critérios. Quando as pessoas
entendem o “porquê” por trás da decisão, mesmo quem discordou tende a aceitar
mais, porque percebe justiça no método. E o terceiro ingrediente é o próximo
passo visível. Um processo em que ninguém sabe o que vem depois vira um
terreno fértil para ansiedade e suspeitas.
Agora, vamos tocar num ponto delicado: a prestação de contas também é o momento em que a gestão mostra maturidade para dizer “não deu”. Projetos sociais e políticas públicas enfrentam limites reais. Às vezes falta recurso, às vezes há mudança de gestão, às vezes um parceiro recua, às vezes um evento inesperado muda o cenário. O problema não é falhar. O problema é esconder. Quando uma equipe tenta disfarçar atrasos, enrolar ou sumir, a confiança desaba. Quando ela comunica com honestidade — “não conseguimos fazer por este
motivo; isso muda o plano assim;
faremos isto como alternativa; e voltaremos a revisar em tal data” — a
confiança, paradoxalmente, pode até aumentar. Porque as pessoas percebem
seriedade.
Prestação de contas, então, não é
propaganda. É um exercício de realidade. E por isso ela está diretamente ligada
à legitimidade. Legitimidade é aquele sentimento coletivo de que “isso
faz sentido” e “foi conduzido de maneira justa”. Ela não depende só do
resultado final, mas do processo. Às vezes um projeto entrega pouco em termos
materiais, mas entrega muito em confiança e organização social — e isso tem
valor. Outras vezes, um projeto entrega obras e serviços, mas destrói vínculos
por falta de diálogo e devolutiva. A legitimidade é construída quando as
pessoas se reconhecem no processo e entendem como as decisões foram tomadas.
Uma forma didática de pensar nisso é
diferenciar dois tipos de legitimidade. A legitimidade de origem nasce
quando o processo começa de forma correta: participação real, diversidade de
atores, regras claras, transparência. Já a legitimidade de desempenho
nasce quando o processo mostra resultado e coerência: cumpriu o que prometeu,
aprendeu com o que deu errado, ajustou rota, prestou contas com frequência. Em
Gestão Social, as duas importam. Uma sem a outra deixa o projeto frágil.
E como fazer prestação de contas sem complicar demais? Uma resposta prática é: com formatos simples, frequentes e acessíveis. Às vezes, um mural na unidade de saúde, na escola ou no CRAS funciona melhor do que um relatório longo. Às vezes, um áudio curto no WhatsApp, um card com “o que foi feito / o que falta / o que vem agora”, uma reunião de devolutiva trimestral, um boletim comunitário ou uma live com perguntas e respostas. O formato depende do território. O importante é que seja regular e compreensível.
Um bom modelo de devolutiva, que
costuma funcionar em quase qualquer contexto, é o “3+1”:
1. o
que foi feito (ações e resultados)
2. o
que foi decidido e por quê (critérios e justificativas)
3. o
que não foi possível fazer (com transparência)
+1) próximos passos (datas, responsáveis e como acompanhar)
Esse “o que não foi possível” é
fundamental. Porque ele mostra que a equipe não está escolhendo só o lado
bonito. E isso diferencia prestação de contas de publicidade. Publicidade
mostra apenas vitórias. Prestação de contas mostra a realidade e se compromete
com o aprendizado.
Outro
ponto essencial é lembrar que
prestação de contas não é só para fora. Ela também é para dentro. Uma equipe
que presta contas internamente trabalha melhor, porque tem clareza de
prioridades, identifica gargalos, reduz retrabalho e evita ruídos. A prestação
de contas, nesse sentido, é também uma ferramenta de gestão: organiza, prioriza
e dá ritmo.
Mas existe um desafio que merece atenção: a prestação de contas pode virar palco de ataque e conflito. Em alguns contextos, qualquer devolutiva vira disputa política, acusações pessoais ou tentativa de deslegitimar o processo. O que fazer? A resposta não é esconder informação, e sim fortalecer a governança da comunicação: ter regras de diálogo, facilitar perguntas e respostas, separar críticas de ataques pessoais, registrar tudo com transparência e manter o foco em critérios. Quando a prestação de contas é consistente, ela reduz o espaço para manipulação, porque o processo fica documentado e verificável.
E há ainda um aspecto muito humano:
prestação de contas é uma forma de dizer “eu te vi”. Quando uma comunidade
participa, ela entrega tempo, energia, esperança. A devolutiva é o retorno
desse investimento emocional. É dizer: “o que você trouxe aqui importou; nós
consideramos; fizemos escolhas; e você tem o direito de acompanhar.” Isso pode
parecer simples, mas é profundamente transformador em territórios marcados por
invisibilidade e descaso.
Para fechar esta aula, guarde esta ideia: confiança não é um discurso; é um hábito. E prestação de contas é um dos hábitos mais poderosos que a Gestão Social pode cultivar. Não porque ela garante que tudo dará certo, mas porque ela garante algo fundamental: que o público será tratado com respeito, com clareza e com responsabilidade. Em tempos de descrença, isso já é uma revolução silenciosa.
Referências
bibliográficas
BRASIL.
Controladoria-Geral da União. Cartilha de acesso à informação. Brasília:
CGU, 2013.
BRASIL.
Lei nº 12.527, de 18 de novembro de 2011. Lei de Acesso à Informação.
Brasília, 2011.
O’DONNELL,
Guillermo. Accountability horizontal e novas poliarquias. Lua Nova, São
Paulo, 1998.
OSTROM,
Elinor. Governing the Commons: The Evolution of Institutions for Collective
Action. Cambridge: Cambridge University Press, 1990.
TENÓRIO,
Fernando Guilherme (org.). Cidadania e desenvolvimento local. Rio de
Janeiro: FGV, 2007.
CANÇADO, Airton Cardoso; TENÓRIO, Fernando Guilherme; PEREIRA, José Roberto. Gestão social: reflexões teóricas
estão
social: reflexões teóricas e conceituais. Cadernos EBAPE.BR, Rio de
Janeiro, 2011.
Aula 9 — Sustentabilidade: parcerias,
recursos e continuidade das ações
Chegar ao fim de um projeto e ouvir
alguém dizer “foi ótimo” é bom. Mas, em Gestão Social, existe uma pergunta que
vale ouro: “E agora, como isso continua?” Sustentabilidade é exatamente
isso: a capacidade de uma ação não ser apenas um pico de energia que dura
alguns meses, mas virar algo que se mantém, se adapta e segue fazendo sentido
com o tempo. E aqui vai uma verdade importante: sustentabilidade não é só
dinheiro. Dinheiro importa, claro. Mas projetos acabam também por falta de
pessoas, por desgaste emocional, por brigas internas, por perda de confiança,
por troca de gestão, por falta de memória do que foi combinado.
Sustentabilidade é um conjunto de cuidados que mantém o projeto vivo.
Uma forma simples de enxergar
sustentabilidade é pensar em quatro pilares: recursos, pessoas, governança e
rede. Recursos incluem dinheiro, espaço, materiais e logística. Pessoas
incluem equipe, voluntários, lideranças e também usuários que se tornam
multiplicadores. Governança é o jeito de decidir e de dividir responsabilidades
sem sobrecarregar ninguém. E rede é o conjunto de parcerias e conexões que dá
suporte quando o projeto enfrenta turbulências. Quando um desses pilares falha,
a continuidade fica frágil.
Comecemos pelos recursos. Muita gente
pensa que a sustentabilidade começa com “buscar financiamento”, como se a
solução fosse sempre um edital ou um patrocinador. Às vezes é. Mas, em muitos
territórios, a sustentabilidade começa com algo mais básico: clareza sobre
custos e rotina. Quanto custa manter a ação todo mês? O que depende de
transporte? O que depende de internet? O que depende de pessoas específicas? O
que é essencial e o que é “desejável”? Quando o projeto não sabe quanto custa
existir, ele vira refém de improviso e de doações incertas.
Além disso, é saudável diversificar fontes. Projetos que dependem de uma única fonte de recurso vivem sob risco constante. Se o edital acaba, se o patrocinador muda de prioridade, se a gestão troca, tudo cai. Diversificar não significa “correr atrás de dinheiro o tempo todo”. Significa construir um mix realista: apoio público quando possível, parcerias locais, doações recorrentes pequenas, voluntariado estruturado (com cuidado), contrapartidas não financeiras (espaço cedido, transporte, material), e até
geração de receita ética em alguns modelos (por exemplo, serviços sociais
pagos por quem pode, subsidiando quem não pode). O importante é não colocar o
projeto em uma corda bamba.
Mas recursos sem pessoas não
sustentam nada. E pessoas, em projetos sociais, não são “mão de obra”. São
gente com vida, limites, emoções e, muitas vezes, sobrecarga. Um erro comum é
acreditar que “basta ter voluntários”. Só que voluntariado sem cuidado vira
rotatividade. A pessoa entra animada, se desgasta, se sente sozinha e sai. Para
sustentar pessoas, é preciso criar condições mínimas: acolhimento, clareza de
papel, divisão de tarefas, formação, reconhecimento, e uma cultura que
normalize descanso. Projetos que dependem de heróis são intensos, mas raramente
duram. Sustentabilidade pede equipes possíveis, não equipes épicas.
Aqui entra um tema delicado, mas
decisivo: sucessão. Muitos projetos começam com uma liderança forte,
carismática, que segura tudo. Isso pode ser bonito, mas também perigoso. Se
essa pessoa adoece, muda de cidade ou simplesmente cansa, o projeto desmorona.
Sustentabilidade, então, exige pensar desde cedo: quem aprende a fazer
junto? Quem pode substituir? Como o conhecimento circula? Uma liderança
saudável é aquela que forma outras lideranças. Em Gestão Social, isso é quase
um princípio ético: construir autonomia, não dependência.
E como o conhecimento circula? Com
memória e documentação. Não precisa ser nada sofisticado. Pode ser uma pasta
simples com registros: decisões, contatos, parcerias, calendário, modelos de
comunicação, aprendizados e erros. Pode ser um “manual do projeto” de duas
páginas, atualizado a cada semestre. O que não pode acontecer é o projeto
depender do que está na cabeça de uma pessoa. Sustentabilidade ama documentação
porque documentação reduz caos, economiza energia e protege a continuidade.
Agora vamos falar das parcerias.
Parceria é uma palavra bonita, mas parceria de verdade tem condições. Uma
parceria sustentável não é só “ter um logo junto”. É ter papel claro,
contrapartida combinada e benefício mútuo (sem perder o foco do interesse
público). Em Gestão Social, parcerias costumam envolver governo, escolas,
unidades de saúde, universidades, ONGs, coletivos, empresas locais, conselhos e
grupos culturais. E cada parceria precisa responder: o que cada parte entrega?
O que cada parte recebe? Como se toma decisão? Como se resolve conflito? E o
que acontece se a parceria acabar?
Também é importante ter cuidado com parcerias que ameaçam a legitimidade. Se a comunidade percebe que o projeto virou instrumento de propaganda de alguém, a confiança se perde. Sustentabilidade, portanto, depende de coerência ética: parcerias precisam combinar com os valores do projeto. Nem toda parceria “boa financeiramente” é boa socialmente. Às vezes, dizer “não” protege mais o futuro do que aceitar qualquer apoio.
Um aspecto frequentemente esquecido é
a sustentabilidade política e institucional. Projetos de Gestão Social muitas
vezes convivem com mudanças de gestão pública, troca de secretários, alterações
de prioridade e cortes. Se o projeto não cria institucionalidade mínima, ele
vira refém da vontade de uma pessoa ou de um mandato. Como reduzir esse risco?
Criando pactos e registros, envolvendo conselhos e instâncias formais quando
fizer sentido, construindo apoio em diferentes setores e mantendo uma
comunicação transparente que gere legitimidade pública. Quando um projeto é
reconhecido pelo território como importante, fica mais difícil “apagar” do
nada.
Outro pilar da sustentabilidade é a
capacidade de adaptação. Um projeto sustentável não é aquele que repete o mesmo
formato para sempre; é aquele que se ajusta sem perder a essência. Às
vezes o público muda, o território muda, a urgência muda. Se a ação insiste em
ser a mesma, ela perde relevância. Por isso, sustentabilidade anda de mãos
dadas com monitoramento e aprendizagem: olhar o que está funcionando, o que
cansou, o que ficou obsoleto, e redesenhar. Sustentar é também saber encerrar
etapas com dignidade e começar outras com clareza.
E tem um ponto muito humano:
sustentabilidade depende de sentido. Se o projeto vira apenas tarefa, ele
esvazia. As pessoas precisam sentir que aquilo melhora algo real, por menor que
seja. Às vezes, a continuidade nasce de pequenos sinais: uma mãe que voltou a
estudar, um idoso que voltou a ocupar a praça, um jovem que encontrou um espaço
de expressão, uma família que acessou um direito. Esses sinais não substituem
indicadores, mas alimentam o combustível emocional que mantém a rede viva.
Uma ferramenta simples que pode
ajudar muito é o “mapa de sustentabilidade”. Você pode desenhar em uma folha:
Para fechar esta aula, vale guardar
uma imagem: sustentabilidade é como cuidar de uma planta. Não adianta regar
muito um dia e esquecer por semanas. O que mantém vivo é o cuidado constante:
um pouco de recurso, um pouco de gente, um pouco de organização, um pouco de
rede, um pouco de aprendizagem. Sustentabilidade é menos sobre um grande salto
e mais sobre continuidade possível.
No fundo, o objetivo da Gestão Social não é criar dependência de um projeto, mas fortalecer capacidades do território para que ele caminhe com mais autonomia. Quando a sustentabilidade é bem construída, o projeto deixa um legado que fica mesmo se o formato mudar: relações mais fortes, confiança mais alta, redes mais articuladas, e uma cultura de decisão coletiva mais madura. Isso é continuidade de verdade.
Referências
bibliográficas
OSTROM,
Elinor. Governing the Commons: The Evolution of Institutions for Collective
Action. Cambridge: Cambridge University Press, 1990.
PUTNAM,
Robert D. Comunidade e democracia: a experiência da Itália moderna. Rio
de Janeiro: FGV, 2006.
FREIRE,
Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
TENÓRIO,
Fernando Guilherme (org.). Cidadania e desenvolvimento local. Rio de
Janeiro: FGV, 2007.
CANÇADO,
Airton Cardoso; TENÓRIO, Fernando Guilherme; PEREIRA, José Roberto. Gestão
social: reflexões teóricas e conceituais. Cadernos EBAPE.BR, Rio de
Janeiro, 2011.
KUSEK,
Jody Zall; RIST, Ray C. Ten Steps to a Results-Based Monitoring and
Evaluation System. Washington, DC: World Bank, 2004.
BRASIL.
Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Orientações técnicas:
Centro de Referência de Assistência Social — CRAS. Brasília: MDS, 2009.
Estudo de caso envolvente — Módulo 3
(Monitoramento, prestação de contas e sustentabilidade)
Título:
“O Projeto Farol: quando o impacto aparece… e quase se perde”
Contexto
No bairro Vila Esperança, a
praça principal ficou anos esquecida. A iluminação falhava, havia pontos de
descarte irregular de lixo e, à noite, o lugar virava sinônimo de medo. Depois
de um processo participativo bem conduzido (diagnóstico + planejamento +
governança), nasceu o Projeto Farol: revitalização da praça com foco em segurança,
convivência e cuidado do território.
O projeto começou
bem: trocaram luminárias, criaram uma pequena área infantil, organizaram um mutirão de limpeza mensal e abriram uma agenda de atividades comunitárias (capoeira, leitura para crianças, feira de artesanato). Em três meses, muita gente voltou a ocupar a praça. O clima mudou. E, justamente aí, apareceram os problemas do Módulo 3: como medir, prestar contas e sustentar.
A
história (em cenas)
Cena
1 — “Tá dando certo, a gente sente”
Na
reunião de acompanhamento, alguém diz animado:
“Tá dando certo! A praça tá cheia!”
Todos
concordam. Só que, quando um conselheiro pergunta “quanto melhorou?”, ninguém
sabe responder. A equipe tem fotos, relatos e vídeos, mas não tem linha de
base, não tem indicadores combinados e não tem rotina de monitoramento.
No
mês seguinte, surge uma manchete em um perfil local: “Projeto Farol é só
maquiagem — violência continua”. A postagem viraliza. A equipe fica indignada,
mas não consegue rebater com dados claros. E o pior: a comunidade fica dividida
entre “está melhor sim” e “é propaganda”.
Sinal de alerta: sem monitoramento, a narrativa fica solta e o projeto vira refém de percepções conflitantes.
Cena
2 — O indicador que virou armadilha
Para
responder às críticas, a Secretaria pede “um número forte” para divulgar. A
equipe escolhe algo fácil: “número de eventos realizados” e passa a
correr para encher o calendário. Em dois meses, fazem muitos eventos, mas a
qualidade cai: atividades repetidas, divulgação fraca, equipe sobrecarregada.
As
pessoas começam a reclamar:
“Antes tinha coisa boa e bem organizada. Agora parece correria.”
Um voluntário desabafa: “Tô exausto. Virou meta, não virou cuidado.”
Sinal de alerta: indicador mal escolhido muda o comportamento do projeto e pode destruir aquilo que estava funcionando.
Cena
3 — Prestação de contas que não conversa com ninguém
A
equipe faz um relatório técnico de 20 páginas. Publica no site da prefeitura e
considera “prestado contas”.
Só
que no território quase ninguém lê. A comunidade quer saber coisas simples:
Sem
devolutiva acessível, volta a sensação antiga:
“Eles fazem e a gente só descobre depois.”
Sinal de alerta: transparência sem linguagem acessível não constrói confiança.
Cena
4 — A sustentabilidade ameaça ruir por cansaço
Seis meses depois, o projeto depende de três pessoas: uma liderança
comunitária, uma
professora que coordena atividades infantis e um servidor público que resolve
“tudo” por fora do horário. Quando um deles fica doente e outro consegue um
emprego em outro bairro, o projeto perde fôlego rapidamente.
A
praça continua melhor do que antes, mas as atividades param. O mutirão
enfraquece. E os problemas começam a voltar: lixo, lâmpada queimada sem
reposição, boatos de que “acabou o projeto”.
Sinal de alerta: projeto dependente de heróis não é sustentável.
Erros
comuns do Módulo 3 (e como evitá-los)
Erro
1 — Monitoramento “na sensação”
O
que aconteceu: “a gente sente que melhorou”, mas sem
linha de base e sem indicadores.
Consequência: vulnerabilidade a críticas, dificuldade de aprender e
ajustar.
Como
evitar
o foto
em horários padrão, contagem de usuários, percepção de segurança, registros de
manutenção
o processo
(regularidade, participação diversa)
o resultado
(entregas, manutenção)
o efeito (uso da praça, percepção de segurança)
Erro
2 — Escolher indicador “fácil” que incentiva comportamento ruim
O
que aconteceu: “número de eventos” virou corrida e
desgastou a equipe.
Como evitar
o satisfação/acolhimento
(pergunta rápida após atividade)
o diversidade
de público (crianças, idosos, jovens)
o manutenção
em dia (tempo de resposta a lâmpada queimada)
o segurança percebida (escala simples mensal)
Erro
3 — Medir só o que é quantitativo
O
que aconteceu: ignoraram percepção, confiança e
qualidade do processo.
Como evitar
o “histórias
curtas de mudança” (2 por mês)
o roda
de escuta trimestral
o caixa de sugestões / formulário rápido
Erro
4 — Prestação de contas “para a instituição”, não para o território
O
que aconteceu: relatório técnico que ninguém lê, sem
devolutiva clara.
Como evitar
o o
que fizemos
o o
que mudou
o o
que não conseguimos e por quê
o próximos
passos (com datas e responsáveis)
Erro
5 — Não criar rotina de acompanhamento (ciclo de aprendizagem)
O
que aconteceu: só reagem quando surge crise ou crítica.
Como evitar
o olhar
indicadores
o discutir
gargalos
o decidir
ajustes
o comunicar devolutiva
Erro
6 — Sustentabilidade baseada em “heróis”
O
que aconteceu: projeto dependia de poucas pessoas chave.
Como evitar
o facilitador/relator/articulador/guardiões
da manutenção
o rodízio
de funções
o capacitar
novos voluntários e lideranças
o contatos, decisões, cronograma, checklist de manutenção, modelos de postagens
Erro
7 — Parcerias sem clareza (e sem contrapartida)
O
que aconteceu: todo mundo “apoia”, mas ninguém é
responsável pela manutenção.
Como evitar
o quem
faz o quê?
o em
quanto tempo?
o como
registrar pedidos?
o como
resolver quando falhar?
A
virada: como o Projeto Farol se recuperou
Depois
de quase perder fôlego, a equipe faz uma reunião de “recomeço” e decide
fortalecer o Módulo 3 com medidas simples e consistentes.
Passo
1 — Painel de indicadores (simples e público)
Eles
definem 8 indicadores:
1. tempo
médio de reposição de lâmpadas
2. mutirão
mensal realizado (sim/não)
3. número
de usuários em 3 horários fixos (manhã/tarde/noite)
4. diversidade
de público (observação por categorias)
5. registro
de ocorrências na praça (fonte oficial quando possível)
6. percepção
de segurança (escala 1–5 em formulário curto)
7. satisfação
com atividades (pergunta rápida)
8. presença
de lixo/pontos críticos (checklist quinzenal)
Criam um mural na praça com atualização mensal em linguagem simples.
Passo
2 — Prestação de contas que cabe no bolso
Todo
mês, enviam uma devolutiva no WhatsApp do bairro e colam no mural:
E
fazem uma roda de conversa trimestral para perguntas e ajustes.
Passo
3 — Sustentabilidade com rede e rodízio
Criam
uma governança leve:
Documentam tudo em uma pasta simples e formam dois “aprendizes” para cada papel. Resultado: quando alguém sai, o projeto não para.
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