MÓDULO 2 — Como desenhar e conduzir
processos participativos
Aula 4 — Diagnóstico participativo: enxergar o problema com as pessoas
Antes de propor solução, existe um
passo que parece óbvio, mas que muita gente pula com pressa: entender o
problema do jeito certo. E aqui “do jeito certo” não significa apenas ler
um relatório técnico ou olhar números em uma planilha. Significa olhar para a
realidade com as pessoas que vivem aquela realidade. É exatamente isso
que chamamos de diagnóstico participativo: um processo de investigação
coletiva que combina dados, experiência cotidiana e diálogo, para que o grupo
enxergue o problema com mais clareza — e não apenas com opiniões soltas.
Na prática, o diagnóstico participativo é como acender a luz antes de arrumar um cômodo. Sem essa luz, a gente pode até mover móveis, comprar coisas novas e pintar as paredes…, mas corre o risco de estar escondendo mofo atrás do armário. Em projetos sociais e políticas públicas, acontece a mesma coisa: quando o diagnóstico é frágil, a solução pode ser bonita no papel, mas não resolve o que precisava resolver — ou resolve só uma parte pequena, deixando as causas intactas.
Uma das maiores vantagens do
diagnóstico participativo é que ele ajuda a evitar dois extremos comuns. O
primeiro é o “achismo”, quando alguém decide com base em impressões
pessoais (“o problema aqui é falta de vontade”, “é porque o povo não
participa”, “é porque a juventude não quer nada”). O segundo extremo é a frieza
tecnocrática, quando apenas números e relatórios são usados e a vida real
fica de fora (“os indicadores melhoraram, então está tudo bem”, mesmo que as
pessoas digam o contrário). O diagnóstico participativo tenta juntar o melhor
dos dois mundos: evidência e vivência, técnica e território.
Para isso funcionar, a primeira coisa
é aceitar que problemas sociais raramente são simples. Quase sempre, o que
aparece na superfície é apenas um sintoma. Por exemplo: “a praça está
abandonada”. Parece direto, mas quando a gente escuta com calma, surgem
camadas: iluminação ruim, falta de manutenção, ausência de atividades, medo de
violência, lixo por falta de coleta adequada, sensação de descaso histórico.
Cada camada puxa outra. E, quando o grupo entende essas conexões, a chance de
criar soluções mais inteligentes aumenta muito.
Também é importante lembrar que diagnóstico participativo não é “uma reunião” e pronto. Ele
costuma ser um conjunto de momentos, com diferentes formatos, porque as pessoas falam melhor em ambientes diferentes. Tem gente que se solta em roda de conversa; tem gente que se expressa melhor por escrito; tem gente que só fala quando se sente segura; e tem gente que nem aparece em reuniões tradicionais, mas fala muito quando você conversa no portão, na fila do posto, na feira ou na porta da escola. Um diagnóstico participativo cuidadoso procura exatamente isso: escutar de maneiras diversas, para não ficar refém de quem sempre fala mais alto.
Um caminho bem prático para começar é
a observação do território. Parece simples, mas é poderoso. Em vez de
discutir o problema em uma sala, o grupo vai ao local e vê com os próprios
olhos. É o que muita gente chama de caminhada diagnóstica: andar pelo bairro,
pela escola, pela unidade de saúde, pela praça, registrando pontos críticos e
também potenciais. Nesse tipo de atividade, perguntas simples fazem diferença:
“onde você evita passar?”, “em que horário isso piora?”, “o que melhorou nos
últimos anos?”, “o que já tentaram e não deu certo?”. A observação ajuda a
tirar a conversa do abstrato e levar para o concreto.
Outra técnica muito útil é a roda
de conversa com perguntas bem pensadas. O segredo não é fazer perguntas
genéricas (“o que vocês querem?”), porque isso abre um mar de respostas
desconexas. O segredo é fazer perguntas que puxem causa, história e prioridade.
Por exemplo: “o que mudou nos últimos dois anos para esse problema piorar?”,
“quem é mais afetado e por quê?”, “o que acontece quando o problema aparece?”,
“o que seria um sinal de melhora?”. Essas perguntas parecem simples, mas
organizam o pensamento coletivo.
Além disso, o diagnóstico
participativo melhora quando o grupo trabalha com algum tipo de organização
visual. Uma ferramenta clássica é a árvore de problemas. Ela funciona
assim: você coloca o problema central no tronco (“alta evasão escolar”, “falta
de acesso a serviços”, “violência no entorno”), depois puxa possíveis causas
como raízes (“transporte ruim”, “falta de vínculo”, “trabalho infantil”,
“insegurança”), e consequências como galhos (“baixa aprendizagem”, “desemprego
futuro”, “conflitos familiares”). Quando o grupo monta essa árvore junto,
acontece algo bonito: as pessoas começam a perceber que estão falando de um
sistema, não de um culpado. E isso muda o clima — sai da acusação e vai para a
compreensão.
Mas, claro, em algum momento o
grupo
precisa priorizar, porque nem tudo dá para resolver de uma vez. E aqui muita
gente erra feio: tenta decidir “no grito”, ou decide pelo que emociona mais, ou
decide pelo que é mais visível. O diagnóstico participativo, por outro lado,
pode usar uma priorização simples, mas justa — como votação por pontos, escolha
por critérios ou ranking coletivo. Um exemplo: cada pessoa recebe três votos
para distribuir entre os problemas mais urgentes. Ou o grupo define critérios
antes (gravidade, número de afetados, custo, urgência, risco) e avalia cada
item com base nisso. O importante é o processo ser claro e combinado, para
evitar sensação de injustiça.
Um ponto que merece atenção especial
é: diagnóstico participativo não é só “somar opiniões”. Ele também
precisa de dados. Às vezes, o território sente uma coisa, mas os números
mostram outra nuance. Às vezes, os números parecem bons, mas a vida real mostra
que a melhora não chegou para todo mundo. Por isso, é saudável colocar dados em
linguagem acessível na mesa: mapas, indicadores locais, registros de
atendimento, dados de transporte, informações sobre orçamento, estatísticas
públicas. Quando dados e experiência conversam, o diagnóstico fica mais
robusto.
E tem um cuidado ético importante:
nem toda fala é leve. Em processos participativos, as pessoas podem relatar
violência, humilhação, abandono, fome, medo. Isso exige cuidado do facilitador:
acolher, respeitar, não expor, e saber conduzir para que a reunião não vire um
espaço de sofrimento sem encaminhamento. Às vezes, o diagnóstico revela algo
que precisa de encaminhamento imediato (risco à vida, violação de direitos,
urgência social). Gestão Social não é “assistência social improvisada”, mas
também não pode fingir que não ouviu. Em contextos assim, é essencial ter uma
rede de encaminhamento e parcerias.
No fim das contas, o diagnóstico
participativo tem um objetivo muito concreto: construir uma visão
compartilhada do problema, com causas mais prováveis, grupos mais afetados,
prioridades claras e sinais de melhoria. E isso, por si só, já é um resultado
enorme. Porque quando um grupo consegue nomear um problema com precisão, ele
para de gastar energia em brigas improdutivas e passa a construir soluções com
mais foco.
É como se o diagnóstico fosse um acordo inicial do tipo: “Ok, nós não concordamos em tudo, mas concordamos que o problema é este, que afeta mais essas pessoas, que tem essas causas principais e que
queremos melhorar isso primeiro.” A partir daí, planejar deixa de ser uma
aposta e vira um caminho.
E talvez a frase mais didática para guardar desta aula seja: diagnóstico participativo não é uma etapa burocrática — é um ato de respeito. Respeito ao território, à experiência das pessoas e ao dinheiro público ou ao recurso social investido. Porque, quando a gente entende bem antes de agir, a chance de fazer melhor — e de errar menos — cresce muito.
Referências
bibliográficas
FREIRE,
Paulo. Extensão ou comunicação? Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.
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Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
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1983.
CHAMBERS,
Robert. Participatory Workshops: A Sourcebook of 21 Sets of Ideas and
Activities. London: Earthscan, 2002.
MINAYO,
Maria Cecília de Souza. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em
saúde. São Paulo: Hucitec, 2014.
BRASIL.
Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Orientações técnicas:
Centro de Referência de Assistência Social — CRAS. Brasília: MDS, 2009.
SANTOS,
Boaventura de Sousa. A gramática do tempo: para uma nova cultura política.
São Paulo: Cortez, 2006.
Aula 5 — Planejamento: objetivos,
resultados e teoria de mudança
Depois que a gente faz um diagnóstico
participativo bem feito, costuma acontecer uma coisa curiosa: o grupo sente um
misto de alívio e ansiedade. Alívio porque finalmente o problema ficou mais
claro. Ansiedade porque vem a pergunta inevitável: “Tá… e agora, o que a
gente faz?” É aqui que entra o planejamento. E, diferente do que muita
gente imagina, planejar em Gestão Social não é preencher um formulário ou fazer
um cronograma bonito. Planejar é construir um caminho possível, com os pés no
chão, que faça sentido para o território e para as pessoas — e que seja claro o
suficiente para não virar promessa vaga.
Uma boa forma de começar é entender
que planejamento não é “adivinhar o futuro”. Planejamento é tomar decisões
melhores no presente, usando o que já sabemos: a realidade do território,
os recursos disponíveis, os limites (de orçamento, lei, tempo) e as prioridades
definidas com participação. Ele serve para tirar a ação do improviso, mas sem
engessar a vida real. Em Gestão Social, planejamento não é uma camisa de força;
é um mapa — e mapas podem ser atualizados quando o caminho muda.
O primeiro passo de um planejamento claro é diferenciar três
coisas que se confundem o tempo todo: problema,
objetivo e ação. Problema é o que está errado ou insuficiente (“alta evasão
escolar”, “baixa adesão ao pré-natal”, “praça insegura à noite”). Objetivo é a
mudança desejada (“reduzir evasão”, “aumentar adesão”, “tornar a praça segura e
usada”). Ação é o que será feito (“busca ativa”, “grupos de gestantes”,
“instalar iluminação e criar atividades comunitárias”).
Parece
simples, mas essa diferença evita um erro clássico: transformar ação em
objetivo (“fazer oficinas”, “realizar palestras”, “promover eventos”) e depois
perceber que fez muita coisa, mas o problema quase não mudou.
Quando falamos de objetivos, vale
lembrar: objetivo bom é aquele que dá direção sem virar prisão. Se ele é amplo
demais, o projeto fica sem foco. Se ele é estreito demais, o projeto vira uma
lista de tarefas. Em geral, funciona bem pensar em um objetivo geral (o
“norte”) e alguns objetivos específicos (os “passos”). O objetivo geral
pode ser algo como “fortalecer a permanência escolar de adolescentes do
território X”. Já objetivos específicos podem detalhar: “melhorar vínculo
escola-família”, “reduzir faltas recorrentes”, “aumentar acesso a apoio
psicossocial”, “criar rede de proteção”. Assim, o planejamento começa a ganhar
forma sem perder a visão humana do todo.
A partir daí, entra uma distinção que é ouro para quem está começando: resultados imediatos e mudanças na vida. Em planejamento social, a gente costuma chamar de outputs e outcomes. Resultados imediatos (outputs) são as entregas: número de encontros realizados, pessoas atendidas, oficinas feitas, visitas domiciliares, materiais distribuídos. Eles são importantes porque mostram que o projeto está acontecendo. Mas eles não são o fim. Mudanças na vida (outcomes) são os efeitos desejados: melhorar saúde, aumentar aprendizagem, reduzir violência, aumentar renda, fortalecer participação, ampliar confiança. É comum ver projetos que “entregam muito” (outputs altos) e “transformam pouco” (outcomes baixos). Planejar bem é justamente alinhar as entregas com as mudanças que importam.
E aí chegamos ao coração desta aula: a teoria de mudança. Apesar do nome parecer técnico, a ideia é bem humana. Teoria de mudança é, basicamente, uma explicação lógica e honesta de por que você acredita que suas ações vão gerar a mudança desejada. É como responder, com clareza: “Se fizermos isso, com essas pessoas, do jeito certo, esperamos que aconteça aquilo — por estes
motivos.” E essa resposta
precisa ser realista, não mágica.
Um exemplo simples ajuda. Imagine que
o diagnóstico mostrou que muitas gestantes não fazem o pré-natal completo
porque: (1) têm dificuldade de transporte; (2) não se sentem bem atendidas; (3)
não entendem a importância de algumas consultas; (4) têm medo de julgamento. Se
o projeto decide apenas “fazer palestras”, a teoria de mudança fica fraca. Mas
se o planejamento combina ações como busca ativa com agentes comunitários,
horários flexíveis, acolhimento com escuta qualificada e grupos de apoio, a
teoria de mudança fica mais coerente: as ações atacam causas reais. Em outras
palavras, teoria de mudança é o que impede o projeto de ser uma resposta
genérica para um problema específico.
Um detalhe importante: teoria de mudança também explicita assumptions, ou seja, suposições e condições necessárias para o plano funcionar. Por exemplo: “Pressupomos que a unidade de saúde terá equipe mínima”, ou “Pressupomos que a escola vai aderir ao fluxo de busca ativa”, ou “Pressupomos que haverá segurança para atividades noturnas na praça”. Isso não é pessimismo; é maturidade. Quando suposições ficam escondidas, a equipe se frustra depois dizendo “não deu certo porque ninguém ajudou”, como se fosse surpresa. Quando suposições estão explícitas, o grupo pode negociar apoios e reduzir riscos desde o começo.
E falando em riscos: planejamento
social sem olhar para riscos é como planejar uma viagem ignorando o clima. Você
até pode ter sorte, mas é melhor se preparar. Riscos podem ser de vários tipos:
falta de adesão, mudança política, conflito entre atores, recursos que não
chegam, rotatividade de equipe, boatos no território, violência, sobrecarga de
voluntários. Planejar bem inclui perguntar: “o que pode dar errado?” e “o que
faremos se der?” Isso evita que o projeto fique dependente de heróis. Projetos
sustentáveis não dependem de heroísmo; dependem de estrutura e combinados.
Uma ferramenta muito útil para transformar tudo isso em algo concreto é o planejamento em “uma página”. Funciona assim: você cria um quadro simples com seis blocos: problema, público, objetivos, ações, resultados esperados, riscos/suposições. Quando o grupo consegue colocar o plano em uma página, é sinal de que ele está claro. E clareza é uma forma de cuidado: cuidado com a equipe, com o território e com o recurso investido. Se o plano fica tão complexo que ninguém consegue explicar, ele
provavelmente não vai ser bem executado.
Outro aspecto típico da Gestão Social é que o planejamento não deve nascer “na sala fechada”. Ele precisa ser coerente com a participação. Isso não significa que todo mundo vai escrever o projeto inteiro junto — isso seria inviável na maioria dos casos. Mas significa que o planejamento deve guardar as escolhas participativas: prioridades, critérios, valores do território, limites reconhecidos. E significa também que o planejamento precisa ser comunicável. Se a comunidade ajudou a construir a visão do problema, ela precisa entender o caminho de solução. Planejamento que ninguém entende vira propriedade de poucos e perde legitimidade.
No fim, planejar é construir uma
ponte entre o diagnóstico e a ação. E essa ponte tem que aguentar o peso do
mundo real. Por isso, um bom planejamento social é aquele que responde quatro
perguntas com honestidade: onde estamos? para onde vamos? como vamos? como
saberemos que melhoramos? Quando essas respostas estão bem colocadas, a
equipe trabalha com mais segurança, a comunidade confia mais no processo e o
projeto tem mais chance de produzir mudança de verdade — não só atividade.
Se eu tivesse que resumir esta aula em uma frase, seria: planejar é escolher com cuidado para transformar com consistência. É isso que diferencia um conjunto de boas intenções de um projeto social que realmente faz diferença.
Referências
bibliográficas
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Carol H. Evaluation: Methods for Studying Programs and Policies. Upper
Saddle River: Prentice Hall, 1998.
PATTON,
Michael Quinn. Utilization-Focused Evaluation. Thousand Oaks: Sage
Publications, 2008.
Rogers,
Patricia J. Theory of Change. In: Mathison, Sandra (org.). Encyclopedia
of Evaluation. Thousand Oaks: Sage Publications, 2005.
FREIRE,
Paulo. Extensão ou comunicação? Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.
TENÓRIO,
Fernando Guilherme (org.). Cidadania e desenvolvimento local. Rio de
Janeiro: FGV, 2007.
CANÇADO,
Airton Cardoso; TENÓRIO, Fernando Guilherme; PEREIRA, José Roberto. Gestão
social: reflexões teóricas e conceituais. Cadernos EBAPE.BR, Rio de
Janeiro, 2011.
BRASIL.
Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Orientações técnicas:
Centro de Referência de Assistência Social — CRAS. Brasília: MDS, 2009.
Aula 6 — Governança e tomada de decisão:
como decidir sem virar bagunça
Chega um momento em todo processo participativo em que a conversa precisa virar decisão. E é justamente
aí que
muita coisa desanda. Até dá para ter um diagnóstico bonito, uma sala cheia,
falas emocionadas e boas intenções…, mas, se ninguém entende como o grupo
decide, a participação vira confusão, as pessoas se frustram e o projeto
perde credibilidade. Esta aula é sobre isso: governança e tomada de
decisão. Em outras palavras, é sobre criar um jeito de decidir junto sem
cair nem no autoritarismo (“alguém decide por todos”) nem no caos (“todo mundo
fala, ninguém encaminha”).
Governança, antes de tudo, não é um
palavrão técnico. Pense nela como o “acordo de funcionamento” de um processo
coletivo. É o conjunto de combinações que responde perguntas bem práticas: quem
participa? com qual papel? quem coordena? como registramos? como distribuímos
responsabilidades? como resolvemos conflitos? como garantimos transparência?
Quando isso não existe, o processo fica dependente do humor do dia, do
microfone mais alto e da improvisação. Quando existe, o processo ganha
estabilidade — e isso é uma forma de respeito com as pessoas, porque ninguém
quer doar tempo e energia para um espaço que não sabe para onde vai.
Um erro comum é achar que governança
é só “criar um comitê”. Um comitê pode ajudar, mas não resolve sozinho. Às
vezes, a governança precisa ser bem simples: uma equipe de facilitação, um
grupo de referência do território, uma ponte com o poder público, e um jeito de
prestar contas. O tamanho da governança deve caber no projeto e no território.
A regra é: complexidade suficiente para dar conta do processo, mas não tanta
a ponto de travar tudo.
O primeiro passo é definir papéis.
Em encontros participativos, alguns papéis são quase sempre necessários, mesmo
que rodem entre as pessoas. O facilitador (ou facilitadora) cuida do fluxo e do
clima: garante tempo de fala, organiza a pauta, protege o espaço de agressões e
evita que a conversa vire disputa infinita. O relator registra decisões e
argumentos de forma fiel e compreensível. Um “guardião do tempo” ajuda a não
estourar horários. E um articulador pode ser responsável por levar
encaminhamentos para parceiros, secretaria, conselho ou rede local. Quando
esses papéis não existem, a reunião se torna refém de quem fala mais e de quem
está mais ansioso — e a qualidade das decisões cai.
Mas só ter papéis não basta. É preciso construir um pacto de convivência. E isso não precisa ser burocrático: pode ser um combinado de cinco ou seis regras claras. Por exemplo: respeitar falas,
não precisa ser
burocrático: pode ser um combinado de cinco ou seis regras claras. Por exemplo:
respeitar falas, não interromper, atacar ideias e não pessoas, garantir rodadas
de fala, registrar encaminhamentos, evitar conversas paralelas, explicar siglas
e termos técnicos. Parece básico, mas faz diferença enorme. Um pacto bem feito
cria segurança, e segurança faz com que pessoas tímidas falem, que grupos
historicamente silenciados apareçam e que conflitos sejam tratados com
maturidade.
Na tomada de decisão, existe outra
confusão típica: acreditar que “decidir junto” significa sempre chegar a um
consenso absoluto. Na prática, isso raramente acontece. E quando o grupo tenta
forçar consenso, a decisão pode ficar tão genérica que perde potência, ou pode
virar uma pressão silenciosa para que quem discorda ceda. Gestão Social não é
sobre eliminar divergência; é sobre construir decisões legítimas a partir dela.
Por isso, é útil conhecer alguns
modelos de decisão, cada um com seus prós e contras. O consenso busca um
acordo que todos apoiem. Funciona bem para princípios, regras do jogo e
decisões que exigem alto compromisso coletivo. Mas pode ser lento e vulnerável
a bloqueios. O consentimento (muito usado em práticas de governança
colaborativa) não exige que todos amem a decisão; exige que ninguém veja um
risco grave ou uma objeção forte o suficiente para impedir o teste. É aquele
“dá para tentar com segurança e revisar depois”. Já a votação é
eficiente, mas precisa de critérios e de cuidado, porque pode gerar sensação de
“ganhadores e perdedores” e afastar minorias. Nenhum método é perfeito. O
segredo é escolher o método adequado para cada tipo de decisão — e deixar isso
claro.
Um jeito didático de pensar é:
decisões estruturantes pedem mais diálogo; decisões operacionais podem ser mais
rápidas. Por exemplo, decidir “quais serão os critérios de priorização” é algo
que pede consenso ou consentimento bem trabalhado, porque define o jogo. Já
decidir “qual será o horário do próximo encontro” pode ser por votação simples
ou encaminhamento da facilitação. Governança é muito sobre isso: saber o que
precisa de profundidade e o que pode ser leve.
Outro elemento central é a clareza do que está aberto e do que não está aberto à decisão. Isso evita frustração. Às vezes, existem limites legais, orçamentários ou técnicos que não podem ser ignorados. Em vez de esconder, a Gestão Social explicita: “isso aqui é o campo do
possível”, “isso aqui é restrição”, “isso aqui precisa de autorização”, “isso aqui é decisão do grupo”. Quando esse contorno não aparece, as pessoas acreditam que decidiram algo que não será implementado — e a confiança vai embora. Transparência, aqui, é a base da governança.
E tem um tema que sempre aparece
quando falamos de governança participativa: captura. Captura é quando o
processo é dominado por um grupo com mais organização, influência ou acesso, e
as decisões passam a refletir interesses estreitos, deixando o bem comum em
segundo plano. Às vezes isso acontece de forma intencional; muitas vezes, não.
É só a desigualdade agindo. A boa notícia é que dá para criar “antídotos” de
governança: rodadas de fala, grupos pequenos com composição diversa,
facilitação neutra, critérios públicos, registro transparente, revezamento de
papéis e mecanismos para ouvir quem não consegue estar presente.
Além de decidir, governança também é
sobre responsabilizar. Uma decisão coletiva só vira realidade quando
alguém assume tarefas, prazos e acompanhamento. O clássico “ficou combinado”
precisa virar “quem faz o quê, até quando, com qual recurso, e como vamos
acompanhar”. Um erro comum em processos participativos é sair com decisões
lindas, mas sem responsáveis definidos. Aí ninguém faz, o tempo passa, e a
participação é culpada por “não funcionar”. Na verdade, faltou um mecanismo
simples de encaminhamento.
É por isso que o registro é tão importante. Registrar não é burocracia; é memória coletiva e prestação de contas. Um registro bem feito guarda: a pauta, quem estava presente (quando fizer sentido), quais opções foram debatidas, quais critérios foram usados, o que foi decidido, o que ficou pendente, e quais próximos passos. E, idealmente, esse registro deve virar devolutiva pública. Um processo sem registro é um processo que pode ser reescrito por qualquer um depois — e isso abre espaço para ruídos, manipulações e desconfiança.
Outra dimensão da governança é a comunicação. Muitas vezes, o que derruba um processo não é a decisão, mas a forma como ela é comunicada. Comunicar bem significa explicar o raciocínio e não apenas anunciar o resultado. “Escolhemos X porque atende melhor aos critérios A e B; Y ficou para a próxima fase porque depende de Z; e voltaremos a discutir em tal data.” Isso diminui resistências e mostra respeito até com quem discordou. Em Gestão Social, comunicar é parte da governança, porque mantém a
confiança viva entre um encontro e outro.
Agora, vale uma honestidade:
governança dá trabalho. Exige preparo e habilidade de facilitação. Exige lidar
com conflito, tempo curto e expectativa alta. Mas o custo de não ter governança
é muito maior: desgaste, desistência, brigas, boatos e, no limite, o fim do
processo. Uma governança mínima, bem combinada e bem cuidada, é o que
transforma participação em algo sustentável.
Para fechar esta aula, leve consigo uma imagem simples: governança é como a regra de um jogo coletivo. Sem regra, o jogo vira briga. Com regra justa, o jogo vira espaço de aprendizado e construção. E a tomada de decisão, quando bem desenhada, faz uma mágica concreta: ela transforma o “todo mundo tem uma opinião” em “nós escolhemos um caminho, juntos, e vamos caminhar”.
Referências
bibliográficas
HABERMAS,
Jürgen. Direito e democracia: entre facticidade e validade. Rio de
Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997.
OSTROM,
Elinor. Governing the Commons: The Evolution of Institutions for Collective
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FISHKIN,
James S. When the People Speak: Deliberative Democracy and Public
Consultation. Oxford: Oxford University Press, 2009.
FREIRE,
Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
TENÓRIO,
Fernando Guilherme. Gestão social: uma perspectiva conceitual. Revista
de Administração Pública, Rio de Janeiro, 1998.
BOULLOSA,
Rosana de Freitas; SCHOMMER, Paula Chies. Gestão social: caso, conceito ou
perspectiva? Revista de Administração Pública, Rio de Janeiro, 2009.
CANÇADO,
Airton Cardoso; TENÓRIO, Fernando Guilherme; PEREIRA, José Roberto. Gestão
social: reflexões teóricas e conceituais. Cadernos EBAPE.BR, Rio de
Janeiro, 2011.
Estudo de caso envolvente — Módulo 2
(Processos participativos, planejamento e decisão)
Título:
“O CRAS do Jardim Aurora: quando o plano é bonito, mas o processo tropeça”
Contexto
O bairro Jardim Aurora cresceu
rápido. Chegou gente nova, surgiram ocupações, o transporte piorou e o posto de
saúde vive lotado. O CRAS do território recebe cada vez mais famílias,
mas a equipe está no limite. Depois de muitas reclamações e também de pedidos
de ajuda (inclusive de escolas e da unidade de saúde), a Secretaria decide
lançar um projeto chamado “Aurora em Rede”: a ideia é construir, com
participação do território, uma estratégia para melhorar o acesso a serviços e
reduzir situações de vulnerabilidade.
O anúncio parece
promissor: “Vamos fazer um diagnóstico participativo, planejar ações e criar uma governança com a comunidade.” Só que, na prática, o caminho começa com pressa e com escolhas ruins.
A
história (em cenas)
Cena
1 — O diagnóstico “relâmpago”
A
equipe do projeto marca uma oficina de diagnóstico numa manhã de quarta-feira,
na sede do CRAS. O convite é feito por um cartaz na porta e uma mensagem em um
grupo de WhatsApp que já existe (onde quase sempre estão as mesmas lideranças).
No
dia, aparecem 12 pessoas: coordenadores escolares, duas lideranças
comunitárias, uma ONG parceira e três usuários do CRAS. Uma mãe chega atrasada
com uma criança no colo e diz: “Eu só consegui vir porque minha vizinha ficou
olhando os outros dois”.
A
oficina começa com perguntas amplas: “Quais são os problemas do bairro?” Em dez
minutos surge uma lista enorme: desemprego, drogas, violência, falta de creche,
enchente, fome, falta de médico, transporte caro, briga entre vizinhos, falta
de lazer… A equipe anota tudo e encerra dizendo: “Ótimo, temos o diagnóstico!”
Na
saída, um jovem comenta: “Isso aí não é diagnóstico, é desabafo. E ninguém
falou da falta de ônibus à noite, que é o que prende a gente aqui.”
Sinal de alerta: o processo juntou falas, mas não organizou causas, nem priorizou, nem cruzou com dados.
Cena
2 — O planejamento vira lista de atividades
Na
semana seguinte, a Secretaria pede um plano “para ontem”. A equipe monta um
documento com ações genéricas:
O
texto fica bonito, mas ninguém consegue responder com clareza:
Uma
técnica do CRAS pergunta: “Ok, mas isso diminui quais vulnerabilidades
primeiro? E quem vai executar, se a equipe já está sobrecarregada?”
Silêncio. A resposta é: “A gente ajusta depois.”
Sinal de alerta: planejamento sem teoria de mudança vira promessa — e promessa vira frustração.
Cena
3 — A decisão vira briga
Chega
o momento de “decidir prioridades”. A reunião tem muita fala e pouco
encaminhamento. As lideranças mais antigas dominam o espaço e insistem que a
prioridade deve ser “tirar os jovens da rua” com um evento semanal.
Uma
mãe tenta falar do problema da creche e do transporte: “Sem ônibus e sem vaga,
eu não trabalho. A gente precisa resolver isso.”
Alguém corta: “Isso aí é com outra
secretaria, vamos focar no que dá.”
No
final, a equipe decide “no improviso”: cria um calendário de eventos e define
um comitê com cinco pessoas — as mesmas que sempre aparecem. Não há regras, não
há registro claro, não há devolutiva. Alguns participantes saem irritados.
Outros simplesmente não voltam mais.
Sinal de alerta: governança mal desenhada deixa o processo vulnerável à captura e ao desgaste.
Os
erros comuns do Módulo 2 (e como evitá-los)
Erro
1 — Diagnóstico “de reunião única” (juntar falas não é diagnosticar)
O
que aconteceu: fizeram uma oficina e trataram como
diagnóstico completo.
Consequência: lista de problemas enorme, sem causas, sem prioridade e
sem foco.
Como
evitar
o caminhada
no território
o rodas
em horários diferentes
o escuta
na escola/UBS/associação
o formulário
simples para quem não pode ir
Erro
2 — Perguntas ruins geram respostas ruins
O
que aconteceu: pergunta genérica (“quais são os
problemas?”) virou desabafo e disputa de pauta.
Como evitar
o “O
que piorou nos últimos 2 anos?”
o “Quem
é mais afetado e por quê?”
o “Qual
problema, se melhorasse, destravaria outros?”
o “O que já tentaram e não funcionou?”
Erro
3 — Planejamento vira “lista de atividades”
O
que aconteceu: escreveram ações sem ligação com mudanças
esperadas.
Consequência: faz-se muito, muda-se pouco.
Como
evitar
o outputs
(entregas: encontros, atendimentos)
o outcomes
(mudanças: acesso, vínculo, redução de faltas, melhoria de renda)
Erro
4 — Ignorar suposições e riscos (o plano vira fantasia)
O
que aconteceu: assumiram que haveria equipe, tempo e
apoio de outras secretarias.
Como evitar
Erro
5 — Tomada de decisão sem regra (vira domínio do mais forte)
O
que aconteceu: sem facilitação, sem critérios, sem
modelo de decisão.
Como
evitar
o método
(consenso, consentimento ou votação)
o critérios
públicos de priorização
o tempo
de fala e rodadas
o registro
e devolutiva
Erro
6 — Governança como “comitê de sempre” (captura e desconfiança)
O
que aconteceu: comitê formado pelos mesmos atores, sem
rotatividade e sem transparência.
Como evitar
A
virada: como o “Aurora em Rede” se reergueu
Depois
de perder participantes e virar alvo de críticas, a equipe decide corrigir o
processo com base no que a Gestão Social ensina.
Passo
1 — Um diagnóstico mais honesto e completo
Resultado:
o grupo identifica uma causa “trava” repetida: transporte noturno e
insegurança estavam bloqueando acesso a trabalho, estudo e serviços.
Passo
2 — Planejamento com teoria de mudança
Eles
desenham um plano mínimo, focado e realista:
Passo
3 — Governança simples, mas firme
Em pouco tempo, as pessoas voltam a participar, não por “motivação”, mas porque veem seriedade no processo: o que se fala vira encaminhamento.
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