CONCEITOS BÁSICOS EM EMERGÊNCIAS
CLÍNICAS
Outras Emergências e Condutas Básicas
As crises convulsivas representam uma
manifestação clínica neurológica comum em emergências e podem estar
relacionadas a diversas etiologias, como epilepsia, trauma craniano, distúrbios
metabólicos, intoxicações e infecções do sistema nervoso central. O reconhecimento
do tipo de crise e a conduta imediata adequada são essenciais para evitar
complicações, preservar funções neurológicas e garantir a segurança do
paciente. A alteração do nível de consciência, muitas vezes associada às
crises, exige avaliação cuidadosa e sistemática, sendo um dos principais
indicadores de gravidade clínica.
As crises convulsivas podem ser
classificadas com base em sua origem e nas manifestações clínicas. A
classificação mais atual, segundo a International League Against Epilepsy
(ILAE, 2017), divide as crises em focais,
generalizadas e de início desconhecido.
Originam-se em uma região específica do cérebro e podem ser:
• Com consciência preservada (parciais
simples): o paciente está consciente e pode relatar a experiência.
Apresenta movimentos involuntários, alterações sensoriais ou autonômicas
localizadas.
• Com alteração de consciência (parciais
complexas): há rebaixamento do nível de consciência, automatismos
(movimentos repetitivos) e confusão mental pós-ictal.
Envolvem os dois hemisférios cerebrais
simultaneamente desde o início e incluem:
• Crise tônico-clônica generalizada (grande
mal): é a mais conhecida. Caracteriza-se por perda súbita de consciência,
rigidez muscular (fase tônica), seguida de movimentos espasmódicos (fase
clônica), cianose, mordedura de língua, liberação esfincteriana e estado
confusional prolongado.
• Crises de ausência (pequeno mal): mais
comuns em crianças. Envolvem breves lapsos de consciência, com olhar fixo e
cessação da atividade, geralmente sem quedas ou movimentos.
• Crises atônicas e mioclônicas: envolvem
perda súbita do tônus muscular ou espasmos musculares rápidos, respectivamente.
São aquelas em que não é possível determinar
com clareza a origem da crise. Esse diagnóstico é comum em ambientes
pré-hospitalares ou quando não há testemunhas do evento.
O atendimento a um paciente em crise
atendimento a um paciente em crise convulsiva deve
priorizar a segurança, a manutenção das
vias aéreas e a observação clínica detalhada.
2.1. Medidas
imediatas:
• Garantir ambiente seguro, afastando
objetos perigosos e protegendo a cabeça da vítima.
• Não tentar conter os movimentos ou
introduzir objetos na boca, o que pode causar lesões graves.
• Colocar o paciente em decúbito lateral
(posição lateral de segurança), se possível, para prevenir aspiração de
secreções.
• Observar a duração da crise: crises que
duram mais de 5 minutos são consideradas estado
de mal epiléptico e requerem intervenção farmacológica imediata.
• Chamar o serviço de emergência (192)
se:
o a crise durar mais de
5 minutos; o houver múltiplas
crises seguidas sem recuperação da consciência; o for a primeira crise do paciente; o houver trauma
associado ou dificuldade respiratória pós-crise.
2.2. Medicamentos de
urgência:
No ambiente hospitalar, se a crise não
cessar espontaneamente, utilizam-se benzodiazepínicos
de ação rápida, como:
• Diazepam
intravenoso (0,1 a 0,3 mg/kg, máximo 10 mg);
• Lorazepam
ou midazolam, por via IV ou IM, se disponíveis.
O uso precoce de anticonvulsivantes de
manutenção (como fenitoína) pode ser necessário se houver risco de recorrência
ou estado de mal epiléptico.
Após a cessação da crise, o paciente entra
em um período denominado fase pós-ictal,
caracterizado por confusão mental, sonolência, cefaleia, amnésia do evento e,
em alguns casos, agitação.
As principais condutas incluem:
• Avaliação do nível de consciência,
frequência respiratória e oximetria de pulso.
• Monitoramento contínuo até que o
paciente retorne ao seu estado basal.
• Verificar glicemia capilar, uma vez que
hipoglicemia pode ser causa ou consequência da crise.
• Proteger a privacidade e tranquilizar o
paciente, explicando o que ocorreu.
• Avaliação neurológica completa, caso
seja o primeiro episódio ou se houver sinais focais persistentes.
Se for a primeira crise, é recomendada a
realização de exames complementares como tomografia de crânio, EEG, exames
laboratoriais (eletrólitos, função renal e hepática) e investigação de causas
estruturais ou metabólicas.
A alteração da consciência pode decorrer de crises convulsivas, distúrbios metabólicos (hipoglicemia, hiponatremia), intoxicações, infecções (meningites,
alteração da consciência pode decorrer de
crises convulsivas, distúrbios metabólicos (hipoglicemia, hiponatremia),
intoxicações, infecções (meningites, encefalites) e traumas.
É fundamental utilizar escalas de avaliação
como a Escala de Coma de Glasgow,
além de avaliar:
• Pupilas
(diâmetro e reatividade);
• Presença
de rigidez de nuca ou sinais de foco neurológico;
• Glicemia
e parâmetros vitais;
• Sinais
de intoxicação (odor etílico, pupilas puntiformes ou midriáticas, pele fria ou
úmida).
A alteração do nível de consciência é um
sinal de alarme e requer investigação
imediata e suporte intensivo, com possibilidade de intubação orotraqueal se
houver rebaixamento acentuado.
As crises convulsivas, especialmente as
tônico-clônicas, são eventos impactantes e potencialmente perigosos se não
forem manejados adequadamente. A diferenciação dos tipos de crise, a conduta
segura durante o evento e os cuidados no período pós-ictal são etapas
fundamentais para garantir um atendimento eficaz e seguro. Além disso, qualquer
crise convulsiva em pacientes sem diagnóstico prévio de epilepsia deve ser
investigada com profundidade para esclarecer sua etiologia e prevenir
recorrências.
• INTERNATIONAL
LEAGUE AGAINST EPILEPSY (ILAE).
Operational
Classification of Seizure Types by the ILAE, 2017.
• BRASIL.
Ministério da Saúde. Protocolo de
Atendimento a Emergências Neurológicas. Brasília: MS, 2015.
• MONTEIRO,
C. et al. Emergências Médicas: Abordagem
Prática.
2ª ed. São Paulo: Atheneu, 2021.
• NAEMT
– National Association of Emergency Medical Technicians.
PHTLS: Suporte Pré-Hospitalar ao Trauma. 9ª ed. São Paulo:
Elsevier, 2020.
• GOMES,
M. M. et al. Epilepsia e Crises
Epilépticas: Manual de Conduta em Situações Agudas. São Paulo: Manole,
2020.
A avaliação do nível de consciência é uma etapa crítica na abordagem de pacientes com alterações neurológicas, traumas ou quadros clínicos agudos. O coma representa uma das formas mais graves de rebaixamento do sensório, caracterizado por uma ausência de resposta consciente aos estímulos do ambiente. Para avaliar esse estado de maneira padronizada, foi criada a Escala de Coma de Glasgow (ECG), um instrumento clínico amplamente utilizado em emergências, unidades de terapia intensiva e contextos neurocríticos. Esta escala permite classificar a gravidade do
coma, acompanhar a evolução do paciente e subsidiar decisões
terapêuticas.
1. O que é Coma?
O coma é um estado de inconsciência profunda
e prolongada no qual o indivíduo não responde a estímulos verbais, dolorosos ou
ambientais, e não apresenta abertura ocular ou atividade motora voluntária. É
um sinal de disfunção cerebral grave e requer avaliação médica imediata. Entre
as principais causas de coma, destacam-se:
• Traumatismo
cranioencefálico (TCE);
• Acidente
vascular cerebral (AVC);
• Infecções
do sistema nervoso central (como meningite e encefalite);
• Intoxicações
e envenenamentos;
• Distúrbios
metabólicos (hipoglicemia, hiponatremia, uremia);
• Parada
cardiorrespiratória e hipóxia cerebral.
A identificação precoce do coma e sua
monitorização são fundamentais para a prevenção de lesões cerebrais secundárias
e para o prognóstico do paciente (BRASIL, 2013).
A Escala
de Coma de Glasgow (ECG) foi desenvolvida em 1974 por Graham Teasdale e
Bryan Jennett, na Universidade de Glasgow, na Escócia. Desde então, tornou-se a
principal ferramenta de avaliação neurológica no contexto de emergência e
cuidados intensivos.
A ECG avalia três aspectos do comportamento do paciente:
• Abertura ocular (A): varia de 1
(nenhuma abertura) a 4 (espontânea); Resposta verbal (V): varia de 1 (nenhuma resposta) a 5 (orientado);
• Resposta motora (M): varia de 1
(nenhuma resposta) a 6 (obedece a comandos).
A pontuação total da escala vai de 3 a 15 pontos. A soma dos três
componentes permite classificar o nível de consciência:
• 13 a 15 pontos: leve rebaixamento ou
estado de alerta;
• 9 a 12 pontos: coma moderado;
• 3 a 8 pontos: coma profundo.
Uma pontuação igual ou inferior a 8 define o estado de coma e requer vigilância intensiva, geralmente com indicação de via aérea protegida (TEASDALE et al., 2014).
A ECG deve ser aplicada de forma
padronizada, preferencialmente logo na admissão do paciente e periodicamente
conforme a evolução clínica. A resposta mais alta observada para cada item é
registrada. É fundamental realizar a avaliação em ambiente seguro e adequado,
utilizando estímulos verbais e físicos quando necessário.
• 3
– Ao comando verbal;
• 2
– Ao estímulo doloroso;
• 1
– Nenhuma resposta.
• 5
– Orientado no tempo, espaço e pessoa;
• 4
– Confuso, mas capaz de se comunicar;
• 3
– Palavras inadequadas, sem coerência;
• 2
– Sons incompreensíveis, gemidos;
• 1
– Nenhuma resposta verbal.
• 6
– Obedece a comandos;
• 5
– Localiza estímulo doloroso;
• 4
– Retirada à dor;
• 3
– Flexão anormal (decorticação);
• 2
– Extensão anormal (descerebração);
• 1
– Nenhuma resposta motora.
O estímulo doloroso deve ser aplicado com
cautela e de forma padronizada (como pressão na base ungueal ou sobre o
trapézio), sempre observando o tipo e a lateralidade da resposta.
Apesar de sua ampla aplicabilidade, a ECG apresenta algumas limitações:
• Pacientes
intubados ou com traqueostomia não
podem ser avaliados pela resposta verbal convencional, devendo-se anotar
"V1t" (verbal ausente por intubação);
• A
presença de lesões oculares, sedação,
intoxicação ou doenças neuromusculares pode interferir nos escores;
• A
ECG não avalia o conteúdo da consciência, apenas o nível de resposta
comportamental.
Por isso, deve ser complementada por outros
instrumentos de avaliação neurológica, como a escala de reação pupilar, exames
de imagem (tomografia de crânio) e monitoramento contínuo dos sinais vitais e
do padrão respiratório (FONSECA et al., 2020).
A ECG é um preditor confiável do prognóstico neurológico, especialmente em
vítimas de TCE. Pontuações iniciais mais baixas estão associadas a maior
mortalidade e a maior chance de sequelas neurológicas permanentes. Além disso,
a evolução dos escores nas primeiras 48 a 72 horas permite avaliar a resposta
ao tratamento e a necessidade de intervenções intensivas.
Nos protocolos de atendimento ao
politraumatizado, como o Advanced Trauma
Life Support (ATLS), a ECG é parte integrante da avaliação primária (letra
D: Disability) e orienta decisões como intubação, sedação e necessidade de
neuroimagem urgente.
A Escala de Coma de Glasgow é uma ferramenta essencial na avaliação de pacientes com alteração do nível de consciência. Sua simplicidade, reprodutibilidade e valor prognóstico fazem dela um dos instrumentos mais utilizados em serviços de emergência e unidades críticas. A aplicação correta da ECG exige atenção, técnica e julgamento clínico, devendo sempre
serviços de emergência e unidades críticas. A
aplicação correta da ECG exige atenção, técnica e julgamento clínico, devendo
sempre ser integrada a uma avaliação neurológica completa e ao contexto clínico
do paciente.
• TEASDALE,
G.; JENNETT, B. Assessment of coma and
impaired consciousness: a practical scale. The Lancet, v. 304, n. 7872, p. 81– 84, 1974.
• TEASDALE,
G. et al. The Glasgow Coma Scale at 40
years: standing the test of time. The
Lancet Neurology, v. 13, n. 8, p. 844– 854, 2014.
• BRASIL.
Ministério da Saúde. Protocolo de
Atendimento ao Paciente com Traumatismo Crânio-Encefálico. Brasília: MS,
2013.
v. 94, p. 1-7, 2020.
AMERICAN COLLEGE OF SURGEONS. ATLS – Advanced
Trauma Life Support: Student Course Manual. 10ª ed. Chicago:
ACS, 2018.
As emergências endócrino-metabólicas
representam condições clínicas graves que exigem intervenção imediata para
evitar complicações sistêmicas e risco de morte. Entre as mais frequentes estão
a hipoglicemia severa e as formas
graves de hiperglicemia aguda, especialmente a cetoacidose diabética (CAD). Ambas acometem, predominantemente,
pacientes diabéticos e podem se manifestar tanto em ambiente intra-hospitalar
quanto extra-hospitalar. O reconhecimento precoce, o diagnóstico clínico e
laboratorial, bem como a instituição de tratamento imediato são determinantes
para o prognóstico.
A hipoglicemia é definida como a redução da glicemia plasmática abaixo de 70
mg/dL, sendo considerada grave quando os níveis caem a ponto de causar
alteração do nível de consciência, convulsões ou comprometimento funcional,
exigindo assistência de terceiros (ADA, 2023).
• Uso
excessivo de insulina ou antidiabéticos
orais (como sulfonilureias);
• Jejum
prolongado;
• Exercício
físico intenso sem ajuste da terapia;
• Ingestão
alcoólica sem alimentação adequada;
• Erros
terapêuticos, especialmente em idosos e pacientes renais.
A sintomatologia pode variar de acordo com a
velocidade da queda da glicose e a sensibilidade do paciente. Os principais
sinais incluem:
• Tremores, sudorese
fria, taquicardia, fome intensa;
• Confusão
mental, irritabilidade, dificuldade de concentração;
• Sonolência,
visão turva, convulsões;
• Em
casos graves: coma hipoglicêmico.
O tratamento deve ser iniciado sem demora, mesmo antes da confirmação
laboratorial, se houver suspeita clínica:
• Se
o paciente estiver consciente: administrar 15 a 20 g de carboidrato de absorção
rápida por via oral (ex: suco de frutas, glicose líquida).
• Se
houver comprometimento da consciência: administrar glicose 50% IV (ampola de 20-50 mL) ou, na ausência de acesso
venoso, glucagon 1 mg IM ou SC.
• Monitorar
glicemia após 15 minutos e repetir o tratamento se necessário.
A hipoglicemia recorrente deve ser
investigada quanto à dose de medicamentos, alimentação e comorbidades
associadas. A educação do paciente é fundamental para prevenção.
A cetoacidose
diabética (CAD) é uma emergência potencialmente fatal que ocorre
principalmente em pacientes com diabetes
tipo 1, mas também pode acometer diabéticos tipo 2 em situações de estresse
metabólico, como infecções, infarto agudo do miocárdio ou omissão de insulina.
A CAD resulta da deficiência absoluta ou
relativa de insulina, levando à hiperglicemia severa, lipólise acentuada e
produção excessiva de corpos cetônicos, com consequente acidose metabólica. O quadro é agravado por desidratação, perda de
eletrólitos e hipoperfusão tecidual (BRASIL, 2020).
• Poliúria,
polidipsia, fraqueza progressiva;
• Náuseas,
vômitos, dor abdominal;
• Respiração
de Kussmaul (profunda e rápida);
• Hálito
cetônico (odor adocicado);
• Rebaixamento
do nível de consciência;
• Em
casos graves: coma e choque hipovolêmico.
O diagnóstico é clínico e laboratorial. Os critérios
clássicos incluem:
• Glicemia
> 250 mg/dL;
• pH
arterial < 7,3 e bicarbonato < 15 mEq/L;
• Cetonemia
ou cetonúria positiva;
• Ânion
gap aumentado.
A gasometria arterial, eletrólitos
(especialmente potássio) e função renal são essenciais para a avaliação e
acompanhamento.
O manejo da CAD deve ser feito em ambiente
hospitalar, com monitoramento rigoroso e aplicação de protocolos bem
estabelecidos:
1. Reposição volêmica: iniciar com solução salina isotônica (0,9%) para reverter a
desidratação e restaurar perfusão.
2. Insulinoterapia: iniciar com insulina
regular em infusão contínua, após o início da reposição volêmica.
3. Correção dos eletrólitos: monitorar e
corrigir o potássio antes e durante o uso de insulina, pois há risco de
hipocalemia grave.
4. Tratamento da causa base: infecções,
erros terapêuticos ou eventos cardiovasculares devem ser identificados e
tratados.
A resolução da CAD é definida pela
normalização da glicemia, do pH e da ausência de corpos cetônicos.
O controle glicêmico é um dos pilares da prevenção de emergências endócrinas. A monitorização regular da glicemia capilar ou venosa permite detectar precocemente desvios importantes e ajustar a terapia, especialmente em pacientes com diabetes tipo 1, uso de insulina intensiva ou histórico de descompensações.
Em ambiente hospitalar, recomenda-se a monitorização horária em pacientes
críticos, e a cada 4 a 6 horas em pacientes estáveis sob controle glicêmico. Em
domicílio, o uso de glicosímetros e,
mais recentemente, sensores de glicose contínuos (CGM), tem revolucionado o
autocuidado e reduzido episódios de hipoglicemia e hiperglicemia severa (ADA,
2023).
A monitorização glicêmica é essencial também
durante infecções, mudanças na dieta, uso de corticoides ou em períodos de
maior estresse fisiológico. Além disso, possibilita a educação do paciente
quanto às respostas do organismo e à importância da adesão ao tratamento.
As emergências endócrino-metabólicas,
especialmente hipoglicemia e cetoacidose diabética, requerem atenção clínica
imediata. O conhecimento dos sinais de alerta, o diagnóstico clínico rápido e a
aplicação de condutas padronizadas são essenciais para reduzir complicações e
salvar vidas. A educação do paciente e a monitorização glicêmica regular são
estratégias indispensáveis para a prevenção de episódios agudos e para o
controle efetivo do diabetes mellitus.
• AMERICAN
DIABETES ASSOCIATION (ADA). Standards of
Medical
Care in Diabetes—2023. Diabetes Care,
v. 46, suppl. 1, 2023.
• BRASIL.
Ministério da Saúde. Protocolos Clínicos
e Diretrizes Terapêuticas – Diabetes Mellitus Tipo 1 e Tipo 2. Brasília:
MS, 2020.
• DORAN,
G. R. et al. Emergências Clínicas.
2ª ed. Rio de Janeiro:
Guanabara Koogan, 2018.
• MONTEIRO,
C. et al. Abordagem prática das
emergências médicas. São Paulo: Atheneu, 2021.
• NAEMT
– National Association of Emergency Medical Technicians.
PHTLS: Suporte Pré-Hospitalar ao Trauma. 9ª ed. São Paulo:
Elsevier, 2020.
O choque é uma condição clínica aguda e
grave caracterizada pela perfusão
tecidual inadequada, o que leva à hipóxia
celular, disfunção orgânica progressiva e, se não tratada, à falência
múltipla de órgãos e morte. A identificação precoce e o início do suporte
circulatório imediato são essenciais para restabelecer a oxigenação e prevenir
danos irreversíveis. Dentre os diferentes tipos de choque, destacam-se o hipovolêmico, séptico, cardiogênico e
anafilático, cada um com mecanismos fisiopatológicos distintos, mas todos
exigindo ação emergencial com reposição volêmica, suporte ventilatório e
tratamento da causa base.
Ocorre devido à redução do volume intravascular efetivo, geralmente por hemorragia (trauma, ruptura de varizes,
hemorragia digestiva alta) ou perda de
fluidos (vômitos, diarreia, queimaduras extensas). A queda do volume
circulante leva à diminuição do retorno venoso, do débito cardíaco e da
perfusão tecidual.
Principais sinais clínicos:
• Hipotensão
arterial;
• Taquicardia;
• Extremidades
frias e sudorese;
• Oligúria;
• Rebaixamento
do nível de consciência.
Decorre de uma resposta inflamatória sistêmica desregulada à infecção, levando à
vasodilatação generalizada, extravasamento capilar e disfunção circulatória. É
a principal causa de morte em unidades de terapia intensiva (UTI).
Características clínicas:
• Hipotensão
refratária à reposição volêmica;
• Febre
ou hipotermia;
• Taquicardia
e taquipneia;
• Pele
quente no início e fria na fase avançada;
• Alterações
do estado mental.
Resulta da falência da bomba cardíaca, impedindo o coração de manter o débito
adequado à perfusão dos tecidos. As causas mais comuns incluem infarto agudo do
miocárdio extenso, miocardiopatias, arritmias graves e disfunção valvar aguda.
Sinais típicos:
• Dispneia,
estertores crepitantes (edema agudo de pulmão);
• Hipotensão
com congestão periférica;
• Extremidades
frias e cianose;
• Pulso
fraco e irregular.
É uma reação alérgica aguda e sistêmica, com liberação maciça de histamina e outras substâncias vasoativas, resultando em
vasodilatação,
aumento da permeabilidade capilar e broncoespasmo. Pode evoluir rapidamente
para parada cardiorrespiratória.
Quadro clínico:
• Queda
súbita da pressão arterial;
• Urticária,
angioedema, prurido;
• Sibilância
e estridor; Náuseas,
vômitos, diarreia;
• Confusão
mental ou coma.
O sucesso no tratamento do choque depende de
um diagnóstico precoce baseado em
sinais clínicos, história e exames complementares simples. A avaliação deve
seguir o protocolo ABCDE,
priorizando vias aéreas, respiração e circulação.
Sinais de alerta para suspeita de choque:
• Hipotensão arterial persistente (PAS
< 90 mmHg ou PAM < 65 mmHg);
• Taquicardia compensatória (FC > 100
bpm);
• Pele fria, pálida, sudorética ou com
sinais de cianose;
• Diurese reduzida (< 0,5 mL/kg/h);
• Alteração do nível de consciência
(confusão, agitação, sonolência).
Exames laboratoriais de apoio incluem
gasometria arterial (com avaliação do lactato), eletrólitos, função renal,
hemograma, PCR, culturas e exames de imagem, como ecocardiograma à beira-leito
e ultrassom FAST em traumas (BRASIL, 2019).
A reposição
volêmica é a medida inicial mais importante em todos os tipos de choque,
exceto no cardiogênico, onde o volume deve ser administrado com cautela.
• Solução cristaloide isotônica (NaCl 0,9% ou
Ringer Lactato): indicada na maioria dos casos. Deve-se administrar de 500
a 1000 mL em 15 a 30 minutos e reavaliar.
• No
choque séptico, a recomendação atual é de 30
mL/kg nas primeiras 3 horas (Surviving Sepsis Campaign, 2021).
• Soluções
coloidais ou transfusão sanguínea são indicadas em situações específicas
(grandes perdas hemorrágicas, trauma com choque hemorrágico).
Monitorar pressão arterial, frequência cardíaca, diurese e saturação para avaliar a resposta. Sinais de sobrecarga volêmica (edema pulmonar, crepitações) devem ser observados, especialmente em pacientes com função cardíaca comprometida.
A oxigenoterapia
suplementar deve ser iniciada precocemente para garantir saturação arterial
≥ 94%. Pode ser administrada por:
• Cânula
nasal (1-6 L/min);
• Máscara
facial com ou sem reservatório;
• Ventilação não invasiva (VNI) ou invasiva,
conforme o grau de insuficiência respiratória.
Nos casos de choque anafilático, além do
oxigênio, a adrenalina IM (0,3 a 0,5 mg)
deve ser aplicada imediatamente, repetida a cada 5-15 minutos se necessário.
Anti-histamínicos e corticoides podem ser usados como tratamento adjuvante, mas
não substituem a adrenalina (AHA, 2020).
O choque é uma condição médica de altíssima
gravidade, cuja abordagem exige rapidez, conhecimento clínico e decisões bem
fundamentadas. A distinção entre os tipos de choque orienta intervenções
específicas, mas o suporte inicial – incluindo reposição volêmica,
administração de oxigênio e tratamento da causa base – deve ser iniciado imediatamente após o diagnóstico
suspeito. A atuação eficiente pode evitar o agravamento do quadro clínico,
proteger órgãos vitais e salvar vidas.
• AMERICAN
HEART ASSOCIATION (AHA). Advanced
Cardiovascular
Life Support – Provider Manual. Dallas: AHA, 2020.
• BRASIL.
Ministério da Saúde. Protocolo de
Atendimento às Emergências Clínicas – Choque. Brasília: MS, 2019.
• DORAN,
G. R. et al. Emergências Clínicas.
2ª ed. Rio de Janeiro:
Guanabara Koogan, 2018.
• RHODES,
A. et al. Surviving Sepsis Campaign:
International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock – 2021. Intensive Care Medicine, v. 47, p.
1181–1247, 2021.
• MONTEIRO, C. et al. Abordagem prática das emergências médicas. São Paulo: Atheneu, 2021.
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