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Conceitos de Podologia e Manicure

CONCEITOS DE PODOLOGIA E MANICURE

 

MÓDULO 1 — Fundamentos de unhas, mãos e pés

Aula 1 — Introdução à manicure, pedicure e podologia

 

Iniciar um curso de podologia e manicure é, antes de tudo, aprender a olhar para mãos e pés com mais atenção. Muitas pessoas procuram uma manicure, uma pedicure ou um profissional de cuidados com os pés pensando apenas na beleza: unha bem cortada, esmalte bonito, pele hidratada e aparência agradável. Mas, por trás desse cuidado estético, existe também uma responsabilidade importante com higiene, segurança e prevenção.

A manicure e a pedicure trabalham principalmente com o embelezamento e a conservação das unhas das mãos e dos pés. Isso inclui retirar ou suavizar cutículas com cuidado, cortar, lixar, hidratar, esmaltar, organizar o formato das unhas e orientar o cliente sobre cuidados simples no dia a dia. A Classificação Brasileira de Ocupações reconhece a manicure como profissional ligada aos serviços de embelezamento e cuidados pessoais, com atividades relacionadas à beleza das mãos e unhas, além da organização, higienização e desinfecção do local e dos instrumentos de trabalho.

A podologia, por sua vez, exige um olhar mais voltado à saúde dos pés. Mesmo em um curso introdutório, é importante compreender que os pés podem apresentar sinais de problemas que não devem ser tratados de forma improvisada. Dor persistente, inflamação, secreção, feridas, rachaduras profundas, unhas muito espessas, alteração de cor ou suspeita de micose são situações que pedem cautela. O profissional iniciante precisa saber observar, orientar e, quando necessário, encaminhar o cliente para avaliação especializada.

Essa diferença entre embelezar e cuidar é essencial. A estética busca melhorar a aparência e o conforto, mas não deve ultrapassar limites. Um curso para iniciantes não deve formar alguém para diagnosticar doenças, indicar medicamentos, tratar infecções, remover lesões profundas ou fazer procedimentos invasivos. A Anvisa reforça que serviços de estética e embelezamento precisam seguir normas sanitárias e adotar práticas seguras, pois essas atividades podem interferir na saúde das pessoas atendidas.

Por isso, desde a primeira aula, o aluno deve compreender que um bom atendimento começa antes do esmalte. Começa na recepção, na escuta e na observação. Perguntar se o cliente tem diabetes, alergias, sensibilidade, dor, sangramento recente, histórico de micose ou unha encravada não é exagero. É uma forma simples de evitar riscos. Uma

isso, desde a primeira aula, o aluno deve compreender que um bom atendimento começa antes do esmalte. Começa na recepção, na escuta e na observação. Perguntar se o cliente tem diabetes, alergias, sensibilidade, dor, sangramento recente, histórico de micose ou unha encravada não é exagero. É uma forma simples de evitar riscos. Uma ficha básica de atendimento ajuda o profissional a registrar informações importantes e a decidir se o procedimento pode ser feito com segurança.

A higiene é outro ponto central. Alicates, espátulas, lixas, palitos, toalhas e superfícies de atendimento podem se tornar fontes de contaminação quando usados sem cuidado. O CDC orienta manter unhas limpas e curtas, higienizar instrumentos antes do uso e, em ambientes comerciais onde os instrumentos são compartilhados, esterilizá-los adequadamente. Também recomenda não cortar cutículas de forma agressiva, pois elas funcionam como uma barreira natural de proteção contra infecções.

Na prática, isso significa que a manicure ou pedicure iniciante deve abandonar a ideia de que “quanto mais fundo tirar, melhor fica”. A retirada excessiva de cutícula pode provocar pequenos ferimentos, abrir portas para microrganismos e gerar inflamações dolorosas. A Sociedade Brasileira de Dermatologia explica que a paroníquia é uma inflamação da pele ao redor da unha e pode começar justamente pela perda da cutícula, muitas vezes causada por trauma, manipulação inadequada ou retirada excessiva.

Também é importante falar sobre as micoses de unha. A onicomicose é uma infecção causada por fungos, mais comum nas unhas dos pés, podendo deixar a unha amarelada, esbranquiçada, grossa, quebradiça ou descolada. A Sociedade Brasileira de Dermatologia destaca que os fungos se alimentam da queratina, proteína que forma grande parte da unha. Diante de suspeita de micose, o profissional de beleza não deve prometer cura nem indicar produtos medicamentosos; o correto é orientar o cliente a procurar avaliação adequada.

Outro cuidado indispensável envolve pessoas com diabetes. Pequenos machucados nos pés podem evoluir mal quando há alterações de sensibilidade ou circulação. O Ministério da Saúde destaca a importância da prevenção, da avaliação periódica e da educação em saúde para evitar complicações nos pés de pessoas com diabetes. Assim, se o cliente relata diabetes, o atendimento deve ser ainda mais cuidadoso: nada de cortes profundos, retirada agressiva de calos, uso de lâminas ou manipulação de feridas.

O

profissional iniciante também precisa desenvolver postura ética. Isso inclui explicar o que será feito, respeitar a dor do cliente, interromper o procedimento se houver sangramento ou desconforto intenso e nunca esconder acidentes. Se algo acontecer, como um pequeno corte, o correto é parar, higienizar, orientar e registrar. A confiança do cliente nasce da transparência, não da tentativa de disfarçar erros.

A organização do espaço de trabalho comunica profissionalismo. Uma bancada limpa, materiais separados, instrumentos esterilizados, descartáveis de uso único e toalhas limpas mostram cuidado. Já uma bancada com alicates soltos, lixas reaproveitadas, esmaltes sujos, potes abertos e materiais misturados transmite risco. O cliente pode até não conhecer as normas, mas percebe quando há zelo.

Nesta primeira aula, portanto, o aluno deve entender que manicure, pedicure e conceitos básicos de podologia caminham juntos quando o objetivo é oferecer um atendimento bonito, seguro e responsável. A beleza das unhas importa, mas ela não pode vir antes da saúde. Um acabamento perfeito perde valor se for feito com dor, pressa, sangramento ou falta de higiene.

Para fixar o conteúdo, imagine uma situação comum: uma cliente chega pedindo para “tirar bem a cutícula” porque gosta da unha com aparência funda e limpa. Durante a avaliação, o profissional percebe que a pele ao redor das unhas está vermelha e sensível. O erro seria insistir na retirada profunda para agradar a cliente. A conduta correta é explicar que a região está irritada, fazer apenas um cuidado leve, hidratar, evitar agressão e orientar a cliente a observar se haverá dor, pus ou piora.

Outro exemplo: um cliente procura pedicure porque a unha do dedão está grossa, amarelada e soltando nas pontas. Ele pede para lixar bastante até “afinar”. O iniciante pode pensar que isso resolverá o problema estético, mas deve lembrar que esse aspecto pode sugerir micose ou outra alteração. Nesse caso, o melhor é não desgastar excessivamente a unha, não prometer tratamento e orientar avaliação com profissional habilitado.

Assim, a primeira competência do aluno não é dominar o alicate, mas aprender a decidir quando usar, quando evitar e quando encaminhar. Esse discernimento separa o atendimento amador do atendimento responsável. A técnica será construída nas próximas aulas, mas a base começa aqui: higiene, observação, limite profissional, cuidado humano e respeito à saúde do cliente.

Referências bibliográficas

AGÊNCIA

NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Nota Técnica nº 2/2024/SEI/GGTES/DIRE3/ANVISA: esclarecimentos sobre os serviços de estética e atendimento às normas sanitárias aplicáveis a esses serviços. Brasília: Anvisa, 2024.

AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Perguntas e respostas: serviços de embelezamento. Brasília: Anvisa, 2021.

BRASIL. Ministério da Saúde. Manual do Pé Diabético: estratégias para o cuidado com a doença crônica. Brasília: Ministério da Saúde, 2016.

CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Healthy Habits: Nail Hygiene. Atlanta: CDC, 2024.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA. Onicomicose. Rio de Janeiro: SBD.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA. Paroníquia. Rio de Janeiro: SBD.

MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO. Classificação Brasileira de Ocupações: manicure. Brasília: MTE.


Aula 2 — Anatomia básica das unhas, mãos e pés

 

Para trabalhar com manicure, pedicure e cuidados iniciais em podologia, é preciso começar pelo básico: conhecer a estrutura que será cuidada. Muitas vezes, a unha é vista apenas como uma superfície para cortar, lixar e esmaltar. Porém, ela faz parte de uma unidade mais ampla, formada pela própria lâmina ungueal e pelas estruturas ao redor. Quando o profissional entende essa organização, passa a atender com mais segurança, evitando cortes excessivos, lixamentos agressivos e manipulações desnecessárias.

A unha é formada principalmente por queratina, uma proteína resistente que ajuda a dar firmeza e proteção. A parte visível, chamada de placa ou lâmina ungueal, é aquela que normalmente cortamos, lixamos e esmaltamos. Abaixo dela fica o leito ungueal, tecido que prende a unha ao dedo. Na base, está a matriz ungueal, região responsável pelo crescimento da unha. Por isso, pancadas, cortes profundos ou agressões próximas à base podem interferir no crescimento e até causar deformidades. O Manual MSD explica que a matriz fica na base da unha e é justamente o local de onde ela cresce, enquanto o leito ungueal sustenta a placa sobre o dedo.

Outra estrutura importante é a lúnula, aquela parte mais clara, em formato de meia-lua, que aparece em algumas unhas, principalmente nos polegares. Ela faz parte da região próxima à matriz e pode ser mais ou menos visível de uma pessoa para outra. Isso não significa, necessariamente, problema. Há pessoas com lúnula bem aparente e outras em que ela quase não aparece. O olhar profissional deve sempre considerar o conjunto: cor, textura, espessura, dor, crescimento, presença de

manchas e relato do cliente.

A cutícula também merece atenção especial. Ela não está ali por acaso. Sua função é proteger a entrada entre a pele e a unha, funcionando como uma barreira contra sujeiras, microrganismos e irritações. A Sociedade Brasileira de Dermatologia descreve a cutícula como uma estrutura de pele mais espessa que margeia a lâmina ungueal e forma uma espécie de selo protetor, não devendo ser removida de forma agressiva.

Na prática da manicure, isso muda bastante a forma de trabalhar. Em vez de pensar em “tirar tudo”, o ideal é pensar em “cuidar sem ferir”. A retirada excessiva da cutícula pode deixar a região sensível, avermelhada e vulnerável a inflamações. O acabamento pode até parecer mais limpo no momento, mas o risco aumenta quando a pele é machucada. O bom profissional aprende a empurrar delicadamente, remover apenas excessos quando for seguro e hidratar a região.

As pregas ungueais são as dobras de pele que ficam nas laterais e na base da unha. São áreas delicadas, onde pequenos machucados podem causar dor e inflamação. Ao usar espátula, alicate ou palito, é preciso respeitar esses limites. Dor, sangramento, calor local, vermelhidão ou pus não devem ser tratados como algo normal do procedimento. Esses sinais indicam que a pele foi agredida ou que já havia alguma alteração antes do atendimento.

Também existe a borda livre, que é a parte da unha que ultrapassa a ponta do dedo. É nela que o corte e o lixamento costumam ser feitos. Nas mãos, o formato pode variar conforme preferência estética: quadrado, arredondado, oval ou amendoado. Nos pés, porém, o cuidado precisa ser maior. Cortar cantos profundamente pode favorecer dor e encravamento, principalmente em unhas mais curvas, grossas ou pressionadas por calçados apertados.

As unhas das mãos e dos pés não crescem nem sofrem os mesmos impactos. As mãos estão mais expostas à água, produtos químicos, esmaltes, detergentes e pequenos traumas diários. Já os pés suportam o peso do corpo, ficam muitas horas dentro de calçados e podem sofrer pressão, atrito, umidade e calor. Por isso, alterações como espessamento, calosidades ao redor, unhas amareladas, descolamento, dor ou mau odor costumam aparecer com mais frequência nos pés.

Observar a pele também é parte do atendimento. Nas mãos, é comum encontrar ressecamento, pequenas peles soltas, rachaduras superficiais e irritações causadas por produtos de limpeza. Nos pés, o profissional deve olhar calcanhares, planta, laterais, dedos e

espaços entre os dedos. Pele muito ressecada, fissuras profundas, descamação intensa, feridas, bolhas, calos doloridos ou áreas esbranquiçadas entre os dedos exigem cautela.

Os espaços entre os dedos merecem cuidado especial porque acumulam umidade. Após lavar ou higienizar os pés, é importante secar bem essa região. Umidade constante favorece mau cheiro, maceração da pele e pode contribuir para problemas infecciosos. Em um atendimento básico, o aluno deve aprender que hidratar os pés é importante, mas não se deve deixar excesso de creme entre os dedos, justamente para evitar um ambiente úmido demais.

Outro ponto importante é reconhecer que algumas alterações não são apenas “feias” ou “normais”. Unhas muito grossas, quebradiças, amareladas, esbranquiçadas ou descoladas podem indicar micose, trauma ou outras condições. O papel do iniciante não é diagnosticar, mas perceber que algo foge do padrão esperado e orientar o cliente a procurar avaliação adequada. Segundo o Manual MSD, doenças das unhas podem envolver infecções, lesões, alterações estruturais e outros problemas que modificam sua aparência.

Quando falamos de pés, é indispensável lembrar dos clientes com diabetes, idosos ou pessoas com problemas circulatórios. Nesses casos, pequenos ferimentos podem trazer consequências maiores. O Ministério da Saúde destaca a importância da avaliação periódica dos pés, das ações preventivas e da educação em saúde para pessoas com diabetes. Portanto, antes de cortar, lixar ou manipular, o profissional deve perguntar sobre diabetes, perda de sensibilidade, feridas recentes e dificuldade de cicatrização.

Na prática, uma avaliação inicial simples já ajuda muito. O profissional pode observar se há dor, vermelhidão, inchaço, secreção, sangramento, alteração de cor, rachaduras profundas ou feridas. Se houver qualquer sinal de risco, o atendimento estético deve ser adiado ou adaptado. Não é sinal de insegurança encaminhar; pelo contrário, é sinal de responsabilidade.

Conhecer a anatomia também melhora a comunicação com o cliente. Em vez de dizer apenas “sua unha está estranha”, o profissional pode explicar de forma simples: “Percebi que a unha está mais espessa e descolada em uma parte; o ideal é avaliar com um profissional de saúde antes de mexer”. Essa linguagem é clara, respeitosa e evita promessas indevidas.

A postura correta começa com o olhar. Antes do alicate, vem a observação. Antes da esmaltação, vem a avaliação. Antes de atender, vem a pergunta: “Esse

procedimento é seguro para esta pessoa hoje?”. Essa sequência protege o cliente, valoriza o trabalho do profissional e evita problemas que poderiam surgir por pressa ou falta de conhecimento.

Imagine uma cliente que chega com as unhas das mãos bonitas, mas com a pele ao redor muito fina e avermelhada. Ela afirma que gosta de retirar toda a cutícula. O profissional que conhece a anatomia entende que aquela pele tem função protetora e que insistir na remoção profunda pode piorar a sensibilidade. A melhor conduta é fazer uma limpeza leve, hidratar, remover apenas peles soltas sem ferir e orientar cuidados em casa.

Agora pense em um cliente que procura pedicure com unha do dedão muito grossa e amarelada. Ele pede para lixar bastante até afinar. Um iniciante sem preparo talvez tente resolver apenas pela aparência. Já um profissional atento sabe que espessamento e alteração de cor podem exigir avaliação especializada. Nesse caso, o correto é evitar desgaste agressivo, não prometer tratamento e orientar o encaminhamento.

Assim, a anatomia básica não é um conteúdo distante da prática. Ela aparece em cada decisão: onde cortar, quanto lixar, até onde empurrar a cutícula, quando hidratar, quando interromper e quando encaminhar. Quanto melhor o aluno compreende mãos, unhas e pés, mais seguro e humano se torna o atendimento.

Cuidar de unhas e pés é cuidar de detalhes. A beleza faz parte do resultado, mas a segurança precisa ser a base. Uma unha bem feita não deve custar dor, machucado ou risco de infecção. O profissional iniciante que aprende isso desde o começo constrói uma prática mais consciente, delicada e confiável.

Referências bibliográficas

BRASIL. Ministério da Saúde. Manual do Pé Diabético: estratégias para o cuidado com a doença crônica. Brasília: Ministério da Saúde, 2016.

MANUAL MSD. Considerações gerais sobre doenças ungueais. Versão Saúde para a Família.

MANUAL MSD. Anatomia da unha. Versão Profissional.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA. Conheça suas unhas. Rio de Janeiro: SBD.

 

Aula 3 — Alterações comuns: o que observar e quando encaminhar

 

Quem trabalha com manicure, pedicure e cuidados iniciais dos pés precisa aprender uma habilidade essencial: observar antes de agir. Muitas vezes, o cliente chega querendo apenas cortar, lixar, esmaltar ou aliviar um incômodo. Porém, algumas alterações nas unhas e na pele não devem ser tratadas como simples detalhe estético. Dor, vermelhidão, secreção, feridas, sangramento, mau cheiro intenso, unhas

muito grossas ou descoladas são sinais que pedem atenção.

O objetivo desta aula não é ensinar diagnóstico, pois isso cabe a profissionais habilitados da área da saúde. A proposta é preparar o iniciante para reconhecer situações comuns, entender seus limites de atuação e saber quando interromper o atendimento e orientar o cliente a procurar avaliação especializada. Esse cuidado protege o cliente, evita complicações e fortalece a postura ética do profissional.

Uma das alterações mais conhecidas é a unha encravada, também chamada de onicocriptose. Ela acontece quando a borda da unha machuca a pele ao redor, geralmente nos cantos dos dedos dos pés. Pode causar dor, vermelhidão, inchaço e, em alguns casos, secreção. O erro comum é tentar “cavar” a unha profundamente com alicate ou espátula. Essa prática pode provocar ferimentos, piorar a inflamação e aumentar o risco de infecção. O Manual MSD descreve a onicocriptose como uma situação em que a unha penetra ou pressiona a prega ungueal, provocando dor e inflamação local.

Quando o cliente relata dor no canto da unha, o procedimento deve ser feito com muita cautela. Se houver apenas desconforto leve e pele íntegra, o profissional pode realizar higienização, corte superficial e orientação sobre calçados apertados e corte correto das unhas. Porém, se houver pus, sangramento, inchaço importante ou dor intensa, o atendimento estético deve ser suspenso naquela região. O mais adequado é encaminhar para podólogo habilitado, dermatologista ou serviço de saúde.

Outra alteração bastante frequente é a micose de unha, conhecida como onicomicose. Ela pode deixar a unha amarelada, esbranquiçada, espessa, quebradiça, opaca ou descolada. É comum aparecer nos pés, principalmente porque eles ficam muitas horas em calçados fechados, com calor e umidade. O Manual MSD explica que a onicomicose é uma infecção fúngica da lâmina, do leito ungueal ou de ambos, podendo causar espessamento, alteração amarelada e acúmulo de resíduos sob a unha.

Na prática, o iniciante não deve afirmar que o cliente “está com micose”, nem indicar pomadas, esmaltes medicamentosos ou tratamentos caseiros. O correto é explicar que há uma alteração na unha e que seria importante uma avaliação profissional. Também é importante evitar lixamento agressivo, pois isso pode fragilizar ainda mais a unha e espalhar resíduos contaminados no ambiente de trabalho. Nesses casos, a biossegurança precisa ser redobrada.

A inflamação ao redor da unha também merece

atenção. A paroníquia é uma inflamação da pele próxima à unha e pode estar relacionada à perda da cutícula, pequenos traumas, retirada excessiva de pele ou irritação constante. A Sociedade Brasileira de Dermatologia explica que a paroníquia começa, muitas vezes, pela perda da cutícula, que funciona como uma proteção natural da região.

Esse ponto é muito importante para manicure e pedicure. A cutícula não é sujeira. Ela tem função protetora. Quando é retirada de forma profunda, a pele fica mais vulnerável à entrada de microrganismos. Por isso, o acabamento bonito não deve depender de cortes agressivos. O ideal é amolecer, empurrar com delicadeza, remover apenas excessos soltos e nunca insistir se houver dor, vermelhidão ou sangramento.

Também podem aparecer manchas, ondulações, unhas quebradiças, descolamento e mudanças de cor. Algumas alterações surgem por trauma, como batidas, sapatos apertados ou hábito de roer unhas. Outras podem estar ligadas a doenças de pele, infecções ou condições gerais de saúde. A psoríase, por exemplo, pode afetar as unhas, causando crescimento irregular, espessamento, descamação, mudança de cor e deformidades.

O profissional iniciante precisa evitar julgamentos e explicações apressadas. Em vez de dizer “isso é fungo” ou “isso é normal”, é melhor usar uma comunicação cuidadosa: “Percebi uma alteração na cor e na espessura da unha. Para sua segurança, o ideal é procurar uma avaliação antes de mexer profundamente”. Essa postura é simples, humana e profissional.

Nos pés, também são comuns calosidades, ressecamento e fissuras. Calos surgem por pressão e atrito, geralmente causados por sapatos apertados, deformidades nos dedos ou pontos de apoio repetidos. O iniciante pode hidratar e orientar cuidados básicos, mas não deve cortar calos com lâminas, retirar pele profundamente ou mexer em áreas doloridas e rachadas. Fissuras profundas, principalmente no calcanhar, podem virar porta de entrada para infecções.

A atenção deve ser ainda maior em pessoas com diabetes. O Ministério da Saúde destaca a importância do cuidado preventivo com os pés, da avaliação periódica e da orientação para evitar complicações. A Biblioteca Virtual em Saúde também recomenda que pessoas com diabetes tenham cuidado especial ao cortar as unhas, evitem retirar cutículas e não cortem calos sem orientação adequada.

Por isso, sempre que o cliente informar que tem diabetes, o atendimento deve ser adaptado. Não se deve usar lâminas, fazer cortes profundos,

remover calosidades de forma agressiva ou manipular feridas. Se houver perda de sensibilidade, rachaduras, bolhas, dor, escurecimento da pele ou qualquer lesão, o encaminhamento é obrigatório. Nesses casos, um pequeno ferimento pode trazer consequências sérias.

Outra situação que exige cuidado é o descolamento da unha. Às vezes, a unha se separa parcialmente do leito ungueal após trauma, uso de calçado apertado, pancada, infecção ou outras condições. O erro é tentar colar, arrancar, cortar além do seguro ou cobrir com esmalte para disfarçar. O profissional deve manter a região limpa, evitar pressão e orientar avaliação se houver dor, secreção, mau cheiro ou alteração importante de cor.

Também é preciso observar os espaços entre os dedos. Pele esbranquiçada, úmida, descamando ou com odor forte pode indicar excesso de umidade e possível infecção. O correto é secar bem a região, evitar excesso de creme entre os dedos e orientar o cliente a manter os pés limpos e secos. Se houver ferida, coceira intensa, rachaduras ou piora do quadro, o ideal é encaminhar.

A biossegurança acompanha todas essas decisões. A Anvisa orienta que serviços de embelezamento devem seguir cuidados sanitários adequados, incluindo limpeza, organização e processamento correto dos instrumentos. Instrumentos que podem entrar em contato com sangue precisam de cuidados rigorosos, e materiais descartáveis não devem ser reaproveitados.

Durante o atendimento, qualquer sangramento deve ser levado a sério. O procedimento deve ser interrompido, a área deve ser higienizada, o material utilizado precisa ser separado para processamento adequado e o cliente deve receber orientação. Não se deve continuar esmaltando ou “fingir que nada aconteceu”. A confiança profissional nasce da responsabilidade.

Para facilitar a prática, o aluno pode pensar em três grupos. No primeiro, estão os casos seguros: unhas e pele íntegras, sem dor, sem inflamação, sem feridas e sem alteração importante. No segundo, estão os casos que exigem cautela: ressecamento leve, cutículas sensíveis, unhas frágeis, pequenas irregularidades e desconfortos leves. No terceiro, estão os casos de encaminhamento: pus, sangramento, dor intensa, feridas, inchaço, vermelhidão forte, suspeita de micose, unha muito encravada, lesões em pés diabéticos e alterações que o profissional não consegue identificar com segurança.

Imagine uma cliente que chega para fazer o pé e mostra o dedão dolorido. Ela diz que tentou cortar em casa, mas agora está

vermelho e inchado. O erro seria aprofundar o corte para “resolver”. A conduta correta é não manipular a região inflamada, explicar o risco e orientar atendimento especializado.

Em outro exemplo, um cliente apresenta unha grossa, amarelada e quebradiça. Ele pede para lixar até ficar fina e passar esmalte escuro por cima. O profissional iniciante deve entender que cobrir o problema não é cuidar. O correto é evitar desgaste excessivo, higienizar com cuidado, não compartilhar instrumentos sem processamento adequado e recomendar avaliação.

Também é comum encontrar clientes que querem retirada total das cutículas. Se a pele estiver íntegra, o profissional pode fazer um cuidado delicado. Mas, se houver vermelhidão, dor ou pequenas fissuras, deve reduzir a intervenção. O bom atendimento nem sempre é fazer tudo o que o cliente pede; muitas vezes, é explicar com respeito por que determinado procedimento não é seguro naquele momento.

Assim, a aula 3 ensina uma das competências mais importantes do curso: saber observar e decidir. Manicure, pedicure e cuidados básicos dos pés não se resumem ao uso de instrumentos. Envolvem escuta, higiene, ética e limites. O profissional iniciante que aprende a encaminhar quando necessário demonstra maturidade e compromisso com a saúde do cliente.

Cuidar bem não é mexer demais. É agir na medida certa. É reconhecer quando a estética pode ajudar e quando ela deve dar lugar à prevenção e ao encaminhamento. Esse olhar cuidadoso transforma o atendimento em uma prática mais segura, humana e profissional.

Referências bibliográficas

AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Serviços de embelezamento: perguntas e respostas. Brasília: Anvisa, 2021.

BRASIL. Ministério da Saúde. Manual do Pé Diabético: estratégias para o cuidado com a doença crônica. Brasília: Ministério da Saúde, 2016.

BRASIL. Ministério da Saúde. Biblioteca Virtual em Saúde. Pé diabético. Brasília: Ministério da Saúde.

MANUAL MSD. Onicomicose. Versão Profissional.

MANUAL MSD. Paroníquia aguda. Versão Profissional.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA. Paroníquia. Rio de Janeiro: SBD.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA. Psoríase. Rio de Janeiro: SBD.


Estudo de caso — Módulo 1

“O atendimento que parecia simples”

 

Marina havia acabado de concluir suas primeiras aulas de manicure, pedicure e conceitos iniciais de podologia. Estava animada para atender melhor suas clientes, mas ainda carregava alguns hábitos comuns: achava que uma unha bonita era aquela com

cutícula bem funda, canto bem cortado e calcanhar bem lixado. Em seu primeiro sábado de agenda cheia, recebeu três clientes que pareciam buscar procedimentos simples. No entanto, cada atendimento exigia mais observação do que pressa.

A primeira cliente foi Dona Helena, que pediu uma manicure completa. Ela disse que gostava da unha “bem limpa” e pediu para Marina retirar bastante cutícula. Ao observar as mãos, Marina percebeu pele fina, vermelhidão ao redor de algumas unhas e pequenos pontos sensíveis. Mesmo assim, pensou em agradar a cliente e começou a empurrar a cutícula com força. Dona Helena reclamou de ardência, mas insistiu: “Pode tirar, depois melhora”.

O erro de Marina foi confundir acabamento com agressão. A cutícula não é sujeira; ela funciona como proteção natural da unha. A Sociedade Brasileira de Dermatologia explica que a paroníquia é uma inflamação da pele ao redor da unha e pode começar pela perda da cutícula. O CDC também orienta não cortar cutículas, pois elas atuam como barreira contra infecções.

A conduta correta seria explicar com delicadeza que aquela pele já estava irritada e que retirar profundamente poderia piorar o quadro. Marina poderia fazer uma higienização suave, hidratar, remover apenas pequenas peles soltas e finalizar com cuidado. Para evitar esse erro, o profissional iniciante deve sempre observar cor, sensibilidade, dor e integridade da pele antes de usar alicate.

A segunda cliente foi Júlia, que chegou para fazer os pés. Ela contou que o canto do dedão estava incomodando havia alguns dias e pediu: “Corta bem no cantinho, porque acho que está encravando”. Marina olhou rapidamente e viu vermelhidão, leve inchaço e dor ao toque. Como queria resolver o problema, tentou aprofundar o corte com o alicate.

Esse é um erro muito comum em atendimentos de pedicure: tentar “desencravar” sem preparo adequado. A unha encravada, chamada de onicocriptose, ocorre quando a borda da unha pressiona ou curva sobre o sulco ungueal, causando dor. Quando há inflamação, sangramento, secreção ou dor intensa, o procedimento estético deve ser interrompido e o cliente precisa ser orientado a buscar atendimento especializado.

A forma correta de agir seria não cavar o canto da unha, não usar força e não prometer solução. Marina deveria explicar que havia sinais de inflamação e que mexer profundamente poderia causar ferimento. Poderia orientar Júlia a procurar um podólogo habilitado, dermatologista ou serviço de saúde. Para evitar esse erro, a

regra é simples: dor, vermelhidão e inchaço não combinam com corte profundo.

O terceiro atendimento foi com seu Antônio, que procurou uma pedicure porque a unha do dedão estava grossa, amarelada e com aparência quebradiça. Ele pediu para Marina lixar bastante e passar um esmalte escuro, “só para disfarçar”. Marina pensou em atender o pedido, mas lembrou que alterações de cor, espessamento e descolamento podem indicar problemas que não devem ser tratados apenas como estética.

A onicomicose é uma infecção fúngica que pode atingir a lâmina, o leito ungueal ou ambos, deixando a unha espessa, amarelada e com resíduos sob a unha. O diagnóstico depende de avaliação adequada, portanto o profissional iniciante não deve afirmar que é micose, indicar medicamento ou tentar “resolver” lixando agressivamente.

A conduta correta seria higienizar com cuidado, evitar desgaste excessivo, não cobrir o problema como se fosse apenas uma questão estética e orientar seu Antônio a procurar avaliação profissional. Também seria necessário redobrar o cuidado com os instrumentos, pois materiais usados em unhas alteradas exigem limpeza e processamento rigorosos antes de novo uso.

Ao final do dia, Marina percebeu que os três atendimentos tinham algo em comum: todos pareciam simples, mas exigiam avaliação. Ela entendeu que, no início da profissão, o mais importante não é usar o alicate rapidamente, mas saber quando não usar. Também compreendeu que a beleza das unhas não pode ser colocada acima da saúde da pele, da segurança do cliente e da ética profissional.

O módulo 1 ensina justamente essa base: observar mãos, unhas e pés; reconhecer estruturas importantes; respeitar a função da cutícula; identificar sinais de alerta; e encaminhar quando o caso ultrapassa o atendimento estético. A Anvisa orienta que serviços de estética e embelezamento sigam normas sanitárias aplicáveis, pois essas atividades podem interferir na saúde das pessoas atendidas.

A principal lição do caso é que um bom atendimento começa antes da esmaltação. Começa na pergunta, na escuta e no olhar atento. O profissional iniciante deve perguntar sobre dor, alergias, diabetes, feridas, sangramentos recentes e histórico de unha encravada ou micose. Pessoas com diabetes exigem atenção especial, pois o Ministério da Saúde destaca a importância da prevenção, da avaliação dos pés e da identificação precoce de alterações.

Erros comuns apresentados no caso

O primeiro erro foi retirar cutícula de forma agressiva para

agradar a cliente. Para evitar isso, é preciso lembrar que a cutícula tem função protetora e que pele vermelha, sensível ou ferida deve ser preservada.

O segundo erro foi tentar cortar profundamente uma unha dolorida e inflamada. Para evitar, o profissional deve observar sinais como dor, inchaço, vermelhidão e secreção. Quando esses sinais aparecem, a melhor conduta é encaminhar.

O terceiro erro foi tratar uma unha espessa e amarelada como simples problema de aparência. Para evitar, o profissional deve reconhecer que alterações de cor, espessura e descolamento podem indicar condições que precisam de avaliação.

O quarto erro foi pensar apenas no resultado visual. Para evitar, é necessário seguir uma sequência segura: observar, perguntar, higienizar, avaliar riscos, escolher a técnica menos agressiva e registrar qualquer intercorrência.

Como evitar problemas na prática

Antes de iniciar o atendimento, observe a unha e a pele ao redor. Pergunte se há dor, sensibilidade, sangramento, diabetes, alergias ou feridas recentes. Não faça cortes profundos em cantos doloridos. Não retire cutículas inflamadas. Não use lâminas em calos ou fissuras. Não prometa cura para micose, unha encravada ou inflamação.

Quando houver dúvida, escolha a conduta mais segura. O cliente pode até insistir, mas o profissional precisa explicar com respeito: “Hoje não é seguro mexer nessa região. O ideal é avaliar com um profissional especializado”. Essa frase demonstra cuidado, não falta de habilidade.

Referências bibliográficas

AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Serviços de embelezamento: perguntas e respostas. Brasília: Anvisa, 2021.

BRASIL. Ministério da Saúde. Manual do Pé Diabético: estratégias para o cuidado com a doença crônica. Brasília: Ministério da Saúde, 2016.

CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Healthy Habits: Nail Hygiene. Atlanta: CDC, 2024.

MANUAL MSD. Onicocriptose. Versão Profissional.

MANUAL MSD. Onicomicose. Versão Profissional.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA. Paroníquia. Rio de Janeiro: SBD.

 

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