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Básico de Escrituração Fiscal e Contábil

 BÁSICO DE ESCRITURAÇÃO FISCAL E CONTÁBIL

 

MÓDULO 2 — Escrituração Contábil na prática: registrando o básico sem errar

Aula 4 — Lançamentos contábeis do dia a dia (passo a passo)

 

          Quando a gente fala em “lançamento contábil”, muita gente imagina algo técnico demais, quase como uma fórmula secreta. Só que, na prática, lançamento contábil é uma coisa bem mais humana: é o jeito que a contabilidade usa para registrar, com clareza, o que aconteceu na empresa. É como escrever no diário do negócio: “Hoje eu vendi”, “Hoje eu comprei”, “Hoje eu paguei”, “Hoje eu recebi”. A diferença é que, em vez de escrever em frases soltas, a contabilidade escreve seguindo um padrão que permite conferir, somar, comparar meses e, principalmente, gerar relatórios confiáveis.

           Um lançamento contábil completo costuma ter quatro elementos básicos: data, histórico (descrição), contas envolvidas e valor. A data ajuda a organizar os fatos no tempo. O histórico explica o que aconteceu (e aqui vale ouro escrever de forma clara: “Venda à vista – balcão”, “Compra de insumos – fornecedor X”, “Pagamento de aluguel – janeiro”). As contas envolvidas dizem onde esse fato “mexe” no patrimônio: caixa, banco, clientes a receber, fornecedores a pagar, receitas, despesas, estoque. E o valor, claro, registra o impacto financeiro.

           Agora vem a parte que dá segurança: todo lançamento precisa manter o equilíbrio do sistema. A contabilidade trabalha com a ideia de que todo fato tem dois lados. Se algo entra, algo muda do outro lado. Se eu compro mercadoria à vista, por exemplo, eu aumento estoque (algo entra) e diminuo dinheiro no banco (algo sai). Se eu vendo a prazo, eu reconheço receita (o negócio aconteceu) e aumento clientes a receber (porque o dinheiro vai entrar depois).

Essa lógica é o que sustenta o método das partidas dobradas, em que todo lançamento tem um débito e um crédito que se equilibram.

           E antes que você trave: não pense em débito e crédito como “bom” e “ruim”. Pense como lado esquerdo e lado direito do registro. Um jeito bem didático de iniciar é lembrar de alguns padrões simples: quando a empresa aumenta um ativo (como banco, caixa, clientes), geralmente isso aparece no débito; quando diminui um ativo, aparece no crédito. Quando aumenta um passivo (como fornecedores, impostos a pagar), geralmente aparece no crédito; quando diminui, aparece no débito. Receitas normalmente crescem no crédito; despesas crescem no débito. Com isso em

mente, a gente consegue registrar as operações mais comuns sem drama.

           Vamos para o cotidiano. Imagine uma venda à vista de R$ 500, recebida no PIX. O que aconteceu aqui? A empresa ganhou uma receita e entrou dinheiro. Então o lançamento básico seria: débito em Banco/Caixa (porque o ativo aumentou) e crédito em Receita de Vendas (porque a receita aumentou). Simples, direto, e muito lógico quando você enxerga os dois efeitos do mesmo fato.

           Agora pense numa venda a prazo de R$ 1.200. A venda aconteceu hoje, então a receita também é de hoje, mas o dinheiro não entrou. O que entra no lugar do dinheiro? Entra um direito: “o cliente me deve”. Esse direito é registrado em Clientes / Contas a Receber. Então você teria: débito em Clientes (Contas a Receber) e crédito em Receita de Vendas. Percebe a beleza do sistema? Ele registra a realidade econômica sem depender de o dinheiro já ter aparecido na conta.

           Vamos mudar de lado: uma compra à vista de insumos (como café, leite, embalagens) no valor de R$ 200 paga no PIX. Aqui o que aconteceu? A empresa adquiriu algo que será usado na operação. Dependendo do caso, isso pode ser registrado como Estoque (se é mercadoria/insumo que ficará armazenado) ou direto como Despesa (se é algo consumido rapidamente e o controle for simplificado). Para fins didáticos, vamos imaginar que entrou no estoque.

Então o lançamento fica: débito em Estoque (ativo aumentou) e crédito em Banco/Caixa (ativo diminuiu). Se fosse uma despesa imediata, o raciocínio seria parecido: débito em Despesa e crédito em Banco.

           E quando a compra é a prazo? A lógica muda só em um detalhe: em vez de diminuir banco agora, a empresa assume uma obrigação futura, normalmente chamada de Fornecedores / Contas a Pagar. Se a compra foi de R$ 900 com pagamento em 30 dias, o lançamento seria: débito em Estoque (ou Despesa, conforme o caso) e crédito em Fornecedores (porque o passivo aumentou). De novo, a contabilidade não está “inventando”; ela está registrando o compromisso real que a empresa assumiu.

           Uma operação muito comum e que ajuda a fixar a lógica é o pagamento de uma despesa, como aluguel de R$ 1.000. O que acontece quando você paga o aluguel? Você reconhece a despesa daquele período e reduz dinheiro do banco. Então o lançamento básico é: débito em Despesa de Aluguel e crédito em Banco/Caixa. Perceba como o histórico aqui é importante: escrever “Aluguel – janeiro/2026” já evita confusão no mês seguinte,

Perceba como o histórico aqui é importante: escrever “Aluguel – janeiro/2026” já evita confusão no mês seguinte, quando aparece outro aluguel e alguém tenta “reaproveitar” o mesmo documento.

           Outro ponto que aparece com frequência é o pagamento de algo que já estava registrado como dívida. Imagine que você comprou a prazo e registrou em Fornecedores. Quando você paga, não faz sentido registrar a despesa de novo, porque ela já foi registrada na compra. Agora você só está “trocando” uma obrigação por saída de dinheiro. Então o lançamento do pagamento seria: débito em Fornecedores (reduz a dívida) e crédito em Banco/Caixa (reduz o dinheiro). Essa diferença é uma das maiores fontes de erro em empresas iniciantes: pagar e lançar como despesa novamente, duplicando custos e bagunçando o resultado do mês.

           Um cuidado didático importante: nesta aula, estamos trabalhando com lançamentos “enxutos”, focados no entendimento do básico. Em situações reais, pode haver mais elementos, como impostos, taxas de cartão, descontos, devoluções e ajustes. Mas aprender a caminhar vem antes de aprender a correr. Se você domina o registro correto das operações simples, depois fica muito mais fácil adicionar camadas.

           Por isso, sempre que você for montar um lançamento, tente seguir um roteiro mental de três perguntas: (1) o que aconteceu de verdade? (2) quais contas isso mexe? (3) o que aumentou e o que diminuiu? Essas perguntas, por si só, já levam você a encontrar o débito e o crédito com muito mais segurança. E se você errar no começo, tudo bem: o objetivo é praticar até a lógica ficar natural — como aprender a dirigir. No início você pensa em cada passo; depois, vira fluidez.

           No final, é bom lembrar: lançamento contábil não é burocracia por esporte. Ele é a base para que a empresa entenda o próprio resultado, consiga fechar o mês sem sustos, enxergue dívidas e direitos, e tenha informações confiáveis para decidir. Uma escrituração bem-feita não é “perfeição”; é consistência. E consistência, na prática, começa com lançamentos do dia a dia feitos com clareza, documento e lógica.

Referências bibliográficas

IUDÍCIBUS, Sérgio de. Contabilidade Introdutória. São Paulo: Atlas.

MARION, José Carlos. Contabilidade Básica. São Paulo: Atlas.

CREPALDI, Silvio Aparecido. Contabilidade Geral. São Paulo: Atlas.

PADOVEZE, Clóvis Luís. Manual de Contabilidade Básica. São Paulo: Atlas.

RIBEIRO, Osni Moura. Contabilidade Geral. São Paulo: Saraiva.

CONSELHO FEDERAL DE CONTABILIDADE. NBC TG – Estrutura Conceitual para Relatório Financeiro. Brasília: CFC.


Aula 5 – Conciliação bancária: onde a maioria descobre o erro

 

           Se existe um momento em que a empresa “encara a verdade” sobre o próprio controle financeiro, esse momento costuma ser a conciliação bancária. Ela é, ao mesmo tempo, simples e poderosa: é o processo de comparar o que a empresa acha que aconteceu (registros internos, sistema, planilhas, lançamentos contábeis) com o que realmente aconteceu no banco (extrato). E, quando essas duas coisas não batem — e quase nunca batem de primeira — é aí que aparecem os erros que estavam escondidos no dia a dia.

           Muita gente pensa que conciliar é algo sofisticado, mas a ideia é bem humana: “Se eu registrei que recebi R$ 1.000, esse R$ 1.000 entrou mesmo? Entrou quando? Entrou inteiro ou veio descontado? E esse pagamento que saiu do banco, eu sei exatamente do que foi?” A conciliação é esse hábito de checar, confirmar e dar nome aos movimentos. É como arrumar um quarto: você só percebe a bagunça de verdade quando começa a tirar as coisas do lugar e olhar uma por uma.

           Um dos motivos de a conciliação ser tão importante é que o banco não tem compromisso com a “narrativa” da empresa. O extrato mostra o que aconteceu do ponto de vista bancário: entradas, saídas, tarifas, juros, estornos, transferências, taxas. Só que a vida real das empresas é cheia de detalhes: vendas no cartão, repasses de marketplace, pagamentos em duplicidade, PIX que entram sem identificação, boletos que parecem iguais, assinaturas automáticas que passam despercebidas. Então, se a empresa não concilia, ela acaba tomando decisões com base em uma imagem incompleta — ou pior, errada.

           Um erro muito comum em negócios iniciantes é acreditar que “o extrato é o financeiro completo”. Mas o extrato é só a parte do dinheiro que efetivamente entrou e saiu do banco. Ele não mostra, por exemplo, o que a empresa ainda tem a receber (vendas a prazo, cartão, duplicatas) nem o que a empresa ainda tem a pagar (contas a vencer). Por isso, conciliação não é só conferir saldo; é também entender o timing do dinheiro. Uma empresa pode vender muito em um mês e, ainda assim, sentir aperto no caixa se os recebimentos estiverem “para depois”. E isso não significa que está dando prejuízo — significa que o fluxo de recebimento está em outro ritmo.

           Vamos trazer para a prática com uma situação clássica: vendas

no cartão. O cliente paga R$ 100, mas no extrato não entra R$ 100. Entra R$ 96, por causa da taxa, e ainda por cima pode entrar daqui a 30 dias, dependendo do prazo do adquirente. A empresa que não concilia olha o extrato e pensa: “Sumiu dinheiro” ou “o sistema está errado”. Na verdade, está tudo certo — só não foi entendido e registrado de forma compatível. A conciliação ajuda exatamente nisso: a encontrar esses “desencontros” que são normais, mas precisam ser explicados.

           Outro ponto que a conciliação revela com facilidade são tarifas, juros e cobranças automáticas. Aquela mensalidade bancária pequena que passa despercebida todo mês, a tarifa de TED/Pix em algum pacote, juros por atraso, IOF, taxas de antecipação de recebíveis… Tudo isso aparece no extrato e, se ninguém registra, vira um “vazamento” silencioso. O valor pode parecer baixo, mas, no acumulado, machuca o resultado — e, pior, ninguém sabe de onde veio. Conciliação é uma forma de dar nome aos vazamentos.

           Também existe o lado oposto: entradas sem origem clara. Um PIX entra com um nome estranho, ou com uma identificação que não ajuda. Às vezes é cliente, às vezes é devolução, às vezes é um adiantamento, às vezes é até um erro de terceiros. Sem conciliação, isso vira um “dinheiro sem história”. E dinheiro sem história é perigoso: pode ser receita sem nota, pode ser valor que deveria ser estornado, pode ser pagamento duplicado. A conciliação obriga a empresa a perguntar: “De onde veio? Qual documento prova isso? Qual venda ou contrato explica essa entrada?” Esse é o tipo de pergunta que evita muita dor de cabeça fiscal e contábil.

           Uma conciliação bancária bem-feita não precisa ser complicada. Você pode seguir um fluxo simples e repetível. O primeiro passo é pegar o extrato do período (idealmente diário ou semanal, e no mínimo mensal). Em seguida, você compara cada movimentação com algum registro e algum documento: uma nota fiscal, um comprovante, uma fatura, um boleto, um relatório do sistema de vendas. Quando tudo “encaixa”, você marca como conciliado. O que não encaixa vira pendência — e pendência é o que você vai resolver, não varrer para baixo do tapete.

           Essas pendências costumam se dividir em dois grupos. O primeiro é “está no banco, mas não está nos registros”: por exemplo, uma tarifa bancária que ninguém lançou, um pagamento que saiu e não foi classificado, um estorno que entrou e ficou sem explicação. O segundo grupo é o inverso: “está nos

registros, mas não está no banco”: por exemplo, uma venda no cartão que ainda não foi repassada, um boleto que o cliente ainda não pagou, um pagamento agendado que não compensou. O segredo é não entrar em pânico. Pendência não é fracasso; pendência é informação pedindo organização.

           Outro cuidado importante é com pagamentos em duplicidade. Isso é mais comum do que parece: alguém paga o boleto no aplicativo do banco e, depois, paga de novo no Internet Banking; ou paga via PIX e depois o boleto compensa; ou duas pessoas pagam a mesma conta por que ninguém avisou. A conciliação costuma pegar isso rapidamente, porque a mesma conta aparece duas vezes no extrato. Quando a empresa concilia com frequência, dá para corrigir logo (às vezes até pedindo estorno ou abatendo em faturas futuras). Quando concilia só depois de meses, a chance de recuperar diminui e o prejuízo vira “normal”.

           Para quem está iniciando, um dos melhores hábitos é transformar conciliação em rotina leve, e não em “evento traumático”. Conciliação mensal feita só no último dia vira maratona e estresse. Já a conciliação semanal, mesmo simples, é como cuidar da saúde: pequenas conferências evitam problemas grandes. Em 30 minutos por semana, você resolve o que poderia virar um dia inteiro de correria no fim do mês.

           E aqui vai uma dica prática que faz diferença: conciliar não é só “dar OK”. É também classificar corretamente. Se saiu R$ 250 e você marca como “diversos”, no mês seguinte você continua sem saber o que foi. O ideal é classificar com clareza: “energia elétrica”, “taxa de cartão”, “aluguel”, “compra de insumos”, “frete”, “imposto”. No início dá trabalho, mas, com o tempo, vira um padrão. E padrões são amigos do fechamento contábil.

           No fundo, a conciliação bancária é um exercício de maturidade. Ela reduz surpresas, melhora a qualidade da escrituração e dá ao gestor um tipo de tranquilidade que não tem preço: a sensação de que o negócio está sendo conduzido com clareza. E quando a empresa aprende a conciliar, ela aprende algo ainda maior: aprende a trocar o “eu acho” pelo “eu tenho certeza”.

Referências bibliográficas

IUDÍCIBUS, Sérgio de. Contabilidade Introdutória. São Paulo: Atlas.

MARION, José Carlos. Contabilidade Básica. São Paulo: Atlas.

CREPALDI, Silvio Aparecido. Contabilidade Geral. São Paulo: Atlas.

PADOVEZE, Clóvis Luís. Manual de Contabilidade Básica. São Paulo: Atlas.

RIBEIRO, Osni Moura. Contabilidade Geral. São Paulo: Saraiva.

CONSELHO FEDERAL DE CONTABILIDADE. NBC TG – Estrutura Conceitual para Relatório Financeiro. Brasília: CFC.


Aula 6 – Competência vs. Caixa (agora para valer)

 

           Em algum momento da vida de qualquer empresa, aparece uma frase clássica: “Vendi bastante, mas não vejo dinheiro” — ou o contrário: “Entrou dinheiro, mas eu nem sei do quê”. Essas duas situações, que parecem confusas, quase sempre ficam muito mais claras quando a gente entende bem a diferença entre regime de caixa e regime de competência. E aqui vai uma notícia boa: isso não é um assunto “de contador”. É um assunto de quem quer enxergar a realidade do negócio sem se iludir nem se desesperar à toa.

           O regime de caixa é o mais intuitivo, porque ele acompanha o dinheiro de verdade. Nesse regime, a receita “existe” quando o dinheiro entra, e a despesa “existe” quando o dinheiro sai. É o jeito como muitas pessoas controlam a vida pessoal: se caiu salário, ótimo; se pagou boleto, saiu. É simples, direto e útil para acompanhar o fôlego do caixa. O problema é que, sozinho, ele pode contar uma história incompleta — porque a empresa pode ter vendas feitas e ainda não recebidas, ou despesas assumidas e ainda não pagas.

           Já o regime de competência é como um “relógio da realidade econômica”. Nele, o que importa é quando o fato acontece, mesmo que o dinheiro ainda não tenha se movimentado. A receita é reconhecida quando a empresa entrega o produto ou presta o serviço (quando ela “ganha” de fato aquela receita), e a despesa é reconhecida quando ela consome um recurso para operar (quando aquele custo faz parte do mês, mesmo que a conta seja paga depois). É por isso que, na contabilidade, competência costuma ser a base para medir resultado: ela mostra o que pertence a cada período.

           Vamos trazer para um exemplo bem comum: venda no cartão. Você vende hoje R$ 1.000 em cartão, mas o dinheiro cai em 30 dias. Pelo caixa, hoje não entrou nada — então parece que você não vendeu. Pela competência, você vendeu sim, porque entregou o produto hoje. E isso muda a leitura do negócio. Se você olhar apenas o extrato bancário, pode achar que o mês foi fraco. Mas, olhando pela competência, você percebe que vendeu bem; só que o dinheiro está “a caminho”, preso no prazo do cartão. Esse entendimento evita decisões erradas, como cortar investimento ou estoque num mês que, na prática, foi bom.

           Agora vamos para o outro lado: contas pagas em um momento que não “pertence” ao mês.

Imagine que você pague em janeiro uma assinatura anual de um sistema, no valor de R$ 1.200. Pelo caixa, janeiro levou uma pancada: R$ 1.200 de despesa. Só que, na realidade, o benefício do sistema vai ser usado o ano inteiro. Pela competência, faz mais sentido reconhecer R$ 100 por mês (1.200 dividido por 12), porque é isso que representa o consumo do serviço ao longo do tempo. Esse tipo de ajuste evita que um mês pareça ruim demais e os outros pareçam “bons demais” só porque o pagamento já foi feito.

           Outro exemplo muito didático é a conta de energia. Em muitas empresas, a energia consumida em dezembro é paga em janeiro. Se você olha pelo caixa, a despesa aparece em janeiro. Mas, pela competência, a energia pertence a dezembro, porque foi em dezembro que a empresa consumiu aquele recurso para funcionar. E aqui mora um ponto importante: competência é uma forma de dizer “essa despesa fez parte do custo de operar naquele mês”, mesmo que o boleto só seja pago depois.

           Essa diferença entre competência e caixa explica por que a contabilidade consegue responder melhor a pergunta: “Quanto eu realmente lucrei neste mês?”. Porque lucro é comparação entre receitas e despesas do mesmo período. Se você mistura meses (reconhecendo receita quando recebe e despesa quando paga), o resultado vira uma montanha-russa.

Um mês pode parecer maravilhoso só porque entrou dinheiro atrasado de vendas anteriores; e o mês seguinte pode parecer horrível porque você pagou contas acumuladas. A competência “alisa” essa leitura e aproxima o resultado do que realmente aconteceu na operação.

           Mas atenção: isso não significa que o regime de caixa é ruim. Na verdade, ele é indispensável para outra pergunta: “Eu consigo pagar minhas contas?”. Competência mostra resultado; caixa mostra fôlego. Uma empresa pode estar dando lucro na competência e, mesmo assim, quebrar por falta de caixa — especialmente se vender muito a prazo, se tiver prazos longos para receber, ou se tiver estoques altos. Por isso, quando a empresa amadurece, ela aprende a olhar os dois: competência para entender desempenho e caixa para garantir sobrevivência.

          Na rotina da escrituração, uma boa forma de fixar isso é separar mentalmente duas coisas: o fato e o pagamento. O fato é quando a compra, a venda, a prestação de serviço ou o consumo acontece. O pagamento é quando o dinheiro se movimenta. Às vezes eles coincidem (venda à vista, compra no PIX). Às vezes não (cartão, boleto a

prazo, parcelamentos, contratos). Quando você se acostuma a pensar assim, começa a ficar muito mais fácil entender por que “o banco não bate com o mês” e porque a contabilidade pede documentos mesmo quando ainda não houve pagamento.

           Uma prática simples ajuda bastante: sempre que você encontrar uma transação, faça duas perguntas rápidas. Primeiro: isso pertence a qual mês? (competência). Segundo: quando o dinheiro entra ou sai? (caixa). Por exemplo: “Venda feita em 10/01 no cartão, recebimento em 10/02.” Pertence a janeiro na competência, mas afeta o caixa em fevereiro. “Conta de energia de dezembro, paga em janeiro.” Pertence a dezembro na competência, mas sai do caixa em janeiro. Esse exercício mental, repetido algumas vezes, vira hábito.

           E, para fechar, vale lembrar o objetivo disso tudo: não é complicar. É fazer a empresa enxergar com mais nitidez. Quando você entende competência e caixa, você começa a ter respostas mais honestas e úteis. Em vez de “acho que o mês foi bom”, você consegue dizer: “o mês foi bom nas vendas, mas o caixa vai sentir por causa dos prazos”. Em vez de “o banco está estranho”, você consegue perceber: “o banco reflete pagamentos e recebimentos, não o resultado do mês”. É esse tipo de clareza que transforma a escrituração em algo vivo, que serve para decidir melhor — e não só para cumprir obrigação.

Referências bibliográficas

IUDÍCIBUS, Sérgio de. Contabilidade Introdutória. São Paulo: Atlas.

MARION, José Carlos. Contabilidade Básica. São Paulo: Atlas.

PADOVEZE, Clóvis Luís. Manual de Contabilidade Básica. São Paulo: Atlas.

CREPALDI, Silvio Aparecido. Contabilidade Geral. São Paulo: Atlas.

RIBEIRO, Osni Moura. Contabilidade Geral. São Paulo: Saraiva.

CONSELHO FEDERAL DE CONTABILIDADE. NBC TG – Estrutura Conceitual para Relatório Financeiro. Brasília: CFC.


Estudo de caso envolvente — Módulo 2

 

“O E-commerce que vendia bem…, mas nunca sabia quanto tinha de verdade”

A TrendVibes era um e-commerce de moda casual que cresceu rápido. A dona, Bianca, começou vendendo pelo Instagram, depois abriu loja online e, quando viu, já estava em dois marketplaces. As vendas subiam mês a mês. O problema é que o fim do mês sempre chegava com a mesma sensação: cansaço, confusão e um ‘cadê o dinheiro?’.

Bianca jurava que estava indo bem. Mas o banco não mostrava isso com clareza. Às vezes entrava muito, às vezes entrava pouco, e em vários dias apareciam descontos e taxas que ela não sabia explicar. Quando o contador

pedia informações, ela respondia:
“Tá tudo no extrato… não é?”

Foi aí que entrou Lucas, assistente financeiro, com uma missão: arrumar os lançamentos, conciliar o banco e separar competência de caixa — exatamente o coração do Módulo 2.

Cena 1 — O erro que parece pequeno: “Lança quando cai no banco”

Lucas abriu a planilha de controle e percebeu que Bianca registrava as vendas somente quando o dinheiro entrava no banco. Se a venda foi no cartão e caiu 30 dias depois, ela “virava venda” no mês seguinte.

Erro comum #1: registrar receita no caixa em vez de na competência
Consequências típicas:

  • Um mês parece ruim (porque não entrou) e o outro parece ótimo (porque entrou atrasado).
  • Resultado do mês vira uma montanha-russa.
  • O contador não consegue fechar direito sem ajustes.

Como evitar (na prática)

  • Registrar a venda na data em que ocorreu (competência).
  • Separar “Receita” de “Recebimento”:

o    Receita: aconteceu a venda.

o    Recebimento: o dinheiro caiu.

  • Criar a conta “Cartões a receber” e/ou “Marketplace a receber” para representar o dinheiro que vai entrar.

Cena 2 — “Sumiu dinheiro” … não, foi a taxa (e ninguém registrou)

No extrato, Lucas viu vários repasses de cartão menores que o valor vendido. Bianca achava que era erro da operadora.

Exemplo realista do mês:

  • Venda no cartão: R$ 2.000
  • Taxa: 4% (R$ 80)
  • Repasse no banco: R$ 1.920

Erro comum #2: ignorar taxas e descontos automáticos
Consequências:

  • O banco “não bate” com as vendas.
  • As despesas ficam escondidas e o lucro parece maior do que é.
  • Ninguém sabe quanto custa vender de verdade.

Como evitar

  • Separar uma categoria/conta para Taxas de cartão / comissões.
  • Conciliar repasses com relatórios da adquirente/marketplace.
  • Registrar o valor bruto da venda e a taxa como despesa (ou redutora) corretamente.

Cena 3 — Conciliação “no susto”: quando a bagunça vira rotina

Lucas pediu os relatórios do marketplace. Bianca disse que não tinha o hábito de baixar. Ela só olhava o extrato. E aí estavam os “mistérios”:

  • Repasses agrupados (várias vendas viram um repasse só)
  • Estornos e chargebacks que entravam como negativo
  • Tarifas de antecipação (quando ela queria “receber antes”)
  • Fretes cobrados à parte

Erro comum #3: não conciliar banco com relatórios de cartão/marketplace
Consequências:

  • Pendências acumulam e ninguém acha a origem depois.
  • Estornos passam
  • batidos e viram prejuízo silencioso.
  • Taxas crescem sem controle.

Como evitar
Rotina mínima semanal (30–45 min):

1.     Baixar extrato do banco

2.     Baixar relatório de vendas/repasses do cartão e marketplace

3.     Marcar o que bate

4.     Listar pendências: “está no banco e não está no controle” e vice-versa

5.     Resolver 2 ou 3 pendências por semana (sem deixar virar bola de neve)

Cena 4 — O “duplo lançamento” que destrói o resultado

Lucas achou algo perigoso: toda vez que Bianca pagava um fornecedor, ela lançava como “Despesa de compra” — mesmo quando a compra já tinha sido registrada antes.

Exemplo:

  • Compra a prazo de estoque: R$ 5.000 (registrada quando a mercadoria chegou)
  • Pagamento dessa compra no mês seguinte: ela lançava como despesa de novo

Erro comum #4: duplicar despesa ao pagar contas já registradas
Consequências:

  • Despesas infladas artificialmente.
  • Resultado do mês fica errado.
  • Sensação de “não sobra nada” mesmo vendendo bem.

Como evitar

  • Separar dois momentos:

o    Compra (fato): registra estoque/custo e a obrigação (fornecedor a pagar).

o    Pagamento (dinheiro): dá baixa na obrigação e reduz banco.

  • Treinar a pergunta-chave: “Estou registrando o fato ou o pagamento?”

Cena 5 — “O saldo no banco é meu lucro, né?”

Bianca tinha um hábito perigoso: se o saldo subia, ela dizia que lucrou; se caía, dizia que estava ruim. Lucas mostrou que saldo bancário mistura várias coisas: recebimentos atrasados, pagamentos acumulados, retirada de sócia, antecipação de cartão, impostos…

Erro comum #5: confundir saldo bancário com lucro
Consequências:

  • Decisões ruins (comprar estoque demais, retirar dinheiro demais).
  • Falta de previsibilidade de impostos e contas.
  • Desorganização completa do mês seguinte.

Como evitar

  • Usar dois painéis simples:

1.     Resultado (competência): receitas – custos – despesas

2.     Fluxo de caixa (caixa): entradas e saídas por data

  • Definir retirada da sócia como pró-labore/retirada e não “pegar do caixa”.

O “ponto de virada” — quando a empresa começou a respirar

Em quatro semanas, Lucas implementou três mudanças simples:

1.     Agenda de recebíveis (cartão + marketplace)

2.     Conciliação semanal

3.     Registro separado de receita, taxas e recebimentos

No fechamento, Bianca percebeu algo revelador:

  • ela vendia bem, mas gastava mais do que imaginava em taxas e anúncios;
  • o mês “ruim” era só um
  • mês “ruim” era só um mês com recebimentos do mês anterior;
  • ela tinha dinheiro a receber e não estava enxergando isso.

A frase dela foi direta:
“Eu não estava sem dinheiro. Eu estava sem visibilidade.”

Conclusão do caso — O que o Módulo 2 ensinou na prática

Aula 4 — Lançamentos do dia a dia

  • Registrar fatos com clareza e sem duplicar.

Aula 5 — Conciliação bancária

  • Extrato não é financeiro completo; é a parte “bancária” do filme.

Aula 6 — Competência x Caixa

  • Competência mostra desempenho real; caixa mostra fôlego.

Checklist prático (ante erro) para o aluno aplicar

1.     Registrar venda na data da venda (competência)

2.     Criar “Cartões/Marketplace a receber”

3.     Registrar taxas separadamente

4.     Fazer conciliação semanal com relatórios

5.     Não lançar despesa de novo ao pagar contas já registradas

6.     Separar resultado (competência) de fluxo de caixa (caixa)

7.     Padronizar histórico dos lançamentos (clareza sempre)

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