MÓDULO 2 — Escrituração Contábil na prática: registrando o básico sem errar
Aula
4 — Lançamentos contábeis do dia a dia (passo a passo)
Quando a gente fala em
“lançamento contábil”, muita gente imagina algo técnico demais, quase como uma
fórmula secreta. Só que, na prática, lançamento contábil é uma coisa bem mais
humana: é o jeito que a contabilidade usa para registrar, com clareza, o que
aconteceu na empresa. É como escrever no diário do negócio: “Hoje eu
vendi”, “Hoje eu comprei”, “Hoje eu paguei”, “Hoje eu recebi”. A diferença é
que, em vez de escrever em frases soltas, a contabilidade escreve seguindo um
padrão que permite conferir, somar, comparar meses e, principalmente, gerar
relatórios confiáveis.
Um lançamento contábil completo
costuma ter quatro elementos básicos: data, histórico (descrição),
contas envolvidas e valor. A data ajuda a organizar os fatos no
tempo. O histórico explica o que aconteceu (e aqui vale ouro escrever de forma
clara: “Venda à vista – balcão”, “Compra de insumos – fornecedor X”, “Pagamento
de aluguel – janeiro”). As contas envolvidas dizem onde esse fato “mexe” no
patrimônio: caixa, banco, clientes a receber, fornecedores a pagar, receitas,
despesas, estoque. E o valor, claro, registra o impacto financeiro.
Agora vem a parte que dá segurança:
todo lançamento precisa manter o equilíbrio do sistema. A contabilidade
trabalha com a ideia de que todo fato tem dois lados. Se algo entra,
algo muda do outro lado. Se eu compro mercadoria à vista, por exemplo, eu
aumento estoque (algo entra) e diminuo dinheiro no banco (algo sai). Se eu
vendo a prazo, eu reconheço receita (o negócio aconteceu) e aumento clientes a
receber (porque o dinheiro vai entrar depois).
Essa lógica é o
que sustenta o método das partidas dobradas, em que todo lançamento tem
um débito e um crédito que se equilibram.
E antes que você trave: não pense em débito e crédito como “bom” e “ruim”. Pense como lado esquerdo e lado direito do registro. Um jeito bem didático de iniciar é lembrar de alguns padrões simples: quando a empresa aumenta um ativo (como banco, caixa, clientes), geralmente isso aparece no débito; quando diminui um ativo, aparece no crédito. Quando aumenta um passivo (como fornecedores, impostos a pagar), geralmente aparece no crédito; quando diminui, aparece no débito. Receitas normalmente crescem no crédito; despesas crescem no débito. Com isso em
mente, a gente consegue registrar as operações
mais comuns sem drama.
Vamos para o cotidiano. Imagine uma venda
à vista de R$ 500, recebida no PIX. O que aconteceu aqui? A empresa ganhou
uma receita e entrou dinheiro. Então o lançamento básico seria: débito em
Banco/Caixa (porque o ativo aumentou) e crédito em Receita de Vendas
(porque a receita aumentou). Simples, direto, e muito lógico quando você
enxerga os dois efeitos do mesmo fato.
Agora pense numa venda a prazo
de R$ 1.200. A venda aconteceu hoje, então a receita também é de hoje, mas o
dinheiro não entrou. O que entra no lugar do dinheiro? Entra um direito: “o
cliente me deve”. Esse direito é registrado em Clientes / Contas a Receber.
Então você teria: débito em Clientes (Contas a Receber) e crédito em
Receita de Vendas. Percebe a beleza do sistema? Ele registra a realidade
econômica sem depender de o dinheiro já ter aparecido na conta.
Vamos mudar de lado: uma compra à
vista de insumos (como café, leite, embalagens) no valor de R$ 200 paga no
PIX. Aqui o que aconteceu? A empresa adquiriu algo que será usado na operação.
Dependendo do caso, isso pode ser registrado como Estoque (se é
mercadoria/insumo que ficará armazenado) ou direto como Despesa (se é
algo consumido rapidamente e o controle for simplificado). Para fins didáticos,
vamos imaginar que entrou no estoque.
Então o lançamento
fica: débito em Estoque (ativo aumentou) e crédito em Banco/Caixa
(ativo diminuiu). Se fosse uma despesa imediata, o raciocínio seria parecido:
débito em Despesa e crédito em Banco.
E quando a compra é a prazo? A
lógica muda só em um detalhe: em vez de diminuir banco agora, a empresa assume
uma obrigação futura, normalmente chamada de Fornecedores / Contas a Pagar.
Se a compra foi de R$ 900 com pagamento em 30 dias, o lançamento seria: débito
em Estoque (ou Despesa, conforme o caso) e crédito em Fornecedores
(porque o passivo aumentou). De novo, a contabilidade não está “inventando”;
ela está registrando o compromisso real que a empresa assumiu.
Uma operação muito comum e que ajuda a fixar a lógica é o pagamento de uma despesa, como aluguel de R$ 1.000. O que acontece quando você paga o aluguel? Você reconhece a despesa daquele período e reduz dinheiro do banco. Então o lançamento básico é: débito em Despesa de Aluguel e crédito em Banco/Caixa. Perceba como o histórico aqui é importante: escrever “Aluguel – janeiro/2026” já evita confusão no mês seguinte,
Perceba como o
histórico aqui é importante: escrever “Aluguel – janeiro/2026” já evita
confusão no mês seguinte, quando aparece outro aluguel e alguém tenta
“reaproveitar” o mesmo documento.
Outro ponto que aparece com frequência é o pagamento de algo que já estava registrado como dívida. Imagine que você comprou a prazo e registrou em Fornecedores. Quando você paga, não faz sentido registrar a despesa de novo, porque ela já foi registrada na compra. Agora você só está “trocando” uma obrigação por saída de dinheiro. Então o lançamento do pagamento seria: débito em Fornecedores (reduz a dívida) e crédito em Banco/Caixa (reduz o dinheiro). Essa diferença é uma das maiores fontes de erro em empresas iniciantes: pagar e lançar como despesa novamente, duplicando custos e bagunçando o resultado do mês.
Um cuidado didático importante: nesta
aula, estamos trabalhando com lançamentos “enxutos”, focados no entendimento do
básico. Em situações reais, pode haver mais elementos, como impostos, taxas de
cartão, descontos, devoluções e ajustes. Mas aprender a caminhar vem antes de
aprender a correr. Se você domina o registro correto das operações simples,
depois fica muito mais fácil adicionar camadas.
Por isso, sempre que você for montar
um lançamento, tente seguir um roteiro mental de três perguntas: (1) o que
aconteceu de verdade? (2) quais contas isso mexe? (3) o que aumentou e o que
diminuiu? Essas perguntas, por si só, já levam você a encontrar o débito e
o crédito com muito mais segurança. E se você errar no começo, tudo bem: o
objetivo é praticar até a lógica ficar natural — como aprender a dirigir. No
início você pensa em cada passo; depois, vira fluidez.
No final, é bom lembrar: lançamento contábil não é burocracia por esporte. Ele é a base para que a empresa entenda o próprio resultado, consiga fechar o mês sem sustos, enxergue dívidas e direitos, e tenha informações confiáveis para decidir. Uma escrituração bem-feita não é “perfeição”; é consistência. E consistência, na prática, começa com lançamentos do dia a dia feitos com clareza, documento e lógica.
Referências
bibliográficas
IUDÍCIBUS, Sérgio
de. Contabilidade Introdutória. São Paulo: Atlas.
MARION, José
Carlos. Contabilidade Básica. São Paulo: Atlas.
CREPALDI, Silvio
Aparecido. Contabilidade Geral. São Paulo: Atlas.
PADOVEZE, Clóvis
Luís. Manual de Contabilidade Básica. São Paulo: Atlas.
RIBEIRO, Osni
Moura. Contabilidade Geral. São Paulo: Saraiva.
CONSELHO FEDERAL
DE CONTABILIDADE. NBC TG – Estrutura Conceitual para Relatório Financeiro.
Brasília: CFC.
Aula 5 – Conciliação
bancária: onde a maioria descobre o erro
Se existe um momento em que a empresa
“encara a verdade” sobre o próprio controle financeiro, esse momento costuma
ser a conciliação bancária. Ela é, ao mesmo tempo, simples e poderosa: é
o processo de comparar o que a empresa acha que aconteceu (registros
internos, sistema, planilhas, lançamentos contábeis) com o que realmente
aconteceu no banco (extrato). E, quando essas duas coisas não batem — e quase
nunca batem de primeira — é aí que aparecem os erros que estavam escondidos no
dia a dia.
Muita gente pensa que conciliar é
algo sofisticado, mas a ideia é bem humana: “Se eu registrei que recebi R$
1.000, esse R$ 1.000 entrou mesmo? Entrou quando? Entrou inteiro ou veio
descontado? E esse pagamento que saiu do banco, eu sei exatamente do que foi?”
A conciliação é esse hábito de checar, confirmar e dar nome aos movimentos. É
como arrumar um quarto: você só percebe a bagunça de verdade quando começa a
tirar as coisas do lugar e olhar uma por uma.
Um dos motivos de a conciliação ser tão importante é que o banco não tem compromisso com a “narrativa” da empresa. O extrato mostra o que aconteceu do ponto de vista bancário: entradas, saídas, tarifas, juros, estornos, transferências, taxas. Só que a vida real das empresas é cheia de detalhes: vendas no cartão, repasses de marketplace, pagamentos em duplicidade, PIX que entram sem identificação, boletos que parecem iguais, assinaturas automáticas que passam despercebidas. Então, se a empresa não concilia, ela acaba tomando decisões com base em uma imagem incompleta — ou pior, errada.
Um erro muito comum em negócios
iniciantes é acreditar que “o extrato é o financeiro completo”. Mas o extrato é
só a parte do dinheiro que efetivamente entrou e saiu do banco. Ele não mostra,
por exemplo, o que a empresa ainda tem a receber (vendas a prazo,
cartão, duplicatas) nem o que a empresa ainda tem a pagar (contas a
vencer). Por isso, conciliação não é só conferir saldo; é também entender o
timing do dinheiro. Uma empresa pode vender muito em um mês e, ainda assim,
sentir aperto no caixa se os recebimentos estiverem “para depois”. E isso não
significa que está dando prejuízo — significa que o fluxo de recebimento está
em outro ritmo.
Vamos trazer para a prática com uma situação clássica: vendas
no cartão. O cliente paga R$ 100, mas no
extrato não entra R$ 100. Entra R$ 96, por causa da taxa, e ainda por cima pode
entrar daqui a 30 dias, dependendo do prazo do adquirente. A empresa que não
concilia olha o extrato e pensa: “Sumiu dinheiro” ou “o sistema está errado”.
Na verdade, está tudo certo — só não foi entendido e registrado de forma
compatível. A conciliação ajuda exatamente nisso: a encontrar esses
“desencontros” que são normais, mas precisam ser explicados.
Outro ponto que a conciliação revela
com facilidade são tarifas, juros e cobranças automáticas. Aquela
mensalidade bancária pequena que passa despercebida todo mês, a tarifa de
TED/Pix em algum pacote, juros por atraso, IOF, taxas de antecipação de
recebíveis… Tudo isso aparece no extrato e, se ninguém registra, vira um
“vazamento” silencioso. O valor pode parecer baixo, mas, no acumulado, machuca
o resultado — e, pior, ninguém sabe de onde veio. Conciliação é uma forma de
dar nome aos vazamentos.
Também existe o lado oposto: entradas
sem origem clara. Um PIX entra com um nome estranho, ou com uma
identificação que não ajuda. Às vezes é cliente, às vezes é devolução, às vezes
é um adiantamento, às vezes é até um erro de terceiros. Sem conciliação, isso
vira um “dinheiro sem história”. E dinheiro sem história é perigoso: pode ser
receita sem nota, pode ser valor que deveria ser estornado, pode ser pagamento
duplicado. A conciliação obriga a empresa a perguntar: “De onde veio? Qual
documento prova isso? Qual venda ou contrato explica essa entrada?” Esse é o
tipo de pergunta que evita muita dor de cabeça fiscal e contábil.
Uma conciliação bancária bem-feita
não precisa ser complicada. Você pode seguir um fluxo simples e repetível. O
primeiro passo é pegar o extrato do período (idealmente diário ou
semanal, e no mínimo mensal). Em seguida, você compara cada movimentação com
algum registro e algum documento: uma nota fiscal, um comprovante, uma fatura,
um boleto, um relatório do sistema de vendas. Quando tudo “encaixa”, você marca
como conciliado. O que não encaixa vira pendência — e pendência é o que
você vai resolver, não varrer para baixo do tapete.
Essas pendências costumam se dividir em dois grupos. O primeiro é “está no banco, mas não está nos registros”: por exemplo, uma tarifa bancária que ninguém lançou, um pagamento que saiu e não foi classificado, um estorno que entrou e ficou sem explicação. O segundo grupo é o inverso: “está nos
registros, mas não está no banco”: por
exemplo, uma venda no cartão que ainda não foi repassada, um boleto que o
cliente ainda não pagou, um pagamento agendado que não compensou. O segredo é
não entrar em pânico. Pendência não é fracasso; pendência é informação pedindo
organização.
Outro cuidado importante é com pagamentos em duplicidade. Isso é mais comum do que parece: alguém paga o boleto no aplicativo do banco e, depois, paga de novo no Internet Banking; ou paga via PIX e depois o boleto compensa; ou duas pessoas pagam a mesma conta por que ninguém avisou. A conciliação costuma pegar isso rapidamente, porque a mesma conta aparece duas vezes no extrato. Quando a empresa concilia com frequência, dá para corrigir logo (às vezes até pedindo estorno ou abatendo em faturas futuras). Quando concilia só depois de meses, a chance de recuperar diminui e o prejuízo vira “normal”.
Para quem está iniciando, um dos
melhores hábitos é transformar conciliação em rotina leve, e não em “evento
traumático”. Conciliação mensal feita só no último dia vira maratona e
estresse. Já a conciliação semanal, mesmo simples, é como cuidar da
saúde: pequenas conferências evitam problemas grandes. Em 30 minutos por
semana, você resolve o que poderia virar um dia inteiro de correria no fim do
mês.
E aqui vai uma dica prática que faz
diferença: conciliar não é só “dar OK”. É também classificar corretamente.
Se saiu R$ 250 e você marca como “diversos”, no mês seguinte você continua sem
saber o que foi. O ideal é classificar com clareza: “energia elétrica”, “taxa
de cartão”, “aluguel”, “compra de insumos”, “frete”, “imposto”. No início dá
trabalho, mas, com o tempo, vira um padrão. E padrões são amigos do fechamento
contábil.
No fundo, a conciliação bancária é um exercício de maturidade. Ela reduz surpresas, melhora a qualidade da escrituração e dá ao gestor um tipo de tranquilidade que não tem preço: a sensação de que o negócio está sendo conduzido com clareza. E quando a empresa aprende a conciliar, ela aprende algo ainda maior: aprende a trocar o “eu acho” pelo “eu tenho certeza”.
Referências
bibliográficas
IUDÍCIBUS, Sérgio
de. Contabilidade Introdutória. São Paulo: Atlas.
MARION, José
Carlos. Contabilidade Básica. São Paulo: Atlas.
CREPALDI, Silvio
Aparecido. Contabilidade Geral. São Paulo: Atlas.
PADOVEZE, Clóvis
Luís. Manual de Contabilidade Básica. São Paulo: Atlas.
RIBEIRO, Osni
Moura. Contabilidade Geral. São Paulo: Saraiva.
CONSELHO FEDERAL
DE CONTABILIDADE. NBC TG – Estrutura Conceitual para Relatório Financeiro.
Brasília: CFC.
Aula 6 – Competência vs.
Caixa (agora para valer)
Em algum momento da vida de qualquer
empresa, aparece uma frase clássica: “Vendi bastante, mas não vejo dinheiro”
— ou o contrário: “Entrou dinheiro, mas eu nem sei do quê”. Essas duas
situações, que parecem confusas, quase sempre ficam muito mais claras quando a
gente entende bem a diferença entre regime de caixa e regime de
competência. E aqui vai uma notícia boa: isso não é um assunto “de
contador”. É um assunto de quem quer enxergar a realidade do negócio sem se
iludir nem se desesperar à toa.
O regime de caixa é o mais
intuitivo, porque ele acompanha o dinheiro de verdade. Nesse regime, a receita
“existe” quando o dinheiro entra, e a despesa “existe” quando o dinheiro sai. É
o jeito como muitas pessoas controlam a vida pessoal: se caiu salário, ótimo;
se pagou boleto, saiu. É simples, direto e útil para acompanhar o fôlego do
caixa. O problema é que, sozinho, ele pode contar uma história incompleta —
porque a empresa pode ter vendas feitas e ainda não recebidas, ou despesas
assumidas e ainda não pagas.
Já o regime de competência é como um “relógio da realidade econômica”. Nele, o que importa é quando o fato acontece, mesmo que o dinheiro ainda não tenha se movimentado. A receita é reconhecida quando a empresa entrega o produto ou presta o serviço (quando ela “ganha” de fato aquela receita), e a despesa é reconhecida quando ela consome um recurso para operar (quando aquele custo faz parte do mês, mesmo que a conta seja paga depois). É por isso que, na contabilidade, competência costuma ser a base para medir resultado: ela mostra o que pertence a cada período.
Vamos trazer para um exemplo bem
comum: venda no cartão. Você vende hoje R$ 1.000 em cartão, mas o
dinheiro cai em 30 dias. Pelo caixa, hoje não entrou nada — então parece que
você não vendeu. Pela competência, você vendeu sim, porque entregou o produto
hoje. E isso muda a leitura do negócio. Se você olhar apenas o extrato
bancário, pode achar que o mês foi fraco. Mas, olhando pela competência, você
percebe que vendeu bem; só que o dinheiro está “a caminho”, preso no prazo do
cartão. Esse entendimento evita decisões erradas, como cortar investimento ou
estoque num mês que, na prática, foi bom.
Agora vamos para o outro lado: contas pagas em um momento que não “pertence” ao mês.
Imagine que você pague em
janeiro uma assinatura anual de um sistema, no valor de R$ 1.200. Pelo caixa,
janeiro levou uma pancada: R$ 1.200 de despesa. Só que, na realidade, o
benefício do sistema vai ser usado o ano inteiro. Pela competência, faz mais
sentido reconhecer R$ 100 por mês (1.200 dividido por 12), porque é isso que
representa o consumo do serviço ao longo do tempo. Esse tipo de ajuste evita
que um mês pareça ruim demais e os outros pareçam “bons demais” só porque o
pagamento já foi feito.
Outro exemplo muito didático é a
conta de energia. Em muitas empresas, a energia consumida em dezembro é paga em
janeiro. Se você olha pelo caixa, a despesa aparece em janeiro. Mas, pela
competência, a energia pertence a dezembro, porque foi em dezembro que a
empresa consumiu aquele recurso para funcionar. E aqui mora um ponto
importante: competência é uma forma de dizer “essa despesa fez parte do custo
de operar naquele mês”, mesmo que o boleto só seja pago depois.
Essa diferença entre competência e
caixa explica por que a contabilidade consegue responder melhor a pergunta: “Quanto
eu realmente lucrei neste mês?”. Porque lucro é comparação entre receitas e
despesas do mesmo período. Se você mistura meses (reconhecendo receita quando
recebe e despesa quando paga), o resultado vira uma montanha-russa.
Um mês pode
parecer maravilhoso só porque entrou dinheiro atrasado de vendas anteriores; e
o mês seguinte pode parecer horrível porque você pagou contas acumuladas. A
competência “alisa” essa leitura e aproxima o resultado do que realmente
aconteceu na operação.
Mas atenção: isso não significa que o
regime de caixa é ruim. Na verdade, ele é indispensável para outra pergunta: “Eu
consigo pagar minhas contas?”. Competência mostra resultado; caixa mostra
fôlego. Uma empresa pode estar dando lucro na competência e, mesmo assim,
quebrar por falta de caixa — especialmente se vender muito a prazo, se tiver
prazos longos para receber, ou se tiver estoques altos. Por isso, quando a
empresa amadurece, ela aprende a olhar os dois: competência para entender
desempenho e caixa para garantir sobrevivência.
Na rotina da escrituração, uma boa forma de fixar isso é separar mentalmente duas coisas: o fato e o pagamento. O fato é quando a compra, a venda, a prestação de serviço ou o consumo acontece. O pagamento é quando o dinheiro se movimenta. Às vezes eles coincidem (venda à vista, compra no PIX). Às vezes não (cartão, boleto a
prazo,
parcelamentos, contratos). Quando você se acostuma a pensar assim, começa a
ficar muito mais fácil entender por que “o banco não bate com o mês” e porque a
contabilidade pede documentos mesmo quando ainda não houve pagamento.
Uma prática simples ajuda bastante: sempre que você encontrar uma transação, faça duas perguntas rápidas. Primeiro: isso pertence a qual mês? (competência). Segundo: quando o dinheiro entra ou sai? (caixa). Por exemplo: “Venda feita em 10/01 no cartão, recebimento em 10/02.” Pertence a janeiro na competência, mas afeta o caixa em fevereiro. “Conta de energia de dezembro, paga em janeiro.” Pertence a dezembro na competência, mas sai do caixa em janeiro. Esse exercício mental, repetido algumas vezes, vira hábito.
E, para fechar, vale lembrar o objetivo disso tudo: não é complicar. É fazer a empresa enxergar com mais nitidez. Quando você entende competência e caixa, você começa a ter respostas mais honestas e úteis. Em vez de “acho que o mês foi bom”, você consegue dizer: “o mês foi bom nas vendas, mas o caixa vai sentir por causa dos prazos”. Em vez de “o banco está estranho”, você consegue perceber: “o banco reflete pagamentos e recebimentos, não o resultado do mês”. É esse tipo de clareza que transforma a escrituração em algo vivo, que serve para decidir melhor — e não só para cumprir obrigação.
Referências
bibliográficas
IUDÍCIBUS, Sérgio
de. Contabilidade Introdutória. São Paulo: Atlas.
MARION, José
Carlos. Contabilidade Básica. São Paulo: Atlas.
PADOVEZE, Clóvis
Luís. Manual de Contabilidade Básica. São Paulo: Atlas.
CREPALDI, Silvio
Aparecido. Contabilidade Geral. São Paulo: Atlas.
RIBEIRO, Osni
Moura. Contabilidade Geral. São Paulo: Saraiva.
CONSELHO FEDERAL
DE CONTABILIDADE. NBC TG – Estrutura Conceitual para Relatório Financeiro.
Brasília: CFC.
Estudo de caso envolvente
— Módulo 2
“O E-commerce que
vendia bem…, mas nunca sabia quanto tinha de verdade”
A TrendVibes
era um e-commerce de moda casual que cresceu rápido. A dona, Bianca,
começou vendendo pelo Instagram, depois abriu loja online e, quando viu, já
estava em dois marketplaces. As vendas subiam mês a mês. O problema é
que o fim do mês sempre chegava com a mesma sensação: cansaço, confusão e um
‘cadê o dinheiro?’.
Bianca jurava que estava indo bem. Mas o banco não mostrava isso com clareza. Às vezes entrava muito, às vezes entrava pouco, e em vários dias apareciam descontos e taxas que ela não sabia explicar. Quando o contador
pedia informações, ela respondia:
“Tá tudo no extrato… não é?”
Foi aí que entrou Lucas, assistente financeiro, com uma missão: arrumar os lançamentos, conciliar o banco e separar competência de caixa — exatamente o coração do Módulo 2.
Cena 1 — O erro
que parece pequeno: “Lança quando cai no banco”
Lucas abriu a
planilha de controle e percebeu que Bianca registrava as vendas somente
quando o dinheiro entrava no banco. Se a venda foi no cartão e caiu 30 dias
depois, ela “virava venda” no mês seguinte.
Erro comum #1:
registrar receita no caixa em vez de na competência
Consequências típicas:
✅ Como evitar (na prática)
o Receita:
aconteceu a venda.
o Recebimento:
o dinheiro caiu.
Cena 2 — “Sumiu
dinheiro” … não, foi a taxa (e ninguém registrou)
No extrato, Lucas
viu vários repasses de cartão menores que o valor vendido. Bianca achava que
era erro da operadora.
Exemplo realista
do mês:
Erro comum #2:
ignorar taxas e descontos automáticos
Consequências:
✅ Como evitar
Cena 3 —
Conciliação “no susto”: quando a bagunça vira rotina
Lucas pediu os
relatórios do marketplace. Bianca disse que não tinha o hábito de baixar. Ela
só olhava o extrato. E aí estavam os “mistérios”:
Erro comum #3: não
conciliar banco com relatórios de cartão/marketplace
Consequências:
✅ Como evitar
Rotina mínima semanal (30–45 min):
1. Baixar
extrato do banco
2. Baixar
relatório de vendas/repasses do cartão e marketplace
3. Marcar
o que bate
4. Listar
pendências: “está no banco e não está no controle” e vice-versa
5. Resolver 2 ou 3 pendências por semana (sem deixar virar bola de neve)
Cena 4 — O “duplo
lançamento” que destrói o resultado
Lucas achou algo
perigoso: toda vez que Bianca pagava um fornecedor, ela lançava como “Despesa
de compra” — mesmo quando a compra já tinha sido registrada antes.
Exemplo:
Erro comum #4:
duplicar despesa ao pagar contas já registradas
Consequências:
✅ Como evitar
o Compra
(fato): registra estoque/custo e a obrigação (fornecedor a
pagar).
o Pagamento
(dinheiro): dá baixa na obrigação e reduz banco.
Cena 5 — “O saldo
no banco é meu lucro, né?”
Bianca tinha um
hábito perigoso: se o saldo subia, ela dizia que lucrou; se caía, dizia que
estava ruim. Lucas mostrou que saldo bancário mistura várias coisas:
recebimentos atrasados, pagamentos acumulados, retirada de sócia, antecipação
de cartão, impostos…
Erro comum #5:
confundir saldo bancário com lucro
Consequências:
✅ Como evitar
1. Resultado
(competência): receitas – custos – despesas
2. Fluxo
de caixa (caixa): entradas e saídas por data
O “ponto de
virada” — quando a empresa começou a respirar
Em quatro semanas,
Lucas implementou três mudanças simples:
1. Agenda
de recebíveis (cartão + marketplace)
2. Conciliação
semanal
3. Registro
separado de receita, taxas e recebimentos
No fechamento,
Bianca percebeu algo revelador:
A frase dela foi
direta:
“Eu não estava sem dinheiro. Eu estava sem visibilidade.”
Conclusão do caso
— O que o Módulo 2 ensinou na prática
Aula 4 —
Lançamentos do dia a dia
Aula 5 —
Conciliação bancária
Aula 6 —
Competência x Caixa
Checklist prático
(ante erro) para o aluno aplicar
1. Registrar
venda na data da venda (competência)
2. Criar
“Cartões/Marketplace a receber”
3. Registrar
taxas separadamente
4. Fazer
conciliação semanal com relatórios
5. Não
lançar despesa de novo ao pagar contas já registradas
6. Separar
resultado (competência) de fluxo de caixa (caixa)
7. Padronizar histórico dos lançamentos (clareza sempre)
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